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TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: O DIAGNÓSTICO E OS ASPECTOS COMPORTAMENTAIS E DE FUNCIONALIDADE Rodolfo Ribeiro Dib Salete Regiane Monteiro Afonso O autismo, descrito como uma condição específica em 1943, é considerado atualmente “[...] um transtorno do desenvolvimento de causas neurobiológicas definido de acordo com critérios eminentemente clínicos.” (SCHWARTZMAN, 2011, p. 37). Assim, o autismo é compreendido como uma condição de base neurobiológica e genética (BRASIL, 2013) com múltiplas etiologias e graus de severidade muito diferentes entre si (GADIA et. al., 2004). O conceito de autismo passou por muitas modificações desde as primeiras descrições (SCHWARTZMAN, 2011) e o Manual de Diagnóstico e Estatística 5 (DSM- 5) publicado em 2013, descreve o Transtorno do Espectro Autista - TEA com critérios diagnósticos que abrangem (1) déficit nas habilidades de comunicação social e interação; e, (2) padrões restritivos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades (APA, 2014). Tais caraterísticas são observadas desde o início do desenvolvimento e, necessariamente, provocam prejuízos significativos e persistentes em diversas áreas da vida da pessoa, em maior ou menor grau de severidade. Como complemento diagnóstico, ainda está previsto na descrição do DSM 5, a investigação do comprometimento intelectual ou outra condição que esteja associada ao autismo. Em relação à comunicação social e interação no quadro de TEA, é importante considerar que há uma interdependência das habilidades sociais e de comunicação e, por esse motivo, estas duas características foram incluídas em um único critério no DSM-5. A pessoa com TEA apresenta dificuldades em iniciar e/ou manter interações, compartilhar emoções, engajar-se em conversas, sendo que o déficit na comunicação pode variar desde a ausência de comportamentos comunicativos até a presença de fala estruturada, mas com dificuldades importantes na utilização social da comunicação (COELHO; IEMMA; LOPES-HERRERA, 2008). Sobre os padrões restritivos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, estes englobam “[...] movimentos repetitivos, comportamentos compulsivos mais complexos, preocupação excessiva com temas cognitivos e resistência a mudanças na rotina.” (MINK; MANDELBAUM, 2009, p. 84). Ressalta-se que a ideia de espectro, descrita no DSM 5, evidencia uma mesma categoria em termos diagnósticos, não existindo mais subcategorias. Embora existam características comuns a todos os indivíduos com esse diagnóstico, eles diferem com relação a características não específicas, como, por exemplo, habilidade cognitiva, padrões de início dos sintomas, habilidades de linguagem expressiva e comorbidades. Devido a essas variações nos padrões comportamentais, o termo espectro adquiriu significado importante na definição do transtorno. Desse modo, as pessoas com TEA fazem parte de um mesmo continuum, diferenciando somente pelo grau de gravidade e severidade que ocorrem em três níveis e apresentam necessidades diferentes de apoio, a saber: Nível 1 – Necessidade de pouco apoio; Nível 2 – Necessidade de apoio substancial; Nível 3 – Necessidade de apoio muito substancial (APA, 2014). Dessa forma, o DSM 5: [...] conceitua o autismo como um espectro, denominando-o como Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essa nova definição representa uma nova concepção do TEA, que deixa de ser compreendido como categorias (Transtorno Autista, Síndrome de Asperger, Transtorno Invasivo do Desenvolvimento Sem Outra Especificação) e passa a ser entendido como um continuum de manifestações de ampla variabilidade, tanto no grau de acometimento, quanto na forma particular em que os prejuízos apresentam-se em diversas áreas do desenvolvimento do indivíduo. (VARELLA; AMARAL, 2018). O diagnóstico de TEA deve ser realizado a partir dos critérios descritos e, para isso, se faz necessário uma equipe multiprofissional que tenha expertise no assunto, uma vez que existem sutilezas do quadro que podem ser melhor observadas a partir da observação direta na prática clínica (SCHWARTZMAN, 2011). Recomenda-se a utilização de instrumentos que possam contribuir para a identificação da condição do autismo, porém não há um instrumento que isoladamente tenha condições de