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Vitória S. Fraulob T4C SBC INSUFICIÊNCIA ARTERIAL CRÔNICA (IAPC) OU DOENÇA ARTERIAL OBSTRUTIVA PERIFÉRICA (DAOP) INTRODUÇÃO: - DAOP ou IAPC - Mais comum na população não branca - Mais comum em membros inferiores - Podem ocorrer sintomas agudos ou crônicos - Sintomas isquêmicos → desequilíbrio entre a oferta e a demanda do fluxo sanguíneo - Manifestações clínicas → dependem da localização e gravidade, claudicação e isquemia. - Prevalência mundial → 3 – 12% - DAOP: risco de IAM ou AVC é 5x maior que na população da mesma idade - Risco aumenta com: ✓ Tabagismo ✓ HAS ✓ Dislipidemia ✓ DM: 1 a cada 3 diabéticos com mais de 50 anos ✓ Idade > 50 anos ✓ Obesos ✓ História familiar de doença vascular (IAM, AVC) FISIOPATOLOGIA: ATEROSCLEROSE: - Lesões na íntima chamadas ateromas ou placas ateromatosas - São lesões elevadas compostas por centro mole e grumoso de lipídeos (principalmente colesterol e ésteres do colesterol, com restos necróticos) recobertas por uma cápsula fibrosa - As placas ateromatosas podem obstruir mecanicamente o lúmen vascular e se romper, evoluindo para trombose dos vasos - Enfraquecem a camada média subjacente e levam à formação de aneurismas FATORES DE RISCO: ✓ Não modificáveis (constitucionais) ✓ Anormalidades genéticas ✓ Antecedentes familiares ✓ Idade avançada ✓ Sexo masculino ✓ Modificáveis ✓ Hiperlipidemia ✓ Hipertensão ✓ Tabagismo ✓ Diabetes ✓ Inflamação - A aterosclerose é considerada uma resposta inflamatória crônica da parede arterial à lesão endotelial - A progressão da lesão envolve a interação de lipoproteínas modificadas, macrófagos, linfócitos T e constituintes celulares da parede arterial RESUMINDO A FORMAÇÃO DA ATEROSCLEROSE: 1. A aterosclerose é formada inicialmente por uma lesão endotelial. 2. Essa lesão promove o espessamento da íntima e na presença de dietas ricas em lipídios, resulta na formação de ateromas típicos. 3. Uma sequencia de eventos contribui para a origem do ateroma 4. Temos a adesão de monócitos ao endotélio. 5. Em seguida, a migração para a intima e diferenciação em macrófagos e células espumosas. Vitória S. Fraulob T4C SBC 6. Há o acumulo de lipídios no interior dos macrófagos com liberação de citocinas inflamatórias. 7. Há o recrutamento de células musculares lisas devido aos fatores liberados pela ativação de plaquetas, macrófagos e células da parede vascular. 8. Há a proliferação de células musculares lisas para formação do ateroma maduro - A distribuição anatômica da aterosclerose é geralmente constante, com uma concentração das placas nas bifurcações e angulações dos vasos, onde sabidamente ocorrem alterações locais devidas ao esforço, à separação do fluxo, turbulência e estase. - A aorta infra-renal, artérias coronárias proximais, iliofemorais (especialmente a artéria femoral superficial), bifurcação carotídea e as artérias poplíteas são comumente envolvidas. DAOP: - Pacientes com DAOP geralmente são assintomáticos - Se o suprimento sanguíneo não for suficiente para atender os requisitos metabólicos contínuos como consequência do estreitamento arterial, ocorrerão sintomas - A gravidade depende do grau de estreitamento arterial, número de artérias afetadas e nível e atividade dos pacientes - O paciente pode apresentar: • Claudicação intermitente • Dor atípica • Dor em repouso • Dor em feridas não cicatrizadas • Ulceração • Gangrena - A dor desses pacientes é causada por uma neurite isquêmica e tende a piorar à noite quando o membro é colocado em posição horizontal Vitória S. Fraulob T4C SBC CLÍNICA: DAOP ✓ Assintomático: 20-50% ✓ Dor na perna atípica: 40-50% ✓ Claudicação