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Anatomia da laringe ★ A laringe é um órgão tubular do sistema respiratório localizado no pescoço, entre a faringe e a traqueia, responsável por funções vitais como respiração e proteção das vias aéreas inferiores. ★ Sua estrutura é composta por cartilagens, músculos, ligamentos e membranas. ★ As pregas vocais, situadas no interior da laringe, vibram com a passagem do ar, produzindo sons que são modulados pela ressonância das cavidades supraglóticas. ★ Embriologicamente, a laringe surge na terceira semana de vida intrauterina e por volta do terceiro mês já apresenta as características básicas encontradas no nascimento. A laringe é sustentada pelo osso hioide e pelas cartilagens laríngeas. Osso Hióide • Localizado na região superior do pescoço, aproximadamente na altura da C3, imediatamente superior à laringe. • Pode ser considerado o limite superior do sistema fonatório. • Tem formato de ferradura (em U). • Não se articula com nenhum outro osso, sendo suspenso por ligamentos. Apesar de não fazer parte integral da laringe, seus movimentos influenciam a posição e mobilidade laríngea, afetando diretamente a tensão das pregas vocais e, consequentemente, a voz. Cartilagens Laríngeas A laringe é composta por 9 cartilagens, das quais 6 possuem nomes distintos — sendo 3 ímpares e 3 pareadas. Ímpares: Cartilagem Tireóidea • Classificada como hialina (Tendência à ossificação na idade avançada) • É a maior de todas as cartilagens laríngeas, fica localizada superiormente. • É nela que está presente as pregas vocais. • Presença da proeminência laríngea, que influencia na voz: formada pelo crescimento da cartilagem tireoide na puberdade, influencia a voz ao aumentar o tamanho da laringe e alongar as pregas vocais, tornando a frequência fundamental mais baixa e a voz mais grave. Cartilagem Cricóidea • Classificada como hialina. • Sua borda inferior se articula com o primeiro anel cartilaginoso da traqueia pelo ligamento cricotraqueal. (Localizada mais inferiormente) Cartilagem Epiglote • Classificada como elástica. • A superfície interna do seu corpo é contínua com a raiz da língua. Pareadas: Cartilagens Aritenoides • Classificadas como hialinas. • Localizam-se na borda inclinada posterior da lâmina da cartilagem cricoidea, formando as articulações cricoaritenoideas. • Cartilagem com função direta na respiração e fonação, realize movimentos: ântero-posterior, vertical, médio-lateral. • As cartilagens aritenoides controlam a abertura, fechamento e tensão das pregas vocais, permitindo a respiração, fonação e proteção das vias aéreas durante a deglutição. Cartilagens Cuneiformes e Corniculadas • Classificadas como elásticas. • Conferem estabilidade às pregas ariepiglóticas, que percorrem o interior da laringe. • As cartilagens corniculadas ficam sobre o ápice das cartilagens aritenoides. • As cartilagens cuneiformes estão anterior e lateralmente às corniculadas, embutidas nas pregas ariepiglóticas, que se estendem da epiglote às aritenoides. Não se ligam a nenhuma outra cartilagem, somente a músculos e ligamentos. • São cartilagens acessórios, prolongam as aritenoides para cima e para trás. Membranas Laríngeas 》 Membranas Extrínsecas Conectam a laringe ao osso hioide e à traqueia, ancorando a laringe no lugar. São elas: • Tireo-hioidea • Hioepiglótica (anatômica que conecta a epiglote ao osso hióide) • Cricotraqueal (entre a cartilagem cricoidea e o primeiro anel traqueal) Membranas Intrínsecas Possuem ambas as ligações em estruturas da própria laringe. Quase todas pertencem à membrana fibroelástica da laringe, contínua e composta por: • Porção superior: Membrana quadrangular, que possui ligamentos ventriculares (âncoras das pregas ventriculares ou falsas). • Porção inferior: Cone elástico, cuja margem superior contém os ligamentos vocais (âncoras das pregas vocais verdadeiras). 》 Importante: As pregas ventriculares (falsas) estão localizadas superiormente às pregas verdadeiras. ▪ A membrana quadrangular é composta de tecido conectivo inelástico, que encontra-se aderido às margens laterais das cartilagens aritenóidea e à epiglote. Como sua borda inferior é móvel, ela é conhecida como ligamento vestibular, ou prega vocal falsa. É coberta pela prega vestibular e localiza-se logo acima da prega vocal, se estendendo entre as cartilagens tireóidea e aritenóidea. A borda superior também é móvel, e forma o ligamento ariepiglótico, que é coberto por mucosa e chamado de prega ariepiglótica. ▪ A membrana tireo-hióidea se estende entre a borda superior e os cornos superiores da cartilagem tireóidea, e o osso hioide. É perfurada pelos vasos laríngeos e pelo nervo laríngeo interno, que inerva as partes intrínsecas da laringe. ▪ O cone elástico se estende superiormente da cartilagem tireóidea, do ligamento vocal e da cartilagem aritenóidea inferiormente, até a borda superior da cartilagem cricóidea. Ligamentos Os ligamentos da laringe são classificados de acordo com a sua posição, que pode ser intrínseca ou extrínseca. Existem dois ligamentos intrínsecos principais e cinco ligamentos extrínsecos principais. Ligamentos intrínsecos Ligamento vocal Auxilia, junto com o cone elástico, na formação da prega vocal verdadeira. O ligamento vocal está localizado entre as cartilagens aritenóidea e tireóidea. O cone elástico se estende superiormente da cartilagem tireóidea, do ligamento vocal e da cartilagem aritenóidea inferiormente, até a borda superior da cartilagem cricóidea. Ligamentos extrínsecos Os ligamentos extrínsecos maiores incluem: • um par de ligamentos tireo-hióideos laterais • um ligamento tireo-hióideo mediano, que auxilia na composição da membrana tireo-hióidea, ao cursar entre a cartilagem tireóidea e o osso hioide • ligamento cricotireóideo mediano, que se estende entre a cartilagem cricóidea e a cartilagem tireóidea. • Finalmente, o ligamento cricotraqueal, que cursa da borda inferior da cartilagem cricóidea até o primeiro anel traqueal. Músculos da laringe Tipos de fibras musculares Fibras tipo I: ● Contração lenta e sustentada. ● Alta resistência à fadiga. ● Atividade de longa duração e menor intensidade. Fibras tipo II A ● Contração rápida. ● Resistência intermediária à fadiga. ● Movimento rápidos e moderadamente sustentados. Fibras tipo II B ● Contração muito rápida e forte ● Baixa resistência, fadigam rapidamente. ● Movimentos explosivos de longa direção. Relação com a laringe ● Maior proporção de fibras do tipo II, pois são responsáveis por movimentos rápidos e precisos, como na produção da voz e ajustes finos de tensão vocal. (coordenam a abertura, fechamento e tensão das pregas vocais. ● Por outro lado, fibras do tipo I sustentam o tônus basal da musculatura laríngea e mantêm a glote aberta durante a respiração sem fadiga excessiva. Músculos Intrínsecos da Laringe Os músculos intrínsecos da laringe são aqueles que possuem tanto a origem quanto a inserção dentro da própria laringe. Sua principal função é alterar a posição, forma e tensão das pregas vocais, possibilitando: ▪ Adução: aproximação das pregas vocais. ▪ Abdução: afastamento das pregas vocais. ▪ Tensão longitudinal: aumento da tensão nas pregas vocais. 