concluir o diagnóstico; sendo necessário sempre conciliar as informações de vários instrumentos com o julgamento clínico do profissional. A seguir serão apresentados alguns dos instrumentos que dão suporte para os profissionais no processo de avaliação diagnóstica do TEA. Um primeiro passo para o diagnóstico de TEA é identificar sinais de risco no desenvolvimento infantil, a partir das preocupações dos pais e/ou cuidadores e dos profissionais diversos que acompanham a criança. O Modified Checklist for Autism in Toddlers (M-CHAT) é, atualmente, o instrumento de identificação precoce do TEA recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Seu uso é obrigatório em consultas pediátricas de acompanhamento realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e permite identificar atraso no desenvolvimento de crianças de um ano e meio até três anos (LOSAPIO & PONDÉ, 2008). O M-CHAT possui 23 questões com respostas sim e não que devem ser respondidas pelos pais e/ou cuidadores da criança e, ao final, obtém-se um escore de triagem para risco de TEA que direcionará o encaminhamento da criança para uma avaliação mais detalhada e precisa, se necessário. A Autism Diagnostic Observation Schedule (ADOS) e a Autism Diagnostic Interview-Revised (ADI-R) são consideradas “padrão-ouro” na avaliação diagnóstica de TEA na literatura internacional, embora não exista uma padronização para a população brasileira. A ADOS é um protocolo de observação e avaliação de comportamentos sociais e da comunicação da pessoa com TEA em diversos contextos padronizados, enquanto a ADI-R consiste numa entrevista estruturada com 93 questões que permitem avaliar, a partir das respostas dos pais e/ou cuidadores, os sintomas de TEA, a partir da obtenção de uma história sistematizada do paciente (ANAGNOSTOU ET AL, 2014). Outra ferramenta de avaliação é a Childhood Autism Rating Scale (CARS), um instrumento de observação comportamental utilizado na distinção de casos de TEA leve, moderado e grave, auxiliando também na diferenciação de crianças com TEA de crianças apenas com deficiência intelectual. É composta por quinze itens cuja pontuação varia em um continuum de normal até gravemente anormal e pode ser usada com crianças de todas as idades, fornecendo escores quantificáveis baseados na observação direta do comportamento (PEREIRA, RIESGO, WAGNER, 2008). Um instrumento de avaliação criado para a população brasileira é o Protocolo de Avaliação Comportamental para crianças com Suspeita de Transtorno do Espectro Autista – Protea-R (BOSA, ZANON, BACKES, 2016), cuja coleta de dados ocorre a partir de entrevistas com pais e/ou cuidadores e de observações de comportamentos característicos do TEA relacionados à interação social e comunicação, além de comportamentos repetitivos em crianças entre 18 e 48 meses (BOSA, ZANON, BACKES, 2014). Além da avaliação diagnóstica, faz-se necessário a utilização de instrumentos que auxiliem a equipe na elaboração de um plano de intervenção. Planejar intervenções para pessoas com TEA é uma tarefa complexa que envolve inúmeros componentes, como a realização de uma avaliação inicial que consiga identificar e mensurar, de forma fidedigna, déficits e excessos comportamentais; a análise dos resultados da avaliação de forma que objetivos possam ser definidos de maneira individualizada e, por fim, a descrição dos procedimentos de ensino das habilidades selecionadas como alvo e de redução de comportamentos disruptivos (KRACKER, 2018). Os instrumentos que auxiliam no planejamento da intervenção são, no geral, currículos de habilidadesconsideradas fundamentais para o desenvolvimento e autonomia da pessoa com TEA em diferentes idades e diferentes contextos; habilidades estas que podem ser avaliadas, mensuradas, programadas para ensino e reavaliadas ao longo do tempo. Serão descritos brevemente alguns instrumentos amplamente utilizados para o planejamento da intervenção por psicólogos analistas do comportamento. Ressalta-se que o atendimento da pessoa com TEA é feito por uma equipe multidisciplinar e a escolha de apresentar os instrumentos abaixo está relacionada à ênfase do texto aos aspectos comportamentais do TEA. Um instrumento amplamente utilizado para planejar a intervenção é o VB-MAPP (Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program), de autoria de Mark