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Copyright © 2019 by Paco Editorial Direitos desta edição reservados à Paco Editorial. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação, etc., sem a permissão da editora e/ou autor. Revisão: Taine Barriviera Capa: Matheus de Alexandro Diagramação: Larissa Codogno Edição em Versão Impressa: 2019 Edição em Versão Digital: 2019 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) E96 Experiências de ensino de história no estágio supervisionado, volume IV/ organização Nucia Alexandra Silva de Oliveira, Caroline Jaques Cubas. - 1. ed. - Jundiaí [SP]: Paco, 2019. Recurso digital Formato: ePub Requisitos do sistema: Multiplataforma ISBN 978-85-462-1569-0 1. História - Estudo e ensino. 2. Professores de história - Formação. 3. Programas de estágio. I. Oliveira, Nucia Alexandra Silva de. II. Cubas, Caroline Jaques. 19-57641 CDD: 370.71 CDU: 37.026 Conselho Editorial Profa. Dra. Andrea Domingues (UNIVAS/MG) (Lattes) Prof. Dr. Antonio Cesar Galhardi (FATEC-SP) (Lattes) Profa. Dra. Benedita Cássia Sant’anna (UNESP/ASSIS/SP) (Lattes) Prof. Dr. Carlos Bauer (UNINOVE/SP) (Lattes) http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4771296D1 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=S219507 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=N133032 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?metodo=apresentar&id=K4784829U9 Profa. Dra. Cristianne Famer Rocha (UFRGS/RS) (Lattes) Prof. Dr. José Ricardo Caetano Costa (FURG/RS) (Lattes) Prof. Dr. Luiz Fernando Gomes (UNISO/SP) (Lattes) Profa. Dra. Milena Fernandes Oliveira (UNICAMP/SP) (Lattes) Prof. Dr. Ricardo André Ferreira Martins (UNICENTRO-PR) (Lattes) Prof. Dr. Romualdo Dias (UNESP/RIO CLARO/SP) (Lattes) Profa. Dra. Thelma Lessa (UFSCAR/SP) (Lattes) Prof. Dr. Victor Hugo Veppo Burgardt (UNIPAMPA/RS) (Lattes) Prof. Dr. Eraldo Leme Batista (UNIOESTE-PR) (Lattes) Prof. Dr. Antonio Carlos Giuliani (UNIMEP-Piracicaba-SP) (Lattes) Paco Editorial Av. Carlos Salles Bloch, 658 Ed. Altos do Anhangabaú, 2º Andar, Salas 11, 12 e 21 Anhangabaú - Jundiaí-SP - 13208-100 Telefones: 55 11 4521.6315 atendimento@editorialpaco.com.br www.pacoeditorial.com.br http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4703614A6 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4700965H9 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=P468677 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4707925D1 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4704828P6 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4780765Z3 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4763549E2 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4737948P1 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4759425A1 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4730996E0 mailto:atendimento@editorialpaco.com.br%0D?subject=Livro%20Teoria%20da%20Hist%C3%B3ria%20-%20Paco%20Editorial http://www.editorialpaco.com.br/ SUMÁRIO Folha de rosto Apresentação 1. Experiência com propagandas racistas em sala de aula Camila Fernanda Albino 2. O estudo do Lixo numa perspectiva da cultura material Christian Gonçalves Vidal da Fonseca 3. O ensino de história da África: uma experiência do estágio curricular supervisionado em História na Udesc (2016) Carol Lima de Carvalho 4. O uso de fontes históricas como auxílio didático nas aulas de história Eduardo Müller 5. Reflexões acerca do ensino de história, da decolonialidade do saber e da Lei 11.645/2008 a partir da experiência no Estágio Supervisionado Felipe Uba 6. O ensino de história e o uso de fontes em sala de aula Geovanni Rocha Junior 7. “Uma tarde no museu: impressões e conclusões de um 6º ano a uma visita ao Museu de Arqueologia e Etnologia/UFSC” Leonardo Francisco 8. Pesquisando na web: noções de alunos do sexto ano acerca de sítios arqueológicos brasileiros Nathália Hermann 9. Conexões temporais: relações que jovens do 1º E.M. fazem entre presente e passado na história – Florianópolis, 2016 Talita Garcia Ferreira Página final APRESENTAÇÃO A história não perde sua atualidade. Está presente a todo momento, reivindicando lugar e atenção. É elemento constitutivo de nossas experiências, possibilitando-nos, com a devida distância, observá-las, pensá-las, interpretá-las, questioná-las. A história nos possibilita formas particulares de estar no mundo e, além disso, nos convoca a reivindicar a legitimidade destas múltiplas formas. Impõe uma sorte de compromisso com o presente e com a insistência na construção de uma sociedade na qual democracia e igualdade sejam práticas e não apenas projetos de um futuro inatingível. Partindo deste princípio, os textos reunidos neste volume e agora aqui apresentados são perpassados não por unidades temáticas ou por conteúdos similares, mas por uma experiência compartilhada, fundamentada em preceitos comuns a respeito da história e do ensino de história. Esta experiência compartilhada é a do Estágio Curricular Supervisionado, fase incontornável da formação docente inicial em História, na Universidade do Estado de Santa Catarina. O Estágio é marcado por leituras, observações, práticas e, fundamentalmente, pela experiência de se perceber como professor ou professora (para muitos e muitas) pela primeira vez. Neste sentido, estes textos resultam de reflexões intimamente ligadas a prática docente e a percepção de que esta mesma prática não pode ser destituída de seu caráter analítico. O ensino de história apresenta-se, assim, constituído pela pesquisa em ensino de história. É este caráter analítico e de indissociação entre o ensino e a pesquisa em ensino de história que a coleção Experiências de Ensino de História no Estágio Supervisionado, que chega agora ao seu quarto volume, pretende ressaltar. Publicado por iniciativa do Grupo de Pesquisa Ensino de História, Memória e Culturas (CNPq/Udesc), este volume apresenta uma série de capítulos resultantes das atividades de estágios realizadas em 2015, 2016 e 2017, em escolas e colégios das redes públicas de ensino, em Florianópolis. Assim como os três volumes precedentes, os textos apresentam questões representativas do cotidiano escolar e de temáticas concernentes às implicações do ofício de professor ou professora de história no tempo presente. O capítulo que abre o volume é Experiência com propagandas racistas em sala de aula, de Camila Fernanda Albino. Neste, a autora trata de atividades realizadas a partir do estudo de propagandas do século XIX com alunos de um segundo ano do ensino médio. As propagandas possibilitaram não apenas pensar as possibilidades do ensino de história a partir de fontes mas, especialmente, propiciaram interessantes reflexões sobre a temática do racismo e suas temporalidades. Em O estudo lixo em uma perspectiva da cultura material, Christian Gonçalves Vidal da Fonseca verifica as análises de alunos e alunas de um sexto ano do ensino fundamental acerca do lixo como evidência histórica sob a perspectiva da cultura material. Seu intuito principal é, ao atentar aquilo que é consumido ou descartado por determinada cultura, promover reflexões sobre o estudo contemporâneo de nossa sociedade. O estudo de História da África foi o tema escolhido por Carol Lima de Carvalho em O ensino de História da África: uma experiência do estágio curricular supervisionado em História na Udesc. Através das atividades desenvolvidas em uma turma de primeiro ano do ensino médio, a autora propõe-se a analisar e problematizar a implementação da Lei Federal nº 10.639/03, que tornou obrigatório o Ensino da História e Culturas Africanas e Afro-brasileiras em todos os âmbitos escolares brasileiros. Eduardo Müller descreve e analisa a relevância das fontes históricas como apoio didático na elaboração das aulas de História em O uso de fontes históricas como auxílioViva. Teoria da História III: formas e funções do conhecimento histórico. Tradução Estevão de Rezende Martins. Brasília: Ed. UnB, 2007. SANTOS, Adriano dos; BISPO, Márcia; PINHEIRO, Naiani Silva; SANTANA, Tainá Oliveira. Metodologias de Ensino para crianças autistas: superando limitações em busca da inclusão. 2013. Disponível em: . Acesso em: 07 dez. 2018. SCHMIDT, Maria Auxiliadora. Cognição Histórica situada: que aprendizagem histórica é esta? In: BARCA, Isabel & SCHMIDT, Maria Auxiliadora (org.). Aprender História: perspectiva da educação histórica. Ijuí: Ed. Unijuí, 2009. Pp. 21-51. SCHMIDT, Maria Auxiliadora; CAINELLI, Marlene. O saber e o fazer históricos em sala de aula (cap. 2). Ensinar História. São Paulo: Editora Scipione, p. 29-47, 2004. XAVIER, Erica da Silva. O uso das fontes históricas como ferramentas na produção de conhecimento histórico: a canção como mediador. Antíteses, v. 3, n. 6, pp. 1097-1112, jul./dez. 2010. Notas 7. Ver em: UDESC. Plano de ensino. Disponível em: . Acesso em: 07 dez. 2018. 8. O colégio de Aplicação está localizado dentro do campus da Universidade do Estado de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis no bairro Trindade. A escola possui uma boa estrutura tanto https://bit.ly/UDXBME http://bit.ly/2E9r5g3 http://bit.ly/2BXna4w interna quanto externa, com salas ambientes, salas de convivência e espaços abertos para atividades e brincadeiras. Em sua organização, a partir da resolução nº 013/CEPE/92, ficou estabelecido o número de três turmas por série, com 25 alunos cada, assim, o ingresso de alunos no Colégio passou o ocorrer via sorteio aberto à comunidade. Para mais informações, ver em: . Acesso em: 07 dez. 2018. 9. Cabe salientar que dentro do Brasil há uma gama de diferentes culturas, hábitos, línguas, identificações e costumes que variam por estado, região, etc. 10. 7 leitores. O lixo. Disponível em: . Acesso em: 07 dez. 2018. 11. Deixamos o registro da dificuldade que tivemos mediante o período de estágio para interagir com o aluno, mesmo acompanhado por uma profissional em atendimento educacional especializado garantido pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN). 12. Para mais informações sobre o diagnóstico de pessoas com transtorno do espectro autista (TEA), ver em: Instituto Pensi. Diagnóstico do autismo. Disponível em: . Acesso em: 07 dez. 2018. http://bit.ly/2BXna4w http://bit.ly/2BW91nU http://bit.ly/2StGw6o 3. O ENSINO DE HISTÓRIA DA ÁFRICA: UMA EXPERIÊNCIA DO ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO EM HISTÓRIA NA UDESC (2016) Carol Lima de Carvalho Introdução Ao longo dos últimos anos, alguns debates se construíram em torno das ausências na historiografia catarinense, em especial, a invisibilização da presença de africanos/africanas na construção do estado. Diante da necessidade das populações de origem africanas e afro-brasileiras de resistir para existir, emergiram as organizações negras, que desde século XX vêm se articulando pela busca de uma sociedade mais equânime13 e livre do racismo e das discriminações raciais. Desse modo, uma destas organizações, é o movimento negro que se caracteriza, segundo Domingues (2007, p. 101), “pela luta dos negros na perspectiva de resolver problemas na sociedade abrangente, em particular os provenientes do racismo e das discriminações raciais, que os marginalizam no mercado de trabalho, no sistema educacional, político, social e cultural”. Diante desta conjuntura, o movimento negro brasileiro ao procurar visibilizar e denunciar as desigualdades, através de pautas, principalmente da educação, possibilitou avanços. Um deles é a homologação da Lei Federal nº 10.639 de 9 de janeiro do ano de 2003, que tornou obrigatório o Ensino da História e culturas africanas e afro-brasileira em todos os âmbitos escolares. Através de sua sanção foi possível impulsionar para que as temáticas referentes às culturas africanas e afro-brasileiras atingissem um novo patamar no contexto da educação brasileira, visibilizando aspectos até então silenciados e perspectivando o ensino de histórias plurais. Portanto, a referida Lei, segundo Pacifico, pode ser considerada uma “possibilidade de avanços no âmbito educacional e cultural e, também, de mudanças em práticas sociais humanas, e reconhecimento que os/as negros/as proporcionaram à formação do povo brasileiro” (Pacifico, 2008, p. 562). Além disso, Pacifico complementa que ao repensarmos “a forma de organização curricular e incentivo às ações pedagógicas que venham ao encontro das lutas travadas pelos negros” (Pacifico, 2008, p. 562), garantimos que sejam relatadas as participações e presenças negra em todos os segmentos da sociedade, e por hora isto é instituído e garantido por Lei. Neste viés, Santos (2005, p. 1) ao apontar a obrigatoriedade do ensino destas histórias e culturas, afirma que “ensinar a História da África aos alunos brasileiros é a única maneira de romper com a estrutura eurocêntrica que até hoje caracterizou a formação escolar brasileira”. Desse modo, ao considerar a importância da homologação e implementação desta Lei, assim como o contato inicial com ensino básico, emergiu a ideia da construção deste capítulo. O contato inicial refere-se a experiência e observações da disciplina de Estágio Curricular Supervisionado III do Curso de História da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Realizada no primeiro semestre de 2016 e executado pelas acadêmicas Thayná de Souza, Ana Marquevicz e por mim sob orientação da Professora da disciplina Caroline Jaques Cubas.14 O estágio ocorreu em uma turma do primeiro ano de ensino médio do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tinha como professora regente da disciplina de história, a docente Karen Christine Rechia.15 A experiência na disciplina de Estágio iniciou com observações das aulas da Professora regente da turma, possibilitando que conhecêssemos os/as estudantes, assim como o modo que compreendiam os conteúdos de história. Primeiramente aplicamos duas oficinas, seguindo a perspectiva de traçar perfis da turma e os conteúdos até então apresentados. Em seguida, iniciamos as preparações para ministrar as aulas, estavam inclusas as elaborações dos planos, atividades, maneiras para utilizar os recursos audiovisuais e elaboração das provas, os conteúdos foram determinados através de conversa com Professora Karen, estes estavam em torno da História do Brasil Império, abordamos conjunturas sociais, políticas e econômicas, visibilizando histórias de mulheres, negros e indígenas. Optamos por tais histórias, pois durante as observações, ouvimos comentários estereotipados sobre gordos, negros, mulheres, fizemos aulas que pudessem conduzir estes pensamentos sob outras visões, e que trouxesse a dinâmica entre passado e presente da história do Brasil. Os resultados foram significativos, pois eles(as) compreendiam o que há de passado neste presente. Além disso, cada aula tínhamos atividades que proporcionavam a interação da turma e a apresentação dos conteúdos eram conduzidos por eles(as) e mediados por nós. Assim como, as aulas posteriores eram pensadas a partir das anteriores, e assim por diante. Quanto a isso, partimos das perspectivas da autora Schmidt (2009), é preciso destacar a importância de despertar a consciência histórica através da compreensão dos processos históricos e o lugar do(a) estudante neste mundo, tornando também, importante as suas experiências para condução de uma aula e a compreensão do que é História. E assim, os recursos utilizados para auxiliar neste ‘despertar da consciência história’ foram Datashow, notebooks (fornecidos pela escola) e lousa. Além do mais, buscávamos propor atividades todas as aulas, como relatos, desenhos, resposta a alguns questionamentos e jogos, com o objetivo de tornar sentido e significado para os conteúdos apresentados. Dito isso, a partir das contribuições de Peter Lee (2006; 2011), é possívelrefletir sobre a função social da História e a potencialidade da aprendizagem em história para a sociedade contemporânea, pensando que entender a História possibilita a compreensão dos indivíduos como sujeitos históricos e agentes de suas próprias histórias. Sobretudo, é possível a conscientização da consciência histórica de cada um(a), a apreensão dos diversos fatores de sua existência, bem como tudo que está no mundo físico e social, visualizando, assim, a História numa outra perspectiva. Nesse sentido, além de observarmos comentários específicos referentes aos negros, ouvimos também alguns que envolviam o próprio continente africano e também o impacto do processo de escravização no Brasil. Em consequência disso, ao seguir a nossa perspectiva desde princípio, reconhecemos a necessidade da implementação da Lei Federal nº 10.639/03. Em umas das aulas entregamos aos/as estudantes um questionário para verificar seus conhecimentos sobre os conceitos escravidão, continente africano e a referida Lei. Ao pensar os/as estudantes como sujeitos históricos e que seus conhecimentos podem ser fios condutores das aulas, escolhi tratar do contexto histórico16 voltado para o período de escravidão no Brasil e seus impactos, por meio de questionários, pensando nos seus saberes acerca dos conteúdos, de tal modo que percebam que nossa sociedade é plural. Esta necessidade do tema desta pesquisa, partiu também do compromisso em garantir a implementação da legislação que torna obrigatório o ensino da história até então inviabilizada nos bancos escolares. Para alcançar este objetivo nesse capítulo utilizei os questionários como fonte por meio do qual pude identificar as concepções dos estudantes acerca de tais conceitos, principalmente evidenciando como está sendo configurado o Ensino de História da África e dos afro-brasileiros. E então, ao pensar na necessidade dos(as) estudantes lidarem com as diferenças e construírem um espaço de equidade presente no ambiente escolar, considero que para isso é fundamental a centralidade e importância da disciplina de História. Por este motivo escolhi desenvolver este capítulo realizando uma pesquisa pautada nas propostas da Lei Federal nº 10.639/03. No entanto, vale destacar que esta pesquisa tem como protagonistas a turma do primeiro ano do ensino médio C, desse modo, não é possível traçar um histórico completo do Colégio de Aplicação no que diz respeito a implementação da Lei. Mas é viável buscar problematizar, através de referenciais teóricos, as respostas obtidas através dos questionários desta turma. A partir disso, este capítulo destacou num primeiro momento a trajetória da Lei como fruto das lutas do movimento negro pautada nas concepções de Amilcar Araújo Pereira (2011) e Petrônio Domingues (2007) e num segundo momento os resultados da pesquisa a partir da análise dos questionários. Para pensar no que propõe a Lei utilizei o Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnicos Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro- brasileira e Africana/Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão. Ao pensarmos nos seus avanços e perspectivas, a autora Jeruse Romão (2014), foi respaldo para estas discussões. A respeito dos desafios utilizarei a autora Ângela Cordeiro Medeiros (2007) e Eduardo Ribeiro Almeida (2007). E por fim a abordagem das perspectivas partiu das concepções da autora Tânia Mara Pacifico (2008). O colégio de aplicação como campo de estágio Na medida em que este capítulo versou sobre uma análise e problematização da implementação da Lei nº 10.639/03 na turma do 1ºC do Colégio de Aplicação, vale destacar a trajetória do colégio, bem como apresentar o perfil da turma. O Colégio de Aplicação foi criado em 1961, sob a denominação de Ginásio de Aplicação e com o objetivo de servir de campo de estágio destinado à prática docente dos alunos matriculados nos cursos de Didática (Geral e Específica) da Faculdade Catarinense de Filosofia – FCF. (Santa Catarina, 2014, p. 1) A partir da leitura do site da UFSC, identificamos que na trajetória do Colégio, destaca-se que “no ano de 1970 foi substituído o nome Ginásio de Aplicação para Colégio de Aplicação, e o colégio passou a ter a primeira série do segundo ciclo, com os cursos Clássico e Científico” (Santa Catarina, 2014, p. 1). Já no ano de “em 1980, foi acrescentado aos cursos já existentes o Ensino Fundamental com a implementação de oito turmas, duas (turno matutino e vespertino) para cada uma das quatro séries iniciais.” (Santa Catarina, 2014, p. 1). Passados alguns anos, o Colégio passou por algumas alterações, e: Atualmente o Colégio de Aplicação, inserido no Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina, é uma unidade educacional que atende ao Ensino Fundamental e Médio, funciona em prédio próprio, no Campus Universitário, e está localizado no Bairro da Trindade, município de Florianópolis. (Santa Catarina, 2014, p. 1) Desse modo, vale lembrar que o espaço físico é diferenciado, com diversas salas destinadas para professores e professoras de uma única disciplina, e até mesmo uma sala para grêmio estudantil; sua estrutura também foi pensada para estudantes com necessidades especiais, uma vez que a escola destina uma porcentagem de suas vagas para os mesmos, além das rampas espalhadas pelo colégio. É perceptível que, quando olhamos para a disciplina de História do Colégio, ministrada pela Professora Karen no primeiro ano do ensino médio, os livros didáticos não são os condutores das aulas, portanto os conteúdos são selecionados a partir de outros fatores, o que permite que os/as alunos(as) possam se aprofundar ao máximo dentro das matérias estudadas. Por isso, o fato de não existir repetições de temas de aulas, além do(a) docente, em alguns momentos, ter tempo hábil para tratar e aprofundar temas específicos, possibilita uma compreensão dos fatos como um todo. Nesta perspectiva, estar inserida a turma do 1º ano do ensino médio C, através da aplicação de um questionário, foi possível que traçássemos um perfil geral da turma. As principais informações são: turma é composta por 25 alunos(as) entre 14 a 16 anos. Mas, com alguns/algumas alunos(as) repetentes e dois/duas são maiores de idade, possuindo 18 anos. A respeito do local onde residem, todos(as) moram na região da grande Florianópolis, principalmente na Ilha, mas nem todos(as) nasceram na cidade. Entre outras cidades e estados que compõe a turma encontramos São Paulo, Garopaba, Seara (SC), Rio Grande do Sul e Balneário Camboriú. Em relação às disciplinas favoritas, quase todas foram abordadas, como filosofia, química, português, geografia, história, biologia, alemão, ELA17 e matemática. História é a disciplina preferida pelos alunos, seguida de biologia e química. E por fim, os assuntos prediletos da disciplina de História, são as Revoluções, tanto a Francesa e a Industrial. Outros assuntos foram mitos e lendas, revoltas, Idade Média, Guerras, Egito Antigo, Império e Inconfidência Mineira. Trajetória do movimento negro e a demanda pela educação O século XX fez parte de um cenário pautado por muitas iniciativas voltadas à constituição de uma educação plural e inclusiva. Pereira (2011) afirma que no período de pós-abolição a questão da educação da população negra, já emergia como um tema de grande importância para as organizações negras no Brasil. Além disso, Nilma Lino Gomes (2012) traz reflexões sobre a atuação do movimento negro no século XX, A atuação do movimento negro na educação também se deu nos fóruns decisivos da política educacional. Reivindicada pelas organizações negras desde o início do século XX, a inclusão dos negros na escola pública aparecia como recurso argumentativo nos debates educacionais dos anos de 1940 e 1960. (Gomes, 2012, p. 737) Assim, essas reivindicações ganham força a partir do surgimento, em 1926, do Centro Cívico Palmares, entidade considerada um marco importante para a mobilizaçãopolítica dos negros em São Paulo, contribuindo para a criação da Frente Negra Brasileira em 1931. Segundo Oliva e Bairros (2013) a Frente Negra Brasileira elegeu como principal compromisso de luta a educação que contemplasse a História da África e dos povos negros e combatesse práticas discriminatórias sofridas pelas crianças no ambiente escolar. Além disso, o Teatro Experimental do Negro (TEN) coordenado por Abdias do Nascimento possibilitou a criação das primeiras propostas de ações afirmativas no Brasil, pois objetivava a formação global das pessoas negras, indicando políticas públicas. Segundo Domingues, o grupo defendia “os direitos civis dos negros na qualidade de direitos humanos, o TEN propugnava a criação de uma legislação antidiscriminatória para o país” (Domingues, 2011, p. 109), e assim, tendo um papel fundamental na organização e reestruturação do movimento negro brasileiro. Em 1978 temos a fundação do Movimento Negro Unificado (MNU), emergindo ações voltadas para educação e a proposta de defesa da inserção da História da África e do negro no Brasil no currículo escolar. Ao longo da década de 80 o movimento “formado por intelectuais e pesquisadores da aérea da educação produziram um amplo debate sobre a importância de um currículo escolar que refletisse a diversidade étnico racial da sociedade brasileira” (Oliva; Bairros; 2013; p. 9). Cabe ressaltar que MNU significou um marco na história do protesto negro do país, porque, entre outros motivos, desenvolveu-se a proposta de unificar a luta de todos os grupos e organizações antirracistas em escala nacional. O objetivo era fortalecer o poder político do movimento negro. (Domingues, 2011, p. 114) Este contexto de lutas e resistências resultou na efetivação de uma agenda política voltada ao combate ao racismo e a valorização das culturas africanas e afro-brasileiras, resultando entre os elementos desta agenda, na sanção da Lei Federal nº 10.639/03. A alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional possibilitou a diminuição da invisibilidade das políticas para educação das relações étnico raciais no Brasil e a cobrança de sua efetiva implementação. Diretamente relacionadas à Lei Federal nº 10.639 estão as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico- Raciais e para Ensino de História e Cultura Afro- Brasileira e Africana implementadas em 2004. Segundo Romão (2014, p. 34) sua questão central envolve o currículo, ou seja, orienta e inspira os sistemas para construção de novas bases curriculares, através de novos conteúdos sobre africanos e seus descendentes brasileiros. Tais conteúdos devem ser compreendidos como bens culturais, de interesse humano, coletivo e com relações de pertencimento de toda humanidade. Para além do currículo, segundo Gomes (2012), a Lei Federal nº 10.639/03 permite que no plano educacional, algumas das reivindicações históricas do movimento negro para a educação têm sido transformadas em políticas do MEC, leis federais, decisões do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. (Gomes, 2012, p. 740) Resultados Ancorada em tais considerações, as análises destas investigações iniciaram no momento em que traçamos o perfil da turma, que por sua vez, é composta majoritariamente por estudantes brancos, e ademais fenótipos. Neste caso, tenho como fio condutor a necessidade de todas e todos que compõem a sociedade brasileira compreenderam o ensino da História africana e afro-brasileira. Sendo assim, os(as) estudantes brancos(as) também devem aprender sobre esta história que por anos foi negligenciada. Dito isso, destacaram seus temas preferidos de estudos, sendo relacionados ao continente europeu. Sobre isso, coloco tais questionamentos: será que estes estudantes conhecem o continente africano, a escravidão no Brasil e o contexto das populações de origem africana e afro-brasileira? Ao elaborarmos a aula sobre escravidão, organizamos esta em dois momentos, o primeiro foi aplicação do questionário com as seguintes perguntas: 1. O que sabem sobre o Continente Africano? 2. Em algum momento vocês aprenderam sobre História africana ou afro-brasileira? Se sim, qual matéria? Se não, imaginam o motivo? 3. Já aprenderam sobre escravidão? E o que aconteceu com seu fim? E o segundo momento foram as discussões voltadas para negociações, conflitos, resistências e agências das pessoas escravizadas no Segundo Reinado do Brasil. A turma é composta por 25 estudantes, e 23 deles(as) responderam o questionário. Dentre estas respostas, dezesseis delas afirmaram, na primeira questão, que o continente africano tem aspectos ruins, vinculados a estereótipos criados durante séculos acerca do tema. Neste caso, é possível refletir que a falta de conhecimento das peculiaridades e das especificidades regionais, bem como dos elementos referenciais das culturas de indígenas, negros e imigrantes nos currículos escolares, “têm contribuído para a formação de preconceitos e estereótipos por parte dos próprios brasileiros” (Fernandes, 2005, p. 386). Assim, para afirmar tal consideração, as respostas frequentes na primeira questão foram: “Morte de muitos negros”, “Exploração”, “Conflitos, escravidão”, “Exploração e colonizado pelos europeus, ebola, copa do mundo de 2010, etc.” e “Pobreza”. Segundo Fernandes ao tratar de livros didáticos e como suas narrativas são construídas com bases preconceituosas e estereotipadas, afirma que “apesar da renovação teórico-metodológica da História nos últimos anos, o conteúdo programático da disciplina na escola fundamental tem primado por uma visão monocultural e eurocêntrica de nosso passado” (Fernandes, 2005, p. 380). Neste sentido, embora a turma não utilize livros didáticos como condutores das aulas, a maioria da turma do 1ºC teve contato com visões ocidentais (preconceituosas e estereotipadas) em torno do continente africano. Tais percepções estereotipadas foram construídas historicamente ao longo do tempo, embasadas em relações de poder que são ainda reproduzidas e reforçadas pela sociedade. Através do ensino de história da África sem seus próprios pressupostos e a que acabam associando o continente a miséria, fome e sofrimentos. Ou seja, Currículos e manuais didáticos que silenciam e chegam até a omitir a condição de sujeitos históricos às populações negras e ameríndias têm contribuído para elevar os índices de evasão e repetência de crianças provenientes dos estratos sociais mais pobres. A grande maioria adentra nos quadros escolares e sai precocemente sem concluir seus estudos no ensino fundamental por não se identificarem com uma escola moldada ainda nos padrões eurocêntricos, que não valoriza a diversidade étnico-cultural de nossa formação. (Fernandes, 2005, p. 380) Neste viés, outras respostas apontam que o continente africano também aparece vinculado a algo que está apenas no passado como por exemplo, “Foi muito importante na antiguidade”, quanto a isso, cabe evidenciar que essa perspectiva apresenta uma África encapsulada e congelada no passado, remetendo as ideias da antiguidade. Reforçando essa ideia de representação desse tempo estático que se tem sobre a África. Quanto a isso, cabe ressaltar os dispositivos legais que garantem a organização do currículo, em especial, do ensino superior, e assim, destacando a importância da formação dos(as) professores(as) que ensinam histórias das Áfricas. Analisando planos de ensino referentes a disciplina de História da África em três Universidades Catarinenses,18 destaca-se uma dinâmica que reforça este continente preso ao passado, partindo do pressuposto sobre os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) analisados por Oliva (2009), num determinado momento estes parâmetros dão um salto das primeiras civilizações para o processo de Expansão Marítima Europeia dos séculos XV e XVI. E assim, resulta em poucos conteúdos e tempo hábil para ensinar sobre as histórias, memórias e culturas africanas, ou seja, como se as Áfricas não existissem mais após a colonização europeia. Neste viés, Antonacci (2013) aponta queesta perspectiva de invisibilizar as Áfricas, está vinculada a ideia de que “a razão e a ciência iluminariam a modernidade ocidental, encobrindo seu lado noturno, a colonialidade que expropriou e excluiu habitantes e habitares de Áfricas e Américas” (Antonacci, 2013, p. 239). E assim, o ensino sobre “histórias locais, experiências vivenciadas e incrustadas no corpo, memórias, crenças, hábitos, ofícios transmitidos em compartilhados rituais cotidianos, foram renegadas” (Antonacci, 2013, p. 239). Ao longo dos anos, estudiosos(as) vêm buscando alterar este cenário, interrogando as colonialidades do ser, saber e poder,19 resultados do período colonial e escravocrata. Desse modo, embora este continente tenha sido palco de diversificadas experiências sociais e múltiplos fenômenos culturais. O aparecimento da “ciência histórica”, na Europa dos oitocentos, desconsiderou, por meio de seus pressupostos, a história vivenciada no continente. E, portanto, desvinculando o continente a questões da atualidade. Ademais, dentre as respostas do questionário, algumas minimizaram o continente a “Madagascar, animais selvagens, afrodescendentes”, “Paisagens” e “Girafa”. Além do mais, os animais e a natureza, eles/elas também colocam o continente como um local de “paisagens grandes, onde está situado o Egito”, e “com muitos negros”. Neste sentido, estas visões também são reforços de estereótipos criados, pois ao pensarmos no continente africano, vinculado a selvageria, paisagens e negros/afrodescendentes não estamos estudando a partir de seus próprios pressupostos, e sim trazendo uma visão ocidental para definir o que é ser, ver e viver no continente africano. Desse modo, Fernandes (2005, p. 379) aponta que “embora a formação histórico-social brasileira, seja multirracial e pluriétnica, de notável diversidade cultural, a escola brasileira ainda não aprendeu a conviver com essa realidade e, por conseguinte, não sabe trabalhar com as crianças e jovens” plurais. E principalmente relacionar as questões que envolvem o continente africano para esta formação étnica. Entretanto, há avanços nestes contextos, principalmente no âmbito da implementação da Lei Federal nº 10.639/03. Assim, possuem nos questionários sete respostas que vinculam o continente a algo distante dos estereótipos criados em torno do mesmo. Como por exemplo, relatar que tem “diversidade”, “cultura”, “Religião, culturas diversificadas” e “etnias”. Ao citar diversas dimensões pertencentes a história da África, estas respostas nos remetem a importância da inclusão “do ensino de história da África no currículo da educação básica, por saber que a instituição escolar tem um papel fundamental no combate ao preconceito e à discriminação” (Fernandes, 2005, p. 381). A respeito da segunda questão, vinte e uma respostas afirmaram que sim, aprenderam sobre História africana ou afro-brasileira na escola, o que faz com que passamos a refletir, diante das respostas da primeira questão, sobre qual história da África está sendo ensinada. O autor Oliva argumenta que se “o ensino de História no Brasil passou por uma profunda transformação nos últimos vinte anos, a mesma parece não ter atingindo de forma significativa o estudo da História da África” (Oliva, 2003, p. 424), fazendo com que o ensino não tenha como prioridade as especificidades do continente. E, portanto, há um “um longo caminho ainda precisa ser percorrido para que a escola seja, de fato, um instrumento de afirmação de uma identidade pluricultural” (Fernandes, 2005, p. 386). Além disso, o ensino está acontecendo nas disciplinas vinculadas (em maioria) a licenciatura, em especial História, Geografia e Português. A Lei Federal nº 10.639/03 introduziu a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e africana em todos os currículos escolares da educação básica e do ensino superior, mesmo porque, segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (DCNERER) a: Inclusão de discussão da questão racial como parte integrante da matriz curricular, tanto dos cursos de licenciatura para Educação Infantil, os anos iniciais e finais da Educação Fundamental, Educação Média, Educação de Jovens e Adultos, como de processos de formação continuada de professores, inclusive de docentes no Ensino Superior. (Ministério da Educação, 2004, p. 23) Portanto, o ensino deve ocorrer em todos os cursos superiores e não somente as licenciaturas. Conforme as questões supracitadas, as respostas caminharam ao sentido contrário das propostas da Lei e das Diretrizes, pois os(as) estudantes afirmam que aprenderam sobre Bantos e Yorubás, nas aulas de “História, Geografia, Português”. Outra resposta aponta que ao se tratar do tema, mesmo que seja ensinado, é de maneira reduzida, sendo pouco mencionado e apresentado em apenas “um tópico da aula, geralmente nas de história e geografia, algumas vezes língua portuguesa”. E também, aprenderam sobre “os tutsis e hutus, e sobre malês nas aulas de História”. Ao ver estes temas frequentes, penso no perigo da história única para Chimamanda Adichie (2009, p. 1) que dá o indício de que, para se ter uma single story sobre um povo, é só relatar “uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, será o que eles se tornarão”. As duas respostas, que afirmaram não ter estudado, destacam que: “Mais ou menos, em história, geografia e espanhol” e “Não aprendi nunca sobre História africana mas estudei as vezes os africanos como escravos”. Diante dessas respostas, podemos refletir que se tem um silêncio, desconhecimento acerca do continente africano, poderíamos assim definir o entendimento e a abordagem da história africana (Oliva, 2014). Ademais, a terceira questão, vinte e uma respostas afirmaram que sim, aprenderam sobre a escravidão em todos os âmbitos. Destaco que alguns não sabem seu fim e suas consequências, outros acreditam que é algo diretamente vinculado à figura da princesa Isabel, desconsiderando as resistências e agências das populações de origem africanas escravizadas. Permitindo novamente que, façamos a reflexão sobre qual história da África está sendo ensinada e como o movimento negro, organizações antirracistas e núcleos de estudos estão se mobilizando para garantir a implementação da Lei Federal nº 10.639/03. Para respaldo das discussões das respostas, é viável relatar que a própria sociedade reconhece a escravidão como ao natural. Em Santa Catarina foram realizados poucos debates referentes ao assunto numa perspectiva de questioná-lo, ou seja, possibilitar uma