》 Maior proporção de fibras IIA Músculo Tireoaritenóideo (TA) ● Origem: incisura tireoidea ● Inserção: Cartilagem aritenoide (processo muscular) ● É o corpo da prega vocal, responsável por aduzir, abaixar, encurta e espessa a prega vocal. ● Dividido em: vocal (interno, fonação e tensão) e muscular (externo, adução da prega vocal) Músculo cricoaritenoideo lateral (CAL) ● Origem: Cartilagem cricoidea (arco) ● Inserção: Cartilagem aritenóidea (superfície anterior) ● Aduz, abaixa, alonga e afila a prega vocal (principal adutor das pregas vocais) Músculo cricoaritenoideo posterior (CAP) ● Origem: cartilagem cricoide (posterior) ● Inserção: cartilagem aritenóidea(posterior) ● Único abdutor das pregas vocais, eleva, alonga e afila a prega vocal. Músculo Aritenóideo (AA) ● Origem e inserção: cartilagem aritenoidea (nas duas) ● Aduz a glote posterior. Músculo cricotireóideo (CT) ● Origem: cartilagem cricoidea (arco) ● Inserção: cartilagem tireoide (corno anteroposterior) ● Aduz na posição paramediana, abaixa, alonga e afila a prega vocal, tensor longitudinal. Músculo Ariepiglótico (AE) ● Origem: Da cartilagem aritenoide, mais especificamente do ápice da cartilagem aritenoide ● Inserção: Na margem lateral da epiglote, ao longo da prega ariepiglótica. ● Sua contração abaixa a epiglote, aproximando-a das cartilagens aritenoides e fechando o ádito da laringe. Músculo Tireoepiglótico (TE) ● Origem: Na face interna da cartilagem tireoide ● Inserção: Na margem lateral da epiglote ● Funciona como antagonista do ariepiglótico. Sua ação devolve a epiglote à sua posição original após o fechamento promovido pelo AE. Musculatura extrínseca Têm uma inserção na laringe e a outra fora dela. Sua função é manter a estabilidade da laringe durante as funções vocais e respiratórias. A movimentação laríngea promovida por esses músculos altera a tensão e angulação entre as cartilagens, influenciando o comprimento e estiramento dos músculos intrínsecos. Conforme Sataloff (1997), o equilíbrio e a estabilidade promovidos pelos músculos extrínsecos são essenciais para o trabalho preciso dos músculos intrínsecos. a) Suprahióideos (elevam a laringe) • Estilo-hióideo • Digástrico • Milo-hióideo • Gênio-hióideo • Genioglosso • Hioglosso b) Infrahióideos (abaixam a laringe) • Esterno-hióideo • Esternotireóideo • Tireo-hióideo • Omo-hióideo Prega vocal (histologia) Camadas: 1. Epitélio: epitélio pavimentoso estratificado não queratinizado — protege e reveste. 2. Camada superficial da lâmina própria (espaço de Reinke): tecido frouxo e gelatinosa — vibração livre. 3. Camada intermediária da lâmina própria: rica em fibras elásticas — elasticidade. 4. Camada profunda da lâmina própria: rica em colágeno — resistência. 5. Músculo vocal (tireoaritenoideo): ajusta a tensão e espessura — fonte de força ativa. 🔹 Divisão funcional (Modelo de Hirano): ● Cobertura: epitélio + camada superficial ● Transição: camadas intermediária e profunda (ligamento vocal) ● Corpo: músculo vocal Essa estrutura em camadas permite que as pregas vocais sejam flexíveis na superfície e estáveis internamente, o que é essencial para uma fonação eficiente. Cavidade laríngea O interior da laringe é um tubo com vários espaços dentro dele. A cavidade laríngea é um tubo com diferentes regiões, de cima para baixo: ▪ Ádito da laringe: porta de entrada da laringe; Limitado por: • Anterior: epiglote • Laterais: pregas ariepiglóticas • Posterior: cartilagens aritenoides. ▪ Vestíbulo: espaço logo abaixo do ádito e acima das pregas ventriculares (vocais falsas). ▪ Ventrículo: espaço entre as pregas ventriculares (falsas) e as pregas vocais verdadeiras. ▪ Espaço subglótico: área logo abaixo das pregas vocais verdadeiras, dentro da cartilagem cricóidea. ▪ Glote: abertura entre as pregas vocais verdadeiras, de tamanho variável. Durante: • Adução completa: glote fechada. • Respiração tranquila: glote semiaberta (~8 mm em homens). • Respiração forçada/bocejo: glote máxima (~16-18 mm em homens). Regiões laríngeas A cavidade laríngea se divide em três regiões: • Supraglótica: acima das pregas vocais; inclui epiglote, pregas ariepiglóticas, vestibular, ventrículo e seios piriformes. • Glótica: formada pelas pregas vocais e a glote. • Subglótica: abaixo das pregas vocais; revestida por epitélio ciliado que move muco e partículas para cima, facilitando a limpeza com a tosse. Inervação A inervação dos músculos intrínsecos é feita principalmente pelo nervo vago (X par craniano), por meio de dois ramos principais: Nervo laríngeo superior Ramos interno: sensitivo ● Inerva a mucosa da laringe acima das pregas vocais (região supraglótica) Ramo externo: motor ● Inerva o músculo cricotireoideo, responsável por tensionar as pregas vocais, afinando a voz. Nervo laríngeo recorrente ➔ Trajeto descendente e depois ascendente. Direito: contorna a artéria subclávia. Esquerda: contorna o arco da aorta. ★ Motor: inerva todos os músculos intrínsecos da laringe exceto o cricotireoideo. ★ Sensitivo: Inerva a mucosa da laringe abaixo das pregas vocais (região subglótica) e a traqueia superior. Funções da laringe A laringe possui uma série extensa de funções, das quais as mais importantes são a função respiratória, a deglutitória e a fonatória. Função respiratória ★ A respiração é a função mais antiga e constante da laringe. ★ Requer menos energia do que outras funções (como fonação e proteção) ★ Predomina em tempo de uso durante a vida Mecanismo respiratório ● A abertura da laringe permite a entrada e saída de ar. Essa abertura é garantida pela ação do músculo cricoaritenoideo posterior (CAP) -> promove abdução das pregas vocais. (em menor grau do CT também) Movimentação da laringe na respiração ● Durante a inspiração: a laringe é tracionada levemente para baixo ● Durante a expiração: a laringe é tracionada levemente para cima ● A amplitude do movimento vertical é proporcional à intensidade da respiração Ações musculares envolvidas ● CAP: promove afastamento das pregas vocais e aritenoides ● Diafragma e traqueia contribuem para o rebaixamento da laringe ● Músculos infra-hiódeos e esternotireóideos: ajudam na descida da cartilagem tireoídea e fortalecem a abertura laríngea. Função deglutitória (de proteção) ● Evitar aspiração de alimentos ou líquidos para a árvore respiratória ● Garantir o selamento completo da laringe Sequência de eventos na fase faríngea da deglutição: Elevação e anteriorização da laringe ● Laringe se move para cima e para frente Fechamento da laringe (de baixo para cima) ● Pregas vocais e pregas vestibulares: contração firme e medial ● Pregas ariepiglóticas aproximam epiglote das aritenoides ● Esfíncter velo-faríngeo também se fecha ● Epiglote é fletida sobre o ádito laríngeo Base da língua é empurrada posteriormente Abertura do esfíncter esofágico superior ● Cricóidea afaste-se da coluna ● Músculo cricifarìngeo relaxa Passagem do bolo alimentar para o esôfago ● A base da língua retorna à posição inicial ● A epiglote e a laringe também retornam à posição de repouso Interrupção automática da respiração durante a deglutição ★ Fechamento