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AULA 5 GESTÃO E LIDERANÇA DE PESSOAS EM AMBIENTES COMPETITIVOS Prof. Kleberson Massaro Rodrigues 2 TEMA 1 – CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO Pense numa barraquinha de cachorro-quente. Sim, existem várias espalhadas pela cidade, certo? Um vendedor de uma barraquinha, ao notar que os clientes tinham dificuldade em abrir o sachê de mostarda, ketchup e maionese resolveu colocar uma tesoura visando facilitar essa abertura. Isso foi um sucesso, as pessoas começaram a comentar pela cidade. Até aquele momento, era uma ideia criativa que tinha dado certo na barraquinha de cachorro-quente. A partir do momento que essa ideia começou a influenciar clientes que começaram a procurar essa barraquinha por causa dessa facilidade, a ideia criativa virou inovação. A tesoura influenciou no poder decisivo do cliente final. A criatividade é algo que existe dentro da nossa mente e pode ser canalizada ou não para uma ação. Já a inovação está totalmente relacionada à atitude de colocar aquela boa ideia em prática e passa a impactar a organização e a vida das pessoas. Ou seja, a criatividade é o primeiro passo para a inovação. Crédito: Showcake/Shutterstock https://www.shutterstock.com/pt/g/showcake 3 1.1 Criatividade e inovação nas organizações As organizações tradicionais tinham como preocupação específica a eficiência, ou seja, produzir o máximo de produtos possíveis em um período de tempo menor de acordo com as exigências e práticas vigentes. À medida que o tempo foi passando e as organizações foram se tornando mais dinâmicas, houve a necessidade de que os colaboradores fossem mais do que “peças nesta engrenagem”, mais do que pessoas que reproduzissem e repetissem o cotidiano em meio aos processos organizacionais. Para tanto, novos métodos, produtos, processos, rotinas e novas possibilidades só seriam possíveis, em uma organização, se o comportamento dos líderes e colaboradores mudassem. É nesse cenário que o incentivo e a promoção de práticas e processos acabaram por abrir espaço para a criatividade e inovação, como meios necessários de sobrevivência às organizações. É inegável a ligação entre a criatividade e a inovação, pois não existe inovação sem criatividade. Criatividade e inovação são fundamentais para a continuidade e engrandecimento das corporações, ainda mais em um mundo dinâmico e competitivo em que vivemos na atualidade. Os reflexos da inovação em uma corporação são inúmeros: maior produtividade, aumento no número de clientes, redução de custos, aprimoramento na mão de obra, novos produtos e maior lucratividade são apenas alguns reflexos que podemos listar aqui. Acreditamos que quase todos se lembram da locadora de filmes Blockbuster, certo? Ela foi a maior rede de locadora de vídeos de filmes e videogames no mundo. Começou sua operação no Brasil em 1995 e dominou amplamente o mercado. E por que sucumbiu? O que esse exemplo pode nos ensinar? Com a chegada dos serviços de streaming, o mercado de locação de vídeos sofreu uma mudança radical, as pessoas não precisavam mais sair de casa para fazer a locação, tampouco retornar para devolver. E mais, não corriam o risco de ter que pagar a multa existente na época, cobrada caso não fossem entregues na data estimada para a devolução. Naquele momento, as pessoas começaram a fazer as locações no conforto das suas casas, como conhecemos hoje. A inovação na maneira de consumir tal 4 produto com tamanha conveniência foi fatal e a Blockbuster não conseguiu resistir e fechou suas portas. Não tinha como competir. O que tiramos desse exemplo? Entre outros fatores, faltou à Blockbuster criatividade que possibilitasse a inovação necessária para se manter no topo. O exemplo contrário, de sucesso, vem da Netflix, gigante do serviço de streaming. Começou como uma locadora de filmes para entregas em domicílio, sem cobrança de multas e permitindo que os usuários fizessem a “devolução” quando desejassem. Com a chegada dos DVDs, em 2008, a Netflix viu a oportunidade de apostar em algo novo e arriscado: o serviço de streaming. Na época, a ideia era eliminar a necessidade de ir presencialmente a uma locadora ou fazer os envios pelos correios, trazendo uma plataforma com planos de assinaturas que permite assistir filmes e séries instantaneamente no computador. Em 2010, a Netflix já registrava 16 milhões de assinantes, quando