reflexão, de tal modo que haja um afastamento da noção de naturalidade. E, neste caso, apontar os impactos deste período, como por exemplo, desigualdade e injustiças sociais profundas do colonialismo, e para além disso, resultou, conforme dito anteriormente, numa ‘colonialidade do saber’ que é “um legado epistemológico do eurocentrismo que nos impede de compreender o mundo a partir do próprio mundo em que vivemos e das epistemes que lhes são próprias” (Gonçalves, 2005, p. 3). Desse modo, há respostas como: “Já, e não sei o que pode ter acontecido com seu fim. Talvez, muitos não ligando para isso, e continuaram a escravizá-los”; “sim, após seu fim, a escravidão passou a ser um trabalho assalariado, mas escravizado. E foi difícil os ex-escravizados se incluírem e serem alguém na sociedade”; “sim, os negros foram libertados e continuaram trabalhando (algo ilegível) por muito pouco dinheiro”; “sim, os escravos foram deixados à mercê da elite”. As respostas consideravam as ações da princesa Isabel, pensando a abolição como uma dádiva: “Sim, escravos foram libertados, e fugiram para os morros fazendo quilombos e por conta da posição (ilegível)”; “sim, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea”; “sim, uma moça criou uma lei e as salvou, uma lei que proibia a escravidão, a moça se chama princesa Isabel”; “sim, em 1888 a princesa Isabel assinou a Lei Áurea”. Essas respostas possibilitam afirmar que, segundo Jaci Maria Ferrazde Menezes (2009, p. 84) os estudos referentes a período de lutas pela Abolição da Escravidão no Brasil aponta que não foi uma dádiva, mas uma conquista. O resultado de um longo processo de marchas e contramarchas, tergiversações, em que os negros e seus aliados tiveram que passar por aprendizados – o aprendizado da luta política, ao lado da participação em guerras de independência e de construção de nações – onde o preço da liberdade (sua e dos seus descendentes) resultou, muitas vezes, no preço da vida. Além disso, as respostas apontam visões sobre o fim da escravidão e a situação da população escravizada: “Sim, a escravidão foi um marco na história do brasil. Após o término da escravatura eles ficaram isolados sem estrutura para ter uma vida digna”; “sobre escravidão mesmo não aprendi, sei que foi abolida, mas não sei quando e o que aconteceu”; “sim. Os escravizados foram libertos, mas continuaram com praticamente os mesmos direitos. A única diferença é que estavam “livres”“; “sim. O fim foi só legal, muitas praticas continuaram e não foi dado nenhum apoio”; “sim, aconteceu que ainda bem que os negros foram libertos da escravidão, mas continuaram tendo muito preconceito com eles e esses também não tinha quase direito nenhum”. Meneses (2009) afirma que na forma como se desenvolveu o processo da Abolição se gestou também a futura forma de inclusão do negro na sociedade: aí se programa e, sobremaneira, se decide o novo país que resulta da Independência e do final da escravidão. Entretanto, esta inclusão não aconteceu de tal modo que as/os ex-escravizadas(os) pudessem viver numa sociedade igualitária e livre de racismo. Caminhando para a decolonialidade do saber nas aulas de história Anteriormente, apresentei as dinâmicas entre perigo da história única e a colonialidade do saber, para dar continuidade a este debate e buscar a construção de perspectivas de ensino de história nas salas de aula, reforço aspectos que a intelectual e ativista negra Lélia Gonzalez (1980), Sueli Carneiro (1995) e Djamila Ribeiro (2016) apontam sobre vozes legitimadas e privilégios epistêmicos. Conforme Adiche (2009) ao ensinarmos sobre um único aspecto repetidas vezes, torna-se uma verdade unilateral. Para ela, isso é reflexo das estruturas de poder no mundo, e ela complementa que a palavra do grupo Igbo que simboliza tais estruturas é “nkali”, pois é entendida como “ser maior do que o outro”. Na perspectiva de Adichie sobre “ser maior que o outro”, a exclusão pautada em hierarquias (poder) sociais e raciais podem construir privilégios epistêmicos. Sueli Carneiro, no livro Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil (2011), destaca que “uma das heranças da escravidão foi o racismo cientifico do século XIX, que cientificamente dotou suposta divisão da humanidade em raças e estabeleceu hierarquia entre elas, conferindo-lhes estatuto de superioridade ou inferioridade naturais” (Carneiro, 2011, p. 15/16). Djamila Ribeiro, em seu livro O que é lugar de fala? (2017), ao trazer a algumas concepções de Lélia Gonzalez elucida sobre seus apontamentos a respeito de quais vozes eram, e ainda são, legítimas, partindo do pressuposto que quem possui o privilegio social tem domínio sob o privilegio epistêmico. Como o modelo valorizado e universal da ciência é branco, por este motivo, aprendemos uma história única. Desse modo, busca-se alterar este cenário, buscando a decolonialidade do saber, de tal modo que seja possível pensar os vestígios da colonização, questioná-los e apresentar novas perspectivas sobre as histórias das Áfricas e também das Américas. Dito isso, ao encontro da busca pela alteração desse cenário, inclusive refletido pelas respostas do questionário supracitado. Na experiência de estágio apresentada, após aplicarmos o questionário direcionamos a aula, conforme dito anteriormente, para pensar negociações, conflitos, resistências e agências das pessoas escravizadas no período do Segundo Reinado no Brasil. A dinâmica apresentada foi trazer as pessoas escravizadas por elas mesmas, reforçando que as resistências eram negociadas e que culturas não eram, e não são, imutáveis, desse modo, haviam ressignificações de culturas e saberes. Com esta perspectiva foi possível levá-los à reflexão sobre o que aprendiam sobre as Áfricas. Inicialmente explicamos o significado da Lei Federal 10.639/03, sua história de construção, seu conteúdo e suas perspectivas, de tal modo que eles(as) compreendessem sua importância e por qual motivo deveriam estudar sobre o tema em todas as disciplinas, não apenas em História. A partir disso explicamos a conjuntura do Segundo Reinado a respeito da escravidão, enfatizando que escravidão continuou existindo, apesar da resistência das pessoas escravizadas, dos esforços políticos liberais brasileiros e da pressão do governo inglês. Mesmo em meio a açoites, castigos, as rebeliões de pessoas escravizadas eram constantes. Após apresentarmos a conjuntura, explicamos cada conceito resistir, negociar, conflitar e agenciar, fazendo relações entre passado e presente, como por exemplo, a invisibilidade das culturas africanas, das ausências nas aulas de histórias sobre como as pessoas escravizadas resistiam e aspectos do racismo. Cabe ressaltar que na medida em que se pretende “diversificar noções de memória e história que permitam surpreender patrimônios em pedagogias performativas, reconhecer que populares produzem representações e lidam suas diferenças, tendo muito a dizer” (Antonacci, 2016, p. 212) é incorporar uma performática da pedagogia e considerar a importância da aplicabilidade da Lei nº 10.639. Não apenas nas concepções conceitualmente construídas, mas reconhecer que vai além de universos letrados e que a performances em comunidades de lógica oral viva também produz conhecimentos e noções subjetivas de ser, ver e sentir o mundo. Considerações finais Este capítulo pode ser um indicativo para repensar o cenário da historiografia catarinense, através da Lei Federal nº 10.639/03 e de uma experiência do Estágio Curricular Supervisionado em História, uma análise dos questionários aplicados na turma do primeiro ano do Ensino Médio do Colégio de Aplicação. O intuito foi identificar os conhecimentos acerca do continente africano, bem como a escravidão no Brasil durante o segundo reinado. Através destes objetivos e procedimentos metodológicos que respaldam esta pesquisa, é possível considerar que, a turma ao mesmo tempo que afirma ter estudado sobre História da África e afro-brasileiros, possui uma visão simplista pois, segundo Oliva, “a África e suas múltiplas experiências históricas não nos foram apresentadas durante nossas trajetórias de vida e formações escolares, a não ser por meio de informações que estavam recheadas de equívocos e simplificações” (Oliva, 2014, p. 30). Entretanto, alguns aprenderam a pluralidade do continente, assim, afirmo a importância da implementação da Lei Federal nº 10.639/03, pois “o estudo da história africana nas salas de aula brasileiras, não deixa de ser uma possibilidade de mudanças nos olhares lançados sobre os africanos e suas histórias” (Oliva, 2014, p. 31). Neste sentido, segundo Fernandes (2005, p. 384), sem sombras de dúvida, a Lei representa um avanço ao autorizar a construção de um multiculturalismo crítico na escola brasileira, ao tempo em que reconhece uma luta histórica do movimento negro em nosso país, cuja bandeira de luta consistia em incluir no currículo escolar o estudo da temática história e cultura afro-brasileira. A experiência do estágio supervisionado curricular em História durante o ano de 2016 permitiu que eu, enquanto historiadora, mulher e negra, refletisse sobre os espaços em que quero e preciso estar na sociedade. No momento em que organizamos a aula sobre escravidão, planejamos diferente daquilo que vimos na escola, através de um viés de agencia, resistência, negociações e conflitos. A experiência permitiu que entendêssemos o que cada um(a) compreendia sobre estes processos e criássemos estratégias para conduções da aula. Alémdisso, a experiência do estágio de docência em História possibilitou pensar em caminhos que busquem o avanço da Lei. E desse modo, na construção do conhecimento através desse capítulo, afirmo que são indicativos para estudos referentes a Lei nas práticas de docência e Ensino de História, assim como as noções das possibilidades, avanços e desafios do Ensino de História da África, ressaltando, por fim, a importância da aplicação da Lei na prática e a necessidade de um trabalho conjunto com formação de professores na temática das Áfricas, produção de material didático especializados e o diálogo com movimentos sociais e núcleo de estudos africanos e afro-brasileiros, assimcomo descolonizar o pensamento e reconhecer a decolonialidade do saber, buscando a construções de múltiplas visões sobre as histórias das Áfricas e das Américas. Referências BRASIL. Ministério da Educação. 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Destaco a importância de pensar estes contextos nas aulas de História, espaço para construção de um conhecimento histórico acerca das populações de origem africana e afro-brasileira. 17. Estudos Latinos Americanos. 18. Ler mais em: Cardoso, Paulino Jesus Francisco. et al. O Cenário da História da África no Ensino Superior: Universidade Federal Fronteira Sul, Universidade do Estado de Santa Catarina e Universidade do Extremo Sul de Santa Catarina, uma análise dos planos de ensino 2014. In: 25º Seminário de Iniciação Científica, 2015, Florianópolis. 25º Seminário de Iniciação Científica, 2015. p. 1-2. 19. Ler mais em: Quijano (1991); Mignolo (2005); Walsh (2004); Céserie (2006); Lander (2005). 4. O USO DE FONTES HISTÓRICAS COMO AUXÍLIO DIDÁTICO NAS AULAS DE HISTÓRIA Eduardo Müller Introdução O presente capítulo resulta da disciplina de Estágio Curricular Supervisionado III, do curso de Licenciatura em História no Centro de Ciências Humanas e da Educação (Faed) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), ministrada pelas professoras Dra. Caroline Jaques Cubas e Dra. Núcia de Oliveira, durante o segundo semestre de 2017. O trabalho possui como finalidade descrever e analisar a importância das fontes históricas como apoio didático na construção do aprendizado desenvolvido nas aulas de História pelos estudantes da turma 1º Ano B do Colégio de Aplicação da UFSC, durante o desenvolvimento do estágio curricular supervisionado. Nesta pesquisa, busca-se destacar a relação de estudantes com fontes históricas, envolvendo dimensão de valor concedido ao documento e as possibilidades de interações com o mesmo. A pesquisa desenvolvida é resultado das primeiras experiências docentes do grupo formado por Eduardo Müller, Lucas Txai e Victor Severo no Colégio de Aplicação da UFSC, o qual é parte integrante do Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina, atende ao Ensino Fundamental e Médio, e situa-se no próprio Campus Universitário, no bairro Trindade, em Florianópolis. As aulas ministradas pelo trio foram cuidadosamente orientadas e avaliadas pela Prof. Dra. Caroline Jaques Cubas e Prof. Dra. Karen Christine Rechia, as quais acompanharam todas as atividades no decorrer de 8 semanas, propostas e aplicadas para a turma do 1º Ano B do Ensino Médio, composta por 24 estudantes. O grupo de estagiários compareceu regularmente durante 8 semanas no Colégio de Aplicação para ministrar 1 aula nas terças-feiras, iniciadas 9h00min, e 2 aulas em sequência nas sextas-feiras, iniciadas 10h50min, com duração de 45 minutos cada aula. Durante as aulas de terça-feira, o grupo procurou viabilizar atividades alternativas, como opções ao tradicional meio expositivo dialogado. Um fator peculiar ocorrido foi o compartilhamento da turma na terça-feira com a aula de Português, onde semanalmente cada metade dos estudantes revezavam entre História e Língua Portuguesa. Isso exigiu a repetição das atividades em 2 semanas seguidas, para possibilitar a oportunidade de todos os alunos participarem. Nas duas primeiras semanas, as terças-feiras dos dias 08/08 e 15/08 foram compostas por uma dinâmica com objetivo de investigar o graude importância conferida pelos estudantes a fontes de suportes diferente, uma escrita, um documento histórico com teor oficial, em comparação com uma fonte oral, ambas discutindo o mesmo assunto. Em semanas seguintes, terças-feiras dos dias 22/08 e 29/08, houveram atividades de análise de fonte histórica, no caso a Constituição Federal de 1824, onde a turma efetuou a leitura de artigos selecionados pelos estagiários, dividiram-se em dois grupos denominados de Câmara e Senado para discutir projetos de leis e, por fim, dissertaram sobre os possíveis malefícios e benefícios de uma das leis discutidas. Nas demais terças-feiras, foram realizadas atividades relacionadas com as condições sociais das populações negras, assim como dinâmicas envolvendo jornais bicentenários. Durante as sextas-feiras, as aulas eram voltadas para o conteúdo específico da matéria de História, o qual compõe o plano de ensino da turma, apontado pela Prof. Karen Rechia. Neste caso, a metodologia empregada pelo grupo de estagiários foi semelhante ao estilo expositivo dialogado, utilizando o quadro de anotações para efetuar descrições, ao passo que se trabalhava também com vídeos e imagens relacionadas com os conteúdos discutidos. Desta forma, os assuntos discutidos durante as semanas começaram com a formação do Primeiro Reinado no Brasil, o processo de criação da Constituição Federal de 1824, abdicação do trono por parte de D. Pedro I e consequentemente o início do Período Regencial e suas crises posteriores, revoltas regenciais como Farroupilha e Sabinada, concluindo por fim com o Golpe da Maioridade. Este capítulo irá descrever e analisar com detalhes apenas as duas primeiras dinâmicas aplicadas nas aulas de terças-feiras, no caso, a com o objetivo de investigar o grau de relevância conferida pelos estudantes para fontes históricas de procedências distintas, assim como a atividade de análise da Constituição Federal de 1824. Estas escolhas são justificadas por meio das produções escritas efetuadas nas atividades, pois conseguem prover fontes de pesquisa para sustentar a problemática que acompanha este capítulo, isto é, buscar compreender a importância das fontes históricas como instrumentos de apoio didático na construção do aprendizado nas aulas de História. De acordo com Isabel Barca (2004), as fontes históricas possuem diversas possibilidades de utilização em aula, com isso, foram postas em prática durante o Estágio algumas dessas estratégias elencadas pela autora, tais quais ler as fontes com suportes e mensagens diversas, cruzando com suas intenções e validades. Este capítulo será desenvolvido em dois itens: o primeiro com intuito de descrever as atividades propostas pelos estagiários, isso incluindo a maneira de elaboração e aplicação das mesmas, com a definição dos objetivos de ambas. O segundo item irá focar em analisar as dissertações dos estudantes, provenientes das dinâmicas praticadas, para identificar a capacidade das fontes históricas utilizadas como apoio didático, obtendo a função de auxiliar e/ou potencializar o aprendizado nas aulas. Descrição Durante a produção do Projeto de Ensino e de Pesquisa de História do grupo de estagiários, o qual se chama A Fonte no Ensino de História: A utilização e compreensão de fontes históricas por alunos do Primeiro Ano B do ensino médio no colégio de Aplicação/UFSC, havia a preocupação em desenvolver atividades relacionadas com fontes históricas, afim de criar uma maneira de aproximação entre os estudantes com o conteúdo estudado, construindo o mesmo no espaço escolar. Para tanto, primeiro foi necessário investigar o grau de valorização estabelecido pelos alunos quanto aos documentos históricos, assim como fontes alternativas ao material produzido oficialmente, como fontes orais. Dessa forma, a primeira dinâmica das terças-feiras possuía o objetivo de responder algumas incógnitas sobre esse assunto, tais quais: O que possui maior importância para os discentes, um documento histórico oficial ou um relato oral? Como avaliariam um documento histórico? É possível uma fonte histórica ser relevante em algum aspecto do seu cotidiano? Quais relações os alunos estabelecem com o documento e como atribuem, ou não, valor ao passado? Com os questionamentos sanados, os estagiários poderiam produzir e aplicar as dinâmicas futuras com maior facilidade, pois por meio das respostas dissertadas dos alunos seria possível desenvolver os trabalhos de maneira mais efetiva, possuindo noção sobre quais categorias de fontes os estudantes criariam interesse, além do modo como utilizar tais fontes. Com isso, o grupo pensou a primeira atividade a partir de uma situação hipotética, onde a turma iria discutir a veracidade de um documento antigo dito oficial, em contraponto com um relato oral de uma pessoa desconhecida, e consequentemente cada aluno redigir seu pensamento individual. A circunstância promovida pode ser lida por inteira no anexo 1. Com a turma dividida em duplas, houve a leitura em conjunto dessa possibilidade criada, para em seguida as próprias duplas discutirem as ações possíveis. Após esse processo, a sala fez um debate em conjunto, para depois executar a redação de suas respostas individuais sobre a situação descrita, nesse caso, uma pessoa desconhecida pede um favor baseado em um antigo documento oficial. A partir dessa atividade foi possível observar o grau de importância conferida por cada estudante para as fontes disponíveis na circunstância hipotética, pois foi preciso justificar o posicionamento efetuado por meio das fontes. Com isso, era necessário definir a categoria de fonte com maior credibilidade, ou seja, um documento aparentemente oficial e antigo, ou um relato oral de uma pessoa desconhecida. Além de criar a situação hipotética, os estagiários também produziram o documento citado na atividade, uma espécie de tratado de ajuda mútua entre duas famílias, afim de estimular os estudantes a analisarem uma fonte histórica, e por meio dessa, também adicionar justificativas para o posicionamento diante da dinâmica. No anexo 2 está descrito o documento fictício. A leitura inicial dessa fonte também foi em conjunto, mas os questionamentos feitos sobre ela partiram dos estudantes. Dessa maneira, a descrição da fonte citada na dinâmica complementou para o debate e desenvolvimento da atividade, pois houve um processo de avaliação do documento, carregado com dúvidas e análises, entre elas, a falta de um carimbo de autenticação, a possibilidade de falsificação, a falta de conhecimento prévio sobre a existência de tal tratado, entre outras. Com isso, a dinâmica de um modo geral sana os objetivos propostos, pois é possível averiguar o grau de importância conferida pelos alunos sobre fontes, na categoria documental e oral, pois os estudantes ao passarem pela situação hipotética, no caso, uma pessoa desconhecida pedindo ajuda, precisaram definir se ajudariam tal pessoa e, justificar essa ajuda, se seria baseada em um documento oficial apresentado ou no relato oral proferido. Portanto, a atividade consegue executar a prática de análise de fontes históricas e demonstrar a maneira da turma se relacionar com tais fontes. A segunda atividade proposta para as terças-feiras utilizou como fonte a Constituição Federal de 1824, documento importante para a história do Brasil e presente nas aulas conteudistas das sextas-feiras. Dessa forma, a dinâmica possuiu o objetivo de auxiliar no aprendizado da matéria por meio de uma atividade alternativa, como opção ao tradicional meio expositivo dialogado. Com o sucesso das primeiras terças-feiras, o grupo definiu seguir a mesma metodologia de análise de fontes e debate sobre as mesmas, visto o empenho e interesse da turma em efetuar tais procedimentos nas semanas anteriores. Em um primeiro momento, houve a leitura em conjunto de determinados artigos da Constituição Federal de 1824, selecionados com antecedência pelos estagiários, com o intuito dos estudantes se familiarizarem com o documento. Estes artigos foram especificamente os Art. 1º-7º;Art. 10º-11º; Capítulo IV; Art. 94º; Art. 98º; Art. 101º. Em um segundo momento, a sala foi dividida, um grupo representando a Câmara dos Deputados e o outro representando o Senado Federal, ambientalizado no período de elaboração da Constituição Federal de 1824. Além disso, um estudante escolhido pela classe executou o papel do Imperador. Com isso, a turma realizou a interpretação de um julgamento de projetos de leis para a Constituição. Estas leis foram retiradas do documento oficial e elencadas como Propostas de Ementa de Lei, afim de disponibilizar para os alunos debaterem e representarem suas respectivas atividades. No anexo 3 está descrito as Ementas criadas. As interpretações funcionaram da seguinte maneira: o grupo formando a Câmara dos Deputados discutiu as Ementas em busca de um consenso, para definir quais leis iriam para votação no Senado. Uma vez decidido, as leis escolhidas foram passadas para o grupo formando o Senado Federal, onde estes avaliaram as leis afim de orientar as escolhas do Imperador na tarefa de sancionar as propostas. Por último, o Imperador recebeu as devidas leis selecionadas e decidiu por validar as mesmas ou não. Desta forma, com a realização desta dinâmica, os estudantes são estimulados a se relacionarem com a matéria de maneira alternativa, como agente ativos do aprendizado, sendo a fonte histórica utilizada como auxílio e apoio na atividade, proporcionando interações e relações entre o conteúdo teórico e a prática. Por fim, após as interpretações feitas, cada estudante deveria escolher uma das Ementas utilizadas na atividade para dissertar sobre seus possíveis benefícios e malefícios. Análise A partir da experiência do Estágio Curricular Supervisionado III, o trio de estagiários obteve a oportunidade de experimentar metodologias alternativas em sala de aula, propondo dinâmicas e atividades envolvendo fontes históricas, com o auxílio das Professoras Caroline Jaques Cubas e Karen Rechia. Este período de testes tende a ser muito valioso e proveitoso a partir do momento que, no ensino regular, as margens para metodologias diversificadas são pequenas, na expectativa de suprir os conteúdos exigidos para a realização dos vestibulares. Desta maneira, o Estágio desenvolve conhecimento prático para seus participantes produzirem novas metodologias, aplicando as mesmas em situações futuras de trabalho, com o intuito de aperfeiçoar tais práticas. Com a aplicação das dinâmicas desenvolvidas para as aulas das terças- feiras, o grupo obteve resultados práticos sobre a capacidade de os estudantes analisarem, avaliarem e se relacionarem com fontes históricas, essas sendo utilizadas como apoio para o aprendizado e aprimoramento do conhecimento. Na primeira atividade, a turma mostrou-se muito criteriosa em relação a veracidade das fontes oferecidas. De acordo com as respostas redigidas, quanto maior as informações sobre os documentos e garantias sobre a oficialidade dos mesmos, proporcionalmente maior será a credibilidade oferecida. Além disso, as circunstâncias em que os documentos são apresentados também influenciam no relacionamento dos alunos para com a fonte. Para buscar analisar, descrevo a seguir fragmentos das redações concluídas com a atividade: Aluna A: Não sei quais são as verdadeiras intenções do sujeito mesmo sendo um documento oficial, (...), mas se tivesse alguma forma de eu me garantir que o que ele fala é verdade, eu iria tentar ajudar de alguma forma (...). Aluna B: Eu, antes de tudo, iria atrás de saber se esse é um documento verdadeiro e se está valendo ainda hoje. (...) Aluna C: Os documentos podem ser falsos, não apresentam nenhuma assinatura. Ele pode também nem valer mais (se fosse verídico) por ser muito antigo. Analisando estes fragmentos, torna-se evidente a desconfiança das alunas referente ao documento e sujeito apresentados na atividade. É possível perceber por meio do relato da Aluna A, a separação de valor das diversas fontes, ou seja, a comprovação documental da fonte histórica não produz credibilidade na fonte oral relacionada. Da mesma forma, tanto para a Aluna B quanto para a Aluna C, a idade do documento é problemática, pois ainda sendo oficial, a probabilidade de estar fora de validade aumenta, visto os anos passados. Portanto, não há atribuição de valor ao documento proporcionalmente a sua idade, mas sim a uma possibilidade de autenticação atual. Esses pensamentos seguidos pelos demais estudantes, comprovam a capacidade de estes assumirem a agência perante as fontes, questionando a mesma, criando diversas relações de avaliação e produção de valor e importância. Isto demonstra o potencial existente em sala de aula, apoiado por trabalhos contínuos no Colégio de Aplicação efetuados anteriormente ao estágio, para criar atividades alternativas ao meio metodológico expositivo dialogado, pois tais dinâmicas diferenciadas alcançam o interesse da turma, possibilitando o desenvolvimento do conteúdo de maneira interativa. Seguindo este pensamento, foi aplicada a segunda atividade descrita, onde após interpretações de agências políticas, os participantes redigiram sobre leis constitucionais. Nesta dinâmica foi possível potencializar a compreensão da turma sobre o processo legislativo, visto a potencialização do entendimento teórico por meio da participação prática. Ao exercer representações tanto da Câmara dos Deputados e Senado Federal, quanto do Imperador do Brasil, os estudantes incorporaram interesses próprios e relacionados com o conteúdo estudado. Além disso, ao analisarem as Propostas de Ementa de Lei, há o desenvolvimento de senso crítico sobre as circunstâncias políticas estudadas. Para analisar, descrevo a seguir a resposta de uma estudante: Aluna B: A proposta de lei nº 4 me parece interessante, pois deixa todos felizes. Os cidadãos ficam com uma falsa liberdade e o governo continua mandando neles. E tendo em vista que é algo pacífico, não terá tanta probabilidade de guerras ou rebeliões. Este fragmento demonstra a sofisticação na compreensão política da estudante, pois a partir da análise da atividade, em conjunto ao conteúdo das aulas, é expressado a necessidade do governo central do Império do Brasil ceder aos anseios das Províncias, ao passo que não perde o controle da situação, com o intuito de evitar despesas desnecessárias com levantes e rebeliões. Assim como a Aluna B, diversos outros estudantes da turma apresentam a potencialização na construção do aprendizado a partir das dinâmicas feitas com auxílio de fontes históricas, essas colaborando para enriquecer a aula com possibilidades de metodologias alternativa. Considerações finais A conclusão do Estágio Curricular Supervisionado III produziu experiências de extrema significância para os participantes, iniciadas em semestres anteriores, adquirindo base teórica no Estágio I, e observando a turma no Estágio II. Isso facilitou a prática de ministrar as aulas, pois houve um preparo antecipado, anotando as estratégias utilizadas pela Professora Karen Rechia, para conseguir resultados positivos nos planejamentos, e as respectivas ações dos mesmos. Dessa forma, o fim do Estágio III representou o fechamento de um grande ciclo de aprendizagem, onde foi possível adquirir novas, e ampliar as existentes capacidades necessárias para atuar como docentes. Conforme a pesquisa realizada durante o Estágio Curricular Supervisionado e exposta neste capítulo, foi possível investigar o grau de relevância conferida pelos estudantes para fontes históricas de procedências distintas. A primeira atividade realizada proporcionou resultados específicos, como a baixa valorização dos estudantes em relação a fontes orais, alta valorização de fontes documentais com certificados de autenticação, relação de desconfiança com as possíveis idades de documentos, pois dificulta na percepção de validade dos mesmos. Em um segundo momento, a importância das fontes históricas como apoio didático na construção do aprendizado também foi atestada, por meio principalmente da segunda atividade proposta paraanálise, produzindo a potencialização de críticas sofisticadas sobre os conteúdos estudados, ao criarem relações de agência perante os documentos. Anexos 1 – Você está em sua casa, fazendo suas atividades cotidianas tranquilamente quanto de repente a campainha toca. Prontamente você vai atender quem está do outro lado, imaginando ser um amigo para uma visita. Ao abrir a porta você se depara com um homem desconhecido, aparentemente saudável e bem apresentado. Contudo, ele parece preocupado, carrega consigo um papel velho castigado pelo tempo. Angustiado, ele logo entrega o documento e pede socorro. O documento parece tratar de um pacto de ajuda mutua entre duas famílias, sendo elas a sua e a do homem a sua frente. Logo, você teria obrigação de ajudar o desconhecido. Ele afirma estar devendo dinheiro a alguns agiotas, não pede dinheiro para pagar a dívida, apenas que o esconda por alguns dias em sua casa. E agora, o que fazer? 2 – Tratado de Amizade e Assistência Mútua As Partes Contratantes, Considerando a situação obtida na Europa como resultado das guerras Napoleônicas e do medo que assombra as famílias; No interesse de um fortalecimento e promoção da amizade, cooperação e assistência mútua, de acordo com os princípios de respeito pela independência e soberania dos Estados e ainda com o princípio de não intervenção em seus assuntos internos. Resolvem concluir este Tratado de Amizade e Assistência Mútua, concordando no seguinte: Artigo I As partes contratantes declaram sua atenção em participar, dentro de um espírito de sincera cooperação, de todos os empreendimentos que visem a salvaguarda da paz e da segurança dos envolvidos e empregarão todas as suas energias na realização destes objetivos. Artigo II O presente Tratado permanecerá em vigor por tempo indeterminado, deixando de vigorar na data em que os contratantes concordarem pelo seu desfecho. FEITO em Lisboa, fica acordado aos dezenove dias do mês de dezembro de mil oitocentos e sete, o Tratado luso-franco entre as famílias Quaresma e Bourbon, com uma cópia de cada, nas línguas portuguesa e francesa, sendo todos os textos igualmente autênticos. 3 – Proposta de Ementa de Lei 1: TITULO 3º Dos Poderes, e Representação Nacional Art. 10. A Constituição do Império do Brasil é Monarquia Representativa; Proposta de Ementa de Lei 2: TITULO 3º Art. 11. Os poderes políticos reconhecidos pela Constituição do Império são três; o Poder Legislativo, o Poder Executivo, e o Poder Judiciário; Proposta de Ementa de Lei 3: TITULO 2º Dos Cidadãos Brazileiros. Art. 6. São Cidadãos Brazileiros (...) I. Os homens e mulheres que no Brazil tiverem nascido, ainda que o pai ou a mãe sejam estrangeiros; (...) IV. Os Escravos que obtiverem Carta de Alforria Proposta de Ementa de Lei 4: TITULO 1º Do Imperio do Brazil, seu Territorio, Governo, Dynastia, e Religião. Art. 1. É permitido às Províncias do Império opor-se pacificamente ao Governo propondo uma subdivisão do Território e criação de uma Nação independente do Império. I. A resultante Nação será votada em todas as Instâncias e só será reconhecida após aprovação unânime; II. Toda e qualquer forma de rebelião armada com intuito emancipatório será fortemente repreendida com a utilização das Forças Armadas Nacionais. Referências BARCA, Isabel. Aula Oficina: do projecto à avaliação. In: ______. (org.). Para uma educação histórica com qualidade. Actas das IV Jornadas Internacionais de Educação Histórica. Braga: Centro de Estudos em Educação e Psicologia, Universidade do Minha, 2004. p. 131-144. PEREIRA, Nilton Mullet; SEFFNER, Fernando. O que pode o ensino de história? Sobre o uso de fontes na sala de aula. Anos 90, Porto Alegre, v. 15, n. 28, p. 113-128, dez. 2008. RÜSEN, Jörn. Razão histórica. Teoria da História: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora UnB, 1998. SCHIMIDT, Maria Auxiliadora; CAINELLI, Marlene. Ensinar história. São Paulo: Scipione, 2004. – (Pensamento e ação no magistério). 