máximo da glote (CAL + AA) Função fonatória A fonação é uma função neurofisiológica inata ● A voz se forma ao longo da vida, influenciada por: ➔ Características anatômicas e funcionais individuais ➔ Aspectos emocionais e históricos do sujeito Distinção entre fonação e voz ● Laringe: produz a fonação (som glótico) ● Trato vocal: transforma a fonação em voz ● Voz = fonação + ressonância A produção da voz exige coordenação harmônica de: ● Sistema respiratório, laringe, cavidades ressonadoras e articuladoras. Ciclo glótico O ciclo glótico é o processo que acontece durante a fonação (produção da voz), no qual as pregas vocais se abrem e se fecham repetidamente para gerar o som. Esse ciclo é muito rápido e ocorre várias vezes por segundo — por exemplo, cerca de 100 vezes por segundo em uma voz masculina normal (100 Hz). O ciclo é composto por quatro fases principais: 1. Fase de Fechamento (ou fase de aproximação) As pregas vocais estão fechadas ou começando a se fechar. O ar vindo dos pulmões começa a se acumular abaixo das pregas vocais (região subglótica), aumentando a pressão subglótica. 2. Fase de Abertura Quando essa pressão é suficiente para vencer a resistência das pregas, elas são forçadas a se abrir, permitindo que o ar passe pela glote (espaço entre as pregas). É o início da liberação do ar. 3. Fase de Máxima Abertura (ouescape de ar) As pregas estão bem afastadas e o ar passa com grande velocidade. Aqui atua o efeito de Bernoulli, que causa uma queda de pressão entre as pregas. 4. Fase de Fechamento Final A queda de pressão (efeito Bernoulli) e a elasticidade das pregas fazem com que elas voltem a s Importante: ● O ciclo glótico não depende de contrações musculares rápidas para abrir e fechar as pregas; ele ocorre automaticamente pela interação entre pressão do ar, forças aerodinâmicas e elasticidade do tecido vocal. ● Cada ciclo gera uma pequena rajada de ar, que se transforma no som fundamental da voz. ● A qualidade da vibração pode ser observada através de exames como videolaringoestroboscopia, que mostra o movimento das pregas em câmera lenta e fechar rapidamente, encerrando o ciclo e iniciando outro. Controle de frequência (grave e aguda) (pitch: a percepção da frequência) Grave ● Contração do TA ● PPVV curtas e largas ● Maior tempo de permanência de contato das PPVV durante o ciclo glótico. ● Estrutura: camadas mais frouxas ● Menor quantidade de ciclos glóticos por segundo Agudo ● Contração do CT ● PPVV pequenas e estreitas ● Menor tempo de permanência de contato das PPVV durante o ciclo glótico. ● Estrutura: camadas menos frouxas ● Menor quantidade de ciclos glóticos por segundo Intensidade (loudness) Alta ● Maior pressão subglótica: o ar vindo dos pulmões é empurrado com mais força, criando uma pressão maior abaixo das pregas vocais. ● Maior tensão laríngea: os músculos laríngeos se contraem mais para manter as pregas vocais firmemente aduzidas (juntas). ● Maior grau de fechamento das pregas vocais: as pregas se fecham de forma mais completa, com menos escape de ar. ● Maior tempo de contato das pregas vocais durante o ciclo glótico: elas permanecem fechadas por mais tempo a cada vibração, aumentando a força do som gerado. Baixa ● Menor pressão subglótica ● Menor esforço muscular ● Fechamento incompleto das pregas vocais ● Menor tempo de contato entre as pregas vocais Laringe: Fonação Trato vocal: Voz O trato vocal é o conjunto de estruturas anatômicas acima das pregas vocais (glote) que serve como ressonador e modulador dos sons produzidos pela laringe. Ele modela o som glótico bruto, transformando-o em fala inteligível, vogais, consoantes, etc. Neurofisiologia do mecanismo vocal (INATA) Neurofisiologia vocal é um processo complexo que integra mecanismos centrais e periféricos do sistema nervoso. A produção da voz se inicia no córtex motor, onde ocorre o planejamento e a emissão voluntária dos comandos motores. Esses comandos são transmitidos pelas vias piramidais até os motoneurônias inferiores, que ativam os músculos laríngeos responsáveis pela fonação. A regulação fina desse processo é realizado pela sistema extrapiramidal, pelos gânglios da base e pelo cerebelo, que coordenam o ritmo, a precisão e a estabilidade dos movimentos vocais. Além disso, o sistema sensorial ajustes automáticos na tensão das pregas vocais e na qualidade e na qualidade emissão. As emoções também exercem influência significativa sobre a voz,por meio do sistema límbico, que se conecta a regiões motoras e autonômicas do cérebro. Essa conexão explica por que estados emocionais como medo, raiva ou tristeza provocam alterações involuntários na voz, afetando o pitch, a intensidade, a articulação e a qualidade vocal. A modulação emocional se reflete, por exemplo, em uma voz trêmula no medo, rouca na tristeza ou projetada na raiva, mostrando que a fonação não é apenas um ato motor, mas também uma expressão sensível do estado emocional. A produção vocal é explicada principalmente por duas teorias complementares: a teoria mioelástica-aerodinâmica e a teoria muco-ondulatória. (explicação de como e porque o ciclo glótico ocorre) A teoria mioelástica-aerodinâmica descreve a vibração das pregas vocais com base em três elementos principais: a elasticidade das pregas vocais (mioelástico), a pressão do ar que vem dos pulmões (pressão subglótica) e o efeito aerodinâmico do fluxo de ar (efeito Bernoulli). Segundo essa teoria, as pregas vocais se aproximam (aduzem) e fecham a passagem do ar. À medida que o ar se acumula abaixo delas, a pressão aumenta até forçar a abertura das pregas. Quando o ar passa com alta velocidade pela glote, a pressão entre as pregas diminui (efeito Bernoulli), fazendo com que elas se fechem novamente com ajuda de sua elasticidade. Esse ciclo de abertura e fechamento se repete rapidamente, criando pequenas rajadas de ar que originam o som da voz. A teoria explica bem a vibração normal das pregas vocais, mas não é suficiente para justificar sons irregulares, distorções ou características vocais complexas, como as encontradas em disfonias ou performances artísticas. Para preencher essa lacuna, surge a teoria muco-ondulatória, proposta por Perello, que complementa a anterior ao destacar o papel da mucosa que recobre as pregas vocais. Essa mucosa vibra de forma independente e gera um movimento ondulatório na superfície das pregas, essencial para uma voz suave e saudável. Problemas como ressecamento, inflamações ou alterações hormonais podem prejudicar esse movimento, afetando diretamente a qualidade vocal. A teoria também aponta que o volume da voz está relacionado à força de fechamento das pregas vocais, enquanto a frequência (altura do som) depende da atuação dos músculos que ajustam sua tensão e espessura. Assim, a teoria mioelástica-aerodinâmica explica o mecanismo básico da vibração vocal, enquanto a teoria muco-ondulatória acrescenta a importância do movimento da mucosa na qualidade e suavidade da voz. Juntas, oferecem uma compreensão mais completa da fonação, embora ainda não expliquem totalmente sons vocais extremamente complexos ou desviados. Anamnese Para chegar a um diagnóstico