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Brasília-DF. Suporte NutricioNal em Geriatria Elaboração Regina Lucia Harumi Watanabe Endo Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................. 4 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA .................................................................... 5 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 7 UNIDADE I NUTRIÇÃO NO IDOSO ........................................................................................................................... 9 CAPÍTULO 1 RECOMENDAÇÕES PARA UMA ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL ....................................................... 10 CAPÍTULO 2 MINI AVALIAÇÃO NUTRICIONAL (MAN) .................................................................................... 19 UNIDADE II PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO .......................................................... 25 CAPÍTULO 1 ÚLCERAS DE PRESSÃO ............................................................................................................ 27 CAPÍTULO 2 TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO .................................................................................. 37 UNIDADE III TERAPIA NUTRICIONAL ......................................................................................................................... 42 CAPÍTULO 1 TERAPIA NUTRICIONAL ENTERAL .............................................................................................. 46 CAPÍTULO 2 TERAPIA NUTRICIONAL PARENTERAL ......................................................................................... 63 UNIDADE IV TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR ...................................................................................................... 72 CAPÍTULO 1 CRITÉRIOS DE SELEÇÃO E INDICAÇÕES .................................................................................. 72 CAPÍTULO 2 ADMINISTRAÇÃO E MONITORAMENTO .................................................................................... 78 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................. 87 4 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico- tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 5 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Praticando Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer o processo de aprendizagem do aluno. 6 Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Exercício de fixação Atividades que buscam reforçar a assimilação e fixação dos períodos que o autor/ conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não há registro de menção). Avaliação Final Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso, que visam verificar a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber se pode ou não receber a certificação. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 7 Introdução A Ciência da Nutrição compreende um campo multiprofissional com o objetivo primário de promover uma boa alimentação para os seres vivos. A alimentação adequada impulsiona a saúde, o desenvolvimento físico e mental, a capacidade para o trabalho e aprendizado e, em especial, a qualidade de vida. O acúmulo de conhecimento baseado em evidências acerca dos efeitos dos nutrientes e/ou alimentos sobre as funções fisiológicas do corpo humano favorece o entendimento das necessidades nutricionais inerentes de grupos populacionais específicos. Neste sentido, o presente caderno de estudos e pesquisa foi elaborado para servir como guia de orientação para os profissionais da área de saúde que almejam ampliar e consolidar conhecimentos técnicos e científicos na área de suporte nutricional em geriatria. Para informação, os termos “suporte nutricional” e “terapia nutricional” são equivalentes e utilizados sem distinção nesta apostila. Lembrando que a busca contínua por conhecimentos técnicos e científicos tem grande relevância para a prática profissional, pois o maior esclarecimento acerca dos casos abordados na prática clínica prediz condutas nutricionais mais eficientes e coerentes frente à realidade e condição clínica de cada paciente. Bons estudos! Objetivos » Caracterizar o idoso, em especial, o idoso hospitalizado. » Conceituar as intervenções nutricionais praticadas em idosos com úlcera de pressão. » Conceituar a Terapia de Nutricional Enteral e Parenteral em idosos. » Conceituar a Terapia Nutricional Domiciliar em idosos. 8 9 UNIDADE INUTRIÇÃO NO IDOSO Segundo a Organização Mundial da Saúde (2015), o ritmo de envelhecimento da população mundial é muito maior na atualidade devido ao aumento da expectativa de vida e queda da taxa de natalidade. Estima-se que a população mundial de idosos, ou indivíduos com mais de 60 anos de idade, vai passar de 12% para 22% entre os anos de 2015 e 2050. Apesar de o aumento da população idosa ter iniciado em países desenvolvidos – o Japão, por exemplo, já tem 30% da população com maisde 60 anos de idade – a Organização Mundial da Saúde estima que em 2050, 80% da população idosa viverá em países em desenvolvimento. Deste modo, países como Brasil, China e Índia têm um grande desafio pela frente para garantir que pelo menos os serviços sociais e de saúde estejam prontos para atender as demandas da população idosa que pode estar acometida por múltiplas condições crônicas e/ou síndromes geriátricas. Quanto maior o tempo de vida, mais oportunidades e experiências poderão ser vivenciadas pelos idosos e por suas famílias. No entanto, para que isso seja possível, o idoso tem que desfrutar de boa saúde e ter amparo da família e da sociedade para continuar sua jornada da melhor forma possível. Cabe lembrar que, mesmo que o idoso seja saudável e tenha o apoio da família e da sociedade, o declínio da capacidade física e mental é inerente com o avançar da idade. De fato, os danos moleculares e celulares ao longo do tempo levam à diminuição gradual das funções motoras e cognitivas. A maior longevidade traz consigo também condições clínicas e doenças crônicas que , por sua vez, prejudicam a qualidade de vida do idoso. Conforme a Organização Mundial da Saúde (2015), as mais comuns são: perda auditiva, catarata e erros de refração, dor nas costas e ombros, osteoartrite, doença pulmonar obstrutiva crônica, diabetes, depressão e demência. 10 UNIDADE I │NUTRIÇÃO NO IDOSO Também conforme a Organização Mundial da Saúde (2015), fatores como fraqueza, incontinência urinária, queda, delírio e úlcera de pressão são condições mais frequentemente presentes na síndrome geriátrica que, por sua vez, devem ser motivo de atenção dos profissionais da área de saúde, pois são preditivos de mortalidade. Todavia, apesar das alterações decorrentes do envelhecimento, os hábitos saudáveis, como consumo de dieta balanceada, prática de atividade física e abstenção de bebidas alcoólicas e tabaco, trazem benefícios para a saúde e, no caso específico dos idosos, podem ajudar a reverter a fragilidade, preservar a função cognitiva e retardar a dependência. Ademais, a intervenção nutricional pode otimizar o tratamento de doenças crônicas, pois pode tornar-se a principal terapêutica em certas situações clínicas. Por exemplo, a adequação da alimentação pode ser o tratamento primário para o controle do diabetes, hipercolesterolemia, pressão arterial, obesidade etc. Saiba mais o que a Organização Mundial da Saúde diz sobre o envelhecimento global. Os documentos estão disponíveis no link: <http://www.who.int/topics/ageing/en/>. CAPÍTULO 1 Recomendações para uma alimentação saudável Cuidados diários com a saúde ao longo da vida favorece o envelhecimento sadio, prevenindo e/ou retardando o aparecimento de doenças crônicas como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, esteatose hepática não alcoólica, entre outros. Segundo Campos (2000), com o passar dos anos, é natural que o corpo comece a apresentar alterações anatômicas e funcionais próprias da senescência que podem afetar a alimentação, tais como dificuldade de mastigação e de deglutição e perda da percepção sensorial. Assim sendo, o profissional deve orientar o idoso e seus familiares e/ou cuidadores para garantir a sua satisfação com a alimentação e evitar acidentes e danos à saúde, sempre atendendo os princípios de uma alimentação saudável. 11 NUTRIÇÃO NO IDOSO│ UNIDADE I Conforme orientação do Ministério da Saúde (BRASIL, 2009), os idosos devem seguir as 10 recomendações a seguir para manterem hábitos alimentares saudáveis: » Fazer 3 refeições (café da manhã, almoço e jantar). » 2 lanches por dia. » Não pular refeições. O cuidado com a alimentação começa com a compra do alimento. O alimento deve ter características organolépticas (cor, cheiro e textura) adequadas, ser de procedência segura, estar dentro do prazo de validade, estar acondicionado em embalagem intacta, estar armazenado em temperatura correta e não ter sinais de degelo. Após a aquisição do alimento, a armazenagem adequada é importante para manter a integridade do produto que deverá ser organizado de forma que: 1) a segurança sanitária do alimento seja garantida; 2) o consumo daquele com data de vencimento mais próxima seja facilitado e; 3) o acesso ao alimento seja adequado à limitação do idoso. Já o preparo do alimento requer cuidados de higiene pessoal e do ambiente, ou seja, mãos, alimentos, bancadas, utensílios e equipamentos devem estar limpos. A higienização correta das mãos e das unhas do manipulador é primordial para evitar contaminações e doenças, enquanto a organização é essencial para manter o ambiente livre de objetos desnecessários que favorecem o acúmulo de sujidades. Se o próprio idoso é responsável pelo preparo de sua refeição, é necessário que o ambiente esteja adaptado ao seu grau de limitação, se houver, para diminuir o esforço físico e mental e evitar acidentes. Esta medida faz com que o idoso tenha mais autonomia e se sinta mais seguro para preparar suas próprias refeições. O ambiente em que as refeições são realizadas deve estar limpo, arejado, com boa luminosidade e com mobiliário resistente e adequado, ou seja, de preferência com cantos arredondados. A altura da mesa e da cadeira devem ser compatíveis para que o idoso se sinta confortável e seguro no momento da refeição. No momento da refeição, os pratos dispostos de forma atrativa despertam o interesse do idoso em se alimentar. Por outro lado, é necessário que os utensílios sejam simplificados e adaptados em detrimento as normas de etiqueta para conferir mais conforto e segurança ao idoso, ou seja, os utensílios devem ser resistentes e de fácil higienização. Canecas ou xícaras com alças grandes, canecas com tampas e canudos, pratos fundos com ventosas para fixar o utensílio à mesa, suporte antiderrapante para evitar que os 12 UNIDADE I │NUTRIÇÃO NO IDOSO utensílios deslizem sobre a mesa e talheres com cabos mais grossos que facilitem a empunhadura são exemplos de utensílios que facilitam o idoso no momento da refeição. Caso o idoso apresente dificuldade para mastigar e deglutir alimentos sólidos, como carnes, frutas, verduras e legumes, é importante que estes alimentos sejam desfiados, amassados, picados ou ralados para evitar a recusa da refeição, engasgo, aspiração ou asfixia durante a ingestão do alimento. Deve-se, também, evitar grumos, espinhas, cascas etc. Cabe lembrar que os cuidados com a higiene e a saúde bucal favorecem a percepção do sabor, a preservação da capacidade mastigatória e facilita tanto a digestão mecânica feita pelos dentes ou pelas próteses dentárias quanto a digestão enzimática feita pelo contato da saliva com os alimentos. Cabe lembrar também que saborear e apreciar as refeições, de preferência em companhia de outras pessoas, fará com que o idoso se sinta mais confortável e seguro para se alimentar. A companhia favorece o apetite e é essencial para que o idoso não perca o estímulo para se alimentar. As adaptações ao grau de limitação do idoso citadas são essenciais para que o idoso tenha mais autonomia e se sinta mais seguro para realizar suas refeições. De fato, a maioria das medidas depende mais da disposição da família e/ou dos cuidadores do que de recursos financeiros; mas, se for necessário investir em mudanças, deve-se avaliar as prioridades e envolver o idoso na tomada de decisões, quando possível. Para o idoso, é necessário comer 6 porções por dia de cereais (arroz, milho, pães, massas etc.), tubérculos (batata etc.) ou raízes (mandioca etc.). O quadro 1 apresenta a quantidade, em medidas caseiras, equivalente a uma porção de diferentes tipos de cereais, tubérculos ou raízes. O valor calórico médio de cada porção equivale a 150 kcal. Quadro 1. Quantidade em medidas caseiras equivalente a 1 porção de cereal, tubérculo ou raiz (150 kcal por porção). Alimentos 1 porção equivale a: Arroz branco cozido 4 colheres de sopa Batata cozida 1 e ½ unidade Biscoito tipo“cream cracker” 5 unidades Bolo de milho 1 fatia Cereal matinal 1 xícara de chá 13 NUTRIÇÃO NO IDOSO│ UNIDADE I Farinha de mandioca 2 colheres de sopa Macarrão cozido 3 e ½ colheres de sopa Milho verde em espiga 1 espiga grande Pão de forma tradicional 2 fatias Pão francês 1 unidade Purê de batata 3 colheres de sopa Torrada salgada 4 unidades Fonte: Brasil (2009, p. 29). Os cereais, tubérculos e raízes constituem a principal fonte energética da alimentação por serem alimentos ricos em carboidratos. Contudo, é preferível que estes alimentos sejam consumidos pelos idosos, quando possível, na sua forma integral, e que suas porções sejam amplamente distribuídas nas refeições principais e lanches. Também é importante que o idoso coma pelo menos 3 porções por dia de legumes e verduras nas refeições e pelo menos 3 porções por dia de frutas nos lanches e/ou como sobremesa. O quadro 2 apresenta a quantidade, em medidas caseiras, equivalente a uma porção de diferentes tipos de legumes ou verduras. O valor calórico médio de cada porção equivale a 15 kcal. Quadro 2. Quantidade equivalente a 1 porção de legume ou verdura (15 kcal por porção). Alimentos 1 porção equivale a: Abóbora cozida 1 e ½ colher de sopa Alface 15 folhas Beterraba crua (ralada) 2 colheres de sopa Brócolis cozido 4 e ½ colheres de sopa Cenoura crua (picada) 1 colher de servir Pepino picado 4 colheres de sopa Rúcula 15 folhas Tomate comum 4 fatias Fonte: Brasil (2009, p. 29). O quadro 3 apresenta a quantidade, em medidas caseiras, equivalente a uma porção de diferentes tipos de frutas. O valor calórico médio de cada porção equivale a 70 kcal. 14 UNIDADE I │NUTRIÇÃO NO IDOSO Quadro 3. Quantidade equivalente a 1 porção de fruta (70 kcal por porção). Alimentos 1 porção equivale a: Abacaxi 1 fatia Ameixa-preta seca 3 unidades Banana-prata 1 unidade Caqui 1 unidade Goiaba ½ unidade Laranja-pera 1 unidade Maçã 1 unidade Mamão papaia ½ unidade Melancia 2 fatias Salada de frutas (banana, maçã, laranja, mamão) ½ xícara de chá Suco de laranja (puro) ½ copo de requeijão Tangerina/mexerica 1 unidade Uva comum 22 uvas Fonte: Brasil (2009, p. 30). O consumo variado de legumes e verduras, nas principais refeições, e frutas, nos lanches e/ou como sobremesa, é essencial para o organismo, pois estes alimentos são ricos em vitaminas, minerais e fibras e devem estar presentes diariamente na alimentação do idoso. Também recomenda-se que o idoso coma arroz com feijão, diariamente, ou pelo menos 5 vezes por semana. O quadro 4 apresenta a quantidade em medidas caseiras equivalente a uma porção de diferentes tipos de feijões ou leguminosas. O valor calórico médio de cada porção equivale a 55 kcal. Quadro 4. Quantidade equivalente a 1 porção de feijão ou leguminosa (55 kcal por porção). Alimentos 1 porção equivale a: Ervilha seca cozida 2 e ½ colheres de sopa Feijão cozido (50% de caldo) 1 concha Lentilha cozida 2 colheres de sopa Soja cozida 1 colher de servir Fonte: Brasil (2009, p. 30). A mistura de 2 partes de arroz com 1 parte de feijão é a combinação completa de proteínas e faz muito bem para a saúde do idoso. Ainda, sugere-se que o idoso coma 3 porções, por dia, de leite e derivados e 1 porção por dia de carne, ave, peixe ou ovo. 15 NUTRIÇÃO NO IDOSO│ UNIDADE I O quadro 5 apresenta a quantidade, em medidas caseiras, equivalente a uma porção de diferentes tipos de leite e derivados. O valor calórico médio de cada porção equivale a 120 kcal. Quadro 5. Quantidade equivalente a 1 porção de leite e derivados (120 kcal por porção). Alimentos 1 porção equivale a: Iogurte desnatado de frutas 1 pote Iogurte integral natural 1 copo de requeijão Leite tipo C 1 copo de requeijão Queijo tipo minas frescal 1 fatia grande Queijo tipo “mozarela” 3 fatias Fonte: Brasil (2009, p. 31). O quadro 6 apresenta a quantidade em medidas caseiras equivalente a uma porção de diferentes tipos de carnes, aves, peixes ou ovos. O valor