Prévia do material em texto
UNIVERSIDADE FEDERAL DE BRASÍLIA FACULDADE DE DIREITO CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO RAYANE MARCELINO DE SOUSA A (IN)EXISTÊNCIA DE PRESUNÇÃO DE ESFORÇO COMUM NA APLICAÇÃO DA SÚMULA 377 DO STF: UM ESTUDO DA EVOLUÇÃO JURISPRUDENCIAL DOS TRIBUNAIS SUPERIORES BRASÍLIA 2021 RAYANE MARCELINO DE SOUSA ORIENTADORA: PROFª MESTRA TAINÁ AGUIAR JUNQUILHO A (IN)EXISTÊNCIA DE PRESUNÇÃO DE ESFORÇO COMUM NA APLICAÇÃO DA SÚMULA 377 DO STF: UM ESTUDO DA EVOLUÇÃO JURISPRUDENCIAL DOS TRIBUNAIS SUPERIORES Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharela em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Brasília (UnB). BRASÍLIA 2021 RAYANE MARCELINO DE SOUSA A (IN)EXISTÊNCIA DE PRESUNÇÃO DE ESFORÇO COMUM NA APLICAÇÃO DA SÚMULA 377 DO STF: UM ESTUDO DA EVOLUÇÃO JURISPRUDENCIAL DOS TRIBUNAIS SUPERIORES Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Direito da Universidade Federal de Brasília, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Direito. Aprovado em . BANCA EXAMINADORA __________________________________ Profª. Mestra Tainá Aguiar Junquilho (Orientadora) __________________________________ Prof. Dr. João Pedro Leite Barros __________________________________ Prof. Mestre Ângelo Gamba Prata de Carvalho AGRADECIMENTOS Agradeço, primeiramente, a Deus, à Virgem Santíssima, Flor do Carmelo, e a São Miguel Arcanjo pelo zelo com que sempre guardaram e protegeram minha pobre alma. A meus pais, Wáldison e Valdeci, obrigada por, desde a minha tenra idade, terem me ensinado que eu poderia ser o que eu quisesse e, mais do que isso, terem me apoiado nas minhas decisões, mesmo aquelas com as quais ainda hoje não concordam. Obrigada por não terem me deixado desistir e por todos os sorrisos e lágrimas compartilhados. Eu não teria conseguido chegar até aqui sem o seu apoio. Por todo o amor que recebi dos senhores, serei eternamente grata. Ao meu irmão, sou grata por seu sorriso frouxo em todas as situações e a forma descontraída, quase irreverente, com que sempre tratou as minhas crises acadêmicas. Sempre tive muito orgulho de ser sua irmã, espero que seja recíproco. Por fim, ao meu querido diretor espiritual, Pe. Diego Baltz, e a nossa amada Madre Susana da Santíssima Trindade, meus mais sinceros agradecimentos por serem constante lembrança de que só Deus basta! RESUMO O presente estudo objetivou esclarecer o entendimento dos Tribunais Superiores acerca da necessidade de comprovação do esforço comum para partilha dos aquestos no regime de separação legal de bens, com base na interpretação dada à súmula 377 do Supremo Tribunal Federal (STF). Ao longo da pesquisa, buscou-se analisar as decisões do STF que deram origem à Súmula 377 do STF, as principais mudanças trazidas pelo Código Civil de 2002 no tratamento legal dado ao regime de separação legal de bens, bem como a evolução jurisprudencial do STJ e STF. Para a coleta de dados, utilizou-se como método a revisão de literatura e pesquisa jurisprudencial, centrado nos Tribunais Superiores, produzido em dois momentos: durante a vigência do Código Civil de 1916 e no período compreendido entre a promulgação do Código Civil de 2002 e o julgamento do EREsp 1.623.858/MG, em 23 de maio de 2018. Ao final, concluiu-se que, segundo jurisprudência consolidada do STJ, no regime de separação obrigatória de bens, comunicam-se aqueles havidos na constância da sociedade conjugal, desde que comprovado o esforço comum em sua aquisição. Palavras-chave: Separação Obrigatória de Bens. Súmula 377 do Supremo Tribunal Federal. Comunhão de aquestos. Esforço comum. Jurisprudência. ABSTRACT This study aimed to clarify the understanding of the Superior Courts about the need to prove that both spouses contributed in the acquisition of goods so as to share the assets under the compulsory separation of property system, based on the interpretation given to summary 377 of the Federal Supreme Court (STF). Throughout the research, we sought to analyze the STF decisions that gave rise to STF Precedent 377, the main changes brought by the Civil Code of 2002 in the legal treatment given to the legal separation of property regime, as well as the jurisprudential evolution of the STJ and STF. For data collection, bibliographic research was used as a method, through the study of the doctrinal and jurisprudential collection, centered on the Superior Courts, produced in two moments: during the validity of the Civil Code of 1916 and in the period between the enactment of the Code Civil of 2002 and the trial of EREsp 1,623.858/MG, on May 23, 2018. At the end, it was concluded that, according to the STJ's consolidated jurisprudence, under the mandatory separation of property regime, those acquired during marriage might become common goods, as long as the common effort in its acquisition is proven. Keywords: Mandatory Separation of Property. Summary 377 of the Federal Supreme Court. Partnership of acquests. Common effort. Jurisprudence. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 10 2 OS REGIMES DE BENS ........................................................................................ 13 3 O REGIME DE SEPARAÇÃO DE BENS NO CÓDIGO CIVIL DE 1916 ................ 16 3.1 O surgimento da súmula 377 do STF ............................................................... 19 3.1.1 Votos desfavoráveis à comunicação de aquestos ...................................... 20 3.1.2 Votos favoráveis à comunicação de aquestos ........................................... 22 4 O REGIME DE SEPARAÇÃO LEGAL DE BENS NO CÓDIGO CIVIL DE 2002 .. 24 4.1 A permanência da súmula 377 do STF no ordenamento jurídico brasileiro ..... 26 4.1.1 A desnecessidade de comprovação do esforço comum ............................ 28 4.1.2 A necessidade de comprovação do esforço comum .................................. 30 5 A EVOLUÇÃO JURISPRUDENCIAL DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL ...... 32 5.1 O Recurso Extraordinário nº 52.811/RS ........................................................... 33 5.2 O Recurso Extraordinário nº 64.236/CE ........................................................... 34 5.3 Recurso Extraordinário nº 78.811/RJ ............................................................... 36 5.4 Agravo Regimental no Agravo de Instrumento nº 70.303/RJ ........................... 37 5.5 Os Recursos Extraordinários nº 89.480/RJ e 91.059/SP ................................. 38 6 A EVOLUÇÃO JURISPRUDENCIAL DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA . 39 6.1 O Recurso Especial nº 646.259/RS .................................................................. 41 6.2 O Recurso Especial nº 1.199.790/MG .............................................................. 43 6.3 O Recurso Especial nº 1.171.820/PR ............................................................... 44 6.4 O Recurso Especial nº 1.403.419/MG .............................................................. 46 6.5 Os Embargos de Divergência em Recurso Especial nº 1.171.820/PR ............. 47 6.6 O Recurso Especial nº 1.593.663/DF ............................................................... 49 6.7 O Recurso Especial nº 1.689.152/SC ............................................................... 50 6.8 Os Embargos de Divergência em Recurso Especial nº 1.623.858 /MG ........... 52 7 CONCLUSÃO ........................................................................................................ 55 10 1 INTRODUÇÃO O regime matrimonial de bens defineas regras e princípios jurídicos que irão reger o patrimônio adquirido pelos cônjuges ou conviventes antes e na constância da união conjugal1. Regula não apenas a administração do patrimônio dos consortes, mas também o seu destino na partilha de bens. O regime de bens pode ser adotado por livre convenção dos nubentes ou por imposição legal, sendo que o único regime matrimonial obrigatório previsto no ordenamento jurídico brasileiro é o de separação de bens. O Código Civil de 1916, em seu art. 2592, previa a comunicação dos bens adquiridos durante a união conjugal, no regime de separação de bens, desde que não houvesse disposição em contrário no pacto antenupcial. Ocorre que o STF decidiu expandir a possibilidade de comunhão dos aquestos ao regime de separação obrigatória de bens, o que resultou na edição da súmula 3773. A promulgação do novo Código, em 2002, trouxe uma série de alterações quanto ao tratamento legal dado ao regime de separação obrigatória de bens. A principal mundança consistiu na exclusão do art. 259 do CC/16, que gerou questionamentos acerca da ineficácia da súmula 377 do STF. A despeito das discussões doutrinárias, a súmula tem sido amplamente aplicada pelos tribunais pátrios, subsistindo, porém, dissídios jurisprudenciais acerca da (des)necessidade de comprovação do esforço comum na obtenção dos aquestos, para que este sejam partilhados. Portanto, intentou-se responder ao seguinte problema de pesquisa: com base na jurisprudência dos Tribunais Superiores, é necessária a comprovação do esforço comum para partilha dos bens havidos na constância do relacionamento, quando a sociedade conjugal é regida pela separação legal de bens? 1 TARTUCE, Flávio. Direito Civil - Direito de Família - Vol. 5. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2021. 2 Art. 259. Embora o regime não seja o da comunhão de bens, prevalecerão, no silêncio do contrato, os princípios dela, quanto à comunicação dos adquiridos na constância do casamento. 3 Súmula 377 do STF: “ No regime da separação legal de bens, comunicam-se os adquiridos na constância do casamento”. 11 Para que se possa interpretar a súmula 377 do STF é necessário, antes, compreender o contexto jurídico em que se deu sua edição, os dispositivos legais nos quais se embasou e os precedentes que foram nela sintetizados. Em seguida, é importante perceber as mudanças trazidas pelo novo Código Civil no que diz respeito à regulação do regime de separação legal de bens. Por fim, é imperioso analisar a evolução jurisprudencial dos Tribunais Superiores, notadamente o acórdão proferido no EREsp 1.623.858/MG, por meio do qual a Corte Superior buscou pacificar o tema. A interferência estatal nas sociedades conjugais se dá essencialmente pelo interesse do Estado em regular o patrimônio dos contribuintes. Em um país capitalista, como o Brasil, a liberdade individual e a propriedade privada assumem posição de destaque dentre as preocupações dos cidadãos. Nesse contexto, considerando que o regime matrimonial de bens determina os efeitos patrimoniais do casamento e da união estável, saber as implicações de cada regime é essencial para que os nubentes possam exercer o seu direito à autorregulação. Ainda que a separação obrigatória de bens seja imposta por lei, ter a certeza de que o esforço comum será, ou não, presumido quando da partilha dos bens, permite aos nubentes a oportunidade de tomar as providências cabíveis. Os consortes podem, por exemplo, assegurar a separação absoluta dos bens, afastando a incidência da súmula 377 do STF por meio de pacto antenupcial4, ou ao menos manterem registro de suas contribuições na aquisição do patrimônio, a fim de poderem comprovar, caso necessário, a existência de uma sociedade de fato. Afinal, toda união conjugal termina, ora pela separação, ora pela morte. Tendo-se em vista a intensa divergência doutrinária e jurisprudencial quanto à necessidade de comprovação do esforço comum na aplicação da súmula 377 do STF, o presente estudo propõe-se a analisar o desenvolvimento jurisprudencial dos 4 SIMÃO, J. F. Separação obrigatória com pacto antenupcial? Sim é possível. Consultor Jurídico [S.l: s.n.], 2018. Nesse sentido, confira-se a seguinte decisão: “Aprovo o parecer do MM. Juiz Assessor da Corregedoria e, por seus fundamentos, que adoto, dou provimento ao recurso administrativo, para que se dê seguimento à habilitação para casamento, com adoção do regime de separação obrigatória de bens, prevalecendo o pacto antenupcial que estipula a incomunicabilidade absoluta de aquestos” (TJSP, RADM 1065469-74.2017.8.26.0100, Corregedor Geral da Justiça Manoel de Queiroz Pereira Calças, Data do Julgamento: 06/12/2017, Data da Publicação: 23/01/2018). 