fonoaudiológico, o processo começa com uma anamnese cuidadosa e aprofundada para assim obter uma compreensão das causas e fatores potenciais para a manutenção da disfonia, bem como para permitir a definição de conduta, limite terapêutico, prognóstico e critérios de alta. O que tem que ter na anamnese? Nome completo, data de nascimento, local, endereço, e-mail e telefones de contato. Escolaridade e nome da escola, atividades complementares e responsável pelo encaminhamento. A identificação fornece dados importantes sobre o tipo de voz esperado em virtude da idade da criança, inclusive em relação à frequência vocal para as diferentes faixas etárias. Escolaridade e escola frequentada indicam a adequação do desenvolvimento da aprendizagem, dado que será complementado com visita à instituição de ensino para que se conheça não apenas a ocorrência de abusos vocais, mas o comportamento global da criança. Saber sobre a realização de atividades complementares é fundamental para elucidar a presença ou não de abusos vocais em situações aparentemente inócuas e sem risco. Queixa -> o motivo da consulta e deve reproduzir exatamente o que for falado pelos responsáveis e paciente. Em crianças, é comum que a queixa seja dos familiares, da escola e principalmente de outros profissionais. A consciência sobre a presença da disfonia, seja pela alteração da qualidade vocal, seja pelo cansaço à fonação, não costuma ser clara. Obviamente, esse é um aspecto muito importante para a aderência da criança à terapia, que deverá modificar aspectos comportamentais que dependem muito da sua consciência sobre a presença da disfonia e o impacto desses aspectos. História pregressa - > detalhar e esclarecer a evolução do quadro, incluindo quando começou, momentos de piora e melhora ao longo do período e ao longo do dia, procura por tratamentos anteriores e resultados obtidos, além de diagnósticos médicos prévios. (início de maneira abrupta ou pregressa) A anamnese vocal infantil é crucial para esclarecer a causa da disfonia. Por exemplo, a voz rouca desde o choro sugere causa congênita, especialmentese há histórico familiar. Voz pior pela manhã pode indicar refluxo gastroesofágico, que, sem tratamento, prejudica a eficácia da fonoterapia. Já a voz que piora ao final do dia sugere abuso ou mau uso vocal, sendo importante identificar essas situações. Disfonias crônicas tendem a fixar o padrão vocal, dificultando a resposta terapêutica. Por outro lado, vozes com variações na qualidade tendem a evoluir melhor na terapia. A busca por múltiplos tratamentos pode indicar resistência ou baixa adesão do paciente. Abusos vocais -> Inclui gritos, uso frequente da voz em forte intensidade em ambientes escolares e/ou familiares, prática de esportes com grande demanda vocal. Inclui gritos, uso frequente da voz em forte intensidade em ambientes escolares e/ou familiares, prática de esportes com grande demanda vocal – como futebol – imitação de personagens em situações diversas – brincadeiras, videogame, filmes etc. – tiques vocais, tosse e pigarro constantes. Fatores causais e/ou de manutenção da disfonia -> Explorar aspectos que possam estar relacionados com disfonia como: gripes ou resfriados, quadros alérgicos, respiratórios, gástricos, procedimentos cirúrgicos e aspectos comportamentais. Quadros alérgicos são responsáveis por processos terapêuticos longos e, muitas vezes, fracassados. É comum que a voz melhore quando há bom controle médico e volte a piorar na vigência da alergia. Falar demais concomitantemente a um quadro inflamatório e/ou alérgico pode ser traumático e facilitar a ocorrência de disfonia. Antecedentes familiares -> Questionar a presença de outros quadros de disfonia na família. Esse aspecto é fundamental para esclarecer a presença de um padrão familiar de abuso vocal ou a ocorrência de um quadro congênito que pode acometer um ou mais membros da família. É comum que a mãe ou o pai perca a referência de um padrão de voz alterado quando a disfonia ocorre entre os membros da família. Portanto, é sempre interessante questionar se há outro familiar com voz parecida com a do paciente e não somente se há outras vozes disfônicas entre parentes. ● Predisposição comportamental: Costume familiar de falar alto Avaliação A avaliação multidimensional da voz compreende um conjunto de análises que se complementam (BEHLAU et al., 2001). Alguns métodos são subjetivos, os quais podem ser mensurados por meio da aplicação de protocolos e outros objetivos mensurados por meio de métodos computacionais. As ferramentas computacionais desenvolvidas para atender a necessidade clínica da avaliação vocal compreendem a análise de sinais acústicos e de imagens laríngeas. Parâmetros vocais avaliados: Quanto à qualidade vocal (perceptivo-auditiva): ➔ É a impressão geral da qualidade vocal que o ouvinte tem ao escutar uma voz. ➔ Descrever a voz de forma global, usando termos perceptivos que reflitam o funcionamento glótico. ● Voz normal (eufônica): som claro, sem esforço, com bom controle respiratório e ressonância equilibrada. ● Voz soprosa: há escape de ar durante a fonação, como em pregas vocais que não se fecham bem (ex: disfonia leve). ● Voz rouca: som irregular, com aspereza e rugosidade, geralmente por vibração anormal das pregas vocais. ● Voz tensa (estrangulada): esforço excessivo, tensão muscular na região cervical e laríngea. ● Voz anasalada (hipernasal ou hiponasal): alteração da ressonância por funcionamento inadequado do véu palatino ou obstrução nasal. ● Voz abafada: som com pouca projeção, como se estivesse "preso na garganta". Qualidade Vocal A característica acústica da voz, considerando sua clareza, estabilidade e fluência sonora. Componentes observados: ● Estabilidade: a voz se mantém consistente ou apresenta variações frequentes? ● Presença de ruídos: soprosidade, rugosidade ou estridência? ● Regularidade do ciclo glótico: há quebra, interrupções ou diplofonia? Exemplos: ● Voz instável: variações abruptas de frequência ou intensidade. ● Diplófonia: percepção de duas frequências ao mesmo tempo. ● Tremor vocal: variações rítmicas e involuntárias na intensidade ou pitch. Ressonância: Ressonância vocal é o processo pelo qual o som produzido pelas pregas vocais (na laringe) é amplificado, moldado e modificado pelas estruturas do trato vocal, como a faringe, cavidade oral e cavidade nasal (são os espaços ocos do trato vocal) Ressonância Equilibrada ● Não há predominância de nenhuma região ressonadora na amplificação dos harmônicos. ● Ou seja, as caixas (laríngea, faríngea, oral e nasal) atuam harmonicamente de forma balanceada, resultando em uma voz com qualidade natural e bem ajustada. Ressonância de Foco Alto ● Amplificação excessiva do som pela cavidade nasal. ● Caracteriza-se por hipernasalidade, quando o ar e som passam mais pelo nariz que o ideal, podendo prejudicar a clareza vocal. Ressonância de Foco Baixo ● Esforço fonatório grande, geralmente na região laríngea e faríngea. ● Voz tensa, com poucos harmônicos (sons ricos em frequências), e sensação de tensão muscular na emissão vocal. ● Pode indicar uso inadequado da musculatura e voz “presa” ou “forçada”. Articulação -> são os ajustes motores dos órgãos fonoarticulatórios durante a fala, que são importantes para projeção e clareza do som. Refere-se à clareza na produção dos sons da fala. Aspectos analisados: ● Precisão articulatória. ● Velocidade e coordenação articulatória. ● Presença de distorções, omissões ou imprecisões. Vozes alteradas frequentemente apresentam também imprecisão articulatória, por tensão muscular, fadiga ou compensações. Coordenação pneumofonoarticulatória É a harmonia funcional entre três sistemas envolvidos na produção vocal: 1. Pneumo (respiração): controle do ar exalado que será usado como fonte de energia para a voz. 2. Fono (fonação): produção da voz pelas pregas vocais, que modulam o ar vindo dos pulmões. 