calórico médio de cada porção equivale a 190 kcal. Quadro 6. Quantidade equivalente a 1 porção de carne, ave, peixe ou ovo (190 kcal por porção). Alimentos 1 porção equivale a: Bife grelhado 1 unidade Carne assada 1 fatia pequena Filé de frango grelhado 1 unidade Omelete simples 1 unidade Peixe espada cozido 1 porção Fonte: Brasil (2009, p. 30). Carnes, aves, peixes e ovos são as principais fontes de proteínas da alimentação, mas cabe lembrar que a gordura aparente das carnes e a pele das aves, por exemplo, devem ser aparadas antes do preparo dos alimentos. Os peixes devem ser consumidos pelo menos 2 vezes por semana para garantir o consumo de gorduras do tipo ômega-3 e as vísceras e miúdos devem ser consumidos pelo menos 1 vez por semana para assegurar a ingestão de um alimento fonte de ferro. Entretanto, o consumo de embutidos (linguiça, salsicha, frios etc.) deve ser evitado. Ainda, deve-se comer, no máximo, 1 porção por dia de óleos vegetais, azeite, margarina ou manteiga. O quadro 7 apresenta a quantidade, em medidas caseiras, equivalente a uma porção de diferentes tipos de óleos ou gorduras. O valor calórico médio de cada porção equivale a 73 kcal. 16 UNIDADE I │NUTRIÇÃO NO IDOSO Quadro 7. Quantidade equivalente a 1 porção de óleo ou gordura (73 kcal por porção). Alimentos 1 porção equivale a: Óleo vegetal 1 colher de sopa Azeite de oliva 1 colher de sopa Manteiga ½ colher de sopa Margarina vegetal ½ colher de sopa Fonte: Brasil (2009, p.31). Os alimentos devem ser preparados com o mínimo possível de óleo vegetal (que poderá ser de soja, milho, girassol, canola etc.) e de preferência na forma cozida, assada, ensopada ou grelhada. Já o azeite de oliva poderá ser utilizado com moderação para temperar as saladas. O consumo de margarina ou manteiga deve ser evitado, pois estes alimentos podem conter gorduras trans e/ou saturadas, as quais são prejudiciais para a saúde, pois contribuem para o desenvolvimento de doenças crônicas. É fundamental evitar o consumo de refrigerantes, sucos industrializados, bolos, biscoitos etc. O quadro 8 apresenta a quantidade, em medidas caseiras, equivalente a uma porção de diferentes tipos de açúcares ou doces. O valor calórico médio de cada porção equivale a 110 kcal. Quadro 8. Quantidade equivalente a 1 porção de açúcar ou doce (110 kcal por porção). Alimentos 1 porção equivale a: Açúcar cristal 1 colher de sopa Geleia de frutas 1 colher de sopa Mel 2 e ½ colheres de sopa Fonte: Brasil (2009, p. 31). Se o idoso for consumir algum alimento do grupo dos açúcares e doces, que seja no máximo 2 vezes por semana. Também, prefere-se substituir os refrigerantes e sucos industrializados por sucos de frutas, sem a adição de açúcar, para valorizar o sabor natural dos alimentos. Em vez de bolos e biscoitos industrializados, é preferível que estes alimentos sejam preparados em casa sem a adição de coberturas e recheios. É primordial limitar o uso de sal no preparo dos alimentos e a adição de sal nos alimentos prontos para consumo. 17 NUTRIÇÃO NO IDOSO│ UNIDADE I O consumo de sal não deve passar de uma colher de chá rasa por dia. Deve-se evitar também o consumo de alimentos industrializados ricos em sódio, tais como embutidos (linguiça, salsicha, frios etc.), alimentos congelados prontos, molhos e temperos prontos, enlatados, conservas etc. Para conhecer a composição nutricional e identificar o teor de componentes como sódio, açúcar, gordura trans, gordura saturada etc., é essencial que o idoso ou seus familiares e/ou cuidadores leiam os rótulos dos alimentos, em especial os industrializados, no momento da escolha do produto. Cabe lembrar que o idoso tem menor percepção do sabor dos alimentos e tende a adicionar mais sal e condimentos aos alimentos até alcançar o sabor que agrada ao paladar. Neste caso, deve-se estimular o uso de temperos naturais tais como cebola, alho, salsinha, cebolinha, orégano, entre outros, evitando, assim, o abuso do uso do sal e de qualqueroutro tipo de condimento rico em sódio. Outro fator que deve ser observado é o consumo de água. O idoso deve beber, no mínimo, 2 litros de água por dia. Dar preferência ao consumo de água entre as refeições. Utilizar água tratada, filtrada ou fervida, para consumo ou para preparar os alimentos. Segundo Teixeira da Silva (2000), a necessidade hídrica do idoso é de 1 mL/por Kcal ingerido ou 30 mL/por Kg de peso corporal. Cabe lembrar que os idosos tendem a perder a sensação de sede, portanto, a vigilância do consumo de água é de extrema importância prevenir a desidratação. Quando o idoso não tem restrição para o consumo de líquidos, o consumo de pequenas quantidades de água deve ser incentivado várias vezes ao dia entre as refeições. É importante saber que bebidas gaseificadas ou sucos industrializados não substituem a água que tem um papel vital para o bom funcionamento do organismo. Além disso, recomenda-se que o idoso pratique, no mínimo, 30 minutos de atividade física por dia e evitar o consumo de bebidas alcoólicas e tabaco. A prática de atividade física regular traz diversos benefícios físicos e mentais por auxiliar na manutenção da massa magra, prevenir a obesidade e retardar o declínio cognitivo. Além disso, movimentar-se com companhia melhora a autoestima e o entrosamento social do idoso. 18 UNIDADE I │NUTRIÇÃO NO IDOSO Cabe lembrar que a adoção de hábitos saudáveis passa pela abstenção do uso de bebidas alcoólicas e de tabaco que, por sua vez, é considerada medida preventiva e eficaz para prevenção de doenças graves como câncer e cirrose. O Ministério da Saúde elaborou um manual sobre “alimentação saudável para a pessoa idosa” com o objetivo de servir como guia prático para o profissional de saúde que atende esta população. Para ter acesso ao conteúdo completo, acesse a página do Ministério da Saúde disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/alimentacao_saudavel_idosa_ profissionais_saude.pdf>. 19 CAPÍTULO 2 Mini avaliação nutricional (MAN) As recomendações no capítulo anterior são importantes para a manutenção da saúde e prevenção de doenças do idoso. No entanto, sabe-se que cada indivíduo apresenta particularidades no aspecto físico, mental, familiar, econômico, social e/ou cultural e requerem cuidados nutricionais específicos. Além disso, o idoso pode apresentar-se fragilizado ou acometido por uma ou mais doenças agudas ou crônicas. Neste caso, o profissional deve adequar a dieta e amparar este paciente para que a alimentação seja prazerosa e exerça seu importante papel no tratamento das doenças. Não é uma tarefa simples definir estratégias nutricionais para os idosos, em especial para os idosos hospitalizados, pois devido à maior longevidade podemos encontrar na prática grande variação de idade e de condições clínicas, ou seja, no momento da admissão no hospital, o idoso pode estar saudável, fragilizado, encontrar-se na fase aguda da doença ou ser portador de doença crônica. Para os idosos saudáveis que por algum motivo específico são admitidos no hospital, a intervenção nutricional será mínima ou necessária para corrigir eventuais erros nos hábitos alimentares, manter o estado nutricional e/ou prevenir a desnutrição. Já os idosos fragilizados, apresentam maior probabilidade de serem admitidos no hospital com desnutrição ou em risco de desnutrição. Neste caso, a triagem nutricional deverá ser realizada e a intervenção nutricional deverá ser prescrita com o intuito de manter ou melhorar o estado nutricional. A suplementação oral poderá beneficiar estes pacientes, pois garante a oferta de energia e nutrientes necessários para manter ou melhorar o estado nutricional. Pacientes idosos com doença aguda podem ou não estarem desnutridos ou em risco de desnutrição no momento da admissão no hospital. Neste caso, a intervenção nutricional também se faz necessária, pois além ter impacto positivo no estado nutricional, poderá ter um papel de grande importância no tratamento da doença e/ou para tirar o paciente da crise. Pacientes idosos portadores de doenças crônicas geralmente são admitidos no hospital com prejuízos funcionais e físicos. Sendo assim, eles compõem um grupo que deve 20 UNIDADE I │NUTRIÇÃO NO IDOSO ser avaliado com atenção para que a conduta nutricional, considerando os aspectos fisiopatológicos da doença, seja eficiente a fim de manter ou melhorar o estado nutricional e ajudar no tratamento da doença de base. Cabe lembrar que, quando o idoso é admitido no hospital, é importante que profissional conheça como as peculiaridades da senescência (descrita como alterações anatômicas e funcionais que ocorrem naturalmente com o envelhecimento) e da senilidade (descrita como alterações decorrentes das doenças que acometem o idoso) repercutem na alimentação e no estado nutricional do idoso, para assegurar um atendimento nutricional mais adequado a este paciente. Sabe-se que os idosos são mais susceptíveis as alterações do estado nutricional, pois são acometidos, sobretudo, por mudanças anatômicas e funcionais que favorecem a má alimentação. As principais consequências da má alimentação são a obesidade e a desnutrição. No entanto, é mais comum ocorrer na velhice a redução da ingestão alimentar, da atividade física e alteração da composição corporal (perda da massa muscular esquelética e de líquidos corpóreos e aumento do tecido adiposo). Segundo Campos (2000), existem múltiplos fatores que contribuem para a inadequação alimentar e, por conseguinte, para a desnutrição do idoso, tais como, perda do paladar e olfato, dificuldade de mastigação e/ou deglutição, limitação motora e/ou cognitiva, problemas bucais e/ou dentários, isolamento social, pobreza, depressão, demência, dentre outros. Cabe lembrar que, nos idosos hospitalizados, a desnutrição está associada com maior tempo de internação, maior susceptibilidade as infecções, desfecho desfavorável da internação, aumento da morbidade e mortalidade, dentre outros. Sendo assim, é fundamental avaliar o estado nutricional do idoso hospitalizado para detectar os fatores de risco associados à desnutrição ou a própria desnutrição e, por conseguinte, para delinear a intervenção nutricional a ser realizada pela equipe multiprofissional. A mini avaliação nutricional (MAN) é um exemplo de instrumento sensível, desde que aplicado por profissional bem treinado, de baixo custo e não invasivo, que permite identificar os idosos desnutridos ou em risco de desnutrição em hospitais, ambulatórios ou em instituições de longa permanência. 21 NUTRIÇÃO NO IDOSO│ UNIDADE I De fato, a mini avaliação nutricional (MAN) é uma ferramenta conveniente para avaliar o estado nutricional dos idosos, pois contempla aspectos como mobilidade, problemas neuropsicológicos, modo de vida, medicamentos em uso, presença de escaras, autonomia para alimentar-se, autopercepção do estado nutricional ou da própria saúde etc. De maneira geral, a mini avaliação nutricional (MAN) abrange questões sobre: » Avaliação antropométrica: perda de peso corporal, índice de massa corpórea, circunferência do braço e circunferência da panturrilha. » Avaliação global: mobilidade, problemas neuropsicológicos, modo de vida, medicamentos em uso e presença de escaras. » Avaliação dietética: número de refeições, ingestão de alimentos e de líquidos, autonomia para alimentar-se. » Autoavaliação: autopercepção do estado nutricional e da própria saúde. O quadro 9 apresenta as questões abordadas na mini avaliação nutricional (MAN). O paciente pode responder as questões diretamente relacionadas a ele, mas se o paciente não tiver condições de responder quaisquer perguntas, a opinião do cuidador e/ou profissional que o acompanha regularmente pode servir como base para responder as questões. O histórico médico do paciente também pode servir como base para a resposta de algumas questões. Quadro 9. Mini avaliação nutricional (MAN). Triagem A. Nos últimos três meses, houvediminuição da ingestão alimentar devido a perda de apetite, problemas digestivos ou dificuldade para mastigar ou deglutir? 0 = diminuição severa da ingestão 1 = diminuição moderada da ingestão 2 = sem diminuição da ingestão B. Perda de peso nos últimos meses: 0 = superior a três quilos 1 = não sabe informar 2 = entre um e três quilos 3 = sem perda de peso C. Mobilidade: 0 = restrito ao leito ou à cadeira de rodas 1 = deambula, mas não é capaz de sair de casa 2 = normal 22 UNIDADE I │NUTRIÇÃO NO IDOSO D. Passou por algum estresse psicológico ou doença aguda nos últimos três meses? 0 = sim 2 = não E. Problemas neuropsicológicos: 0 = demência ou depressão grave 1 = demência leve 2 = sem problemas psicológicos F. Índice de massa corpórea (IMC = peso [kg]/estatura [m]2) 0 = IMC < 19 1 = 19 ≤ IMC < 21 2 = 21 ≤ IMC < 23 3 = IMC ≥ 23 Avaliação global G. O paciente vive em sua própria casa (não em casa geriátrica ou hospital): 0 = não 1 = sim H. Utiliza mais de três medicamentos diferentes por dia? 0 = sim 1 = não I. Lesões de pele ou escaras? 0 = sim 1 = não J. Quantas refeições faz por dia? 0 = uma refeição 1 = duas refeições 2 = três refeições K. O paciente consome: - pelo menos uma porção diária de leite ou derivados (queijo, iogurte)? - duas ou mais porções semanais de legumes ou ovos? - carne, peixe ou aves todos os dias? 0,0 = nenhuma ou uma resposta “sim” 0,5 = duas respostas “sim” 1,0 = três respostas “sim” L. O paciente consome duas ou mais porções diárias de frutas ou vegetais? 0 = não 1 = sim M. Quantos copos de líquidos (água, suco, café, chá, leite) o paciente consome por dia? 0,0 = menos de três copos 0,5 = três a cinco copos 1,0 = mais de cinco copos 23 NUTRIÇÃO NO IDOSO│ UNIDADE I N. Modo de se alimentar: 0 = não é capaz de se alimentar sozinho 1 = alimenta-se sozinho, porém, com dificuldade 2 = alimenta-se sozinho sem dificuldade O. O paciente acredita ter algum problema nutricional? 0 = acredita estar desnutrido 1 = não sabe dizer 2 = acredita não ter problema nutricional P. Em comparação a outras pessoas da mesma idade, como o paciente considera a sua própria saúde? 0,0 = não muito boa 0,5 = não sabe informar 1,0 = boa 2,0 = melhor Q. Circunferência do braço [cm]: 0,0 = CB < 21 0,5 = 21 ≤ CB ≤ 22 1,0 = CB > 22 R. Circunferência da panturrilha [cm]: 0 = CP < 31 1 = CP ≥ 31 Fonte: Guigoz (1994). Conforme expostono quadro 9, o questionário da MAN é dividida em duas partes: triagem e avaliação global. A triagem permite rastrear os pacientes que necessitarão de avaliação nutricional completa. Se o escore da triagem for igual ou maior que 12 pontos, significa que o paciente não apresenta risco nutricional e não será necessário aplicar o restante do questionário. Contudo, se o resultado for igual ou menor que 11 pontos, o questionário deve ser continuado, pois, neste caso, o paciente pode apresentar alteração do estado nutricional. Já a avaliação global permite classificar o estado nutricional do paciente. Então, após a aplicação da avaliação global, se a somatória do escore da triagem com a escore da avaliação global for maior que 23,5 pontos, o paciente encontra-se em estado nutricional normal. Contudo, se o escore total estiver entre 17 e 23,5 pontos, há risco de desnutrição iminente e, se o escore total for menor que 17 pontos, o paciente encontra-se desnutrido. A utilização da mini avaliação nutricional (MAN) para caracterização do estado nutricional, tão logo o idoso for admitido no ambulatório, hospital ou instituição de longa permanência, é essencial para que a equipe multiprofissional intervenha mais precocemente a fim de prover Terapia Nutricional adequada, em especial 24 UNIDADE I │NUTRIÇÃO NO IDOSO para aqueles com risco de desnutrição ou que já estão desnutridos, melhorando, assim, os resultados do tratamento. Consulte os materiais indicados para saber mais sobre como aplicar a mini avaliação nutricional (MAN) apresentada no quadro 9. Nutrição na maturidade: avaliação do estado nutricional de idosos: <http://www.nestle -nutr icaodomici l iar.com.br/Fi les/documentos/ AVALIACAO%20EST%20NUT.pdf>. Um guia para completar a mini avaliação nutricional: <http://www.mna-elderly.com/forms/mna_guide_portuguese.pdf>. Para se aprofundar no assunto, os aspectos que contemplam a mini avaliação nutricional (MAN) estão extensivamente discutidos em diversas publicações disponíveis no endereço indicado abaixo: <https://www.nestlenutrition-institute.org/resources/library/Free/workshop/ Publication00059/Pages/publication00059.aspx>. Antes de finalizar o presente tópico, segundo Teixeira da Silva (2000), é importante destacar que na prática clínica, a albumina sérica tem sido amplamente utilizada como parâmetro de avaliação do estado nutricional de pacientes hospitalizados, em especial do idoso, pois baixos níveis de albuminemia sugere desnutrição proteico- calórica. A presença de hipoalbuminemia também cursa com aumento da ocorrência de diarreia e úlcera de pressão. Cabe lembrar que os valores de albumina decaem com o envelhecimento, bem como podem mudar em decorrência da alteração da hidratação e das funções hepáticas e renais. 