5. REFLEXÕES ACERCA DO ENSINO DE HISTÓRIA, DA DECOLONIALIDADE DO SABER E DA LEI 11.645/2008 A PARTIR DA EXPERIÊNCIA NO ESTÁGIO SUPERVISIONADO Felipe Uba Durante minha formação acadêmica, o assunto referente ao ensino de história indígena foi presença marcante e constante. Enquanto bolsista de iniciação científica junto ao Núcleo de Estudos Afro-brasileiros, em 2013, participei como tutor de uma turma online de 40 professores da rede estadual de ensino, no Curso de Formação Continuada História dos Índios no Brasil. Seu objetivo foi melhor capacitar os professores que já estavam atuando em sala de aula, para aplicarem o que rege o texto da Lei 11.645/2008.20 Essa, altera o texto da Lei 10.639/03,21 e determina a obrigatoriedade do ensino de culturas e histórias africana, afrodescendente e indígena em todos os componentes curriculares, em todos os anos letivos, de toda a rede básica de ensino. Neste curso, em contato com os professores, pude notar suas angústias referente ao seguinte fato: como o professor ou professora poderá atender à lei, se nos currículos que devem cumprir não constam o ensino de história indígena? Como inserir a temática dos povos originários da América, além de dar conta do que já está estipulado como componente obrigatório por cada instituição de ensino? Quais métodos utilizar? Quando iniciei a experiência de estágio docência, ainda nas observações durante o primeiro semestre de 2016, percebi que as angústias daqueles professores procediam e que eu as compartilhava. O que tornava, afinal, a justificativa de existência do curso ainda mais fundamentada. Desde já é necessário pontuar as especificidades concernentes ao Colégio de Aplicação – CA da Universidade Federal de Santa Catarina, local do estágio realizado, e ao ensino de História Indígena. A proximidade com as discussões contemporâneas realizadas no meio acadêmico faz com que o CA seja diferente da maioria dos colégios públicos (como eram os que trabalhavam os professos do curso de formação) estaduais ou municipais. A atualização e a formação continuada dos docentes possibilitam aos seus discentes o acesso a métodos e discussões recentes das licenciaturas, as quais contam com uma adesão mais tímida nos demais centros de ensino. No caso, o CA possui a matéria Estudos Latino Americanos,22 ministrada nos oitavos anos, na qual a diversidade étnica conformadora da realidade atual latino-americana é salientada. Com isso, os estudos sobre os povos originários da América deslocam o protagonismo da agência histórica comumente centrada nos europeus e seus descendentes para outros sujeitos. Inclusive, se hoje em dia no Brasil existe uma chamada Nova História Indígena, isto se deveu pelo pioneirismo de certos autores como o mexicano Miguel Leon-Portillo, cujo exemplar de obra encontra-se na sala dos professores de história do colégio. No quinto ano do ensino fundamental, o conteúdo programático prevê o estudo da migração da espécie humana para o continente americano e o estabelecimento das primeiras culturas nestas terras, há pelo menos dez mil anos. Enquanto profissional de história, e ligado aos estudos na temática indígena, senti a falta de conteúdos relacionados a esse tema, no conteúdo programado para a turma de sexto ano que acompanhei.23 Isto não significa que o CA não esteja ciente da importância e aplicando os preceitos da Lei 11.645/2008. Pelo contrário. Todavia, senti-me compelido – diante das mais diversas civilizações do mundo antigo inteiro, as quais constavam no planejamento – a não deixar de fora os povos originários do que hoje chamamos de América.24 Mas qual foi o propósito desta inserção? As aulas ministradas sobre os povos Maias e Incas foram inseridas com a intenção de mostrar que o continente americano também é dotado de antiguidade, e de histórias de tempos tão remotos quanto o dos sábios babilônicos ou o de Helena e Menelau. Que culturas com alto índice de desenvolvimento tecnológico e social floresceram e emudeceram, muito antes de Cristóvão Colombo pisar numa ilhado que hoje chamamos de Bahamas, achando que era a Índia. A inserção desses conteúdos almeja descentrar o conhecimento histórico produzido e aprendido no Brasil, que está concatenado ao padrão epistemológico eurocêntrico. Por esse motivo, o ensino de história das populações indígenas foi realizado após três aulas que dedicamos para trabalhar com o conceito de eurocentrismo.25 Sigo com a definição do sociólogo peruano Aníbal Quijano a respeito deste tipo específico de etnocentrismo que passa a existir a partir das experiências coloniais na América do século XVI: En fin, el éxito de Europa Occidental en convertirse en el centro del moderno sistema-mundo, según la apta formulación de Wallerstein, desarrolló en los europeos un rasgo común a todos los dominadores coloniales e imperiales de la historia, el etnocentrismo. Pero en el caso europeo ese rasgo tenía un fundamento y una justificación peculiar: la clasificación racial de la población del mundo después de América. La asociación entre ambos fenómenos, el etnocentrismo colonial y la clasificación racial universal, ayuda a explicar por qué los europeos fueron llevados a sentirse no sólo superiores a todos los demás pueblos del mundo, sino, en particular, naturalmente superiores. Esa instancia histórica se expresó en una operación mental de fundamental importancia para todo el patrón de poder mundial, sobre todo respecto de las relaciones intersubjetivas que le son hegemónicas y en especial de su perspectiva de conocimiento: los europeos generaron una nueva perspectiva temporal de la historia y re-ubicaron a los pueblos colonizados, y a sus respectivas historias y culturas, en el pasado de una trayectoria histórica cuya culminación era Europa. (Quijano, 2000, p. 10) Nesse excerto, alguns pontos são notáveis. Primeiro, que o eurocentrismo enquanto uma operação mental e simbólica, se desenvolve em consonância com a prática dos projetos colonizatórios impetrados primeiramente em América e, portanto, se relaciona com processos de dominação física. Segundo, a utilização da categoria “raça” como parâmetro para classificar socialmente os indivíduos, como nas relações de trabalho e nos direitos de propriedade. Terceiro, as consequências geradas no âmbito da intersubjetividade e do conhecimento, o qual passou a ser produzido levando em conta os preceitos de uma visão de mundo eurocêntrica. Nessa perspectiva eurocentrada de ser/estar no mundo, os saberes e as histórias dos povos que viriam a ser colonizados durante os processos de expansão capitalista ocidental são deslegitimados e excluídos. O resultado do processo envolvendo esses três pontos citados é o que Quijano denomina de colonialidade do saber, a qual, como veremos, incide sobre a educação escolar brasileira e, de forma mais enfática, no ensino de história. Os alunos da turma em que realizei o Estágio tiveram, durante o mesmo ano letivo, aulas sobre diversos povos antigos asiáticos, além do Egito e da Grécia.26 Seguimos com a mitologia grega, mitos em geral, eurocentrismo, e por fim povos Maias e Incas. Quando propus este trajeto realizado no conteúdo, ainda antes de começar o estágio, visei a possibilidade de os alunos fazerem contrapontos – inclusive a partir da mediação realizada nas aulas de eurocentrismo – entre as chamadas civilizações clássicas27 e as americanas. A comparação entre Maias ou Incas, com gregos, egípcios, fenícios ou chineses, reforça que todos esses exemplos têm história, cada um com suas especificidades. Além destas particularidades, os alunos tiveram a possibilidade de perceber as aproximações, ou seja, aspectos culturais ou sociais de povos de diferentes continentes, mas que podem ter características muito próximas. A escolha por Maias e Incas buscou trazer exemplos com grande potencial de aplicação em sala de aula, haja vista a quantidade e variedade de fontes históricas provenientes desses povos que nos chegam através da arqueologia e da história. Por consequência, há maior número de informações e materiais de trabalho sobre as culturas desses dois povos, cujos processos históricos de formação se alongam por milênios antes da chegada dos europeus à América. Vale a pena destacar, contudo, que à época da chegada dos ibéricos ao “Novo Mundo”, o número de povos que ocupavam o continente é incomensurável. Desde Yukon no Canadá até a Terra do Fogo na Argentina, milhares de povos indígenas se espalhavam por um território composto de diferentes biomas, e com particularidades étnico-culturais próprias. Diante de tal variedade de realidades históricas e socioculturais, era necessário a eleição de povos em específico, inclusive considerando a preocupação de não homogeneizar os povos indígenas em categorias abstratas. A história da colonização europeia em América não é, porém, exclusivamente a história do extermínio desses povos. É, também, a escrita de suas resistência e resiliência. Afinal, ao tomarmos o Brasil como exemplo, atualmente existem 255 povos indígenas, compostos de aproximadamente 896 mil indivíduos, comunicando-se em mais de 150 línguas nativas.28 A diversidade étnico cultural entre os ameríndios, era uma realidade no período colonial, e continua sendo na contemporaneidade. A importância da preocupação de docentes e historiadores no tangente à agência, aos saberes e à história dos povos indígenas se deve às suas reverberações na prática social dos cidadãos brasileiros.29 Em sua sociedade multicultural, o respeito pela diversidade étnica é condição sine qua non para um convívio respeitoso e para a diminuição das desigualdades sociais. O modo de representar as populações indígenas na história e na cultura ocidental é gerador de preconceitos, discriminações e diversos tipos de violências para com estes povos. Se, a partir das constatações da colonialidade nas relações de poder e na produção de saberes em nossa sociedade, e da agência das instituições escolares e do ensino de história indígena, pudéssemos transformar esse quadro de estereótipos infundados e colonialistas, a relação entre povos indígenas e sociedade brasileira seria outra. Segundo o historiador John Manoel Monteiro (2001), na historiografia brasileira desde o século XIX até os anos 1980, persistiu – com algumas exceções – um olhar etnocêntrico sobre a agência indígena na história do Brasil. Esse olhar se pautava em dois argumentos: primeiro, os povos indígenas, por não terem escrita, não teriam deixado registros de seu passado, e logo, não seriam passíveis de estudos pela disciplina histórica. Pautavam-se na concepção de que somente os documentos escritos poderiam se constituir enquanto fontes históricas. O segundo argumento era de que os povos indígenas estariam invariavelmente fadados ao extermínio total. Esse argumento se dividia em duas hipóteses: na melhor delas, os indígenas integrar-se-iam na suposta civilização ocidental – uma morte étnica – deixando de ser, portanto, indígenas. A pior das hipóteses seria o aniquilamento biológico e material dos indivíduos pertencentes a esses povos na medida em que as frentes de expansão capitalistas terminassem por penetrar todos os sertões do extenso território brasileiro. A situação dos estudos sobre indígenas dá uma reviravolta a partir do maior diálogo realizado entre historiadores e antropólogos desde finais dos anos 1970, inspirados pelos movimentos sociais indígenas que a partir da mesma década passam a emergir por entre a repressão ditatorial e a tutela da Fundação Nacional do Índio – FUNAI. Este protagonismo indígena na luta por seus direitos sociais se relaciona diretamente com a “virada dos sujeitos” dos anos 1980 no tangente à temática indígena em âmbito acadêmico. Foi a partir da ação destes intelectuais não indígenas (Monteiro, 1994; Cunha, 1992; Vainfas, 1995; Oliveira, 2003) inspirados pelo movimento indígena, que se deu visibilidade para o ensino de história dos povos ameríndios. Portanto, apesar de não ter reivindicado diretamente o que rege a Lei 11.645/2008, foi o movimento indígena que, “em última instância, (...) despertoudidático nas aulas de História. Para tanto, trabalha a partir das produções textuais de alunos e alunas do primeiro ano do ensino médio, buscando atentar a maneira como se apropriaram – ou não – dos documentos disponibilizados em diferentes atividades. A decolonialidade e o ensino de história e culturas indígenas foi o tema abordado por Felipe Uba em Reflexões acerca do ensino de história, da decolonialidade do saber e da Lei 11.645/2008 a partir da experiência no Estágio Supervisionado. Neste, o autor relata sua experiência e promove um diálogo conceitual que possibilita abordar criticamente a aplicabilidade da lei no que diz respeito aos currículos escolares. Atividades comparativas e o uso de imagens foram algumas das atividades realizadas e que dão subsídio à reflexão. As fontes históricas foram igualmente o assunto abordado por Geovanni Rocha Junior no capítulo O ensino de História e o uso de fontes em sala de aula. A partir de aportes teóricos que possibilitam pensar o uso de documentos na pesquisa histórica, o autor promove uma investigação sobre a possibilidade de uso destes documentos em sala, congregando através de atividades práticas elementos da pesquisa ao ensino de história. Em Uma tarde no museu: impressões e conclusões de um 6o. ano a uma visita ao Museu de Arqueologia e Etnologia/UFSC, Leonardo Francisco apresenta as conclusões e hipóteses criadas pelos/as alunos/as do 6º Ano do ensino fundamental, a partir da visita guiada ao museu MArquE, mais especificamente a exposição “Arqueologia em Questão: Percorrendo o Litoral Catarinense”. O trabalho analisa igualmente as possibilidades e potencialidades do diálogo entre a escola e o museu. O trabalho foi realizado a partir das produções textuais dos alunos e alunas e de observações do cotidiano escolar. Nathália Hermann, por sua vez, traz a internet para a sala de aula no capítulo Pesquisando na web: noções de alunos do sexto ano acerca de sítios arqueológicos brasileiros. Ao longo do capítulo, explora o resultado de uma pesquisa feita com alunos e alunas de um sexto ano do ensino fundamental sobre sítios arqueológicos “pré-históricos brasileiros. Para a realização do capítulo, os trabalhos produzidos pelos alunos e alunas foram utilizados como fonte numa tentativa de buscar compreender como se deu o processo de pesquisa na rede, processo esse que resultou em cinco produtos finais – transformados em cartazes. Segundo a autora, tornou-se perceptível que a internet foi, no caso analisado, a principal ferramenta de pesquisa no que tange conteúdos voltados para a área da história. Encerrando o volume, Talita Garcia Ferreira discorre sobre temporalidades no capítulo Conexões temporais: relações que jovens do 1o ano no ensino médio fazem entre presente e passado na história. Para a elaboração desta a autora buscou identificar as relações que os/as estudantes estabeleceram entre o ensino de história em sala de aula e os contextos contemporâneos a eles. Procurou, igualmente, perceber como os/as alunos/as relacionaram os conteúdos trabalhados na disciplina com as suas percepções no tempo presente e quais foram as mudanças ocorridas em relação a este saber durante o período estagiado. Os nove textos que compõem este volume foram resultado dos relatórios finais realizados pelos alunos e pelas alunas como critério para conclusão de seus estágios supervisionados. Referem-se, assim, ao que foi vivenciado durante o tempo em que estiveram presentes no espaço escolar. Os desafios, dificuldades e possibilidades do ofício docente fazem-se presentes a cada linha das páginas a seguir. Neste sentido, é importante ressaltar que, para a realização dos Estágios Supervisionados e presença nas escolas, a participação dos professores da educação básica que recebem os estagiários em suas aulas é de importância fundamental. Na condição de supervisores ou co-orientadores, observam, acompanham, sugerem e, através de suas práticas e daquilo que mostram hodiernamente, contribuem de maneira incontornável para a formação docente inicial em História. Registramos, assim, nosso agradecimento às professoras Glaucia Costa, Karen Christine Rechia e ao professor Manoel Teixeira dos Santos, do Colégio de Aplicação da UFSC e a professora Karla Andrezza Vieira, que, à época, trabalhava na Escola de Educação Básica Leonor de Barros. Esperamos com este volume dar visibilidade ao importante trabalho realizado nos Estágios Curriculares Supervisionados em História e, principalmente, incitar o debate sobre as múltiplas dimensões que constituem esta etapa fundamental a qual chamamos formação docente inicial. 1. EXPERIÊNCIA COM PROPAGANDAS RACISTAS EM SALA DE AULA Camila Fernanda Albino Introdução Neste capítulo, pretendo discutir a relação estabelecida entre adolescentes, em específico os estudantes da turma 200, fonte utilizada para estudar os conteúdos que abordam o racismo no século XIX, tema que ainda permeia em nossa sociedade nos dias atuais e que requer atenção. A partir de minha experiência em sala de aula dentro da rede estadual de educação na Escola de Educação Básica Padre Anchieta, lecionei para estudantes do segundo ano do ensino médio, a turma 200, regida pela professora Karla Andrezza Vieira Vargas, e então supervisora do estágio. Experiência proporcionada pelo estágio que cumpre as exigências das disciplinas de Estágio Curricular Supervisionado II e III, sob a orientação da professora Cristiani Bereta da Silva. Neste período do Estágio Curricular Supervisionado III, encarreguei-me do conteúdo de “Partilha da África”, previsto pelo cronograma escolar, optei por trabalhar com imagens e mapas, utilizando recursos impressos e o powerpoint, no qual, a principal atividade foi uma dinâmica com imagens de propagandas de cunho racista do século XIX, período em que estávamos estudando em sala de aula com a turma 200, para encerrar o conteúdo de “Partilha da África”, Colonialismo e Neocolonialismo em África. Elaborei uma atividade com quatro propagandas com a temática de sabão para roupas, porém, as propagandas estadunidenses apelavam para a cor da pele em sua proposta. Sendo assim, apliquei a atividade a fim de complementar o conteúdo e analisar como os estudantes e adolescentes interpretam as imagens. A escola como ambiente de reprodução de discursos Percebe-se o ambiente escolar não apenas relação entre professores e estudantes – disciplinas escolares e formas de avaliação, mas, além disso, um espaço cultural, no qual, todos os conhecimentos que os adolescentes definam importantes são compartilhados neste espaço. Aqueles jovens que ali estão preparando seus corpos e mentes para o futuro necessitam de atenção. O que circula nos corredores da escola são notícias, conceitos, ideias, roupas, calçados e penteados da mídia massificada. A escola não é um espaço de desvinculação, mas sim de agregar ideias e conhecimentos culturais, e é desse meio que partem os sujeitos para a sociedade. Visto que a reprodução de informações ou de discursos se dá através do grupo a que você ocupa, e cada indivíduo tem uma memória daquele no qual é pertencente. Este ponto de vista muda conforme o lugar que ali eu ocupo, e que este lugar mesmo muda segundo as relações que mantenho com outros meios, segundo Halbwachs (2014, p. 51). Cada grupo social empenha-se em manter uma semelhança, porém, o ambiente escolar é constituído de diversos e deve-se pensar se todos os grupos recebem a mesma atenção. Tudo o que observamos no dia a dia torna-se parte de nossas memórias, todas as imagens e informações mostradas nos meios sociais, tanto interpessoais quanto midiáticos, interveem na memória, seja no adolescente ou no adulto, entretanto, o adolescente está em processo de formação do caráter. Os estudantes da turma do segundo ano do ensino médio, onde realizei o estágio, possuem idades entre 16 e 17 anos, são sujeitos que estão em processo de construção da moral, transições, conhecimentos de si e do entorno, diversas informações surgindo de diferentes formas e locais e estão aprendendoe motivou esse setor da sociedade brasileira a propor mudanças na legislação”. (Brighenti, 2016, p. 237). Mas qual a relação entre a forma como as populações indígenas foram retratadas nos trabalhos historiográficos e o ensino nas escolas? Segundo o historiador Clovis Antonio Brighenti, a escola é um dos suportes da colonialidade do poder principalmente porque opera de maneira estratégica através da dominação epistêmica. A imposição do conhecimento ocidental como o único e válido e a negação e destruição dos saberes dos povos originários se constituiu em um dos mais poderosos mecanismos de dominação. (Brighenti, 2016, p. 246) Além de negar os saberes dos povos originários, a dominação epistêmica embasa-se na construção da ideia do outro enquanto alguém passível de ser dominado, inclusive no plano cultural. A colonialidade do saber é responsável por criar discursivamente o outro, que é categorizado como inferior, sendo um mecanismo mental de dominação epistêmica que perpassa os processos históricos de dominação colonial e pós-colonial.30 E como já citado, nas narrativas da história do Brasil e também nos livros escolares, os conteúdos e os métodos de abordagem referentes à temática dos povos indígenas ainda carecem de maiores transformações. Como já expus, nos anos 1980 e inícios dos anos 90, a guinada subjetiva da historiografia brasileira inseriu novos sujeitos nas narrativas históricas, e esse movimento de abertura do protagonismo na história nacional influenciou reformulações também no ensino da disciplina. Segundo Circe Bittencourt, àquela época buscou-se questionar um modelo de ensino em história eurocêntrico, cronologicamente linear e pautado no progresso capitalista. Enquanto isso, se intencionava construir outra vertente, calcada no respeito aos mais diversos tipos de “pertencimentos do conjunto da sociedade, sejam de classe, de etnia, de gênero, de religião, de região” (Bittencourt, 2007, p. 48). A partir da análise iconográfica discursiva de quatro coleções de materiais didáticos – a respeito das representações sobre os povos indígenas –, a historiadora Kerollainy Rosa Schütz constatou que vivemos um período de transformações no assunto, se compararmos com os anos 1980. Seu trabalho se foca temporalmente em livros publicados na primeira década do século XXI. A autora faz três apontamentos sobre a forma como é retratada a história indígena nesses materiais: primeiro, no período colonial, os indígenas ainda são estudados como não protagonistas de suas histórias, sempre “reagindo” aos processos de colonização. Segundo, a insistência da ausência quase que total de história sobre os indígenas no Brasil a partir do período imperial até a contemporaneidade (relegando-os ao passado). E, por último, e em contrapartida aos dois aspectos anteriores, nos últimos cinco anos percebe-se uma tendência positiva de transformação dessas representações, ainda que tímida e insuflada pela obrigatoriedade imposta pela Lei 11.645/2008 (Schütz, 2015, p. 130). Enquanto historiador, professor de história, e ciente destes fatos, busquei realizar aulas expositivas-dialogadas, atividades em sala de aula e atividades comparativas – processos de aprendizagem –, com a intenção de atuar na formação histórica daqueles alunos. O historiador alemão Jörn Rüsen afirma que a formação histórica pode ser entendida como o processo de engajamento da objetividade científica da história na subjetividade da vida dos sujeitos, em suas autoidentificações e interações com os outros (2007, p. 108). E esta formação acaba por atuar na consciência histórica de cada um, ou seja, na percepção do seu próprio presente como dotado de um tempo que passa, e com o qual diversos acontecimentos do passado se relacionam. Dota-se de consciência do tempo histórico em que se vive. A formação histórica – atuando na cultura histórica – permite que a pessoa relacione a disciplina histórica com a práxis social, ou seja, permite orientar e organizar a vida prática de uma forma crítica, “desdogmatizando” interpretações socialmente preestabelecidas (Rüsen, 2007, p. 117). Por cultura histórica entende-se “o campo da interpretação do mundo e de si mesmo, pelo ser humano, no qual devem efetivar-se as operações de constituição do sentido da experiência do tempo” (Rüsen, 2007, p. 121). Assim, o historiador alemão afirma que estes conhecimentos e interpretações podem atuar de modo a desmistificar “percepções seletivas” sobre a realidade – ditos preconceitos – através desse processo que atua na autoidentidade, e consequentemente na relação de si com a vida em sociedade.31 Para Rüsen, uma melhor relação com a alteridade requer o aumento da capacidade de empatia e a disposição para perceber a particularidade de sua própria identidade histórica, dentro de cujos limites, porém, haja espaço para a alteridade dos demais sujeitos, com os quais e contra os quais as afirmações de cada um, nas orientações históricas, têm de lidar e manter-se. O autoconhecimento no espelho do passado está formado quando inclua a autocrítica como aptidão para perceber os limites que separam sua própria identidade da alteridade dos demais. Nessa percepção, devem estar presentes tanto o entendimento como a aceitação do ser outro. Autocrítica como chance reconhecimento. (Rüsen, 2007, p. 109) Perceber que o conhecimento sobre as alteridades leva a um reconhecimento, a uma aceitação e ao respeito às diferenças dos demais. Na medida que os indivíduos perceberem as fronteiras entre a construção da sua própria identidade e da alteridade dos demais, e aprenderem que essa diferenciação se deu num processo histórico específico, esses sujeitos desnaturalizarão as diferenciações (justamente por terem sido construídas social e historicamente), entre o seu modo de ser e daqueles que considera diferentes. O resultado desse processo é uma maior empatia entre sujeitos étnica e culturalmente distintos, e torna a aprendizagem em história capaz de gerar uma práxis social mais justa e voltada para o bom convívio entre as pessoas em sociedade. O conhecimento, e o autoconhecimento, sobre o seu passado é fundamental para a constituição da identidade de cada um. Ao tentarmos transpor essas ideias do historiador alemão para a realidade brasileira, deve-se cuidar para que esta apropriação seja feitas com ressalvas.32 Todavia, a seguinte conceitualização acerca da formação histórica é capaz de ser cotejada com a realidade dos alunos brasileiros. É ela que pode levar ao reconhecimento sistemático da diversidade das culturas no universalismo de sua validade. (...) Com sua competência experiencial, interpretativa e de orientação, a formação histórica pode modificar a negatividade bruta de identidade nacional. Esta pode ser transformada pelas formas complexas do pensamento histórico exemplar, crítico e genético e expandir assim, o alcance e a intensidade da experiência histórica. (Rüsen, 2007, p. 128) Mesmo não tratando especificamente do Brasil, é notável no excerto acima a capacidade da formação histórica em proporcionar maior respeito e convivência entre diversidades culturais, que violenta e paulatinamente foram forçadas a se moldar num Estado-nação.33 Acima de tudo, o autoconhecimento sobre seu próprio passado não pode servir, no caso brasileiro, como pressuposto para manutenções de antigas desigualdades sociais. Pelo contrário, deve levar ao reconhecimento da diversidade étnico cultural em que vivemos. Enquanto engajamento da ciência na ação do dia a dia, não se pode suceder à instrumentalização da história enquanto puro mecanismo de poder. Na percepção de si e dos outros, segundo Rüsen, “devem estar presentes tanto o entendimento como a aceitação do ser outro”. E mais: é preciso reconhecer e enfrentar os padrões de poder legitimados por dispositivos conformados a partir da relação com as alteridades, e tendo elas como parâmetro. Na realidade brasileira, o reconhecimento do “outro” implica rever antigas e imbricadas conformações de desigualdades sociais e privilégios. Implica, como conclui o autor,abrir uma chance de liberdade através da “superação dos recalques forçados e de suas consequências” (Rüsen, 2007, p. 128). Então, como superar os recalques do passado colonial e suas consequências ainda persistentes, não só no Brasil, mas em todos os Estados-nação latino- americanos? Primeiro ponto é de âmbito teórico e de leitura da realidade social brasileira: trata-se de repensar as relações sociais e de poder através de um novo aporte, em nível epistemológico, para a construção dos saberes sobre as sociedades latino-americanas. Relações coloniais de poder persistem no Brasil, assim como nas diversas ex-colônias espalhadas pelo mundo, apesar de o sistema colonialista enquanto evento histórico – o colonialismo – ter deixado de existir. Aníbal Quijano denominou esse padrão de estratificações sociais como a colonialidade do poder. Essa, conforme já vimos, imbricou-se na formação dos saberes e das subjetividades impondo uma lógica epistemológica e ontológica na qual se preza por um modo de ser em detrimento de outros. O modo de ser propalado – a cultura da metrópole –, atuou na história brasileira com a pretensão de “branqueá-la”. Isto é, deu-se preferência pelas narrativas com sujeitos históricos europeus ou eurodescendentes.34 Segundo ponto: se nas relações sociais, como no trabalho e no acesso à terra, os indígenas eram considerados inferiores nesta concepção, que dirá nas formulações subjetivas, de ideias sobre eles? A internalização mental das elites brasileiras, de que supostamente há um modo de ser preferível aos outros, fez com que os conhecimentos dos povos autóctones das colônias ficassem relegados à invisibilidade ou às distorções nos livros de história. E logo, nos livros escolares, como também vimos, sucedeu-se o mesmo. Motivados por todas estas discussões, decidimos, portanto, proceder o ensino de populações originárias da América. Apesar dos povos Maias e Incas não terem se desenvolvido no que atualmente se considera território brasileiro, seus estudos atingem os pressupostos da Lei 11.645/08. Para os alunos, todavia, a importância da insistência na temática não é tão evidente, quanto é para os intelectuais e pesquisadores da área. Por esse motivo, a simples inclusão dos conteúdos sobre estes dois povos – junto às demais civilizações – por si só não levaria os estudantes a perceberem o que propúnhamos. Isso nos levou a decidir dar aulas sobre o conceito de eurocentrismo, que serviram como um “entreatos”, uma ponte de reflexão crítica – entre cultura helênica e cultura quéchua. Na primeira semana de aula, realizamos duas atividades cuja intencionalidade era conhecermos melhor os estudantes da turma 7ºB. De início, um questionário com perguntas amplas e pessoais, que buscavam indícios das condições socioeconômicas dos alunos e alguns exemplos de suas preferências de lazer, culturais e artísticas. Além destas, realizamos uma atividade com perguntas sobre quais assuntos mais gostavam. Na mesma ocasião, foi solicitado aos estudantes que, se tivessem alguma sugestão de conteúdo ou assunto envolvendo os que já havíamos programado para os próximos dois meses de aula, que trouxessem por escrito na seguinte oportunidade. E assim o fizeram. Em suas propostas, pudemos ter um vislumbre do que já tinham de informações sobre os assuntos: alguns quiseram saber mais sobre o calendário Maia; outra aluna, sobre a cultura no império Inca; enquanto que outros alunos interessaram-se pela mitologia destes dois povos. Mas foi minoria. Boa parte das sugestões de conteúdos mostrava que os alunos já obtinham conhecimento sobre mitologias de povos asiáticos (japonês, coreano, chinês, indiano), sobre a mitologia nórdica, romana e grega. Nestas duas últimas, diversos alunos trouxeram informações minuciosas sobre aspectos culturais e mesmo mitológicas, como nomes de deuses e suas características. A partir da leitura dessas atividades, foi possível concluir que os estudantes já possuíam algum grau de proximidade, de empatia, para os assuntos referentes à cultura helênica ou romana. Por outro lado, poucos souberam dizer a respeito dos povos Maias e Incas, o que me faz crer que Grécia e Roma são assuntos mais próximos de seus cotidianos e já existem em seu capital cultural. São, pois, parte integrante de sua cultura histórica, e assim se sucedeu, pois fora do ambiente escolar uma simples menção aos povos originários da América é menos frequente do que à antiguidade clássica. Remete-se, nos produtos da indústria cultural e nos meios de comunicação em geral, a um passado de nosso país através de um viés no qual se fala muito de nossos antepassados europeus, e quase nada dos americanos. Esta é a realidade que, de forma generalizante, o professor de história se depara. Nas aulas sobre eurocentrismo, busquei mostrar que esse se embasa numa visão dualística e maniqueísta da realidade humana. Depois, contrapus com uma visão multiculturalista crítica da sociedade brasileira, para mostrar que existem outras formas de pensarmos as relações sociais.35 Um dos métodos adotados para impulsionar o pensamento crítico nos alunos foi a atividade em que tiveram de comparar a civilização Maia com qualquer outra dentre as que aprenderam no ano letivo. Durante a semana que ministrei as aulas sobre os povos Maias, salientei seus refinados sistemas de escrita, sistema numérico, astronomia, grandes construções, organização social, relações comerciais, agricultura, vestimenta, arte e até lazer (jogo da pelota). Instiguei-lhes a escolher algum destes aspectos culturais (elencados no quadro), e escrever as semelhanças e diferenças existentes com alguma civilização que se situava fora do continente americano. Algumas respostas foram mais pragmáticas e diretas, outras foram levadas pela imaginação. O resultado desta atividade foi, por fim, bastante satisfatório, pois alguns alunos compararam em pé de igualdade essas civilizações, o que pôde transparecer como um amadurecimento crítico neste cotejo entre povos diferentes. Na contramão do que prega o conceito de “civilizações pré-colombianas”, que remete a uma visão dos povos indígenas enquanto anteriores à história, anteriores à civilização, em sala de aula comparamos suas culturas com a de outros povos antigos. O exercício da comparação ajuda na quebra de paradigmas evolucionistas, pois pressupõe, ao invés de um sentido progressista e unilateral da história, a coexistência da diversidade étnico-cultural considerando historicamente as relações de poder que sempre estão em jogo. Da mesma forma procedi em uma das questões da avaliação individual e sem consulta realizada ao final do estágio. Na oportunidade, formulei questão nessa prova que indagava aos alunos acerca dos modos de viver dos povos Maias, e em seguida que citassem outra civilização que se organizava politicamente de forma parecida aos pueblos de Yucatán. A maioria dos alunos respondeu com êxito a proposição, pois essa questão reforçou a atividade comparativa supracitada. Inclusive, muitos compararam ou a “pirâmide social” ou as pirâmides em si (construções) dos Egípcios com as dos Maias. As atividades comparativas tiveram como fundamental intenção a de desenvolver competências acerca de como pensar sociedades diferentes, ao invés de simplesmente focar no conteúdo que supostamente os alunos deveriam aprender (Barca, 2004, p. 135). Aconteceu que, devido a contratempos que fugiam de nossa alçada, os assuntos referentes ao Império Inca e à cultura quéchua ficaram restritos a somente uma aula de cinquenta minutos. Foi um período curto e corrido, no qual se perdeu muito da qualidade explanatória do professor devido à iminência de acabar o tempo. Além disso, essa aula foi anterior à avaliação individual, e pela proximidade temporal entre ambas houve a necessidade de excluir o assunto “Inca” da prova. Para mim, vivendo e aprendendo. Uma aluna argumentou que estava confusa entre os povos Maias (caíram na prova) e os Incas, pelas aproximações referentes às temáticas, assim como pelo curto espaço temporal. Esta crítica foimuito construtiva pois remete à organização do tempo durante as aulas, e a quais assuntos devem ser retomados numa avaliação. Theatrum Orbis Terrarum, de Abraham Ortelius (1570). Outra questão importante diz respeito ao desenvolvimento de capacidades cognitivas nos alunos através do uso de imagens e fontes históricas. A interpretação dessa documentação é o escopo da aprendizagem em história, pois é essa competência de interpretar – para além do que dizem os professores – que atua de forma mais significativa na formação histórica. Nesse sentido, a experiência do estágio docência aqui trabalhado foi construtiva. Realizamos juntamente com os alunos a leitura do portfólio do atlas Theatrum Orbis Terrarum, de Abraham Ortelius (1570), que traz uma organização metafórica, simbólica e axiológica do mundo. Nessa obra, o elemento europeu é retratado através de simbolismos mistificantes como se fosse superior aos povos que sofreram com o advento do colonialismo. A leitura dessa imagem, por parte dos alunos, foi de fundamental importância no processo de identificação do que é o eurocentrismo, pois ela representa a Europa e seus povos enquanto superiores aos demais continentes. A partir de sua visualização, foi possível proceder à sua contraposição com um maior embasamento por parte dos próprios estudantes. Considerações finais Proceder durante a prática docente com atenção redobrada para o ensino voltado ao respeito interétnico é, ao mesmo tempo, uma questão profissional e um posicionamento político. É uma questão profissional, porque diz respeito aos pressupostos teóricos de como são entendidos os processos históricos e as relações sociais. Ou seja, diz respeito à própria concepção de história que o professor adquire, neste caso, descentrada, poli lateral e subjetiva. Além disso, é uma posição política, na medida em que o ensino para o respeito Inter étnico pressupõe o questionamento da gestação violenta da história impetrada pelo Estado brasileiro, monocultural e eurocentrada. Significa portanto, processos educacionais voltados para a conformação de uma sociedade ciente e respeitosa das diferenças étnico- culturais que a permeia. Aqui, parte-se do pressuposto que o desconhecimento gera preconceitos, e que, por sua vez, é justamente o (re)conhecimento das diferenças que levará ao maior respeito em nossa sociedade marcada pela colonialidade em suas relações de poder, e em suas produções de saber. A efetivação, na prática, da Lei 11.645/2008 pode ser um mecanismo de promoção desses preceitos, desde que não incorramos no erro de tratar os povos originários da América ainda com um olhar eurocentrado. Isso significa manter o senso crítico durante a promoção desses conteúdos, e não contentar-se com a ideia de que suas simples menções já estejam de acordo com o que rege esse texto de lei, ou ainda com o que se prega numa visão intercultural crítica da sociedade. Por esses motivos, é possível inferir que, não simplesmente os conteúdos sobre povos Maias e Incas, mas sua introdução junto a aulas sobre o eurocentrismo – com ambos os pressupostos profissionais e políticos supracitados – é que se conforma dentro dos objetivos da Lei 11.645/2008. Por um lado, é difícil atingir os mesmos resultados com todos os alunos – e que se pese o curto tempo disponível – e mais ainda mesurar o alcance dessas aulas de forma objetiva. Por outro lado, o resultado das atividades de comparação realizadas em sala, assim como os da questão da avaliação sobre os povos Maias, faz crer que produzir esse tipo de conhecimento é possível em sala de aula. O presente relato de experiência de estágio docência trata, efetivamente, da minha primeira experiência enquanto docente. Talvez por isso, a distância entre o que foi planejado, as intenções que circundavam esse planejamento, e a prática em si, foi considerável. Essa questão faz parte da atividade profissional de um modo geral e serve para ressaltar a importância dos planejamentos de aula. Porém, isso não ofusca o fato de que o enriquecimento pessoal e profissional é incomensurável. Pessoal, pois se tratou de experiências junto a outros sujeitos históricos (colegas de estágio, alunos, professoras orientadoras e professor coorientador) que só tendem a somar algo positivo para o convívio e o aprendizado. Profissional, porque, além da prática docente que tivemos a oportunidade de efetivar, assim o procedemos sob constante orientação de especialistas no ensino de história. E, portanto, por se tratar de uma profissão e ainda mais pela responsabilidade que traz em si a prática docente, é notável a importância do acompanhamento que tivemos acesso. Referências BARCA, Isabel. Aula Oficina: do projecto à avaliação. In: BARCA, Isabel (org.) Para uma educação histórica com qualidade. Actas das IV Jornadas Internacionais de Educação Histórica. 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Tubarão, Santa Catarina: Editora Copiart, 2016. Notas 20. Para maiores informações sobre o curso, consultar Wittmann, Luisa Tombini. Formação de professores na temática indígena. In: Souza, Fábio Feltrin e Wittmann, Luisa Tombini. Educação para as relaçõesétnico-raciais, volume 4: Protagonismo indígena na história. Tubarão, Santa Catarina: Editora Copiart, 2016. 21. Que por sua vez faz referência aos artigos 26º-A, 79ºA e 79ºB da Lei de Diretrizes Básicas para a Educação Nacional – LDB, Lei 9.394/1996. 22. O professor titular do Colégio de Aplicação, Camilo Buss Araújo, é o responsável pela disciplina, que também é ministrada no primeiro ano do ensino médio. 23. Durante a experiência do Estágio Docência, temos que lidar com certas amarras que são próprias deste momento de formação. Assim como os professores efetivos dos colégios brasileiros, os estagiários também devem dar conta de um conteúdo pré-estabelecido; da mesma forma, devem se atentar para os períodos disponíveis de aula, e fazer o melhor possível na quantidade de tempo que possuir. Além disso, cabe lembrar que toda prática profissional tem uma incidência política sobre a sociedade em que ocorre, e no caso de um Professor de história, tal premissa é ainda mais latente. Dialogar e ser pertinente com a realidade social em que está inserido não é especificamente uma amarra do Estagiário e do Professor de história, mas um imperativo ético, imprescindível e inescapável. 