Sundberg (2008). O VB-MAPP é um instrumento de avaliação baseado na abordagem comportamental sobre a linguagem e avalia requisitos para o desenvolvimento de comportamento verbal e de habilidades relacionadas ao desenvolvimento desse tipo de repertório. São descritas 170 habilidades de linguagem, sociais e de aprendizagem divididas em três níveis que constituem marcos do desenvolvimento de crianças de 0 a 4 anos. Além dos marcos do desenvolvimento, outro componente de destaque no VB- MAPP é a Avaliação de Barreiras, que avalia 24 barreiras de aprendizagem comuns enfrentadas por crianças com TEA e outros atrasos no desenvolvimento. O VB-MAPP deve ser aplicado por profissionais com conhecimento dos princípios básicos da Análise do Comportamento e da descrição de comportamento verbal de Skinner (SUNDBERG, 2014). Outro recurso utilizado para o planejamento da intervenção de pessoas com TEA é o Passo a Passo, Seu Caminho: Guia Curricular para o Ensino de Habilidades Básicas de Margarida Windlholz, um manual brasileiro publicado em 1988 e reeditado em 2016. O Passo a Passo apresenta uma gama de habilidades básicas necessárias para a aquisição de autonomia e uma proposta de programas de ensino para essas habilidades. São 26 programas de treino, incluído atividades de vida diária. Uma das vantagens do Passo a Passo é a acessibilidade aos profissionais brasileiros, já que está disponível em português (WINDLHOLZ, 2016). As avaliações diagnóstica e de intervenção são imprescindíveis e devem ser realizadas o mais precoce possível, pois quanto mais tempo demorar para o diagnóstico, mais tempo demorará para que esta criança inicie programas de intervenção específicos e para que os pais tenham orientações relevantes. Assim, entende-se que tais avaliações são responsáveis por identificar as potencialidades e necessidades da criança, visando a melhora no desenvolvimento. Sobre esta questão, Saulnier et al. (2011, p. 160) apontam que: Para interpretar a completude da apresentação diagnóstica de um indivíduo, o clínico deve ter amplo entendimento dos seus perfis de habilidades – o que inclui tanto as forças quanto as vulnerabilidades. Esse processo multidisciplinar envolve conhecer a linha de base das habilidades de um indivíduo que incluem os perfis de desenvolvimento, cognição, fala, linguagem, comunicação, sociabilidade, sensorialidade / motricidade, e comportamento. Ainda mais importante, essas avaliações devem ser a base para o entendimento do estilo de aprendizagem de um indivíduo e de suas respostas às várias estratégias terapêuticas. Por exemplo, essas avaliações devem evidenciar a variabilidade extremamente frequente das habilidades de um indivíduo com TEA, e o conhecimento de suas forças e fraquezas é imprescindível para o desenvolvimento e implementação de estratégias de intervenção que sejam adequadas às necessidades específicas de cada indivíduo. A avaliação, dessa forma compreendida, permitirá escolher os caminhos da intervenção, mas sobretudo, possibilitará ao profissional conhecer particularmente cada pessoa com autismo; conhecer as possibilidades de interação, mediação e de aprendizagem que foram ofertadas a esta pessoa. Isto porque, independentemente de apresentarem o mesmo diagnóstico, pessoas com autismo são únicas e apresentam diferenças que podem ser extremas umas das outras; apresentam particularidades que foram aprendidas a partir das relações estabelecidas no contexto onde vivem. Tal afirmação pode parecer muito simples e óbvia, porém há uma forte necessidade de defender a singularidade existente em uma condição atípica. Ainda se tem a ideia de que por terem o mesmo diagnóstico, pessoas com TEA apresentam o mesmo padrão de funcionamento e consequentemente precisam do mesmo tipo de apoio. De acordo com Omote (1996, p. 129): [...] cria-se a ilusão de homogeneidade entre os membros pertencentes a uma mesma categoria e de muita diferença entre eles e os membros de qualquer outra categoria. [...] o que é pior, vistos como tendo basicamente as mesmas necessidades e possibilidades, o que até pode ser usado para justificar a padronização de atendimento a eles dispensado.” Neste sentido, é fundamental que todos os profissionais que atuam com pessoas que apresentam condições atípicas e, no caso específico o TEA, conheçam as características que definem a