a Blockbuster declarou falência. Para alguns, o motivo da queda da Blockbuster foi a Netflix, o que consideramos uma avaliação limitada. A verdade é que, também, a falta de investimento em inovação gerou a falência da marca. A empresa já estava com sua marca consolidada. Por que mudar? Esse foi o grande erro. Não existe estabilidade, pois o consumo e as formas de consumir mudam o tempo todo. Ainda, como exemplo, hoje as pessoas adquirem imóveis e locam estes por plataformas virtuais, tal como na Airbnb, 100% online! Isso era impensável até alguns anos, não é mesmo? Sem criatividade e inovação, todas as organizações correm o risco de desaparecer. Chiavenato (2014, p. 345) aponta um esquema que elucida os níveis ascendentes de inovação nas organizações, conforme a seguir: Topo de inovação Inovação constante e sinérgica Criatividade e inovação interna integradas Criatividade e inovação difusas Uso de benchmarking externo para se igualar à concorrência Uso de benchmarking externo para seguir a concorrência Pequenas mudanças genéricas e programadas Pequenas mudanças tópicas e aleatórias Manutenção do status quo Pouca memória organizacional 5 A manutenção do status quo não pode ser motivo para os líderes se acomodarem, e sim usarem das informações e conhecimentos já estabelecidos para o próximo salto, rumo a novas ideias que, por sua vez, trarão a possibilidade de inovação e todos os benefícios que esta possibilita. Para tanto, há que se manter um ambiente e uma cultura propícias para a criatividade dos colaboradores em todos os níveis e esferas organizacionais a fim de alavancar e potencializar as inovações necessárias. TEMA 2 – FATORES LIMITANTES DA CRIATIVIDADE A criatividade é uma habilidade que nasce com o ser humano. Todos nós temos e carregamos essa característica de inventividade e, como toda a habilidade, pode ser fomentada, desenvolvida ou bloqueada, diminuída. Sair da zona de conforto, buscar conhecimento, ser curioso, tudo isso faz parte do desenvolvimento da criatividade, porém existe o outro lado, os fatores que limitam o desenvolvimento dessa característica tão interessante. Pensem em um rio bloqueado, a água não consegue seguir seu rumo, fica represada, é assim a criatividade não desenvolvida, em que a barreira que está bloqueando a água do rio seriam as crenças limitantes, os bloqueios mentais que impedem o desenvolvimento da habilidade criativa. É preciso primeiramente ter consciência que existem esses bloqueios e, a partir daí, começar uma limpeza, uma faxina, na mente para que a criatividade possa ser desenvolvida. E quais seriam esses fatores limitantes? Na Década de 1940, o psicanalista americano Edmund Bergler criou o termo bloqueio criativo e, por 20 anos, estudou escritores que sofriam bloqueios criativos e o que poderia ser feito para reverter essa condição. Com as suas pesquisas, o estudioso psiquiatra descobriu que o grande motivador para gerar esse bloqueio criativo nos escritores, estava diretamente associado à desmotivação, ou seja, a combinação de emoções que bloqueiam a inspiração, tais como: ansiedade, elevada autocrítica, depressão e infelicidade. Esses fatores, se não tratados, funcionariam como fatores limitantes da criatividade. 6 Crédito: EamesBot/Shutterstock. Vários estudos foram realizados sobre fatores que influenciam na criatividade. Alguns deles apontam que, para termos uma criatividade aguçada, deveríamos treinar,exercitar a imaginação como exercitamos nossos músculos. Como apontam Kelley e Kelley (2013), em seu livro Creative Confidence: Unleashing the Creative Potential Within Us All, os irmãos Tom e David Kelley mostram que a habilidade criativa tem de ser treinada, desenvolvida e que temos condições, com esse desenvolvimento, de quebrar paradigmas, superar barreiras e romper limites. Com isso, temos condições de transpor bloqueios e não se deixar dominar por crenças limitantes. Pessoas que não criam podem gerar uma organização que não cria e, consequentemente, que não inova. 