24. Vale ressaltar que o professor coorientador Manoel Teixeira dos Santos não só sugeriu que trabalhássemos os povos originários da América ou de África, como incentivou o fato. 25. É necessário apontar que o etnocentrismo é um modo de pensar e agir que se dá nas relações interétnicas e que extrapola, temporal e espacialmente, a experiência colonial europeia. O etnocentrismo é nada mais que, nesse contexto de relação entre membros de grupos diversos e portadores de culturas distintas, a atribuição de valores e julgamentos a partir de sua própria cultura e percepção de mundo. O estranhamento perante a alteridade cultural “dá margem”, segundo Silva e Silva (2009, p. 127), “a vários equívocos, preconceitos e hierarquias, que levam o indivíduo a considerar sua cultura a melhor ou superior”. A relação antagônica dos antigos gregos e romanos, com aqueles que denominavam “bárbaros”, é um exemplo de etnocentrismo que respondia às lógicas culturais daqueles dois povos. Já o eurocentrismo é um outro exemplo de etnocentrismo, desenvolvido a partir da experiência do colonialismo em América, e que também estava imerso em certos parâmetros axiológicos os quais, por sua vez, são culturalmente determinados e que por isso mesmo variam de cultura para cultura. Ante o exposto, considera-se a especificidade do eurocentrismo perante outras formas de etnocentrismo, e mais, valho-me de uma conceptualização em particular a respeito deste assunto, a partir da definição de Aníbal Quijano, que segue em sequência neste capítulo. 26. Ministrados pelo professor coorientador Manoel Teixeira dos Santos. 27. Refere-se a Grécia e Roma. Termo utilizado e problematizado em sala pelo professor Manoel Teixeira. 28. Informações retiradas de: Povos indígenas no Brasil. Disponível em:. Acesso em: 10 dez. 2018. 29. A bem dizer, a preservação das culturas indígenas e a valorização de suas histórias e saberes tradicionais são dotadas de importância para todo o planeta Terra. Lugares do mundo como o continente americano, o africano e a Oceania, cujos povos originários, os quais sofreram com os processos de colonização europeu, resistem e desenvolvem-se inclusive através de movimentos sociais. A garantia das terras dessas populações é, por exemplo, um dos poucos contrapontos possíveis existentes frente ao processo de degradação ambiental mundial. 30. Note-se que pós-colonial se refere à superação do processo histórico de colonização política e econômica de Estados europeus em suas colônias americanas. É diferente da corrente teórica denominada pós-colonialismo, estudos pós-coloniais ou ainda Subaltern Studies, representadas por, entre outros, Homi Bhabha, Stuart Hall e Gayatri Spivak. 31. Partindo da premissa que é na constatação do “outro”, da alteridade (seja a nível pessoal, cultural ou étnico), que criamos nossas próprias identidades enquanto sujeitos. 32. Afinal, a contextualização histórica dos próprios processos de formação histórica e de consciência histórica também é peça fundamental na presente formulação argumentativa. http://bit.ly/2PvlkLp 33. Os Estados-nação modernos pressupõem um território, para uma população dotada de um idioma e cultura em comum entre si. A história do Estado brasileiro é marcada pela tentativa de impor um modelo de cultura nacional em detrimento da diversidade étnica e cultural existente. Nesta conformação artificial, povos indígenas e afrodescendentes – além de seus costumes – não deveriam constar. 34. Descendentes de europeus, nascidos em América, possuem a tradução para o castelhano criollos. 35. Vale ressaltar que essa aula foi ministrada através de uma abordagem dialogada, a qual instiga os alunos a participarem da construção do conhecimento que está sendo realizada em sala. Muitas vezes foram interrogados sobre o que pensavam a respeito do eurocentrismo, e instigados a se colocarem perante a questão (Schimidt, 2004, p. 33). 6. O ENSINO DE HISTÓRIA E O USO DE FONTES EM SALA DE AULA Geovanni Rocha Junior O processo de ensino e aprendizagem em sala de aula envolve diversos fatores, isso porque os sujeitos se relacionam com o conhecimento histórico a todo momento, seja andando pelas ruas de uma cidade, observando as construções, os edifícios, os nomes dos logradouros, ou assistindo a uma novela na televisão. As produções cinematográficas também proporcionam um contato com elementos históricos, assim como as notícias veiculadas pelos meios de comunicação do mundo contemporâneo: jornais, rádios, revistas, redes sociais, aplicativos de celular. Portanto, o nosso dinâmico cotidiano está repleto de informações conflitantes que acomodam fatos, narrativas, símbolos e representações sobre o passado. Dessa forma, é possível perceber que a disciplina de História tal como discutida em sala de aula, ocupa apenas uma dimensão dentro de uma complexa estrutura que envolve a aprendizagem histórica. Partindo dessa constatação, verifica-se que a História enquanto campo de conhecimento detém métodos e técnicas que lhe são próprias, cumprindo assim um papel relevante para a organização da sociedade. Porém, cabe fazer uma indagação: quais são as atribuições educativas da disciplina no espaço do saber? Para comprovar a importância da História, é preciso elencar suas potencialidades para fins educativos. Segundo Joaquín Prats (2006, p. 196-197), as incumbências do ensino de História como valor formativo dos sujeitos são: facilitar a compreensão do presente, preparar os alunos para a vida adulta, despertar o interesse pelo passado, estimular nas crianças e adolescentes um sentido próprio às suas identidades, e por último, introduzir em sala de aula o domínio de uma metodologia científica própria dos historiadores. Através do conhecimento histórico, os sujeitos têm a possibilidade de interpretar os eventos do passado e classificá-los em sua conjuntura, situando-os em seu tempo. Os cenários, portanto, são abertos para a interpretação dos fatos e para a perspectiva de se pensar historicamente, haja vista que é função da História oferecer às pessoas uma visão abrangente dos processos desencadeados ao longo do tempo. Assim sendo, elas devem demonstrar um entendimento acerca das “distintas formações sociais e das complexidades da inter-relação entre causa, consequência e mudança nos fatos históricos” (Prats, 2006, p. 199). Cabe aos professores, e também ao restante da escola, fornecer os recursos necessários para propor a reflexão do passado aos alunos, revelando a pluralidade desse tempo a partir das fontes disponíveis, mas isso deve ocorrer de maneira gradual, levando em consideração as etapas previstas na formação escolar. Todavia, a História enquanto campo científico possui características peculiares e complexas. O conhecimento histórico requer um profundo exercício cognitivo a fim de proporcionar um raciocínio palpáveljunto aos alunos, pois não há formas que possibilitem projetar todas as dimensões do passado na aula de História. A ciência histórica é abstrata, no sentido de ser inconcebível arquitetar de maneira fidedigna um cenário diante dos alunos sobre um contexto alocado a séculos ou décadas de distância temporal do presente, por isso a necessidade de expor os métodos utilizados na pesquisa pelo historiador, bem como os vazios e as lacunas que fazem parte do próprio ofício desse campo de conhecimento. Além do mais, é um tanto desafiador, por exemplo, projetarmos nas mentes dos estudantes as relações sociais, políticas e culturais, que ocorreram em outro tempo, cujos processos históricos são constituídos por rupturas e permanências, como é o caso de um dos conteúdos ministrados durante o estágio, a Independência do Brasil (1822). Só é possível retratar essa temática com base nos fragmentos e vestígios preservados pelo tempo, objetos que detém uma historicidade. Quando o professor resolve abordar tal assunto, ele deve explicar como os documentos foram preservados e chegaram até a atualidade, ou dito de outro modo, esses documentos alcançaram às mãos do pesquisador por uma série de motivos, um dos quais, em virtude de alguém ter julgado importante guardar esse material para a posteridade. Outro motivo, diz respeito aos esforços conferidos pelas instituições detentoras do poder político em produzir uma memória do Brasil independente, cujas obras e pinturas visavam engrandecer certos acontecimentos, definindo, assim, marcos históricos e enaltecendo a figura de personagens específicos. No entanto, ainda persistem noções inconsistentes circunscritas a disciplina de História, para as quais é fundamental formalizar uma problemática. Em muitos lugares, seja nas mídias ou nos espaços públicos, as pessoas associam a matéria à memorização de datas, ou então ao estudo dos grandes feitos e dos “heróis” notórios, geralmente personagens oriundos das elites políticas. Um ponto central incorporado nas discussões da disciplina é a evidência do método de trabalho do historiador, assim torna-se imprescindível na aula de História apresentar a metodologia utilizada pelos pesquisadores na execução de seu trabalho. Para Prats (2006, p. 204), um “tipo de História que oculte como se adquire o conhecimento histórico leva simplesmente à introdução de um corpus de mitos mais ou menos históricos, isto não corresponde às necessidades formativas dos jovens”. Dessa forma, é interessante demonstrar aos alunos como o historiador faz a análise do passado, desvendando na medida do possível, as técnicas, os procedimentos e os métodos adotados em meio aos dilemas do tempo presente. Isso implica fazer, de forma conjunta, um levantamento de informações prévias sobre o objeto de estudo, listar algumas hipóteses explicativas diante de um determinado fenômeno, bem como analisar e classificar as fontes históricas. Nesse sentido, a utilização de documentos em sala de aula é um passo fundamental, que visa colaborar com a formação crítica de jovens inseridos na esfera social, aguçando a capacidade de pensar historicamente. De acordo com Rossato e Silva (2013, p. 73), Aprender história não é somente acumular uma sequência de fatos e processos passados. O aprendizado histórico envolve apropriar-se de aspectos da epistemologia do fazer histórico, entre os quais a compreensão de conceitos do tempo, a identificação das evidências e de que estas são incompletas e limitadas, como são limitadas e provisórias as explicações históricas. Nessa perspectiva, ensinar História não se restringe a ensinar narrativas históricas elaboradas pelos historiadores e organizadas em uma lista de conteúdos previamente definidos. Ensinar História é algo mais complexo, é ensinar a capacidade de pensar historicamente. Para isso, além de conteúdos devem ser desenvolvidas habilidades cognitivas que visem possibilitar que os sujeitos conheçam e expliquem o mundo com base nas ferramentas próprias do conhecimento histórico. O aprendizado da História não está restrito apenas ao conteúdo programático, vai além disso, ele é também o reflexo das experiências compartilhadas em sala de aula. Articular os passos seguidos na produção da História, realçando o uso de fontes como um instrumento central no métier do historiador, pode auxiliar na formação de sujeitos críticos e potencializar o pensar historicamente se for associado com o conhecimento prévio apresentado pelos alunos. Por meio das indagações expostas, o presente texto tem como objetivo analisar a relação que os alunos de uma turma de 1º ano do ensino médio do Colégio Aplicação da UFSC, estabeleceram com as fontes históricas selecionadas no desenrolar das atividades sugeridas durante a realização do Estágio Curricular Supervisionado em Ensino de História, no ano de 2016. Para isso, será dada a devida atenção ao contato dos alunos com a documentação, o que permite tecer uma avaliação parcial dos aspectos positivos e negativas quanto ao uso das fontes no processo de ensino e aprendizagem em História. Uma discussão teórica: proposições para pensar o Ensino de História Algumas diligências estão sendo empreendidas no sentido de renovar os procedimentos metodológicos no Ensino de História, o que consiste em superar certas barreiras, cuja característica principal está pautada na relação hierárquica de saber entre professor e aluno. O aluno neste caso é avaliado como mero receptor de informações, ao professor considerado detentor de todo conhecimento, caberia apenas propagar a sua instrução. Mas, esse olhar ao ensino impõe uma série de limites, ao passo que, não é dado o devido valor ao ato de se trabalhar com diversos alunos em uma mesma sala. São múltiplas vivências abrigadas em um mesmo ambiente, as experiências de cada indivíduo extrapolam as divisas da suposta hierarquia, pois as demarcações do procedimento de ensino e aprendizagem não ficam restritos apenas a sala de aula. Tendo como exemplo um episódio que ocorreu durante uma aula do Estágio, é possível avaliar tal complexidade. Na ocasião, quando discutia-se os monumentos construídos para rememorar a atuação de alguns personagens envolvidos na Guerra dos Farrapos, no momento em que as imagens das edificações de Anita Garibaldi e Giuseppe Garibaldi foram expostas pelo retroprojetor, um aluno logo chamou a atenção para algo curioso, segundo ele: quando o personagem retratado no monumento está sentado sobre o cavalo e o animal ergue as patas inclinando-se, é sinal de que foi morto em batalha, caso o cavalo esteja com todas as patas no solo, é indicativo que ele morreu devido a outro motivo. Como é possível perceber, o aluno teve acesso a essa informação por algum meio pesquisado durante o seu dia a dia. Outras falas sucedidas no decorrer do Estágio buscavam relacionar o conteúdo da aula de História com outras disciplinas cursadas. Da mesma forma, exemplos da rotina diária dos jovens também vieram à tona durante a discussão dos conteúdos, comprovando a existência de ideias prévias coletadas em outros lugares sem ser nas aulas de História. Para superar uma visão hierárquica entre professor e aluno, devemos recorrer a novas bases epistemológicas, é nesse sentido que reside a importância da Didática da História. Esse campo despontou entre os anos de 1960 e 1970 para pensar a metodologia da disciplina, vinculada ao processo de ensino em sala de aula e as condições da aprendizagem histórica. Aqui, serão indicadas as ideias de dois expoentes desse domínio: Jörn Rüsen e Klaus Bergmann. É notório o embate no campo da Didática da História diante do processo de ensino e aprendizagem, por intermédio das implicações ocasionadas pela presença da consciência histórica36 em uma determinada conjuntura social. Para Klaus Bergmann, cabe a Didática da História verificar o que é aprendido no ensino de história, a potencialidade do que pode ser aprendido e o que deveria ser aprendido. Dessa maneira, compreende-se a sala de aula como um dos âmbitos, dentro do qual o conhecimento histórico sefaz presente. Porém, há de ser explorado outros locais que formam a consciência histórica dos indivíduos. Sendo assim, a Didática da História procura entender as “condições e metas da aprendizagem na disciplina específica da História, os conteúdos a serem ‘transmitidos’ (aspas minhas)”, bem como “os métodos e as categorias e a possibilidade da estruturação dos conteúdos a partir das categorias didaticamente escolhidas na Ciência Histórica e analisa também as técnicas e materiais de ensino ou nos ambientes fora da escola” (Bergmann, 1990, p. 31). A todo momento estamos envolvidos por fatores que condicionam nosso aprendizado sobre o passado, os seres humanos atribuem sentido a sua existência, ou seja, são portadores de uma consciência e fornecem um significado a ela. Seguindo a argumentação de Jörn Rüsen (2006, p. 14), podemos afirmar que a consciência histórica “é uma categoria geral que não apenas possui relação com o aprendizado e o ensino de história, mas cobre todas as formas de pensamento histórico; através dela se experiência o passado e se interpreta como história”. Portanto, a Didática da História busca examinar o uso da História na vida prática, tendo como possível desdobramento a investigação do aprendizado histórico, este por sua vez representa uma das dimensões da própria consciência histórica. De acordo com Rüsen (2006, p. 12), a didática da história agora analisa todas as formas e funções do raciocínio e conhecimento histórico na vida cotidiana, prática. Isso inclui o papel da história na opinião pública e as representações nos meios de comunicação. Essas proposições quando discutidas na formação de futuros professores, ajuda a modificar as engrenagens do Ensino de História. A professora da Universidade do Minho, Isabel Barca, propõe um modelo alternativo às aulas ditas tradicionais e hierárquicas, a autora leva em conta a interpretação de fontes através de sua compreensão contextualizada. Segundo Barca, por haver essa heterogeneidade em sala de aula, o papel do professor se desloca, mais do que simples detentor do conhecimento, cabe a ele perceber a realidade partilhada pelos alunos, exercendo a função de investigador social. No modelo de aula-oficina defendido por Barca (2004, p. 133), “o aluno é efetivamente visto como um dos agentes do seu próprio conhecimento”, o conhecimento histórico “passa por uma compreensão contextualizada do passado, com base na evidência disponível, e pelo desenvolvimento de uma orientação temporal que se traduza na interiorização de relações entre o passado compreendido, o presente problematizado e o futuro perspectivado” (Barca, 2004, p. 134). Trata-se de uma visão construtivista, o professor precisa fazer o planejamento de sua aula a partir das ideias prévias dos alunos, elaborando questões problematizadoras que levem até as interpretações não lineares do passado. O ponto chave reside em trazer fontes históricas para as aulas e abordar os conteúdos com elementos do nosso dia a dia. Entretanto, algumas ponderações são pertinentes no que refere ao modelo proposto por Barca. A inovação metodológica no Ensino de História não pressupõe uma inovação técnica, é possível fazer uma aula diferente e atrativa usando ferramentas entendidas como “tradicionais”, na contramão, também é possível realizar uma aula “tradicional” mesmo tendo a disposição um grande aparato tecnológico. O que vai definir a qualidade de uma aula de História é o planejamento e a seleção de dispositivos que forneça aos alunos a possibilidade de pensar historicamente. Durante o planejamento do Estágio, partiu-se das noções teóricas discutidas na disciplina de Estágio Curricular Supervisionado, porém outro componente entrou em cena quando as atividades no Colégio Aplicação iniciaram. O costumeiro hábito de estar dentro da universidade deu lugar ao dinâmico e enérgico contato com a vida escolar. A prática na rede de ensino básica é muito diferente da vida universitária. Isso porque a escola possui uma vitalidade subjetiva, ademais cada escola conserva suas características, dependendo do local onde fica situada e do público que a frequenta. Constatou-se que havia demandas até então inéditas para um estagiário, o que de certa forma influenciou ao longo da experiência e da proposta de pesquisa. A simples tarefa de fazer a chamada, esboçar uma aula que fizesse sentido aos alunos e projetar pontos para a discussão em conjunto, revelam todas as facetas do Estágio. É nesse ambiente, um misto de novidade caminhando lado a lado com o alcance da experiência, que a reflexão sobre a utilização de fontes históricas nas aulas de História foi desenvolvida. O uso da fonte em sala de aula O projeto de pesquisa efetuado, durante o Estágio na turma 1A do Colégio Aplicação, procurou compreender a forma como os alunos se relacionam com o documento histórico. Como desdobramento da análise, é possível traçar algumas perspectivas para o Ensino de História quanto a utilização de fontes durante as aulas. Não se trata de apresentar um estudo completo e acabado, e sim esboçar uma ideia que pode ser aprofundada futuramente. Não há história sem documento. Porém, cada documento é produzido dentro de um contexto. Existem temporalidades nesse objeto que é investigado pelo historiador, por sua vez, este ocupa o tempo presente. O olhar do historiador é um olhar contemporâneo ao objeto em questão, pois traz consigo as reivindicações de seu tempo. Ou seja, as perguntas formuladas por intermédio da análise do historiador muitas vezes surgem devido a demandas da sociedade na qual o mesmo está inserido. Segundo Karnal e Tatsch (2009, p. 13), a “mutabilidade do documento tem relação com o sentido que o presente confere a tais personagens ou fatos”. De acordo com os autores, um único documento histórico pode gerar interpretações opostas, atendendo as finalidades de cada pesquisador. Desse modo: Se concluímos que não existe um fato histórico eterno, mas existe um fato que consideramos hoje um fato histórico, é fácil deduzir que o conceito de documento siga a mesma lógica. Fato e documento histórico demonstram nossa visão atual do passado, num diálogo entre a visão contemporânea e as fontes pretéritas. (Karnal; Tatsch, 2009, p. 13, grifo no original) Sendo assim, até mesmo a percepção que gira em torno da ideia de documento histórico é alvo de embates no campo da historiografia. Pois as evidências avultadas como documento no século XIX com a Escola Metódica, se expandiu com o passar do tempo e com novas formas de abordagens, sobretudo no século XX com o materialismo histórico e a Escola dos Annales. De maneira geral, a ideia é de que “o documento histórico é qualquer fonte sobre o passado, conservado por acidente ou deliberadamente, analisado a partir do presente e estabelecendo diálogos entre a subjetividade atual e a subjetividade pretérita” (Karnal; Tatsch, 2009, p. 24). Outro fator a ser levado em conta nessa pesquisa, consiste no exame a respeito da datação e o contexto de cada documento utilizado junto aos alunos. Tal exame foi cometido através de questionamentos básicos durante as aulas e nas próprias atividades avaliativas. O que levou a investigação sobre a relação do ensino de história pautado no contato dos alunos com as fontes, foi justamente a ideia de entender a maneira como eles percebem e problematizam a multiplicidade de perspectivas no campo da História, definindo quais são os limites e o alcance dessa abordagem para a vida prática. A utilização de fontes nas aulas de História não é primazia dos estágios, esforços nessa direção já fazem parte da rotina dos alunos do Colégio Aplicação e ganham maior atenção também em outras escolas, através da atuação dos profissionais da área que têm discutido e revisto as concepções de ensino. No caso particular do Aplicação, durante a observação da turma, foi possível constatar o uso de documentos pela professora titular, assim o contato com os materiais escolhidos não significou uma total novidade para a turma, pois já fazia parte do cotidiano o manuseio dessetipo de instrumento. Pesquisar a relação dos alunos com as fontes históricas, trata- se na verdade de uma opção. Evidentemente, a escolha não impossibilita a troca de conhecimentos e a execução das ideias provenientes dos debates ocorridos ao longo das disciplinas de Estágio Curricular Supervisionado, na Universidade do Estado de Santa Catarina. Da teoria à prática: o Estágio no Colégio Aplicação e a realização da pesquisa O Colégio Aplicação fica localizado no bairro Trindade, em Florianópolis. Sua estrutura faz parte do campus da Universidade Federal de Santa Catarina. O ensino da escola abrange os anos iniciais e finais do ensino fundamental, ou seja, do primeiro ao nono ano, e também o ensino médio. Uma das complexidades percebidas durante o período de observação que antecedeu o exercício da docência, reporta à diversidade presente entre as alunas e alunos da escola. No Colégio Aplicação há estudantes de diversas localidades da grande Florianópolis, com isso a classificação social perpassa inúmeras camadas sociais, o que torna o exercício docente um verdadeiro desafio. A turma na qual foi realizado o Estágio, possui características próprias, nela havia ao todo 24 alunos. O trabalho de Estágio teve a supervisão da professora titular da disciplina, Karen Cristine Rechia. No período de observação, averiguou-se o interesse pelas aulas de História, a contribuição de algumas alunas e alunos foi significativo durante o estágio, o envolvimento dos mesmos merece destaque, pois cooperaram com as propostas das aulas. Alguns preferiam o silêncio ao invés da participação, mas expressavam seu interesse de outra forma, seja por meio dos ouvidos atentos, ou então durante as avaliações. Quando a regência da sala foi ocupada pelos estagiários houve colaboração, embora como um todo, os estudantes tivessem ficado um pouco tímidos e receosos, devido a uma relação que deveria ser construída com o passar das semanas. Aos poucos as participações começaram a aparecer, e os alunos que faziam comentários com a professora titular, adquiriram confiança e se sentiram à vontade repetindo a dose nas semanas de estágio. Vale destacar que a recepção aos estagiários também não é nenhuma novidade para os estudantes da escola, visto que, o Colégio Aplicação recebe muitos universitários nessa etapa da formação acadêmica. Nosso grupo era composto por três integrantes, a organização ficou dividida de acordo com as tarefas da disciplina de Estágio, logo o planejamento de cada semana fora realizado de maneira coletiva, mas em cada uma delas um estagiário ficou responsável pela condução das aulas e pela sugestão de atividades, tendo em vista que além do conteúdo era preciso dar conta dos projetos de pesquisa. O conteúdo programático recaiu sobre a temática do Brasil Império. Desse modo, a organização das aulas teve como sequência a proclamação de Independência em 1822, o Primeiro Reinado, as Regências e o por último, o início do Segundo Reinado. Pela seleção do tema, as atividades planejadas obedeceram ao calendário da escola. Portanto, a interação entre alunos e fonte histórica efetuou-se, principalmente, por meio de imagens nas quais buscavam representar o período apresentado no século XIX. Para mensurar essa dinâmica, foram selecionadas duas atividades desenvolvidas, a primeira delas aplicada logo na primeira semana do estágio, já a segunda foi aplicada durante a sétima semana. A primeira atividade processou-se sem contextualização prévia. Assim, houve a solicitação para que as alunas e alunos pesquisassem e respondessem duas questões relativas as seguintes obras: Vista tomada da Igreja de São Bento, de autoria de Johann Moritz Rugendas e o Pano de boca executado para a representação extraordinária no Teatro da Corte por ocasião da coroação do imperador do Brasil d. Pedro I, de Jean- Baptiste Debret. A produção de Johann Moritz Rugendas, abre espaço para pensar no cotidiano do Rio de Janeiro a partir do pátio da Igreja de São Bento. Na obra, o autor busca retratar cenas do dia a dia, estando presente na imagem um grupo de religiosos, militares, afrodescendentes simbolizados como vendedores e criados, acompanhando as crianças e mulheres com vestimentas bem trajadas. Ao fundo, é possível perceber as casas, o porto e a própria geografia de uma parte da cidade. Rugendas veio ao Brasil em 1821, era integrante da expedição científica do barão de Langsdorff e criou gravuras de muitas regiões do território brasileiro. A principal característica de suas obras é a exibição dos personagens locais, ao estilo do naturalismo. Já na segunda imagem feita por Debret, há todo um ideário em torno da formação da nação no Brasil, por isso o autor expõe as três etnias ao lado da figura central, uma mulher representando o regime político. Ou seja, a monarquia nascia nos trópicos e os setores da sociedade deveriam caminhar ao seu lado. A paisagem nos mostra características “naturais” do Brasil, com frutas e plantas peculiares do local. Obra de Jean-Baptiste Debret. Todos os estudantes pesquisaram e fizeram a atividade em casa, tendo em vista a necessidade de uso da internet. Da mesma forma, foi requisitado a pesquisa de informações básicas a respeito dos autores. Em seguida, cada aluno teve que selecionar uma das duas imagens disponíveis e fazer uma análise completa, expondo as principais características, identificando quais personagens estavam sendo representados e se havia alguma semelhança entre ambas. Por fim, a atividade indagava os alunos a olhar com mais atenção para as pessoas, cujo intuito era objetiva-los a pensar na sociedade daquele período. Todos os 24 estudantes produziram a atividade, sendo que 20 deles entregaram no dia exigido, com exceção de 4 alunos que acabaram esquecendo e devolveram o exercício na semana seguinte à data estipulada. Grande parte da turma optou pela segunda imagem para praticar o exercício investigativo. Uma hipótese é que a escolha tenha ocorrida devido a reprodutibilidade da obra de Debret na internet, mas não se pode descartar a possível curiosidade despertada pela imagem, seja pela organização de cores e figuras, ou mesmo pelas disposições do cenário. Avaliando o conjunto como um todo, o que mais chamou a atenção dos alunos na primeira imagem foi o clima de calma e paz. Em contraposição, na segunda imagem, os alunos sublinharam uma possível situação de guerra presente na obra de Debret, expressões como aflição, guerra e conflito, foram usadas para descrevê-la, conforme frisa uma aluna em sua resposta: Aluna 1: O que mais se destaca da imagem é a mulher sentada no trono, no meio da pintura, com suas vestimentas amarela e verde, com uma escritura em sua mão. Em um lado da pintura, há negros com seus instrumentos de trabalho e suas famílias viradas para a mulher no centro da imagem, como se estivessem pedindo algo. Do outro lado há soldados brancos, bem vestidos, apontando suas armas para a mulher do centro da imagem. Como se declarassem guerra. A paisagem parece ser uma praia, com o mar no início do quadro, logo a areia da praia atrás a mata- tropical. Descrever a imagem não foi um problema, boa parte dos alunos conseguiu minuciar e elencar os principais detalhes das obras, como é o caso da Aluna 1. Além de notar o aspecto de guerra, embora não tenha sido a intenção de Debret representar um conflito, essa resposta ressalta as vestimentas, a figura da mulher ao centro, os aspectos geográficos e também a dicotomia entre brancos e afrodescendentes. Essa divisão mostrou ser pertinente, pois alguns perceberam a sociedade brasileira do século XIX através do aspecto da separação, cuja ênfase incide sobre o caráter da desigualdade social, que não se fazia presente somente pela posição das pessoas em lados opostos da imagem, mas também pelas vestimentas, muito bem observado pelos alunos 2 e 3: Aluna 2: As cores são diferentes, pois existem focos diferentes, além de que, nas duas obras se nota a desigualdade social que existe sobre brancos e negros. Sendo que os brancos aparecem muito bem vestidos earmados, já os negros aparecem com as roupas rasgadas sem ter o que vestir. Aluno 3: Os brancos estão sempre em posição de privilegio com belas roupas. Os negros estão com poucas roupas e em posições inferiores de servos, escravos. Desse modo, o contato dos alunos com as fontes, possibilitou a compreensão de alguns aspectos provenientes da organização social e política brasileira do século XIX, mesmo sem uma contextualização prévia do documento. Embora ninguém tenha feito um paralelo com as questões vivenciadas no presente, esse fato pode ser creditado as limitações exigidas pelas questões da atividade. Na comparação entre as duas obras, uma aluna sublinhou as hierarquias das imagens, segundo ela: os “dois retratos apresentam a população da época, procurando dividi-la com base no mais poderoso, até o menos poderoso, e de certa forma tentam emitir certa harmonia”. Ao apontar que aqueles quadros revelavam parte do cotidiano do período, separando a população entre os mais poderosos e os menos poderosos, a autora da resposta coloca a produção artística em seu contexto. No entanto, reside um fato curioso nessa argumentação. A abordagem de um conteúdo por meio de fontes históricas, e nesse caso através de fontes visuais, pode esbarrar em um precedente que deve ser problematizado. Muitos alunos olham a fonte e nela percebem um passado imutável, cristalizado, já definido. Ao contrário, o professor deve mostrar que aquela representação é apenas uma das possíveis realidades acerca do passado. Isso não significa dizer que as averiguações estejam erradas, muito menos que tais produções não revelam alguma dimensão do século XIX brasileiro. Conforme já exposto, essa atividade foi entregue na primeira semana. Na semana seguinte, realizou-se uma discussão dos aspectos sociais do Império, a atividade foi de grande serventia, e essa conversa realizada veio ao encontro dos objetivos traçados. Por meio do exercício foi possível entender o contexto de produção das obras, bem como problematizar cada uma. Ao que pese grande parte fazer uma descrição dos documentos, alguns alunos conseguiram ir mais além em suas reflexões a partir da análise das imagens como, por exemplo, neste caso: Aluna 5: Na imagem de Johann Moritz Rugendas os indivíduos da cena parecem estar em tremenda harmonia e normalidade, mas sabemos que naquela época não era uma normalidade a mistura de raças. Porém, era uma característica do autor retratar os costumes locais, sem se apegar a realidade. A aluna menciona a harmonia vista na imagem de Rugendas, porém, indaga se realmente aquela sociedade vivia dessa maneira, pacífica, ordeira, onde todos caminhavam juntos para a formação da nação. Sendo assim, problematiza o próprio olhar do autor da imagem, e presume que seu objetivo não era retratar a realidade, e sim os costumes locais, juntamente com os aspectos sociais que despertavam a atenção de Rugendas. Vale frisar que outros alunos não fizeram uma leitura atenta, confundindo a figura feminina do centro da imagem com d. Pedro I. Enquanto que outros, pelo que se pôde observar durante as conversas paralelas, influenciados pelos jogos de videogame, focaram com maior atenção nas armas e nos sujeitos que estavam manuseando o canhão, ou seja, todo um cenário bélico, visto nos jogos ajudou no exame da obra de Debret, pois estes citaram o nome dos games que referenciaram na atividade escrita. Outra aluna avaliou que houve uma idealização em torno das representações, chamando a imagem de utópica e fazendo considerações pertinentes: Aluna 6: Essa imagem, como é fácil perceber, é muito idealizada, e nunca seria possível. Todos poderiam lutar, mas não pela mesma causa. No entanto, mesmo que o autor quisesse passar essa imagem utópica, ele colocou um pouco de realidade: brancos e negros ficam em lados opostos do trono, como se para mostrar que, na vida real, eles não costumam se misturar. Tal leitura a respeito da obra de Debret novamente acentua o caráter desigual da sociedade brasileira, sobressaindo as divergências entre grupos que não frequentavam os mesmos espaços. Enquanto uns detinham certos privilégios, outros eram responsáveis por mover a lógica econômica da recém fundada monarquia, assentada na mão de obra escrava. Quando a aluna vê com atenção as nuanças da imagem, na qual cada grupo estava colocado em lado oposto, consegue perceber a verdadeira ideia de nação que se queria para o Brasil naquele momento, uma nação cuja ascendência derivaria da Europa. Os adornos utilizados principalmente por Debret, relatam uma monarquia europeia em terra brasileira, o que torna a figuração peculiar é o cenário, a praia, as plantas, os animais. A harmonia seria o elemento sempre a prevalecer, o contraponto provinha das repúblicas surgidas nas antigas colônias espanholas. Para as elites políticas brasileiras, esse modelo deveria ser evitado, por isso era fundamental manter a coesão territorial do país. Obra de Johann Moritz Rugendas. A segunda atividade foi realizada na sétima semana de estágio e todo um caminho de reflexão e análise já havia sido percorrido. O tema reportava ao Período Regencial, restringindo-se a Revolta dos Farrapos e ao movimento dos Malês. Essa atividade fez parte da avaliação escrita, sendo uma das questões a serem respondidas pela turma. A indagação foi formulada da seguinte maneira: Ao percorremos uma rua de nossa cidade, nos deparamos com seu nome, com os prédios construídos, com as lojas em sua volta. Todos esses objetos são marcas de um determinado período, ou seja, possuem história. O mesmo se dá com o nome de alguns municípios e com determinados monumentos, erguidos para tornar presente na memória algo que ocorreu no passado. É comum nos depararmos com esses espaços destinados a pessoas que participaram do conflito que ficou conhecido como Guerra dos Farrapos, ocorrido na província do Rio Grande do Sul, entre 1835 e 1845. Nomes como Anita Garibaldi, Giuseppe Garibaldi e Bento Gonçalves se fazem presentes em várias partes do mundo, geralmente nos monumentos erguidos em homenagem a suas memórias. Por outro lado, existem conflitos que ocorreram no passado e acabam passando quase despercebido em nosso presente. Se para a Guerra dos Farrapos encontramos um grande número de monumentos, para a Revolta dos Malês, os locais de memória são mais escassos. Desse modo, a questão proposta pretendeu corroborar com as análises feitas no decorrer de duas semanas com a turma, consistindo no exame de vários monumentos acerca dos Farrapos37 e dos locais de memória erguidos ao seu redor, contrapondo com a Revolta dos Malês, cujos resquícios são raros e a presença de um local de memória encontra-se escassa. As imagens foram selecionadas, discutidas, analisadas e passadas em sala de aula por retroprojetor. Com isso, os alunos precisavam responder à seguinte pergunta: “Por que há uma grande quantidade de monumentos destinados a lembrança da Revolta dos Farrapos, e tal fato não ocorre igualmente com a Revolta dos Malês? Justifique sua resposta”. Como se vê, toda a pergunta impõe certos limites para as respostas, porém, ao mesmo tempo, condiciona a análise dos alunos. Mas isso não impossibilitou comparações com temas do presente. Ao contrário da primeira atividade, quando as fontes não foram contextualizadas, aqui, além do conteúdo discutido, todas os monumentos foram examinados em conjunto, tendo as ideias socializadas pela turma junto aos estagiários. A característica geral das respostas remete a dualidade entre a Revolta dos Malês, conflito liderado por escravizados e a Revolta dos Farrapos, processo conduzido por latifundiários, movimento