condição, mas principalmente compreendam como essas características se manifestam na vida de cada um. Acredita-se que somente desta forma é possível compreender as diferenças importantes que existem entre as pessoas com TEA e, consequentemente compreender melhor suas necessidades de apoio. Sendo assim, na sequência, estas questões serão abordadas buscando descrever a variabilidade comportamental e funcional que pode ser observada em diferentes pessoas com TEA. Por uma questão didática, mas lembrando que todas as áreas da vida estão intrinsicamente relacionadas, será dividido da seguinte forma: aspectos do funcionamento social, aspectos comunicativos, aspectos sensoriais, aspectos motores e aspectos cognitivos. Aspectos do Funcionamento Social A interação social é a base do desenvolvimento da criança e está intimamente relacionada a outras áreas do desenvolvimento infantil. A partir da interação social e consequentemente das experiências vividas, a competência social vai sendo constituída, especialmente na interação com pares. (SANINI; SIFUENTES; BOSA, 2013). No caso das pessoas com TEA, que apresentam como uma das principais características déficit na interação social, são observados comportamentos de: [...] isolamento social ou comportamento social inapropriado, com uma ampla extensão de prejuízos sociais recíprocos representados por uma serie de comportamentos, que incluem evitar o contato visual direto, não responder quando chamado, não participar de atividades em grupos, não tomar consciência dos outros, mostrar indiferença a afeições ou afeição inapropriada e ausência de empatia social ou emocional. (TUCHMAN, 2009, p. 54-55). O mesmo autor, Tuchman (2009) afirma que de uma maneira simplista, no desenvolvimento social da pessoa com TEA, três constructos apresentam déficit, a saber: “[...] reciprocidade afetiva, atenção articulada e “teoria da mente” (TUCHMAN, 2009, p. 55, apud ROBERTSON ET AL. 1999). A reciprocidade afetiva é o início da comunicação social e pode ser observada a partir dos seis meses. Além disso: “[...] manifesta-se na infância pelo uso do contato visual direto e de gestos para focalizar a atenção no objeto ou no evento de interesse e progride, à medida que chega a idade em que a criança começa a andar, para o contato visual prolongado e o ato de apontar, a fim de chamar a atenção para um objeto ou evento de interesse. Mais tarde, ainda na infância, a reciprocidade afetiva torna-se parte do nível pragmático da linguagem [...]”. (TUCHMAN, 2009, p. 55). Já a atenção articulada está relacionada com a habilidade de “[...] coordenar a atenção com um parceiro social em relação a um mesmo objeto ou evento. (TUCHMAN, 2009, p. 55), sendo fundamentalpara a aquisição da linguagem. A teoria da mente, de acordo com Sanini; Sifuentes; Bosa (2013) é compreendida com “[...] um construto nascido da psicologia cognitiva e que se caracteriza por um sistema de inferências que permite fazer previsões (teorizações) sobre o comportamento dos outros. [...] (p. 100). As pessoas com TEA, de acordo com as autoras, apresentam dificuldades neste aspecto, pois não conseguem prever/compreender a intenção ou motivação do outro; portanto acabam apresentando dificuldades significativas em interpretar emoções e comportamentos. Diante do exposto, fica evidente a necessidade da intervenção precoce para o desenvolvimento destas habilidades tão necessárias para o funcionamento na vida em sociedade. “Espera-se que estratégias de intervenção logo no início, que começam a tornar-se disponíveis para crianças pequenas com autismo, tenham um impacto positivo sobre o resultado social [...] (TUCHMAN, 2009, p. 61). Aspectos Comunicativos As habilidades comunicativas têm sua origem no desenvolvimento infantil e estão diretamente relacionadas aos “[...] aspectos de socialização e exploração do ambiente, objetos, sons e pessoas. [...] em que comportamentos não verbais como gesto de apontar, mostrar, troca de olhar, sorriso e brincadeiras são considerados precursores do desenvolvimento verbal.” (PERISSINOTO, 2011, p. 203). As características da comunicação no quadro do TEA apresentam uma grande variabilidade, podendo ser observado pessoas com ausência de comportamentos comunicativos, incluindo aqui aqueles relacionado ao que é básico e vital (alimentação, sede, dor, etc.), até