3. Articulatória (articulação): moldagem dos sons da fala por meio da língua, lábios, mandíbula, palato, etc. Esses três sistemas precisam trabalhar em sincronia e equilíbrio para que a emissão vocal ocorra de forma eficiente, clara e sem esforço. Alterações na coordenação pneumofonoarticulatória podem gerar: ● Fadiga vocal precoce ● Uso excessivo da musculatura laríngea ● Voz entrecortada ou instável ● Fala com pausas inadequadas ● Respiração entre frases curtas ● Fonação sem apoio respiratório suficiente ● Articulação apressada, confusa ou imprecisa Estados emocionais como ansiedade, tensão e agitação tendem a influenciar negativamente essa coordenação. Isso acontece porque o sistema nervoso autônomo afeta diretamente o padrão respiratório e a tensão muscular, comprometendo o equilíbrio entre os sistemas. Tempo máximo fonatório É uma das medidas mais utilizadas na avaliação vocal, por ser simples, objetiva e fornecer informações valiosas sobre a eficiência glótica, o controle respiratório e a coordenação pneumofonoarticulatória. ● É o tempo (em segundos) que uma pessoa consegue sustentar uma emissão vocal contínua com uma única inspiração. Como é feito? 1. Vogais sustentadas: O paciente é instruído a inspirar profundamente e sustentar o som das vogais /a/, /i/ e /u/ o máximo de tempo possível, em tom e intensidade confortáveis. 2. Fricativos surdo e sonoro: ○ /s/ → som fricativo sem vibração glótica ○ /z/ → som fricativo com vibração glótica O tempo de sustentação de cada um é anotado. 3. Contagem numérica: ○ O paciente conta rapidamente até onde conseguir com uma única inspiração (ex: “1, 2, 3, 4, 5, ...”) ○ Avalia a articulação, coordenação e fôlego. ➔ Adultos saudáveis geralmente sustentam vogais por 15 a 25 segundos. Tensão Corporal: A tensão corporal é uma resposta muscular compensatória ao uso ineficiente da voz — principalmente quando há hiperfunção vocal (uso excessivo de força e tensão para produzir som). A criança que está disfônica geralmente não se queixa detensão na cervical ou no pescoço, dores lombares ou localizadas. No entanto, o esforço fonatório prolongado e contínuo resulta em compensações corporais, o que leva a uma fala ineficiente e hiperfuncional. Durante a fala espontânea ou em atividades lúdicas, observe se há: ● Cabeça/pescoço projetados ou rígidos ● Ombros elevados ou tensionados ● Mandíbula contraída ou com movimento exagerado ● Tronco em excesso de movimento ao falar ● Respiração alta (clavicular), com elevação dos ombros 📌 Situações naturais revelam mais facilmente padrões de tensão corporal. 4. Competência comunicativa: é a eficiência da comunicação; uso de expressão facial; curva melódica e ênfase adequada da fala; domínio de regras sintáticas e semânticas; e vocabulário mais preciso e claro na exposição de ideias. Crianças disfônicas geralmente apresentam competência comunicativa eficiente, com expressividade facial, curva melódica e domínio linguístico adequados, sendo, em sua maioria, comunicativas e extrovertidas. Estudos indicam que falam até três vezes mais que crianças sem disfonia. Contudo, apresentam dificuldades em respeitar turnos de fala, ajustar a intensidade vocal ao ambiente e realizar pausas respiratórias, frequentemente utilizando ar de reserva com esforço. Também não percebem claramente que a voz transmite informações físicas e emocionais. Além disso, é comum a associação da disfonia com distúrbios do processamento auditivo central e hiperatividade, sendo necessária avaliação multidisciplinar em casos suspeitos. Astenia vocal é um termo usado para descrever uma fraqueza ou redução da força da voz. Isso significa que a pessoa sente que sua voz está fraca, cansada, com pouco volume ou projeção, dificultando a fala clara e eficiente. Características da astenia vocal: ● Voz baixa e sem sustentação. ● Cansaço vocal fácil, especialmente após falar por algum tempo. ● Dificuldade para manter o volume normal da voz. ● Sensação de esforço ao falar. Pitch = altura/tonalidade da voz (grave ou agudo). Loudness = volume/intensidade da voz (alto ou baixo). Avaliação Perceptivo-Auditiva da Voz A avaliação perceptivo-auditiva é considerada o padrão ouro na avaliação da voz, pois permite ao fonoaudiólogo descrever, qualificar e monitorar alterações vocais com base na escuta clínica treinada. A avaliação perceptivo-auditiva da voz (APA) é considerada o principal instrumento clínico na análise vocal, sendo fundamental para a caracterização da qualidade vocal, quantificação da severidade do desvio e acompanhamento terapêutico. É um procedimento subjetivo, baseado na escuta treinada do fonoaudiólogo, mas que pode ser padronizado por meio de protocolos como o GRBASI e o CAPE-V, que são os mais utilizados e validados na prática clínica. A escala GRBASI, também chamada de GRBAS, foi desenvolvida por Hirano e adaptada ao português por pesquisadores como Mara Behlau. É uma escala ordinal que avalia seis parâmetros vocais: G (grau geral da disfonia), R (rugosidade), B (soprosidade), A (astenia), S (tensão) e I (instabilidade). Cada parâmetro recebe uma pontuação de 0 a 3, sendo 0 a ausência de alteração, 1 alteração discreta, 2 alteração moderada e 3 alteração intensa. Essa escala é prática e rápida, utilizada especialmente em contextos clínicos com grande número de atendimentos ou quando se deseja uma descrição direta e objetiva da qualidade vocal. No entanto, por ser uma medida categórica, tem menor sensibilidade para mudanças sutis ao longo do tempo. Já o CAPE-V (Consensus Auditory-Perceptual Evaluation of Voice) é uma escala desenvolvida pela American Speech-Language-Hearing Association (ASHA), com versão traduzida e validada para o português. Trata-se de uma escala contínua, baseada em uma linha visual analógica de 100 mm, na qual o avaliador marca a intensidade percebida de seis parâmetros vocais: grau geral da alteração vocal, aspereza, soprosidade, tensão, quebra de fonação e loudness. Esse protocolo inclui a análise de tarefas padronizadas como emissão sustentada das vogais /a/ e /i/, leitura de frases específicas e fala espontânea. O CAPE-V é considerado mais sensível para detectar pequenas variações na qualidade vocal e é indicado quando se deseja uma avaliação mais precisa e refinada, especialmente em pesquisas ou acompanhamento longitudinal. Ambas as escalas têm vantagens e limitações. O GRBASI é mais simples