clássica: 10-35% ✓ Membro ameaçado: 1-2% ✓ ✓ - Assintomáticos → paciente são diagnosticados pela triagem que é recomendada em casos específicos. - Se beneficiam da redução de lipídeos, controle da PA e cessação do tabagismo → reduzem o risco de IAM, AVC e morte. - Dor nos membros inferiores → sintoma predominante em pacientes com DAOP - Sintoma devido a graus variados de isquemia - Ocorre dor: • Panturrilha • Coxa • Nádega • Dor atípica • Dor constante (dor isquêmica no repouso) - Claudicação intermitente → desconforto reprodutível de um grupo definido de músculos que é induzido pelo exercício e aliviado com o repouso. - Ocorre uma incompatibilidade entre o suprimento de sangue e o aumento da demanda induzida pela atividade - É comum o relato do paciente de dor nas pernas por esforço que começa após uma certa distância a pé, faz com que ele pare de andar e se resolve dentro de 10 minutos, permitindo que retome a caminhada - Pode se apresentar uni ou bilateralmente, em nádegas, quadris, coxas, panturrilhas ou pés ✓ Nádegas/quadris: acometimento aorto- ilíaco. Pulso femoral diminuindo uni ou bilateralmente. Pode haver disfunção erétil em homens. ✓ Coxas: acometimento da artéria femoral. ✓ Panturrilhas: queixa mais comum. - Dor nos 2/3 superiores → estenose da artéria femoral superficial - Dor no terço inferior → estenose da artéria poplítea ✓ Pés: acometimento das artérias tibial e fibular. Pouco comum. CURIOSIDADE! Síndrome de Leriche: doença oclusiva aorto- ilíaca e se apresenta com a tríade → claudicação, pulsos femorais ausentes ou diminuídos e disfunção erétil. Provocada por atividade e aliviada com repouso (claudicação intermitente) Vitória S. Fraulob T4C SBC - Dor atípica nas extremidade → sintomas atípicos são mais comuns em paciente com comorbidades, inatividade física e percepção aletrada da dor - Antes de atribuir um sintoma atípico à DAOP, é importante considerar outros diagnósticos - Dor isquêmica em repouso → localizada no ante pé e nos dedos dos pés e não é facilmente controlada por analgésico - Paciente refere piora da dor com a elevação dos membros inferiores - Reduções crônicas no fluxo sanguíneo das extremidade também podem levar a uma dor neuropática isquêmica sobreposta que é frequentemente descrita como latejante ou ardente - Dor difusa grave → caracterizada pelo inicio repentino dor nas extremidades, progredindo para dormência e por fim, paralisia da extremidade acompanhada de palidez, parestesias e ausência de pulsos palpáveis. - Ferida/ulcera sem cicatrização → geralmente começam como pequenas feridas traumáticas e depois não cicatrizam porque o suprimento de sangue é insuficiente para atender às crescentes demandas do tecido cicatrizante - As ulceras isquêmicas que envolvem o pé podem ser infectadas e levar à osteomielite - Descoloração da pele/gangrena → isquemia extrema altera a aparência da pele. - Podem surgir áreas focais de descoloração da pele que podem evoluir para necrose cutânea. CURIOSIDADE: A Síndrome do dedo azul ocorre geralmente devido à oclusão das artérias digitais com material ateroembólico de uma fonte arterial proximal e pode progredir para uma ulcera não cicatrizante ou áreas focais de gangrena se houver DAOP grave. - Membro ameaçado → faz parte de um amplo espectro de doenças, cuja perfusão é um determinante do resultado - Outros fatores importantes: extensão e a gravidade de qualquer ferida e a presença e gravidade de infecções - A isquemia suficiente para ameaçar um membro ocorre quando o fluxo sanguíneo arterial é insuficiente para atender às demandas Vitória S. Fraulob T4C SBC metabólicas dos músculos em repouso - Os