2.1 Crenças limitantes e bloqueadores da criatividade As crenças limitantes são estados mentais que consideramos como verdadeiros e que nos causam um bloqueio mental, fazendo acreditar que não seremos capazes de atingir determinado objetivo, bloqueando o desenvolvimento de habilidades e interferindo em nossas emoções. https://www.shutterstock.com/pt/g/eamesBot 7 Pensem em um linguajar negativo, como: “Não posso, não consigo, não sou capaz”, isso são exemplos de crenças limitantes que podem acompanhar uma pessoa desde sua tenra idade. Esses sentimentos negativos trarão insegurança, medo e prejudicarão qualquer processo criativo. Alguns elementos que podem bloquear a criatividade são os que se seguem. • Medo: um grande inimigo da criatividade que traz a insegurança e que é fácil perceber a razão, pois temos medo do novo, temos medo de receber uma crítica negativa, enfim, o medo é um sentimento presente muitas vezes em nosso dia a dia. O medo, se conscientizado, pode contribuir para que a pessoa possa estar em alerta e agir com prudência e atenção frente a diversas situações, mas não ser paralisador de uma pessoa. • Falta de humildade: o contato entre as pessoas, a troca de experiências e de conhecimentos pode favorecer o surgimento de novas ideias e de diferentes possibilidades diante de diversas situações, mas, para isso, é preciso estar aberto a contribuições das outras pessoas, praticando a humildade de reconhecendo que nos outros e no processo conjunto a inventividade possa florescer. • Passividade: falta de atitude e pouca iniciativa e participação não serão aliados na construção de novas ideias, portanto, é importante sair da inércia e agir. • Objetividade extrema: em muitos momentos, a objetividade será uma aliada, porém, é importante perceber quando se trata de criatividade, pois cortar caminhos ou pular etapas podem potencializar bloqueios e dificuldades para a criação de novas ideias. O processo criativo exige que tenhamos de aprender como não realizar as coisas. • Resistência a mudanças: falta de flexibilidade e abertura não combinam com o processo criativo. É necessário não temer as mudanças. Sair da zona de conforto, muitas vezes, será um grande aliado no processo criativo. • Excesso de métodos: os procedimentos, os métodos e a sistematização são importantes sob vários aspectos, contudo, quando tratamos da criatividade, o excesso de padrões e procedimentos podem causar bloqueio mental, que dificultam o processo criativo. 8 • Falta de perseverança: o “novo” sempre traz insegurança, não temos uma bola de cristal para saber se aquela nova ideia irá agradar ou se aquele processo inovador funcionará. O risco sempre existirá. Ainda é muito provável que ao longo do processo de inovação muitos problemas, erros, dificuldades e imprevistos aconteçam. É preciso ir em frente! Como exemplo, trago uma pequena passagem da vida do empreendedor Thomas Edison, que patenteou milhares de invenções, sendo a mais famosa a lâmpada incandescente em 1879. Dizem que certa vez passou a ser entrevistado por uma pessoa que o perguntou: “Thomas Edison, como você se sente em ter errado centenas de vezes até chegar à fórmula da lâmpada incandescente?”, e ele respondeu: “Eu não errei centenas de vezes. Eu descobri centenas de fórmulas de como não se fazer uma lâmpada!”. Agora imaginemos como seria se Thomas Edison, a cada erro, a cada momento de frustração, durante o processo criativo de invenção e de descobertas, se deixasse levar por: medos, falta de humildade, passividade, objetividade extrema, resistências a mudanças, excesso de métodos e falta de perseverança? Faça uma lista de crenças que te limitam em seu desenvolvimento e procure estar atento aos gatilhos que acionam cada uma delas. Certamente, ter consciência de cada uma delas será um passo para aflorar e dar fluidez ao seu processo criativo. Chiavenato (2014, p. 345) contribui afirmando: “Criatividade significa a aplicação da imaginação e da engenhosidade para proporcionar uma nova ideia, uma diferente abordagem ou uma solução para um problema”. Ele aponta como se pode criar uma estrutura de criatividade em uma organização: • Implantar e incentivar um programa de sugestões • Desenvolver grupos de geração de ideias • Implantar oficinas de criação • Criar centros de criatividade • Desenvolver círculos de qualidade e criatividade • Elaborar programas de treinamento em criatividade • Implantar um programa de melhoria contínua e incremento da inovação • Fazer pesquisa e desenvolvimento de ideias com pessoas • Criar sessões criativas e regulares • Desenvolver pessoas que atuem como facilitadoras da criatividade Tendo conhecimento de que a criatividade antecede a inovação, veremos, no próximo tópico, o conceito de inovação bem como se dá o seu processo em uma organização frente às necessidades de atualização e demandas do mercado de bens e serviços. 