12 Tribunais Superiores acerca do tema, a fim de sintetizar o entendimento majoritário das Cortes Superiores. O trabalho de conclusão de curso estrutura-se em seis capítulos, sendo que o primeiro é destinado à introdução e o segundo, à conceituação do regime matrimonial de bens. No terceiro capítulo, são apresentadas as disposições legais do Código Civil de 1916 sobre o regime da separação de bens, bem como os precedentes da Suprema Corte que culminaram na edição da súmula 377 do STF. No quarto, são expostas as alterações promovidas pelo Código Civil de 2002 no que tange ao regime da separação legal de bens, além das divergências doutrinárias a respeito da possível superação da súmula frente à promulgação do novo Código. Também são descritos os principais argumentos das correntes que defendem a presunção, ou não, do esforço comum, na aquisição de bens ao longo da união conjugal. Por fim, no quinto capítulo, organiza-se, em ordem cronológica, os precedentes mais relevantes do STF, enquanto, no sexto, faz-se o mesmo em relação aos precedentes do STJ. 13 2 OS REGIMES DE BENS O regime matrimonial de bens é composto pelas normas jurídicas que regem o patrimônio dos nubentes. Na constância da união conjugal, o regime de bens regula a administração e disposição dos bens comuns; após a separação, orienta a partilha desses bens. Em suma, define os efeitos patrimoniais do casamento e da união estável, no que diz respeito aos bens adquiridos antes e na constância do relacionamento5. Como a titularidade e o direito de dispor de determinados bens podem ser alterados pela formação de uma entidade familiar, não há casamento ou união estável sem regime de bens, que pode então ser concebido como uma "consequência jurídica" da formação de uma unidade conjugal6. Não por outra razão, ainda que o casal se silencie quanto ao regime de bens que deseja adotar, a legislação pátria prevê a existência de um regime legal, a ser aplicado na ausência de pacto antenupcial ou contrato de convivência. A depender de seu objeto, podem ser identificados dois tipos de regimes matrimoniais de bens: os que privilegiam a separação e os que favorecem a comunhão7. No regime da comunhão universal, todos os bens adquiridos pelos nubentes, a título oneroso ou gratuito, antes ou durante a união conjugal, formam um único acervo patrimonial comum, que pertence a ambos os consortes em partes iguais. Na comunhão parcial, somente os bens amealhados onerosamente e na constância do relacionamento constituirão patrimônio comum, a ser dividido ao meio. No regime da participação final nos aquestos, só há partilha dos bens angariados em conjunto pelo casal, sendo que os adquiridos em nome próprio de um dos consortes está sujeito apenas à compensação. Na separação de bens, a princípio, não há comunicação de bens. 5 GONÇALVES, C. R. Direito civil brasileiro v 6 - direito de família. São Paulo: Editora Saraiva, 2020. 6 DIAS, M. B. Manual de Direito das Famílias. Salvador: Editora JusPodivm, 2021. 7 PEREIRA, C.M.D.S. Instituições de Direito Civil - Vol. V - Direito de Família. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2020. 14Na prática, as disposições do regime de bens são particularmente relevantes na definição do destino do patrimônio do casal. Enquanto perdurar a unidade familiar, é o regime de bens que definirá a necessidade, ou não, de aval do cônjuge ou convivente para a transferência de bens. Havendo o divórcio/ dissolução de união estável ou o falecimento de um dos consortes, o regime de bens ordenará a partilha do patrimônio entre aqueles que um dia foram um casal ou entre os herdeiros. Na sucessão, determinará inclusive se o cônjuge sobrevivente tem direito sobre o espólio e, em caso positivo, se figurará como meeiro, herdeiro ou os dois. Note-se que a comunhão de vida sempre se findará, seja pela separação de fato, seja pela morte. Na sociedade conjugal os bens adquiridos durante o casamento são de propriedade exclusiva do cônjuge que os adquiriu e assim será enquanto perdurar o matrimônio, sem que o outro consorte tenha qualquer direito de propriedade sobre esses bens; entretanto, em razão do regime de comunidade de bens, o proprietário sofre restrições ou limites no seu direito de disposição, necessitando da outorga de seu parceiro para a alienação ou disposição do bem imóvel na constância do casamento. Sucedendo a dissolução do casamento ou da união estável, qualquer dos cônjuges ou convivente tem o direito e este é um efeito imediato, de requerer a partilha dos bens comuns, sobre os quais tinha apenas uma expectativa de direito durante o desenrolar do matrimônio8. Isso significa que, ao longo do casamento e da união estável, a cota-parte que cabe a cada um dos cônjuges e conviventes é uma espécie de ficção jurídica, que será materializada no momento da partilha. Dentre os princípios que regem o regime matrimonial de bens, merece destaque a autonomia privada. Tal princípio é derivado da liberdade e da dignidade humana e garante ao cidadão o direito de se autorregular, respeitados os limites impostos por lei9. Para que os nubentes possam escolher o regime de bens que melhor atende seus interesses, devem conhecer as repercussões de cada um deles. Assim, não é exagero afirmar que a ausência de consenso doutrinário e principalmente jurisprudencial acerca das implicações de determinado regime fere o princípio da autonomia privada. 8 MADALENO, R. Direito de Família. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2021, p. 767. 9 TARTUCE, F. Direito Civil - Direito de Família - Vol. 5. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2021. 15 O regime matrimonial de bens pode então ser compreendido como o conjunto de regras e princípios jurídicos que disciplinam o domínio e o destino dos bens que os cônjuges e conviventes já possuíam antes de constituírem a entidade familiar, bem como dos bens adquiridos durante a comunhão de vida. Portanto, só é possível aos nubentes exercerem em plenitude sua autonomia privada quando as características de cada regime são claras. 16 3 O REGIME DE SEPARAÇÃO DE BENS NO CÓDIGO CIVIL DE 1916 O regime matrimonial da separação de bens é caracterizado pela inexistência de patrimônio comum. Para tanto, "cada cônjuge ou convivente conserva a propriedade, administração e gozo dos bens que leva para a sociedade afetiva ou que adquire depois, e responde exclusivamente por suas dívidas"10. Com base em sua origem, a separação de bens pode ser classificada em legal ou convencional11. A separação convencional, como o próprio nome indica, é adotada por livre manifestação dos nubentes, por meio de pacto antenupcial ou contrato de convivência. A separação legal, também chamada de obrigatória, é imposta por lei, em circunstâncias nas quais o legislador considerou necessário proteger os bens de um dos consortes ou penalizá-los pela inobservância das causas suspensivas do casamento12. O Código Civil de 1916 (CC/16), em regra, possibilitava aos casais definir, por meio de escritura pública, as regras que regeriam seu patrimônio13. Somente o regime matrimonial da separação de bens poderia ser imposto por lei, nas hipóteses previstas no art. 258, parágrafo único, do CC/16. Art. 258. Não havendo convenção, ou sendo nula, vigorará, quanto aos bens, entre os cônjuges, o regime da comunhão universal. Parágrafo único. É, porém, obrigatório o da separação de bens no casamento: I. Das pessoas que o celebrarem com infração do estatuto no art. 183, nºs XI a XVI (art. 216). II. Do maior de sessenta e da maior de cinquenta anos. III. Do orfão de pai e mãe, ou do menor, nos termos dos arts. 394 e 395.embora case, nos termos do art. 183, nº XI, com o consentimento do tutor. IV. E de todos os que dependerem, para casar, de autorização judicial (arts. 183, nº XI, 384, nº III, 426, nº I, e 453). Presumiam-se, portanto, vulneráveis as idosas com mais de 50 anos e os idosos com mais de 60, bem como os menores de idade, tutelados e curatelados. A imposição da separação de bens aos idosos gerou grande debate na doutrina, vez que considerada por muitos autores como discriminação e até mesmo 10 MADALENO, R. Direito de Família. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2021, p. 772. 11 PEREIRA, C.M.D.S. Instituições de Direito Civil - Vol. V - Direito de Família. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2020. 12 RIZZARDO, A. Direito de Família, 10ª edição. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2019. 13 Art. 256. É lícito aos nubentes, antes de celebrado o casamento, estipular, quanto aos seus bens, o que lhes aprouver. 17 uma interdição compulsória14. O patamar foi posteriormente majorado para 70 anos, tanto para os homens quanto para as mulheres, mas o dispositivo nunca foi declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Quanto ao regime em si, apesar de o Código dispor que os bens de cada um dos consortes permaneceriam sob o seu domínio e exclusiva administração, a alienação de imóveis exigia a autorização do parceiro15. Em todo caso, era vedada a doação de bens entre cônjuges casados sob o regime de separação obrigatória16. Acontece que o antigo Código Civil, em seu art. 259, previa a possibilidade de comunicação dos aquestos, nos seguintes termos: "embora o regime não seja o da comunhão de bens, prevalecerão, no silêncio do contrato, os princípios dela, quanto à comunicação dos adquiridos na constância do casamento". Ainda que os nubentes optassem, por meio de escritura pública, pelo regime da separação de bens, poderíam ser surpreendidos com a aplicação das regras da comunhão parcial, caso não indicassem expressamente a incomunicabilidade dos aquestos no pacto antenupcial. Assim, o legislador armou uma espécie de armadilha para os consortes, em ato de excessiva interferência na esfera de autorregulação das partes, em tema que nem sequer é de ordem pública17. Nesse contexto, a doutrina passou a identificar dois deferentes regimes de separação convencional de bens: o de separação absoluta e o de separação relativa18. Constituía-se o regime de separação absoluta sempre que os nubentes registrassem expressamente em escritura pública o desejo de manterem incomunicáveis todos os seus bens, inclusive os amealhados na constância do casamento, optando, assim, pela separação total dos bens. 14 TEPEDINO, G. Fundamentos do Direito Civil - Direito de Família - Vol. 6. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2021. 15 Art. 276. Quando os contraentes casarem, estipulando separação de bens, permanecerão os de cada cônjuge sob a administração exclusiva dele, que os poderá livremente alienar, se forem móveis. 16 Art. 226. No casamento com infração do art. 183, nºs XI a XVI, é obrigatório o regime da separação de bens, não podendo o cônjuge infrator fazer doações ao outro. 17 RODRIGUES, S. Direito Civil. Direito de Família. 23ª ed. São Paulo: Saraiva, 2008, vol. 6. 18 AZEVEDO, A. V. Curso de direito civil : direito de família. São Paulo: Editora Saraiva, 2019. 