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AULA 3 COMPORTAMENTO HUMANO NAS ORGANIZAÇÕES Prof. Glavio Leal Paura 2 TEMA 1 – COMPORTAMENTO NAS ADVERSIDADES: TENDÊNCIA Com o surgimento da grande crise de saúde mundial, causada pelo Coronavírus, algumas tendências que estavam sendo observadas simplesmente se tonaram realidade de um dia para o outro, a maior delas foi o que conhecemos como home office, que nada mais é do que um modelo de trabalho flexível que possui outros nomes mundo afora, mesmo que em um primeiro momento o termo traduzido possa parecer universal. Na Europa é conhecido como smart working e nos Estados Unidos como workplace flexibility. Nesse modelo de trabalho difundido, de uma forma mais intensa, em nossa crise pandêmica, a principal característica é o fato de o trabalhador ter a total liberdade de onde ele acessará e desenvolverá seu trabalho. Antes do fator covid-19 no Brasil, era um modelo de trabalho que estava em processo de construção, porém, com a necessidade, passou a ser regulamentado e uma realidade muito forte em todas as empresas. Nesse instante, antes de continuarmos a questão do home office, chamo a atenção do leitor para notar como o comportamento humano, tema de nossa disciplina, influencia de forma tão direta o desenvolvimento de necessidades. Todos acreditavam que a pandemia duraria um mês no máximo e, em visão pessimista, dois meses, porém, a coisa avançou mais, no momento em que escrevo esse texto, estamos há sete meses nesse problema mundial, com isso, para que vários empregos não fossem perdidos, algo que ainda estava em fase de implantação virou uma realidade muito presente. O home office já vinha com uma tendência mundial representando, antes da pandemia, pouco mais de 32% da população economicamente ativa, com cerca de 1 bilhão de pessoas usando esse método de trabalho. Porém, podemos estimar que dependendo da categoria de trabalho esse percentual exceda os 60%. Obviamente que, para muitas profissões, descobrimos uma forma de nos desenvolver e não parar organizações até mesmo clínicas médicas uma vez que nossa legislação passou a permitir que determinadas consultas passassem a ser mediante alguma plataforma na internet. Kanaane (2017) nos fala que a tecnologia facilita as tarefas dos funcionários que utilizam dispositivos móveis. Vou mais além, vimos nessa mudança cultural em uma organização de trabalho que o uso de novas tecnologias 3 pode proporcionar um desenvolvimento e adaptação que, muitas vezes, vemos possível diante de um momento adverso. O curioso é que tivemos profissionais que estimavam que até o ano de 2020 aproximadamente 90% das corporações devessem oferecer aos funcionários atividades voltadas ao trabalho a distância. O que eles não esperavam é que um problema mundial levasse essa previsão para o status de verdade tão rapidamente a ponto que eu me arrisco a dizer que mais dessa porcentagem foi atingida agora no último trimestre de 2020. É interessante observar que o comportamento humano nas organizações diante da adversidade é capaz de transformar um mar de incertezas em uma ferramenta eficaz para que a empresa não pare e se molde à realidade que se apresenta. Isso é interessante notar, pois se questionasse para qualquer brasileiro em 2019 qual a possibilidade de, em menos de um ano, médicos, escolas, universidades e empresas de modo geral aderirem a grande parte de seus serviços em home office muito possivelmente quase todos diriam que isso estava fora de cogitação. O fato é que por muito tempo o trabalho remoto era uma realidade que poucos poderiam alcançar e arrisco-me a dizer que hoje é um modelo que veio para ficar. Essa metodologia veio para ficar, pois as organizações começaram a notar o ganho tanto financeiro quanto de eficiência que isso pode representar e neste ponto levanto duas questões: • Qual o ganho financeiro? • Qual o ganho em eficiência? Imaginem uma organização que para o desenvolvimento de suas atividades necessitava manter uma estrutura física para abrigar mais de 150 pessoas, por exemplo, em um ambiente onde suas principais ferramentas, até para contato com clientes, eram