e direto, de fácil aplicação e interpretação clínica. O CAPE-V, por sua vez, é mais descritivo e sensível, permitindo uma análise mais aprofundada e comparações mais detalhadas ao longo do tratamento. A escolha entre uma ou outra deve considerar o objetivo da avaliação, o nível de experiência do avaliador, a complexidade do caso e o contexto clínico ou científico no qual a avaliação está inserida. Avaliação acústica A análise acústica tem como finalidade mensurar objetivamente características do sinal sonoro vocal, permitindo uma investigação precisa dos aspectos fisiológicos e funcionais da produção vocal. Diferente da avaliação perceptivo-auditiva, que é subjetiva e dependente da experiência do avaliador, a análise acústica fornece dados mensuráveis e reprodutíveis. Ela possibilita: ● Quantificação de parâmetros da fonte glótica (ex: frequência fundamental, jitter, shimmer, razão harmônico-ruído). ● Estudo do trato vocal, como medidas de ressonância e espectro de frequência. ● Análise do sinal acústico em tarefas fonatórias específicas, como vogal sustentada, fala encadeada ou leitura de frases. Parâmetros acústicos mais utilizados na clínica vocal Frequência fundamental (f₀) ● Refere-se à frequência média das vibrações das pregas vocais durante a fonação. ● Está relacionada à percepção de pitch (altura vocal). ● Varia conforme sexo, idade, estado emocional e tipo de voz. Jitter ● Mede a variação ciclo a ciclo na frequência (instabilidade da frequência). ● Associado à irregularidade da vibração glótica. ● Pode indicar tensão, fadiga vocal ou lesões. Shimmer ● Mede a variação ciclo a ciclo na amplitude (instabilidade da intensidade). ● Relaciona-se à instabilidade no controle da força da voz. ● Alterações podem sugerir fraqueza vocal, soprosidade ou disfonias. Razão Harmônico-Ruído (HNR ou NHR) ● Avalia a proporção entre o som harmônico (periodicidade) e o ruído (a-periodicidade) no sinal vocal. ● Quanto maior o HNR, mais "limpa" e saudável é a voz. ● Baixos valores indicam ruído excessivo, comum em vozes soprosas, roucas ou tensas. Amplitude ● Mede a força ou intensidade do som vocal. ● Pode indicar alterações na projeção vocal e na eficiência do trato vocal. Formantes (F1, F2...) ● Referem-se às ressonâncias do trato vocal, importantes na distinção dos sons vocálicos. ● Alterações nos formantes podem sinalizar mudanças articulatórias ou ressonatoras. Cepstral Peak Prominence (CPP) ● Parâmetro moderno que analisa a periodicidade do sinal vocal no domínio do cepstro. ● Menos sensível a ruídos de ambiente, sendo útil para vozes disfuncionais. ● Muito usado na avaliação da qualidade vocal geral. Tempo Máximo de Fonação (TMF) ● Tempo que o indivíduo consegue sustentar uma vogal em uma única expiração. ● Importante para avaliar a eficiência pneumofonoarticulatória. Autoavaliação em crianças e adolescentes e avaliação parental Autoavaliação da criança/adolescente Refere-se à percepção que a própria criança ou adolescente tem da sua voz e das limitações ou dificuldades que ela provoca em diferentes contextos sociais, escolares e emocionais. Essa autoavaliação depende da idade e do nível de consciência da criança. Em crianças maiores e adolescentes, essa avaliação pode ser feita com mais consistência, por meio de: ● Escalas de auto-percepção. ● Perguntas abertas sobre incômodos vocais. ● Dificuldades de comunicação com colegas e professores. ● Preocupações estéticas relacionadas à voz. ● Presença de cansaço vocal. Em crianças menores, aautoavaliação pode ser limitada, sendo necessário o uso de estratégias adaptadas à idade e linguagem da criança. Avaliação parental É indispensável, pois os pais ou responsáveis: ● Percebem alterações vocais que a criança não identifica. ● Relatam o histórico vocal desde o nascimento ● Descrevem o impacto social, emocional e funcional da disfonia na vida da criança. ● Informam sobre comportamentos de abuso vocal ou hábitos prejudiciais. Questionário de Sintomas Vocais Pediátrico (QSV-P) Descrição O QSV-P é um instrumento validado e adaptado cultural e linguisticamente para o português brasileiro. Foi desenvolvido para avaliar sintomas relacionados à voz em crianças e adolescentes, com versões para aplicação tanto na criança quanto nos pais/responsáveis. Objetivo Identificar possíveis alterações vocais e seu impacto no cotidiano da criança, abordando aspectos físicos, sociais e emocionais. Estrutura O questionário é dividido em quatro domínios: ● Uso da voz falada ● Uso da voz cantada ● Voz projetada ● Grito As respostas seguem uma escala de frequência: “nunca”, “às vezes”, “frequentemente”, “sempre” ou “não se aplica”. Interpretação dos resultados ● Pontuação mais alta indica maior frequência de sintomas vocais ou maior impacto percebido. ● Pontuação baixa ou zero sugere ausência ou baixa frequência de sintomas vocais. Aplicação clínica O QSV-P não fornece diagnóstico direto, mas auxilia o fonoaudiólogo a: ● Mapear sintomas autorreferidos ou observados pelos pais. ● Comparar as percepções entre a criança e seus responsáveis. ● Planejar a avaliação clínica e as intervenções fonoaudiológicas adequadas. ➔ Aplicação de 6 a 18 anos. QVV P O QVV-P (Questionário de Qualidade de Vida em Voz – versão Pediátrica) é um instrumento desenvolvido para avaliar o impacto que alterações vocais podem ter na qualidade de vida de crianças e adolescentes, a partir da percepção dos pais ou responsáveis. Trata-se de um protocolo de aplicação simples, que busca identificar se a disfonia infantil está interferindo em aspectos físicos, sociais e emocionais do cotidiano da criança. É composto por 10 perguntas objetivas, que abordam situações relacionadas ao uso da voz em diferentes contextos, como escola, lazer, comunicação com amigos e familiares, além de possíveis repercussões emocionais, como frustração ou tristeza em decorrência da própria voz. As respostas são organizadas em uma escala de frequência de cinco pontos, sendo: 0 (nunca), 1 (quase nunca), 2 (às vezes), 3 (quase sempre) e 4 (sempre). A pontuação total pode variar de 0 a 40, e quanto maior a pontuação obtida, maior o impacto negativo percebido da voz na vida da criança. Esse questionário é indicado para crianças a partir de 2 anos de idade, faixa etária na qual a criança já se comunica verbalmente com regularidade e os pais ou responsáveis são capazes de observar seu comportamento vocal e possíveis limitações. O QVV-P não tem como finalidade oferecer um diagnóstico clínico direto, mas atua como ferramenta complementar à avaliação fonoaudiológica, auxiliando na compreensão do quadro vocal infantil e na formulação de estratégias terapêuticas. Seu uso também permite monitorar a evolução da criança ao longo do processo terapêutico e comparar os efeitos de intervenções sobre a percepção familiar quanto à voz da criança. desenvolvimento da voz na infância e adolescência é um processo complexo e dinâmico que reflete o amadurecimento do indivíduo em seus aspectos anatômicos, fisiológicos, neurológicos, hormonais, emocionais e sociais. A principal estrutura envolvida nesse processo é a laringe, cujo crescimento e remodelação determinam