9 TEMA 3 – INOVAÇÃO Inovação de maneira mais geral pode ser definida como o processo de criar, de trazer o novo, de introduzir novidades. Para Zawislak (1995), inovação é uma nova combinação de conhecimentos para gerar um novo, porém um novo conhecimento que tenha valor de troca (viabilidade econômica) e não só valor de uso (valor de uso). O processo de inovação, muitas vezes, rompe barreiras, costumes que já estavam estabelecidos na sociedade ou mesmo processos que já estavam estabelecidos em uma organização e pode enfrentar inúmeros desafios, obstáculos e dificuldades. Há muitos anos, desde os primórdios dos hominídeos, os seres humanos dotados da capacidade de pensar e de imaginar inúmeras possibilidades para melhorar a sua vida, diante das situações cotidianas, passaram a criar e, por sua vez, inovar. O mundo, desde então, tem assistido a inúmeros progressos e que passaram a ser mais estudados, investigados e percebidos a partir da pesquisa industrial influenciada pelo volume de produção, pelo desenvolvimento cultural da sociedade, pelo avanço das tecnologias e o avanço da ciência, como aponta Soete (2007). A prática cotidiana, a experiência adquirida, por tentativas e erros, e o saber fazer foram direcionando as mudanças na compreensão das pessoas e das organizações que, por sua vez, foram relacionando e aproximando a pesquisa, a inovação e o desenvolvimento socioeconômico. Os processos de inovação passaram, num primeiro momento, pela transferência da tecnologia e pela imitação e, posteriormente, para além dela. Alguns estudiosos, como C. K. Prahalad, apontam que o processo de criação da inovação deve: • resultar em um produto ou serviço de qualidade de classe mundial; • atingir uma redução de preço significativa; • ser escalável – deve poder ser produzida, comercializada e usada em muitos locais e circunstâncias; • ser acessível na base da pirâmide econômica, atingindo as pessoas com os níveis de renda mais baixos em qualquer sociedade. 10 Entre os mais variados teóricos sobre o tema da historiografia do progresso técnico, em que a inovação sempre esteve presente, há certo consenso de que para a inovação ganhar ritmo, direção e difusão teve de haver a interrelação da ciência, das forças sociais e econômicas, como aponta Rosemberg (2006). Alguns dos fatores motivacionaispara a profusão do progresso técnico e, consequentemente, da inovação na história foram: i) mudanças das condições econômicas e legais quando afetavam a mão de obra (Marc Bloch, 1935); ii) movimentação geográfica de trabalhadores especializados (Scoville, 1951; Hall, 1967; Gille, 1963; Rosenberg, 1969; Landes, 1825); iii) diminuição dos custos de transação (Davis; North, 1971); iv) diminuição dos custos aquisição da informação – mesmos fornecedores e cooperação técnica entre empresas (Saxonhouse, 1974); v) mudança da produtividade no transporte marítimo antes de 1850; vi) impacto cumulativo de modificações, adaptações e melhoramentos técnicos (Rosenberg, 1963); vii) lucratividade (Griliches, 1960); viii) imitação, pois aumentava a lucratividade com menor investimento (Mansfield, 1961); ix) barreiras: ambientais, topográficas, disposições legais e institucionais geraram necessidade de avanços na agricultura, por exemplo (David, 1971); x) disponibilidade de recursos e sequencia histórica. Para que o processo de inovação seja existente, há de ter políticas de inovação que favoreçam os investimentos de Pesquisa e Desenvolvimento em todos os níveis da sociedade, atingindo, principalmente, empreendedores e organizações. 3.1 Graus de inovação Para uma melhor análise e entendimento sobre as implicações práticas da inovação, veremos os níveis, bem como alguns tipos de inovação. Podemos considerar as inovações em dois níveis: radical e incremental. • Inovações radicais: causam modificações nas técnicas e/ou tecnologias. É a criação de algo totalmente novo e que irá gerar uma necessidade nos consumidores. A empresa vai lançar um produto ou serviço que ninguém pediu e, assim, tentar criar um desejo de consumo. Muito mais complexa e com custos mais elevados. A plataforma Airbnb é um exemplo de inovação radical. Antes, ao viajar, tínhamos basicamente duas opções: hotéis e 11 pousadas, agora, qualquer pessoa com um cômodo ocioso pode receber pessoas e ter uma renda com isso. • Inovações Incrementais: se realizam de um modo mais ou menos contínuo e que são normalmente representadas por adaptações e melhoramentos. Em linhas gerais, é melhorar e aprimorar o que já existe. Aqui, as necessidades dos consumidores já são conhecidas. Já existe um processo, um produto que irão tentar aperfeiçoar, melhorar. Por exemplo, a câmera de fotos do primeiro IPhone e os atuais. Notem que eles aperfeiçoaram o que já existia. Melhoram a qualidade e a usabilidade. 