pessoas que falam formalmente, porém apresentam dificuldades para perceber sutilezas na conversa. As especificidades em relação à linguagem da pessoa com TEA podem ser observadas no déficit de compreensão da mensagem emitida, pois apresentam dificuldades importantes em compreender o significado (e, muitas vezes os múltiplos significados) das palavras ou parte delas. Além disso, cada pessoa, percorre, no que se refere a linguagem verbal, um caminho muito particular; há as que demoram para adquirir a fala e àquelas que não respondem de forma esperada a oralidade; há ainda pessoas com TEA que falam de maneira ininteligível, dentre outras possibilidades de manifestação. É possível observar também na condição do TEA, um déficit significativo no uso social da linguagem, ou seja, dificuldade na intenção e na condição de se comunicar com o outro. Essas particularidades, em relação a linguagem da pessoa com TEA, acarretam prejuízos que impactam a linguagem e, neste sentido: É preciso ser sensível a aspectos incomuns ou anormalidades evidentes, como falas sem intenção comunicativa ou sem necessidade de um parceiro para a comunicação, uso de palavras enigmáticas ou “obscuras”, uso de uma linguagem que consista, principalmente, em ecos do que acabou de ser dito ou em roteiros com fórmulas repetidamente aprendidas, repetição excessiva, questionamento incessante, ritmo enfadonho e tom de voz muito agudo, cantarolante ou crescente. (RAPIN, 2009, p. 69). É preciso, sobretudo estar atento a todas as formas de comunicação da pessoa com TEA. Para tanto, há que se ter uma observação constante e indubitavelmente é necessário estar disposto a se comunicar, a facilitar o processo de comunicação. Por isso: O principal objetivo da intervenção na linguagem é incentivar pais e profissionais a adotarem uma abordagem de desenvolvimento da comunicação e não apenas de ensino de palavras fora do contexto da intenção comunicativa. A criança com autismo necessita aprender, desde o início, o conceito de que a comunicação, por meio de qualquer canal, significa poder. (RAPIN, 2009, p. 79). Muitas pessoas com TEA, por não falarem, precisam de formas alternativas para se comunicar. Destaca-se neste caso, os métodos da Comunicação Suplementar e/ou Alternativa (CSA) que se apresenta como um recurso bastante indicado para pessoas com TEA que utilizam símbolos gráficos como figuras, desenhos e fotografias. (WALTER; NUNES, 2008). Os resultados do trabalho com CSA têm trazido benefícios à comunicação, contribuindo para que a pessoa com TEA participe de forma mais ativa e independente possível dos espaços sociais. Interessante destacar que, mesmo algumas pessoas com TEA que apresentam fala, podem se beneficiar com o recurso da CSA, pois o apoio visual (oferecido pela CSA) é uma ferramenta muito importante para a compreensão de questões mais complexas. Aspectos sensoriais O mundo é repleto de estímulos visuais, auditivos, táteis, gustativos, dentre outros e as pessoas percebem, processam e reagem a estes estímulos o tempo todo. Esta relação é constante e se dá de maneira muito particular, com origem nas experiências sensoriais vividas por cada pessoa. É muito comum em um dia de temperatura mais baixa, por exemplo, uma pessoa sentir muito frio a ponto de se agasalhar, e outra dizer que se sente agradável com a mudança do clima. Há, com certeza, muitos exemplos cotidianos semelhantes a esse, porém, mesmo com sensações diferentes diante de um mesmo estímulo, existe um limite aceitável que é entendido como próprio de cada pessoa e considerado dentro da normalidade. No entanto, em se tratando de pessoas com TEA, essa percepção se dá de forma muito diferente, pois acabam respondendo de maneira atípica aos estímulos sensoriais. Assim, “Nos Transtornos do Espectro do Autismo (TEA), estudos tem apontado grande incidência de comportamentos atípicos de resposta sensorial como, por exemplo, padrão de hipo e hiper-resposta coexistentes e flutuantes, que contribuem para maior dependência nas atividades de autocuidado e nas atividades de vida diária [...]” (MOMO, SILVESTRE, 2011, p. 297). É comum, nas repostas de uma pessoa com TEA aos estímulos sensoriais, um padrão de hipo ou hiper responsividade, ou seja, diante de um estímulo do ambiente pode apresentar uma responsividade reduzida ou aumentada. Dessa forma, no