profundas alterações vocais ao longo da vida. --- 🔹 DESENVOLVIMENTO DA VOZ NA INFÂNCIA Na infância, a voz está intimamente relacionada às necessidades básicas de comunicação e sobrevivência. O trato vocal é curto, a laringe é pequena e situada em posição alta (entre as vértebras C1 e C3), facilitando a respiração simultânea com a deglutição — essencial para o aleitamento. A epiglote possui formato de ômega, a cartilagem cricóidea é circular e a tireoide forma um ângulo de cerca de 120°. As pregas vocais são pequenas (cerca de 2,5 mm ao nascimento e até 8 mm na infância), com histologia imatura — ou seja, ainda não há uma diferenciação clara entre epitélio, lâmina própria e músculo vocal. Isso confere à voz características mais agudas, com rugosidade leve e menor controle melódico, resultando numa frequência fundamental elevada (entre 450 e 250 Hz). A musculatura intrínseca da laringe infantil é voltada principalmente para funções respiratórias e protetoras, e ainda está em processo de maturação neuromuscular. Por isso, a voz da criança pode ser instável, com emissão vocal delgada e pouco potente. Aos poucos, com o crescimento, a laringe inicia sua descida e o trato vocal se alonga, o que gradualmente modifica as características acústicas da voz. A frequência fundamental começa a diminuir, e a voz se torna mais inteligível, estável e articulada. --- 🔹 DESENVOLVIMENTO DA VOZ NA ADOLESCÊNCIA Na adolescência, ocorre um processo fundamental: a muda vocal fisiológica, marcada por intensas mudanças hormonais e estruturais. Esse processo é mais perceptível nos meninos, com início geralmente entre 13 e 15 anos, enquanto nas meninas ocorre de 12 a 14 anos. Durante esse período, a laringe cresce de forma significativa, especialmente nos meninos — a cartilagem tireoide projeta-se à frente (formando o pomo de Adão), com uma redução do ângulo laríngeo para cerca de 90° nos meninos e 110° nas meninas. A laringe desce para a altura da vértebra C6 nas meninas e C7 nos meninos, o que aumenta o comprimento do trato vocal e modifica a ressonância da voz. As pregas vocais alongam-se (atingindo de 12 a 17 mm nas meninas e 17 a 23 mm nos meninos) e tornam-se mais espessas, com maturação completa da estrutura trilaminar da lâmina própria, o que permite maior refinamento no controle da vibração vocal. As mudanças vocais observadas durante a muda incluem: Meninas: instabilidade vocal com alterações sutis no loudness (intensidade), leve soprosidade e discreto decréscimo na frequência fundamental (de cerca de 250 Hz para 150 Hz). Meninos: queda acentuada da frequência fundamental (de cerca de 250 Hz para valores entre 223 e 90 Hz), além de instabilidade vocal, quebras de registro, rouquidão, diplofonia e soprosidade. Essa instabilidade se deve ao descompasso entre o crescimento anatômico da laringe e a adaptação neuromuscular, especialmente da musculatura intrínseca, que ainda é instável. A proporção glótica (PG) também muda: nos meninos passa a ser aproximadamente 1,3, favorecendo o fechamento glótico completo, enquanto nas meninas permanece próxima de 1, o que mantém certa predisposição a fendas posteriores. --- 🔸 RESUMO – CARACTERÍSTICAS DA VOZ EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES Crianças: voz delgada, aguda, com rugosidade leve, frequência fundamental elevada (450–250 Hz), instabilidade vocal moderada, trato vocal curto e laringe alta (C1-C3). Pregas vocais pequenas, estrutura imatura, musculatura com função protetora. Voz com menor controle e projeção. Adolescentes: voz com características sexuais diferenciadas. Meninas apresentam voz mais grave, estável e com leve soprosidade (loudness variável); meninos têm voz mais grave, encorpada, com frequência fundamental mais baixa (até 90 Hz), e instabilidade vocal durante a muda (pitch, quebras, rugosidade). Laringe desce, trato vocal alonga-se e há crescimento das estruturas laríngeas. Classificação das disfonias O sistema de classificação de Behlau & Pontes (1990 e 1995) Behlau & Pontes (1990) destacam que a disfonia é um sintoma presente em diversos distúrbios, podendo ser tanto o sintoma principal quanto secundário. Em alguns casos, a disfonia é encarada como a própria doença, como nas disfonias funcionais por modelo vocaldeficiente, enquanto em outros, como na doença de Parkinson, é apenas um sintoma discreto dentro de um quadro maior. Apesar disso, os autores propõem uma classificação etiológica em três grandes categorias, baseada no envolvimento do comportamento vocal na causa da disfonia: disfonias funcionais, organofuncionais e orgânicas. As disfonias funcionais são desordens do comportamento vocal, causadas por uso incorreto da voz, inadaptações vocais ou alterações psicogênicas, representando o envolvimento máximo do comportamento vocal. As disfonias organofuncionais correspondem a disfonias funcionais que evoluíram e apresentaram lesões secundárias, sendo uma etapa posterior à disfonia funcional. Já as disfonias orgânicas independem do uso da voz e são causadas por processos variados. Os autores ressaltam apresentam grande interrelação. Uma disfunção funcional pode causar alterações orgânicas que agravam o quadro, transformando-o em organofuncional; inversamente, uma disfonia orgânica pode gerar desvios vocais funcionais, compondo também um quadro organofuncional. Além disso, após a correção de alterações orgânicas, pode persistir uma disfonia funcional devido à readaptação vocal. Em 2000, Pontes, Behlau & Brasil revisaram essa classificação, renomeando as duas primeiras categorias como disfonias funcionais primárias e secundárias, para melhor definir o papel do comportamento vocal no surgimento da alteração, além de manter a categoria das disfonias funcionais por alterações psicogênicas, preservando a essência do modelo original. Disfonias Funcionais São desordens do comportamento vocal, causadas por três aspectos principais: 1. Disfonias funcionais primárias por uso incorreto da voz Resultam do uso inadequado da voz devido a: a) Falta de conhecimento vocal: o indivíduo não sabe como usar corretamente a voz (ex: inspiração inadequada, articulação incorreta, compressão glótica errada, uso excessivo ou insuficiente das caixas de ressonância). b) Modelo vocal deficiente: o paciente tenta imitar vozes idealizadas (como artistas famosos), podendo haver influência inconsciente e até distúrbios psicológicos associados. 》O fonoaudiólogo é fundamental na reabilitação, orientando o uso correto da voz. 2. Disfonias funcionais secundárias por inadaptações vocais São disfonias que não são funcionais puras, englobando variações anatômicas e funcionais que dificultam a produção vocal, divididas em: a) Inadaptações anatômicas: • Assimetria laríngea: pequenas alterações anatômicas na laringe que comprometem a fonação, embora outras funções da laringe (respiração, deglutição) estejam preservadas. • Fusão laríngea posterior incompleta. • Desvios na proporção glótica. • Alterações estruturais mínimas da cobertura das pregas vocais (AEMC), como sulco vocal, cisto epidermóide, ponte de mucosa, microdiafragma e vasculodisgenesia. 