18 Em contrapartida, caso os consortes se limitassem a escolher o regime da separação de bens, estariam sujeitosa aplicação do art. 259, de modo que separação estaria restrita aos bens adquiridos antes da formação da entidade familiar. Esse regime, que ficou conhecido como separação convencional relativa dos bens, mais se assemelhava ao regime da comunhão parcial do que da separação de bens propriamente dita19. 19 VENOSA, S.D.S. Direito Civil - Família e Sucessões - Vol. 5. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2021. 19 3.1 O surgimento da súmula 377 do STF O art. 259 do CC/16 causou grandes discussões doutrinárias e jurisprudenciais acerca da sua aplicabilidade ao regime da separação legal de bens. A ausência de consenso dos tribunais inferiores fez com que o tema chegasse ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em 1964, no julgamento dos Recursos Extraordinários nº 724320, 898421, 1095122 e 912823, o STF decidiu reiteradamente pela possibilidade de comunhão dos aquestos no regime da separação obrigatória de bens, o que resultou na edição da súmula 377 do STF. Apesar de os precedentes do STF terem se alinhado o suficiente para gerar a Súmula 377, as decisões do Supremo Tribunal não foram unânimes. Dentre os magistrados que sustentaram a separação absoluta dos bens, tem-se os Ministros Orosimbo Nonato, Waldemar Falcão, Hahnemann Guimarães e Edgar Costa. Em contrapartida, defenderam a comunicação dos aquestos, mesmo no regime da separação legal de bens, os Ministros Philadelpho Azevedo, Abner Vasconcelos, Castro Nunes, Lafayette de Andrada, Goulart de Oliveira Conda, Ribeiro da Costa e Laudo de Camargo. 20 STF, RE 7243/CE, Rel. Min. PHILADELPHO AZEVEDO, Data de Julgamento: 12/07/1943. 21 STF, RE 8984/DF, Rel. Min. Annibal Freire, Data de Julgamento: 06/08/1945. 22 STF, RE 10951/RJ, Rel. Min. Castro Nunes, Data de Julgamento: 07/10/1946. 23 STF, RE 9128/MG, Rel. Min. Edgar Costa, Data de Julgamento: 17/12/1948. 20 3.1.1 Votos desfavoráveis à comunicação de aquestos Ao proferir seu voto no julgamento dos Recursos Extraordinários nº 7.243 e 9.128, o Ministro Orosimbo Nonato sustentou que o regime da separação obrigatória configura uma punição estipulada pelo legislador, sendo norma cogente que deve ser aplicada com rigor. Em termos gerais, casar-se em inobservância às hipóteses de impedimento não torna nula a união, mas atrai o regime da separação absoluta de bens. Deste modo, na separação legal de bens, não se comunicam os aquestos. Acrescentou que o art. 259 do CC/16 se refere apenas e expressamente à separação convencional, pois faz menção ao “silêncio do contrato”. A separação legal de bens, por outro lado, decorre de uma norma de ordem pública. Destacou que o art. 226 do CC/16, o qual impõe o regime da separação aos nubentes, tidos como infratores por desobedecerem ao impedimento previsto no art. 183 do CC/16, está inserido entre as “disposições penais” do Código Civil, o que caracteriza a separação como uma pena. Pena essa que não teria eficácia caso se permitisse a comunicação dos aquestos. Ressaltou que seria contraditório assumir que a mesma lei que prevê a punição – a imposição do regime de separação – fornecesse os meios para burlá-la. Esclareceu que a exigência da separação de bens tem por escopo proteger determinados consortes contra cônjuges ou conviventes que utilizam a união conjugal para obter vantagem econômica indevida. Assim sendo, permitir a comunicação dos aquestos seria condenar a lei ao fracasso. Explicou que mesmo a partilha dos bens adquiridos com o esforço comum vai de encontro ao regime legal tal qual previsto no Código. No máximo, poderia ser fornecido ao cônjuge que contribui com a aquisição do patrimônio “um direito pessoal de crédito”, em decorrência da formação de uma sociedade de fato, que não guarda qualquer relação com a comunhão conjugal. Nos autos dos Recursos Extraordinários nº 8.984 e 9.128, o Ministro Hannemann Guimarães argumentou que não reconhecer a formação de uma sociedade de fato quando os cônjuges ou conviventes adquirem patrimônio mediante cooperação mútua causaria prejuízo injusto ao consorte que, apesar de não ter registrado o bem em seu nome, contribuiu para sua aquisição. Em sua 21 concepção, caso a vontade do legislador fosse a comunhão dos aquestos, teria sujeitado os nubentes ao regime da comunhão parcial. Também no julgamento do RE nº 9128, o Ministro Edgar Costa aduziu que o art. 258, parágrafo único, não especificou quais os bens não são passíveis de partilha, se seriam apenas os adquiridos antes do casamento/união estável ou também os amealhados ao longo do relacionamento. Sustentou ser regra de interpretação que onde a lei não distingue, não pode o intérprete distinguir, não havendo que se falar em uma separação apenas parcial dos bens. Todavia, apresentou a possibilidade de os nubentes registrarem escritura pública prevendo a comunicabilidade dos aquestos. 22 3.1.2 Votos favoráveis à comunicação de aquestos No julgamento do RE nº 7.243, prevaleceu o voto do Ministro relator, Philadelpho Azevedo, no sentido de que o art. 259 do CC/16 está localizado nas disposições gerais do Código a respeito dos regimes matrimoniais de bens e, por conseguinte, deve ser aplicado a todos os regimes que não forem de comunhão, como o dotal e o da separação. Para o Ministro, o legislador quis apenas evitar a comunicação dos bens que os cônjuges já possuíam à data de início da união conjugal. Logo, o regime de separação de bens implica a incomunicabilidade dos bens presentes e a comunhão dos bens futuros, de modo que a comunhão dos aquestos só será afastada por cláusula expressa no pacto antenupcial ou contrato de convivência. Note-se que o regime descrito pelo magistrado já existe sob o título de comunhão parcial de bens, não sendo razoável presumir que o legislador idealizou dois regimes idênticos, diferenciando-os apenas em suas denominações. O Ministro Philadelpho Azevedo afirmou, ainda, que não há distinção entre os regimes de separação convencional e obrigatória. Por cautela, defendeu que fossem adotadas as mesmas limitações do regime da comunhão parcial, isto é, que fossem considerados incomunicáveis os bens havidos por doação ou herança, ou ainda por sub-rogação de bens particulares. Por ocasião do julgamento do RE nº 8.984, o Ministro Abner Vasconcelos defendeu a necessidade de se reconhecer que a contribuição imaterial do cônjuge, com sua experiência e assistência, possui valor econômico. Assim sendo, a partilha dos aquestos é questão de justiça. O Ministro Castro Nunes sustentou que, pela própria natureza da entidade familiar, todos os bem amealhados na constância da união conjugal são presumidamente frutos do esforço comum e, portanto, consistem em bem comum do casal. O Ministro Lafayette de Andrada entendeu que os bens adquiridos durante a união conjugal podem se comunicar tanto no regime da separação convencional quanto legal. Isso, porque em qualquer desses casos é possível que os consortes unam seus esforços para incrementar seu patrimônio e melhorar sua condição 23 social, não sendo razoável negar a um dos cônjuges ou conviventes os frutos do trabalho conjunto. Para o Ministro Goulart de Oliveira Conda, não havendo pacto antenupcial ou contrato de convivência afastando a comunicabilidade dos aquestos, presumem-se comuns todos os bens havidos na constância do casamento. Assim, a jurisprudência majoritária do Supremo Tribunal decidiu pela flexibilização do regime da separação obrigatória de bens. Tal entendimento restou consolidado com a criação da súmula 377 do STF: "no regime da separação legal de bens, comunicam-se os adquiridos na constância do casamento". 24 4 O REGIME DE SEPARAÇÃO LEGAL DE BENS NO CÓDIGO CIVIL DE 2002 A promulgação da lei nº 10.406/2002, que instituiu o novo Código Civil, promoveu uma série de alterações no tratamento legal dado ao regime de separaçãolegal de bens. Dentre essas mudanças, destaca-se a exclusão do art. 259 do CC/16, base legal da súmula 377 do STF. No Código Civil de 2.002 (CC/02), as hipóteses de exigência da separação de bens foram listadas no art. 1641, como segue: Art. 1.641. É obrigatório o regime da separação de bens no casamento: I - das pessoas que o contraírem com inobservância das causas suspensivas da celebração do casamento; II – da pessoa maior de 70 (setenta) anos; III - de todos os que dependerem, para casar, de suprimento judicial. As causas suspensivas do casamento, por sua vez, estão descritas no art. 1.523 do mesmo Código: Art. 1.523. Não devem casar: I - o viúvo ou a viúva que tiver filho do cônjuge falecido, enquanto não fizer inventário dos bens do casal e der partilha aos herdeiros; II - a viúva, ou a mulher cujo casamento se desfez por ser nulo ou ter sido anulado, até dez meses depois do começo da viuvez, ou da dissolução da sociedade conjugal; III - o divorciado, enquanto não houver sido homologada ou decidida a partilha dos bens do casal; IV - o tutor ou o curador e os seus descendentes, ascendentes, irmãos, cunhados ou sobrinhos, com a pessoa tutelada ou curatelada, enquanto não cessar a tutela ou curatela, e não estiverem saldadas as respectivas contas. Ao impor a separação de bens aos nubentes que decidiram se casar em situação irregular, percebe-se a preocupação do legislador em impedir eventual confusão patrimonial quando ao menos parte dos bens de um dos consortes ainda estão pendentes de partilha, em decorrência do divórcio/ dissolução de união estável ou da sucessão24. Note-se que a obrigatoriedade do regime de separação não está mais prevista dentro do capítulo "disposições penais" e os nubentes não são mais chamados infratores, como ocorria no antigo Código Civil. Desse modo, é possível afirmar que a imposição do regime de separação de bens tem se distanciado de sua natureza punitiva e se assemelhado mais às normas de caráter protetivo. 24 GERAIGE, N. M. A Súmula 377 do STF e sua atual aplicação. In: Revista Jurídica Luso-brasileira, ano 2 (2016), nº 1. 25 A despeito do intenso debate doutrinário e jurisprudencial, o novo Código Civil manteve a imposição do regime de separação aos idosos com base apenas em sua idade. Evoluiu ao garantir a isonomia no tratamento entre homens e mulheres, estabelecendo a mesma idade para ambos. Inicialmente, esse regime seria aplicado sempre que um dos nubentes possuísse mais de 60 anos, faixa etária que foi posteriormente alterada para 70 anos, pela lei nº 12.344/2010. Por fim, com a nova redação dada ao inciso II do art. 1.641 do CC/02, nem toda união conjugal que envolve menor de idade será sujeitada ao regime da separação, mas apenas aquelas que necessitarem de suprimento judicial de consentimento. Em outros termos, os menores de idade podem escolher livremente o regime de bens que regerá os efeitos patrimoniais de sua união, desde que possuam autorização de seus genitores ou representantes legais. O regime de separação legal de bens é regulamentado pelos artigos 1.687 e 1.688 do CC/02. O novo Código Civil assegura aos cônjuges o direito de manter a administração exclusiva de seus bens, podendo deles dispor sem necessidade de autorização do consorte. Reitere-se que, no Código Civil de 1916, a alienação de bens imóveis particulares dependia da outorga uxória. Assim, o legislador tornou mais rigorosa a separação de bens no Código Civil de 2002. O art. 496, parágrafo único, do CC/02 prevê que a venda de um bem do genitor para o filho não depende de aval do cônjuge, quando casados pelo regime de separação legal. Já o art. 1.829, inciso I, do CC/02 deixa claro que, na sucessão legítima, o cônjuge ou companheiro supérstite não concorre com os herdeiros pela herança, se casados sob o regime da separação obrigatória. Da leitura desses dispositivos, é possível inferir que o legislador presumia a inexistência de acervo patrimonial comum nos casamentos e uniões estáveis constituídos sob o regime da separação obrigatória. 