computadores em um ambiente virtual. Conheço uma empresa no ramo do ensino que se encaixa perfeitamente nesse meu exemplo que podemos considerar verídico. Com o surgimento do cenário atual, a empresa em vez de paralisar suas atividades, começou a preparar os funcionários e entender suas necessidades para que desenvolvessem suas atividades de casa, começou como algo temporário, porém o cenário que se desenvolveu em 2020 e a eficiência que seus empregados estavam tendo levaram a essa empresa a entender que o home 4 office adotado estava superando as expectativas. Com isso, levantou-se outra questão: Se está funcionando bem, por que devemos chamar de volta esses funcionários? Analisem comigo: 150 funcionários que deixam de usar um espaço para produzirem de forma remota, temos economias de infraestrutura, como espaço físico, contas de luz, água, insumos e outros. Se esses funcionários estavam instalados em prédios alugados, simplesmente pode-se devolver esse imóvel. Percebem a economia? E a eficiência? Quem já teve a oportunidade de trabalhar em casa deve ter percebido que apesar do tempo que se economiza sem precisar do deslocamento é um trabalho que ficamos atento a ele praticamente o dia todo, mesmo sem essa obrigatoriedade, simplesmente pelo instinto de responsabilidade que permeia vários profissionais de mercado e, em muitos casos, a dedicação e o trabalho aumentam. Vem deste ponto o desenvolvimento de eficiência. O leitor deve estar se questionando: Mas e aqueles que não se adaptaram ou não produzem de casa? Infelizmente entra nesse ponto a capacidade de adaptação, é muito natural do ser humano até porque em todo e qualquer ambiente seja ele na residência ou em um ambiente formal de trabalho, existirá sempre os que produzem mais, os que produzem menos, os que se adaptam e os que não se adaptam. No meu exemplo anterior, a empresa notou um crescimento significativo em sua qualidade de atendimento, o que a levou a manter de forma definitiva um setor inteiro na modalidade remota de trabalho. A adversidade formada nesse período desenvolve inclusive culturas organizacionais que antes eram impensáveis em alguns países. Esse último exemplo evidencia o que muitos profissionais brasileiros viveram, em relação a mudanças comportamentais e culturais, nos meses do ano de 2020, a mudança abrupta. Eu, particularmente, sou contra o termo “novo normal”, que foi muito usando ao longo de 2020, para identificar novas realidades, entretanto, no que diz respeito a várias organizações, o termo passou a se encaixar perfeitamente. 5 TEMA 2 – A CULTURA E SEUS ELEMENTOS: VALORES E CRENÇAS Vimos até esse ponto alguns temas que nos mostram por várias vertentes as questões que compõem tanto o comportamento humano, como o comportamento organizacional e a interação entre esses dois pontos. Estudamos a cultura organizacional e a questão do trabalho. A abordagem deste tema nos levará a entender melhor de que forma a cultura organizacional é formada e de quais elementos é composta, nos dando uma visão mais ampla do que é e, consequentemente, como o comportamento humano se encaixa, desenvolve e altera o ambiente organizacional. Se pararmos para analisar diferentes autores, veremos elementos em maior ou menor quantidade, porém, isso não importará tanto uma vez que o objetivo de se estudar este tema é que tenhamos uma visão holística melhor sobre o assunto. Vamos começar observando um elemento que é um consenso entre os estudiosos do assunto que são os valores. Segundo Pérsico (2012), valores expressam o que a organização mais valoriza, ou seja, tudo que tenha valor para a empresa. O ponto chave que definirá isso, quase sempre, tem origem em quemfundou a empresa e pelos seus dirigentes. Isso se deve ao fato de serem os responsáveis diretos de traçar e idealizar os objetivos da organização e, como ocupam os maiores cargos de chefia, desenvolvem seus funcionários para que tenham a maior sinergia possível com direcionamentos que levem a esses objetivos. Pérsico (2012) expressa justamente isso quando nos diz que os valores devem estar de acordo com esses objetivos e são usados estrategicamente