25 UNIDADE II PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO As úlceras de pressão, ou úlceras de decúbito, são lesões de pele e de tecido subjacente resultante de pressão prolongada sobre o local, ou seja, a ausência de fluxo sanguíneo adequado decorrente de compressão tecidual prolongada de forma isolada ou combinada com cisalhamento e/ou fricção que culmina em morte celular e consequente ulceração e necrose da região. Os indivíduos mais susceptíveis ao desenvolvimento de úlceras de pressão são aqueles que apresentam incapacidade para mudarem facilmente de posição, ou seja, na maioria das vezes, são aqueles que apresentam mobilidade reduzida e/ou utilizam cadeira ou cama por longos períodos de tempo. As úlceras de pressão se desenvolvem com mais frequência em tecidos moles sobre proeminência ósseas, ou seja, as áreas mais acometidas pelas úlceras de pressão são as regiões occipital, sacral, trocantérica, ísquios, tornozelos e calcanhares. É notório que a incidência de úlcera de pressão seja maior em indivíduos idosos em comparação com a população mais jovem por causa dos danos na pele inerentes da idade avançada e da alta prevalência de desnutrição neste grupo populacional. Segundo a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral e outros importantes grupos (2011) em sua diretriz sobre Terapia Nutricional para portadores de úlcera de pressão, o estado nutricional torna-se relevante na etiologia da úlcera de pressão, uma vez que a desnutrição está associada com risco aumentado de seu desenvolvimento e retardo do processo de cicatrização da ferida. No ambiente hospitalar, o aparecimento de úlcera de pressão prolonga o tempo de internação, aumenta a morbidade e mortalidade, além de aumentar os custos dos serviços de saúde e impactar de forma negativa no aspecto psicológico e/ou social do paciente e seus familiares. 26 UNIDADE II │PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO A Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral, a Associação Brasileira de Nutrologia e a Sociedade Brasileira de Clínica Médica (2011) publicaram uma interessante diretriz sobre Terapia Nutricional para portadores de úlcera de pressão. Para saber mais, acesse a publicação no endereço indicado a seguir: <http://www.projetodiretrizes.org.br/9_volume/terapia_nutricional_para_ pacientes_portadores_de_ulceras_por_pressao.pdf>. 27 CAPÍTULO 1 Úlceras de pressão Sinais de úlceras de pressão Conforme o National Pressure Ulcer Advisory Panel (2015), as úlceras de pressão podem ser classificadas em quatro estágios, dependendo da sua severidade, ou seja, da profundidade da lesão. A figura 1 mostra a pele e o tecido subjacentes em condições normais, para fins de comparação com as próximas ilustrações.Figura 1. Pele normal. Fonte: National Pressure Ulcer Advisory Panel (2015). No estágio I, a úlcera de pressão apresenta as seguintes características: » a pele apresenta-se intacta; » em pessoas com pele mais clara, a pele apresenta-se vermelha e a pele não branqueia quando pressionada; 28 UNIDADE II │PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO » em pessoas com pele mais escura, pode ocorrer uma mudança no tom da pele e a pele não branqueia quando pressionada; » o local pode apresentar-se doloroso, firme ou mole, mais quente ou mais fria em comparação com a pele circundante. A figura 2 mostra a úlcera de pressão no estágio I. Figura 2. Úlcera de pressão no estágio I. Fonte: National Pressure Ulcer Advisory Panel (2015). No estágio II, a úlcera de pressão apresenta-se como uma lesão superficial: » a camada exterior da pele (epiderme) e parte da camada subjacente da pele (derme) é danificada ou perdida; » a ferida apresenta-se rosada ou vermelha; » a ferida pode parecer-se como uma bolha intacta ou rompida. A figura 3 mostra a úlcera de pressão no estágio II. 29 PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO│UNIDADE II Figura 3. Úlcera de pressão no estágio II. Fonte: National Pressure Ulcer Advisory Panel (2015). No estágio III, a úlcera de pressão apresenta-se como uma lesão profunda: » a ferida pode expor o tecido adiposo, mas os ossos, tendões e músculos não são visíveis; » a ferida parece-se como uma cratera, mas a profundidade da lesão varia conforme a anatomia da região; » a ferida pode conter esfácelo sem prejuízo da visibilidade da profundidade da lesão. A figura 4 mostra a úlcera de pressão no estágio III. 30 UNIDADE II │PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO Figura 4. Úlcera de pressão no estágio III. Fonte: National Pressure Ulcer Advisory Panel (2015). No estágio IV, a úlcera de pressão apresenta grande perda de tecido: » a ferida pode expor os ossos, tendões e músculos; » a ferida parece-se como uma cratera, mas a profundidade da lesão varia conforme a anatomia da região; » a ferida pode conter esfácelo ou escara. A figura 5 mostra a úlcera de pressão no estágio IV. 31 PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO│UNIDADE II Figura 5. Úlcera de pressão no estágio IV. Fonte: National Pressure Ulcer Advisory Panel (2015). Outras categorias de úlcera de pressão estão descritas a seguir. A úlcera de pressão não pode ser classificada quandoa real profundidade da lesão não é visível ou palpável por causa da presença de esfácelo e/ou escara. Nestes casos, é provável que a úlcera de pressão esteja no estágio III ou IV. A figura 6 mostra a úlcera de pressão que não pode ser classificada. 32 UNIDADE II │PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO Figura 6. Úlcera de pressão sem classificação. Fonte: National Pressure Ulcer Advisory Panel (2015). Há suspeita de úlcera de pressão ou de lesão tecidual profunda quando: » a pele apresenta-se arroxeada ou castanha; » a pele pode apresentar bolhas contendo sangue devido a danos no tecido mole por pressão e/ou cisalhamento; » o local foi precedido de tecido doloroso, firme ou mole, mais quente ou mais fria em comparação com a pele circundante. A figura 7 mostra a pele com suspeita de úlcera de pressão ou de lesão tecidual profunda. 33 PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO│UNIDADE II Figura 7. Pele com suspeita de úlcera de pressão. Fonte: National Pressure Ulcer Advisory Panel (2015). Saiba mais sobre os estágios da úlcera de pressão na página da National Pressure Ulcer Advisory Panel, disponível no endereço: <http://www.npuap.org/resources/educational-and-clinical-resources/npuap- pressure-ulcer-stagescategories/>. Causas de úlceras de pressão Conforme documentado pela equipe da Clínica Mayo (2014), a pressão contra a pele que limita o fluxo de sangue para a pele e tecidos circundantes é considerada a principal causa das úlceras de pressão. A pressão sustentada ocorre quando a pele e os tecidos subjacentes ficam presos entre o osso e a cadeira ou cama, levando a uma pressão maior que a pressão exercida pelos vasos sanguíneos que fornecem oxigênio e nutrientes aos tecidos. Neste caso, as células podem morrer se não houver fornecimento adequado de oxigênio e nutrientes. Este tipo de pressão acomete com maior frequência áreas como coluna vertebral, escápulas, quadris, cóccix, cotovelos e calcanhares. Entretanto, outros fatores relacionados com a mobilidade reduzida também podem contribuir para o desenvolvimento das úlceras de pressão. 34 UNIDADE II │PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO São eles: » Cisalhamento: ocorre quando duas superfícies movem-se em direções opostas. Por exemplo, quando a cabeceira da cama é elevada, a pessoa desliza para baixo, fazendo que o cóccix mova-se para baixo, porém a pele sobre o osso permanece no local. Este movimento pode destruir vasos sanguíneos, tornando a pele ainda mais vulnerável ao desenvolvimento de úlcera de pressão ocasionada por pressão sustentada. » Fricção: ocorre quando a pele é friccionada contra uma superfície e apresenta resistência ao movimento. Por exemplo, na mudança de decúbito. Cabe lembrar que o atrito pode ser ainda maior se a pele estiver úmida. Quando a pele já está fragilizada, o atrito pode deixá-la ainda mais vulnerável ao desenvolvimento de úlcera de pressão. Saiba mais sobre as principais causas para o desenvolvimento de úlceras de pressão na página da Clínica Mayo, disponível no endereço: <http://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/bedsores/basics/causes/con- 20030848>. Fatores de risco para úlceras de pressão Conforme documentado pela equipe da Clínica Mayo (2014), o principal fator de risco para o desenvolvimento da úlcera de pressão é a incapacidade de mudar facilmente de posição enquanto sentado ou deitado que, por sua vez, aumenta a pressão local e diminui o fluxo sanguíneo, conforme comentado anteriormente. Contudo, outros fatores também aumentam o risco de desenvolver úlceras de pressão. São eles: » Idade: a pele dos idosos são mais frágeis e consequentemente mais vulneráveis aos danos, pois geralmente são mais secas, mais finas, mais frouxas e mais enrugadas. » Falta de percepção sensorial: as pessoas com consciência mental diminuída podem ser incapazes de prevenir ou cuidar de úlceras de pressão. Por exemplo, a falta de sensibilidade ao desconforto e/ou à dor diminui a percepção da necessidade de mudar de posição. 35 PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO│UNIDADE II » Má nutrição e hidratacão: dietas deficientes de calorias, proteínas, micronutrientes e líquidos são prejudiciais à saúde da pele e consequentemente à renovação do tecido. Em especial, a baixa ingestão de proteínas pode ser preditiva de desenvolvimento de úlcera de pressão. » Perda de peso: a perda de peso e de massa muscular e/ou adiposa decorrente de condições patológicas que se estendem por períodos prolongados favorecem a pressão sustentada, ou seja, a pressão da pele exercida pelos ossos e a cadeira ou cama. Cabe lembrar que pacientes desnutridos tem risco aumentado de desenvolver úlcera de pressão. » Umidade: a pele úmida aumenta o atrito entre a pele e a roupa ou roupa de cama. A utilização de fralda e/ou a incontinência urinária ou fecal favorecem a exposição da pele à umidade. » Espasmos musculares: movimentos musculares involuntários frequentes aumentam o risco de úlceras de pressão por cisalhamento e/ou fricção. » Mau fluxo de sangue: condições patológicas que afetam o fluxo sanguíneo, tais como diabetes ou doenças vasculares, aumentam o risco de danos dos tecidos. O próprio avançar da idade também diminui a microvascularização cutânea. » Fumo: o ato de fumar diminui o fluxo sanguíneo e consequentemente o nível de oxigênio no sangue. Portanto, fumantes tendem a desenvolver feridas mais severas que saram mais lentamente. Saiba mais sobreos principais fatores de risco para o desenvolvimento de úlceras de pressão na página da Clínica Mayo, disponível no endereço: <http://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/bedsores/basics/risk-factors/ con-20030848>. Segundo Paranhos e Santos (1994), a escala de Braden prediz o grau de risco de desenvolvimento de úlceras de pressão por contemplar fatores como: percepção sensorial, umidade, atividade, mobilidade, nutrição, fricção e cisalhamento. Uma vez detectados os principais fatores de risco, a utilização da escala de Braden torna-se útil para nortear as medidas preventivas necessárias. 36 UNIDADE II │PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO Para conhecer mais sobre a avaliação dos riscos para o desenvolvimento da úlcera de pressão por meio da Escala de Braden, acesse os endereços indicados a seguir para ler os artigos na íntegra: <http://www.ee.usp.br/reeusp/upload/pdf/799.pdf>. http://journals.lww.com/aswcjournal/pages/articleviewer.aspx?year=2002&issu e=05000&article=00008&type=abstract>. Complicações das úlceras de pressão Conforme documentado pela equipe da Clínica Mayo (2014), as principais complicações da úlcera de pressão incluem: » Sepse: a ferida na pele decorrente da úlcera de pressão pode ser uma porta de entrada para as bactérias alcançarem a corrente sanguínea e se espalharem rapidamente por todo o corpo. A sepse é de rápida progressão e pode ser fatal. » Celulite: a celulite é uma infecção da pele e de tecido subjacente que pode ser desencadeada pela úlcera de pressão. Esta condição causa dor, vermelhidão e inchaço e pode levar a complicações sistêmicas. » Infecções ósseas e articulares: as infecções oriundas de úlceras de pressão podem atingir ossos e articulações que, por sua vez, podem levar a complicações sistêmicas. » Câncer: o carcinoma de células escamosas se desenvolve em decorrência de feridas crônicas e não cicatrizadas (úlcera de Marjolin). Este tipo de câncer é considerado agressivo e geralmente requer intervenção cirúrgica. Saiba mais sobre as principais complicações de úlceras de pressão na página da Clínica Mayo, disponível no endereço: <http://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/bedsores/basics/ complications/con-20030848>. 37 CAPÍTULO 2 Tratamento da úlcera de pressão Lembre-se sempre que a prevenção é o melhor tratamento! As úlceras de pressão são mais fáceis de prevenir do que de tratar, porém, é possível que as feridas apareçam mesmo com todos os cuidados preventivos. Conforme exposto, é importante lembrar que a prevenção e o tratamento da úlcera de pressão depende da atuação integrada de uma equipe multiprofissional. Portanto, no caso de idosos com úlcera de pressão, é importante trabalhar sempre em conjunto com outros profissionais (enfermeiro, farmacêutico, médico, nutricionista etc.) para que o sucesso do serviço prestado ao paciente resulte em melhora da qualidade vida do idoso e de seus familiares. Tratamento clínico Para delinear o tratamento da úlcera de pressão, é essencial identificar as possíveis causas para o seu aparecimento e/ou progressão para que o plano de cuidado seja mais focado e consequentemente mais eficiente. Conforme documentado pela equipe da Clínica Mayo (2014), as principais estratégias de cuidados das úlceras de pressão são descritas a seguir. Mudança de posição As mudanças de posição devem ser regulares para minimizar a pressão em áreas vulneráveis ao desenvolvimento de úlceras de pressão. Como já foi dito anteriormente, a pele que cobre as proeminências ósseas são as regiões mais afetadas pelas úlceras de pressão. Se o idoso utiliza cadeira por período prolongado, o peso deve ser redistribuído e o corpo deve ser reposicionado pelo menos a cada 1 hora. Cadeiras de rodas com encostos reclináveis podem ser uma opção para aliviar a pressão exercida pelo próprio peso contra a cadeira (pressão sustentada). Almofadas também podem ajudar a amortecer as áreas ósseas mais vulneráveis. Idosos acamados devem ser trocados de posição pelo menos a cada 2 horas, sempre evitando o cisalhamento e fricção da pele durante o movimento. O uso de roupa de 38 UNIDADE II │PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO cama pode ajudar no reposicionamento do paciente e o uso de almofadas pode ajudar a amortecer as áreas ósseas mais vulneráveis. A cabeceira da cama pode ser elevada até 30° para evitar o cisalhamento da pele. Cuidado e monitoramento da pele A inspeção da pele deve ser constante e as áreas vulneráveis devem receber maior atenção para que qualquer sinal de úlcera de pressão seja percebido no estágio I. Sendo assim, logo que um sinal for notado, os cuidados com a pele devem ser intensificados para que a ferida não evolua para os estágios II e assim por diante. A pele no estágio I deve ser lavada cuidadosamente com água e sabão e secada de forma delicada. Além disso, se houver incontinência urinária e/ou fecal, deve-se manter a pele livre de umidade sempre que possível por meio de troca de fraldas frequente ou utilização de cateteres, conforme orientação médica. Todavia, se a ferida estiver aberta, é essencial manter a ferida limpa para favorecer a cicatrização e prevenir a infecção. O desbridamento para remoção de tecido necrosado pode ser necessário dependendo do estágio da ferida e objetivos do tratamento. Deve-se também observar a presença de botões ou outras peças na roupa do paciente, na roupa de cama que possam irritar a pele do idoso acamado ou em uso de cadeiras por períodos prolongados. As demais estratégias incluem recuperar o estado nutricional e controlar as comorbidades. Neste sentido, a Terapia Nutricional exerce um papel relevante no tratamento da úlcera de pressão. Saiba mais sobre as principais medidas para o tratamento de úlceras de pressão na página da Clínica Mayo, disponível no endereço: <http://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/bedsores/basics/treatment/ con-20030848>. As úlceras de pressão podem evoluir rapidamente e por muitas vezes podem ser de difícil tratamento, principalmente em idosos. Neste caso, devemos pensar em duas situações: 1. Antes que qualquer sinal de úlcera de pressão (citado anteriormente) se manifeste: 39 PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO│UNIDADE II Neste caso, pense na intervenção precoce no momento da admissão como a medida preventiva mais eficaz para a redução do risco de desenvolvimento da úlcera de pressão. Por outro lado, se o idoso já estiver hospitalizado, juntamente com a equipe multiprofissional, é necessário estabelecer e seguir um plano de cuidado para prevenção da úlcera de pressão. Por exemplo, redistribuir a pressão frequentemente, manter e melhorar o estado nutricional e minimizar a exposição da pele à umidade são alguns fatores de risco que podem fazer parte da rotina de cuidados do idoso para prevenção da úlcera de pressão. 