26 4.1 A permanência da súmula 377 do STF no ordenamento jurídico brasileiro O Código Civil de 2002 não acolheu o art. 259 do antigo Código Civil. Posto que a Súmula 377 do STF foi criada para consolidar a aplicação desse dispositivo ao regime de separação obrigatória de bens, surgiram divergências doutrinárias quanto à eficácia da súmula na vigência do novo Código Civil. Autores como Inácio de Carvalho Neto, Caio Mário da Silva Pereira25 e Francisco José Cahali26 defendem que, se o novo Código não reproduziu o artigo que era a base legal da súmula 377 do STF, ela estaria automaticamente revogada. Afinal, "a Súmula não pode subsistir contra a lei ou sem ela"27. Ora, se a aplicação do disposto no art. 259 do CC/06 foi estendida ao regime da separação obrigatória sob o argumento de que o regime de separação convencional e legal são o mesmo regime28, agora que a comunhão de aquestos é vedada no regime da separação convencional, deve ser também defesa na separação obrigatória. Por outro lado, Maria Berenice Dias29 e Rolf Madaleno30 sustentam que a súmula foi criada para mitigar as injustiças causadas pela imposição da separação de bens. Para esses doutrinadores, negar a um dos cônjuges ou conviventes o direito à meação dos aquestos significaria permitir o enriquecimento ilícito de seu consorte. Assim, por força do princípio da solidariedade familiar e vedação ao enriquecimento sem causa, a Súmula 377 do STF não estaria revogada. Um dos principais argumentos apresentados por essa corrente é o fato de que, na redação original do projeto do novo Código Civil, aprovada pelo Senado Federal, o art. 1.641 proibia expressamente a comunhão de aquestos. Porém, o 25 PEREIRA, C.M.D.S. Instituições de Direito Civil - Vol. V - Direito de Família. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2020. 26 CAHALI, F. J. A Súmula nº 377 e o Novo Código Civil e a Mutabilidade do Regime de Bens. Revista do Advogado da AASP - Associação dos Advogados de São Paulo, São Paulo, v. 76, p. 27-32, 2004. 27 CARVALHO NETO, I. D. A Súmula 377 do Supremo Tribunal Federal e o novo Código Civil. www.intelligentiajuridica.com.br, 2002, p. 5. 28 STF, RE 7243/CE, Rel. Min. PHILADELPHO AZEVEDO, Data de Julgamento: 12/07/1943. 29 DIAS, M. B. Manual de Direito das Famílias. Salvador: Editora JusPodivm, 2021. 30 MADALENO, R. Direito de Família. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2021. 27 trecho final do dispositivo foi retirado pela Câmara dos Deputados, em observância ao enunciado da Súmula 377 do STF e com o escopo de coibir o enriquecimento ilícito do consorte que registrou os bens em seu nome, apesar de serem fruto do trabalho e economia de ambos os cônjuges ou conviventes31. Fato é que os Tribunais continuaram a aplicar a Súmula 377 STF mesmo às uniões constituídas na vigência do Código Civil de 2002. Subsiste, portanto, o questionamento: no regime da separação legal de bens, é necessário comprovar o esforço comum para que seja reconhecida a comunhão dos aquestos? 31 FIUZA, R. Novo Código Civil Comentado. São Paulo: Editora Saraiva, 2002. 28 4.1.1 A desnecessidade de comprovação do esforço comum Para os juristas que defendem que a súmula 377 do STF surgiu com a finalidade de remediar as injustiças causadas pela imposição da separação de bens, impedindo o enriquecimento ilícito, a comunicação dos aquestos não depende da comprovação de esforço comum na sua aquisição. A comunhão de vida implica presunção de cooperação mútua na construção do patrimônio, de modo que proibir a comunicação dos bens significaria permitir que um dos cônjuges ou conviventes enriquecesse com os frutos do trabalho de seu consorte32. Segundo Maria Helena Diniz33, comunicam-se os bens adquiridos onerosamente na constância da união conjugal mediante cooperação mútua, considerando a formaçãode uma sociedade de fato entre os consortes. Ressalta que a contribuição não precisa ser monetária e que os bens adquiridos a título gratuito e os sub-rogados no lugar de bens particulares são excluídos da comunhão. Em suma, a autora defende a aplicação das disposições do regime de comunhão parcial de bens também ao regime da separação obrigatória. Em contrapartida, Paulo Lôbo34 defende que a conjunção de esforços é presumida na entidade familiar. Acrescenta que não se trata de uma sociedade de fato, então não há necessidade de comprovação do esforço comum. Só há separação absoluta no regime de separação convencional. Paulo Nader35, por sua vez, aduz que a Súmula não condiciona a comunicação dos bens à participação de ambos os cônjuges na sua aquisição. Tal interpretação, contudo, é muito perigosa, considerando que a súmula é um enunciado que sintetiza a jurisprudência do tribunal de forma simplificada. Segundo o raciocínio de Paulo Nader, devem ser partilhados todos os bens adquiridos a qualquer título, gratuitamente e provenientes de herança, uma vez que a súmula não cita qualquer restrição à comunhão de aquestos. Assim sendo, haveria uma 32 MADALENO, R. Direito de Família. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2021. 33 DINIZ, M. H. Curso de Direito Civil Brasileiro - Direito da Família. 25. ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2010. v. 5. 34 LÔBO, P. DIREITO CIVIL: FAMÍLIAS: VOLUME 5. São Paulo: Editora Saraiva, 2021. 35 NADER, P. Curso de Direito Civil - Vol. 5 - Direito de Família, 7ª edição. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2016. 29 aberração jurídica em que há maior comunicação de bens no regime da separação obrigatória do que na comunhão parcial36. Para Gustavo Tepedino37, a Súmula 377 do STF e consequentemente a comunhão de aquestos só são aplicáveis ao regime de separação obrigatória enquanto persistirem a causas suspensivas do casamento. Cessado o impedimento, os consortes poderiam requerer a alteração do regime matrimonial de bens. Destarte, mesmo se decidirem manter o regime da separação, tem-se a separação convencional, já que não é mais imposta por lei. 36 LÔBO, P. DIREITO CIVIL: FAMÍLIAS: VOLUME 5. São Paulo: Editora Saraiva, 2021. 37 TEPEDINO, G. Fundamentos do Direito Civil - Direito de Família - Vol. 6. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2020. 30 4.1.2 A necessidade de comprovação do esforço comum Para os autores que sustentam que a súmula 377 do STF foi editada apenas para expandir os efeitos do art. 259 do Código Civil de 1.916 ao regime de separação obrigatória de bens, a comunhão dos bens depende de prova do esforço comum da aquisição do patrimônio. Nesse caso, a comunicação dos bens se justifica pela formação de uma sociedade de fato entre os cônjuges ou conviventes que, unidos por interesses comuns, construíram juntos seu patrimônio38. Nenhum sentido faria o estabelecimento do regime de separação obrigatória por nosso ordenamento jurídico se esse regime tivesse os mesmos efeitos do regime legal da comunhão parcial de bens, em que se presume o esforço comum na aquisição de bens. A disposição legal sobre regime de separação obrigatória de bens seria ineficaz. Assim, entendemos ser necessária a prova de que houve efeti-va participação financeira ou de trabalho na aquisição de bens, dentro dos princípios da sociedade de fato, para que ocorra a comunicação de aquestos prevista na Súmula 377 do STF39. A partilha dos bens, portanto, fundamenta-se na formação de uma sociedade de fato sobre o patrimônio amealhado mediante contribuição de ambos os consortes, não da mera existência de uma união conjugal. A essência do regime de separação dos bens é mantida, sem que haja o enriquecimento sem causa do cônjuge ou convivente em cujo nome estão registrados os bens. Segundo Zeno Veloso40, a separação obrigatória de bens impede a comunicação dos bens que cada um dos nubentes já possuía ao constituírem a entidade familiar. Seria, então, possível que os cônjuges ou conviventes fossem coproprietários de bens adquiridos, na constância da união conjugal, com os frutos do trabalho e economia do casal. O condomínio em questão seria regido pelo Direito das Coisas, não pelo Direito de Família, vez que não deriva da comunhão conjugal. O legislador poderia ter aproveitado a edição da lei n° 4.121, de 1962, o estatuto da mulher casada, para determinar a comunicação dos aquestos no regime de separação de bens, se assim desejasse. Porém, apenas concedeu à viúva o 38 CAHALI, F. J. A Súmula nº 377 e o Novo Código Civil e a Mutabilidade do Regime de Bens. Revista do Advogado da AASP - Associação dos Advogados de São Paulo, São Paulo, v. 76, p. 27-32, 2004. 39 MONTEIRO, W.D. B.; Silva, R.B.T. D. Curso de direito civil: direito da família. Volume 2. São Paulo: Editora Saraiva, 2016, p. 225. 40 VELOSO, Z. Regimes Matrimoniais de Bens. In Direito de Família Contemporâneo. PEREIRA. Rodrigo da Cunha (coordenador). Belo Horizonte: Del Rey, p. 79-220, 1997. 31 usufruto de parte do espólio, preservando inalterada as disposições da separação obrigatória de bens41. No projeto original do novo Código Civil, constava vedação à comunicação dos aquestos no regime da separação obrigatória de bens. O texto foi aprovado pelo Senado Federal, mas não pela Câmara dos Deputados. No parecer final às emendas do Senado Federal feitas ao projeto de lei da Câmara, o relator-geral, deputado Ricardo Fiuza, confirmou a eficácia da súmula 377 do STF na vigência do novo Código42. Entretanto, ressalvou tão somente a comunhão dos aquestos resultantes de esforço comum. Partindo-se do princípio de que a imposição da separação de bens tem por escopo a penalização dos indivíduos que se unem conjugalmente em desrespeito às causas suspensivas do casamento ou a proteção de vulneráveis, admitir a comunhão dos aquestos significaria tornar nula a punição prevista pelo legislador 43. Além disso, a presunção de esforço comum não é consubstanciada pelos acórdãos que lhe deram origem. A título exemplificativo, o acórdão proferido nos autos RE nº. 7.243 dispõe que: “Reconhece-se a comunhão acerca dos bens adquiridos pelo esforço comum dos cônjuges sujeitos a regime matrimonial diverso do comum”. Somente os Ministros Castro Nunes e Ministro Goulart de Oliveira Conda se manifestaram pela presunção de cooperaçao mútua44. 41 PEREIRA, C.M.D.S. Instituições de Direito Civil - Vol. V - Direito de Família. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2020. 42 FIUZA, R. Relatório Geral. Parecer Final às Emendas do Senado. Comissão Especial Do Código Civil. Brasília, p. 1-572, 2000. 43 CARVALHO NETO, I. D. A Súmula 377 do Supremo Tribunal Federal e o novo Código Civil. www.intelligentiajuridica.com.br, 2002. 44 STF, RE 9128/MG, Rel. Min. Edgar Costa, Data de Julgamento: 17/12/1948. 32 5 A EVOLUÇÃO JURISPRUDENCIAL DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL Na vigência das Constituições Federais de 194645 e 196746, cabia ao Supremo Tribunal Federal harmonizar a interpretação de lei federal. Não por outra razão, foi o STF que editou o enunciado da súmula 377 para afirmar a aplicabilidade do art. 259 do Código Civil de 1916 ao regime de separação obrigatória de bens. Como anteriormente relatado, a criação da súmula 377 do STF desencadeou divergências jurisprudenciais acerca da necessidade de comprovação do esforço comum do casal na aquisição do patrimônio para que houvesse a comunhão dos aquestos. Em vista da previsão constitucional, inicialmente, coube ao STF julgar os dissídios jurisprudenciais, a despeito da ausência de consenso dentro da própria Suprema Corte. 45 Art. 101. Ao Supremo Tribunal Federal compete: (...) III - julgar em recurso extraordinário as causas decididas em única ou última instância por outros Tribunais ou Juízes: (...) d) quando na decisão recorrida a interpretação da lei federal invocada for diversa da que lhe haja dado qualquer dos outrosTribunais ou o próprio Supremo Tribunal Federal. 