para o atingimento da missão e dos resultados. Podemos considerar, portanto, que os valores serão a base para todo o comportamento organizacional. Contudo, assim como o comportamento organizacional que podemos dividir entre aparente e subjacente, assunto que estudamos anteriormente, existem valores conhecidos que são expressos abertamente e que são comunicados e fazem parte do dia a dia e existem aqueles que não são conhecidos nem expressos. Esses últimos veremos manifestar-se em atitudes e comportamentos e criará algo que não encaixa, pois o que é dito não é praticado. Não tenho dúvidas de que a maioria de nós já vivenciou isso na prática, quantas vezes em uma 6 organização, por exemplo, pregamos que podemos falar abertamente dos problemas? Mas quando um o faz, é sumariamente desligado, aos que nunca tiveram essa experiência, acreditem, isso existe e muito. Pérsico (2012) diz que esses valores frequentemente são aqueles que existem, sim, em uma organização, mas não são bem aceitos pelas pessoas em geral. Em minha opinião, esses valores que ficam subentendidos e não são expressos devem ou se tornar oficiais, se assim a organização julgar salutar para o atingimento de seus objetivos, ou devem ser erradicados, para que não se crie um ambiente de trabalho nocivo. Até porque se entendemos até aqui que os valores dão o norte da empresa, imaginem aonde iremos chegar com valores que são nocivos no dia a dia de trabalho. Agora, um ponto importante que temos que entender são que os valores de uma organização podem ser dinâmicos, ou seja, mudados conforme as necessidades da organização e o contexto socioeconômico e político da época ou mesmo; ou os valores podem ser permanentes, até porque existem valores imutáveis com o passar do tempo, como a honestidade. Os valores compartilhados, segundo Pérsico (2012), são aqueles os quais a pessoa concorda, que fazem parte de seus valores pessoais. O melhor exemplo é a empresa que acredita na ética como valor importante, e o funcionário que acredita que a ética deva ser parte integrante de seu comportamento, isso é importante e este estará em sinergia com a empresa. Pérsico (2012) nos fala que quando temos valores organizacionais que estão em ressonância com nossos valores pessoais esses se revelam mais forte para o atingimento dos objetivos organizacionais e pessoais. As pessoas que chegam em um ambiente de trabalho assim para exercer suas atividades encontra um local prazeroso que o ajudará a atingir objetivos pessoais. Os valores de uma empresa mostram para as pessoas que a compõe o que é importante e o que é irrelevante, Pérsico (2012) diz que os valores são de extrema importância na determinação do funcionamento de uma organização e da condução dos trabalhos. Entretanto, temos outros elementos que podem compor os elementos de uma cultura organizacional, além dos valores, seguindo Pérsico (2012), temos a questão das crenças e pressupostos que dizem respeito àquilo em que se acredita, que se é aceito com verdade e por isso não é questionado. 7 Todos nós, mesmo que não tenhamos trabalhado em uma organização, carregamos conosco experiências ao longo da vida que nos levam às nossas crenças e quando me refiro a esse ponto não estou me referindo à religião, e sim às práticas do dia a dia, por exemplo, suponhamos que trabalhamos em uma empresa de serviços e, com o passar dos anos, notamos que toda vez que atendemos a um cliente com cordialidade e respeito ele sempre retorna. Com isso, desenvolvemos a crença de que um bom atendimento leva a satisfação do cliente, esse é um exemplo simples que ilustra bem a questão do desenvolvimento de crenças em torno de nossa experiência. Segundo Pérsico (2012), as crenças dividem com os valores o espaço central da cultura de uma organização, esses elementos compões a base da cultura organizacional e estão relacionadas a como a organização percebe seus funcionários, clientes, produtos e mercado. Uma das coisas que mais observo quando entro, por exemplo, em uma grande loja é a forma com que somos tratados, isso pode nos mostrar duas coisas: os valores da empresa e como seus funcionários são