2. Logo que qualquer sinal de úlcera de pressão ( citado anteriormente) for notado: Para ajudar a conter o seu desenvolvimento e otimizar a cura das úlceras de pressão, é importante intervir logo que qualquer sinal de úlcera de pressão (acima citado) se manifeste. Assim sendo, se você notar algum sinal de úlcera de pressão em sua fase inicial, tente mudar a posição do paciente para aliviar a pressão sobre a área. Contudo, se o paciente não melhorar brevemente, relate o caso imediatamente para a equipe médica, pois pacientes com risco aumentado podem desenvolver úlcera de pressão em poucas horas. Ademais, a busca por assistência médica deve ser imediata, se houver qualquer sinal de infecção oriundo da ferida, tais como, febre, sangramento, odores, líquidos ou detritos etc. Intervenção nutricional A alta prevalência da úlcera de pressão em idosos hospitalizados ou não pode prolongar a recuperação de outras enfermidades, aumentar o risco de morbidade e mortalidade, além de somar custos ao tratamento e reduzir a qualidade de vida. Conforme exposto anteriormente,os idosos portadores de condições clínicas e doenças que limitam a mobilidade e atividade têm risco aumentado de apresentar estado nutricional alterado e consequentemente de desenvolver úlcera de pressão. A presença da desnutrição está diretamente associada com o aparecimento da úlcera de pressão e o retardo da cicatrização da ferida. Neste sentido, a intervenção nutricional exerce um importante papel na promoção do estado nutricional e consequentemente na prevenção e tratamento da úlcera de pressão. Em indivíduos idosos, o baixo peso corporal também está ligado com a piora da imuno- competência. Neste caso, a suplementação nutricional (oral ou enteral), particularmente 40 UNIDADE II │PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO de proteínas, promove a melhora da função imunológica destes indivíduos. Cabe lembrar que a via oral deve ser priorizada em relação à via enteral, sempre que possível. No caso de idosos hospitalizados, a avaliação do estado nutricional, de preferência na admissão, por meio de medidas antropométricas e dietéticas, além de parâmetros bioquímicos e clínicos, é o primeiro passo para nortear o plano nutricional com o objetivo de prevenir ou tratar a úlcera de pressão. De fato, é importante ressaltar que a avaliação nutricional precoce, de preferência na admissão hospitalar, é uma das principais estratégias para a prevenção da úlcera de pressão, uma vez que a desnutrição é um fator de risco para o desenvolvimento da úlcera de pressão. Em especial aos idosos com risco aumentado de desenvolver úlceras de pressão, a intervenção nutricional tem como objetivo principal a correção da desnutrição energético-protéico preferencialmente por via oral. Entretanto, se a aceitação por via oral não atingir as necessidades nutricionais, outras vias de alimentação deverão ser utilizadas. Os pacientes com úlcera de pressão necessitam de grande aporte energético e protéico. Segundo Ullah (2012), indica-se 30 a 35 Kcal/por Kg de peso corporal/por dia e 1,2 g de proteína/por Kg de peso corporal/por dia no estágio I e, para os casos mais severos, indica-se 40 a 45 Kcal/por Kg de peso corporal/por dia e 1,5 a 2,0 g de proteínas/por Kg de peso corporal/por dia. A suplementação de vitaminas e minerais também favorece o processo de cicatrização. Na prática, idosos desnutridos em tratamento da úlcera de pressão, se beneficiam com o uso de suplementação de energia e proteínas mais os cuidados usuais com a pele em comparação com aqueles que ingerem dieta padrão e recebem os cuidados rotineiros com a pele. Os mecanismos pelos quais o aumento do aporte energético e protéico diminui a incidência ou retarda o aparecimento e a progressão das úlceras de pressão não são totalmente conhecidos, mas certamente estão associados com a melhora da ingestão alimentar e/ou do estado nutricional. Em resumo, o profissional deve assegurar a ingestão alimentar suficiente e adequada, principalmente de energia e proteínas, para promover o estado nutricional ótimo, atendendo sempre os princípios da alimentação saudável e respeitando as expectativas e condições clínicas do idoso, para que a úlcera de pressão seja prevenida e/ou tratada. 41 PAPEL DA NUTRIÇÃO NO TRATAMENTO DA ÚLCERA DE PRESSÃO│UNIDADE II Para a melhor compreensão do manejo nutricional para pacientes portadores de úlcera de pressão, sugiro a leitura das revisões disponíveis nos endereços indicados abaixo: <http://pjms.com.pk/index.php/pjms/article/view/1709/407>. <http://www.npuap.org/wp-content/uploads/2012/03/Nutrition-White-Paper- Website-Version.pdf>. 42 UNIDADE IIITERAPIA NUTRICIONAL Inicialmente, gostaria de destacar a importância da equipe multiprofissional de terapia nutricional (EMTN), pois se não fosse o trabalho integrado dos profissionais médico, nutricionista, enfermeiro e farmacêutico, a Terapia Nutricional não aconteceria de fato. A Resolução da Diretoria Colegiada – RCD no 63, de 6 de julho de 2000, descreve: Equipe Multiprofissional de Terapia Nutricional (EMTN): grupo formal e obrigatoriamente constituído de pelo menos um profissional de cada categoria, a saber: médico, nutricionista, enfermeiro e farmacêutico, podendo ainda incluir profissional de outras categorias, habilitados e com treinamento específico para a prática da Terapia Nutricional-TN. Terapia Nutricional (TN): conjunto de procedimentos terapêuticos para manutenção ou recuperação do estado nutricional do paciente por meio da Nutrição Parenteral ou Enteral. Terapia de Nutrição Enteral (TNE): conjunto de procedimentos terapêuticos para manutenção ou recuperação do estado nutricional do paciente por meio de NE. E a Portaria MS/SNVS no 272, de 8 abril de 1998, descreve: Terapia de Nutrição Parenteral (TNP): conjunto de procedimentos terapêuticos para manutenção ou recuperação do estado nutricional do paciente por meio de NP. O Regulamento Técnico que fixa os requisitos mínimos exigidos para a Terapia de Nutrição Enteral (RCD no 63, de 6 de julho de 2000) está disponível no endereço indicado abaixo como sugestão de leitura complementar: <http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/61e1d380474597399f7bdf3fbc 4c6735/RCD+N°+63-2000.pdf?MOD=AJPERES>. 43 TERAPIA NUTRICIONAL│ UNIDADE III O Regulamento Técnico que fixa os requisitos mínimos exigidos para a Terapia de Nutrição Parenteral (Portaria MS/SNVS no 272, de 8 abril de 1998) está disponível no endereço indicado abaixo como sugestão de leitura complementar: <http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/d5fa69004745761c8411d43fbc4c6735/ PORTARIA_272_1988.pdf?MOD=AJPERES>. A Terapia Nutricional, quer seja oral, enteral ou parenteral, é uma área de conhecimento essencial para o profissional de saúde que deseja lidar com idosos hospitalizados. Deste modo, as uniades III e IV que serão apresentadas a seguir abordarão conteúdos relacionados com a Terapia Nutricional em geriatria. Serão descritos e discutidos nesta unidade (III) os principais passos para o sucesso da Terapia Nutricional em geriatria. Os mesmos tópicos serão abordados na unidade IV com foco no atendimento domiciliar. São eles: » Indicação da Terapia Nutricional. » Via de acesso. » Fórmula. » Método de infusão. » Monitoramento (aceitação, complicações etc.). » Orientação ao paciente, aos familiares e/ou aos cuidadores. Deste modo, é importante estar atento às recomendações e às reflexões de cada tópico, para que todo o conteúdo destas unidades sejam aprendidos de forma clara e concisa. Objetivos da Terapia Nutricional Quais são os objetivos primários da Terapia Nutricional em geriatria? Da mesma forma que os objetivos da Terapia Nutricional em adultos, a Terapia Nutricional em geriatria visa: » Fornecer energia, proteína e micronutrientes em quantidade adequada. » Manter ou melhorar o estado nutricional. 44 UNIDADE III │TERAPIA NUTRICIONAL » Estimular funções musculares e mentais, atividade física e capacidade de reabilitação. » Promover qualidade de vida. » Reduzir morbidade e mortalidade. Em geral, os objetivos da Terapia Nutricional em pacientes geriátricos não diferem dos objetivos da Terapia Nutricional em pacientes jovens. No entanto, enquanto a Terapia Nutricional em pacientes geriátricos visa principalmente a manutenção da atividade funcional e a qualidade de vida, a prioridade da Terapia Nutricional em pacientes jovens consiste em reduzir a morbidade e mortalidade. É importante ressaltar que, no caso dos idosos, a qualidade de vida está fortemente associada com a boa nutrição e atividade física. Logo, o consumo de dieta balanceada e a prática de atividade física adequada à senescência pode prevenir e/ou retardar o aparecimento de doenças senis. Deste modo, é de suma importância que os idosos sejam acompanhados por profissionais da área da saúde antes que surja qualquer sinal de senilidade, ou seja, alterações decorrentes de doenças que podem acometer o idoso, que conseqüentemente diminuem a qualidadede vida. Indicações de Terapia Nutricional Assim sendo, se um dos principais objetivos da Terapia Nutricional é a promoção do estado nutricional, logo podemos concluir que a Terapia Nutricional está indicada em idosos quando há evidência de: » Desnutrição. » Risco nutricional. » Ingestão oral insuficiente (consumo inferior a 60% da recomendação ideal). » Perda de massa corpórea maior que 5% em 3 meses ou maior que 10% em 6 meses. » Índice de massa corpórea (IMC) abaixo de 20 Kg/m2. 45 TERAPIA NUTRICIONAL│ UNIDADE III Algumas condições clínicas ou doenças do idoso apresentam risco nutricional aumentado e também devem ser motivo de atenção da equipe multiprofissional. São eles: » Estresse físico e emocional. » Fragilidade e debilidade. » Distúrbios de deglutição. » Cirurgia de grande porte. » Quadros neurológicos que comprometem o estado de alerta. » Distúrbios psicológicos como depressão, anorexia e demência. » Câncer. » Úlcera de pressão. É importante destacar que a Terapia Nutricional pode ser iniciada tão logo houver indício de risco nutricional e não somente na vigência de desnutrição. Ademais, a Terapia Nutricional pode ser indicada de forma precoce e por períodos prolongados em virtude da diminuição da capacidade adaptativa e regenerativa que os idosos frequentemente apresentam. No caso dos idosos, em especial os idosos hospitalizados, a Terapia Nutricional exerce o papel de prevenir e/ou tratar a desnutrição, por meio do fornecimento de nutrientes adequados para a manutenção e melhora do estado nutricional, da melhora da capacidade funcional e de reabilitação, da diminuição da morbidade e mortalidade e, por conseguinte, da melhora da qualidade de vida. A Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral, em conjunto com outros importantes grupos, descreve com mestria as principais abordagens nutricionais para os pacientes na senescência (geriatria). A diretriz está disponível no endereço indicado abaixo: <http://www.projetodiretrizes.org.br/9_volume/terapia_nutricional_para_ pacientes_na_senescencia_geriatria.pdf>. 46 CAPÍTULO 1 Terapia Nutricional Enteral Indicação de Terapia Nutricional Oral A suplementação oral é uma estratégia recomendada para manter ou melhorar o estado nutricional e sobrevida dos idosos desnutridos ou em risco de ficarem desnutridos por meio do aumento da oferta de energia, proteínas e micronutrientes. Segundo Volkert (2006), os casos associados com risco nutricional aumentado em que a suplementação oral traz benefícios para os pacientes idosos estão descritos a seguir: » Idosos fragilizados. » Idosos com depressão ou demência em sua fase inicial ou moderada. » Idosos submetidos a cirurgias ortopédicas. » Idosos com risco aumentado de desenvolverem úlcera de pressão. Em idosos fragilizados, ou seja, com prejuízo de suas capacidades físicas, mentais, psicológicas e/ou sociais, bem como em pacientes com depressão ou demência em sua fase inicial ou moderada, a suplementação oral pode assegurar o fornecimento de energia e nutrientes, mantendo ou melhorando estado nutricional e a sobrevida. No caso de idosos submetidos a cirurgias ortopédicas, a suplementação oral pode reduzir as complicações pós-operatórias, como a perda de peso. As complicações pós- operatórias são debilitantes e podem levar o paciente a morte. A indicação de suplementação oral, em especial de fórmulas hiperproteicas, pode beneficiar pacientes com risco aumentado de desenvolverem úlceras de pressão, conforme exposto na unidade II do presente caderno de estudos. Provavelmente você encontrará outras condições clínicas além dessas expostas acima em que a Terapia Nutricional Oral poderá melhorar o estado nutricional e sobrevida do paciente, em especial dos idosos hospitalizados, os quais constituem um grupo com risco aumentado de desenvolver desnutrição. Neste caso, sempre que houver possibilidade de se alimentar por via oral, a suplementação oral poderá garantir pelo menos o suprimento de energia e 47 TERAPIA NUTRICIONAL│ UNIDADE III nutrientes para manutenção ou melhora do estado nutricional e sobrevida do paciente, em especial dos idosos hospitalizados. Indicação de Terapia Nutricional Enteral A Terapia Nutricional Enteral é recomendada se o idoso não pode ou não consegue alcançar as necessidades nutricionais exclusivamente por via oral. Segundo Volkert (2006), a Terapia Nutricional Enteral é recomendada mais frequentemente nos idosos nas situações descritas abaixo: » Em idosos fragilizados com condição clínica estável. » Em idosos com depressão ou demência em sua fase inicial ou moderada. » Em idosos com disfagia grave de origem neurológica. » Em idosos com úlcera de pressão. Idosos com depressão podem se beneficiar com o uso da Terapia Nutricional Enteral, pois ela auxilia na superação da fase anoréxica grave e da falta de motivação que comumente evolui com perda de peso. Em idosos com demência, a Terapia Nutricional Enteral, da mesma forma que a Terapia Nutricional Oral, tem a função de otimizar o estado nutricional do idoso. A escolha pela Terapia Nutricional Oral ou Enteral deve se basear na individualidade do idoso. Idosos com disfagia grave de origem neurológica devem iniciar a Terapia Nutricional Enteral tão logo o seu recebimento seja viável a fim de garantir o fornecimento energético e de nutrientes e, por conseguinte, manter ou melhorar o estado nutricional. É preferível que os idosos com disfagia grave de origem neurológica recebam a Terapia Nutricional Enteral por gastrostomia endoscópica percutânea, pois esta via está associada com menos falhas de tratamento e melhora do estado nutricional e é recomendada quando Terapia Nutricional Enteral durar mais que 3 ou 4 semanas. A Terapia Nutricional Enteral, quando indicada em idosos com úlcera de pressão, melhora a cicatrização da ferida, pois garantem o fornecimento de nutrientes e micronutrientes envolvidos no processo de cicatrização, conforme discutido na unidade II do presente caderno de estudos e pesquisa. 48 UNIDADE III │TERAPIA NUTRICIONAL É importante lembrar que a indicação da Terapia Nutricional Enteral não exclui o uso da Terapia Nutricional Oral, ou seja, o idoso que recebe a alimentação via sonda também poderá alimentar-se por via oral, desde que esta via seja praticável. As informações baseadas na avaliação inicial do paciente e no monitoramento da evolução da Terapia Nutricional servirão como base para o profissional decidir se o idoso se beneficiará ou não da alimentação por ambas as vias, enteral e oral. Cabe lembrar que tanto da Terapia Nutricional Enteral quanto da Terapia Nutricional Oral visam a promoção da estado nutricional e a sobrevida do idoso por meio do fornecimento de energia, nutrientes e micronutrientes necessários para o desempenho das capacidades físicas, mentais, psicológicas e/ou sociais. Contudo, observa-se na prática que a alimentação via oral em relação à alimentação via enteral traz mais satisfação psicológica e/ou social para o idoso e para a família. A consulta de diretrizes atuais de importantes sociedades como a Sociedade Europeia de Nutrição Parenteral e Enteral é essencial para atualização das condutas e abordagens praticadas no dia a dia. Portanto, para saber mais sobre as recomendações para o uso da Terapia Nutricional Oral e Enteral em pacientes geriátricos, acesse a diretriz disponível no endereço indicado a seguir: <http://espen.info/documents/ENGeriatrics.pdf> Contraindicações Há um consenso sobre as situações em que a Terapia Nutricional Enteral é contraindicada para idosos? Sim, Volkert (2006) não recomenda a Terapia Nutricional Enteral em duas situações. São elas: » Em idosos fragilizados em fase terminal. » Em idosos com demência em fase terminal. Cabe lembrar que pacientes com demência em fase terminal apresentam condição irreversível, imobilidade, incapacidade para comunicação, dependência total e faltade recursos físicos. 