3.2 Tipos de inovação “Uma inovação – além de ser radical ou incremental – pode ser de produto, de processo ou de gestão” (Zawilask, 1995). A figura a seguir ilustra alguns tipos de Inovação: Tipos de Inovação Novos produtos e Serviços Novos Processos de Fabricação Novos Fornecedores Novos Modelos de Negócios Novos Métodos de Trabalho Novas Competência Novas Parcerias Novos Ativos Novos Canais Novas Necessidade de Consumidores Novos Mercados Novas Tecnologias 12 • Inovação de serviços: é quando as organizações procuram melhorar a experiência dos seus clientes a um determinado serviço. Por exemplo, no início do sistema bancário, os clientes obrigatoriamente se dirigiam até a agência para conseguir um extrato da sua conta, com o tempo, esse serviço começou a ser oferecido em um caixa eletrônico. Tivemos uma inovação de serviço. • Inovação de produtos: a inovação de produtos sempre é a mais fácil de ser observada, pois, em muitos casos, as empresas ao inovarem com um determinado produto levam conforto e praticidade ao dia a dia das pessoas. Por exemplo: o forno de micro-ondas. • Inovação no processo produtivo e na organização produtiva: importantíssima em qualquer organização, pois, ao inovar na área produtiva, temos maior produção com menores custos e maior qualidade dos produtos, proporcionando uma excelente oportunidade para a empresa buscar novos parceiros, aumentar o número de clientes e obter maior lucratividade. Temos um bom exemplo na década de 1920, quando o americano Henry Ford, fundador da Ford Motor, inovou criando a “linha de montagem” em sua empresa fabricante de automóveis. Graças a essa montagem em série, um novo automóvel Ford ficava pronto em pouco tempo. • Inovação em modelos de negócios: estão em constante mudança e as organizações têm de estar atentas a isso. Em um passado recente, os supermercados ofereciam apenas itens ligados a alimentação e higiene pessoal, hoje, essa linha de produtos abraçam desde eletrodomésticos até itens para automóveis passando por roupas etc. Para o sucesso, uma empresa deve estar sempre inovando em seu modelo de negócio, procurando redefini-lo sempre que necessário. • Inovação em tecnologia: a inovação em tecnologia impacta de forma muito forte a sociedade. Pensem nos smartphones e reflitam no quanto eles mudaram a nossa vida. Você acessa a internet e, com isso, usufrui de todos os benefícios que ela proporciona (reuniões, compras, ligações de vídeo, transferências bancárias, pesquisas, entretenimento). • Inovação em marketing: elas envolvem a implementação de novos métodos de marketing, que não foram utilizados anteriormente pela empresa para concentrar-se na resposta às necessidades do cliente, 13 abrindo novos mercados ou reposicionando um produto no mercado com objetivo de aumentar as vendas da empresa. Não podemos esquecer que, para todo esse processo acontecer e termos uma inovação, seja de processos, produtos ou de gestão, temos de ter nas organizações: ambientes favoráveis para a criação de novas ideias, meios de realizar experiências e testes, foco e visão de futuro, aplicabilidade, escala, avaliação dos resultados e relevância e impacto social. Esse processo deve ser liderado por pessoas a fim de contribuir no desenvolvimento de ambiente e clima organizacionais positivos que levem à inovação. Para tanto, a liderança é fundamental para gerar as mudanças necessárias nas mais variadas áreas da estrutura organizacional. É o que discutiremos no próximo tópico. TEMA 4 – O PAPEL DA LIDERANÇA NA GESTÃO DA MUDANÇA Todo processo de mudança causa insegurança e resistência nas pessoas. Aprender a lidar com essas questões é muito importante para que tenhamos êxito nesse processo dentro de uma organização. As mudanças podem ser das mais variadas formas nas organizações. Existem inúmeros exemplos, desde uma empresa “familiar” em que os sucessores resolveram se separar, até empresas que fizeram aquisições, fusões, passando