tratados. Essa simples observação pode nos levar a entender um pouco da cultura organizacional do lugar. Por muitos anos fui cliente de uma grande rede de livrarias da qual tinha muito admiração, pois sempre respeitavam prazos de entregas, porém eu tinha somente contato com essa rede via seu e-commerce até o momento em que ela se instalou na cidade onde moro. Obviamente, por ter uma excelente impressão dos serviços prestados por sua vertente no e-commerce fui levado a frequentar a loja recém-inaugurada. Um ambiente estruturalmente agradável, porém depois de alguns anos, comecei a notar que funcionários que comumente me atendiam, simplesmente desapareciam da loja, a primeira impressão que temos é que eles podem ter conseguido um emprego que os pagassem mais, contudo, em determinada ocasião, conheci um dos funcionários que relatou algumas atitudes da empresa que me levou a crer que a cultura organizacional era, praticamente, de exploração e exposição de seus funcionários. Achei tão absurdo que resolvi não ser mais cliente da rede. Pouquíssimos anos se passaram e veio à tona na impressa que a rede pediu recuperação judicial, tenho certeza de que de uma forma ou de outra essa cultura de desvalorização do funcionário contribuiu para chegar a esse ponto. 8 TEMA 3 – A CULTURA E SEUS ELEMENTOS: PRESSUPOSTOS, HISTÓRIAS E MITOS Quando levantamos as questões dos pressupostos como elementos que compõem a cultura organizacional, é interessante observar as cinco categorias apresentadas por Freitas (2022, citado por Pérsico, 2012). A natureza dos relacionamentos é o primeiro levantado e trata justamente do pressuposto da empresa em que as relações estabelecidas estão baseadas na igualdade entre os membros ou na diferença entre eles. A natureza humana, quando nos referirmos a esses termos mesmo dentro das organizações, estamos nos referindo à percepção da índole, da credibilidade e reponsabilidade de cada um para que possamos entender se as pessoas são boas ou más. Segundo Freitas (2022, citado por Pérsico, 2012), isso também envolve perceber se são confiáveis ou necessitam de controle. Em uma organização, é fácil perceber qual o pressuposto em relação às pessoas, pois, para uma empresa que pressupõe que as pessoas são confiáveis, há um relaxamento natural do controle, em detrimento do ambiente de trabalho; enquanto empresas que pressupõem que as pessoas não são confiáveis tendem a ter um controle mais rígido. A natureza da verdade, ao compreender esse ponto que envolve a maneira com que a organização trabalha informações, ou seja, se são verdades indiscutíveis e comunicadas ou escondidas e manipuladas. Esse é o ponto que envolve a relação da empresa com funcionários e clientes e é caracterizada ou pela franqueza ou pela omissão e pela distorção da verdade. Esse ponto é interessante, pois podemos entender os valores que os funcionários, por exemplo, têm para a empresa. Certa vez trabalhei para uma empresa em que a natureza da verdade era algo no mínimo curioso quando se tratava da relação entre a organização e os funcionários, pois lá a verdade prevaleceria para quem contasse sua versão primeiro, em minha opinião, algo completamente incoerente e porque não dizercovarde de tratar alguns fatos. O ambiente, quando o tratamos como uma categoria dos pressupostos, estamos nos referindo a um todo, ou seja, ao ambiente físico, ao mercado, clientes entre outros. A questão que permeia seria a postura adotada pela organização no que tange as situações internas e externas. E neste ponto, segundo Freitas (2022, 9 citado por Pérsico, 2012), a tendência pode ser: domínio, controle e busca pelos interesses próprios ou abertura que visa a busca pelo equilíbrio. O universalismo é uma crença que se refere ao fato de as regras, as normas e os valores serem aplicados a todos, independente do cargo que ocupa. As pessoas são tratadas de formas iguais? Me arrisco a dizer que em quase todas as organizações isso é uma grande falácia de uma forma ou de outra, principalmente em nossa cultura nacional, dependendo do cargo que ocupa, as coisas acontecem de forma diferente para você, isso é um fato