primeiro caso, a pessoa com TEA, diante de um estímulo auditivo, por exemplo, mesmo que incômodo, pode simplesmente não reagir (como se não estivesse ouvindo); no segundo caso, o indivíduo pode apresentar uma reação de grande desconforto para um estímulo auditivo considerado normal para a maioria das pessoas. Além disso, há muitas pessoas com TEA que buscam constantemente estímulos mais intensos e duradouros, caracterizado pela busca sensorial que “[...] compreende a necessidade da criança de obter estímulos mais intensos, com maior duração e maior frequência para poder responder a eles. (MOMO, SILVESTRE, 2011, p. 304). Essa busca pode aumentar os comportamentos de agitação, impulsividade, excitabilidade, dentro outros. Importante destacar que o exemplo do estímulo auditivo descrito acima, faz um recorte dentro de um contexto extremamente complexo, no qual muitos estímulos sensoriais estão disponíveis ao mesmo tempo (cheiros, sons, cores, temperaturas, texturas, etc.). Dessa forma, pessoas com TEA, por conta da “[...] responsividade atípica a estímulos em alguma ou em todas as modalidades sensoriais (RAPIN, 2009, p. 218), apresentam dificuldades significativas para identificar e/ou para sinalizar (principalmente os não verbais) as necessidades nesta área. Isto porque as “[...] alterações sensoriais são uma característica muito frequente que geralmente não é percebida devido às dificuldades de comunicação [...] (POSAR; VISCONTI, 2018, p. 343). De maneira geral, as alterações sensoriais acabam trazendo impactos negativos na funcionalidade da pessoa com TEA podendo prejudicar: [...] a comunicação e as atividades sociais; o comportamento adaptativo [...]; variedade de interesses (restritos, repetitivos); rotinas diárias (por exemplo, evitar comportamentos de dificuldade sensorial); e cognição [...] O comportamentode comer também pode ser afetado pelas alterações sensoriais, leva a uma seletividade alimentar que pode, por sua vez, causar nutrição inadequada, bem como o sono, devido principalmente a um mecanismo hiperarousal. (POSAR; VISCONTI, 2018, p. 344). Além do exposto, essas dificuldades sensoriais podem acarretar desconforto e consequentemente reações ligadas a angústia, ansiedade, medo, podendo “[...] gerar reações com intensa agitação e agressão dirigida a outros ou a si mesmo” (POSAR; VISCONTI, 2018, p. 349). Portanto, se faz necessário realizar uma avaliação formal das funções sensoriais e propor intervenções nesta área, pois: [...] a reatividade sensorial atípica desses indivíduos pode ser a chave para entender muitos de seus comportamentos anormais e, portanto, é um aspecto relevante para ser considerado no manejo diário desses indivíduos em todos os contextos nos quais eles vivem. (POSAR; VISCONTI, 2018, p. 349). Até porque, caso estas dificuldades sensoriais não minimizem, a criança explorará menos os estímulos do ambiente e consequentemente terá prejuízos no seu desenvolvimento global, ou seja, aspectos cognitivos, motores e comunicativos serão prejudicados. Aspectos motores É inegável a importância de estimular o desenvolvimento motor das crianças, pois este está diretamente relacionado ao desenvolvimento global e habilidades futuras em todas as áreas da vida. Embora o desenvolvimento motor não seja um parâmetro direto no diagnóstico de TEA, sabe-se que as pessoas com esta condição apresentam, em alguma medida, prejuízos nesta área, tanto no que se refere a motricidade ampla ou fina. Sobre esse assunto, LARSON; MOSTOFSKY (2009) apontam que: Evidências acumuladas desde a época dessas descrições iniciais indicam que prejuízos no desenvolvimento motor são uma descoberta comum, se não consistente, em crianças com transtorno do espectro autista (TEAs) e estão igualmente presentes em indivíduos com funcionamento elevado ou baixo. (LARSON; MOSTOFSKY, 2009, p. 249) Os autores, LARSON e MOSTOFSKY, ainda sobre esse assunto, esclarecem que são: “[...] incluídas anormalidades em aspectos básicos do controle motor, inclusive na marcha, na postura, na coordenação e no ritmo, assim como dificuldades na imitação e na pantomima de gestos complexos [...]” (LARSON; MOSTOFSKY, 2009, p. 250). E por esse motivo, é importante avaliar as condições motoras e buscar possibilidades de intervenção nesta área. No entanto, em relação aos sinais motores, são as