por empresas que estão mudando completamente seu sistema de vendas, retirando o estilo de vendas “porta a porta” e passando para as vendas online, por exemplo. Falamos rapidamente de três exemplos completamente distintos e poderíamos dar vários outros, pois as mudanças abrangem várias categorias e têm os mais variados perfis. Os líderes devem ter clareza nos impactos que serão gerados a partir dessas mudanças, para que o processo seja realizado com sucesso, incluindo aí um dos maiores desafios, o da resistência à mudança. Idalberto Chiavenato (2010, p. 150) traz uma reflexão interessante: “A resistência das pessoas às mudanças dentro das organizações é tão comum quanto a própria necessidade das mudanças. É o velho princípio da física que diz que a cada ação corresponde uma reação igual e contrária”. 14 Reafirmamos aqui que, para uma empresa que precisa tratar de uma transformação, é fundamental que invista em um bom plano de gestão da mudança. John Kotter (1999), autor americano, considerado um dos maiores nomes em gestão da mudança, é categórico ao afirmar que 70% dos processos de mudança falham devido à falta de um planejamento cuidadoso. A figura do líder deve atuar como um elemento inspirador, ser uma referência que os colaboradores querem seguir. Quando pensamos no tema liderança, algumas características nãopodem faltar para um líder exercer esse papel tão importante e complexo: • Propósito: saber aonde quer chegar e reunir pessoas que também tenham esse mesmo anseio. • Confiança: você só consegue fazer as pessoas acreditarem na sua ideia, no seu propósito, se elas confiarem em você e naquilo que está fazendo. Investir no estabelecimento de vínculo entre as pessoas é fundamental para estabelecer relações de confiança. • Observação: um líder deve ter visão geral sobre tudo que está acontecendo no processo, assim como a visão da forma como os seus colaboradores estão reagindo a esse processo. O poder de observação influencia muito na qualidade da análise dos números, das pessoas e das entregas a serem realizadas. Essas são apenas algumas características que um gestor deve possuir nessa missão tão importante que é liderar, lembrando sempre que, ao contrário do que muitos pensam, a liderança deve ser uma missão de servir, jamais de ser servido. E quando tratamos do papel da liderança em um processo de gestão da mudança? Vejamos: mudança sempre indica a passagem de um estado para outro diferente, gerando uma transformação, um rompimento e com algumas consequências, seja no âmbito profissional ou pessoal. No campo profissional, a liderança mais uma vez terá um papel importante na gestão da mudança e nos reflexos que a mesma causa. Idalberto Chiavenato (2010) aponta uma situação interessante dentro dessa gestão da mudança. Segundo o autor, muitos programas de mudança organizacional não alcançam o resultado pretendido por se ater apenas nas mudanças do trabalho em si, da sistemática adotada para aquele novo processo 15 e não voltam seus olhares para a atitude e comportamento dos colaboradores e, tampouco, para o engajamento dos mesmos. Segundo Idalberto Chiavenato (2014, p. 350), “o primeiro passo está em mudar o comportamento individual para, posteriormente, ter condições de mudar o comportamento organizacional”. Interessante o ponto de vista defendido pelo autor, pois sem essa visão por parte dos colaboradores a mudança pretendida pode não ser compreendida e aí o objetivo corre riscos de não ser alcançado. O gestor líder deverá abraçar essa postura e ajudar nessa transformação junto aos seus liderados. é necessário que as pessoas visualizem claramente o que deve ser mudado e concordem com isso para depois alcançar a mudança. Daí para frente pode-se então mudar a estrutura organizacional que envolve as pessoas – como os sistemas de reconhecimento e recompensas, arquitetura e modelagem de trabalho, cultura organizacional, tudo em sintonia com esse novo tipo de comportamento. (Chiavenato, 2014, p. 350) Realmente, na prática, observamos as empresas mais preocupadas em corrigir erros por meio de mudanças pontuais, tópicas, por acreditarem que, dessa forma, a solução se dará de forma mais rápida e isso acaba apenas postergando o problema. É necessário conduzir a situação de forma que os colaboradores entendam o porquê da mudança e a partir daí a solução terá mais base e, com isso, se tornará mais duradoura. Cabe