no qual os escravos ficaram de fora das narrativas históricas. Para uma estudante: Aluna 1: A Guerra dos Farrapos foi feita por grandes latifundiários, ou seja, por aqueles que eram da elite. Mas, a Guerra dos Malês foi uma revolta feita por escravos. Desde aquele tempo ouvia-se preconceito. Vendo até por outras revoltas que feitas por poucas pessoas, que porém eram da elite, ganham mais lembranças doque essa revolta feita por mais escravos que lutavam por sua liberdade religiosa. Para abordar a questão do preconceito a aluna parte do seu presente, indicando a existência desse elemento nos dias atuais, mas que já estava delineado naquele contexto. Assim, a autora da resposta toma estranhamento, inclusive quando descreve que algumas revoltas encadeadas por poucas pessoas ganharam mais lembranças do que revoltas cujo contingente populacional tivera sido maior. Na avaliação de outra aluna, a “revolta dos Farrapos (se deu) por motivos totalmente diferentes dos da revolta dos Malês. (...) A revolta dos Malês não fazia parte da imagem que se queria construir para o Brasil”. Ou seja, além do preconceito a aluna associa o conteúdo com a questão quando pensa na imagem da nação a ser construída. Outra aluna define a situação da seguinte forma: “os personagens (da revolta dos malês) eram escravos, lutando por sua liberdade, uma parte que muitos preferem ocultar ou não dar a devida importância”. Aqui, também temos a tese da escravidão como algo que se queria silenciar. De certa forma, os alunos aos poucos começaram a perceber as seletividades da história: Aluna 2: Diferente dos revoltosos de malês, os Farrapos sempre foram bastante relembrados durante a história. Sempre houve um cuidado com revoltas de escravos, para não servirem de exemplo para outros grupos, uma preocupação não presente com os Farrapos. E por ser um movimento de negros muçulmanos, que acabou como uma derrota, não é tão valorizado como o movimento dos tropeiros: homens brancos com origens europeias e vitoriosos (pelo menos assim retratados em nossa história). A dualidade ainda está presente na resposta acima, mas a frase entre parênteses é significativa, e põe em evidencia a própria construção do conhecimento histórico, haja vista que é nesse âmbito na perspectiva da aluna, onde há uma seleção sobre o que deve ser lembrado e esquecido. O trabalho com documentos históricos, seja por meio de imagens, monumentos e quadros retratando o período, foi um dos pontos altos do estágio. Nessa situação, o elemento primordial do trabalho a partir da análise de fonte, diz respeito a curiosidade manifestada pelos alunos. Quando a temática a ser abordada era exemplificada com imagens e vídeos, havia a colaboração da turma e desse modo a aula fluía. Logo, olhar para as fontes instigou a maior parte da turma, nesses momentos a história tornava- se materializável e a grande maioria conseguia perceber com maior facilidade os processos transcorridos durante o Império brasileiro. Por fim, não foi possível explorar documentos escritos, como por exemplo: as cartas do imperador e os jornais periódicos. O déficit pode ser explicado devido ao pouco tempo de estágio, quando foi possível decorar o nome de todas as alunas e alunos, a experiência encerrava-se. Quanto às perspectivas de uso de fonte em sala de aula, é preciso traçar alguns caminhos: ao mesmo tempo que seu uso pode servir para desnaturalizar o passado, tal como os alunos o conhecem, por meio da multiplicidade de narrativas históricas disponíveis e das contradições vigentes ao tempo que nos precede, a utilização de fontes históricas, também pode cristalizar esse mesmo passado, caso seja trabalhado como a única forma possível de estudar os regimes temporais. Nessa perspectiva, reside a importância do professor, não só como um componente do elemento escolar, mas sim, conforme propõe Isabel Barca, como um investigador social. Ele deve buscar atender a demanda dos outros agentes incluídos nesse processo de ensino e aprendizagem. É tarefa do professor fazer a seleção da temática e considerar as exigências de cada turma, além de dominar o conteúdo ministrado, o que possibilita explorar mais a fundo os assuntos correlacionados com o conteúdo. Considerações finais Há, em certo sentido, a ideia de que os livros didáticos são absorvidos como verdade inquestionável pelos alunos e as informações contidas nesse material são reproduzidas sem uma contraposição teórica, ou então, por meio de outra narrativa. Compreender essa relação entre aluno e fontes históricas abre uma linha reflexiva a respeito do assunto, tomando os estudantes como agentes ativos no seu próprio processo de aprendizagem. A utilização de fontes em sala de aula é um recurso viável, conforme a seleção do professor, a aula pode girar em torno do documento, mas esse mecanismo não pode ser utilizado como a única possibilidade possível para entender o passado, e sim como uma das formas de compreensão do passado. Por sua vez, constata-se ser essencial expor os métodos utilizados pelos historiadores no fazer de seu oficio, incluindo nessa engrenagem o acesso à documentação na elaboração do produto final da História, que é a narrativa e a representação do passado. Outra possibilidade é pensar no uso da fonte a partir de um problema do tempo presente. Para investigar a eficácia e o trato da turma com esse procedimento, seria preciso outro olhar, juntamente com a preparação de diferentes atividades durante o estágio. Assim, tendo como exemplo a pesquisa efetuada, a relação dos alunos com a fonte histórica está condicionada pelos valores e embates que regulam as vivências do tempo presente dos alunos. Em consequência disso, o intermédio a ser feito pelo professor deve levar em consideração as problemáticas desse tempo e a contextualização do próprio objeto, evitando a fomentação de anacronismos. Por último, cabe destacar que o uso de fontes em sala de aula deve ser alvo de uma prática a longo prazo e isso carece de um cronograma pedagógico adequado e de condições para os profissionais exercitarem essas habilidades gradualmente nos estudantes. Referências BARCA, Isabel. Aula Oficina: do projecto à avaliação. Para uma educação histórica de qualidade. Actas das IV Jornadas Internacionais de Educação Histórica. Braga: Universidade do Minho, 2004, p. 131-144. BARCA, Isabel. Concepções de adolescentes sobre múltiplas explicações em História. In: ______. (org.). Perspectivas em Educação Histórica. Actas. Primeiras Jornadas Internacionais de Educação Histórica. Braga: Universidade do Minho, 2001, p. 29-43. BERGMANN, Klaus. A História na reflexão didática. Dossiê História em Quadro-Negro: escola, ensino e aprendizagem. Revista Brasileira de História. São Paulo: v. 9, n. 19, p. 29-42, set.1989/fev. 1990. BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de história: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2004. CERRI, Luis Fernando. Os conceitos de consciência histórica e os desafios da didática da história. Revista de História Regional, 6(2): 93-112, 2001. LEE, Peter. Em direção a um conceito de literacia histórica. Revista Educar, Curitiba, Especial, p. 131-150, 2006. ______. Por que aprender história? Educar, Curitiba, n. 42, p. 19-42, 2011. PINSKY, Carla Bassanezi. Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2008. PRATS, Joaquim. Ensinar História no contexto das Ciências Sociais: princípios básicos. Educar, Curitiba, Especial, p. 191-218, 2006. KARNAL, Leandro; TATSCH, Flavia Galli. A memória evanescente. In: PINSKY, Carla Bassanezi; LUCA, Tania Regina de (orgs.). O Historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2009. RÜSEN, Jörn. Didática da História: passado, presente e perspectivas a partir do caso alemão. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 1, n. 2, p. 7- 16, jul.-dez. 2006. RÜSEN, Jörn. História Viva. Brasília: Editora UnB, 2007. SCHMIDT, Maria Auxiliadora. Cognição Histórica situada: que aprendizagem histórica é esta? In: BARCA, Isabel & SCHMIDT, Maria Auxiliadora (orgs.). Aprender História: Perspectivas da educação histórica. Ijuí: Ed. Unijuí, 2009. ______. Ensinar História. São Paulo: Scipione, 2004. SILVA, Cristiani Bereta da; ROSSATO, Luciana. A didática da história e o desafio de ensinar e aprender na formação docente inicial. Revista História Hoje, v. 1, p. 65-85, 2013. Notas 36. Rossato e Silva, seguindo a lógica de Rüsen, apresentam a seguinte definição sobre consciência histórica: “Entendemos o conceito de consciência históricacomo algo intrinsecamente ligado à necessidade de o ser humano se orientar temporalmente, ou melhor, de atribuir sentido a sua existência. “Portanto, a consciência histórica seria uma forma específica de memória histórica e cognitivamente poderia ser descrita como uma forma de significar a experiência do tempo pela interpretação do passado, de modo a possibilitar a compreensão do presente e projetar o futuro”. In: Silva, Cristiani Bereta da; Rossato, Luciana. A didática da história e o desafio de ensinar e aprender na formação docente inicial. Revista História Hoje, v. 1, p. 68, 2013. 37. Os monumentos referidos são: a estátua de Giuseppe Garibaldi, em Gianicolo, Roma, Itália. A estátua de Giuseppe Garibaldi em Livorno, Itália. O monumento de Giuseppe Garibaldi em Nice, França. O monumento de Anita Garibaldi, em Laguna, Santa Catarina. O monumento em homenagem a Anita, no Janículo em Roma, no qual o escultor Rutelli retratou a fuga de Mostardas. E por último, o monumento que representa Bento Gonçalves em Rio Grande. 7. “UMA TARDE NO MUSEU: IMPRESSÕES E CONCLUSÕES DE UM 6º ANO A UMA VISITA AO MUSEU DE ARQUEOLOGIA E ETNOLOGIA/UFSC” Leonardo Francisco Este capítulo faz parte das etapas de conclusão da disciplina de Estágio Curricular Supervisionado III e tem como objetivo apresentar algumas conclusões obtidas durante o período de atuação no Colégio de Aplicação da UFSC. Mais precisamente será problematizada a visita ao Museu de Arqueologia e Etnologia, (MArquE, localizado no próprio campus universitário da UFSC, realizada como uma das atividades do projeto desenvolvido pelo grupo). Nosso projeto de estágio tinha como título: Arqueologia em sala de aula: Como era o Brasil antes dos Brasileiros,38 e foi realizado com os alunos do sexto ano C. Buscamos desenvolver temas como a cultura material, estudar a diversidade dos povos que habitaram o litoral catarinense, a construção do conhecimento histórico através de evidências e conhecer um acervo arqueológico, promovendo a reflexão acerca do passado a partir desse acervo. Nossa proposta desde o início foi proporcionar aos alunos aulas diferenciadas em que tanto a participação deles como o método utilizado fosse algo significativo e lúdico. Nesse sentido tentamos utilizar mais aulas- oficinas. O conceito de aulas-oficinas é apresentado no trabalho da professora Isabel Barca (2004) que, afirma que este método pressupõe que o professor assuma o papel de investigador social, de modo a “aprender a interpretar o mundo conceptual dos seus alunos”, para que possa intervir de maneira positiva nesse “mundo conceptual”, nesses saberes e formas de lidar com o saber que os estudantes trazem. Em nosso projeto as aulas e atividades foram pensadas especificamente para os alunos, de modo que possam ser sujeitos ativos do seu aprendizado (Barca, 2004, p. 134). A autora trabalha com a ideia do desenvolvimento de competências em História, que são desenvolvidas gradualmente e podem ser organizadas em três: interpretação de fontes, o que inclui a seleção de fontes com critérios e a relação entre fontes diversas; a compreensão contextualizada, que abrange entender situações humanas e sociais em diferentes tempos e espaços, relacionar os sentidos do passado com o presente e levantar novas questões e hipóteses; e por último a comunicação dessa compreensão, se utilizando de diversos meios disponíveis (ibid., p. 135). O tema proposto para que trabalhássemos durante o período de estágio foi a pré-história e dentro dos possíveis assuntos e métodos que poderiam nos auxiliar na elaboração das aulas, optamos por usar a arqueologia e com ela, quais as possibilidades de se escrever a História por meio dos artefatos arqueológicos. Dentre as aulas que elaboramos, estava planejada uma escavação simulada, uma ida ao MArquE onde eles deveriam estar atentos as informações que receberiam por parte da equipe do museu, observar a exposição dos objetos, a forma com que eram armazenados, as condições do ambiente como iluminação, exposição a luzes dentre outros, e por fim a elaboração de um trabalho escrito apresentando quais as conclusões dos alunos desde o início do estágio até a aula seguinte a visita ao museu. Nosso trabalho com os alunos iniciou com aulas expositivas sobre o conceito de pré-história e fomos encaminhando para a arqueologia com uma palestra com a arqueóloga Shir Tuan Souza e com uma simulação de escavação onde foram apresentados cinco sítios arqueológicos: um colonial, um sambaqui, uma oficina lítica, um contemporâneo e um ceramista. Essa experiência resultou em um grande trabalho final que incluía também a ida ao museu. Assim, nesse capítulo serão analisados os textos que os alunos produziram e quais as conclusões que chegaram sobre o tema da pré- história, sob o prisma da arqueologia. A exposição que abordarei juntamente com os trabalhos dos alunos é a: “Arqueologia em Questão: Percorrendo o Litoral Catarinense” onde estão expostos vários artefatos arqueológicos das populações que viviam ao longo do litoral catarinense. Visita ao MArquE Todo processo educativo desenvolvido pelos museus parte da sua coleção e da sua exposição, assim os educadores dos museus utilizam a Educação Patrimonial. Esta propõe a “a percepção e compreensão dos fatos e fenômenos da cultura por meio do contato direto e da investigação dos objetos culturais, que além de móveis podem ser imóveis, como as construções históricas e os monumentos” (Aidar; Chiovatto, p .4). Ao contrário da escola onde a formação é continuada, diária e obrigatória, no museu esse aprendizado pode ser feito ao longo da vida em diferentes ocasiões, em vários lugares, sem restrição de idade e que a cada ida o visitante sai com um novo conhecimento acerca daquela exposição e daquele local. O MArquE teve a sua origem dentro do departamento de Antropologia da UFSC e foi criado em dezembro de 1965, Até 1968 este Instituto funcionava junto ao Curso de História da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da UFSC. Em 29 de maio desse mesmo ano foi inaugurada a sede própria do Instituto de Antropologia, uma edificação reformada e adaptada que integrava o complexo da antiga Fazenda “Assis Brasil”, cujo espaço foi transformado no atual Campus Universitário.39 O Instituto de Antropologia era composto pelas divisões de Arqueologia e Antropologia, as suas instalações abrigavam laboratórios além de biblioteca e uma sala de exposições para o acervo indígena e de cultura popular. Em maio de 1993, o Museu completou vinte e cinco anos de existência e passou a ser denominado Museu Universitário “Oswaldo Rodrigues Cabral”, por meio da Resolução nº 106/Cun, de 26 de outubro de 1993, em homenagem a seu idealizador, fundador e primeiro diretor. Cabe ressaltar que, apesar de ser criado em 1965, somente em 1968 foi aberto ao público, ainda como Instituto de Antropologia.40 A saída de campo para o MArquE foi uma experiência muito interessante e que nos surpreendeu. Havia alguma preocupação quanto ao modo como se daria o trajeto e a visita, mas desde a oficina de escavação havíamos percebido que a turma recebia muito bem as atividades fora de sala de aula e de maneira geral colaborava com elas. De início acreditávamos que seria complicada, dada agitação da turma e a empolgação de alguns alunos, contudo ao chegarmos ao museu foi um período de muita aprendizagem. Tivemos algumas verificações bastante positivas durante a parte da visitação. Embora estivéssemos trabalhando questões acerca da arqueologia nas últimas aulas, não sabíamos até que ponto a turma havia sido capaz de compreender aquilo que estávamos propondo, até aonde aquela explicação e visita fazia sentido e se eles haviam sido capazes de se apropriar desse conhecimento que passamos nas ultimas aulas. No museu houve várias ocasiões em que alunos questionaram e interagiram com a explicação dada pelo guia da exposição, levantando hipóteses, fazendo constatações, demonstrando seu próprio entendimento do tema, para a nossa surpresa e felicidade. Para a elaboração do texto,como lidar com elas, como e quais aproveitar ou descartar. O cotidiano é bombardeado de informações – televisão, internet, impressos, rádio, etc. – na internet ganha foco as redes sociais e o Google, que são mais acessados pelos jovens, pois numa conversa informal pude constatar tal fato, – todavia, nada prova que todas as noções e imagens tomadas dos meios sociais de que fazemos parte, e que “interveem na memória, não cubram, como uma tela de cinema, uma lembrança individual, mesmo no caso em que não a percebemos” (Halbwachs, 2014, p. 37). Mas há de se expressar ideias que se parecem pessoais, em que na verdade são reproduções. Quando essas reflexões não são suas e, – são frutos de um coletivo, perde-se a individualidade e a singularidade de uma opinião própria de sua consciência e moral. Formada por diferentes pontos de referência, seguem as memórias que formamos no meio social em que estamos inseridos. E nos estudantes da turma 200 pude observar que muitos têm pleno acesso à internet e não problematizam a informação ou não procuram a veracidade do que está sendo apresentado, mas isto pode ser trabalhado em sala de aula para que levem para sua vida fora da escola. No primeiro plano da memória de um grupo se destacam as lembranças dos acontecimentos e das experiências que concernem ao maior número de seus membros e que resultam quer de sua própria vida, quer de suas relações com os grupos mais próximos, mais frequentemente em contato com ele. (Halbwachs, 2014, p. 45) Nos últimos 15 anos, a internet instalou-se de tal forma na sociedade contemporânea de modo que adentrou as escolas, sendo um amplo meio de acesso à informação e uma nova forma de comunicação social. As informações adquiridas pela internet, de certa forma, atingem a escola diretamente, positiva e negativamente. Nesta experiência docente pude ver como o uso do celular em sala pode ser positivo ou negativo. Como uso benéfico, cito o exemplo de um dos estudantes que pesquisou a resposta pontual para um exemplo que ele mesmo quis compartilhar em aula. Contudo, a facilidade de acesso e o alto número de informações devem ser melhor filtradas, pois a sua veracidade pode não ser contestada pelo aluno. Assim, de acordo com Rüsen (2007. p. 90), o educador – nesse caso, o professor de História – adquire um papel dentro da escola, que é ensinar a trabalhar com fontes e questioná-las, pois a educação escolar e a aprendizagem tornam-se um requisito para a inclusão social ao longo da vida e a atuação do professor dentro da escola torna-se fundamental neste processo do estudante. Com a informatização, de acordo com Peña (2012), nota-se que houve uma mudança nas formas de aprendizado, aquela que se expande além dos muros da escola, utilizando novos meios de comunicação. Porém, como na internet circulam informações boas e ruins, cabe ao indivíduo saber lidar, filtrar, reciclar ou descartá-las, e, neste processo, os pais são grandes educadores também. Penso que a máxima “Educação vem de casa” pode ser interpretada como uma realidade, visto que é no âmbito familiar que você adquire conhecimentos variados, o que exerce influência nas ideais e opiniões que, muitas vezes são parecidas com a dos pais e familiares. Mas se memória é um processo de seleção, por que, então, se fixa ininterruptamente conhecimentos e ideais daqueles que estão diretamente ligados ao seu processo de desenvolvimento? Quero refletir como o racismo se instaura a partir da bagagem cultural de cada pessoa. Bagagem cultural ou histórica é um termo utilizado por Helenice Rocha (2014) para designar os conhecimentos que são adquiridos por qualquer indivíduo, memórias a partir de leituras, meios de comunicação e interação social, que são partilhadas bem como dentro da escola. O professor também pode e deve estimular os estudantes a acumular estas memórias, pois, são de suma importância para o desenvolvimento do estudante, que, além de tudo, é um indivíduo que vive em sociedade. Trata-se de memórias construídas por um coletivo, desconstruídas e reconstruídas, oralmente. Sendo que o que lhe foi transmitido no âmbito familiar, torna-se uma verdade. E, ao privilegiar a análise dos excluídos, dos marginalizados e das minorias, a história oral ressaltou a importância de memórias subterrâneas que, como parte integrante das culturas minoritárias e dominadas, se opõem à “memória oficial”, no caso a memória nacional. (Pollak, 1989, p. 4) A memória coletiva, e não apenas nacional, é opressora aos que foram impostos às margens do sistema – as pessoas negras, e também mulheres, indígenas, homossexuais, entre outras populações subalternizadas integram. São lembranças que foram disseminadas de uma geração à outra oralmente, e com o surgimento das tecnologias foram difundidas através de publicações. Nos tempos atuais continua a perpetuação pela internet, permanecendo vivo o pensamento opressor e preconceituoso de séculos atrás. Parafraseando Pollak (1989, p. 11), “há elementos sociais que são progressivamente integrados comumente na cultura de toda a humanidade”. Mas ao contrário disso, deveriam ser questionadas. Vivemos em um eurocentrismo infindável, no qual os parâmetros de beleza e a visão hegemônica pertencem à sociedade. E tão real é isto, que foi necessário criar uma lei para que as escolas brasileiras ensinassem o conteúdo de História e Cultura Afro-Brasileira, isto é, a História do próprio país. A Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino tornando obrigatória a temática de “História e Cultura Afro-Brasileira”, no qual, a mesma foi alterada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. E a mais atual é a Lei 11.645/2008 estabelecendo o ensino de “História e cultura afro-brasileira e indígena”. Deste modo, foi necessário criar-se leis para estudar a própria História de suas populações. Percebemos isto e mais exemplos sobre as populações negras nas leituras sobre os agentes da história na constituição dos livros didáticos. Ao estudar civilizações nos ensinos fundamental e médio nas escolas, inicialmente, havia estudantes sem a noção de que o Egito, reconhecido pelo intenso governo faraônico e suas notáveis obras, está localizado no Continente africano, isto porque nos livros didáticos ocorria uma omissão de informações importantes como esta, segundo Muryatan Barbosa (2008), o tema era colocado à parte, sem ser vinculado a nenhum continente. Atualmente nota-se o início destas mudanças, observei na escola durante o período de estágio, que nos livros didáticos utilizados pela turma 200,1 o estudo sobre os egípcios já está integrado no capítulo que se refere ao continente africano. Há sempre um desejo do “embranquecimento” destas civilizações. Sobre esses imaginários, podemos situar a importância da mídia em suas construções, pois além de representar estereótipos, mostram apenas uma perspectiva. Existem diversas formas de caracterizar o chamado eurocentrismo. Por vezes, ele é visto como mero fenômeno etnocêntrico, comum aos povos em outras épocas históricas. Mas para a maioria dos autores que tratam atualmente da questão, o eurocentrismo deveria ser caracterizado, diferentemente, como um etnocentrismo singular, entendido como uma ideologia, paradigma e/ou discurso. (Barbosa, 2008, p. 46) O eurocentrismo é uma ideologia que defende o ponto de vista europeu como sendo o melhor, ou seja, o reflexo de um espelho prepotente e racista. Como afirma Muryatan Barbosa (2008, p. 47), “é a expressão de uma dominação objetiva dos povos europeus ocidentais no mundo.” Ou, “ideologia e paradigma, cujo cerne é uma estrutura mental de caráter provinciano, fundada na crença de superioridade do modo de vida e do desenvolvimento europeu-ocidental” (Barbosa, 2008, p. 47). Para Barbosa (2008), seria a representação da civilidade. Portanto, partindo do princípio de que a historiografia era escrita pelas perspectivas eurocêntricas da Razão, despertam de onde provém o racismo intrínseco nas sociedadesos alunos receberam um material de apoio e também estavam autorizados a fazer consultas ao caderno. A proposta era que cada um com suas palavras escrevessem um texto de no mínimo 10 linhas abordando as aulas que até o momento haviam sido ministradas bem como a ida ao museu e qual as suas conclusões. Utilizamos o modelo de um trabalho escrito, pois até o momento não tínhamos nenhum parecer dos alunos sobre o conteúdo que estávamos ministrando no estágio, foi uma forma de termos um documento escrito com o parecer deles sobre o tema, e perceber como estava a compreensão da turma sobre o assunto que estávamos trabalhando. Alguns alunos em seus textos chegaram a conclusões muito interessantes apresentando e desenvolvendo hipóteses e elaborando respostas que atendiam às nossas expectativas quando o trabalho foi apresentado, como, por exemplo, o aluno “Arthur”, o qual em seu texto deixa claro que a atividade de que mais gostou foi a escavação, pois esta, bem como o museu, fora realizada fora da sala de aula e eles trabalharam, literalmente, como arqueólogos, mas também conseguiram criar conexões com o museu. Ele escreve assim: “A [atividade] que mais gostei foi a escavação, porque podemos descobrir coisas dos nossos antepassado, e depois no futuro eles poderão achar coisas que pertenceram a nós” (Arthur). De todos os textos analisados, este foi um dos únicos a ter esse raciocínio de que coisas que hoje utilizamos a achamos “normais” em um futuro poderão também ser consideradas artefatos arqueológicos. Mais adiante ele coloca: “Podemos ver um pouco desse passado no museu de arqueologia da UFSC. Estava cheio de vasos de cerâmica, vestígios arqueológicos e etc.” (Arthur). Ou seja, a atividade que eles fizeram escavando os objetos agora fazia mais sentido, pois muitos cogitavam a possibilidade dos arqueólogos ficarem ricos, vendendo artefatos, como é insistentemente mostrado pelos filmes hollywoodianos e não o fato de os objetos serem colocados em uma exposição no museu. Algo que chamou a atenção em um texto específico foi que a aluna “Isadora I.” compreendeu a funcionalidade e a importância dos museus em nossa sociedade. Em seu texto ela explicou detalhadamente todas as atividades que haviam sido feitas, desde a palestra até a ida ao museu. Ela coloca: “o museu estava dividido em vários grupos: os sambaquis, os jé, os guaranis etc. e o princípio do museu é mostrar a sociedade sobre os povos que viveram em Santa Catarina” (Isadora I., grifos meus). Outra aluna além de ter compreendido muito bem qual a finalidade da arqueologia apresentou detalhes e cuidados técnicos que devem ser obtidos ao expor objetos em um museu. O texto diz assim sobre o que ela entendeu por arqueologia: “Eu entendi que arqueologia é o estudo do passado humano através de vestígios” (Thais, grifos meus). E ela continua explicando suas conclusões sobre o museu: “o tema da exposição era a arqueologia (pré-história) [...] A iluminação do museu é diferente, a parte que está o objeto é mais forte, porque com o tempo o objeto vai desbotando”. Apesar de terem aproveitado bastante a exposição, alguns alunos reclamaram do longo período que ficaram no museu, dizendo-se “cansados”. De fato, na primeira parte da visita era notório que alguns alunos já estavam impacientes e agitados ao ficarem sentados no chão ouvindo o guia, por um período longo. O mesmo aconteceu depois de terem observado os vários objetos expostos, quando foi solicitado que se reunissem junto à parte da exposição referente aos sambaquis. A grande maioria dos alunos em seus textos abordou mais a atividade da escavação, pois foi a que mais gostaram, uma vez que todos os textos enfatizam e explicam com detalhes a atividade, contudo, poucos alunos apresentaram em seus textos o dia da visitação, alguns deles até de forma curiosa. Como já mencionado, uma aluna coloca que foi ao museu, mas ficou “cansada”. Ela diz assim:“fomos no museu e um homem nos recebeu e explicou monte de coisa, fiquei cansada!” (Amanda). Ou seja, lembrou-se da visitação, até mesmo do nome do educador, contudo não se ateve à explicação que foi passada e não soube explicar o que foi o “monte de coisa” que ele falou. Outra até apresenta objetos que foram encontrados no museu, contudo não gostou de perder o intervalo do colégio: “Na ultima aula fomos para o museu cheio de vasos, pedras, pontas, etc. E foi muito legal [...] mesmo perdendo o recreio” (Isabela). O aluno “Lucas” ao contrário, apresentou em seu texto uma observação sobre a questão do tempo um pouco diferente das alunas anteriores. Ele coloca: “Outro dia nós fomos ao museu, e vimos uma exposição sobre arqueologia, focada nos indígenas de SC. Teve pouco tempo, mas vimos coisas curiosas, estranhas e interessantes (como colares de conchas) feitos pelos indígenas” (Lucas, grifos meus). Alunos no MArquE Dentro destas respostas podemos analisar o que o historiador e filósofo alemão Jörn Rüsen em seus textos e investigações aponta. Dentre suas pesquisas ele estuda sobretudo, os campos da teoria e metodologia da história, da história da historiografia e da metodologia do ensino de história. Em alguns trabalhos ele apresenta a narrativa como uma forma de expressar o aprendizado histórico. Ele coloca que a apropriação da História é uma flexibilização das condições temporais da vida, ou seja, o sujeito não se constitui apenas se aprender a história, ele já nasce na história. O autor coloca: “Intérpretes contemporâneos dessa discussão (por exemplo, Hayden White e Paul Ricoeur) apresentam a narração histórica como um procedimento mental básico que dá sentido ao passado com a finalidade de orientar a vida prática através do tempo” (Rüsen, 2006, p. 15). Rüsen considera como principal objeto de estudo da Didática da História o aprendizado histórico como manifestação da consciência histórica. A consciência histórica, da qual o autor nos fala, não é algo circunscrito a um saber aprendido na escola ou através da pesquisa acadêmica, mas está relacionado à capacidade e necessidade que todo ser humano tem de se orientar temporalmente e atribuir sentido à sua existência no tempo. (Silva; Rossato, 2013, p. 68). Dessa maneira, levando em conta que a consciência histórica é construída por vários meios que estão além do conhecimento escolar, e compreendendo como função do ensino e aprendizagem de história o desenvolvimento da mesma, a educação em história não deve se esgotar na transmissão de informações, fatos e explicações. Mas possibilitar a tomada de atitudes diante dos saberes que estão disponíveis de variadas maneiras, tornar possível não a internalização, mas a apropriação ativa e subjetiva do saber (Rusen, 2007, p. 101). Considerações finais Nossa saída de campo para o MArquE foi um momento de muita aprendizagem. Acredito que essa atividade tenha sido importante para os alunos, pois por meio dela foi possível observar de mais perto objetos reais encontrados por meio da arqueologia e instigar a curiosidade para tentar compreender e imaginar quais as utilidades de alguns daqueles objetos. Foi uma atividade interessante, pois embora algumas avaliações foram proveitosas com conclusões e hipóteses válidas, alguns alunos não conseguiram terminar seus textos ficando assim com notas abaixo da média, mas não era isso que queríamos e sim perceber quais as impressões da turma sobre nossa forma de conduzir o estágio e as tarefas que havíamos proposto. Foi possível notar que os alunos aprenderam com a visitação quais populações habitaram o litoral catarinense, apresentando em seus textos o nome das populações. Outro fato importante é que de igual forma descobriram quais os materiais que essas populações utilizavam tanto para fabricar utensílios domésticos bem como materiais de caça e pesca. Tivemos casos de alunos que apresentaram dificuldades de transcrever o que haviam aprendido solicitando constantemente auxílio para a elaboração do texto. A ida ao museu bem como a escavação simulada foram aulas muito significativas tanto para os alunos como para nós estagiários,pois através delas concluímos que sim, é possível aplicar aulas-oficinas e que essas aulas podem ser interdisciplinares, como no caso da escavação poderíamos ter englobado a disciplina de geografia, para um estudo do solo, bem como a disciplina de biologia, para fazer um estudo sobre os ossos que foram encontrados em alguns sítios. As autoras Maria Auxiliadora Schmidt e Marlene Cainelli (2004) atribuem à avaliação um propósito diagnóstico contínuo e sistemático. Para elas o processo avaliativo deve dar conta não apenas de analisar a relevância e o significado a ser ensinado, mas também como a eficácia do conhecimento apreendido. Ou seja, a avaliação é muito mais importante para a manutenção do ensino e da aprendizagem do que de uma forma de classificar os alunos, sendo assim pudemos analisar as respostas dos alunos e com base nelas desenvolver as aulas e com que conteúdo poderíamos dar ênfase em sala de aula. Um aspecto que acredito e creio que deveria ser estudado é a possibilidade de mais visitas escolares aos museus, uma vez que há um diálogo possível entre escola e museu não apenas na disciplina de história, mas entre uma interdisciplinaridade, como já foi mencionado, com as exposições e atividades escolares. Referências AIDAR, Gabriela, CHIOVATTO, Milene. Educação em museus, Texto extraído do material educativo Arte +, Pinacoteca do Estado de São Paulo / IMPAES, 2009, p. 01-10. BARCA, Isabel. Aula Oficina: do Projeto à Avaliação. In: Para uma educação de qualidade: Atas da Quarta Jornada de Educação Histórica. Braga, Centro de Investigação em Educação (CIED)/Instituto de Educação e Psicologia, Universidade do Minho, 2004, p. 131-144. RÜSEN, Jörn. Didática da História: passado, presente e perspectivas a partir do caso alemão. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 1, n. 2, p. 7- 16, jul.-dez. 2006. RÜSEN, Jörn. História Viva. Brasília: Editora UnB, 2007, pp. 85-134. SILVA, Cristiani Bereta da, ROSSATO, Luciana. A didática da história e o desafio de ensinar e aprender na formação docente inicial. Revista História Hoje, v. 2. n. 3, p. 65-85, 2013. Notas 38. Fica aqui o meu agradecimento aos colegas e amigos Caroline Brandão e Marcos Alberto Rambo, pois a cada dia de estágio aprendemos mais uns com os outros e sem dúvida foi um momento de adquirimos experiência para a nova jornada que nos espera enquanto professores. Agradeço também a professora Nucia Alexandra Silva de Oliveira e Gláucia Dias da Costa que sempre estiveram presentes e auxiliando naquilo que se fazia necessário. E, por fim, à turma do 6ºC, pois sem eles este capítulo não seria realizado da forma tão gratificante que foi. Muito obrigado! 39. Brasil. UFSC. MArquE. Memória. Disponível em: . Acesso em: 02 nov. 2016. 