estereotipas as mais observadas no quadro de TEA, sendo conceituadas como “[...] movimentos rítmicos, padronizados, repetitivos, despropositados e involuntários. Alguns exemplos são balançar o corpo, levantar e abaixar a cabeça, andar em círculos, agitar as mãos, bater palmas [...]” (MINK; MANDELBAUM, 2009, p. 84). Além da estereotipia motora, outros comportamentos estereotipados fazem parte das características que estão previstas no DSM 5 como critério diagnóstico de TEA, como por exemplo: autoagressões, compulsões, rituais, uniformidade e restrições. (MINK; MANDELBAUM, 2009). Porém, é importante ressaltar que tais comportamentos podem ser observados em outras condições de desordens no desenvolvimento, pessoas com dificuldades sensoriais, ou até mesmo em pessoas com desenvolvimento típico (MINK; MANDELBAUM, 2009). Os comportamentos estereotipados são caracterizados como: [...] uma ampla faixa de comportamentos, que engloba movimentos repetitivos, comportamentos compulsivos mais complexos, preocupação excessiva com temas cognitivos e resistência a mudanças na rotina. Tipicamente, os comportamentos citados emergem no início da infância e podem persistir até a idade adulta. Ainda que façam parte dos critérios diagnósticos do autismo, nenhum deles é observado exclusivamente nessa condição; podem ocorrer, também, em indivíduos com déficits sensoriais e incapacidades de desenvolvimento não-autista, ou em crianças que, afora isso, seriam normais. (MINK; MANDELBAUM, 2009, p. 84). São observados como exemplos de comportamento de autoagressão: bater-se com a mão ou com algum objeto, morder-se, arranhar-se, puxar os cabelos, dentre outros; exemplos de compulsão: ordenar, lavar, verificar, contar, juntar objetos, bem como, repetir comportamentos rotineiramente (fechar janela, por ex.); exemplos de rituais: rotina para dormir, a disposição das refeições, jeito de vestir, rotina para sair de casa; exemplos de uniformidade: passar sempre pela mesma rua, assistir repetidamente uma mesma parte de um filme, demonstrando uma resistência a mudanças; exemplos de restrições: demostra fascínio por um tema falando repetidamente sobre ele, move repetidamente objetos ou parte dele. (MINK; MANDELBAUM, 2009). Não há, até o momento, uma explicação neurobiológica para os comportamentos estereotipados, mas a ocorrência dos mesmos é comumente observada em situações de estresse, excitabilidade ou quando a pessoa com TEA está aguardando, sem nenhuma tarefa. Por isso, é importante conhecer este comportamento, suas motivações, mas sobretudo compreender que somente deverá ser proposto tratamento para os comportamentos que gerarem dificuldades para a pessoa com TEA; caso contrário, se “[...] não causam desconforto, nem lesões e também não geram prejuízos sociais, talvez seja preferível não trata-los. ” (MINK; MANDELBAUM, 2009, p. 91). Aspectos Cognitivos Em relação aos aspectos cognitivos, assim como em todo o quadro de TEA, é observado uma grande variabilidade, pois há os que apresentam um comprometimento cognitivo significativo e àqueles que apresentam uma habilidade cognitiva superior à média da população geral; bem como, é claro, todas as possibilidades cognitivas entre um extremo (muita dificuldade) ao outro (muita habilidade). Neste sentido, é indispensável considerar que independentemente da condição cognitiva, todas as pessoas com TEA precisarão de algum nível de apoio nesta área. Uma pessoa com muita dificuldade cognitiva associada ao TEA, terá muito possivelmente, prejuízo em todas as áreas do comportamento adaptativo, que é entendido como comportamentos que possibilitam um bom funcionamento na vida (nos aspectos sociais, conceituais e práticos); e, neste caso, deverá ser oferecido apoio muito substancial para minimizar as dificuldades. Quando a pessoa possui uma habilidade cognitiva superior à média da população geral, tende, muitas vezes, a perseverar em assuntos que são de seu interesse, e precisam de apoio para ampliar seu repertório; algumas pessoas com TEA podem também apresentar habilidades intelectuais extraordinárias (saber a data de nascimento de todos os alunos de uma escola, por exemplo), mas com dificuldades em comportamentos cotidianos simples e, assim, precisam igualmente de apoio substancial ou muito substancial. De uma maneira geral, pessoas com TEA apresentam