ao gestor conduzir o processo da mudança, abarcando as novas ideias, passando essa nova visão aos seus colaboradores, fazendo também o gerenciamento pessoal e imprimindo a marca que todo líder deve ter, que é ser um elemento motivador, comprometido e inspirador em toda a cadeia de mudança. Na gestão da mudança, faz-se necessário um conjunto de atitudes por parte da organização, do líder e dos colaboradores, pois dentro de uma organização tem um significado amplo e sistêmico. Estratégia e planejamento da mudança. Planejamento do gerenciamento dos impactos organizacionais (processos e pessoas). Planejamento da comunicação interna. Planejamento do desenvolvimento da equipe de mudança. Planejamento do desenvolvimento das pessoas. Implantação do plano de mudanças e seu acompanhamento. 16 Mais do que a mudança em si é de fundamental importância refletir e desenhar o seu processo iniciando pela estratégia e planejamento dos impactos, da comunicação, da equipe que estruturará a mudança, do desenvolvimento e formação de todas as pessoas. Tendo a estratégia e os planejamentos bem definidos, é momento de realizar a implantação da mudança. Ainda assim, novas situações e imprevistos certamente surgirão e caberá ao líder ter “jogo de cintura”, técnica e avaliação dos resultados em todo o processo para corrigir a rota a fim do melhor processo de mudança pretendido. TEMA 5 – ESTUDO DE CASO: MUDANÇA E LIDERANÇA Acreditamos que a melhor forma de analisarmos a gestão da mudança e a atitude dos líderes nesse processo, seja analisando um caso concreto, e é o que vamos fazer nesse último tópico. Hoje, o gigante do setor varejista Magazine Luiza, nascido na cidade de Franca, interior do Estado de São Paulo, no ano de 1957, tinha pretensões bem modestas. Àquela altura, seus fundadores, Luiza Trajano e seu marido Pelegrino Donato viam naquela loja uma boa possibilidade de gerar empregos para seus familiares. No decorrer dos anos, a empresa mostrou um sólido crescimento, que fez com que os fundadores pensassem em um plano de expansão, o que aconteceu a partir do ano de 1976 com aquisição das Lojas Mercantil. Esse movimento proporcionou a abertura das primeiras filiais da Magazine Luiza pelo interior de São Paulo. Essa expansão territorial nunca parou e seguiu com várias aquisições. Para contextualizar essa expansão, vamos fazer uma pequena linha do tempo: Seria comum em uma situação de trajetória de sucesso como essa notarmos um certo comodismo na questão administrativa, afinal, reza a lenda que: “Em time que está ganhando não se mexe”. E você? Concorda com isso? O que 1983 Inauguração das lojas no triângulo mineiro 1996 Inauguração das lojas no sul do país 2004 Aquisição das lojas Arno 2010 Aquisição de 136 lojas e expansão no Nordeste 1992 Inauguração das primeiras lojas virtuais 1957 Nascimento da Magazine Luiza 17 você faria a esse exemplo da Magazine Luiza? Você, como o principal líder da empresa, pensaria ou teria coragem para provocar mudanças? Essa foi a atitude que a Sr.ª Luiza Helena Trajano, sobrinha da fundadora e CEO da empresa, fez. Ela, juntamente com seus gestores e liderados, começaram a vislumbrar a tecnologia como grande aliada na gestão administrativa e, principalmente, como mola propulsora de vendas. Voltamos à linha do tempo, agora, já no ano de 1992. A empresa inaugura suas primeiras lojas virtuais, dando início a uma transformação tecnológica que tem no ano 2000 seu grande momento, um divisor de águas dentro da empresa com o lançamento de seu e-commerce. A distância física já não era um problema para o setor de vendas. O espantoso crescimento da varejista está totalmente relacionado a esse processo de transformação digital que permitiu que a companhia deixasse apenas as lojas físicas para ser uma referência no e-commerce. A estratégia da Magazine Luiza para se tornar um negócio digital passou por: 1) Reforçar a equipe comercial: aqui temos o investimento nos colaboradores, capacitação da equipe de atendimento e venda para o mercado digital. Nota-se aqui uma mudança na cultura da empresa. As vendas não se restringem mais somente à equipe com atendimento presencial, entra o conhecimento e investimento em vendas à distância. Investimento em tecnologia. Houve a mudança na cultura da empresa e investimento em capacitação dos colaboradores. 