porém ao meu ver uma das formas de corrupção, que infelizmente é uma moléstia que permeia nossa sociedade um pouco mais que as demais. Como podemos observar ao longo desta aula, até esse ponto, assim como os valores, os pressupostos são uma espécie de limites em situações de incerteza e ansiedade e serve de referência e orientação para situações que ocorram dentro ou fora da organização. Segundo Pérsico (2012), o ser humano tem, em sua natureza, uma necessidade natural de referências e estabilidade para estar em um ambiente que se sinta seguro. Faz parte dessa sensação de segurança alguns rituais de integração, bastante presente em nossa cultura e, consequentemente, nas empresas. Por exemplo, quanto de vocês já participaram de festas de Natal e final de ano na empresa que trabalham? O objetivo principal desse tipo de festejo com as pessoas de seu ambiente de trabalho é desenvolver um sentimento de pertencimento e comprometimento com a organização. A partir do momento que se sente parte integrante do todo, há uma natural tendência do comportamento humano a se dedicar mais e a abraçar os valores da empresa a qual trabalha. Inclusive, vale a pena ressaltar um ritual muito comum em várias culturas organizacionais que são os famosos chopes no final do dia que, muitas vezes, servem para aliviar conflitos ou tensões ocasionadas pelo momento que a empresa passa, seja por volume de trabalho ou mesmo por situações entre setores ou funcionários. Segundo Pérsico (2012) podemos chamar isso de rituais de redução de conflitos. Outros pontos que Pérsico (2012) trata como elementos da cultura organizacional são as histórias e mitos e, antes de prosseguirmos, precisamos entender que em um ambiente organizacional quando nos referimos a histórias estamos tratando de narrativas que se baseiam em fatos reais, ocorridos dentro 10 da empresa que servem para divulgar e reforçar condutas, comportamentos que são aprovados ou não pela empresa. As histórias podem, também, indicar formas de como solucionar problemas com base em exemplos que aconteceram de fato, ou mesmo basear decisões que precisam serem tomadas e como a empresa se porta diante de alguns dos problemas. Observamos em algumas empresas essa cultura da divulgação de histórias, principalmente em momentos de treinamento em que se quer passar para os funcionários os valores e condutas esperados, possivelmente o leitor, que já atuou em alguma empresa, já tenha participados de reuniões em que foram apresentados problemas e como a empresa contornou, o objetivo desse tipo de atitude é que o funcionário entenda com a empresa pretende lidar com algumas situações específicas. Agora, quando temos o mito se referindo a situações dentro de um ambiente organizacional, segundo Pérsico (2012), temos uma versão que não condiz muito com a realidade tanto para um aspecto positivo tanto para um aspecto negativo. Podem até usar um fato real, porém há uma distorção do que aconteceu. Muitas vezes, a organização usa isso, também, como uma ferramenta para atender alguma necessidade organizacional que, geralmente, se dá para reforçar algum aspecto comportamental que anteriormente pode não ter sido muito alinhado com os valores e a conduta naquele ambiente. Neste momento, é interessante notar que as histórias apresentadas pelas empresas podem nos servir como um orientador de como se apresenta os valores e comportamentos que são desejados ou não pelas organizações e servem, portanto, como um modelador de comportamento e controle definindo os limites permitidos e aceitos, conforme afirma Pérsico (2012). Isso acontece porque as histórias são reais e baseadas em fatos ocorridos na empresa e se pensarmos melhor uma vez que esta insiste em trazer esses fatos à tona para treinamentos, por exemplo, é o indício que pretende com que os funcionários se moldem em torno daquele acontecimento e que sirva de exemplo da maneira de se portar diante de uma adversidade. O que ocorre, também, é que, muitas vezes, as histórias são de conhecimentos de todos, o que valida ainda mais a ideia do uso em torno de um direcionamento para os funcionários e uma fixação da postura que se espera. 