40. Disponível em: . Acesso em: 02 nov. 2016. http://museu.ufsc.br/memoria/ http://bit.ly/2Eo9OAn http://bit.ly/2Eo9OAn 8. PESQUISANDO NA WEB: NOÇÕES DE ALUNOS DO SEXTO ANO ACERCA DE SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS BRASILEIROS Nathália Hermann A escola e a turma O Colégio de Aplicação da UFSC tem como uma de suas finalidades servir de campo de estágio destinado à prática docente dos alunos dos cursos de licenciatura de universidades da região. Nosso estágio foi realizado na instituição citada acima, no ano de 2016, na turma do sexto ano B, com aulas às quartas e sextas-feiras, das 15:05 às 17:00 e 13:30 às 14:20, respectivamente. A atividade realizada estava inserida no estágio da graduação em licenciatura em História da Universidade do Estado de Santa Catarina, e faz parte da disciplina de Estágio Curricular Supervisionado. Durante a disciplina – que é realizada ao longo de três semestre e dividida em Estágio Curricular Supervisionado I, II e III41 – os alunos da graduação observam a turma selecionada durante dois meses, e no semestre seguinte, assumem a sala de aula – também durante dois meses – como professores. A turma, formada por 26 alunos das mais diversas classes sociais, era bastante participativa e, ao longo do período de observações no semestre anterior, ficaram perceptíveis uma série de comportamentos diversos. De início, não nos respeitavam enquanto autoridade da mesma forma que respeitavam a professora Gláucia Costa, responsável pelas aulas regulares da disciplina de história nos três sextos anos do colégio. É essencial levar em conta que a autoridade de professores e professoras de História “residiria também na capacidade de estabelecer uma espécie de comunicação individual com o seu aluno, levando-o a ter intimidade com um certo passado ou, quem sabe, com um determinado presente” (Schmidt, 1997, p. 56). Desse modo, procurávamos exercer a docência de forma que os alunos lidassem de maneira compreensiva com a dita “pré-história”, um passado extremamente distante, utilizando contrapontos do presente. O próprio uso da internet para realizar pesquisas sobre os sítios arqueológicos, a fonte analisada no presente capítulo, é um exemplo desse jogo de escalas passado – presente. Desde as oficinas realizadas ao longo do semestre anterior ao estágio, notamos – tanto durante a aplicação das mesmas, quanto com os resultados das atividades feitas em sala – que grande parte da turma realizava as funções solicitadas com respostas, na maioria das vezes, com todas questões solicitadas e também criativas. Tivemos dificuldades em lidar com a necessidade de nós mesmos sermos a autoridade em sala, e isso foi determinante para a seleção de conteúdos, avaliações e atividades que desenvolvemos durante o estágio. A partir da infraestrutura da escola – que contém projetor disponível em cada sala de aula – pensamos em trabalhar com a exposição de vídeos e filmes durante as aulas. Na atividade analisada no presente capítulo, os alunos utilizaram tablets disponibilizados pelas escolas a partir de uma reserva prévia e, a partir daí – e de algumas análises prévias ao longo período de observação – percebemos a demanda pela utilização de tecnologias em sala. A própria faixa etária das crianças – que tinham entre 11 e 13 anos – tornou mais visível ainda a necessidade de se trabalhar com vídeos e aparatos tecnológicos. Por estarem em contato constante com a tecnologia do cotidiano (todos da turma, com exceção da aluna que tinha um nível de autismo severo e que não se comunicava verbalmente, tinham um celular) as crianças demonstravam interesse e facilidade em manusear os tablets, ou até mesmo manifestavam maior interesse em vídeos mostrados em sala. Segundo o historiador Carlos Ferreira, [...] a nossa sociedade sofre um ritmo intenso de modificações, a escola e o ensino de história em especial, tem de acompanhar esse processo sob pena de transmitir conhecimentos já ultrapassados. Para isto deve incorporar os temas e as inovações tecnológicas com que os alunos já lidam no seu cotidiano. Constitui-se hoje, para os educadores do ensino fundamental e médio, um desafio muito grande ensinar alunos que têm contato cada vez maior com os meios de comunicação e sofrem a influência da televisão, rádio, jornal, vídeo- games, fax, computador, redes de informações e etc. (2007, p. 144) O professor tem como desafio diário tornar conteúdos que muitos alunos(as), em contato constante com uma infinidade de conhecimento disponibilizado pelas tecnologias, acham desinteressantes e maçantes de serem aprendidos em sala de aula. A crescente mudança de comportamento provocada pela massificação das tecnologias de informação trouxe à tona um novo contexto para os professores e professoras atuantes em sala de aula. Segundo o historiador Israel Aquino, “é presumível admitir que a pesquisa e o ensino [...] não poderiam escapar incólumes frente a essa crescente transformação cultural por que passa a sociedade no que toca às formas de lidar com a informação e o conhecimento” (Aquino, 2012, p. 797). Ou seja, os professores e professoras têm que se adaptar aos novos contextos das culturas escolares que estão inseridos, assim como pesquisadores/as estão aprendendo a lidar com novas fontes e objetos de pesquisa.Simultaneamente, a questão citada anteriormente, ao mesmo tempo em que a internet traz consigo o acesso inesgotável a conteúdos das mais diversas áreas, a rede mundial também pode trazer a tona o que o historiador Fernando Cesar Sossai (2011) discute como a sedução pelo computador. Os materiais disponíveis online nem sempre são confiáveis ou até mesmo verossímeis; é de extrema importância que os alunos e alunas sejam instrumentalizados na escola para que aprendam a acessar informações corretas. A atividade: analisando o processo Como o conteúdo do segundo semestre dos sextos anos é a “Pré- História”, buscamos abordar durante as oito semanas de estágio a “Pré- História” no território brasileiro e catarinense.42 Procuramos problematizar, a partir de evidências materiais, diferentes aspectos das “culturas pré- históricas” brasileiras exemplificando modos de vida, relações, e culturas de diferentes povos. Segundo o arqueólogo André Prous, “todas as fontes da história do território hoje conhecido como Brasil, antes da chegada dos europeus, são arqueológicas – ou seja, compostas de vestígios materiais deixados pelos homens e parcialmente preservados dos processos naturais de degradação” (Prous, 2006, p. 4). Desse modo, a partir de noções de arqueologia e da importância dos vestígios para a História43, buscamos contribuir para a formação histórica dos alunos e alunas. Segundo Rüsen (2007), a relação entre a vida prática e o saber histórico pode ser definido como o processo de aprendizado histórico. Ou seja, sempre há uma utilidade prática no desenvolvimento do saber histórico dos alunos a partir do momento que o mesmo, como um movimento da consciência histórica, é inserido na vida prática dos estudantes após a interpretação histórica do passado. A identificação espacial e temporal da história de povos que habitavam o território brasileiro antes do contato com os europeus pode orientar os(as) estudantes em utilidades práticas a partir da inserção dessas problemáticas na própria vivencia dos(as) estudantes no presente. Assim, encaminhamos o estágio de forma que os alunos e alunas conseguissem identificar espacial e temporalmente a pré-história brasileira e catarinense. Dentre as atividades realizadas no estágio, o foco de análise deste capítulo são cartazes produzidos pelos alunos que tinham como objetivo sistematizar informações acerca de sítios arqueológicos “Pré-históricos” brasileiros. A turma, composta por 26 alunos, foi dividida a partir de um sorteio em cinco grupos, sendo cada grupo – quatro compostos por cinco alunos e um composto por seis – era responsável por pesquisar um sítio arqueológico “Pré-histórico” brasileiro de determinada região do Brasil. Como são cinco regiões (Norte, Nordeste, Centro-oeste, Sul e Sudeste) cada grupo escolheu um sítio arqueológico para realizar uma pesquisa sobre o mesmo com os seguintes itens: onde o sítio se localiza; quais grupos “Pré- históricos” ocupavam a região e/ou grupos descendentes dos primeiros povos habitantes; quais as características ou práticas culturais desses grupos; imagens do sítio escolhido. Como o colégio tem alunos das mais diversas classes sociais, alguns deles poderiam não ter acesso à internet em casa para a realização da pesquisa. Durante a aula de produção do cartaz, os grupos se juntaram e distribuímos tablets que a escola disponibiliza perante reserva para os estudantes, para que caso alguém não tivesse acesso a internet pudesse contribuir com o trabalho. Após a pesquisa – que foi uma espécie de tarefa para ser realizada em casa – os alunos e alunas deveriam produzir um cartaz na aula seguinte em que nós os informamos sobre o que deveria ser pesquisado. Observando o material selecionado pelos alunos e alunas, podemos perceber que uma grande maioria – com exceção de um grupo – preocupou- se em explanar os sites acessados para realizar a pesquisa. Partindo dessa observação, fica visível que grande parte da turma não se preocupou com a veracidade das informações que encontrou na internet, ou em explanar o local da qual as mesmas foram retiradas. Os cinco grupos, já com seus integrantes sorteados e divididos durante a aula para a produção do cartaz, pesquisaram e realizaram a atividade avaliativa cada um à sua maneira. Os estudantes optaram por intercalar imagens com textos escritos à mão e recortes impressos para produzirem seus trabalhos. O grupo responsável pela região Nordeste pesquisou a Serra da Capivara, e integrantes do grupo trouxeram uma série de imagens que deixou o cartaz bastante ilustrado. O grupo respondeu às perguntas que constavam na tarefa da pesquisa de maneira bem sucinta e objetiva, e se preocuparam em utilizar o termo “site oficial” para compor um quadro de dados sobre o complexo arqueológico piauiense. A partir dos dados trazidos no cartaz pesquisei a origem das informações expostas no mesmo. O quadro de “Dados sobre o Parque” foi inteiramente copiados da Wikipédia44 e no cartaz não existe nenhuma menção a Fumdham (Fundação Museu do Homem Americano), que é a instituição que financia e também gerencia o parque. Outro subtítulo do cartaz intitulado “O que fazem?” trouxe uma frase autoral do próprio grupo, que, ao que parece, é uma espécie de consideração autônoma dos integrantes à respeito do complexo arqueológico escolhido. No trecho, encontramos a seguinte consideração: “O sítio arqueológico (Serra da Capivara) é um lugar de pesquisas e dados da pré-história, como escritas rupestres entre outros” (sic). Ou seja, mesmo copiando informações da internet, o grupo trouxe a tona considerações próprias sobre o tema. Um fato interessante do cartaz foi que os estudantes que pesquisaram a Serra da Capivara não trouxeram muitas características dos habitantes do grupo, da região ou do sítio. Na apresentação do trabalho, os integrantes lembraram de discussões anteriores em sala, e trouxeram como exemplo das práticas cotidianas dos grupos que habitavam o local as pinturas corporais e as próprias pinturas rupestres, que são a principal atração do parque da Serra da Capivara. O grupo responsável por pesquisar sítios arqueológicos da região Sul foi o único que colocou no cartaz a fonte das informações selecionadas – as mesmas, segundo as informações do cartaz, retiradas do IPHAN e da RBS. O grupo pesquisou o sítio arqueológico Abreu e Garcia, que fica na região serrana do estado de Santa Catarina, e todas as informações solicitadas na pesquisa encontraram-se presentes no cartaz. Procurando por trechos dos recortes impressos que o grupo utilizou para a produção do trabalho, percebemos que todas as informações da pesquisa foram retiradas do mesmo local, assim como a maioria das imagens. As informações foram retiradas de uma espécie de dossiê do Grupo RBS45 sobre os Proto-Jê, povo que habitava a região do sítio escolhido. O site46 tem uma série de informações sobre arqueologia em Santa Catarina, e contém uma linguagem bastante acessível e didática, destacando pesquisas arqueológicas na região, assim como o turismo. Informações sobre o cotidiano dos habitantes “pré-históricos” da serra catarinense também ganham destaque a partir de imagens – que foram utilizadas na produção do cartaz. Cartaz do grupo responsável por pesquisar a região Sul. No canto inferior esquerdo é possível ler. Fonte: IPHAN e RBS. O grupo que pesquisou a região Centro-Oeste escolheu trazer informações à respeito do estado de Mato Grosso. No cartaz não havia especificações sobre os endereços digitais das informações coletadas, mas reproduzindo os trechos utilizados na produção da atividade na internet, percebi que as informações coletadas para os itens “Clima”, “População” e alguns trechos do item “Sítio arqueológico” foram retirados da Wikipédia.47 O site Info Escola48 foi a fonte utilizada como a introdução do cartaz, que trouxe a tona uma série de informações sobre a história do estado. No que diz respeito à sítios arqueológicos, o grupo usou informações do site Ensinar História,49 que é alimentado por uma professora de históriaque disponibiliza informações e materiais didáticos acerca da disciplina. A partir de um olhar geral, o cartaz ficou bastante organizado, mas não deu o devido foco ao tema da atividade, que era falar sobre um sítio arqueológico de um determinado estado. Poucas das imagens eram relacionadas à arqueologia ou a sítios arqueológicos, e não ficou bem especificado qual o sítio arqueológico do estado foi escolhido como objeto de pesquisa do grupo. Os integrantes não trouxeram para o cartaz conclusões próprias a respeito do tema, apenas recortes de informações impressas da internet. Cartaz do grupo que pesquisou a região Centro-Oeste. A região Sudeste teve o sítio arqueológico da Pedra Pintada, em Minas Gerais, como escolhido para a produção do cartaz. O grupo passou por uma série de dificuldades, pois nenhum dos integrantes levou para a sala de aula materiais para a realização do cartaz. Após confundirem o sítio arqueológico da Pedra Pintada que fica em Minas Gerais com a Pedra Pintada, uma formação rochosa em Roraima que coincidentemente também é um sítio arqueológico, o grupo teve que refazer seu trabalho. No cartaz já condizente com a região Sudeste – e após o mal entendido com os nomes do sítio arqueológico – o grupo fez um cartaz com todas as informações pedidas e se preocupou em colocar no trabalho a fonte da pesquisa, o site Vaqueanano,50 um portal autoral voltado para relatos de viagens. No que diz respeito aos itens solicitados na pesquisa, os alunos se preocuparam em responder às questões formulando considerações próprias. Em relação à equipe responsável pela região Norte, o sítio arqueológico contemplado foi o Parque Arqueológico do Solstício, que fica no estado do Amapá. No subtítulo intitulado “Um pouco sobre o parque”, as informações expostas foram extraídas da Wikipédia51 e de uma notícia da Folha de São Paulo52 sobre o sítio arqueológico. Como o grupo não encontrou informações sobre os primeiros povos que habitaram a região, os integrantes escreveram um parágrafo com suas próprias palavras: “os indígenas de hoje que moram lá, são descendentes dos primeiros povos que habitavam o local” (sic). A internet como meio de pesquisa Quando se trata de trabalhar com a “pré-história” em sala de aula, o distanciamento temporal é uma das principais dificuldades, assim como a escassez e a dificuldade de acesso à fontes. A internet, atualmente, é uma das principais formas de professores e alunos entrarem em contato com informações essenciais para discussões em sala de aula, e a cada dia os/as docentes têm que se adaptar ao mundo globalizado afetado cada vez mais pelas tecnologias de comunicação eletrônicas e digitais. A partir da análise dos cartazes produzidos pela turma do 6º ano B, foi possível perceber a estreita relação que os alunos, cada vez mais cedo, vêm construindo com os meios de comunicação digitais. No que se refere a estudos que relacionam a internet com a história propriamente dita, ou até mesmo com o ensino de história, existem ainda poucos trabalhos que priorizam o tema. O interesse para com o tema tem crescido exponencialmente, e ainda encontra-se em consolidação. O ramo da história que vem priorizando as fontes digitais, atualmente, é a História do Tempo Presente, pois a mesma tem como recorte temporal a contemporaneidade (Oliveira, 2014). Na contemporaneidade na qual nossa sociedade está inserida, o número de estabelecimentos de ensino com acesso à internet, segundo dados do MEC,53 cresceram de maneira bastante significativa. Segundo o historiador Fernando Cesar Sossai, nessa apologia ao mundo da informática, encontram-se indícios de estratégias governamentais que transformam o computador – enquanto ícone de tecnologia – em um objeto de adoração que pode originar um salto qualitativo na vida dos brasileiros e, especialmente, nos fazeres da cultura escolar. Nesse sentido, o equipamento figura tal qual uma espécie de semióforo,54 cujo valor não mais reside em sua materialidade, mas sim em sua suposta capacidade de mediação entre as contingências tecnodigitais de um mundo globalizado e o dia a dia das sociedades. (2011, p. 19) Ou seja, é essencial se levar em conta a necessidade de problematização dos dados governamentais disponibilizados pelo MEC, no que tange a disponizalização de computadores para escolas e o acesso a internet. É essencial ter em vista a aquisição desses materiais sem a estrutura para utilizá-los, bem como uma série de cuidados é importante para que se evite uma adoração aos computadores como estratégias governamentais. As bases para a atividade de produção do cartaz foram a pesquisa que deveria ser realizada em casa, e todos os integrantes da turma que trouxeram material para a atividade pesquisaram sobre os sítios arqueológicos brasileiros na internet. Segundo os historiadores Frederico Cardoso e Marina Amorim, “as tecnologias da informação e comunicação podem se apresentar como ferramentas importantes para aprendizagem escolar, desde que ressaltados o seu caráter tanto colaborativo como reflexivo” (Cardoso, Amorim, 2012, p. 148). Ou seja, é importante para os alunos e alunas lidarem com as informações dispostas pela tecnologia como mecanismo para reflexões mais aprofundadas sobre os conteúdos pesquisados – o dito ‘caráter colaborativo como reflexivo’ citado acima. Os alunos e alunas que realizaram a pesquisa para a produção do cartaz retiraram, como já foi dito anteriormente, as informações e imagens referentes aos seus respectivos sítios arqueológicos majoritariamente da internet. No gráfico disponível abaixo, pode-se perceber que o site mais recorrente em todas as pesquisas foi a Wikipédia. A Wikipédia é um projeto de enciclopédia colaborativa online, apoiado pela Wikimedia Foundation, organização sem fins lucrativos. O site trabalha com um sistema aberto, modelo de edição “wiki”. Cada artigo pode ser editado tanto de forma aberta ou com uma conta de usuário. Na Wikipédia, nenhum artigo ou conteúdo é propriedade do seu criador ou do editor. A avaliação não é feita por autoridades reconhecidas e os conteúdos são acordados por consenso.55 Isto é, quando estudantes se utilizam da enciclopédia digital como fonte de pesquisa, eles não levam em conta que algumas das informações contidas podem estar incorretas. Considerando “que o conteúdo apresentado [...] compõe o aprendizado histórico dos que realizam pesquisa ou leem textos e imagens publicados nos sites de pesquisa escolar” (Oliveira, 2014, p. 37), é importante levar em conta que quando a/o estudante toma a iniciativa de realizar uma pesquisa na internet sobre conteúdos históricos, os mesmos ajudam na formação da cultura histórica desse estudante. A cultura histórica, segundo o historiador alemão Jörn Rüsen (2007), é o resultado de manifestações da consciência histórica que se relacionam aos diversos meios nos quais a história é utilizada, mesmo que de forma inconsciente, e não se resume ao que é ensinado/aprendido no ambiente acadêmico e/ou escolar. Professores e professoras de História, ao mesmo tempo em que se adaptam às situações do cotidiano marcadas pelas inovações tecnológicas, devem tentar guiar os alunos e alunas a usar sua narrativa histórica para selecionar as fontes necessárias para trabalhos escolares na vastidão dos conteúdos digitais. Na perspectiva da historiadora Maria Auxiliadora Schmidt, O professor de História pode ensinar o aluno a adquirir as ferramentas de trabalho necessárias; o saber-fazer, o saber-fazer-bem [...] Ele é o responsável por ensinar o aluno a captar e valorizar a diversidade dos pontos de vista. Ao professor cabe ensinar o aluno a levantar problemas e reintegrá-los num conjunto mais vasto de outros problemas, procurando transformar, em cada aula de História, temas em problemáticas. (Schmidt, 1997, p. 57) A partir de trabalhos com pesquisas na internet, uma série de questionamentos podem ser levantados por parte dos professores e professoras de História. Numa sociedade amplamente marcada pela tecnologia, a História se faz cada vez maispresente no cotidiano dos estudantes justamente pelas possibilidades expostas pelo aparato da internet. Referências AQUINO, Israel. Pesquisa e ensino de História na internet: limites e possibilidades. AEDOS, v. 4, n. 11, p. 796-809, 2012. CARDOSO, Frederico Assis; AMORIM, Marina Alves. A História a um clique: As tecnologias da informação e da comunicação, os documentos em suporte não-convencionais e o ensino de história. Cadernos de História, v. 12, n. 17, p. 147-157, 2012. FERREIRA, Carlos Augusto Lima. Ensino de História e a incorporação das novas tecnologias da informação e comunicação: uma reflexão. Revista de História Regional, v. 4, n. 2, p. 139-156, 2007. OLIVEIRA, Nucia Alexandra Silva. História e Internet: conexões possíveis. Tempo e Argumento, v. 6, n. 12, p. 23-53, 2014. PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros – a pré-história do nosso país. Zahar, 2006. RÜSEN, Jörn. História Viva: teoria da história – formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: Editora UnB, p. 85-134, 2007. SCHMIDT, Maria Auxiliadora. A formação do professor de História e o cotidiano da sala de aula. In: BITTENCOURT, Circe. O saber Histórico na sala de aula. São Paulo: Editora Contexto, 1997. ______. Cultura histórica e cultura escolar: diálogos a partir da educação histórica. História Revista, v. 17, n. 1, p. 91-104, 2012. SOSSAI, Fernando Cesar. Ensino de História e “novas tecnologias educacionais”. Joinville: Editora Univille, 2011. Notas 41. Durante a disciplina de estágio, fomos orientados pela professora Nucia Alexandra Silva de Oliveira. 42. Por conta de diversos feriados e eventos do colégio, nosso calendário foi bastante prejudicado e uma série de atividades previstas não pode ser realizada em função da inviabilidade do tempo. 43. Além da arqueologia, é essencial destacar a relevância dos estudos de etno-história e das tradições orais. 44. Wikipédia. Parque Nacional Serra da Capivara. Disponível em: . Acesso em: dez. 2016. 45. Rede de comunicação afiliada à Rede Globo, que abrange os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul através de emissoras de TV e Rádio, jornais e portal de internet. 46. Clicrbs. Origens de um povo catarinense. Disponível em: . Acesso em: dez. 2016. 47. Wikipédia. Geografia de MatoGrosso. Disponível em: . Acesso em: dez. 2016. 48. Infoescola. História de Mato Grosso. Disponível em: . Acesso em: dez. 2016. 49. Ensinar escola. Disponível em: . Acesso em: dez. 2016. 50. Vaqueno. Sítio Arqueológico pedra pintada. Disponível em: . Acesso em: dez. 2016. http://bit.ly/2SyewyK http://bit.ly/2Qpm5Li http://bit.ly/2rwzrqc http://bit.ly/2E93M61 http://bit.ly/2Ga9W8B http://bit.ly/2B5N18C 51. Wikipédia. Parque Arqueológico do Solstício. Disponível em: . Acesso em: dez. 2016. 52. Folha de São Paulo. “Stonehenge” amazônico foi criação local. Disponível em: . Acesso em: dez. 2016. 53. Segundo o Programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo), de 1997 a 2006 foram adquiridos mais de 147 mil computadores que foram distribuídos para 15 mil estabelecimentos de ensino. Além disso, existem Núcleos de Tecnologias Educacionais que tem como objetivo promover a formação continuada de professores para o uso de tecnologias de comunicação e informação e sala de aula. Disponível em: . Acesso em: dez. 2016. 54. Semióforo é um sinal ou imagem capaz de ligar o visível ao invisível, e permanece no imaginário das pessoas. 55. Dados retirados de um artigo da Wikipédia a respeito de sua própria história. Disponível em: . Acesso em: dez. 2016. http://bit.ly/2C2Kb69 http://bit.ly/2zRpEQ9 http://bit.ly/2Qk5VD7 http://bit.ly/2PsRZkR 9. CONEXÕES TEMPORAIS: RELAÇÕES QUE JOVENS DO 1º E.M. FAZEM ENTRE PRESENTE E PASSADO NA HISTÓRIA – FLORIANÓPOLIS, 2016 Talita Garcia Ferreira A contribuição mais substantiva da aprendizagem da História é propiciar ao jovem situar-se na sociedade contemporânea para melhor compreendê-la. (Brasil, 2000, p. 24) Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) são a orientação básica para a elaboração das matrizes de referência. Eles foram elaborados para difundir os princípios da reforma curricular e orientar os/as professores(as) na busca de novas abordagens e metodologias. Assim, os PCNs voltados para a disciplina de História no Ensino Médio apontam que a principal função do conhecimento histórico, nessa faixa etária, é oferecer recursos para que esses/as jovens possam compreender a sociedade atual, por meio de conceitos como a representação do mundo social, a construção dos laços de identidade e cidadania, das noções do tempo histórico, as relações entre passado-presente, entre outras discussões competentes ao ensino de história. Maria Auxiliadora Schmidt (2009), ao analisar a proposta dos PCNs para a aprendizagem histórica nos primeiros ciclos, aponta que o documento enuncia três marcos explicativos dentro da perspectiva construtivista de enfoques cognitivos, sendo o primeiro referente ao acesso aos conhecimentos históricos, os quais são adquiridos por meio do convívio social e familiar, pelos meios de comunicação, entre outras formas que constituem os chamados conhecimentos prévios. Estes conhecimentos “agregam às suas vivências informações, explicações e valores oferecidos na sala de aula, indicando um segundo entendimento, de que as informações e questões históricas podem ser incorporadas significativamente pelo adolescente” (Schmidt, 2009, p. 28), dessa maneira, esse segundo marco se dá em como os/as estudantes trazem suas vivências para a sala de aula, seus pensamentos, seu cotidiano e sua cultura de forma geral, o que influencia no seu aprendizado e na sua compreensão dos temas abordados, pois faz parte da sua forma de observar o mundo e dar sentido àquilo que vê. Já o terceiro marco trata da articulação entre os conhecimentos prévios e os saberes escolares, conforme apresenta o documento: A intenção é que ele [o aluno] desenvolva a capacidade de observar, de extrair informações e de interpretar algumas características da realidade do seu entorno, de estabelecer algumas relações e confrontações entre informações atuais e históricas, de datar e localizar as suas ações e as de outras pessoas no tempo e no espaço e, em certa medida, poder relativizar questões específicas de sua época. (Brasil, 1998, p. 40) Isso significa que, para o/a estudante compreender a sociedade contemporânea e conseguir situar-se nela, deve adquirir conhecimentos históricos por meio da aprendizagem histórica, definida por Jörn Rüsen (1993, p. 52) como “a consciência humana relacionada ao tempo, analisando o tempo para ser significativo, adquirindo a competência de dar sentido (significado) ao tempo e desenvolver esta competência”, logo, é o movimento consciente de localizar fatos entre dois polos, conseguir situá- los no tempo e analisá-los partindo de uma problemática, adquirindo assim, a consciência histórica, definida pelo pesquisador como “a capacidade das pessoas de construir sentido histórico, com o qual organizam temporalmente o âmbito cultural da orientação de sua vida prática e da interpretação de seu modo e de si mesmas” (Rüsen, 2007, p. 103). Para Rüsen (2007, p. 86) o desenvolvimento da competência narrativa e, portanto da consciência histórica, se faz no limiar entre a vida prática e a ciência especializada, afirmando que esse movimento entre a história científica e a didática é de suma importância para a matriz disciplinar da ciência história e que as experiências vividas moldam as concepções do “aprender”, sendo este entendido como um processo reflexivo de experiência e competência, na qual é na “contribuição da ciência da história para o desenvolvimento daquelas competências da consciência histórica que são necessárias para resolver problemas práticos de orientação com o auxílio do saber histórico” (Rüsen, 2001, p. 94), sendoentão essa relação entre ciência e prática que fornece bases para uma construção identitária, por meio da aprendizagem histórica, e de um modo de agir conscientemente na sociedade. Neste mesmo sentido, Lana Mara de Castro Siman (2005), ao trabalhar com as representações e memórias sociais de crianças sobre a temática dos negros na história do Brasil, aponta que os PCNs atribuem ao ensino de história o papel de “formar um novo cidadão que, dentre outras características, seja capaz de compreender a história do país e do mundo como resultante de múltiplas memórias originárias da diversidade das experiências humanas” (Siman, 2005, p. 350). E é a partir desta perspectiva que foi pensado o cronograma e as aulas aplicadas durante o Estágio Curricular Supervisionado na turma do 1º D do Colégio de Aplicação da UFSC, cujo objetivo principal foi “problematizar a composição sociocultural/étnico-racial do Brasil, no Período Regencial e no Segundo Reinado, e suas implicâncias na atualidade”. Assim, o presente capítulo tem o objetivo de analisar as relações entre presente e passado realizadas pelos(as) estudantes do 1º ano do Ensino Médio durante o tempo do estágio. A realização da investigação se deu nas atividades respondidas pelos alunos e pelas alunas, cujas perguntas estimulavam a reflexão sobre a função de estudar os conteúdos trabalhados e quais as suas relações com o tempo presente. Além dessas atividades, observou-se a turma no decorrer das discussões em sala e nos trabalhos em grupo. Dessa forma, buscamos observar a relação entre a forma como os/as estudantes “usam a história” em seus argumentos em contraposição ao que dizem ser a história em suas respostas. O estágio foi realizado entre os meses de agosto e outubro de 2016 no Colégio de Aplicação da UFSC, sob orientação da Profa. Dra. Caroline Jaques Cubas e coorientação da Profa. Dra. Karen Christine Rechia, responsável pela turma do 1º do Ensino Médio na instituição. Nos meses de abril e maio do mesmo ano observamos a turma, conhecemos seus/suas estudantes a fim de descobrir as características do grupo e elaborar atividades que fossem atraentes a eles/elas. Uma das principais características analisadas foi o interesse pelos eventos presentes, surgindo muitas discussões nas aulas, as quais relacionavam o tema estudado com o que estava sendo vivido no momento, movimento esse coordenado e incentivado pela professora Karen, assim como a construção do pensamento crítico. Dessa forma, o presente capítulo está dividido da seguinte maneira: iniciamos com uma discussão sobre as transformações do ensino de história no Brasil do século XIX até os dias atuais, para em seguida trabalharmos com as atividades realizadas pelos/as estudantes, a fim de observar como eles(as) relacionam o passado com o presente e como a história os/as ajuda a compreender sua contemporaneidade. O ensino de História no Brasil A História constitui-se como disciplina escolar na primeira metade do século XIX e desde seu princípio procurou desempenhar a função de construir uma identidade nacional entre as crianças e os jovens que a estudavam, como se apresentou em diversas pesquisas acerca do ensino de história (Bittencourt, 1990; Caimi, 2001; Gasparello, 2004). A historiadora Circe Bittencourt (2007) elencou quatro momentos distintos da finalidade dessa função da disciplina escolar, os quais foram se alterando conforme o cenário político-educacional. O primeiro momento, no período de pós-independência e formação do Estado-Nação, Circe Bittencourt aponta que “a opção das elites no poder, elites provenientes do setor agrário e escravagista, foi a constituição de um nacionalismo identificado com o mundo cristão e branco europeu, acrescido de um espectro conservador representado pelo regime monárquico” (Bittencourt, 2007, p. 35), logo, a narrativa privilegiava o estudo das guerras do período colonial, juntamente com suas figuras heroicas, enfatizando os colonizadores portugueses, além de destacar a importância dos jesuítas e dos bandeirantes na formação e expansão da Nação brasileira. Já o segundo momento apontado pela autora corresponde aos finais do século XIX até os anos de 1940, quando se verifica “um movimento em direção ao fortalecimento de um nacionalismo patriótico e de sedimentação de uma história nacional com passado homogêneo, sem conflitos e único para os brasileiros” (Bittencourt, 2007, p. 38), pois o momento político reforçava esse desejo de união nacional, da existência de um modelo único de cidadão brasileiro, uniformizando o seu passado histórico e generalizando sua cultura. O terceiro momento, que inicia após o fim da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo em 1945 e vai até o fim da Ditadura Civil-Militar em 1985, é um período paradoxal, porque por um lado, nas décadas de 1950 e 1960 vislumbram-se novas análises historiográficas com base em referências marxistas, trazendo-se para o debate os chamados ‘excluídos da história’, tais como escravos, colonos, pobres, operários, mulheres; ainda, reivindicando-se a presença do estudo acerca da sociedade, da economia e da cultura na história escolar e criticando a história predominantemente política então vigente. (Caimi, 2013, p. 22) Porém, esses avanços foram interrompidos com o golpe militar de 1964, e assim, retornou-se ao ensino de história56 dos grandes heróis da Nação e das datas e comemorações cívicas, utilizando metodologias de memorização e repetição de lições. Já o quarto e último momento elencado por Bittencourt inicia-se na década de 1980 no contexto das lutas pela democracia do país, no qual, “diante da expressiva expansão da escolarização básica do período ditatorial, buscava-se recuperar a qualidade do ensino por meio de novas políticas públicas e de reformulações curriculares em todos os níveis”, e dessa forma, buscar retornar aos debates do ensino de história com viés cultural e dos chamados “excluídos da história” (Caimi, 2013, p. 24). Diante dessas novas demandas, no século XXI, o pesquisador Peter Lee (2011), no seu texto Por que aprender História, elenca quatro temas ou dimensões para se pensar o ensino de história, sendo eles: a importância da história para a validação do passado; a relevância da evidência; a problemática das leis de generalizações; e o significado da experiência vicária para a construção da aprendizagem histórica. Em relação à validação do passado o autor afirma que “o passado dá concreticidade aos nossos conceitos” (Lee, 2011, p. 20), portanto, a função social da história está na utilização do passado para responder questões do presente, selecionando determinados acontecimentos para explicar e regrar as ações passadas e presentes, servindo o passado como árbitro dessas ações. Porém, Lee chama a atenção para o cuidado ao se utilizar questões do passado para agir no presente e acrescenta a importância da história para fazer essa análise do passado, pois “sem história o passado serve meramente a interesses práticos” (Lee, 2011, p. 25). Essa ideia sintetiza uma realidade em muitas salas de aula de história, nas quais o objetivo de ensinar fatos do passado é para serem aplicados em provas e trabalhos, apenas com o intuito de decorar informações para um fim automático reprodutivo, sem ter a compreensão do porque o fato aconteceu e como ele pode marcar questões do presente. Já sobre a questão da relevância da evidência, o autor afirma que é apenas o uso dessas evidências que faz a investigação histórica ser racional, e sem essa racionalidade a história já não possui função social, logo, deve- se pensar partindo do passado para compreender questões do presente. Outro ponto importante que o autor apresenta é o cuidado com as leis de generalizações, as quais apontam que “as ‘lições da história’ são geralmente enquadradas como generalizações de algum tipo, apoiando as previsões” (Lee, 2011, p. 28), isso significa que essas previsões devem ser compreendidas como advertências ou suposições, mas nunca como algo concreto, pois o historiador pode orientar as ações, porém, não podepredizer o futuro. Ele as analisa de forma lógica e cumulativa, pensando nas razões e nas escolhas que desencadearam determinado fato. A questão da experiência vicária vai ao encontro dessa discussão do passado histórico orientando o presente. Ela é útil em circunstâncias práticas com o intuito de pensar novos modos de ver as coisas. Assim, “a experiência vicária que é adquirida no ensino de história, estimula a imaginação e expande a concepção do educando do que é ser humano, e assim, do que ele ou ela pode vir a ser” (Lee, 2011, p. 40). Nesse sentido, o autor afirma que o indivíduo que aprendeu história estará melhor equipado para lidar com o mundo, sendo esta mais uma função social da história. A potencialidade da aprendizagem de história gira em torno também do desenvolvimento da consciência histórica, a qual abrange tanto a questão da identidade pessoal quanto de sua orientação no tempo, e, como complementa Schmidt (2009, p. 34), à medida que as pessoas aprendem história elas criam competências e encontram significados para os atos ao seu redor, além de se localizarem no tempo e no espaço. “Nesta dimensão da aprendizagem o aumento da experiência e conhecimento é transformado em uma mudança produtiva do modelo ou padrão de interpretação” (Schmidt, 2009, p. 34). A fim de desenvolver a consciência histórica nos estudantes, Rüsen utiliza-se da cognição histórica situada, a qual é pautada em três princípios: da experiência, da orientação e da interpretação, que de forma geral se constroem a partir dos conhecimentos prévios dos(as) estudantes, os quais, juntamente com a orientação do docente, trabalham com os conceitos e as categorias históricas, com o propósito de realizar interpretações sobre o passado e o presente e conseguindo pensar historicamente e sanar carências de orientação temporal. Foi pensando neste movimento, que se faz entre a vida prática e os saberes escolares especializados, que se trabalhou durante o estágio, procurando perceber os conhecimentos prévios da turma, abordando temas do passado, mas que possuem influências e relações com o tempo presente, para assim, fazer com que o saber apreendido seja relevante para os/as estudantes compreenderem sua sociedade contemporânea. Conhecimentos prévios A construção do conhecimento não se dá apenas na sala de aula, mas sim na interação entre o indivíduo e o mundo exterior. Nesse sentido, “as crianças e adolescentes não são sujeitos a, simplesmente, absorver e refletir o conhecimento do mundo adulto, tal como um ‘espelho’. Entre o ato de internalizar as concepções e expô-las, há um processo onde os objetos são rearticulados, onde age a individualidade de cada um” (Siman, 2005, p. 351). Dessa forma, os/as estudantes vão desenvolvendo representações e experiências sobre o que convivem e aprendem, cabendo ao professor(a) trabalhar com essas ideias prévias e orientar os alunos e alunas frente ao pensamento crítico e aos métodos históricos. No primeiro semestre de 2016, antes do início do estágio, realizou-se uma oficina investigativa com a turma escolhida a fim de perceber os conhecimentos prévios que os/as estudantes possuíam sobre alguns conceitos históricos. Essa atividade se deu por meio do exercício de twittar57 suas compreensões nas seguintes hashtags58: #oqueéhistória, #pqaprenderhistória, #tempohistórico e #issoéfonte. Diante disso, os grupos deveriam debater entre si quais frases explicariam seu entendimento sobre o que é a História, porque aprender história (disciplina) e qual a definição de tempo histórico e fonte histórica. Obtiveram-se os seguintes resultados: #oqueéhistória: “História são acontecimentos que marcaram certa época e ajudam a entender no que eles influenciam ou como ajudam a entender os acontecimentos de hoje”; “O que é, o que é? Tá no passado e também no futuro?”; “É o estudo do passado para compreender o presente”; “História é o estudo do passado para entender o presente”; “História é tudo! Tudo é/tem história. Tudo