49 TERAPIA NUTRICIONAL│ UNIDADE III Para aprofundar os conhecimentos sobre a abordagem nutricional em idosos com demência avançada, acesse a revisão disponível no endereço indicado a seguir: <http://www.cfp.ca/content/61/4/337.full.pdf>. Recentemente, a Sociedade Americana de Geriatria apresentou o seu posicionamento sobre o uso de Terapia Nutricional Enteral em idosos com demência avançada. O artigo está disponível na íntegra no endereço indicado abaixo: <http://onlinelibrary.wiley.com/store/10.1111/jgs.12924/asset/jgs12924.pdf?v= 1&t=ihhulfmn&s=9164ac2cae5e07aeb0a3c9c8a09b7329d0d96457>. Acessos Segundo a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral e a Associação Brasileira de Nutrologia (2011), a escolha da via de acesso é baseada nos seguintes critérios: » Condição clínica do paciente. » Previsão do tempo de uso. » Avaliação dos riscos de complicações. A previsão do tempo de uso e o risco de aspiração determinam se a sonda será nasoenteral ou se o acesso enteral será por gastrostomia ou jejunostomia. São eles: » Nasoenterais: < 3 a 4 semanas. » Gastrostomia: > 3 a 4 semanas, não há risco de aspiração. » Jejunostomia: > 3 a 4 semanas, há risco de aspiração. A figura 8 apresenta, em forma de algoritmo, quais são os critérios utilizados para a seleção da via de acesso enteral. 50 UNIDADE III │TERAPIA NUTRICIONAL Figura 8. Critérios para escolha da sonda enteral. Trato gastrointestinal funcionante? Nutrição Parenteral SimNão Nutrição Enteral > 3 a 4 semanas? SimNão Sonda nas oenteral Estomia Risco de aspiração Risco de aspiração Não Sim SimNão Sonda nasogástrica Sonda nasoduodenal ou nasojejunal Gastrostomia Jejunostomia Fonte: Rainho (2000, p. 699). Conforme o algoritimo da figura 8, se houver indicação de Terapia Nutricional Enteral por menos de 3 a 4 semanas, recomenda-se a sonda nasogástrica (se não houver risco de broncoaspiração) e a sonda nasoduodenal ou nasojejunal (se houver o risco de broncoaspiração). 51 TERAPIA NUTRICIONAL│ UNIDADE III A figura 9 mostra o posicionamento da extremidade distal das sondas nasoenterais, mencionadas na figura 8. Figura 9. Sondas nasoenterais: nasogástrica, nasoduodenal e nasojejunal. Fonte: <http://www.clevelandclinicmeded.com/medicalpubs/diseasemanagement/gastroenterology/principles-of-nutrition- support/>. Acessado 23 de dezembro de 2015>. Contudo, conforme o algoritimo apresentado (figura 8), se houver indicação de Terapia Nutricional Enteral por mais de 3 a 4 semanas, recomenda-se a gastrostomia (se não houver risco de broncoaspiração) ou jejunostomia (se houver risco de broncoaspiração). A figura 10 mostra o posicionamento das estomias (gastrostomia e jejunostomia), mencionadas na figura 8. Figura 10. Estomias: gastrostomia e jejunostomia. 52 UNIDADE III │TERAPIA NUTRICIONAL Fonte: <https://www.mskcc.org/cancer-care/patient-education/patient-guide-percutaneous-endoscopic-gastrostomy-peg- jejunostomy-pej-placement>. Acessado 23 de dezembro de 2015. Como posicionar o acesso enteral? Segundo a Socidade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral e a Associação Brasileira de Nutrologia (2011), em sua diretriz sobre acessos para Terapia Nutricional, a sonda deve ser lubrificada e deslizada para trás da narina. Se a sonda não progredir facilmente, a cabeça do paciente deve ser inclinada para frente ou virada para um dos lados. Após o posicionamento da sonda, o fio-guia deve ser retirado e a sonda deve ser fixada. Para a sonda gástrica, na posição sentado (figura 11A), considera-se a distância entre a ponta do nariz ao lóbulo da orelha (figura 11B) e deste ponto até o apêndice xifoide (aproximadamente 60 cm) (figura 11C). 53 TERAPIA NUTRICIONAL│ UNIDADE III Figura 11. Técnica de posicionamento da sonda gástrica. Fonte: Waitzberg (2000, p. 575). Para a sonda jejunal, considera-se a mesma medida feita para o estômago acrescida de mais 10 a 15 cm, dependendo do porte físico do paciente. Para que a sonda avance espontaneamente para até o jejuno, o paciente deve ser posicionado do lado direito do corpo, desde que possível, e devem ser aguardadas 12 a 24 horas. Cabe lembrar que o posicionamento da sonda em posição gástrica ou jejunal deve ser confirmado por radiografia antes do início da dieta. A confirmação da posição da sonda jejunal deve ser feita após 12 a 24 horas. É interessante destacar que o posicionamento da sonda por via endoscópica também parece ser uma alternativa segura para o acesso enteral. Quanto melhor o estado nutricional do paciente no momento do procedimento, melhor será a cicatrização do local. Qual o melhor tipo de sonda enteral? Segundo a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral e a Associação Brasileira de Nutrologia (2011), em sua diretriz sobre acessos para Terapia Nutricional, as sondas enterais de poliuretano ou de silicone proporcionam maior conforto ao paciente, pois apresentam: 1. menor irritação local; 2. menor risco de broncoaspiração; 3. radiopacidade para serem visualizadas por radioagrafia; 4. conexão em Y para permitir a adaptação do equipo e da seringa. 54 UNIDADE III │TERAPIA NUTRICIONAL Para saber mais detalhes sobre o que a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral e a Associação Brasileira de Nutrologia (2011) dizem sobre os acessos para Terapia Nutricional, acesse a publicação disponível no endereço indicado abaixo: <http://www.projetodiretrizes.org.br/9_volume/acessos_para_terapia_de_ nutricao_parenteral_e_enteral.pdf>. Duração Até quando manter a prescrição da Terapia Nutricional Enteral? Segundo a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral, entre outras (2011) em sua diretriz sobre Terapia Nutricional na senescência, a Terapia Nutricional Enteral deve ser mantida enquanto as condições do paciente não se restabelecem. No entanto, a partir do momento em que a deglutição do idoso for eficiente e segura e a aceitação energética exclusivamente por via oral for maior que 60% da quantidade recomendada, a Terapia Nutricional Enteral poderá ser interrompida. No caso de pacientes idosos em estado terminal, o uso e o tempo de permanência da Terapia Nutricional Enteral deve ser avaliada de forma individual com o intuito de promover qualidade de vida e sobrevida digna, sempre considerando o diálogo entre o paciente, a família e a equipe multiprofissional. É interessante pontuar que o tempo de internação hospitalar não é determinado somente pelo estado nutricional, mas também por outros fatores como a garantia de cuidados adequados após a alta hospitalar. Fórmulas A variedade de dietas industrializadas disponibilizadas pelo mercado atual representa uma ampla diversidade de formulações. Por conseguinte, para a escolha apropriada da dieta enteral, é necessário um profundo conhecimento dos componentes da dieta, das necessidades nutricionais do paciente e da capacidade digestiva e absortiva do paciente. Segundo Baxter (2000), de maneira geral, as características mais comumente avaliadas na escolha da dieta enteral são: » Densidade calórica. 55 TERAPIA NUTRICIONAL│ UNIDADE III » Fonte e complexidade dos nutrientes (proteínas, carboidratos, lipídios, vitaminas e minerais). » Fórmula versus indicação clínica. » Fórmula versus método de administração. » Osmolaridade. Sobre a densidade calórica da dieta enteral A densidade calórica é definida pela quantidade de calorias para cada mililitro de dieta enteral. O quadro 10 apresenta a categorização da dieta enteral, conforme a densidade calórica. Quadro 10. Categorização da dieta enteral conforme densidade calórica. Densidade calórica (Kcal/mL) Categorização da densidade calórica Categorização da dieta enteral < 0,6 Muito baixa Acentualmente hipocalórica 0,6 a 0,8 Baixa Hipocalórica 0,9 a 1,2 Padrão Normocalórica 1,3 a 1,5 Alta Hipercalórica > 1,5 Muito alta Acentuadamente hipercalórica Fonte: Baxter (2000, p. 661). Sobre a complexidade dos nutrientesda dieta enteral, em especial a proteína: » Dietas enterais poliméricas: apresentam a proteína na forma intacta (polipeptídeo). Exemplos: caseína, proteína isolada de soja, lactoalbumina, clara de ovo (ovoalbumina), carne, leite desnatado e integral. » Dietas enterais oligoméricas: apresentam a proteína na forma parcialmente hidrolisada (oligopeptídeo). Exemplos: caseína, proteína isolada de soja, lactoalbumina, soro de leite, proteína de carne, colágeno. » Dietas enterais elementares: apresentam a proteína na forma totalmente hidrolisada (aminoácidos). Exemplos: L-aminoácidos. Segundo Deutz (2014), recomenda-se de 1,0 a 1,2 g de proteína/por Kg de peso corporal/ por dia para idosos saudáveis e de 1,2 a 1,5 g e proteínas/Kg de peso corporal/por dia para os idosos com doenças agudas ou crônicas. Menores ou maiores recomendações são restritas a situações críticas. 56 UNIDADE III │TERAPIA NUTRICIONAL Sabe-se que os idosos se beneficiam com o aumento da oferta proteica, pois há relação positiva com o aumento da capacidade de síntese proteica destes indivíduos. Contudo, cabe lembrar que melhora do estado nutricional, mais precisamente do ganho de massa muscular, depende também da reabilitação da atividade física. Sobre a complexidade de nutrientes, em especial os carboidratos e fibras alimentares, Segundo Ritz (2001), para os idosos, os carboidratos da dieta enteral devem fornecer cerca de 50 a 60% do valor calórico total. Os carboidratos da dieta enteral geralmente apresentam-se na forma de: 1) amido; 2) polímeros de glicose (derivados do amido de milho parcialmente hidrolisado); 3) dissacarídeos (sacarose – glicose e frutose), maltose – glicose e glicose), lactose – glicose e galactose) e/ou; 4) monossacarídeos (glicose – dextrose – frutose). As fibras estão presentes na dieta enteral com o objetivo de regular o hábito intestinal. As de fibras presentes nas dietas enterais são: 1) insolúveis (celulose, hemicelulose, lignina); 2) solúveis (pectina, mucilagem, polissacarídeos de algas, goma guar) e/ou; 3) solúveis/insolúveis (polissacarídeo de soja). Sobre a complexidade de nutrientes, em especial os lipídios: Segundo Ritz (2001), para os idosos, pelo menos 10% das calorias totais devem ser provenientes de gorduras insaturadas. Após o cálculo da quantidade de carboidratos e proteínas, o valor calórico total deve ser completado com as calorias derivadas dos lipídios. Os lipídios são considerados nutrientes com alta densidade energética, mas eles também contêm ácidos graxos essenciais e ácidos graxos imunomoduladores, como os ácidos graxos poliinsaturados do tipo ômega-3. Os lipídios das dietas enterais podem apresentar-se como: 1) triglicerídeos de cadeia longa juntamente com ácidos graxos de poliinsaturados; 2) triglicerídeos de cadeia média (rapidamente absorvidos pelo sistema portal) e/ou; 3) lipídios estruturados (ácidos graxos de cadeia longa e média reesterificados). Sobre a presença de vitaminas e minerais nas dietas enterais, as necessidades de vitaminas e minerais variam conforme o estado nutricional e a doença de base. A maioria das dietas enterais contém quantidades adequadas de vitaminas e minerais, desde que fornecidas em volume indicado. 57 TERAPIA NUTRICIONAL│ UNIDADE III Entretanto, existem dietas para situações clínicas específicas que podem não conter quantidades suficientes de algumas vitaminas e minerais, como no caso da insuficiência renal. Neste caso, o profissional deve avaliar se a suplementação de micronutrientes é necessária de forma individualizada. Os idosos fazem parte de um grupo populacional que, na maioria das vezes, apresentam deficiência de vitaminas e minerais decorrente de mudanças fisiológicas que interferem no apetite e na ingestão e absorção dos alimentos. Neste caso, o fornecimento destes micronutrientes pela dieta enteral favorece a recuperação da carência, a qual deve ser reavaliada periodicamente. Sobre o método de administração da dieta enteral, segundo Baxter (2000), se a sonda estiver posicionada no estômago, há maior liberdade de escolhas. Neste caso, a dieta poderá ser: » Isoosmolar ou hiperosmolar. » Fracionada de 4 a 6 vezes por dia, dependendo da tolerância do paciente. » Administrada com velocidade de 120 gotas/minuto desde o início da Terapia Nutricional. Mas se a sonda estiver em posição pós-pilórica, recomenda-se: » Indicar dietas isoosmolares. » Aumentar o fracionamento (6 a 8 vezes por dia) para infundir um volume menor de dieta por vez. » Administração mais lenta no início (60 gotas/minuto) e que poderá progredir até 120 gotas/minuto, conforme a adaptação do paciente. Sobre a osmolaridade da dieta enteral, é definida pelo número de miliosmoles em um litro de solução, enquanto a osmolalidade refere-se ao número de miliosmoles por quilo de água. O quadro 11 apresenta a categorização da dieta enteral, conforme a osmolalidade. Quadro 11. Categorização da dieta enteral conforme osmolalidade. Osmolalidade (mOsm/Kg de água) Categorização da dieta enteral 280 a 300 Hipotônica 300 a 350 Isotônica 58 UNIDADE III │TERAPIA NUTRICIONAL 350 a 550 Levemente hipertônica 550 a 750 Hipertônica > 750 Acentualmente hipertônica Fonte: Baxter (2000, p. 662). Na prática, observa-se que pacientes com sondas gástricas toleram melhor dietas com osmolaridade mais alta, enquanto pacientes com sondas em regiões pós-pilóricas, ou seja, localizadas em porções mais distais do trato gastrintestinal, respondem melhor as dietas isoosmolares. Os módulos de um determinado nutriente apresentam-se de forma pura ou praticamente pura. Encontram-se, no mercado, módulos de proteínas, aminoácidos isolados, carboidratos, lipídios, vitaminas, minerais, fibras, eletrólitos, flavorizantes, espessantes etc. São usualmente utilizados como suplementos de dieta oral ou enteral. Seleção A figura 12 apresenta em forma de algoritmo os critérios utilizados na seleção da dieta enteral, conforme proposto por Baxter (2000). Figura 12. Critérios para a escolha da dieta enteral. Atinge 60% das necessidades nutricionais por via oral? Dieta Dieta via oral Dieta Ingere/absorve nutrientes intactos? Dieta especializada Dieta convencional Dieta especializada com hidrolisados Sim Não Consciência Dieta leve ou líquida Sim Não Dieta enteral convencional Não Sim Dieta enteral especializada Distúrbio Dieta especializada preferencialmente Sim Não Ingere/absorve nutrientes intactos? Sim Não Fonte: Baxter (2000, p. 675). 