46 Art. 114, Compete ao Supremo Tribunal Federal: (...) III - julgar, mediante recurso extraordinário, as causas decididas, em única ou última instância, por outros Tribunais, quando a decisão recorrida: (...) d) dar à lei federal interpretação divergente da que lhe haja dado outro Tribunal ou o próprio Supremo Tribunal Federal. 33 5.1 O Recurso Extraordinário nº 52.811/RS O RE nº 52.81147 foi interposto contra decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul que negou ao cônjuge virago o direito à meação dos aquestos, pois casada sob o regime da separação legal de bens. O Ministro relator, Pedro Chaves, votou pela partilha dos bens amealhados ao longo da união conjugal mediante esforço comum. Explicou que o casamento deveria trazer maiores garantias à esposa, não a prejudicar. A jurisprudência reconhecia às relações amorosas mantidas quando há impedimento ao casamento – concubinato – a condição de sociedade de fato, permitindo a partilha dos bens adquiridos com o trabalho e economia de ambos os consortes. Portanto, com muito mais razão, deveria ser reconhecido ao cônjuge virago ao menos sua participação societária na aquisição dos aquestos. Note-se que, no concubinato, a partilha era discutida no âmbito do direito das obrigações e derivava da existência de uma sociedade de fato entre o casal. O magistrado registrou haver nos autos prova de que todo o patrimônio foi construído ao longo do relacionamento e, assim sendo, dependeu da conjunção de esforços do casal. A presunção de colaboração mútua, então, seria derivada do disposto no art. 1.376 do CC/16, segundo o qual, "no silêncio do contrato, presumir- se-ão iguais entre si as entradas". O voto do relator venceu por unanimidade, tendo sido acompanhado pelos Ministros Aliomar Balceiro, Vilas Boas e Hanehmann Guimarães. Assim, prosperou o entendimento de que a conjunção de esforços na aquisição dos bens torna-os partilháveis, sendo que a colaboração é presumida quando o patrimônio do casal foi construído na constância da entidade familiar. 47 STF, RE 52811, Rel. Min. Pedro Chaves, SEGUNDA TURMA, Data do Julgamento: 06/12/1965, Data da Publicação: 11/05/1966. 34 5.2 O Recurso Extraordinário nº 64.236/CE No RE nº 64.23648, questionou-se as implicações do regime de separação obrigatória de bens na sucessão legítima. Aconteceu que a inventariante, filha unilateral do falecido, indicou à partilha bem que, apesar de adquirido na constância da unidade conjugal, foi registrado em nome da viúva. A despeito de não reconhecer o recurso, o Ministro Adalício Nogueira, relator do caso, decidiu se pronunciar acerca da comunhão prevista na súmula 377 do STF. Segundo o relator, o enunciado da súmula foi elaborado em termos vagos e não poderia abarcar todas as situações de fato que podem surgir na vida prática. O magistrado sustentou que a súmula em questão tem em vista a comunhão dos bens amealhados por meio da contribuição de ambos os consortes, não dos bens adquiridos com o trabalho e economia de apenas um deles. Em suma, o esforço comum é "o traço que imprime aos aquestos a força de sua comunicabilidade". Além disso, arguiu que a súmula não pode se contrapor à legislação pátria. O art. 259 do CC/16 previu a comunhão de aquestos somente quando há pacto antenupcial e nele não consta disposição em contrário. Nesse contexto, permitir a comunicação de bens no regime de separação obrigatória significaria permitir aos cônjuges ou conviventes burlar imposição legal. Ao final, o Ministro registrou que quando a separação de bens é imposta por lei, nas hipóteses do art. 258 do CC/06, não há comunicação de bens. Da leitura atenta do voto, infere-se que, para o Ministro Adalício Nogueira, a partilha dos bens adquiridos na constância do casamento resulta da existência de uma sociedade de fato entre os consortes, não da formação de uma entidade familiar marcada pela comunhão de vida. O Ministro Evandro Lins e Silva, em contrapartida, argumentou que a súmula 377 do STF alcança os bens adquiridos na constância da unidade conjugal, mesmo na separação legal de bens. 48 STF, RE 64236, Rel. Min. Adalício Nogueira, SEGUNDA TURMA, Data do Julgamento: 01/10/1968, Data da Publicação: 11/10/1968. 35 Por maioria dos votos, o recurso não foi reconhecido. 36 5.3 O Recurso Extraordinário nº 78.811/RJ Por meio do RE nº 78.81149, a Primeira Turma do STF discutiu as implicações do regime de separação de bens na sucessão legítima. O falecido e o cônjuge supérstite eram alemães, mas se casaram no Brasil, perante as autoridades consulares, e aqui residiram durante todo o relacionamento. Como, à época da celebração do casamento, não se manifestaram acerca do regime de bens que desejavam adotar, registrou-se a separação de bens, regime legal supletivo segundo a legislação alemã. O relator, Ministro Antonio Neder, aduziu que, tendo a Suprema Corte estendido os efeitos do art. 259 do CC/16 à separação obrigatória, por meio da súmula 377 do STF, como muito mais razão deveria reconhecer a comunicação do patrimônio que o casal construiu conjuntamente em território nacional, ainda que casados sob o regime de separação disposto pelo ordenamento jurídico brasileiro. Com efeito, se o marido e a mulher se mantiveram sempre unidos e conjugaram esforços para levar a cabo a formação do patrimônio comum, ainda que a cooperação da esposa tenha se limitado ao trabalho doméstico, tem ela indiscutivelmente o direito, até mesmo natural, de compartilhar daquele complexo de bens, como dispões o art. 259 do CC/16. Os Ministros Eloy da Rocha, Bilac Pinto e Rodrigues Alckmin votaram com o relator. Dessa forma, em decisão unânime, a Primeira turma decidiu que o cônjuge sobrevivente, casado sob o regime da separação legal de bens, tem direito à meação do patrimônio amealhado ao longo da união conjugal mediante esforço comum, que pode ser indireta e sem caráter monetário. 49 STF, RE 78811, Rel. Min. Antonio Neder, PRIMEIRA TURMA, Data do Julgamento: 29/04/1975, Data da Publicação: 06/06/1975. 37 5.4 O Agravo Regimental no Agravo de Instrumento nº 70.303/RJ No AI 70303 AgRg50, questionou-se o momento em que tem fim o regime matrimonial de bens, bem como as implicações da separação legal de bens, em vista da súmula 377 do STF. Ocorreu que, após a separação de fato, mas antes do desquite, o cônjuge varão adquiriu bem em nome próprio, o qual foi posteriormente indicado à partilha pela esposa. O Ministro relator, Moreira Alves, argumentou que a súmula 377 do STF pretendeu estender a aplicação do art. 259 do CC/16 ao regime de separação de bens. Ou seja, a jurisprudência majoritária da Suprema Corte entende pela comunicação dos aquestos mesmo na separação obrigatória. Nesse caso, a comunhão dos bens deriva do regime matrimonial, é a consequência patrimonial da formação de uma entidade familiar. Ao contrário das sociedades de fato, em que a partilha depende de prova da participação do sócio, no casamento, a aquisição dos bens ao longo do relacionamento é suficiente para justificar a sua meação. O relator explicou que a expressão "constância do casamento", utilizada no enunciado da súmula 377 do STF, deve ser interpretada como sociedade conjugal e não como vínculo matrimonial. Partindo-se do princípio de que a separação de fato não extinguia a sociedade conjugal, o regime matrimonial de bens permaneceria vigente até o desquite. Cumpre esclarecer que o voto em comento foi proferido em junho de 1977, logo, em período anterior à promulgação da lei nº 6.515 de 1977, a lei do divórcio, que aboliu o desquite. Atualmente, impera o entendimento de que a separação de fato, por si só, põe fim ao regime de bens51. Por unanimidade, prosperou o voto do relator. 50 STF, AI 70303 AgR, Rel. Min. MoreiraAlves, SEGUNDA TURMA, Data do Julgamento: 10/05/1977, Data da Publicação: 13/06/1977. 51 STJ, AgInt nos EDcl no AREsp 1408813/SP 2018/0318405-7, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, TERCEIRA TURMA, Data do Julgamento: 16/12/2019, Data da Publicação: DJe 19/12/2019. 38 5.5 Os Recursos Extraordinários nº 89.480/RJ E 91.059/SP O RE nº 89.48052, que tramitou perante a Primeira Turma do STF, tratou da comunhão de aquestos no regime da separação legal de bens. O foco da discussão foi a comunicabilidade, ou não, dos bens adquiridos na constância da união conjugal por doação ou herança. O Ministro Xavier de Albuquerque, relator da demanda, confirmou a decisão das instâncias inferiores no sentido de que, no regime de separação obrigatória, somente a cooperação mútua do casal na aquisição do patrimônio justifica sua partilha. Por conseguinte, bens havidos a título gratuito, por doação ou herança, seriam incomunicáveis, vez que não são frutos do trabalho e economia do casal. No mesmo sentido, foi a decisão preferida pela Segunda Turma no RE nº 91.05953, também por unanimidade dos votos. Nestes autos, o Ministro Cordeiro de Guerra destacou que, mesmo no regime da comunhão parcial de bens, são excluídos da comunhão os bens obtidos por herança ou doação, conforme art. 269, inciso I, do CC/16. Em ambos os casos, considerando ser essa a jurisprudência majoritária do Tribunal, a Primeira e Segunda Turma do STF decidiram, à unanimidade dos votos, não conhecerem os recursos. Tais precedentes serviram de base para o julgamento do RE nº 93.16854, que ratificou o entendimento preponderante na Suprema Corte de que é o esforço comum que justifica a comunicação dos bens. 52 STF, RE 89480, Rel. Min. Xavier de Albuquerque, PRIMEIRA TURMA, Data do Julgamento: 19/10/1979, Data da Publicação: 19/11/1979. 53 STF, RE 91059, Rel. Min. Cordeiro Guerra, SEGUNDA TURMA, Data do Julgamento: 13/03/1981, Data da Publicação: 22/04/1981. 54 STF, RE 93168, Rel. Min. Néri Da Silveira, PRIMEIRA TURMA, Data do Julgamento: 18/10/1983, Data da Publicação: 30/11/1984. 39 6 A EVOLUÇÃO JURISPRUDENCIAL DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA A Constituição Federal de 1988 transferiu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) a competência para harmonizar a interpretação de lei federal55. Para tanto, os Ministros do STJ se organizam em três seções especializadas. As matérias de Direito Privado, inclusive família e sucessões, são de competência da Segunda Seção. Esta, por sua vez, é composta pela Terceira e Quarta Turma. Como os arts. 48956 e 92757 do Código de Processo Civil de 2015 (CPC/15) garantem a força vinculativa das decisões do STJ, compreender o entendimento deste Tribunal Superior significa entender a orientação de todos os Tribunais Estaduais. "O precedente judicial serve, então, para conferir estabilidade e segurança ao sistema jurídico, além de preservar a isonomia de tratamento aos jurisdicionados e propiciar a coerência do sistema jurídico"58. Acontece que, mesmo dentro do Superior Tribunal de Justiça, não há consenso acerca da interpretação da Súmula 377 STF. Na Terceira Turma do STJ, predomina o entendimento de que, na separação legal de bens, comunicam-se os aquestos independentemente de comprovação de cooperação mútua59. Em 55 Art. 105. Compete ao Superior Tribunal de Justiça: (...) III - julgar, em recurso especial, as causas decididas, em única ou última instância, pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos tribunais dos Estados, do Distrito Federal e Territórios, quando a decisão recorrida: (...) c) der a lei federal interpretação divergente da que lhe haja atribuído outro tribunal. 56 Art. 489. § 1º Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: (...) VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento. 57 Art. 927. Os juízes e os tribunais observarão: (...) V - a orientação do plenário ou do órgão especial aos quais estiverem vinculados. 