que tem início, um objetivo, um lugar, um ser”. #pqaprenderhistória: “Para tomarmos conhecimentos sobre tudo o que já aconteceu em um determinado tempo e tudo que acontece na atualidade”; “Ter consciência do nosso passado para melhorar o futuro”; “Para refletir e problematizar e ter senso crítico”; “Conhecendo o ontem, você pode entender melhor o hoje e trabalhar por um amanhã melhor”; “Sabendo como foi o passado, temos uma base para a nossa sociedade. Aprendendo para não cometer os mesmos erros e utilizando os ideais do passado”. #tempohistórico: “Tempo marcado para acontecimentos importantes”; “É marcado por grandes acontecimentos”; “Revela e esclarece o processo pelo qual passou ou passa a realidade em estudo”; “Momento em que acontece um fato marcante na história de algo ou alguém”. #issoéfonte: “São opiniões/pontos de vista documentados de alguém sobre um determinado acontecimento”; “Tudo produzido em uma determinada época com uma visão sobre outra”; “É a base para pesquisa e veracidade da história”. A partir destas respostas, percebeu-se que a turma já havia trabalhado com pesquisa histórica e com fontes durante outros anos no colégio e com a professora Karen, além de compreender que a função da história não é apenas saber o que acontece no passado, mas que os eventos têm relações com o tempo presente. Porém, constatou-se também a ideia da “história mestre da vida”, na qual se aprende história para não repetir os mesmos erros no futuro. Com essa atividade e outras durante o estágio percebeu-se que grande parte da turma possui e expõe seu pensamento crítico, fazendo problematizações que envolvem o tempo presente e os acontecimentos ao seu entorno. Como explicado anteriormente, o presente capítulo busca realizar uma análise de como os/as estudantes atribuem valor, pensam e representam as funções do conhecimento histórico trabalhado durante o período de estágio, tendo como fontes as atividades realizadas pelos(as) estudantes do 1º ano do Ensino Médio. Apresentados os conhecimentos prévios que foram mapeados, passamos agora para a análise das respostas formuladas pela turma, as quais serão aqui organizadas por atividades em ordem cronológica, buscando também observar as mudanças e permanências nos resultados obtidos. Sistema Escravista e Período Regencial. Qual sua importância? Iniciamos o estágio trabalhando com a transição do Primeiro Reinado para o Período Regencial, abordando o contexto do Brasil e de Portugal para compreender essas mudanças, além de discutir a política regencial. Após essa introdução, partiu-se para a problematização do sistema escravista no Brasil, realizando também uma oficina sobre resistência escrava. Ao final destas aulas realizou-se a seguinte pergunta: “Qual foi a importância desses conteúdos (relações de escravidão e o governo no Período Regencial) para você e por que você acha que eles são estudados em sala de aula?”, a qual foi respondida em casa e se obtiveram algumas das seguintes respostas: (A.P.) Porque é importante entendermos como a história veio se constituindo ao longo do tempo, muitos fatos importantes que aconteceram há anos atrás acabaram influenciando no momento em que vivemos atualmente e para entendermos as coisas da atualidade é preciso compreender alguns fatores da história como, por exemplo, hoje em dia podemos explicar a presença do racismo, que teve seu início nas indiferenças do branco com o índio, com o escravo. (D.R.) Esses conteúdos são importantes para percebermos que o que ocorreu no passado acarreta consequências no presente. Os negros que antes sofriam com a escravidão hoje ainda sofrem com a desigualdade social e racismo. E no Período Regencial estudamos que não havia espaço para os pobres e a política estava em constante conflito como vemos hoje. (N.H.) Acho importante estudarmos o passado político do nosso país tanto para evoluir nosso conceito político individual, quanto para conhecer melhor nosso país, e não cometer os mesmos erros cometidos no passado. Acho ainda mais importante estudar em sala de aula dandoconteúdo de informação para que tenhamos nosso próprio conceito sobre a história do Brasil. (V.F.) A importância desses períodos na história, assim como os demais que estudamos, é saber e ver de onde viemos, pois os dias atuais estão diretamente ligados a essa base de acontecimentos do passado, as consequências desses processos na história são vistos até hoje, algumas boas e outras ruins, podemos destacar desses dois episódios, o racismo, que tem suas raízes na escravidão, golpes governamentais, dentre outros. Nessas repostas, e em outras ausentes neste texto, o que mais aparece é a relação entre a escravidão no país e o racismo atualmente, tema manifestado fortemente durante as aulas, principalmente quando se trabalhou com recortes da obra Casa grande & senzala de Gilberto Freyre (1933) e com estereótipos relacionados às populações negras, as quais são visíveis atualmente. Neste caso, observou-se o movimento de buscar no passado respostas para compreender o presente. Outras relações de passado-presente que são abordadas nas respostas são consequentes do momento político que estava ocorrendo: o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. Ao se trabalhar com os conceitos de Revolução, Revolta e Golpe a fim de destacar suas diferenças e suas aplicações em fatos históricos distintos, os acontecimentos que estavam em andamento no momento vieram à tona nas discussões das aulas, demonstrando que os/as estudantes trazem consigo suas vivências, ideias, opiniões e dúvidas para dentro da sala. E que o ensino de história, pode sim ser utilizado para explicar determinados fatos do presente por meio do estudo e problematizações do passado. Para Barca (2009, p. 39-40) os elementos da cognição histórica são a Experiência, a Orientação e a Interpretação, sendo esses pilares estão intimamente ligados uns dos outros e isso cria uma consequência “de que nunca se pode dissociar a aprendizagem história do sujeito que aprende e, portanto, a dinâmica da aprendizagem não se realiza quando a História é ensinada como algo dado”. E é nesse movimento em compreender a fluidez temporal da história que os/as alunos(as) conseguem fazer conexões entre os conteúdos trabalhados em sala com os acontecimentos contemporâneos. Associação direta entre passado e presente: escravidão e racismo Na segunda atividade, a turma estava trabalhando com o Segundo Reinado com foco no início da industrialização e no processo de abolição da escravatura e suas respectivas leis. Ao mesmo tempo, na aula compartilhada59 estava-se trabalhando com a oficina sobre escravidão, racismo e movimentos de resistência por meio de músicas brasileiras do estilo rap. Assim, quando foi realizada a pergunta “Qual a conexão entre o processo de abolição de escravatura e a marginalização das populações negras atualmente?”, a associação entre o passado (escravidão) e o presente (racismo e marginalização da população negra) já havia sido discutida veementemente nas aulas. Dessa forma, as respostas contemplaram essa conexão, conforme nos mostram os exemplos a seguir: (A.P.) A marginalização das populações negras atualmente acontece a partir de uma memória coletiva criada desde a época da escravidão que, infelizmente, ainda permanece em nossa sociedade. Mesmo depois da abolição da escravatura, continuou-se com o ponto de vista de que o branco é superior ao negro, então a agressão deixou de ser física e passou a ser moral, resultando em uma visão que continua agredindo as populações negras, só que de uma forma diferente. (D.R./T.S.) Com a abolição da escravatura no Brasil os escravos viraram homens livres. Traficar, vender ou possuir escravos virou algo ilegal. Esse fato foi muito bom, um avanço para o Brasil. Mas o que pessoas que nada possuíam fariam com sua liberdade? Muitas vezes os escravos voltavam a trabalhar para o mesmo senhor, com condições semelhantes às anteriores, apenas com uma pequena remuneração. Recebendo pouco e sem ter onde morar, os ex escravos se aglomeravam em periferias. O que acabou desencadeando a marginalização da população negra. (M.A./R.A.) Quando aconteceu a abolição da escravatura, os ex-escravos não tinham dinheiro, lugar para ir e etc. E geralmente continuavam a trabalhar com o mesmo dono ou em trabalho parecido, ganhando muito pouco. Assim, eles iam para os morros (longe dos centros), e hoje se reflete nas favelas que não moradia da população pobre e local também de grande preconceito. (N.H./S.J.) Antigamente, botávamos os negros onde pensávamos que era o lugar deles. Víamos eles como animais, mercadorias e inferiores aos brancos. Mesmo com a abolição da escravatura a sociedade teve dificuldades em desconstruir essa ideia, reproduzindo isso até os dias atuais. Sendo até hoje discriminados eles sofrem sendo excluídos da sociedade. Não tendo os mesmos direitos e oportunidade por exemplo. [...]. As discussões e conceitos presentes nestas respostas provêm das discussões realizadas pela turma, não apenas durante o período de estágio, mas de todo o processo do ensino de história, pois a compreensão de processo histórico, a utilização de conceitos que não foram trabalhados durante a regência, como o de memória coletiva, bem como a problematização e a desconstrução dos acontecimentos, entre outros conhecimentos, estão presentes nas respostas. Dessa forma, utilizou-se das ferramentas e metodologias no ensino de história já conhecidas para trabalhar um tema específico, o qual, juntamente com as discussões realizadas, as fontes analisadas e o acompanhamento docente resultaram em respostas perspicazes e reflexivas. É importante notar também como os/as estudantes se colocam no texto, como aprovam ou desaprovam certas ideias e como se inserem na sociedade. Na última resposta, ao utilizar os verbos no pretérito perfeito como, por exemplo, “botávamos”, “pensávamos” e “víamos”, pode-se perceber que os/as autores(as) dessa resposta se colocam como brancos(as) e falam em nome desse grupo étnico, porém, quando a narrativa passa para o presente e afirmam que “a sociedade teve dificuldades em desconstruir essa ideia, reproduzindo isso até os dias atuais”, eles(as) não se colocam mais no texto, demonstrando, possivelmente, um posicionamento. Essa intimidade com o tema discutido e a inserção dos pensamentos críticos faz parte do processo de formação histórica, definido por Rüsen (2007, p. 95) como “o conjunto das competências de interpretação do mundo e de si próprio, [...] possibilitando assim o máximo de auto realização ou de reforço identitário”, os quais se opõem à unilateralidade e pressupõem a capacidade de refletir sobre temas abrangentes e de se inserir como sujeito agente, portanto, de “fazer-se valer como pessoa, no uso do saber para fins de orientação de sua própria vida prática, de afirmar-se como instância de legitimação dos modos práticos de viver” (idem.). Essas expressões das ideias, dos pensamentos, das posições políticas e sociais que estão presentes nas respostas de toda a turma, além do movimento realizado pelos(as) estudantes de refletir e opinar a partir do que foi estudado em sala e em conjunto com seus próprios posicionamentos e ideais, torna-se algo muito valoroso para o ensino, não apenas de história, mas na formação integral de cidadãos e cidadãs. Análises de fontes em oficinas Neste tópico trazem-se as experiências decorridas das aulas oficinais, enfatizando a última realizada e descrita acima cujos objetos foram as letras de músicas do estilo rap. As três outras oficinas realizadas com a turma, no decorrer do estágio, tiveram como tema: 1. Discurso de Von Martius sobre a construção da História do Brasil; 2. Resistência escrava; 3. Industrialização no Brasil Império. Em todas as três aulas foram utilizados documentos de época, iniciando com a contextualização do período e do documento por nós, professoras(es), e após isso se dividia a sala em pequenos grupos, os quais buscavam analisar a fonte por meio de perguntas ou critérios já estabelecidos. Mesmo já tendo as discussões e conhecimentos sobre o que é umafonte60, as falas dos alunos nas aulas não fugiram muito do que estava escrito no documento, cabendo a nós instigar os motivos do porquê aquilo foi escrito daquela maneira, naquele momento onde foi impresso, por quem, etc. e mesmo assim não havia muita participação ou interesse. Por esse motivo se pensou em levar fontes atuais e que fossem algo próximo do cotidiano deles(as): músicas. A oficina se baseou na letra de três músicas: Mandume,61 Delação Premiada62 e Boa Esperança,63 todas elas com letras marcantes e críticas que discutem a situação da população negra no Brasil, utilizando acontecimentos históricos, midiáticos e do cotidiano. Na atividade foi pedido que realizassem, individualmente, um comentário relacionando as análises das músicas, as discussões realizadas durante a oficina e os conteúdos trabalhados nas aulas (sistema escravista, resistências, revoltas regenciais, etc.). Eis alguns trechos das respostas obtidas: (D.R.) Ao decorrer desse estágio estudamos sobre momentos do Brasil imperial, regência, Primeiro Reinado, etc. E também estudamos sobre as classes sociais e suas interações. O sistema escravista e racismo. Que é o que as músicas falam. Essas canções relacionam o passado com o futuro. Os escravos com as vítimas de racismo hoje em dia. A polícia atual com os senhores de escravos, os dois maltratam, matam só pela cor. A situação atual é somente uma herança do passado. Os negros que eram antes escravizados não têm situações tão melhores hoje em dia. Vivem em casas ruins, não possuem muito dinheiro, estão em situação precárias, são sempre alvo da polícia. Obviamente hoje os negros não são escravizados e a lei lhes assegura direitos iguais então todos possuem teoricamente as mesmas oportunidades. Porém quem geralmente está nas favelas são negros. Quem morre para a polícia são negros. (A.P.) [...] Outro aspecto bem importante e bem presente atualmente é a influência da mídia e a injustiça com os negros pelos policiais. O racismo é uma herança da escravidão que se mantém até os dias de hoje e uma frase que retrata bem isso é da música “Boa Esperança”, que diz assim “favela ainda é senzala, jão!”. (B.P.) O rap é o principal meio de expressão da periferia, a periferia ou as favelas são a principal representação do povo negro do Brasil. As letras das músicas falam principalmente das relações de “poder” dos negros e policiais, relação que há séculos atrás era entre negros e senhores, negros e a liberdade. Na música da MC Carol – Delação Premiada – no primeiro refrão ela fala da morte de uma criança indo para a escola, logo após ela fala “na televisão a verdade não importa. É negro favelado então tava de pistola”, isso é uma manifestação explícita contra o racismo, quer dizer, que o que ele faz da vida não importa, se ele é negro mora na favela, então é bandido, este preconceito vem de muito tempo atrás. (N.H.) Durante a escravidão, os pretos eram tratados como objetos, sem memórias, sentimentos ou identidade. Sendo reconhecidos sempre como inferiores, até hoje são taxados como tal, pois o que importa e o que é mostrado é sempre o lado dos vencedores e infelizmente neste fato tem vencedor. Então, devido a uma construção social e histórica hoje os mesmo são taxados como marginais, indo para os morros e favelas e se metendo numa vida não digna de ser vivida por um ser humano, aí a elite julga que a solução para o problema é a redução da maioridade penal, por que é jovem traficando, usando, roubando e matando, ao invés de se preocupar com a sociedade e com uma dívida histórica que só cresce, a elite se preocupa em salvar a si mesma e jogar o resto no fundo do poço. [...]. (V.F.) As três músicas representadas, trazem o tema que ainda é muito presente nos dias atuais no Brasil, que é uma herança da escravidão da época colonial que estudamos em sala de aula. Desde os tempos antigos, o racismo, violência, preconceito era presente por conta da escravidão, pois as negras eram “inferiores” aos outros. “Mandume” conceitua o racismo, pré-conceito, feminismo, etc. Porém também encontramos trechos que citam a colonização europeia e personagens que são importantes para a cultura negra, como Zumbi. [...]. Novamente, percebe-se de forma explícita a opinião dos(as) estudantes em suas respostas. Por ser um tema já trabalhado, como demonstrado anteriormente, as discussões presente nesta oficina foram mais elaborados, tanto pelo fato dos(as) estudantes já terem uma bagagem de conteúdos históricos sobre o tema, quanto pelo uso e o incentivo da fonte histórica utilizada. Por ser algo do cotidiano da turma e atrativo, as músicas possibilitaram reflexões antes não acionadas, além de ser possível verificar como as letras e as melodias causaram um efeito nos(as) estudantes, de interesse e revolta pelo tema trabalhado. Peter Lee (2006) ao escrever seu texto Em direção a um conceito de literacia histórica faz uma série de análises em como diferentes perguntas sobre temas modelos podem incentivar à construção de diversos processos de compreensão sobre o assunto, buscando assim a efetivação da literacia histórica, a qual sugere que a finalidade do ensino de história é aproximar do/a estudante o processo de técnicas, de procedimentos e de métodos que o historiador realiza (Schmidt, 2009, p. 38). Com isso, os/as alunos/as podem “sugerir seus próprios critérios para acessar a mudança, e ver as formas as quais a ‘história’ [...] muda como um resultado, fazendo suas próprias interpretações” (Lee, 2006, p. 147). Com este intuito é que foram realizadas as oficinas com fontes e pode-se obter um resultado positivo quanto ao trabalho com as letras das músicas, pois a turma conseguiu realizar conexões temporais entre o passado brasileiro e a sociedade contemporânea, sendo o tema da escravidão mais presente, justamente por ser um conteúdo mais trabalhado e discutido em sala. Porém, são realizadas, também, conexões com a colonização europeia. Já em relação com o tempo presente, as respostas trouxeram temas como a mídia, a marginalização da população negra, as favelas, a redução da maioridade penal, a violência policial, os movimentos negros e feministas, entre outras questões que estão relacionados com o racismo. Por serem músicas com letras fortes e escritas por indivíduos negros(as), elas relatam e denunciam ações do cotidiano da população negra brasileira, fazendo referência, também, com processos históricos do país. Pode-se perceber que os textos escritos pelos(as) estudantes, a partir dessas canções, são conscientes e estão repletos de emoções, assim como as discussões realizadas durante a oficina. Por ser um tema muito presente na vida deles(as) e por terem tido discussões, tanto em nosso estágio, quanto com outros professores(as) do Colégio de Aplicação, as reflexões realizadas pela turma são admiráveis e bem fundamentadas. Considerações finais Em nossa última aula com a turma do 1º D do Ensino Médio, realizamos um questionário avaliativo de nosso desempenho no estágio, e acrescentemos uma pergunta que nos servisse como fonte para esta pesquisa: “Qual foi a importância para você estudar esses conteúdos? Como isso pode te ajudar, ou não, na sua vida?”, sendo que deveriam levar em conta todos os momentos de nossa docência na turma e escrever um comentário breve. Eis as respostas obtidas pelos(as) estudantes que estavam presentes naquele dia: (A.M.) Os conteúdos estudados além de ser a história do nosso país, ajudam a entender algumas coisas que acontecem hoje em dia no Brasil (por exemplo, o racismo). (D.R.) Encarar a realidade de uma forma diferente. Perceber que a população atual de descendentes de estrangeiros vieram em tal época em tal contexto e por determinados motivos. Ou seja, entender realidades atuais com a história do passado. (D.N.) Não vi importância, pois, nada é novo. Todos os dias observamos atos de movimentos contra o racismo, e as histórias sobre escravos nós já vimos muito na escola. (L.S.) Compreender um pouco de cada acontecimento. (M.A.) Bom, é importante entender bem o processodo racismo até hoje, da escravidão que aconteceu de um tempo (a influência disso hoje). Ajuda a entender os problemas de hoje e etc. (N.H.) Na verdade já tínhamos estudado a escravidão e imigração, mas este estágio foi bom pois me fez concluir como tudo isso afeta a sociedade atual e indiretamente a mim, como mulher também. (R.S.) Foi importante para vermos como era o passado e podermos entender as coisas e não cometer os mesmos erros. (S.S.) Essas aulas me ajudaram a entender um pouco mais sobre a escravidão no Brasil e a gravidade do racismo atual. (S.E.) Esses conteúdos, mesmo que abordando coisas já familiares, são de suma importância para enfatizar os problemas de racismo e etc. na nossa vida. (T.S.) Foi muito importante porque estudamos o Brasil antigamente e é bacana conhecer a nossa história de como surgiu o país e tudo o mais. (V.S.) Foi importante para compreender que a atual situação racial e geográfica do país muitas vezes é consequência de ações do passado. (V.F.) Na minha vida talvez futuramente tudo que aprendemos não terá tanta importância e não me ajudará, pois a faculdade que pretendo fazer não tem nada haver com o conteúdo. Porém, “hoje” aprender isso foi importante para termos uma base de como tudo era antigamente. Algumas das respostas continuam afirmando aquela ideia da história mestre da vida, na qual se deve saber o que aconteceu para não cometer os mesmos erros, como se havia constatado em outras atividades. De forma semelhante, parte dos(as) estudantes trouxe a importância de conhecer a história do Brasil, por ser seu país e saber como era a vida antigamente. Outro grupo falou que o estágio foi interessante por debater a formação da população brasileira, citando os/as africanos/as e afrodescendentes e os/as imigrantes, temas estes trabalhados durante as aulas. Além disso, um(a) estudante apontou as relações da situação geográfica do país atual com acontecimentos do passado. Entretanto, apesar da grande maioria afirmar a importância de nossas aulas, houve algumas respostas que relatam que os conteúdos já haviam sido trabalhados, sendo que parte aponta a importância de revê-los sob outras perspectivas, enquanto outra parte diz que não viu importância em trabalhar novamente esses temas. Há também, respostas que trazem a ideia de que a história aprendida na escola serve como base para o que será aprendido no ensino superior, sendo então, sem muita serventia caso o/a estudante não for cursar algo relacionado com História. Grande parte dos(as) estudantes apontou as relações com o racismo como de suma importância para o ensino de História, compreendendo-o como um processo histórico iniciado com a escravidão no Brasil e que possui muitas influências no tempo presente. Por ser um dos últimos temas trabalhados no estágio e ser algo mais presente na vida do(a) estudante, essas discussões sobre o racismo apareceram de forma acentuada nestas respostas. De modo geral, desde as primeiras atividades, os/as estudantes já faziam relações entre o passado e o presente, sendo que esse exercício de reflexão foi sendo aprimorado e aprofundado no decorrer do estágio. Porém, não foram todos(as) os/as estudantes que conseguiram fazer essa conexão, sendo que alguns conteúdos foram mais fácies de relacionar, como, por exemplo, o racismo e o sistema escravista, enquanto outros foram apenas uns tópicos a serem estudados em sala de aula, como o Período Regencial. Contudo, acreditamos que o resultado final foi positivo, conseguiu-se, mesmo com apenas alguns temas, fazer os/as estudantes compreenderem que os fatos do passado estão relacionados com o tempo presente e sua vida pessoal, e que o ensino de História tem com objetivo propiciar aos jovens situar-se na sociedade contemporânea para melhor compreendê-la. Referências BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Identidades e ensino de história no Brasil. In: CARRETERO, Mario; ROSA, Alberto; GONZÁLES, Maria Fernanda (orgs.). O Ensino da História e Memória Coletiva. Tradução de Valério Campos. Porto Alegre: Artmed, 2007, p. 33-52. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: História: ensino de quinta à oitava série. Brasília, DF: MEC/SEF, 1998. Disponível em: . Acesso em: 01 nov. 2016. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais (Ensino Médio): Parte IV: Ciências humanas e suas tecnologias. Brasília, DF: MEC/SEF, 2000. Disponível em: . Acesso em: 01 nov. 2016. CAIMI, Flávia Eloisa. Cultura, memória e identidade: o ensino de história e a construção de discursos identitários. In: SILVA, Cristiani Bereta da.; ZAMBONI, Ernesta. Ensino de história, memória e culturas. Curitiba: CRV, 2013, p. 17-33. LEE, Peter. Em direção a um conceito de literacia histórica. Revista Educar, Curitiba, Especial, p. 131-150, 2006. ______. Por que aprender História? Educar em Revista, Curitiba: Editora UFPR, n. 42, p. 19-42, out./dez. 2011. RÜSEN, Jörn. História Viva: teoria da história: formas e funções do conhecimento histórico. Tradução de Estevão de Rezende Martins. Brasília: Editora UnB, 2007. SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel (orgs.). Aprender História: perspectivas da educação histórica. Ijuí: Editora UNIJUI, 2009. SIMAN, Lana Mara de Castro. Representações e memórias sociais compartilhadas: desafios para os processos de ensino e aprendizagem da história. Caderno Cedes. Campinas, v. 25, n. 67, p. 348-364, set.-dez. 2005. Disponível em: . Acesso em: 01 nov. 2016. Notas 56. As disciplinas de História e de Geografia foram substituídas pelos Estudos Sociais. Também neste período inauguraram-se disciplinas como Educação Moral e Cívica, Organização Social e Política do Brasil (OSPB) e Estudo dos Problemas do Brasil (EPB). http://bit.ly/2BgvieT http://bit.ly/2rvTCVA http://bit.ly/2SBLD4D 57. Twitter é uma rede social que permite aos usuários enviar e receber atualizações pessoais de outros contatos, em textos de até 140 caracteres. 58. Hashtags (#) são palavras-chave (relevantes) ou termos associados a uma informação, tópico ou discussão que se deseja indexar de forma explícita no aplicativo Twitter. 59. A aula compartilhada acontecia quando se tinha 1 hora/aula e era dividida com a disciplina de Língua Portuguesa, assim, cada semana trabalhávamos com metade da turma, sendo esta revezada entre as duas disciplinas. 60. Como pode ser observado na atividade de conhecimentos prévios por meio das respostas #oqueéfonte. Ver página 161. 61. Emicida. (part. Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike & Raphão Alaafin). Mandume. São Paulo: Laboratório Fantasma, 2015. 62. Mc Carol. Delação Premiada. Rio de Janeiro: Heavy Baile Records, 2016. 63. Emicida. Boa Esperança. São Paulo: Laboratório Fantasma, 2015. Obrigado por ler este livro que publicamos! Esperamos que esta obra tenha correspondido às suas expectativas. Compartilhe por e-mail suas dúvidas e sugestões conosco. Adquira outros títulos em www.pacolivros.com.br Conheça o novo site da Paco Editorial com conteúdos exclusivos para professores! Av. Dr. Carlos Salles Bloch, 658 - Sala 21 Anhangabaú - Jundiaí-SP - 13208-100 mailto:professor@editorialpaco.com.br http://www.pacolivros.com.br/ http://editorialpaco.com.br/ Your gateway to knowledge and culture. Accessible for everyone. Official Telegram channel Z-Access https://wikipedia.org/wiki/Z-Library z-library.sk z-lib.gs z-lib.fm go-to-library.sk This file was downloaded from Z-Library project https://z-library.se/ https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.sk/ https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.seaté os dias atuais. Durante o período de estágio, nas aulas sobre colonialismo e neocolonialismo em África, o intuito foi estudar como o colonialismo deixou marcas profundas no continente africano, tanto no quesito econômico quanto cultural, e, como consequência, nas populações afrodescendentes, em especial, no Brasil e Estados Unidos. Da África às Américas, a estrutura do colonialismo marcou fortemente posicionamentos ideológicos na memória coletiva dos indivíduos, empregando ideais de raça sustentando-se na teoria darwinista e visando uma superioridade sobre outras populações que se diferenciam das de matrizes europeias tanto no que diz respeito às questões de cor, como também culturais. Este ideal, fruto do colonialismo, foi implementado durante os séculos de colonização e reforçado sistematicamente no século XIX. A colonização exacerbou a violência como um estado natural, institucionalizou o racismo e a violência tornou-se legitimada, do colonizador sobre o colonizado, de acordo com Frantz Fanon (2005). Neste sentido, pensando no desenvolvimento do senso crítico do aluno e seu estímulo em sala de aula, optamos por realizar análises de fontes históricas nas aulas, nas quais, utilizamos as contribuições teóricas de Isabel Barca para a proposta metodológica de aula-oficina. As oficinas são, de acordo com Barca (2004), um meio que permite o contato dos estudantes com as fontes, seu aprendizado de história e agentes do seu próprio processo de aprendizagem e avaliação. Contribuindo para a sua autonomia, elaboramos aulas expositivas e oficinas, atividades em grupo e individuais. A coleta de material para as pesquisas na produção deste capítulo deu-se pela proposta de atividades escritas através de interpretações de textos e imagens como ilustrações e propagandas, pensando especificamente no desenvolvimento da capacidade de pensamento crítico e autônomo, para fins na vida prática (Zabala, 1998). A percepção do estudante acerca do racismo presente em mídias A aula ministrada foi de acordo com o conteúdo programático: Partilha da África. Utilizamos o material complementar produzido pelos estagiários através de PowerPoint e, após a aula expositiva, trabalhamos com os estudantes imagens de propagandas racistas do século XIX produzidas e veiculadas nos Estados Unidos. Juntamente com eles analisamos as imagens e, em seguida, distribuímos uma atividade individual contendo as mesmas imagens previamente exibidas. Li o excerto contido junto com a turma para que então pudessem realizar o exercício, uma análise detalhada das imagens, para compreender como os estudantes percebem o conteúdo das imagens e como seus conhecimentos prévios intervêm em suas observações. Vejamos o texto da atividade e as imagens que foram utilizadas neste exercício: Atividades. Ao final da leitura e análise conjunta das imagens, solicitei que buscassem em seus conhecimentos e experiências adquiridos dentro e fora da escola, situações relacionadas à temática e que são recorrentes no Brasil. O objetivo foi observar como os estudantes interpretariam as imagens. A partir do primeiro contato dos estudantes com aquele material, de propagandas evidentemente racistas. A intenção era que houvesse uma inquietação da turma e a maioria dos estudantes tiveram essa sensibilidade. Na turma constam 32 estudantes matriculados, porém, 27 são frequentes e 20 realizaram a atividade, que era exclusivamente em sala de aula. Antes desta atividade ministramos aulas sobre colonialismo e neocolonialismo, partilha da África, abrangendo temas como formas de resistências africanas, contos, manifestações populares, a fim de proporcionar aos estudantes o desenvolvimento de um pensamento crítico em múltiplas discussões. Ao analisar as respostas observei a presença do senso comum, respostas semelhantes e com palavras que foram utilizadas por mim e por meus colegas estagiários nas aulas. Além disso, nas respostas é interessante notar o fato de que eles citaram termos como, claro, esclarecer, embranquecer, branqueamento, clareamento, racismo disfarçado, dívida histórica, sujo, ladrão, impureza, negrinha, sem valor, encardido, racista, racismo inverso, cotas raciais, palha de aço, camuflagem, mestiça, inferioridade e superioridade, lucro, menosprezo, racismo velado, resistência, censura, lei. Muitas destas palavras fazem parte de estereótipos e são expressões que enfatizam a ideia de submissão e opressão dos negros. Explicamos que palavras que têm cunho racista como, por exemplo, claramente, denegrir, mulata entre outras expressões que, são usualmente utilizadas no dia a dia das pessoas e em conteúdos da internet, mas que são termos pejorativos e ofensivos, ou seja, que exprimem inferioridade e por isso é necessário repensar. Os estudantes concordaram que se tratava de propagandas de cunho racista e a maioria deles respondeu que o racismo ainda está presente nos dias atuais, em algum momento da vida ou no dia a dia das pessoas, como na escola, no trabalho, nas mídias, no salário, em piadas dentro e fora do ambiente escolar, portanto, está presente em todo o contexto social, observado pelo tratamento desigual em relação às pessoas negras. Os estudantes pensam que há certa indiferença para com as pessoas negras e estas sofrem injustiças. Veja a partir de trechos transcritos das narrativas dos estudantes, A primeira fala claramente sobre o colonialismo, com os negros carregando o europeu, dando também a dimensão que as colônias são o que leva o colonizador “nas costas”. A segunda tem um altíssimo teor racista onde a criança negra é questionada sobre sua cor. (A.L.) Assim como na época da colonização o negro era menosprezado, atualmente isso acontece, além de que algumas pessoas ainda usam a cor da pele como pré- julgamento. Ainda hoje os menos favorecidos “carregam” os mais favorecidos e a boa aparência fica para aqueles que foram beneficiados com o lucro obtido pela grande massa desfavorecida. (E.B.) Na primeira imagem claramente podemos ver como a sociedade branca via os negros. Além de tratados como seres inferiores, também rebaixavam como animais ou pior. Nas imagens seguintes, a total falta de respeito pelo individuo é retratada nas propagandas porque além de se sentirem como uma “raça superior”, os brancos buscavam métodos de mostrar a sociedade que eles eram “capazes” de embranquecer os negros para limpá-los de alguma impureza que exista em seu corpo. (G.S.) Todas essas imagens foram formas de diminuir os negros e fazer com que eles se sujeitassem ao “clareamento” pois eram vistos como pessoas “sujas” e sem valor. No presente ainda vimos coisas parecidas, como quando o cabelo do negro é chamado de “palha de aço” e outras coisas, por ser crespos e enrolados. (D.N.) Foram utilizadas nas atividades também as palavras: negritude, colonialismo, sorriso, discurso segregacionista, consciência negra e conscientizar, estas citadas apenas uma vez. É válido pontuar que apenas um estudante fez suas observações pautadas no colonialismo e reforçou a importância da negritude; apenas uma estudante citou as palavras lei e movimentos de resistência; uma estudante reforçou o discurso segregacionista e consciência negra; apenas um estudante se expressou sobre cotas, e a referiu como uma medida racista, portanto, declarou-se contra as cotas. Todos estes foram temas de aula que ministramos à turma, e cada estudante se apropriou de forma diferente, – e apenas um aluno observou que na metade das propagandas elegidas2, as pessoas negras estavam sorrindo, sorrindo como se fosse um bem que estavam fazendo a elas. Esperava que algum aluno percebesse este detalhe, e em uma atividade, um deles deixou sua indignação e seu manifesto explícitos. Sabão Lautz Bros & CO’s: A imagem apresenta um negro sendo limpado é como se a cor daquele garoto negro fosse sujeira é como se não fizesse parte de um humano. É uma das propagandas mais chocantes que eu já vi e como eu me considero negro não me senti confortável com o nível de informação da propaganda da “Lautz”. Fico triste emhttps://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.sk/ https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.sk/ https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.sk/ https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.sk/ https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.sk/ https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.sk/ https://z-library.se https://z-library.se https://z-library.sk/ https://z-lib.gs/ https://t.me/zlibrary_official https://go-to-library.sk/ https://wikipedia.org/wiki/Z-Library https://z-lib.fm/ https://go-to-library.sk/ https://z-library.sk altre altre altre altre altre altre Folha de rosto Apresentação 1. Experiência com propagandas racistas em sala de aula 2. O estudo do Lixo numa perspectiva da cultura material 3. O ensino de história da África: uma experiência do estágio curricular supervisionado em História na Udesc (2016) 4. O uso de fontes históricas como auxílio didático nas aulas de história 5. Reflexões acerca do ensino de história, da decolonialidade do saber e da Lei 11.645/2008 a partir da experiência no Estágio Supervisionado 6. O ensino de história e o uso de fontes em sala de aula 7. “Uma tarde no museu: impressões e conclusões de um 6º ano a uma visita ao Museu de Arqueologia e Etnologia/UFSC” 8. Pesquisando na web: noções de alunos do sexto ano acerca de sítios arqueológicos brasileiros 9. Conexões temporais: relações que jovens do 1º E.M. fazem entre presente e passado na história – Florianópolis, 2016 Página finalsaber que os programadores e organizadores desta propaganda olhassem para o negro, não como negro mas como um branco negro... Chlorinol: Três crianças estão em um barco à deriva sorridentes usando o produto Chlorinol para virar branco, o sorriso dissimulado daquelas crianças desenhadas, uma delas já estava branca. Todo meu protesto e minha decepção se dissolvem na ponta do lápis e do tempo. (M.M.) Nota-se que a maior parte dos estudantes apresentaram um pensamento descritivo, apenas escrevendo os elementos das imagens, sem questionamentos ou expressão de opinião. E alguns outros alunos produziram uma narrativa explicativa com detalhes das imagens, com observações levando em conta as aulas ministradas anteriormente, questionamentos e opiniões, e relacionando-os com situações ocorrentes como foi solicitado na atividade. É indiscutível que se foi utilizado de racismo, hoje em dia ainda se tem exemplos como os citados na sala, dando uma ressalva no caso