59 TERAPIA NUTRICIONAL│ UNIDADE III Preparo Segundo Baxter (2000), as dietas podem ser preparadas artesanalmente, em domicílio ou no hospital, ou podem ser industrializadas que, por sua vez, apresentam-se na forma de pó (para reconstituição), semiprontas ou prontas para uso (sistema fechado). » Dietas caseiras: os alimentos com ou sem módulos são preparados e homogeneizados artesanalmente em domicílio ou no hospital. Em princípio, a dieta caseira custa menos que a dieta industrializada, mas como apresenta instabilidade organoléptica e não tem composição nutricional definida nem controle microbiológico rigoroso, o risco de oferecer este tipo de dieta para o paciente deve ser bem avaliado. » Dietas industrializadas em pó (para reconstituição): são acondicionadas em latas ou pacotes hermeticamente fechados. Possuem composição nutricional definida e estabilidade bromatológica e microbiológica, portanto são indicadas para dietas especializadas por permitir alterações no volume e na concentração da fórmula. Por necessitar ser reconstituído com água ou outro líquido, apresenta risco de contaminação microbiológica. » Dietas industrializadas semiprontas para uso: apresentam-se industrialmente reconstituídas em latas ou frascos, mas necessitam ser transferidas para as bolsas ou frascos de administração da dieta enteral. Necessitam de menor tempo de preparo, mas não permitem alterações em sua formulação. Apesar da mínima manipulação, aindahá possibilidade de contaminação microbiológica. » Dietas industrializadas prontas para uso: apresentam-se envasadas em frascos ou bolsas prontas para serem acopladas no equipo (sistema fechado). Por serem prontas para uso, não permitem alteração da fórmula. Como não necessitam de manipulação prévia, o risco de contaminação microbiológica é mínimo. Administração As dietas enterais podem ser administradas por infusão contínua ou intermitente, que por sua vez, pode ser feita de forma gravitacional ou em bolo. 60 UNIDADE III │TERAPIA NUTRICIONAL O volume da dieta enteral deve aumentar gradativamente a cada 24 ou 48 horas, dependendo da tolerância do paciente, até atingir o volume necessário equivalente as necessidades nutricionais. A infusão contínua da dieta enteral utiliza preferencialmente a bomba de infusão e pode ser administrada tanto no estômago como no duodeno e jejuno. Este método também deve progredir gradativamente, caso não surjam efeitos colaterais. No método intermitente gravitacional, a administração “gota a gota” da dieta enteral dura cerca de 30 a 60 minutos (com ou sem o auxílio de bomba de infusão), com intervalo de 3 a 4 horas, dependendo da tolerância do paciente. A infusão em bolo é feita com seringa por no mínimo 15 a 30 minutos. A indicação deste método depende da tolerância gastrintestinal do paciente, sendo melhor tolerada quando a sonda estiver posicionada no estômago. Cabe lembrar que o resíduo gástrico deve ser verificado antes do início de cada dieta. Se o resíduo gástrico for maior que 50% do volume anteriormente administrado, o horário da dieta subsequente deverá ser postergado. Recomenda-se o reposicionamento da sonda para região pós-pilórica se a gastroparesia persistir. Complicações As complicações da Terapia Nutricional Enteral em pacientes idosos não diferem das complicações encontradas em pacientes mais jovens. Mais frequentemente ocorrem intercorrências de origem mecânica (obstrução e mudança de posição da sonda) ou digestiva (diarreia, constipação etc.). Considera-se diarreia a ocorrência de três ou mais evacuações líquidas por dia. Apesar de a etiologia da diarreia ser multifatorial, o uso de dieta enteral adicionada de fibras ou fórmulas que já contenham fibras tem sido associado com a diminuição da ocorrência de complicações intestinais, principalmente a diarreia. As complicações da Terapia Nutricional Enteral podem ser classificadas, segundo Vasconcelos (2002, p. 388): Gastrintestinais: náuseas, vômitos, estase gástrica, refluxo gastroesofágico, distensão abdominal, cólicas, empachamento, flatulência, diarréia/ obstipação. Metabólicas: hiperhidratação/desidratação, hiperglicemia/ hipoglicemia, anormalidades de eletrólitos e elementos-traços, alterações da função hepática.Mecânicas: erosão nasal e necrose, abscesso septonasal, sinusite aguda, rouquidão, otite, faringite, esofagite, ulceração esofágica, 61 TERAPIA NUTRICIONAL│ UNIDADE III estenose, fístula traqueoesofágica, ruptura de varizes esofágicas, obstrução da sonda, saída ou migração acidental da sonda. Infecciosas: gastroenterocolites por contaminação microbiana no preparo, nos utensílios e administração da fórmula. Respiratórias: aspiração pulmonar com síndrome de Mendelson (pneumonia química) ou pneumonia infecciosa. Psicológicas: ansiedade depressão, falta de estímulo ao paladar, monotonia alimentar, insociabilidade, inatividade. Monitoramento Uma vez observados todos os itens acima, o monitoramento faz-se necessário para acompanhar a evolução da aceitação, minimizar possíveis complicações e garantir o sucesso da Terapia Nutricional Enteral. A Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral e a Associação Brasileira de Nutrologia (2011), em sua diretriz sobre administração e monitoramento da Terapia Nutricional, recomendam as seguintes medidas para a prevenção de intercorrências durante a vigência da Terapia Nutricional Enteral. » A melhor medida de prevenção de obstrução do dispositivo é irrigação da sonda com 20 a 30 mL de água potável antes e depois de cada administração (se infusão intermitente) ou a cada 4 a 6 horas (se for infusão contínua). Recomenda-se, também, lavar a sonda após a verificação do resíduo gástrico e antes e depois de administrar medicamentos. » Recomenda-se a utilização de dietas industrializadas e a troca periódica dos dispositivos para prevenção de contaminação do sistema da nutrição enteral. A utilização de sonda com duas vias previne a desconexão do sistema para irrigar a sonda ou administrar medicamentos. » Para garantir a segurança e a eficácia na administração da dieta enteral, devem ser observados rotineiramente aspectos relacionados à dieta (formulação, volume, densidade, data do preparo, data de validade, acondicionamento, entre outros) e ao paciente (nome e leito do paciente no frasco, tipo de dieta, via de acesso, posição da sonda, horário e tempo de administração). 62 UNIDADE III │TERAPIA NUTRICIONAL » Para prevenção de broncoaspiração, recomenda-se elevar a cabeceira da cama a 30° graus, avaliar a tolerância e o posicionamento da sonda, reposicionar a sonda para região pós-pilórica (se necessário), administrar a dieta por infusão contínua, entre outros. A Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral, em conjunto com a Associação Brasileira de Nutrologia (2011), publicou recomendações essenciais para a administração e o monitoramento da Terapia Nutricional. A diretriz está disponível no endereço indicado a seguir: <http://www.projetodiretrizes.org.br/9_volume/terapia_nutricional_ administracao_e_monitoramento.pdf>. 63 CAPÍTULO 2 Terapia Nutricional Parenteral O trato gastrointestinal deve ser utilizado sempre que estiver funcionando! Caso contrário, você pode optar por outra via de acesso. Antes de iniciarmos os estudos da Terapia Nutricional Parenteral, convido todos a refletir sobre os questionamentos médicos e éticos propostos Sobotka (2009). Cabe lembrar que estas questões também são abordadas antes da instituição da Terapia Nutricional Enteral e são importantes para a indicar se a prescrição da Terapia Nutricional realmente beneficiará o paciente. » O paciente encontra-se numa condição que se beneficia da nutrição parenteral? » A nutrição parenteral melhora os resultados e/ou acelera a recuperação? » A nutrição parenteral pode manter ou melhorar a qualidade vida e o bem-estar do paciente com doença incurável? » Os benefícios esperados superam os potenciais riscos da nutrição parenteral? » A nutrição parenteral é de vontade expressa ou presumida do paciente ou, se incapaz, de seu representante legal? » Os recursos disponíveis são suficientes para administração apropriada da nutrição parenteral? » A mudança do estilo de vida decorrente da administração da nutrição parenteral prolongada (institucional ou domiciliar) beneficiará o paciente? » Se a nutrição parenteral prolongada implica em diferente situação de vida, o paciente se beneficiará disto? (tradução nossa) 64 UNIDADE III │TERAPIA NUTRICIONAL Cabe lembrar que a Terapia Nutricional Parenteral é menos justificável do que a Terapia Nutricional Oral e Enteral em idosos. Cabe lembrar, também, que a Terapia Nutricional Parenteral apresenta maior risco de complicações. Portanto, sempre que possível, as vias oral e/ou enteral devem ser indicadas. Indicações Quando a Terapia Nutricional Parenteral é indicada em idosos? Segundo a Sobotka (2009), a Terapia Nutricional Parenteral pode melhorar o estado nutricional do idoso quando: » O idoso não alcançar as necessidades nutricionais por via enteral. » A Terapia Nutricional Enteral for contraindicada ou pouco tolerada pelo idoso. » O idoso estiver de jejum por mais de 3 dias por impossibilidade de alimentar-se por via oral ou enteral ou se a ingestão oral ou enteral for insuficiente por mais de 7 a 10 dias. Na indicação da Terapia Nutricional Parenteral, considera-seque: » A Terapia Nutricional Parenteral é segura e eficaz, desde que instituída e monitorada por uma equipe multiprofissional experiente. » A idade não pode ser considerada um fator de exclusão para o recebimento da Terapia Nutricional Parenteral. » A instituição da Terapia Nutricional Parenteral não justifica a sedação farmacológica ou restrição física do idoso ao leito. Cabe lembrar que a Terapia Nutricional Parenteral deve ser suspensa logo que o trato gastrintestinal for restaurado. No entanto, a transição deve ser gradativa até que o trato gastrintestinal se readapte ao processo digestivo e até que o idoso seja capaz de alcançar pelo menos 60% das necessidades nutricionais por via oral. Acessos Segundo a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral e a Associação Brasileira de Nutrologia (2011), o tipo e a localização do acesso venoso depende da 65 TERAPIA NUTRICIONAL│ UNIDADE III composição, da concentração e do volume da solução, bem como da previsão do tempo de duração da Terapia Nutricional Parenteral. Sendo assim, os seguintes critérios são adotados para a escolha do cateter venoso: » Condições clínicas do paciente (história do acesso vascular, anatomia venosa, estado de coagulação). » Duração da Terapia Nutricional Parenteral. » Local onde a Terapia Nutricional Parenteral será administrada (instituição, domicílio etc.). A Terapia Nutricional Parenteral é considerada de curta duração quando é prescrita por um período de até 15 dias. Neste caso, recomenda-se o acesso venoso periférico e, por conseguinte, soluções com osmolaridade de até 850 mOsm/L em idosos. Apesar de o acesso venoso periférico permitir a infusão apenas de solução de baixa osmolaridade, esta via também é indicada quando há extrema dificuldade de acesso central ou para aqueles que não alcançam as necessidades nutricionais pela via gastrintestinal e precisam complementar os requerimentos nutricionais por um curto período de tempo. Por outro lado, para a Terapia Nutricional Parenteral prolongada (com duração maior que 15 dias), recomenda-se o acesso venoso central. Soluções hiperosmolares podem ser administradas pelo acesso venoso central devido ao alto fluxo sanguíneo. As veias subclávia, jugular e femoral são utilizadas para acesso venoso central, mas a veia subclávia é a mais recomendada por conferir menor taxa de infecção e maior mobilidade ao paciente. A inserção deve ser realizada por médico cirurgião treinado. O cateter central de inserção periférica (PICC) é bastante utilizado em neonatologia e pediatria, mas também é indicado para Terapia Nutricional Domiciliar. Este tipo de cateter é introduzido perifericamente pelas veias cefálica, basílica ou cubital média até a veia cava superior (na extremidade distal). O procedimento pode ser realizado por uma enfermeira capacitada. Já os cateteres semi-implantados ou totalmente implantados (porth-o-cath) são indicados para Terapia Nutricional Parenteral prolongada. O cateter semi-implatantado é indicado para pacientes que recebem Terapia Nutricional Parenteral em domicílio por longo período de tempo, enquanto o cateter totalmente implantado (porth-o-cath) é indicado principalmente para quimioterapia, sendo menos utilizado para Terapia Nutricional Parenteral. 66 UNIDADE III │TERAPIA NUTRICIONAL Cabe lembrar que tanto a Terapia Nutricional Parenteral por via periférica quanto a Terapia Nutricional Parenteral por via central podem ser indicada com segurança para o paciente idoso, segundo Sobotka (2009). É altamente recomendável a confirmação do posicionamento da extremidade distal do cateter por radiografia do tórax antes do início da administração da Terapia Nutricional Parenteral. É importante ressaltar que a via de acesso da Terapia Nutricional Parenteral deve ser exclusiva, inclusive em caso de cateteres com múltiplos lúmens. Contudo, se houver necessidade de utilizar a via de acesso da Terapia Nutricional Parenteral para qualquer outro fim, deve-se haver o consentimento prévio da equipe multiprofissional de terapia nutricional (EMTN). A figura 13 apresenta os locais possíveis de acesso venoso temporário (no hospital) e a figura 14 apresenta os acessos venosos mais apropriados em longo prazo. O quadro 12 apresenta os diferentes tipos de cateteres venosos indicados para Terapia Nutricional Parenteral. Quadro 12. Cateteres venosos indicados para Terapia Nutricional Parenteral. Tipo de cateter Descrição Indicação Cateter periférico. Cateter periférico inserido por “scalp”. Somente nutrição parenteral periférica (concentração de dextrose: até 10%). Somente nutrição parenteral de curta duração (< 15 dias). Cateter central de inserção periférica. Cateter central inserido por via percutânea das veias cefálica, basílica ou cubital média até a veia cava superior. Nutrição parenteral prolongada ou de curta duração. Cateter semi-implantável. Segmento venoso é inserido por punção da veia subclávia ou dissecção da veia cefálica no setor deltapeitoral. Segmento subcutâneo é exteriorizado após tunelização subcutânea na região paraesternal na região do mamilo. Nutrição parenteral prolongada. Nutrição parenteral domiciliar. Cateter totalmente implantável (port-o-caht) Introduzido com a mesma técnica do cateter semi-implantável. Cateter central com câmara totalmente implantável. Mais usado para quimioterapia. Menos usado para nutrição parenteral. Fonte: Weckwerth e Ireton-Jones (1998), citado por Shronts (2000, p. 959). Reitera-se que, para saber mais detalhes sobre o que a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral e a Associação Brasileira de Nutrologia (2011) dizem sobre os acessos para Terapia Nutricional, acesse a publicação disponível no endereço indicado abaixo: <http://www.projetodiretrizes.org.br/9_volume/acessos_para_terapia_de_ nutricao_parenteral_e_enteral.pdf>. 67 TERAPIA NUTRICIONAL│ UNIDADE III Figura 13. Locais possíveis de acesso venoso temporário. Fonte: <http://www.clevelandclinicmeded.com/medicalpubs/diseasemanagement/gastroenterology/principles-of-nutrition- support/>. Acessado 23 de dezembro de 2015. 68 UNIDADE III │TERAPIA NUTRICIONAL Figura 14. Acessos venosos mais apropriados em longo prazo. Fonte: <http://www.clevelandclinicmeded.com/medicalpubs/diseasemanagement/gastroenterology/principles-of-nutrition- support/>. Acessado 23 de dezembro de 2015. Composição Da mesma forma que a dieta enteral, todos os nutrientes essenciais para manutenção da vida devem compor a solução parenteral em quantidades adequadas às necessidades do paciente per se e à sua condição clínica. São eles: aminoácidos, carboidratos, lipídios, eletrólitos, vitaminas, minerais, elementos-traço e água. 69 TERAPIA NUTRICIONAL│ UNIDADE III É importante destacar que a composição da solução parenteral pode ser modificada conforme as alterações das condições clínicas do paciente no decurso de seu tratamento. Existem formulações padronizadas para adultos, mas estas devem ser indicadas somente para pacientes metabolicamente estáveis. Ademais, pode-se adicionar insulina na solução parenteral, porém a sua concentração depende de um rigoroso e rotineiro controle glicêmico do paciente. A heparina também pode ser acrescenta à solução parenteral como medida profilática de trombose. Administração A Resolução RDC no 45, de 12 de março de 2003, que dispõe sobre o Regulamento Técnico de Boas Práticas de Utilização das Soluções Parenterais (SP) em Serviços de Saúde, está disponível na íntegra no endereço indicado como sugestão de leitura complementar: <http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/e8e87900474597449fc2df3fbc4c6735/ RDC+N.º+45%2C+DE+12+DE+MARÇO+DE+2003.pdf?MOD=AJPERES>. A Terapia Nutricional Parenteral é administrada de forma contínua ou cíclica. A infusão contínua, geralmente, é praticada no ambiente hospitalar. Por outro lado, a infusão cíclica geralmente é indicada para pacientes em atendimento domiciliar. A infusão cíclica noturnapermite uma maior mobilidade do paciente durante o dia. Além disto, a infusão cíclica aproxima-se mais do padrão alimentar normal do que a infusão contínua. Cabe lembrar que o uso de bombas de infusão garante a administração segura e eficaz da solução parenteral, pois controla, rigorosamente, o fluxo da solução prescrita, além de indicar a presença de ar no sistema, alterações da pressão do equipo, entre outros. Complicações Segundo Sobotka (2009), as complicações da Terapia Nutricional Parenteral em idosos não diferem das complicações encontradas em outras idades, mas está intimamente ligadas as comorbidades que os idosos apresentam com maior frequência. Ainda segundo Sobotka (2009), a resistência à insulina, hiperglicemia, declínio das funções cardíacas e renais, além da iminência de deficiência de micronutrientes constituem as principais alterações metabólicas que acometem os idosos em uso de Terapia Nutricional Parenteral. 