58 SOARES, R.M. F. Hermenêutica e Interpretação Jurídica. São Paulo: Editora Saraiva, 2018. 59 STJ, REsp 161/GO 1989/0012480-3, Rel. Min. Eduardo Ribeiro, Data de Julgamento: 13/02/1990, TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: 12/03/1990; STJ, AgRg no AREsp 650.390/ SP 2016/0029987-9, Rel. Min. João Otávio de Noronha, TERCEIRA TURMA, Data de Julgamento: 27/10/2015, Data de Publicação: DJe 03/11/2015; STJ, RESP 1199790/MG, TERCEIRA TURMA, Rel. Min. Vasco Della Giustina, Data de Julgamento: 14.12.2010, Data de Publicação: DJe 02/02/2011; STJ, REsp 1171820 PR 2009/0241311-6, Rel. Min. Sidnei Beneti, TERCEIRA TURMA, Data de Julgamento: 07/12/2010, Data de Publicação: DJe 27/04/2011; STJ, AgRg no AREsp 650390/SP 2015/0003290-0, Rel. Min. João Otávio de Noronha, TERCEIRA TURMA, Data do Julgamento: 27/10/2015, Data da Publicação: DJe 03/11/2015; STJ, REsp 1593663/DF 2016/0046728-0, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Data de Julgamento: 13/09/2016, TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 20/09/2016; STJ, REsp 1090722/SP 2008/0207350-2, Rel. Min. Massami Uyeda, TERCEIRA TURMA, Data do Julgamento: 02/03/2010, Data da Publicação: DJe 30/08/2010; STJ, 40 contrapartida, a Quarta Turma tende a acolher a tese da necessidade de comprovação do trabalho conjunto do casal para a comunhão dos aquestos60. Nesse contexto, cumpre analisar os votos e decisões mais relevantes proferidos pelo STJ desde a edição do enunciado. REsp 73662/PR 2005/0041830-1, Rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, TERCEIRA TURMA, Data do Julgamento: 11/04/2006, Data da Publicação: DJe 01/08/2006; STJ, AgRg no Ag 1119556 PR 2008/0250779-4, Rel. Min. Paulo Furtado, TERCEIRA TURMA, Data do Julgamento: 15/06/2010, Data da Publicação: DJe 28/06/2010. 60 STJ, REsp 9938/SP 1991/0006771-7, Rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, QUARTA TURMA, Data de Julgamento: 09/06/1992, Data de Publicação: DJ 03/08/1992; STJ, REsp 646259/RS 2004/0032153-9, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, QUARTA TURMA, Data do Julgamento: 22/06/2010, Data da Publicação: DJe 24/08/2010; STJ, REsp 123633/SP 1997/0018091-3, Rel. Min. Aldir Passarinho Junior, QUARTA TURMA, Data do Julgamento: 17/03/2009, Data da Publicação: DJe 30/03/2009. 41 6.1 O Recurso Especial nº 646.259/RS Nos autos do inventário judicial, processo nº 2004/0032153-9, discutiu-se os direitos sucessórios da companheira sobrevivente. Como o falecido havia iniciado a união estável quando ostentava mais de 64 anos de idade, o Juízo de primeira instância decidiu que o patrimônio do casal deveria ser submetido às regras da separação obrigatória de bens, conforme art. 258, § único do CC/16. Por conseguinte, reconheceu à convivente o direito de meação somente sobre os bens amealhados ao longo do relacionamento, mediante cooperação conjunta do casal. O Juízo de segunda instância, no entanto, afastou a imposição do regime de separação à união estável, sob o argumento de que há legislação própria que prevê a comunhão parcial de bens, com presunção de esforço comum, sendo incabível a aplicação analógica de normas restritivas de direitos. Dessa controvérsia, emergiu o REsp nº 646.25961, em que se questionava a aplicação do art. 258, § único, inciso II, do CC/16 às uniões estáveis. A Corte entendeu que a legislação não poderia privilegiar os conviventes em detrimento dos cônjuges, eximindo a união estável de uma restrição imposta ao casamento. Posicionamento adverso, significaria estimular a fraude à proteção conferida pelo legislador ao patrimônio do nubente sexagenário. Decidida a imposição da separação de bens também à união estável, restou determinar as implicações desse regime, em face da súmula 377 do STF. O Ministro relator, Luís Felipe Salomão, ressaltou que a jurisprudência do próprio STF previaa comunhão apenas quando comprovado a contribuição de ambos os cônjuges ou companheiros. De fato, esse é o entendimento que se extrai dos Recursos Extraordinários nº 6423662 e 7881163, haja vista que, nas palavras do 61 STJ, REsp 646259/RS 2004/0032153-9, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, QUARTA TURMA, Data do Julgamento: 22/06/2010, Data da Publicação: DJe 24/08/2010. 62 STF, RE 64236, Rel. Min. Adalício Nogueira, SEGUNDA TURMA, Data do Julgamento: 01/10/1968, Data da Publicação: 11/10/1968. 63 STF, RE 78811, Rel. Min. Antonio Neder, PRIMEIRA TURMA, Data do Julgamento: 29/04/1975, Data da Publicação: 06/06/1975. 42 Ministro Adalício Nogueira, o "esforço comum é o traço que imprime aos aquestos a força da sua comunicabilidade". Acerca da imposição do regime de separação de bens aos idosos, o Ministro Luís Felipe Salomão esclareceu que: Em realidade, cuidando-se de união estável de pessoa sexagenária, a presunção que emerge da realidade dos fatos é exatamente outra, porque, ordinariamente, nessa faixa etária, o patrimônio já se encontra estabilizado e eventual acréscimo, de regra, é proveniente de esforço próprio em tempos passados ou de sub-rogação de bens já existentes. Ademais, os conviventes, cônscios e seguros das conseqüências legais em relação ao patrimônio comum, por óbvio que podem regular a distribuição dos bens, conferindo as titularidades de acordo com sua efetiva vontade e esforço. Para o magistrado, a velhice é um período no qual os indivíduos estão mais propensos a aproveitar os frutos do patrimônio particular, que construiu ao longo de toda a sua vida, do que a trabalhar pelo incremento desse acervo. Nesse contexto, condicionar a partilha dos bens à prova de esforço comum não prejudica o consorte do idoso, haja vista a possibilidade de o casal registrar a existência de condomínio sobre o bem, no momento de sua aquisição. O voto do relator prosperou, porquanto acompanhado pelos Ministros Raul Araújo Filho, Aldir Passarinho Junior e João Otávio de Noronha. O voto vencido, de autoria do Ministro Honildo Amaral de Mello Castro, discordou da maioria apenas por rechaçar a aplicação da súmula 377 do STF às uniões estáveis, arguindo a inexistência de comunhão no caso em comento. 43 6.2 O Recurso Especial nº 1.199.790/MG64 Nos autos do processo nº 2010/0118288-3, questionou-se a necessidade de outorga uxória para doação de imóvel adquirido na constância do casamento, celebrado sob o regime de separação legal de bens. Os debates se centraram no embate entre a norma do art. 1.647 do CC/02, que reconhece a cada cônjuge o direito de dispor livremente de seus bens quando casados pelo regime de separação de bens, e o enunciado da súmula 377 do STF que prevê a comunhão de aquestos nessa mesma circunstância. O Ministro relator, Vasco Della Giustina, arguiu que a doação dos bens adquiridos ao longo da união conjugal, regulada pela separação legal de bens, exige aval do consorte. Isso, porque, em virtude da súmula 377 do STF, a cooperação mútua do casal é "fato jurídico apto a justificar a divisão dos bens adquiridos na constância do casamento", ainda que a contribuição seja apenas afetiva. A valorização do auxílio imaterial e das atividades domésticas como suficientes para justificar a comunhão de aquestos foi reiterada em outras decisões da Terceira Turma, como nos Recursos Especiais nº 1.593.66365 e 736.62766. Sobre o tema, confira-se trecho do voto do Ministro Carlos Alberto Menezes: A participação é direta ou indireta, não apenas financeira, mas, também, a solidariedade existente na vida comum, o esforço de cada qual na manutenção da vida familiar, o amor que sustenta o existir da comunhão, tudo contribuindo decisivamente para que se construa o patrimônio. Por unanimidade, a Terceira Turma decidiu privilegiar a súmula 377 do STF, em detrimento da regra esculpida no art. 1.647 do CC/02. Em outros termos, declarou ser necessária a outorga uxória na alienação de imóvel adquirido a título oneroso durante o casamento ou união estável que é regido pela separação obrigatória de bens, diante do possível direito à meação. 64 STJ, RESP 1199790/MG, Rel. Min. Vasco Della Giustina, TERCEIRA TURMA, Data de Julgamento: 14/12/2010, Data de Publicação: DJe 02/02/2011. 65 STJ, REsp 1593663/DF, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, TERCEIRA TURMA, Data de Julgamento: 13/09/2016, Data de Publicação: DJe 20/09/2016. 66 STJ, REsp 736627/PR, Rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, TERCEIRA TURMA, Data do Julgamento: 11/04/2006, Data da Publicação: DJe 01/08/2006 44 6.3 O Recurso Especial nº 1.171.820/PR O REsp nº 1.171.82067 foi interposto contra acórdão do Tribunal de Justiça do Paraná que afirmou a necessidade de comprovação do esforço comum para comunhão de aquestos em união estável regida pelo regime de separação obrigatória de bens, por envolver nubente sexagenário. O cerne da controvérsia residiu em se determinar a comunicabilidade, ou não, dos aluguéis que, apesar de terem sido recebidos durante a união conjugal, eram oriundos de bem particular de um dos companheiros. O relator, Ministro Sidnei Beneti, manifestou sua simpatia pela tese de que, na constância da união conjugal, presume-se a conjunção de esforços na aquisição do patrimônio do casal. Porém, aduziu que o fato de o Juízo de 1º grau, após analisar as provas, ter atestado a inexistência de contribuição da companheira, impede a presunção do esforço comum e, portanto, votou pela incomunicabilidade dos bens. A Ministra Nancy Andrighi sustentou que a súmula 377 do STF prescreve a comunhão dos bens adquiridos onerosamente ao logo do casamento/união estável, sendo presumida a colaboração de ambos os consortes. As conclusões da decisão atacada seriam, então, reduzidas à irrelevância, pois não havia necessidade de se investigar a existência de uma colaboração, que é presumida pela lei nº 9.278 de 1996. A magistrada votou pela partilha dos aluguéis, tidos como frutos dos bens particulares, com fulcro no art. 1.660, inciso V, do CC/02, o qual rege o regime matrimonial da comunhão parcial de bens. Em seu voto, a Ministra Nancy Andrighi registrou que: (...) do ponto de vista prático, para efeitos patrimoniais, não há diferença no que se refere à partilha dos bens com base no regime da comunhão parcial ou no da separação legal contemporizado pela Súmula 377 do STF. Assim acontece porque, ao sofrer essa contemporização, o regime da separação legal adquire contornos idênticos aos da comunhão parcial de bens, que permite a comunicação dos aquestos. As feições de ambos os regimes – o da comunhão parcial e o da separação legal – portanto, confundem-se, ante a incidência da Súmula 377 do STF. 67 STJ, REsp 1171820 / PR, Rel. Min. Sidnei Beneti, Rel. p/ Acórdão Min. Nancy Andrighi, TERCEIRA TURMA, Data do Julgamento: 07/12/2010, Data da Publicação: DJe 27/04/2011. 45 Prosperou o voto divergente, proferido pela Ministra Nancy Andrighi e acompanhado pelos Ministros Vasco Della Giustina e Paulo de Tarso Sanseverino. Em suma, a Terceira Turma do STJ decidiu que as disposições da comunhão parcial são aplicáveis ao regime da separação legal de bens, igualando dois regimes essencialmente distintos. 