déficits nas funções executivas que estão diretamente relacionados com a habilidade em resolver os problemas cotidianos. De acordo com Czermainski, Bosa e Salles (2013), as funções executivas, sendo processos cognitivos complexos, possibilitam ao indivíduo se organizar e se adaptar em um ambiente que sofre constantes alterações. Também pontuam, com base em diferentes autores, que as habilidades das funções executivas estão relacionadas a inibição, planejamento, flexibilidade mental, fluência verbal e memória de trabalho (CZERMAINSKI; BOSA; SALLES, 2013). Contudo, por conta da variabilidade da condição de TEA, os impactos destes déficits na vida da pessoa com autismo são do mesmo modo diverso, o que torna imprescindível uma avaliação neuropsicológica para conhecer e intervir nas áreas deficitárias. Contudo, ressalta-se que algumas das dificuldades da pessoa com TEA compreendidas como cognitivas, podem ser originadas nas desordens do processamento sensorial,o que evidencia a importância de uma avaliação ampla que tenha como base a integralidade do desenvolvimento humano. Além disso, não é incomum atribuirmos a pessoa com TEA dificuldades cognitivas que, de fato, são dificuldade de expressão. Isso pode ocorrer, principalmente nos casos em que a pessoa não apresenta oralidade e/ou não há um padrão de comunicação alternativo presente. Assim, pode responder de forma inadequada não porque não sabe ou não consegue, mas sim porque tem dificuldade para compreender o que foi solicitado. Considerações Finais O Transtorno do Espectro Autista tem sido, nos últimos anos, alvo de uma produção científica bastante significativa que amplia, cada vez mais, a compreensão desse quadro complexo e crônico do desenvolvimento. Dada sua complexidade, estudos continuam sendo necessários para o refinamento do diagnóstico e da intervenção. Todo conhecimento acumulado sobre TEA possibilitou, dentre outras coisas, a compreensão do que é base para o transtorno e do que pode variar e se apresentar em diferentes graus de gravidade e severidade, por exemplo. Nesse sentido, o termo espectro, incluído no DSM-5, dá conta dessa variabilidade existente dentro do TEA. Descrever uma condição é um processo importante e necessário para a realização do diagnóstico e consequentemente de uma intervenção mais efetiva. No entanto, descrições diagnósticas devem ser compreendidas como norteadoras e não como imutáveis; uma descrição diagnóstica deve abrir caminhos e jamais “fechar” uma pessoa dentro de um transtorno ou tratamento. Além das características possíveis de serem observadas em uma condição, há toda a possibilidade de aprender, mudar, melhorar, progredir, avançar, prosperar, e tantas outros comportamentos que podem ser ensinados a partir de um arranjo de contingências que leve em conta os ajustes ambientais necessários para que uma pessoa possa experimentar inúmeras possibilidades de existência. É importante que a pessoa com TEA seja olhada a partir de suas características (que estão relacionadas ao diagnóstico), mas sobretudo, pelas suas possibilidades nas experiências vividas. É necessário ter a certeza de que a condição do TEA traz características comuns, mas que um fator determinante para o desenvolvimento do indivíduo é sua interação com o ambiente. Interação com ambientes físicos e materiais planejados para suas necessidades e pessoas orientadas para o seu desenvolvimento. É necessário um esforço para substituir descrições que focam apenas na ausência, no déficit de habilidades, ou seja, “não fala”, “não se relaciona”, “não demostra afeto” etc.; para descrições que enfatizem as possibilidades da pessoa (com TEA ou não). Para isso, devemos estar sensíveis a condição do outro, sensíveis ao papel que as interações humanas têm de transformar o ambiente e a vida de uma pessoa. Referências ANAGNOSTOU, E.; ZWAIGENBAUM, L.; SZATMARI, P.; FOMBONNE, E.; FERNANDEZ, B.A.; WOODBURY-SMITH, M.; BRIAN, J.; BRYSON, S.; SMITH, I.M.; DRMIC, I.; BUCHANAN, J.A.; ROBERTS, W.; SCHERER, S.W. Autism spectrum disorder: advances in evidence-based practice. CMAJ, 2014. 186(7), 509- 519. APA - AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5 – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed, 2014. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. 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