70 UNIDADE III │TERAPIA NUTRICIONAL A prevalência de resistência à insulina e diabetes aumenta com o avançar da idade. Deste modo, hiperglicemia é considerada umas das complicações mais comuns em idosos que recebem Terapia Nutricional Parenteral. Neste caso, pode-se aumentar o conteúdo de lipídios na fórmula até 50% da ingestão energética total. Também é comum que os idosos sejam acometidos por doenças cardíacas e renais. Neste caso, a formulação da solução parenteral, no caso de pacientes idosos com prejuízo das funções cardíacas e renais, deve ter restrição de fluidos e sódio. A deficiência de vitaminas, minerais e elementos-traço é comum de se encontrar na população idosa por causa de ingestão alimentar inaquedada e/ou insuficiente ou porque a doença apresenta alta demanda. Neste caso, estes componentes devem compor a solução parenteral desde o início do tratamento com a finalidade de corrigir a falta. A sepse é a principal complicação relacionada ao cateter e está associada com aumento da mortalidade e dos custos dos serviços de saúde. A prevenção deste tipo de infecção se faz pelo rigoroso controle asséptico do cateter. Monitoramento Quando houver suspeita de infecção relacionada ao cateter, deve-se verificar a presença de hiperemia, exsudato ou sensibilidade ao toque ou manipulação. Se o resultado da cultura sanguínea central e periférica for positivo, deve-se introduzir a antibioticoterapia e, se for positivo para fungos, o cateter deve ser removido. Segundo a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral, em conjunto com a Associação Brasileira de Nutrologia (2011), rotineiramente, o local do cateter é limpo com solução fisiológica (cloreto de sódio a 0,9%) e, se não houver anormalidades, a antissepsia local é feita com álcool isopropil a 70% ou gliconato de clorexedina a 2%. Em seguida, o curativo oclusivo é feito com gaze e fita adesiva hipoalergênica ou com filme transparente semipermeável aplicado diretamente sobre o cateter e a pele. O filme semipermeável, por ser transparente, permite a visualização do local. O curativo é trocado a cada 48 horas, ou mais frequentemente, se houver presença de sujidade, secreção ou umidade. Já o filme transparente semipermeável pode ser trocado a cada 5 a 7 dias, conforme condições do local e orientações do fabricante. Cabe lembrar que baixas doses de anticoagulantes são usados em cateteres de longa permanência para prevenção de tromboembolismo, enquanto antimicrobianos são usados para reduzir infecções em cateteres centrais de curta duração. 71 TERAPIA NUTRICIONAL│ UNIDADE III Reitera-se que a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral, em conjunto com a Associação Brasileira de Nutrologia (2011), publicou recomendações essenciais para a administração e o monitoramento da Terapia Nutricional. A diretriz está disponível no endereço indicado: <http://www.projetodiretrizes.org.br/9_volume/terapia_nutricional_ administracao_e_monitoramento.pdf>. 72 UNIDADE IV TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR Conforme comentado nos capítulos anteriores, os idosos hospitalizados, em especial os desnutridos, apresentam maior índice de mortalidade. Entretanto, uma parte destes pacientes terá alta hospitalar e retornará as suas atividades habituais ou necessitará de cuidados clínicos e nutricionais em domicílio. Neste caso, a Terapia Nutricional Domiciliar permitirá que o paciente continue o tratamento nutricional no ambiente familiar restituindo assim o idoso ao convívio familiar, além de reduzir custos e o tempo de internação hospitalar. CAPÍTULO 1 Critérios de seleção e indicações Conceitos Conforme a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral e a Associação Brasileira de Nutrologia (2011), a Terapia Nutricional Domiciliar é definida como assistência clínica e nutricional (oral, enteral e/ou parenteral) ao paciente em seu domicílio com o objetivo de manter ou recuperar a saúde, a funcionalidade e a comodidade do paciente. Em curto prazo, a Terapia Nutricional Domiciliar pode atenuar a progressão da doença e da desnutrição, além de promover a cicatrização de feridas e, em longo prazo, a Terapia Nutricional Domiciliar pode promover melhora do estado nutricional e das capacidades físicas e mentais do idoso. É importante ressaltar que a Terapia Nutricional Domiciliar depende da atuação integrada de uma equipe multiprofissional de terapia nutricional (EMTN) composta por médico, enfermeiro, nutricionista e farmacêutico. 73 TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR│ UNIDADE IV Quando bem planejada e monitorada pela equipe multiprofissional, a Terapia Nutricional Domiciliar apresenta melhor custo-benefício quando comparada à Terapia Nutricional praticada no ambiente hospitalar. A diminuição da frequência de reinternação hospitalar, bem como a melhora da qualidade de vida do paciente e de sua família, são indicadores de qualidade da atenção domiciliar. Critérios de seleção De maneira geral, os pacientes com indicação de Terapia Nutricional Domiciliar são identificados no hospital. No entanto, os pacientes ambulatoriais ou provenientes de consultórios ou clínicas médicas também podem ser avaliados para receberem atendimento nutricional em domicílio. Assim que a equipe multiprofissional de terapia nutricional (EMTN) identificar o paciente com indicação de cuidados nutricionais em domicílio durante a internação hospitalar, ela deverá avaliar a elegibilidade da Terapia Nutricional Domiciliar antes da transferência para o domicílio. Neste caso, quais são os requisitos mínimos para a aprovação da Terapia Nutricional Domiciliar? Segundo a diretriz sobre Terapia Nutricional Domiciliar publicada pela Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Associação Brasileira de Nutrologia e Associação Brasileira de Nutrologia (2011), a aprovação da Terapia Domiciliar depende pelo menos de uma tríade de fatores: paciente, cuidador e ambiente domiciliar. » O paciente deve apresentar estabilidade hemodinâmica e metabólica, ou seja, o paciente deve apresentar condição clínica que permita a continuidade do tratamento em domicílio. » O cuidador deve ter capacidade para compreender e executar as orientações da equipe multiprofissional de terapia nutricional (EMTN) de forma correta. » O ambiente domiciliar deve ser seguro e ter estrutura adequada para que a dieta seja armazenada, manipulada e administrada com higiene. Basicamente, o domicílio deve ter, pelo menos, eletricidade, água tratada, equipamento de refrigeração e telefone. 74 UNIDADE IV │ TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR Cabe lembrar que uma fonte pagadora, quer seja pública ou privada, deverá custear os procedimentos previstos para a Terapia Nutricional Domiciliar. Treinamento É imprescindível que o paciente e os familiares sejam esclarecidos sobre questões acerca da Terapia Nutricionial Domiciliar, tais como, indicações da terapia, vantagens e desvantagens da terapia, consequências de não aceitar a terapia, risco de complicações da terapia, entre outros. No caso do cuidadorser um membro da família, o treinamento do mesmo deve ser iniciado no hospital e continuar no domicílio até que o familiar se sinta competente para se responsabilizar pela rotina de cuidados ligados à alimentação do paciente. Pacientes encaminhados de ambulatórios, consultórios ou clínicas médicas para Terapia Nutricional Domicilar sem hospitalização prévia também devem ser preparados adequadamente para se adaptar ao novo estilo de vida. Para que o paciente, familiar e/ou cuidador sejam bem treinados em relação à rotina de cuidados ligados à alimentação, as orientações devem ser claras e precisas conforme o seu grau de escolaridade e as intervenções devem ser praticadas de forma padronizada pela equipe multiprofissional de terapia nutricional (EMTN). De maneira geral, paciente, familiares e/ou cuidadores envolvidos com a administração Terapia Nutricional Enteral Domiciliar devem ser instruídos principalmente sobre: » Compra, armazenagem, manipulação e preparo da fórmulas/medicamentos. » Cuidados com o acesso enteral. » Cuidados para prevenção de deslocamento e obstrução da sonda enteral. » Método de administração e, se houver, operação da bomba de infusão. » Reconhecimento de complicações. Já o treinamento dos pacientes, familiares e/ou cuidadores que administram a Terapia Nutricional Parenteral Domiciliar envolve especialmente: » Técnica de assepsia. » Acesso aos cateteres implantáveis, se for o caso. 75 TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR│ UNIDADE IV » Preparação e administração de fórmulas parenterais. » Certificação da dieta prescrita versus administrada. » Reconhecimento de complicações, em especial de distúrbios metabólicos. Essas orientações, segundo Shronts (2000), devem ser passadas de forma verbal e escrita e seguidas de demonstrações práticas. As visitas devem ser repetidas até que o paciente, familiar e/ou cuidador sejam capazes de realizar todos os procedimentos com exatidão. Quando os profissionais da equipe multiprofissional de terapia nutricional (EMTN) visitam o paciente no domicílio, é importante direcionar a atenção ao paciente e especialmente ao familiar que cuida do idoso, porque cabe a ele todos os cuidados médicos e principalmente a correta administração da Terapia Nutricional prescrita, quando o paciente for funcionalmente dependente. Segundo Borges (2000), o GANEP, grupo atuante na área desde 1984, considera que o êxito da Terapia Nutricional Domiciliar está diretamente associado com a conscientização, motivação, educação e treinamento rigoroso do paciente, familiar e/ou cuidador. Conversar abertamente e amparar psicologicamente o paciente e a família são ações empáticas que os profissionais devem praticar para compreender as reais necessidades do idoso e de sua família com o objetivo de favorecer a qualidade de vida e reduzir grande parte da preocupação e da ansiedade que todos possam estar vivenciando. Para a reflexão das questões bioéticas envolvidas no cuidado do idoso em domicílio, leia o artigo disponível no endereço indicado abaixo: <http://www.scielosp.org/pdf/csp/v20n4/13.pdf>. Indicações 1. Quando a Terapia Nutricional Domiciliar é indicada? Segundo a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral e a Associação Brasileira de Nutrologia (2011), a Terapia Nutricional Domiciliar, quer seja oral, enteral e/ou parenteral, será indicada para dar continuidade ao atendimento nutricional iniciado no hospital. 76 UNIDADE IV │ TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR Sugere-se a consulta da unidade anterior, em que todas as indicações de Terapia Nutricional Oral, Enteral e Parenteral em geriatria foram descritas. De maneira geral, a Terapia Nutricional Enteral Domiciliar é indicada para os pacientes com trato gastrinstestinal funcionante e que apresentem condições estruturais e funcionais que contraindicam a ingestão oral de alimentos, enquanto a Terapia Nuticional Parenteral Domiciliar é indicada para pacientes com trato gastrintestinal não funcionante. 2. Quando a Terapia Nutricional Oral é indicada em domicílio? O uso de suplementos orais no domicílio visa a promoção do estado nutricional do idoso por meio do fornecimento adequado de energia e nutrientes, da mesma forma que o uso de suplementos orais no hospital. É interessante comentar que as fórmulas enterais têm sido comumente consumidas por via oral com o intuito de aumentar o aporte energético, proteico e de micronutrientes dos pacientes, em especial os idosos. 3. Quando a Terapia Nutricional Enteral é indicada em domicílio? Em domicílio, a Terapia Nutricional Enteral é indicada para manter ou melhorar o estado nutricional dos pacientes que não podem se alimentam adequadamente por via oral. Desnutrição, disfagia, doença inflamatória intestinal, enfermidades múltiplas, neuropatia, queimadura, quimioterapia e radioterapia são condições que normalmente cursam com indicação de Terapia Nutricional Enteral em domicílio. 4. Quando a Terapia Nutricional Parenteral é indicada em domicílio? A Terapia Nutricional Parenteral é indicada em domicílio para os pacientes impossibilitados temporária ou permanentemente de receberem Terapia Nutricional Oral ou Enteral. Cabe lembrar que a indicação da Terapia Nutricional Parenteral em domicílio é desafiadora, visto o seu alto custo. Neste caso, o custo-benefício da implantação da Terapia Nutricional Parenteral em domicílio deve ser bem avaliado e preciso. Câncer, doença de Crohn, isquemia mesentérica, síndrome de má absorção, síndrome do intestino curto, entre outros, são alguns exemplos de indicação de Terapia Nutricional Parenteral em domicilio. 77 TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR│ UNIDADE IV Recomendações para o idoso Segundo Teixeira da Silva (2000), a necessidade energética do idoso pode ser calculada conforme a equação de Harris-Benedict (1919) descrita a seguir e ajustada conforme a faixa etária (quadro 13). Fórmula de Harris-Benedict para homens: 66,437 + (5,0033 x altura [cm]) + (13,7516 x peso [kg]) – (6,755 x idade [anos]) Fórmula de Harris-Benedict para mulheres: 655,0955 + (1,8496 x altura [cm]) + (9,5634 x peso [kg]) – (4,6756 x idade [anos]) Quadro 13. Modificação da necessidade calórica de acordo com faixa etária (Recommended Dietary Allowances – RDA, 1980). Faixa etária Redução da necessidade calórica Desconto diário em calorias 51 a 75 anos 10% Homens: - 200 Mulheres: - 200 A partir de 76 anos 20 a 25% Homens: - 500 Mulheres: - 400 Fonte: Teixeira da Silva (2000, p. 1005). Apesar de ocorrer diminuição da massa magra e da atividade física, a necessidade de proteínas não diminui com o avançar da idade. Conforme mencionado no capítulo 1 da unidade III, segundo Deutz (2014), recomenda-se de 1,0 a 1,2 g de proteína/por Kg de peso corporal/por dia para idosos saudáveis e de 1,2 a 1,5 g e proteínas/Kg de peso corporal/por dia para os idosos com doenças agudas ou crônicas. Menores ou maiores recomendações são restritas à situações críticas. Ademais, conforme mencionado no capítulo 1 da unidade I, segundo Teixeira da Silva (2000), a necessidade hídrica do idoso é de 1 mL/Kcal ingerido ou 30 mL/Kg de peso corporal. Cabe lembrar que o idoso apresenta diminuição da sensação de sede que, por sua vez, pode contribuir para a desidratação. 78 CAPÍTULO 2 Administração e monitoramento Acessos 1. Quais são os critérios a serem considerados na escolha do acesso enteral em domicílio? O acesso da Terapia Nutricional Enteral em domicílio pode ser feito por sonda nasoenteral (nasogástrica ou nasojejunal) ou estomias (gastrostomia ou jejunostomia). Fatores como diagnóstico clínico, previsão de duração da terapia, funcionalidade do trato gastrintestinal e preferência do paciente e de seus familiares devem ser considerados no momento da escolha da via de acesso. Além disso, o conhecimento sobre as características dos dispositivos enterais é fundamental para o sucesso da Terapia Nutricional Domiciliar. As técnicas de inserção e os tipos dos dispositivosenterais já foram descritas na unidade III do presente caderno de estudos e pesquisa. Segundo Shronts (2000), as sondas nasoentéricas são preferencialmente utilizadas para Terapia Nutricional de curto prazo. Contudo, se as sondas nasoentéricas forem utilizadas para Terapia Nutricional de longo prazo, recomenda-se a troca periódica do dispositivo para evitar a erosão da nasofaringe e/ou desintegração da sonda. A sonda nasogástrica apresenta baixo risco de colocação, é fácil de ser removida, mas a confirmação do posicionamento da sonda é difícil de ser realizada fora do hospital, além de se deslocar com facilidade. Basicamente, a sonda nasojejunal apresenta as mesmas vantagens e desvantagens da sonda nasogástrica, mas não é recomendada para pacientes que recebem alimentação em bolo com seringa ou alimentação por infusão gravitacional rápida, pois não é bem tolerada. Por outro lado, a acesso jejunal beneficia pacientes com risco aumentado de aspiração. O quadro 14 apresenta os diferentes tipos de sonda enterais e suas principais vantagens e desvantagens. 79 TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR│ UNIDADE IV Quadro 14. Vantagens e desvantagens dos dispositivos de acesso enteral. Tipo de sonda Vantagens Desvantagens Nasogástrica. Baixo risco de colocação. Fácil remoção. Colocação difícil de verificar fora do hospital. Facilmente deslocada por tosse ou vômito. Nasojejunal. Baixo risco de colocação. Fácil remoção. Permite alimentação de curta duração. Colocação difícil de verificar fora do hospital. Facilmente deslocada por tosse ou vômito. Alimentação em bolo pouco tolerada. Gastrostomia endoscópica apercutânea. Colocação sem anestesia geral. Melhor imagem corporal que sonda nasoenteral. Permite aspiração de resíduos. Usável dentro de horas após a colocação. Requer procedimentos invasivos. Remoção pode necessitar de endoscopia. Pode ocorrer irritação de pele ou infecção. Risco de aspiração com alimentação em bolo e mau reflexo de engasgo. Gastrostomia cirúrgica. Melhor imagem corporal que sonda nasoenteral Permite aspiração de resíduos Colocação requer procedimento cirúrgico. Pode ocorrer irritação de pele ou infecção. Risco de aspiração com alimentação em bolo e mau reflexo de engasgo. Gastrostomia de baixo perfil. Melhor imagem corporal que sonda nasoenteral. Permite aspiração de resíduos. Admite paciente ativo. Mais caro do que sondas convencionais. Tamanho e comprimento devem ser precisamente medidos ou podem ocorrer desconforto e vazamento. Jejunostomia cirúrgica. Melhor imagem corporal que sonda nasoenteral. Permite acesso abaixo de obstruções ou fístulas. Colocação requer procedimento cirúrgico. Pode ocorrer irritação de pele ou infecção. Alimentação em bolo pouco tolerada. Difícil de substituir. Fonte: Weckwerth e Ireton-Jones (1998), citado por Shronts (2000, p. 957). 