46 6.4 O Recurso Especial nº 1.403.419/MG68 Na origem, o processo nº 2013/0304757-6 tratou de reconhecimento e dissolução de união estável que teve início quando um dos companheiros já contava com mais de sessenta anos, atraindo, portanto, a imposição da separação obrigatória de bens. Logo, foi colocado sob julgamento a necessidade de comprovação do esforço comum para comunicação dos aquestos no regime de separação obrigatória de bens. O Ministro relator, Ricardo Villas Bôas, defendeu a imprescindibilidade de prova do esforço conjugado na aquisição dos bens, esclarecendo que: Não obstante o enunciado do STF, que, ressalte-se,não possui efeito vinculante, e foi editado em 8.5.1964, a melhor exegese que deve ser conferida aos arts. 1.723 e 1.641, II, do Código Civil deve ser aquela segundo a qual os bens adquiridos na constância da união estável são incomunicáveis, ressalvada a prova de que tais bens provêm do esforço comum. É o esforço comum que enseja a comunicabilidade e não o mero dever de solidariedade, inerente à vida comum do casal. Assim, quando se exige prova da contribuição de ambos os consortes na construção do patrimônio, mantem-se a proteção ao patrimônio do consorte considerado vulnerável, sem, contudo, privar o seu cônjuge ou companheiro de receber os frutos de seu trabalho e economia quando do divórcio ou sucessão. O magistrado ainda arguiu que presumir a contribuição mútua, reconhecendo aos consortes o direito à meação de todos os bens amealhados na constância do relacionamento, implicaria desvirtuar o regime da separação legal de bens. De fato, da análise dos precedentes da Corte Superior é possível concluir que os Ministros que militam pela presunção do esforço comum não veem óbice à aplicação das regras da comunhão parcial ao regime da separação obrigatória. Por unanimidade, a Terceira Turma decidiu pela necessidade de prova da contribuição de ambos os consortes na construção do patrimônio para que seja reconhecido o direito à meação dos aquestos, nas uniões regidas pelo regime da separação obrigatória de bens. 68 STJ, REsp 1403419/MG 2013/0304757-6, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, TERCEIRA TURMA, Data de Julgamento: 11/11/14, Data de Publicação: DJe 14/11/2014. 47 6.5 Os Embargos de Divergência em Recurso Especial nº 1.171.820/PR A divergência existente entre os acórdãos proferidos no REsp nº 646259 e no REsp nº 1171820 justificou a interposição do EREsp nº 117182069. Nestes autos, a Segunda Seção consagrou o entendimento de que a comunhão dos aquestos depende da comprovação de esforço comum dos cônjuges ou conviventes na aquisição dos bens. Merece destaque trecho do voto proferido relator, Ministro Raul Araújo: Tem-se, assim, que a adoção da compreensão de que o esforço comum deve ser presumido (por ser a regra) conduz à ineficácia do regime da separação obrigatória (ou legal) de bens, pois, para afastar a presunção, deverá o interessado fazer prova negativa, comprovar que o ex-cônjuge ou ex-companheiro em nada contribuiu para a aquisição onerosa de determinado bem, conquanto tenha sido a coisa adquirida na constância da união. Torna, portanto, praticamente impossível a separação dos aquestos. Para o magistrado, o entendimento de que a comunhão dos bens adquiridos depende de prova da cooperação mútua dos consortes é a interpretação mais adequada ao regime de separação legal de bens, pois preserva as características essenciais do regime. Recairá então sobre o interessado na partilha o ônus de demonstrar que teve “efetiva e relevante” participação no esforço para aquisição onerosa do bem, admitindo-se inclusive contribuições não monetárias. O Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, por outro lado, ratificou seu entendimento de que, na entidade familiar, há presunção de auxílio mútuo, conforme art. 5º da lei nº 9.278 de 1996. Para ele, exigir provas da contribuição significaria reconhecer a inconstitucionalidade do dispositivo supracitado diante do art. 226, § 3º, da Constituição Federal, prerrogativa reservada ao Supremo Tribunal Federal. Na oportunidade, foi rediscutida a possibilidade de partilha dos frutos de bens particulares, previamente autorizada pela Terceira Turma do STJ, no julgamento do no REsp nº 1.171.820. O relator votou pela reforma da decisão da Terceira Turma, sob o fundamento de que considerar os bens particulares, adquiridos ao longo da 69 STJ, EREsp 1171820/PR, Rel. Min. Raul Araújo, SEGUNDA SEÇÃO, Data Do Julgamento: 26/08/2015, Data da Publicação: DJe 21/09/2015. 48 união estável, como frutos e, portanto, comunicáveis, contradiz precedente do STJ no julgamento do REsp nº 775.47170. Nos autos do REsp nº 775.471, a Quarta Turma entendeu que deferir a partilha de frutos e/ou rendimentos oriundos de bens herdados e/ou doados antes do reconhecimento da união estável configura violação ao artigo 5º, § 1º, da Lei 9.278/96. Os frutos de bens particulares também não devem ser partilhados, uma vez que não são resultado do trabalho conjunto do casal, mas decorrem tão somente da existência do bem. Os Ministros Maria Isabel Gallotti, Antonio Carlos Ferreira, Ricardo Villas Bôas Cueva, Marco Buzzi, Marco Aurélio Bellizze e Moura Ribeiro votaram com o relator, cujo voto prevaleceu por apoio da maioria. Restou, portanto, vencido o voto do Ministro Antonio Carlos Ferreira que acompanhou a divergência inaugurada pelo Ministro Paulo de Tarso Sanseverino. 70 STJ, REsp 775471 / RJ, Rel. Min. Honildo Amaral de Mello Castro, QUARTA TURMA, Data do Julgamento: 05/08/2010, Data da Publicação: DJe 31/08/2010. 49 6.6 O Recurso Especial nº 1.593.663/DF A despeito do aresto prolatado pela Segunda Seção do STJ no âmbito dos EREsp nº 1.171.820, a (des)necessidade de comprovação do esforço conjugado para comunhão dos aquestos foi novamente levada à julgamento por meio do REsp nº 1.593.66371. O Ministro Relator, Ricardo Villas Bôas Cueva, sustentou que, no regime de separação legal de bens, comunicam-se aqueles havidos durante a união conjugal, sendo desnecessária a comprovação do esforço comum. Em suma, a comunhão de vida, que é inerente à sociedade conjugal, implicaria na presunção de cooperação mútua entre consortes, mesmo que apoio se restrinja ao âmbito doméstico. Os Ministros Marco Aurélio Bellizze, Moura Ribeiro e Paulo de Tarso Sanseverino votaram com o relator, de modo que prosperou a tese de presunção da colaboração mútua prosperou, por unanimidade, na Terceira Turma do STJ. 71 REsp 1593663/DF, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Data de Julgamento: 13/09/2016, TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 20/09/2016. 50 6.7 O Recurso Especial nº 1.689.152/SC Com a interposição do REsp nº 1.689.15272, a exegese da súmula 377 do STF, quando aplicada às uniões estáveis, foi novamente questionada perante o STJ. O cerne da discussão residia em se determinar a (in)comunicabilidade de prêmio lotérico. O Ministro relator, Luís Felipe Salomão, aduziu que o prêmio da loteria, por sua própria natureza, é obtido sem o esforço de qualquer um dos consortes e, portanto, é bem comum ao casal. O voto do Ministro relator e a decisão final da Turma se fundamentaram no art. 1.660, inciso II, do CC/02, segundo o qual são passíveis de partilha os bens angariados por fato eventual, com ou sem o concurso de trabalho ou despesa anterior. Logo, a divisão do dinheiro não foi justificada pelo acolhimento da tese de presunção de esforço comum, mas pela aplicação extensiva das restrições impostas ao regime de comunhão parcial de bens, em vista da justiça social. Em verdade, como se trata de regime imposto pela norma, permitir a comunhão dos aquestos acaba sendo a melhor forma de se realizar maior justiça social e tratamento igualitário, tendo em vista que o referido regime não adveio da vontade livre e expressa das partes. Na oportunidade, o magistrado registrou que o regime de separação obrigatória de bens é diferente da separação convencional, porque a jurisprudência dos Tribunais Superiores flexibilizou seus efeitos, transformando-o em um modelo híbrido. Nisso se justificaria a aplicação dos dispositivos da comunhão parcial de bens ao regime de separação obrigatória. Por fim, argumentou que a comunhão dos ganhos com a loteria não viola a finalidade da norma. Afinal, se o prêmio foi recebido na constância da união, não há que se falar em casamento realizado por interesse ou em união meramente especulativa. O voto do relator foi acompanhado pelos Ministros AntonioCarlos Ferreira, Marco Buzzi e Lázaro Guimarães. Assim, à unanimidade de votos, a Quarta Turma 72 STJ, REsp 1689152 / SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, QUARTA TURMA, Data do Julgamento: 24/10/2017, Data da Publicação: DJe 22/11/2017. 51 decidiu pela comunicabilidade de prêmio lotérico captado na constância da união conjugal. Perceba-se que o órgão julgador determinou a partilha de bem obtido a título gratuito, situação em que seria incabível a presunção do esforço comum. A decisão se baseou no art. 1.660, inciso II, do CC/02, que regula o regime da comunhão parcial. Desse modo, os precedentes do STJ em que se admitia a partilha dos aquestos independentemente de comprovação da existência de contribuição mútua de ambos os consortes aproximava, cada vez mais, o regime da separação legal ao da comunhão parcial. 52 6.8 Os Embargos de Divergência em Recurso Especial nº 1.623.858 /MG Como visto, o acórdão proferido no EREsp nº 1.171.820 não solucionou as divergências jurisprudenciais, razão pela qual o tema foi novamente submetido à análise do Tribunal, em sede de embargos de divergência. Ao julgar o EREsp nº 1.623.85873, a Segunda Seção confirmou a necessidade de prova da conjunção de esforços do casal para a comunhão de aquestos. O Ministro relator, Lázaro Guimarães, esclareceu que o princípio da vedação ao enriquecimento sem causa pode embasar a argumentação das duas correntes. Se, por um lado, evita que um dos consortes seja prejudicado quando auxiliou na aquisição de bem registrado somente em nome de seu parceiro; por outro, havendo presunção da cooperação mútua, pode favorecer injustamente ex- cônjuge ou ex-companheiro que, a despeito de não ter contribuído com a construção do acervo patrimonial, terá direito à partilha dos bens. Reiterou a fundamentação do Ministro Araújo, reafirmando que a presunção do esforço comum implica reduzir à inutilidade a separação de legal de bens, porquanto transferiria ao consorte que não deseja a partilha o ônus de comprovar que seu parceiro em nada auxiliou na aquisição dos bens. O voto do relator venceu por unanimidade dos votos, acompanhado pelos Minsitros Maria Isabel Gallotti, Antonio Carlos Ferreira, Ricardo Villas Bôas Cueva, Marco Buzzi e Marco Aurélio Bellizze. No entanto, apesar de ter reconhecido a existência de dissídios jurisprudenciais quanto à (in)suficiência da contribuição imaterial, o Ministro Lázaro Guimarães não manifestou de maneira clara o seu entendimento. Recorde-se que, no julgamento do EREsp nº 1.171.820/PR, a Segunda Seção do STJ havia decidido pela necessidade de comprovação do esforço conjunto do casal na aquisição dos bens, ainda que a contribuição de um dos consortes não fosse de natureza monetária. 73 STJ, EREsp 1623858/MG, Rel. Min. Lázaro Guimarães, SEGUNDA SEÇÃO, Data do Julgamento: 23/05/2018, Data da Publicação: DJe 30/05/2018. 