pacientes podem enfrentar graus variados de perda de tecido ou gangrena de dígitos ISQUEMIA AGUDA: aquela que ocorre dentro de duas semanas após o evento que a causou e comumente está associada a tromboembolismo (ex: fibrilação arterial)ISQUEMIA CRÔNICA: aquela que ocorre após mais de duas semanas do evento deflagrador e é geralmente resultado de estenoses - Uma característica que pode ser encontrada no exame físico dos pacientes com DAOP é extremidades com pele fina, seca, brilhante e sem pelos. - As unhas podem ficar quebradiças, hipertróficas e estriadas. - Pode ser observado alteração da temperatura da pele local (um membro isquêmico é frio) ULCERAÇÕES: aparência característica dependendo da sua origem - Causadas por isquemia tipicamente localizadas na terminação dos ramos arteriais, nas pontas dos dedos dos pés e entre os dígitos - São lesões dolorosas, secas e com pouco sangramento DIAGNÓSTICO - Algumas perguntas na anamnese são importantes para cicatrização do quadro, entre elas: ✓ O paciente sente dor com a deambulação? ✓ Até onde pode caminhar antes que a dor ocorra? ✓ A dor o leva a parar de andar? ✓ Depois de quanto tempo consegue retomar a caminhada? ✓ O paciente sente alguma dor nas extremidades que o acorda do sono? ✓ Onde está localizada a dor? ✓ O paciente notou feridas ou ulceras de difícil cicatrização nos dedos dos pés? - No exame físico → importante atentar as lesões em membros inferiores, além de avaliar e comparar os pulsos ITB → Índice de Pressão Sistólica Tornozelo- Braquial - ITB em repouso é um teste simples que pode ser realizado à beira leito e deve ser medido em paciente com um ou mais achados sugestivos de DAOP - O ITB é a razão entre a pressão arterial sistólica do tornozelo e a pressão sistólica braquial detectada com Doppler - Paciente sem sintomas leves ou moderados, um ITB < 0,90 representa alto grau de sensibilidade e especificidade para DAOP - Pacientes com isquemia mais grave podem não tolerar a insuflação do manguito ou os sinais do Doppler nos vasos pode ser muito fraco para pedir com precisão as pressões de corte OBS: Para obter um ITB preciso, o paciente deve descansar por 15-30 minutos antes de medir a pressão do tornozelo. O estudo começa com a aferição das pressões do pulso pedioso e da artéria tibial posterior no tornozelo. - O manguito de pressão de tamanho adequado é colocado acima do tornozelo - Enquanto se ouve o pulso pedioso ou da artéria tibial posterior com um doppler, o manguito é insuflado a uma pressão acima da qual o sinal audível do doppler desaparece. - A pressão no manguito é liberada lentamente até o pulso retornar - É registrada a pressão sistólica na qual ocorre o retorno do pulso - Repete-se a aferição da mesma forma em outro vaso do membro inferior e depois no membro inferior contralateral - É aferida a pressão sistólica da artéria braquial bilateralmente de maneira semelhante, usando o manguito e o doppler - O ITB em cada extremidade é calculado dividindo-se a pressão sistólica mais alta do tornozelo em cada extremidade inferior pela Vitória S. Fraulob T4C SBC pressão sistólica a artéria braquial - Um ITB norma: 0,91 – 1,3 - ITB > 1,3 sugere presença de vasos calcificados e a necessidade de estudos vasculares adicionais. - ITB ≤ 0,9 é diagnóstico de doença arterial oclusiva em pacientes com sintomas de claudicação ou outros sinais de isquemia - Existe uma correlação geral, não absoluta, entre sintomas e gravidade da DAOP estimada a partir do ITB: • Claudicação: ITB 0,4 – 0,9 • Dor em repouso: 0,2 – 0,4 • Perda de tecido: 0 – 0,4 - Para pacientes com fatores de risco para DAOP e sintomas atípicos ou claudicação, mas