2. Quais são os critérios a serem considerados na escolha do acesso venoso? Logo que a implantação da Terapia Nutricional Parenteral for indicada em domicílio, o tipo de acesso venoso deve, por conseguinte, ser determinado. Se a Terapia Nutricional Parenteral for de curta duração, opta-se pelo acesso venoso periférico, mas se a duração da Terapia Nutricional Parenteral passar de 15 dias, opta-se então pelo acesso venoso central. O acesso venoso central é frequentemente praticado por um médico durante a hospitalização, mas há casos que o cateter é introduzido após a alta hospitalar em centro cirúrgico. As descrições das vias de acesso venoso central e periférico foram explanadas anteriormente, no presente caderno de estudos e de pesquisa. Cabe lembrar que os cateteres semi-implantados ou totalmente implantados são mais fáceis para pacientes, familiares e/ou cuidadores manusearem e estão menos associados com complicações infecciosas quando comparados com os cateteres centrais de inserção periférica (PICC). 80 UNIDADE IV │ TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR No entanto, se a Terapia Nutricional Parenteral for de curta duração (menos que 15 dias), os cateteres centrais de inserção periférica (PICC) podem ser utilizados. Estes podem ser introduzidos no domicílio por um enfermeiro capacitado sem a necessidade de procedimento cirúrgico. Fórmulas e soluções 1. Como selecionar as fórmulas enterais em domicílio? As principais vantagens das dietas industrializadas em comparação as dietas artesanais são: composição nutricional estabelecida e maior controle microbiológico. O mercado atual oferece grande variedade de fórmulas enterais. Contudo, a escolha da fórmula enteral que será utilizada em domicílio pelo idoso deve se basear primariamente nas necessidades nutricionais do paciente, na doença de base, na tolerância intestinal e na via de acesso. Pacientes idosos se beneficiam com o uso de fórmulas enterais com alta densidade calórica e que contenham fibras alimentares, porém o custo, disponibilidade e facilidade de uso da dieta industrializada também pode influenciar a escolha da fórmula enteral. 2. Como selecionar os componentes da solução parenteral em domicílio? É importante enfatizar que a Terapia Nutricional Parenteral é composta por diferentes tipos de nutrientes: proteínas, carboidratos, lipídios, eletrólitos, vitaminas, elementos- traço e água. Para que a solução parenteral seja mais adequada possível para cada paciente, é necessário fazer uma avaliação prévia dos exames laboratoriais de macro e micronutrientes, da função hepática e do hemograma completo. » Proteínas: aminoácidos cristalinos devem estar presentes nas formulações parenterais de forma individualizada conforme a necessidade e tolerância do paciente. Medidas subjetivas como progressão da cicatrização e aumento da massa corpórea podem estimar a adequação da quantidade de proteína. » Carboidratos: dextrose é a principal fonte de carboidrato e de energia na maioria das formulações parenterais, mas a concentração a ser administrada depende especialmente da via de administração, da razão entre calorias totais e nitrogênio e da tolerância à glicose. O aporte de dextrose pode ser reduzido no caso de pacientes críticos e/ou com 81 TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR│ UNIDADE IV diabetes que cursam com hiperglicemia. Neste caso, as calorias derivadas dos lipídios devem substituir as calorias derivadas dos carboidratos. » Lipídios: emulsões lipídicas são fontes concentradas de energia infundidas intravenosamente. As emulsões lipídicas podem ser misturadas à formulação parenteral baseada em glicose ou administradas de forma isolada. Quando a emulsão lipídica é misturada à solução parenteral baseada em glicose, a solução torna-se menos estável. Cabe lembrar que a infusão de emulsões lipídicas previne a deficiência de ácidos graxos essenciais e, se conterem ácidos graxos poliinsaturados do tipo ômega-3, podem favorecer o sistema anti-inflamatório. » Eletrólitos: sódio, potássio, cloro, magnésio, cálcio, fósforo, entre outros são prescritos em concentrações variadas dependendo das condições específicas de cada paciente para manutenção do equilíbrio hídrico e eletrolítico do organismo. » Vitaminas e elementos-traço: estes micronutrientes devem ser administrados nas formulações parenterais tanto de pacientes eutróficos quanto de pacientes desnutridos para prevenção de sua deficiência. Administração 1. Quais as técnicas de administração da Terapia Nutricional Enteral em domicílio? Segundo Shronts (2000), há 3 maneiras de se administrar a Terapia Nutricional Enteral em domicílio: por infusão contínua, infusão gravitacional intermitente ou infusão em bolo. » Infusão contínua: administração de fórmula a uma velocidade constante. O tempo de infusão deve ser limitado de 10 a 14 horas. A infusão noturna facilita as realizações de atividades diurnas e o convívio familiar. Requer, mas não obrigada, a utilização de bomba de infusão. É possível administrar a fórmula continuamente sem a bomba de infusão, mas esse controle do fluxo é muito difícil de ser obtido.Recomendado para os pacientes com acesso intestinal, pois minimiza complicações gastrintestinais como cólicas e diarreia. » Infusão gravitacional intermitente: administração de fórmula de forma intermitente (3 a 6 ou mais vezes) durante 30 a 60 minutos. Não requer, 82 UNIDADE IV │ TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR mas não exclui a utilização de bomba de infusão. Geralmente, é a via de administração mais utilizada em domicílio, porém, depende da tolerância individual de cada paciente. » Infusão em bolo: administração com seringa de um grande volume de fórmula em curto período de tempo de forma intermitente (3 a 6 ou mais vezes). O volume administrado por seringa é similar ao volume administrado por gotejamento gravitacional, porém, é feito de forma mais rápida. A infusão em bolo apresenta baixo custo, rapidez no procedimento e é considerado mais fisiológico por apresentar similaridade com as refeições regulares, entretanto, aumenta o risco de aspiração e intolerância intestinal. Não é recomendado para os pacientes com acesso intestinal. Cabe lembrar que a adaptação dos horários de administração da dieta e medicações com a rotina da família e da casa facilitarão a aceitação da Terapia Nutricional Enteral Domiciliar e os cuidados com paciente. 2. Quais as técnicas de administração da Terapia Nutricional Parenteral em domicílio? Segundo Shronts (2000), a administração da Terapia Nutricional Parenteral é feita de forma contínua ou cíclica. A infusão contínua geralmente é empregada no ambiente hospitalar. Em contrapartida, no domicílio, a Terapia Nutricional Parenteral é infundida ciclicamente no período noturno. No entanto, é necessário que o paciente tolere um volume maior de solução e seja capaz de metabolizar nutrientes, especialmente a glicose, de forma mais rápida. Deste modo, pacientes portadores de diabetes, doença renal ou cardiovascular, por exemplo, devem avaliar se os benefícios da infusão cíclica suplantam seus malefícios, em relação à infusão contínua. Ademais, a infusão intermitente da Terapia Nutricional Parenteral permite que o paciente não dependa da bomba de infusão durante o dia e assim mantenha um estilo e qualidade de vida mais próximo ao anterior à doença. Ademais, a infusão intermitente da Terapia Nutricional Parenteral é considerada mais fisiológica, pois a secreção de enzimas digestiva e hormônios é mais cíclica do que contínua. Sempre que possível, os horários de infusão da Terapia Nutricional Enteral ou Parenteral em domicílio e os horários de visita dos profissionais da equipe multiprofissional de terapia nutricional (EMTN) devem ser adaptados à rotina da 83 TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR│ UNIDADE IV casa de forma que o idoso possa participar das atividades diárias da família com o mínimo de interrupções, como sentar-se a mesa, assistir televisão, receber as pessoas que voltam do trabalho ou da escola etc. Complicações Cabe lembrar que existem complicações relacionadas à doença de base que podem exigir o atendimento imediato da equipe médica e as complicações inerentes à Terapia Nutricional Domiciliar que serão descritas a seguir. Cabe lembrar, também, que a monitorização dos pacientes é fundamental para prevenir complicações e consequentemente otimizar a Terapia Nutricional Domiciliar. 1. Quais as complicações da Terapia Nutricional Enteral praticada em domicílio? A saída e obstrução da sonda nasoenteral é a complicação mecânica mais frequente da Terapia Nutricional Enteral Domiciliar. Diarreia e obstipação são as complicações gastrintestinais que mais acometem com os pacientes que recebem Terapia Nutricional Enteral em domicílio. A adição de fibras ou a escolha de fórmulas com fibras tem se mostrado eficaz para o tratamento gastrintestinais como a diarreia. Se a diarreia for ocasionada por contaminação bacteriana, técnicas de higiene apropriadas para armazenagem, manipulação e infusão da fórmula minimizam o risco deste tipo de complicação. Outras causas de diarreia são antibioticoterapia e a administração da fórmula muito fria, com alta osmolaridade ou de forma muito rápida. O quadro 15 apresenta as principais complicações da Terapia Nutricional Enteral em domicílio, suas possíveis causas e as medidas de prevenção e intervenção. Quadro 15. Complicações da Terapia Nutricional Enteral Domiciliar. Complicação Possíveis causas Prevenção e intervenção Mecânicas Retirada acidental da sonda nasoenteral ou estomia. Limpar e fazer curativo oclusivo. Recolocar a sonda assim que possível. 84 UNIDADE IV │ TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR Asfixia, engasgo ou tosse com sonda nasoenteral. Deslocamento da sonda. Confirmar o posicionamento da sonda. Retirar a sonda, se os sintomas persistirem. Obstrução da sonda. Lavagem inadequada. Aderência de medicamento. Diâmetro estreito. Irrigar com água potável quente. Irrigar com enzimas pancreáticas. Aspirar ao conteúdo da sonda com seringa. Irritação ou infecção do local da sonda. Cuidados assépticos inadequados. Material da sonda. Pele sensível. Limpar o local 1 ou 2 vezes por dia. Não usar antissépticos repetidamente. Usar antibióticos tópicos. Gastrintestinais Diarreia. Antibioticoterapia ou drogas indutoras de diarreia. Contaminação microbiológica. Velocidade de infusão rápida. Fórmula muito fria. Fórmula hiperosmolar ou pobre em resíduo. Identificar drogas laxativas. Utilizar técnicas higiênicas para manipular a dieta. Diminuir a velocidade de infusão. Administrar a dieta em temperatura ambiente. Optar por fórmula isoosmolar e com fibra. Obstipação. Ingestão insuficiente de líquido. Fórmula pobre em resíduos. Inatividade. Medicamentos. Ingerir mais líquidos. Adicionar fibra ou optar por fórmula com fibra. Náusea, vômito. Volume muito grande. Velocidade de infusão rápida. Esvaziamento gástrico ruim. Gastroparesia. Diminiur o volume. Diminuir a velocidade de infusão. Optar por acesso intestinal Usar drogas pró- cinéticas. Borborigmo, cólica, distensão, gás. Velocidade de infusão rápida. Adaptação à dieta enteral. Ar dentro da sonda. Inatividade. Gastroparesia. Diminuir a velocidade de infusão. Retirar todo ar antes de conectar o aparelho à sonda. Optar por fórmula com menos gordura. Usar drogas pró-cinéticas. Outras Aspiração. Volume muito grande. Ingestão oral inadequada. Alimentar-se deitado. Diminuir o volume. Diminuir a velocidade de infusão. Avaliar a mastigação e deglutição. Optar por acesso intestinal. Desidratação. Ingestão insuficiente de líquido. Perda excessiva de líquido (diarreia, vômito). Ingerir mais líquidos. Tratar a diarreia e o vômito. Fonte: Weckwerth e Ireton-Jones (1998) citado por Shronts (2000). 2. Quais as complicações da Terapia Nutricional Parenteral praticada em domicílio? As complicações metabólicas, como alterações de glicemia e de eletrólitos geralmente estão associadas com alterações do volume e da concentração dos componentes da solução parenteral e/ou são decorrentes da doença. 85 TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR│ UNIDADE IV A síndrome da realimentação ou síndrome do roubo celular é uma complicação metabólica que ocorre em pacientes desnutridos ou cronicamente inapetentes que são alimentados com a quantidade necessária para sua existência. Neste caso, a Terapia Nutricional deve ser evoluir lentamente, sempre com reposição de fósforo, potássio e magnésio baseada em exames laboratoriais diários. A contaminação do cateter é a principal complicação da Terapia Nutricional Parenteral em domicílio associada ao acesso venoso. A trombose venosa é uma complicação mecânica que pode resultar em oclusão parcial ou total do cateter que, por sua vez, aumenta o risco de infecção. Cabe lembrar que a ocorrência de sepse é menor nos pacientes que recebem a Terapia Nutricional Parenteral em domicílio do que nos pacientes que recebem a Terapia Nutricional Parenteral no hospital. Lembre-se de que a dependência do uso de alimentação artificial paraa sobrevivência pode repercutir no estilo de vida dos pacientes e de seus familiares e, portanto, pode ser considerada uma complicação da Terapia Nutricional Domiciliar. Neste caso, fatores como sono, viagens, atividades físicas e atividades sociais e de lazer devem ser adaptados a fim de preservar a qualidade vida do paciente e de seus familiares. A atuação do psicólogo é fundamental nesta situação. Monitoramento Todos os pacientes que fazem uso da Terapia Nutricional Domiciliar necessitam ser monitorados para que o tratamento alcance os resultados esperados e evite a reinternação. As causas mais frequentes da readmissão hospitalar estão relacionadas com a doença de base ou nova doença, além de sepse decorrente da infecção do cateter. O monitoramento reconhece a eficácia terapêutica, os efeitos adversos e as mudanças do estado clínico do paciente que, por ventura, possa alterar a indicação da Terapia Nutricional Domiciliar. A transferência da Terapia Nutricional Parenteral para Enteral, da Terapia Nutricional Enteral para Oral ou da Terapia Nutricional Parenteral diretamente para Oral depende de um monitoramento cuidadoso e minucioso. O monitoramento deve ser periódico, mas a frequência depende primariamente do estado clínico do paciente, da aceitação da Terapia Nutricional e dos cuidados que 86 UNIDADE IV │ TERAPIA NUTRICIONAL DOMICILIAR o paciente recebe. Alguns pacientes necessitam inicialmente de visitas diárias que, dependendo da evolução, são espaçadas para semanais e posteriormente para mensais. Os profissionais que acompanham os pacientes tratados em domicílio devem estar continuamente atualizados em seus conhecimentos e acompanhar as atualizações da legislação pertinente ao assunto para que possam oferecer subsídios suficientes para a melhora do quadro clínico e nutricional do paciente. Ademais, é imprescindível que os profissionais envolvidos estejam disponíveis todos os dias da semana por 24 horas para atender prontamente o paciente. Para finalizar os nossos estudos em Terapia Nutricional Domiciliar, leiam com atenção o “caderno de atenção domiciliar: cuidados em terapia nutricional” divulgado recentemente (2015) pelo Departamento de Atenção Básica da Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde do Brasil. Destacam-se os exemplos de casos de idosos em atendimento domiciliar e a apresentação de fórmulas e equações referentes ao peso, à estatura, aos perímetros corporais e às pregas cutâneas. Para acessar o material, clique no link: <http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/caderno_atencao_ domiciliar_vol3.pdf>. 87 Referências AMERICAN GERIATRICS SOCIETY ETHICS COMMITTEE AND CLINICAL PRACTICE AND MODELS OF CARE COMMITTEE. American Geriatrics Society feeding tubes in advanced dementia position statement. J Am Geriatr Soc. 2014 Aug;62(8):1590-3. AYELLO, E.A.; BRADEN, B. How and why to do pressure ulcer risk assessment. Adv Skin Wound Care. 2002 May-Jun;15(3):125-31; quiz 132-33. 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