53 O professor José Fernando Simão define o esforço comum, no direito de família, como toda contribuição direta ou indireta na construção do patrimônio amealhado na constância da união conjugal74. Assim, o cônjuge ou convivente que não exerce atividade laboral remunerada, mas se dedica aos cuidados da família e do lar, contribui de maneira indireta para a adquiriçao dos aquestos e, portanto, faz jus à partilha dos bens. Sob outra perspectiva, o auxílio imaterial que autorizaria a comunhão de aquestos pode ser conceituado como a “contribuição integral para a formação moral e espiritual e para o crescimento econômico-financeiro de seu parceiro e da entidade familiar”75 ou o "apoio moral e espiritual dedicado ao longo do matrimônio"76. No que que diz respeito aos precedentes do Tribunal Superior, mister destacar o voto da Ministra Nancy Andrighi no REsp nº 915.29777, no qual esclareceu que a contribuição indireta e relevante do companheiro "consiste no apoio, conforto moral e solidariedade para a formação de uma família", realidade inerente à formação de uma entidade familiar. A simples existência da união estável pressupõe a construção de uma vida em comum, com tudo o que isso implica do ponto de vista prático, o que inclui naturalmente a mútua assistência psicológica ou afetiva. Assim, se um dos conviventes pode se dedicar exclusivamente ao lar, é porque o outro pode lhe prover o sustento; se pode exclusivamente trabalhar, é porque o outro lhe provém o lar. Por sua própria natureza, não é possível comprovar nos autos de um processo judicial que determinada pessoa ofereceu apoio moral, psicológico e/ou afetivo a seu cônjuge ou companheiro. Ocorre que, se a contribuição imaterial do consorte for presumida pela simples existência da união conjugal e for considerada como suficiente para garantir a comunhão dos aquestos, na prática, haverá presunção do esforço comum. Tal 74 SIMÃO, J. F. Mônica Bergamo e a Prova do Esforço Comum - Parte 3. 75 MADALENO, R. Direito de Família. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2021, p. 804. 76 PABLO, S.; FILHO, R.P. NOVO CURSO DE DIREITO CIVIL 6 - DIREITO DE FAMÍLIA. São Paulo: Editora Saraiva, 2021, p.119. 77 STJ, REsp 915297 / MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, TERCEIRA TURMA, Data do Julgamento: 13/11/2008, Data da Publicação: DJe 03/03/2009. 54 tese é substancialmente contrária ao que foi decido pela Segunda seção, em aresto paradigma que restou assim ementado: EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA NO RECURSO ESPECIAL. DIREITO DE FAMÍLIA. UNIÃO ESTÁVEL. CASAMENTO CONTRAÍDO SOB CAUSA SUSPENSIVA. SEPARAÇÃO OBRIGATÓRIA DE BENS (CC/1916, ART. 258, II; CC/2002, ART. 1.641, II). PARTILHA. BENS ADQUIRIDOS ONEROSAMENTE. NECESSIDADE DE PROVA DO ESFORÇO COMUM. PRESSUPOSTO DA PRETENSÃO. MODERNA COMPREENSÃO DA SÚMULA 377/STF. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA PROVIDOS.1. Nos moldes do art. 1.641, II, do Código Civil de 2002, ao casamento contraído sob causa suspensiva, impõe-se o regime da separação obrigatória de bens. 2. No regime de separação legal de bens, comunicam-se os adquiridos na constância do casamento, desde que comprovado o esforço comum para sua aquisição. 3. Releitura da antiga Súmula 377/STF (No regime de separação legal de bens, comunicam-se os adquiridos na constância do casamento), editada com o intuito de interpretar o art. 259 do CC/1916, ainda na época em que cabia à Suprema Corte decidir em última instância acerca da interpretação da legislação federal, mister que hoje cabe ao Superior Tribunal de Justiça. 4. Embargos de divergência conhecidos e providos, para dar provimento ao recurso especial78 (grifos nossos). Por todo o exposto, é razoável concluir que, no julgamento EREsp nº 1.623.858, o STJ harmonizou a interpretação da súmula 377 do STF, no sentido de que, na separação obrigatória de bens, comunicam-se os bens havidos onerosamente, na constância da união conjugal, desde que comprovada a cooperação mútua do casal na aquisição do patrimônio. Quanto à possibilidade de o apoio imaterial ser suficiente para a comunicação dos aquestos, esta possivelmente será objeto de novos recursos ao Tribunal Superior. 78 STJ - EREsp 1623858 MG 2016/0231884-4, Rel. Min. Lázaro Guimarães, SEGUNDA SEÇÃO, Data do Julgamento: 23/05/2018, Data da Publicação: DJe 30/05/2018 55 7 CONCLUSÃO O desenvolvimento do presente estudo possibilitou uma análise dos precedentes que deram origem à súmula 377 do STF e como a sua aplicação pelos Tribunais Superiores se alterou ao longo do tempo, a partir das mudanças legislativas. Da leitura atenta dos julgados que embasaram o enunciado da súmula 377 do STF, depreende-se que a Corte Superior pretendia a partilha dos bens adquiridos mediante trabalho e economia de ambos os cônjuges ou companheiros. Apenas o Ministro Abner Vasconcelos79 apontou a contribuição imaterial de um dos consortes como suficiente para implicar a partilha dos bens, ao passo que a presunção de esforço comum só foi defendida pelos MinistrosCastro Nunes e Goulart de Oliveira Conda80. Diante das divergências quanto à necessidade de comprovação do esforço comum do casal na aquisição dos bens para que sejam partilhados, cumpriu inicialmente ao STF harmonizar a interpretação dada ao enunciado da súmula 377 do STF, competência que foi posteriormente transferida ao STJ, pela Constituição Federal de 1988. A despeito da existência de precedentes dissoantes dentro da própria Corte Suprema, o Tribunal não reconheceu os Recursos Extraordinários nº 64.236, 89.480 e 91.059, sob o fundamento de que não havia divergência jurisprudencial que os tornasse cabíveis. Isso, porque a jurisprudência majoritária do STF já teria acolhido a tese de que, no regime de separação obrigatória de bens, comunicam-se queles adquiridos ao longo do relacionamento, quando comprovado serem frutos do trabalho e economia de ambos os consortes. Já na vigência da Cosntituição Federal de 1988, observou-se uma tendência da Terceira Turma do STJ em decidir pela comunhão dos aquestos independentemente de comprovação de cooperação mútua, em contraposição à 79 STF, RE 8984/DF, Rel. Min. Annibal Freire, Data de Julgamento: 06/08/1945. 80 STF, RE 9128/MG, Rel. Min. Edgar Costa, Data de Julgamento: 17/12/1948. 56 Quarta Turma, em cujos acórdãos preponderava a exigência de comprovação do trabalho conjunto do casal na contrução do patrimônio, para que os bens fossem passíveis de partilha. De modo geral, as decisões que afirmaram a necessidade de comprovação do esforço comum para a partilha dos aquestos interpretaram a comunhão prevista na súmula 377 do STF como mero reconhecimento da existência de uma sociedade de fato entre os consortes. Por outro lado, os precedentes que sustentaram a presunção de esforço comum aplicaram as regras da comunhão parcial ao regime de separação obrigatória de bens. Com base nas decisões proferidas pela Segunda Seção do STJ nos Embargos de Divergência em Recurso Especial nº 1.171.820 e 1.623.858, conclui-se que a jurisprudência desse Tribunal está consolidada no sentido de que é a conjunção de esforços dos cônjuges ou companheiros que justifica a meação dos bens havidos na constância de uma sociedade conjugal regida pela separação obrigatória de bens. Entretanto, nos autos do EREsp nº 1.623.858, o Tribunal Superior não se pronunciou acerca das contribuições não monetárias, de modo que a sua (in)suficiência para justificar a partilha dos bens poderá eventualmente ser tema de novos recursos. Enfim, a jurisprudência majoritária do STJ leciona que, no regime de separação obrigatória de bens, comunicam-se os bens havidos na constância da sociedade conjugal, quando comprovado o esforço conjunto do casal na aquisição desses bens. 57 REFERÊNCIAS AZEVEDO, A. V. Curso de direito civil : direito de família. São Paulo: Editora Saraiva, 2019. 9788553609727. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788553609727/. Acesso em: 19 mai. 2021. CAHALI, F. J. A Súmula nº 377 e o Novo Código Civil e a Mutabilidade do Regime de Bens. Revista do Advogado da AASP - Associação dos Advogados de São Paulo, São Paulo, v. 76, p. 27-32, 2004. CARVALHO NETO, I. D. A Súmula 377 do Supremo Tribunal Federal e o novo Código Civil. www.intelligentiajuridica.com.br, 2002. Acesso em: 20 abr. 2021. DINIZ, M. H. Curso de Direito Civil Brasileiro - Direito da Família. 25. ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2010. v. 5. FIUZA, R. Novo Código Civil Comentado. São Paulo: Editora Saraiva, 2002. FIUZA, R. Relatório Geral. Parecer Final às Emendas do Senado. Comissão Especial Do Código Civil. Brasília, vol. 1, p. 1-572, 2000. GERAIGE, N. M. A Súmula 377 do STF e sua atual aplicação. In: Revista Jurídica Luso-brasileira, ano 2 (2016), nº 1. Disponível em: < http://www.cidp.pt/revistas/rjlb/2016/1/2016_01_0417_0433.pdf>. Acesso em: 119 mai. 2021. GONÇALVES, C. R. Direito civil brasileiro v 6 - direito de família. São Paulo: Editora Saraiva, 2020. 9786555590210. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786555590210/. Acesso em: 25 ago. 2021. LÔBO, P. DIREITO CIVIL: FAMÍLIAS: VOLUME 5. São Paulo: Editora Saraiva, 2021. 9786555593655. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786555593655/. Acesso em: 18 abr. 2021. MADALENO, R. Direito de Família. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2021. 9786559640515. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786559640515/. Acesso em: 25 ago. 2021. MONTEIRO, W.D. B.; Silva, R.B.T. D. Curso de direito civil: direito da família. Volume 2. São Paulo: Editora Saraiva, 2016. 9788502634091. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788502634091/. Acesso em: 19 mai. 2021. 58 NADER, P. Curso de Direito Civil - Vol. 5 - Direito de Família, 7ª edição. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2016. 9788530968687. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788530968687/. Acesso em: 25 ago. 2021. PABLO, S.; FILHO, R.P. NOVO CURSO DE DIREITO CIVIL 6 - DIREITO DE FAMÍLIA. São Paulo: Editora Saraiva, 2021. 9786555592511. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786555592511/. Acesso em: 19 mai. 2021. PEREIRA, C.M.D.S. Instituições de Direito Civil - Vol. V - Direito de Família. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2020. 9788530990664. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788530990664/. Acesso em: 25 ago 2021. RIZZARDO, A. Direito de Família, 10ª edição. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2019. 9788530983062. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788530983062/. Acesso em: 20 abr. 2021. RODRIGUES, S. Direito Civil. Direito de Família. 23ª ed. São Paulo: Saraiva, 2008, vol. 6. SIMÃO, J. F. Separação obrigatória com pacto antenupcial? Sim é possível. Consultor Jurídico[S.l: s.n.], 2018. Disponível em: < https://www.conjur.com.br/2018- fev-11/processo-familiar-separacao-obrigatoria-pacto-antenupcial-sim-possivel>. Acesso em: 30 set. 2020. SIMÃO, J. F. Mônica Bergamo e a Prova do Esforço Comum - Parte 3. Disponível em: < https://professorsimao.com.br/monica-bergamo-e-a-prova-do-esforco-comum- parte-3/> . Acesso em: 03 out. 2021. SOARES, R.M. F. Hermenêutica e Interpretação Jurídica. São Paulo: Editora Saraiva, 2018. 9788553610235. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788553610235/. Acesso em: 14 set. 2021. TARTUCE, F. Direito Civil - Direito de Família - Vol. 5. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2021. 9788530993818. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788530993818/. Acesso em: 20 abr. 2021. TEPEDINO, G. Fundamentos do Direito Civil - Direito de Família - Vol. 6. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2020. 9788530992514. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788530992514/. Acesso em: 18 abr. 2021. VELOSO, Z. Regimes Matrimoniais de Bens. In Direito de Família Contemporâneo. PEREIRA. Rodrigo da Cunha (coordenador). Belo Horizonte: Del Rey, p. 79-220, 59 1997. Disponível em: <https://www.direitodefamilia.adv.br/2020/wp- content/uploads/2020/07/zeno-veloso-regime-matrimon.pdf>. Acesso em: 30 set. 2021. VENOSA, S.D.S. Direito Civil - Família e Sucessões - Vol. 5. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2021. 9788597027150. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788597027150/. Acesso em: 19 de mai. 2021. https://www.direitodefamilia.adv.br/2020/wp-content/uploads/2020/07/zeno-veloso-regime-matrimon.pdf https://www.direitodefamilia.adv.br/2020/wp-content/uploads/2020/07/zeno-veloso-regime-matrimon.pdf