com ITB normal, sugere-se a realização de teste ergométrico. - Teste ergométrico → realizado em um laboratório vascular, usando protocolo padronizado de exercícios e esteira para garantir a reprodutibilidade das medidas de distancia livre de dor e distancia máxima caminhada. - A necessidade de testes em pacientes com perda de tecido, deve ser individualizada. Para a maioria dos pacientes é indicada a realização de testes vasculares antes da intervenção vascular. IMAGEM VASCULAR → não é necessária para estabelecer o diagnostico de DAOP - Pode ser indicada para diferenciá-la de outras doenças vasculares e para identificar o local do vaso acometido em caso de indicação de intervenção. - Arteriografia com contraste é o padrão outro para avaliação do membro acometido. - A radiografia simples de membros inferiores pode mostrar calcificação arterial em locais consistentes com DAOP, como nos pontos de ramificação arterial. - Os principais diagnosticos diferenciais de obstrução arterial são: ✓ Trombose arterial devido a aneurisma ✓ Lesão arterial ✓ Dissecção arterial ✓ Tromboembolismo ✓ Tromboangeíte obliterante ✓ Síndrome do aprisionamento da artéria poplítea Vitória S. Fraulob T4C SBC CLASSIFICAÇÃO - Os sintomas apresentados pelos pacientes foram agrupados em sistemas de classificação: SISTEMA RUTHERFORD SISTEMA FONTAINE - As lesões arteriais podem ser classificadas em tipos A, B, C ou D de acordo com a distribuição anatômica, número, natureza das lesões e taxa de sucesso no tratamento com técnicas endo vasculares e cirúrgicas. LESÕES TIPO A: - Esteanose única ≤ 10cm de comprimento - Oclusão única ≤ 5cm de comprimento LESÕES TIPO B: - Múltiplas lesões (oclusões ou estenoses) ≤ 5cm cada - Oclusão ou estenosa única ≤ 15cm sem envolver artéria poplítea infragenicular - Lesões únicas ou múltiplas na ausência de vasos tibiais contínuos melhorando o influxo para um by-pass distal - Oclusão muito calcificada ≤ 5cm de comprimento - Estenose poplítea única LESÕES TIPO C: - Múltiplas estenoses ou oclusões totalizando > 15cm com ou sem calcificação grave - Estenoses ou oclusões recorrentes que necessitam de tratamento após duas intervenções endo vasculares LESÕES TIPO D: - Oclusão total crônica da artéria femoral comum ou superficial (> 20cm, envolvendo a artéria poplítea) - Oclusão total crônica da artéria poplítea e vasos de trifurcação proximal TRATAMENTO - Modificação dos fatores de risco (hiperlipidemia, hipertensão e hiperglicemia), prática de exercícios e terapia farmacológica - Exercício físico deve ser realizado por um período mínimo de 45-60 minutos pelo menos 3x/semana (pelo menos 12 semanas) - Durante cada sessão, um nível de exercícios com intensidade suficiente para provocar claudicação deve ser alcançado - Uso de AAS e estatinas é recomendado por diversas diretrizes por reduzir a mortalidade cardiovascular nos pacientes com DAOP - Farmacológico: ✓ Cilostazol (3 – 6 meses) – melhora a claudicação e aumenta a distancia caminhada sem dor ✓ Pentoxifilina - Outros: ✓ Intervenção cirúrgica ✓ Intervenção percutânea – balão + stent ✓ Aterectomia ATERECTOMIA: consiste na ressecção da placa de ateroma. A revascularização cirúrgica envolve a identificação de um vaso apropriado acima e outro abaixo da área obstruída, com sutura de um enxerto vascular (veia ou prótese-Dacron ou PTFE) entre eles - As derivações extra anatômicas consistem em procedimentos cirúrgicos realizado em via que não corresponde à anatomia natural. - Podem ser unilaterais, quando ligam vasos ipsilaterais, por ex: fêmora-poplítea ou ilíaca- femoral, ou cruzadas, por ex: fêmoro-femoral Vitória S. Fraulob T4C SBC