11 TEMA 4 – A CULTURA E SEUS ELEMENTOS: TABU, HERÓI, NORMAS E COMUNICAÇÃO Quando estamos nos aprofundando no conhecimento que envolve a cultura organizacional, principalmente quando estamos analisando os elementos que a compõe, nos deparamos com assuntos críticos para a organização e que muitas vezes está diretamente relacionado com algum fato que aconteceu que de alguma forma arranhou os valores e a reputação da empresa a esses acontecimentos, Pérsico (2012) chama de tabu. Esses fatos ficam, frequentemente, na parte oculta da cultura da empresa uma vez que não são tratados abertamente e além de serem poucos comentados são, inclusive, evitados pelas organizações por serem motivos, muitas vezes, de vergonha. Porém, Pérsico (2012) diz que mesmo que não sejam tratados de forma clara nos ambientes organizacionais fazem parte e estão presentes nas empresas e devem ser tratados como direcionadores de comportamentos que possam envolver tomadas de decisão evidenciando, portanto, temáticas que podem representar situações de risco. Os tabus podem ser um elemento que ajude em treinamentos que visam reforçar a questão da disciplina e se é de vontade da empresa não os evidenciar aos funcionários de forma geral que sirva de treinamento para a alta gestão, evidenciando a postura que deve ser apresentada por parte de seu corpo diretivo. Até porque tabus, de forma geral, tratam de assédios, sexismo e preconceitos. Ainda sob a ótica dos elementos que compõem a cultura organizacional, Pérsico (2012) destaca pessoas que são representativas por seus feitos ou por representarem fortemente a organização classificando-as como heróis, particularmente não gosto muito desse termo, pois evidencia mais do que deve uma pessoa, podendo gerar um sentimento nocivo de ciúmes no ambiente empresarial, porém vejo com muito bons olhos que essas pessoas sejam evidenciadas de forma positiva e na medida certa. Até porque, em quase toda empresa, existe aquela pessoa em que sua história praticamente se confunde com a da organização, não somente pelo seu tempo de casa, mas pelos feitos desenvolvidos ao longo desse relacionamento. Pérsico (2012) explica que essas pessoas personificam a organização, seus valores e crenças, servem de modelo, são referências no que fazem. 12 Podemos pegar um exemplo muito popular no Brasil nos dias de hoje, a figura do Sr. Luciano Hang, proprietário da empresa Havan. Não estou aqui defendendo ou atacando posições, contudo uma coisa que temos que admitir é que para aquela organização, concorde você ou não, ele tem essa figura de herói que vimos anteriormente. Em muitas organizações, esse exemplo está muito ligado aos fundadores. Um outro caso nacional dessa figura do heróié das Casas Bahia, com a figura do Sr. Samuel Klein, que por muitos anos, para aquela organização, serviu de exemplo a ser seguido. Quero reforçar a ideia de que não estou aqui julgando a posição de cada um, e sim o que cada um representa para a sua empresa. A organização praticamente desenvolve essa figura do herói muito com o intuito de atender o imaginário e desenvolverem uma questão motivacional. Em torno dessa figura, são criadas metas, desafios que devem ser alcançados por cada funcionário, fazendo com que este assuma esse papel de herói, esse papel de vencedor. Isso, em algumas organizações, é muito nítido, por exemplo, até pouco tempo atrás, as lojas Havan possuíam um sino que, quando a meta da unidade era batida, esse sino tocava e sempre próximo a uma imagem do Sr. Hang, trazendo o sentimento que o atingimento do objetivo, que leva a tocar o sino, está ligado à figura de um vencedor, de uma pessoa que veio de baixo e construiu um império. Vejam, o nosso objetivo é compreender isso como um dos elementos de uma cultura organizacional e não julgar o que é certo ou errado, entretanto, como diz o ditado popular, cada um joga com as cartas que possui e, muitas vezes, essas cartas influenciam a cultura da empresa. Pérsico (2012) nos diz que as organizações trabalham com essa figura de heróis criados com o claro objetivo de: • fazer com que o sucesso seja algo atingível e humano; • ter algo que sirva de modelo; • divulgarem um símbolo para o mundo fora da empresa; • motivar as pessoas para o sucesso. Enquanto esses heróis formados para esses objetivos são temporários, os heróis natos se mantêm por muito tempo no imaginário da corporação se não por toda a sua existência. 