da cerveja. Acho que, se tivesse sido utilizado uma loira, não teria a mesma repercussão. Pode, sim, utilizar o argumento da dívida histórica. Sim, racismo existe, mas acontece com todos: negro, branco, índio, etc... todos sofrem e não se pode simplesmente fechar o olho e dizer: “racismo só existe com negro”. (A.L.) O racismo ele nunca acabou, ele apenas se disfarçou, as imagens apesar de serem antigas, retratam o nosso presente, de que o negro é sujo, ladrão. Eu acredito que se colocassem uma imagem dessa hoje o impacto seria diferente, é claro, mas pra algumas pessoas fariam sentido, pra muita gente a consciência negra não faz nem sentido. (A.S.) O racismo está presente no nosso cotidiano em diversas áreas, desde a educação até a política. Antigamente o racismo era muito mais acentuado e visível, hoje através de brincadeiras, cotas e tratamento social vemos que o racismo ainda se encontra presente nos dias de hoje. (E.B.) Não tem o “porquê” de toda essa diferença. Digamos que os comerciais em relação a isso melhoraram mas em poucos aparecem negros e poucos estão com um bom papel, uma boa imagem. (K.O.) E hoje em dia não é tão diferente pois tem muitas pessoas que ainda são racista e trata os outros com diferença só porque são negros, sendo que hoje em dia o mundo mudou nós somos uma sociedade mestiça. (R.M.) Não é certo o que as pessoas faziam e algumas hoje em dia ainda fazem, só que pelas leis já são mais cautelosos chegando até mesmo ao ponto de fazerem tudo no anonimato como por exemplo em alguns meses atrás algumas atrizes estavam sofrendo esse racismo pelo simples fato de serem negros. Temos que ver o país em que vivemos hoje e ver se vale a pena mesmo esse tipo de comportamento com pessoas exatamente iguais a nós. (N.L.) A forma com que o adolescente apreende tem influência do meio em que vive e do acesso às informações, entende-se que a internet é um veículo muito utilizado atualmente, possuindo um grande potencial, mas cabe aos indivíduos saber usá-la, pois pode afetar negativamente no comportamento em especial do educando. A internet é uma ferramenta para a obtenção e difusão de informação e entretenimento, porém seu uso vai além, é também utilizada para ridicularização de algo, e isto tudo ocorre por seu conteúdo possuir audiência. Sendo a internet esta ferramenta tão facilmente acessada, torna-se necessária a vigilância daqueles que se conectam. Anteriormente, as pessoas aprendiam com as imagens, as histórias nos vitrais, depois com os escritos impressos popularizados após a imprensa de Gutenberg e hoje são apreendidos também pela internet. São as evoluções das coisas, da informação, do saber. Saber ver uma imagem, descrever e interpretá-la auxilia o educando em múltiplas áreas de desenvolvimento, e consequentemente em aprimorar um olhar crítico de tudo para que ao final possa transformá-la em escrita. Na turma 200, observa-se estudantes negros, assim como eu, que pela sociedade sou considerada uma mulher morena ou “mulata”, mas na verdade sou uma mulher negra – e na turma, entretanto, nota-se uma resistência quanto sua identidade.3 Nas aulas que ministramos movimentos de resistências como o Pan-Africanismo, trabalhamos com exemplos reais como Nelson Mandela e Malcom X, políticas segregacionistas como o Apartheid,4 porém, no momento de responderem às questões, esses conhecimentos não foram considerados. Depois de quase completadas 12 semanas de contato direto com a turma até a data da atividade em questão, em aulas focando a exposição e o debate sobre populações negras, percebendo que alguns se interessam por filmes e utilizam diariamente de internet para diversos assuntos, inclusive para pesquisas escolares, gostaria que tivessem explorado melhor as relações com o presente, com os conteúdos da internet, seu cotidiano, baseado em todos os seus conhecimentos dentro e fora da escola. Mas devo considerar que esse era um desejo meu como professora, pois o intuito, desde o início, foi relacionar racismo no século XIX com o racismo presente na atualidade brasileira. Após o término da atividade ainda tivemos tempo de ler uma reportagem da revista Carta Capital5 para finalizarmos o tema e, a partir desta leitura, realizamos discussão coletiva, na qual percebemos o racismo midiático e o reforço dos estereótipos relativos à população negra nos meios de comunicação de massa, concluindo que as manifestações de discriminação racial estão presentes, merecem uma discussão profunda, pois o desenvolvimento da internet propiciou que racistas continuem disseminando e com velocidade seus posicionamentos condenáveis. Os estudantes apresentaram um certo nível de compreensão em relação aos processos que se deram no Brasil envolvendo o racismo, mas seria necessário mais tempo em sala de aula para discutir um pouco mais o conceito do racismo, suas proporções e aprofundar acerca da questão de privilégio. Considerações finais Percebi que dar atenção aos estudantes, conhecer quais as pessoas que estamos interagindo tem um impacto significativo na condução das aulas. Vejo isso quando observada a atenção e o respeito mútuo entre a professora regente e a turma 200, pois apesar da individualidade de cada estudante, a união da turma a torna singular. É uma sala composta de adolescentes e, como qualquer outra, são dinâmicos, astutos e em sua grande maioria é interessada pelos estudos. Assim, foi possível ter uma mostra do que é ser professor na Educação Básica, quais seus desafios, conhecer os estudantes e a estrutura que a escola proporciona e usufruí-la da melhor forma para que os estudantes tenham uma boa experiência em sala junto ao professor(a), pois nesta experiência ambos têm aprendizados. Para o referido capítulo, assim como nas aulas ministradas, atentamos a um ponto comum – história da África, pois, de acordo com o conteúdo programático da E.E.B. Padre Anchieta para a turma 200 estava proposto quatro conteúdos (II Revolução Industrial, Imperialismo/Neocolonialismo, Partilha da África e da Ásia e Primeira Guerra Mundial), a fim de seguir a Lei Federal nº 10.639/03,6 que instaura às diretrizes e às bases da educação nacional a inclusão no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, insistimos em agregar a temática em todos os conteúdos do cronograma, mas não por ser uma obrigatoriedade estipulada por data, e sim por ser algo que deveria ser natural e suas discussões se fazem urgentes. A proposta das aulas em mostrar como o continente africano e, respectivamente, seus descendentes são representados em ilustrações, charges, histórias em quadrinhos e propagandas foi alcançada. Assim como, gerar discussões e verificar como os estudantes identificam e interpretam propagandas e ilustrações de conteúdos racistas, além da capacidade de pensar historicamente a partir da interpretação de materiais midiáticos com conteúdos históricos. Entretanto, apesar de frisar temas como imperialismo, colonialismo, neocolonialismo e racismo, nota-se, não generalizando, que há dificuldade em compreendero que é etnocentrismo e eurocentrismo, ou seja, empiricamente, como a cultura e a cor da pele influenciaram a historiografia. Além de que, é possível notar que as análises foram mais descritivas das imagens, sem uso dos termos e conteúdos estudados em sala de aula. Se houvesse a possibilidade de realizar a atividade em domicílio haveria mais tempo para o debate. No caso, tiveram 40 minutos para elaboração em sala de aula. Verifica-se necessário observar dentro e fora do ambiente escolar, no qual os estudantes buscam suas informações e como lidam com essa bagagem cultural que carregam, como interagem com o meio e como desenvolvem-se com estas. Pois, é no seio familiar que o indivíduo se constrói, e influenciado pelos conteúdos da internet que são disseminados, contagia-se no meio em que vive, ou seja, seu entorno social. Questões sobre representatividade são importantes temas para se trabalhar na sala de aula e fora dela. Os pais têm um papel e uma importância na educação e desenvolvimento da criança e do adolescente e a escola possui outra postura, e nessa união nasce um sujeito histórico, um sujeito que tem capacidade de articular ideias e possuir autonomia. Pois, de acordo com Rüsen (2007, p. 91), “os processos de aprendizado histórico não ocorrem apenas no ensino de história, mas nos mais diversos e complexos contextos da vida concreta dos aprendizes.”. Os estudantes conseguiram compreender que os processos que se deram no Brasil tiveram o racismo como base, mas, por ser uma discussão longa, esta deveria ser constante e necessitaríamos de mais tempo para finalizar o tema em sala de aula. Afinal, vivemos numa sociedade entre brancos e negros, no qual o racismo está intrínseco, e para que os jovens estudantes consigam compreender que na sociedade brasileira o homem não branco foi aquele que passou à margem da historiografia, nota-se que ainda carece de muita atenção. Nas narrativas da turma é perceptível que estão compreendendo e elaborando ideias, uns mais tímidos, outros conseguindo expor suas opiniões e críticas. E deste modo, o melhor caminho desta estruturação é os estimulando a construir seu próprio saber, expor suas ideias e amadurecer seu senso crítico a partir do auxílio de toda a estrutura escolar que dispõe. Referências BARBOSA, Muryatan Santana. Eurocentrismo, História e História da África. Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana, n. 1, p. 46-63, jun. 2008. BARCA, Isabel. Concepções de adolescentes sobre múltiplas explicações em história. In: ______. (org.). Perspectivas em Educação Histórica: actas das Jornadas Internacionais de Educação Histórica, 1, Braga, 2001. Braga: Centro de Investigação em Educação da Universidade do Minho, 2001, p. 29-43. ______. Aula Oficina: do projecto à avaliação. In: ______. (org.). Para uma educação histórica de qualidade. Actas das IV Jornadas Internacionais de Educação Histórica. Braga: Universidade do Minho, 2004, p. 131- 144. BURKE, Peter. Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet / Asa Briggs e 2. ed. Tradução Maria Carmelita Pádua Dias; revisão técnica Paulo Vaz. 2. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. BRASIL. Lei nº 10,639 de 9 de janeiro de 2003. História e Cultura Afro- Brasileira. Disponível em: . Acesso em: 18 set. 2018. FANON, Frantz. Os condenados da terra. Capítulo I: Sobre a violência. 1. reim. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2005. HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Cap. I Memória coletiva e memória individual. São Paulo: Centauro, 2014. HERNANDEZ, Leila. A África na sala de aula: visita à história contemporânea. Cap. O Pan-africanismo. Entre a Concepção e a ação. São Paulo: Selo Negro, 2005. PEÑA, Maria de los Dolores Jimenez; ALLEGRETTI, Sonia Maria Macedo. Escola híbrida: aprendizes imersivos. Revista Contemporaneidade, Educação e Tecnologia, v. l, n. 2, p. 97-107, abr. 2012. Disponível em: . Acesso em: 15 set. 2018. POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989. Disponível em: . Acesso em: 13 set. 2018. ROCHA, Helenice A. P. Aula de História: que bagagem levar? In: MAGALHÃES, Marcelo; ROCHA, Helenice; GONTIJO, Rebeca (org.). A escrita da história escolar: memória e historiografia. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora fundação Getúlio Vargas, 2014, v. 1, p. 81-104. RUSEN, Jorn. História Viva. Teoria da História III: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: Editora UnB, 2007. ZABALA, Antoni. A Prática Educativa: como ensinar. Porto Alegre: ArtMed, 1998. Notas 1. Braick, Patrícia Ramos; Mota, Myriam Becho. História das cavernas ao terceiro milênio. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2010. E Júnior, Alfredo Boulos. História sociedade & cidadania: 3º ano. 1. ed. http://bit.ly/2SBxG6R https://bit.ly/2T6nV5i http://bit.ly/2QEqLMF São Paulo: FTD, 2013. 2. A atividade foi composta com o total de quatro propagandas do século XIX. 3. Na oficina que ministramos no Estágio curricular supervisionado II, com a mesma turma, elaboramos uma aula sobre Super-heróis negros, em quadrinhos e desenhos animados, e nesta aula constatou-se que muitos estudantes não se identificam negros ou afrodescendentes ou, não tiveram devida discussão sobre o assunto no seio familiar. 4. O termo Apartheid se refere a um Regime Político de segregação racial implantado no território da África do Sul que permaneceu de 1948 a 1994. De acordo com Hernandez (2005), negros e indianos tiveram seus direitos de saúde, educação, transporte púbico, de cidadania, e até mesmo o direito de livre circulação eliminados em virtude de um regime político racista institucionalizado pelo Estado. Diversos atuantes do movimento negro e dos movimentos sociais atuaram na luta contra a segregação racial na África do Sul, dentre eles estão Steve Biko e Nelson Mandela, que atuaram como líderes deste movimento. 5. Enfrentamento ao racismo e consciência negra: e a comunicação com isso? Revista Carta Capital, publicado 19/11/2013. Disponível em: . Acesso em: 20 set. 2017. 6. Lei Nº 10.639, de 9 de Janeiro de 2003. – Lei que modifica o Art. 1o da Lei Nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 . Em 2008 a Lei Nº 11.645/2008 altera a Lei 9.394/1996, modificada pela Lei 10.639/2003. https://bit.ly/2XuRKen 2. O ESTUDO DO LIXO NUMA PERSPECTIVA DA CULTURA MATERIAL Christian Gonçalves Vidal da Fonseca Introdução Se enterramos o lixo e, no futuro, ele será considerado um tesouro, porque não estudá-lo agora? (André Wagner Oliani Andrade) No presente capítulo, preocupou-se em verificar como os alunos perceberam e analisaram o lixo como uma evidência histórica sob a perspectiva da cultura material. O lixo como tema torna-se fundamental ao passo que permite o estudo contemporâneo de nossa sociedade, possibilitando compreender o que é consumido ou descartado por uma determinada cultura, povo ou família. A escolha de tal temática surgiu após o período de estágio desenvolvido através da disciplina Estágio Curricular Supervisionado III. Tal cadeira tem duração de um ano e meio, oportunizando a prática dos estudantes de Ensino de História em sala de aula.7 Assim, num primeiro momento, observou-se a turma do sexto ano do ensino fundamento do Colégio Aplicação8 tomando algumas anotações que foram refletidas e utilizadas no planejamento e na execução do plano de ensino. A turma na qual ficamos responsáveis, contava com 25 alunos com faixa etária em torno de 11 a 13 anos, apresentando um perfil diversificado, com alunos agitados, porém com ânsia de aprendizagem, tendo a curiosidade como sua principal característica. A maioria não se inibe em querer expor suas opiniões, inclusive, trazem histórias pessoais para exemplificar o conteúdo trabalhado. Desta maneira, no decorrer de dois meses, foi planejada uma semana de aula sobre cultura material, possibilitando o aluno perceber o lixo como uma evidência histórica, visando à aproximação deste com o seu cotidiano. Vale destacar,que o planejamento de uma aula deve ser o “momento de refletir sobre os objetivos a serem atingidos, sobre como alcançá-los e sobre como avaliar o que se planejou” (Depresbiteris, 1998, p. 164). Então, para a construção do plano de ensino, fez-se necessário ouvir os alunos, como salienta a historiadora Maria Auxiliadora Schmidt, que entende a sala de aula não como um espaço exclusivo onde o professor transmite informações, “mas o espaço onde se estabelece uma relação em que interlocutores constroem significações e sentidos” (2004, p. 31). Assim, abre-se um espaço para que o ambiente da sala de aula se torne mais democrático, permitindo um maior diálogo entre docentes e discentes. Deste modo, construiu-se o plano de ensino, buscando desenvolver com os estudantes os seguintes objetivos: a compreensão da atuação do arqueólogo nos estudos contemporâneos através de pesquisas e investigações realizadas com o lixo, entendendo este como mecanismo de estudar a sociedade atual; a percepção da importância de se pesquisar vestígios deixados pelos homens, por exemplo, o lixo; e buscar perceber o lixo não como algo descartável, mas como uma possibilidade de estudo dos hábitos culturais dos indivíduos. Vale ressaltar que o estabelecimento dos objetivos se faz necessário “na medida em que orientam o aluno no que dele se espera e o professor no que deverá ensinar” (Depresbiteris, 1998, p. 164). O estudo do lixo a partir da cultura material A escolha de trabalhar com a cultura material permite uma aproximação da história com elementos que fazem parte do cotidiano dos alunos. Entende-se por cultura material aquele segmento do meio físico que é socialmente apropriado pelo homem. Por apropriação social convém pressupor que o homem intervém, modela, dá forma a elementos do meio físico, segundo propósitos e normas culturais. Essa ação, portanto, não é aleatória, casual, individual, mas se alinha conforme padrões, entre os quais se incluem os objetos e projetos. Assim, o conceito pode tanto abranger artefatos, estruturas, modificações da paisagem, como coisas animais (uma sebe, um animal doméstico), e, também, o próprio corpo, na medida que ele é passível desse tipo de manipulação (deformações, mutilações, sinalações) ou, ainda, os seus arranjos espaciais (um desfile militar, uma cerimônia litúrgica). (Meneses, 1983, p. 112 apud Abud; Silva; Alves, 2010, p. 110-111) Essa definição demonstra a relação entre o que a natureza proporciona ao ser humano e o que ele cria a partir dela, propiciando refletir sobre a “capacidade que as pessoas têm de criar, produzir, manipular e utilizar o que a natureza lhes proporciona, em seu meio social, o legado deixado pela cultura material dos povos” (Abud; Silva; Alves, 2010, p. 111). Assim, o estudo da cultura material nos possibilita pensar acerca da importância dos objetos no cotidiano das pessoas, além de refletirmos sobre as mudanças e a funcionalidade que o material adquire no transcorrer do tempo. Dessa maneira, a partir da cultura material, podemos inferir que os artefatos que os seres humanos criam, produzem, utilizam e consomem, dizem a respeito não apenas à sua trajetória histórica como também à construção de sua identidade. Este estudo permite o aluno a indagar-se sobre as formas de organização material da sociedade, as relações sociais implicadas pela interação entre o homem e seu meio, as representações coletivas que acompanham as práticas materiais e compreender o processo pelo qual o artefato passou até chegar ao seu resultado final (produto). A partir disso, pensou-se em trabalhar com o lixo, pois este, visto como algo descartável e sem utilidade, é tratado pela maioria das pessoas como algo sem valor. Desde modo, promovemos uma semana de aula que visasse aguçar a criatividade dos alunos, estimulando a uma reflexão crítica sobre a temática, em que os alunos conseguissem perceber o lixo como uma evidência histórica. Portanto, buscou-se transfigurar o lixo numa ferramenta que demonstrasse ao aluno, de forma didática, que a história é feita de vestígios deixados por homens e mulheres. De acordo com Erica da Silva Xavier (2010), a utilização da fonte histórica na prática docente em sala de aula emerge como uma temática pertinente a discussões sobre o ensino de História nas últimas décadas. Mais especificamente, desde o fim do século XX, seu uso vem sendo pensado de um modo que auxilie o professor na tarefa de estimulação do imaginário do discente na aprendizagem histórica. Acrescido a isso, Xavier (2010, p. 1098) aponta para o aumento da utilização de “alguns documentos, como uma imagem, uma canção ou um objeto da cultura material” nos livros didáticos e nas práticas docentes em sala de aula, possibilitando uma mediação na aprendizagem histórica. Portanto, as fontes históricas se constituem no material dos quais os historiadores se apropriam por intermédio de abordagens pontuais, métodos distintos, técnicas diversas para comporem seus discursos históricos. Logo, torna-se válida a utilização do lixo como uma fonte histórica sob a perspectiva da cultura material. O lixo é um elemento presente em nosso cotidiano, que com o passar dos anos, teve um aumento significativo. Entende-se aqui o lixo como os “restos das atividades humanas, consideradas pelos geradores como inúteis, indesejáveis ou descartáveis” (Fadini; Fadini, 2001, p. 9). Por ser visto como algo sem funcionalidade por muitas pessoas, inclusive negligenciada pelas autoridades, o lixo acaba por ser descartado de modo inadequado, afetando o meio ambiente, consequentemente, gerando diversos impactos negativos ao planeta. Poucos são os historiadores ou demais cientistas sociais que se debruçam sobre tal estudo, resultando no desinteresse político, econômico e cultural sobre o tema. A arqueologia, recentemente, emerge como um dos campos de estudos sobre o lixo. Na contramão do senso comum, este campo do conhecimento se faz notório também nos estudos presentes. De acordo com Tânia Andrade Lima, a arqueologia seria a disciplina cientifica que se utiliza de restos materiais para compreender o funcionamento de sociedades humanas específicas e da cultura em geral, o que torna a abordagem arqueológica válida para o entendimento de qualquer sistema comportamental, passado ou presente (Lima, 1989, p. 87-88) Como podemos notar, Lima amplia o conceito de arqueologia, colocando o presente também como uma possibilidade de estudo para o arqueólogo. Desta forma, o estudo do lixo ganha força pelo fato de possibilitar a narrativa histórica do cotidiano de uma sociedade. No Brasil, do material descartado, “76% é abandonado a céu aberto em locais impróprios” (Menezes; Barbosa; Jófili; Menezes, 2005, p. 38), isto é, não ganham nem um estudo adequado, nem são destinados corretamente. Caso, um pesquisador queira se debruçar sobre essa quantidade de resíduos sólidos, poderíamos compreender os hábitos e costumes do povo brasileiro9 a partir da cultura material. Assim posto, o estudo sobre o lixo permite mapear uma comunidade e pesquisar os seus resíduos sólidos, possibilitando “conhecer o perfil social e cultural da mesma, seus costumes, comportamentos, nível econômico, enfim buscar as causas da geração dos resíduos da comunidade” (Andrade, 2004, p. 4.637). No chão da sala Deste modo, numa primeira intervenção, foi pensando uma aula expositiva-dialogada que começou com a dinâmica da “chuva de ideias” com os estudantes. Tal método vai ao encontro com o duplo movimento da aprendizagem histórica, na qual Schmidt (2009) percebe esse processo, primeiramente, na aquisição de experiência no decorrer do tempo, e em segundo lugar, é a possibilidade da análise. Assim, escreveu-se na lousa a palavra “lixo”, sendo as respostas as mais variadas, entre elas: “sujo”, “não presta”, “sem utilidade”, “sem uso”. Esse primeiro contato, possibilitou compreender quais experiências esses alunos do sexto ano trazem consigo, pondo sua visão sobre a temática. Aproveitou-se esse momento para problematizar os resíduos que são lançados ao lixo,refletindo assim, a partir da crônica de Luís Fernando Veríssimo, “o lixo”10. Este texto narra à história de dois moradores de um mesmo prédio, ao que tudo indica eram vizinhos, que se encontram na área de serviço quando iriam depositar os resíduos na lixeira do condomínio. Esses sem nunca terem se visto, começaram a conversar e lançar hipóteses sobre a vida um do outro a partir do lixo, como o falecimento do pai do rapaz e a profissão da mãe da jovem. Após entregarmos a crônica para cada aluno e ser feita a leitura em conjunto, reproduzimos o vídeo de um ator e uma atriz interpretando a história, desta maneira, permitindo que os alunos visualizassem melhor o texto. Consequentemente, os alunos começaram a enxergar tal ação do casal de moradores como errônea, pois estariam vasculhando coisas alheias. Gerando um bom debate, os estudantes começavam a perceber o lixo não apenas como algo sem utilidade, mas uma ferramenta que possibilita o estudo e a investigação de pessoas ou grupos humanos. Num segundo momento da aula, foi aplicada uma atividade que colocasse o aluno em contato com a cultura material. A atividade tinha por finalidade que o aluno desenvolvesse a sua capacidade de observar, de extrair informações e de interpretar algumas características da realidade do seu entorno, de estabelecer algumas relações e confrontações entre informações atuais e históricas, de datar e localizar as suas ações e as de outras pessoas no tempo e no espaço e, em certa medida, poder relativizar questões específicas de sua época. (Brasil, 1998, p. 40 apud Schmidt, 2009, p. 29) Tal atividade tinha como método o que Abud; Silva; Alves (2010, p. 111) colocam como “caminho inverso”, isto é, quando se trata de cultura material, cabe o historiador, no caso o aluno, analisar partindo de um produto final, ou seja, o lixo. Tal caminho vai ao inverso do que o historiador investiga, pois ele deve primeiro compreender o projeto, depois o processo e por fim o produto final do objeto investigado. Assim, através dos artefatos, os sacos de lixo configuram uma forma de cultura material, onde tais objetos podem criam hipóteses sobre um ambiente familiar, o modo de se vestir, os hábitos alimentares, os diferentes instrumentos usados para higiene, comunicação, trabalho, entre outros. Também, tenta-se entender como os artefatos foram concebidos, o motivo pela qual a pessoa comprou o produto, de que modo ela utilizou e a forma pela qual descartou. Chamada de “investigando o lixo”, a atividade foi elaborada com a confecção de doze pequenos sacos de lixo contendo dez bolinhas de papel em cada um. Cada saco continha informações sobre alguma localidade específica, supondo ser o lixeiro de um escritório, salão de beleza, igreja, de um roqueiro, pessoa idosa, entre outros. Sacos de lixo contendo as bolas de papel dentro. Fonte: . Acesso em: 07 dez. 2018. Simulando lixos de verdade, os alunos ficaram ansiosos para começar a atividade, que estava dividida em três questões visando “colocar o aluno, o mais possível, em situações em que ele seja participante da construção de seus saberes, pois o professor, hoje, não mais dá aula à classe, mas baseado nela e com ela” (Schmidt, 2004, p. 34). Na primeira questão, deveriam apenas tirar as bolas de papel do saco de lixo e listá-los na folha. Já a pergunta seguinte, solicitava uma interpretação dos estudantes acerca do lixo encontrado. Por último, os discentes foram direcionados a criar uma narrativa fictícia, que utilizasse alguns dos objetos que eles encontraram no saco de lixo. Análise das atividades Abaixo temos a imagem do roteiro que cada um(a) dos(as) estudantes recebeu para a realização da atividade, contendo as nossas observações. http://bit.ly/2BWuX2q Questão 1. Atividade “Investigando o Lixo”. Como já posto, na primeira questão, os alunos deveriam fazer a listagem dos itens encontrados dentro do saco de lixo, isto os auxiliaria para responder às questões dois e três, de forma a aproximar as pesquisas com o cotidiano e a vida prática dos alunos. Vale ressaltar que o trabalho do arqueólogo dentro dos lixões ou nas residências, engloba todo um processo de pesquisa, seleção e análise dos objetos, procedimentos estes que foram feitos pelos estudantes. Na questão seguinte, o aluno deveria fazer uma análise dos objetos selecionados dentro do saco de lixo, isto é, os hábitos culturais, como alimentação, higiene, lazer, saúde, entre outros. Para tal pergunta, avaliamos o modo como os alunos fizeram a aproximação entre as evidências históricas (o lixo) com a realidade deles, criando uma hipótese. Questão 2. Atividade “Investigando o lixo” A maioria dos alunos conseguiu interpretar de forma correta, de tal modo, que selecionamos algumas respostas de alguns estudantes: • Para a dupla J.H e L.C, o saco que elas investigaram seria de um “velho ou uma velha, porque tinha muita coisa velha no lixo”. • Já para G. e J.H, no saco de lixo que vasculharam, seria de “uma senhora religiosa”. • A última seleção aqui apresentada, são dos alunos J.M e L., na interpretação de ambos, o lixo deles indicava ser “um homem que estuda, lê bastante e toma (sic) bastante café”. Vale destacar que as análises aqui selecionadas estão coerentes com o lixo em que receberam, na qual, a primeira dupla recebeu dez bolinhas de papel que referiam a uma pessoa idosa, a segunda indicava uma pessoa com artigos religiosos, por fim, havia evidências de um lixo de escritório. Por fim, na última questão, os alunos deveriam criar uma história no qual contemplasse os objetos que eles encontraram no lixo. O objetivo era de fazer com que os alunos compreendessem a relação entre os objetos analisados das suas práticas cotidianas, não vendo o lixo apenas como algo descartável e sem utilidade, mas sim, como evidências que podem se transformar em fontes históricas e que possuem significados tanto para o ofício do arqueólogo, quanto no trabalho do historiador. Na atividade, foi levado em consideração o modo pelo qual os alunos criaram suas narrativas, suscitando hipóteses, interpretando e relacionando os objetos a partir do seu conhecimento. A autora Isabel Barca (2010), em seu texto, converge com o historiador alemão Jörn Rüsen, no tocante a narrativa histórica, entendida por estes como a face material da consciência histórica. Pela narrativa história ganha-se acesso ao modo como o seu autor concebe o passado e como utiliza as suas fontes, bem como aos tipos de significância e sentidos de mudança que atribui em História. Ela espelha, por isso, tácita ou explicitamente, um certo tipo de consciência histórica, isto é, as relações que o seu autor encontra entre o passado, o presente e, eventualmente, o futuro no plano social e individual. (Barca, 2010, p. 23) Deste modo, avaliou-se os alunos a partir da narrativa construída, tendo em vista, que estes partiram do seu conhecimento do presente para darem sentido ao passado, pautados nas evidências disponíveis. Como Barca coloca, a narrativa e a consciência história estão intimamente ligadas, pois a partir das hipóteses que os estudantes descrevem, emergem nos textos, o modo pelo qual o estudante evidencia seu pensamento histórico, de maneira a possibilitar ao professor, analisar a forma como esse sujeito se relaciona com o seu passado. Em linhas gerais, os alunos construíram narrativas criativas, articulando as imagens encontradas dentro do lixo, com o modo pelo qual viram tais artefatos como evidência histórica, criando assim hipóteses. Em algumas redações, identificamos muitos erros ortográficos e o uso excessivo dos pronomes (dele e dela). Contudo, estas narrativas nos evidenciam traçar algumas características dos alunos, pois possibilita conhecer seus gostos e tendências. Dentre as várias redações, destacamos aqui para análise a das alunas I., I. e G. No saco de lixo em que receberam, identificaram os seguintes objetos: ingresso de cinema, uma garrafa de refrigerante, uma embalagem de macarrão instantâneo, uma embalagem de salgadinho,maço de cigarro, aliança, lenços, foto rasgada de um casal, buquê de flores e um CD de música melancólica. A partir dessas evidências, construíram uma história fictícia que tinha como título “o término de namoro”: Em uma noite muito bela, Ana e seu namorado Christian Figueiredo foram no cinema assistir ao filme: Românticos Anônimos e compraram o ingresso. Christian, com sua bela delicadeza levou um buquê de flores e a pediu em casamento com uma aliança. Durante o filme, eles comeram salgadinho e tomaram refrigerante. No outro dia, ela recebeu uma foto anônima de Christian beijando outra mulher. Ana ficou brava e triste e começou a fumar. Não parava de chorar, limpando-se com lenços. Ela tentou se animar ouvindo música, mas entrou numa depressão que nem saia mais de casa e só comia macarrão instantâneo. Ana acabou morrendo. A história das meninas, de modo simples, contempla os objetos investigados. Percebem-se problemas ortográficos, contudo, a ideia, a investigação, a concepção da narrativa, deixaram esta divertida e com um fim inesperado. As alunas poderiam dar inúmeras hipóteses aos objetos encontrados, no entanto, os articularam do modo que se aproximasse de suas realidades, estabelecendo critérios para sua narrativa. Tal atividade nos permitiu se aproximar da afirmação de Schmidt, na qual, “ensinar história passa a ser, então, dar condições ao aluno para poder participar do processo de fazer o conhecimento histórico, de construí-lo” (2004, p. 30). Assim, na atividade, os alunos tiveram a oportunidade, a partir das evidências, de construir seu próprio caminho da interpretação tecendo hipóteses, dessa forma, o estudante adquire ferramentas necessárias para aprender a pensar historicamente de outras maneiras. Para o Rafael, aluno diagnosticado com transtorno do espectro autista (TEA),11 foi destinada uma atividade adaptada, tendo em vista que o aluno possui um déficit significativo na comunicação social e nas interações sociais, além da fala de reciprocidade social e a incapacidade para desenvolver e manter relacionamentos de amizade.12 Mediante o que estava ao nosso alcance, para que o aluno também pudesse participar da atividade do lixo, entregamos a ele um saco de lixo com papeis, porém com diversos objetos distintos. Ele deveria abrir os papeis e colar num cartaz disponibilizado, encaixando-os em duas categorias: objetos que estão presentes no cotidiano dele e elementos que não fazem parte do seu dia a dia. Produção do Rafael para a atividade “Investigando o lixo”. O olhar do aluno sobre a atividade Após a semana que trabalhamos o lixo como evidência histórica, formulamos um questionário para acompanhar o aprendizado. A primeira indagação era: como o lixo pode nos ajudar a compreender o modo de vida das pessoas? Aqui tínhamos como pretensão verificar se os estudantes se atentaram a percepção do lixo não como algo descartável e sem utilidade, mas como evidência histórica de extrema importância e que nos pode revelar muito sobre sociedades passadas e atuais. Questionário referente a aula sobre o lixo como evidência histórica. No questionário também estavam contempladas três questões objetivas que perguntavam: Você gostou da oficina com os lixos? Você acredita que a oficina tenha aguçado sua criatividade? A oficina lhe possibilitou compreender acerca da importância de se estudar os restos deixados pelos grupos humanos ao longo do tempo? Nas três questões, apareceram como alternativas o espaço para assinalar o “Sim” ou “Não”. Pretendíamos aqui fazer uma análise quantitativa das respostas, possibilitando verificar as maneiras de aproximação dos alunos a partir de atividades práticas, que pudesse facilitar a compreensão destes. Deste modo, com respostas anônimas, a questão possibilitou perceber até que ponto os alunos compreenderam o objetivo da aula e da atividade. Na primeira questão, diferente do que foi dito pela maioria sobre o lixo na chuva de ideias, apareceram respostas referentes à importância do estudo dos resíduos, compreendo-os, pelo menos a maioria, como evidência histórica que permite o estudo da sociedade contemporânea. Já nas questões objetivas, a atividade obteve maioria absoluta da aprovação, sendo assim, cumprindo um papel importante de docente, possibilitando uma aprendizagem dinâmica, permitindo que o aluno se desprendesse da abordagem tradicional que encontra na maioria das disciplinas. Considerações finais Cabe destacar aqui o debate historiográfico de Maria Auxiliadora Schmidt (2009) com o historiador Rüsen (2001) referente a didática da história, que em seu texto deixa evidente como função desta vertente, a “de formar a consciência histórica, na perspectiva de fornecer elementos para uma orientação, interpretação (...), fornecendo sentidos para a ação na vida prática” (Schmidt, 2009, p. 35). Pensamos que a atividade do lixo, permitiu a construção do conhecimento histórico, pois ela “ocorre quando os alunos percebem a relação dos artefatos com sua própria história, com a história de sua família, de sua localidade e até de seu país” (Abud; Silva; Alves, 2010, p. 111). Assim, a atividade viabilizou a aproximação dos estudantes com os objetos de seu cotidiano, uma vez que viam os resíduos de sua residência como algo sem função, e agora podendo o perceber como uma evidência passível de estudos. Durante as atividades, algumas questões ficaram pendentes podendo ser exploradas em futuras intervenções. Preocupados em focar mais na atividade prática, deixou-se de exibir clássicos documentários, como Ilha das Flores, O lixo extraordinário ou até mesmo Estamira, que permitiriam uma discussão mais complexa acerca dos lixões e aterros sanitários. Logo, poderia ser contemplado um debate que aproximasse da realidade de pessoas, que inclusive, tiram seu sustento do lixo, submetendo-se a longas jornadas de trabalhos em condições precárias. Por fim, percebemos que a atividade foi proveitosa, e os objetivos planejados foram alcançados, pelo menos pela maioria dos alunos. As narrativas históricas construídas pelos alunos, apoiados na concepção de cultura material, possibilitando refletir como os alunos baseado em fontes, articulam e dão sentido a uma hipótese no passado a partir de seu presente. Isso fica evidente no contraste entre a aula antes da atividade com as respostas apresentadas, percebendo um posicionamento diferente dos alunos acerca dos lixos. Como posto, estes elementos deixam de ser visto apenas como algo descartável e sem utilidade, para ter uma função, a de servir como evidência histórica para estudos da sociedade contemporânea. Referências ABUD, Kátia Maria; SILVA, André Chaves de Melo; ALVES, Ronaldo Cardoso. Ensino de História e cultura material. In: CARVALHO, Anna Maria Pessoa de (org.). Ensino de História. São Paulo: Cengage Learning, 2010. Cap. 7. p. 105-124. ANDRADE, André Wagner Oliani. Arqueologia do lixo: um estudo de caso nos depósitos de resíduos da cidade de Mogi das Cruzes em São Paulo. In: ICTR 2004 – Congresso Brasileiro de Ciência e tecnologia em resíduos e desenvolvimento sustentável. 2004. Disponível em: . Acesso em: 07 dez. 2018. BARCA, Isabel. Narrativas e consciência histórica dos jovens. 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