2) Investimento em marketing digital com foco em promoções: com a adoção de uma cultura digital, a Magalu adotou uma plataforma de dados, para definir os clientes com maior potencial de compra, rentabilidade e relevância. A partir dessas informações, é feita a comunicação com esses consumidores por meio de mídia programática, canais devendas e listagem. Uma ferramenta inovadora na gestão de vendas. Notem que estamos falando de Inovação de Processos. Dessa forma, a companhia visou atingir os consumidores que passaram a adotar o comércio eletrônico, além de oferecer melhor experiência nas lojas físicas com o auxílio de tecnologia. Para se tornar, efetivamente, multicanal, a Magazine Luiza conectou todos os pontos de contato da loja. https://digilandia.io/transformacao-digital/marketing-digital-na-crise/ 18 Entre os pontos principais da estratégia de digitalização da Magazine Luiza, estão: • a aposta na multicanalidade, com a integração entre lojas físicas e e- commerce, para atender às particularidades do mercado nacional; • desenvolvimento de uma cultura com espaço para buscar a inovação e aceitação de riscos; e • internalização do desenvolvimento de tecnologia com a criação de uma equipe de programadores para criar e aprimorar os canais digitais da empresa. Frederico Trajano, diretor da empresa, explica que a mudança tão grande no perfil de uma empresa com mais de 60 anos de história foi desafiadora. O ponto fundamental foi acreditar e ter a disciplina de passar a confiança necessária aos seus liderados para que estes também acreditassem na mudança. Chamamos a atenção para um elemento fundamental, a confiança que um gestor líder tem que passar aos seus liderados. É importante considerar que a comunicação da estratégia que será adotada deve ser feita com total clareza com a sua equipe além de se certificar de que ela foi compreendida por todos da equipe. 3) Criatividade e inovação: outro ponto interessante no caso da Magalu é a diversificação no sistema de pagamentos. Já no ano de 2001, notamos mais um passo inovador dado pela gestão administrativa da empresa, com a criação do Luizacred, em parceria com o banco Itaú, possibilitando melhores taxas de juros nas compras parceladas, bem como prazos maiores para pagamento. Com a estruturação do seu e-commerce, as vendas que antes eram feitas exclusivamente pelas vias tradicionais (cartão, cheque, dinheiro ou carnê) em suas lojas físicas passou a contar com pagamentos online, mais flexíveis, em até 10 vezes sem juros. Essa inovação de processo, à época, possibilitou um acesso muito maior aos clientes. Hoje, a gigante varejista opera com 1.481 lojas físicas, distribuídas por mais de 830 cidades, em 21 estados e que vem rapidamente se transformando em Centros Avançados de distribuição dos produtos da empresa, vendidos online. Faturamento da empresa ultrapassou os R$ 13 bilhões de reais em 2021. 19 De acordo com levantamento do Boston Consulting Group (BCG), a partir de dados de 31 de dezembro de 2020, no período de 2016 a 2020, a Magazine Luiza gerou um retorno total de 226,4% de ganhos em valorização de mercado e dividendos anuais, colocando a Magalu como a empresa que mais gerou retorno aos acionistas no mundo, ficando na primeira posição no ranking global no setor industrial. Temos aqui um caso de gestão da mudança que demonstra coragem, ousadia, inovação, investimentos em capacitação de seus colaboradores e tecnologia. Tamanho sucesso foi objeto de estudo por alunos da Universidade de Harvard, nos EUA, uma das mais conceituadas escolas de ensino superior do mundo. Atributos como agilidade nas decisões, liderança pujante, fidelidade dos funcionários e manutenção dos valores da empresa são destacados pelos norte- americanos como diferenciais da rede. 20 REFERÊNCIAS CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas. 3. ed. Ed. Campus, 2010. _____. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 4. ed. Ed. Campus, 2014. DIGITALKS. “A integração dos canais on e offline é essencial”, Frederico Trajano do Magazine Luiza. 6 fev. 2019. Disponível em: <https://youtu.be/-lPFggeqKxc>. Acesso em: 31 maio 2022. KELLEY, T.; KELLEY, D. Creative confidence: unleashing the creative potential within us all. Currency, 2013. ROSENBERG, N. Por dentro da caixa-preta: tecnologia e economia. Campinas: Editora da UNICAMP, 2006. SOETE, L. Science, technology and development: emerging concepts and visions. 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