13 Outro ponto que podemos entender em torno da questão de elementos da cultura organizacional está nas normas, que definem os limites entre os comportamentos esperados e aceitos e os comportamentos que são passíveis de punição e não aceitos. Segundo Pérsico (2012), as normas estão embasadas em valores e crenças dos integrantes das organizações e seus dirigentes. As normas necessitam serem repassadas por meios formais até porque é uma regra estabelecida pela empresa, algo que está presente em seu regulamento interno que deve ser aceita pelos empregados no momento de sua contratação. Outro ponto que podemos destacar em torno dos elementos que constituem uma cultura organizacional podemos considerar como um elemento crítico em grande maioria das empresas que é a comunicação. A comunicação, segundo Pérsico (2012), é um processo de troca de informações essencial na vida da organização. Ou seja, a comunicação é algo essencial, uma verdadeira variável crítica em qualquer organização. Inclusive dependendo da metodologia adotada na linha de produção de uma empresa, a comunicação pode representar perdas ou ganhos substanciais pois afeta de forma direta a produção. A comunicação, segundo Pérsico (2012), acontece em dois níveis: • Nível Tático – Que se a forma com que é feita • Nível Temático – Que se refere ao conteúdo, ao tema E quando o assunto é comunicação, temos várias figuras interessantes dentro das organizações. O trágico sempre faz um drama incrível por menor que seja a informação; os perspicazes são capazes de percepção aguçada dos fatos e sempre são bem informadas; há os padres, que são os defensores dos valores da organização; tem os espiões, que tem acesso às pessoas de diferentes níveis levando informações para uso interno da organização; e os conspiradores que arquitetam fatos em torno de interesse próprio. TEMA 5 – ATITUDES Um ponto que entendo como importante para avaliar o comportamento humano nas organizações são as atitudes, muito de nós já escutaram em suas jornadas laborais que fulano foi demitido porque não tinha atitude, não tinha pró- atividade e, também, já ouvimos que cicrano foi promovido porque tinha atitude 14 diante de suas atividades. Eu tive um gestor que costumava dizer que as pessoas são contratas por seus currículos e demitidas por suas atitudes. Afinal o que é atitude? Segundo Robbin (2005), atitudes são afirmações avaliadoras tanto no sentindo de ajudar o indivíduo, como de atrapalhar, ou seja, ter atitude ou mesmo tomar uma atitude no sentindo de agir diante de algo não necessariamente pode ser algo que será avaliado como positivo, pois existe alguns fatores em torno dessa avaliação. Elas refletem como o indivíduo se sente diante de determinada situação ou mesmo em relação a alguma coisa. Robbin (2005) dá um exemplo, que gosto muito, pois ele diz que quando uma pessoa expressa que gosta muito do trabalho, ela expressa a atitude em relação ao trabalho, o sentimento dela em relação ao emprego que exerce. Precisamos compreender que atitudes são coisas distintas aos valores, entretanto estão intimamente conectados, percebemos isso ao examinar o que Robbin (2005) classifica como os três componentes da atitude: • Cognição • Afeto • Comportamento Quando você tem a convicção, por exemplo, de que “atitudes sexistas são erradas”, isso é uma afirmação avaliadora, segundo a ótica de Robbin (2005) essa opinião é o componente cognitivo de uma atitude. Estabelecendo, portanto, a base mais crítica de uma atitude que vem a ser seu comportamento afetivo que nos leva ao segundo componente da atitude. O afeto é sem dúvida uma componente da atitude que está diretamente conectada com a questão do sentimento e as emoções que traduz a afirmação. O componente comportamental está relacionado com o como deve-se portar diante de uma determinada maneira em relação a alguém ou a alguma coisa. Entender as atitudes como algo composto por cognição, afeto e comportamento é algo importante, pois quase sempre, quando falamos em atitudes, as pessoas enxergam somente a questão emocional, ou seja, a parte afetiva da coisa. As atitudes dentro das organizações é algo importante, pois afetam de forma direta o relacionamento entre os funcionários e, consequentemente, o comportamento no trabalho, por exemplo, se um empregado entende que seus 15 superiores estão de alguma forma manipulando para que ele trabalhe mais do que está acordado em seu contrato pelo mesmo salário, isso é algo que pode afetar de forma direta o bom andamento do dia a dia da empresa. Caberá aos gestores entender o porquê dessa atitude do trabalhador se justifica ou não e como isso pode ser alterado. Robbin (2005) nos informa que quando estamos concentrados nos estudos das atitudes, dentro do cenário de uma empresa, as possibilidades são limitadas diante de uma quantidade grande de atitudes que uma pessoa pode ter. Com isso, a maior parte das pesquisas na área de comportamento organizacional tem se concentrado basicamente em três tipos de atitudes: • Satisfação com o trabalho • Envolvimento com o trabalho • Comprometimento organizacional Como podemos imaginar, nosso primeiro ponto, levantado por Robbin (2005), se refere à atitude de uma pessoa perante o trabalho que realiza. Não é muito difícil compreender que uma pessoa que esteja satisfeita com seu ambiente de trabalho terá atitudes positivas em relação ao seu emprego. Quando estudamos esse ponto a fundo, é importante notar que principalmente quando falamos em satisfação no local de trabalho e com seu emprego é um ponto fundamental, muito mais do que remuneração, que leva um funcionário a ficar na empresa e “vestir a camisa”. Conheço vários casos reais de pessoas que não aceitaram ganhar mais em outra empresa em detrimento de ter um ambiente muito propício ao desenvolvimento de suas atividades. Agora quando analisamos o envolvimento com o trabalho, Robbins (2005), entende-se como sendo o grau em que a pessoa se identifica psicologicamente com seu trabalho, considerando o seu desempenho nele como um elemento de satisfação pessoal. Isso é muito comumocorrer com funcionários que tenham um nível de comprometimento grande no trabalho, eles possuem sempre atitudes positivas e produtivas perante seu dia a dia laboral. O comprometimento organizacional é definido, por Robbins (2005), como sendo a identificação com a organização na qual se trabalha, mas conseguiu perceber que envolvimento de trabalho é diferente disso? O envolvimento é a identificação com a tarefa realizada. O importante desse ponto de nossa disciplina é perceber o que vem a ser atitude e como isso pode ser analisado e percebido dentro de uma organização, 16 pois com base nessas observações, podem ser tomados certos tipos de ações que tenham como objetivo mudar as atitudes de alguns perante a empresa, ao seu lugar de trabalho. Até porque quando a insatisfação atinge a imagem da empresa em si, há maior probabilidade de que as pessoas se demitam e, ao contrário, do que muitos possam acreditar que um pedido de demissão não é uma coisa benéfica para a empresa, mesmo que o cargo que ficará vago seja cobiçado pelo mercado, isso porque se perde um possível talento que para substituir envolve uma série de variáveis, inclusive treinamento, ou seja, dependendo do cargo, demorará para a empresa repor o talento perdido e, nesse caso, vale pensarmos em torno de uma velha máxima: “funcionário bom que sai da empresa fortalece a concorrência.”. A observação das atitudes no ambiente de trabalho auxiliará a gestão a entender onde está seu ponto fraco e dará tempo de tentar alterar as atitudes antes que se perca um talento. 17 REFERÊNCIAS BAGATINI, S.; PERSICO, N. Comportamento humano nas organizações. Curitiba: Ed. Intersaberes, 2012. KANAANE, R. Comportamento humano nas organizações: o desafio dos líderes no relacionamento intergeracional. 3. ed. São Paulo: Ed. Atlas, 2017. ROBBINS, S. Comportamento organizacional. 11. ed. São Paulo: Editora Pearson Prentice Hall, 2005.