》 Essas alterações podem causar fadiga vocal e estão relacionadas ao uso vocal e comportamento do indivíduo. 》 Há debate se AEMC seria melhor classificada como disfonia orgânica, organofuncional ou funcional, dada sua natureza e impacto. b) Inadaptações funcionais: • Problemas de coordenação pneumofonoarticulatória. • Alterações miodinâmicas (respiratórias, ressonantes ou laríngeas), como alterações posturais da laringe, fendas glóticas e constrições do vestíbulo laríngeo. 3. Disfonias funcionais por alterações psicogênicas São disfonias associadas a conflitos emocionais e psicológicos, onde a voz manifesta simbolicamente essas dificuldades. • Exemplos incluem afonia de conversão, falsete de conversão, disfonia espasmódica psicogênica, disfonia vestibular, entre outras. • Também incluem as disfonias da muda vocal (puberfonias), com variantes como mutação prolongada, incompleta, precoce, retardada, etc. • Fatores emocionais influenciam fortemente a voz, que é veículo essencial para a comunicação emocional humana. Disfonias Organofuncionais As disfonias organofuncionais são aquelas que têm origem funcional, mas que evoluem para apresentar lesões secundárias nas pregas vocais, geralmente por atraso no diagnóstico ou tratamento da disfonia funcional inicial. O tratamento fonoaudiológico tem como objetivo principal promover a reabsorção dessas lesões, corrigindo o comportamento vocal inadequado que as causou. A integração entre otorrinolaringologista e fonoaudiólogo é fundamental para decidir a melhor conduta, incluindo a possibilidade de cirurgia. A definição do tratamento depende da equipe envolvida, do tipo, tamanho e localização da lesão (lesões anteriores têm melhor prognóstico com fonoterapia que as posteriores), da presença de assimetria laríngea, do impacto na prega contralateral, dos fatores causais, das demandas vocais, da presença de alterações displásicas, da disponibilidade do paciente e da sua motivação. Em alguns casos, o diagnóstico pode ser incerto, como na distinção entre nódulo e cisto de pregas vocais. As principais lesões organofuncionais incluem nódulos, pólipos, edemas de Reinke, úlceras de contato, granulomas e leucoplasias, sendo que algumas dessas últimas podem ter origem exclusivamente orgânica, como no caso do refluxo laringofaríngeo. A classificação das disfonias em comportamentais e orgânicas, segundo Mara Behlau, é uma das mais utilizadas na Fonoaudiologia brasileira. Ela propõe uma categorização funcional e etiológica, facilitando o entendimento clínico e terapêutico dos distúrbios vocais. Essa classificação aparece em diversas obras da autora, como no livro "Voz: o livro do especialista", e em artigos científicos, incluindo Behlau & Madazio (2017). 📌 Classificação de Disfonias segundo Mara Behlau: --- 1. Disfonias Comportamentais (ou Funcionais) São aquelas em que não há lesão estrutural orgânica primária nas pregas vocais. O problema vocal é decorrente do uso inadequado da voz, muitas vezes associado a fatores psicogênicos, ambientais ou hábitos vocais prejudiciais. Subtipos: Disfonia Comportamental Hipercinética: uso excessivo de força ou tensão na produção vocal (ex: abuso vocal, esforço, voz "apertada"). Disfonia Comportamental Hipocinética: voz fraca, soprosa, com pouca projeção, por uso insuficiente da musculatura vocal (ex: vozes infantis ou idosos com desuso vocal). Disfonia Psicogênica (ou Psicogênica Conversiva): alterações vocais causadas por fatores emocionais, podendo chegar à afonia, sem lesão estrutural. --- 2. Disfonias Orgânicas Apresentam alterações anatômicas ou fisiológicas das pregas vocais ou de outras estruturas do trato vocal. Podem ser congênitas ou adquiridas. Subtipos: Orgânicas Estruturais: há lesão visível ou malformação estrutural (ex: nódulos, cistos, pólipos, sulco vocal, paralisia de prega vocal). Orgânicas Neurológicas: associadas a comprometimentos do controle neuromotor da laringe (ex: paralisia unilateral ou bilateral de prega vocal, distonia laríngea, tremor essencial). --- 🧩 Considerações Importantes: A distinção entre comportamental e orgânica não é excludente. Um indivíduo pode apresentar disfonia mista, com componentes comportamentais e orgânicos coexistindo (ex: pessoa que desenvolve nódulos devido a abuso vocal contínuo). Essa classificação orienta tanto a avaliação vocal como a conduta terapêutica, que deve ser multidisciplinar em casos orgânicos, envolvendo médicos otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos. Alterações laríngeas e disfonias comuns na infância e adolescência 🔹 1. NÓDULOS VOCAIS Definição: Lesões benignas bilaterais simétricas localizadas na junção do terço anterior com o terço médio das pregas vocais verdadeiras. Causa: Uso vocal abusivo e repetitivo (gritos, fala em excesso, imitação de vozes, uso incorreto da técnica vocal). Estruturas afetadas: Epitélio e camada superficial da lâmina própria das pregas vocais verdadeiras. Fisiopatologia: A fricção contínua entre as pregas vocais durantea fonação causa microtraumas repetitivos, levando a edema, espessamento epitelial e formação de fibrose localizada. Sintomas: Rouquidão crônica, voz soprosa ou abafada, esforço vocal, fadiga vocal ao falar por períodos prolongados. --- 🔹 2. CISTO DE PREGA VOCAL Definição: Lesão benigna, encapsulada, geralmente unilateral, com conteúdo mucoso ou epidermoide, localizada dentro da prega vocal. Causa: Pode ser congênito (remanescente de tecido embrionário) ou adquirido (obstrução de glândulas mucosas ou microtrauma vocal). Estruturas afetadas: Lâmina própria da prega vocal, geralmente nas camadas superficial ou intermediária. Fisiopatologia: O cisto impede a vibração normal da mucosa vocal (efeito de massa), prejudicando o fechamento glótico e a simetria vibratória. Sintomas: Disfonia persistente, voz abafada, irregularidades na emissão vocal, esforço ao falar. --- 🔹 3. PÓLIPO VOCAL Definição: Lesão benigno unilaterial, flácida ou gelatinosa, localizada na margem livre da prega vocal, mais comum em adolescentes do que em crianças. Causa: Trauma vocal agudo (ex: grito intenso, tosse forçada, fonação em esforço súbito). Estruturas afetadas: Pregas vocais verdadeiras, especialmente no terço médio da margem livre. Fisiopatologia: A ruptura de pequenos vasos na lâmina própria leva a extravasamento de fluido, edema localizado e formação de tecido esponjoso. Sintomas: Rouquidão súbita, quebra vocal, sensação de corpo estranho ou pigarro frequente. --- 🔹 4. PAPILOMATOSE LARÍNGEA RECORRENTE Definição: Doença proliferativa benigna causada pelo HPV (tipos 6 e 11), caracterizada por múltiplas lesões verrucosas. Causa: Infecção pelo HPV, geralmente adquirida durante o parto vaginal (transmissão vertical). Estruturas afetadas: Pregas vocais, comissura anterior, ventrículos laríngeos, podendo se estender para subglote e até a traqueia. Fisiopatologia: O vírus infecta células epiteliais, induzindo hiperplasia e formação de massas exofíticas. Pode causar obstrução aérea e alterações na vibração vocal. Sintomas: Disfonia grave, estridor (ruído respiratório), fadiga vocal, em casos graves: obstrução respiratória. --- 🔹 5. PARALISIA OU PARESIA DE PREGA VOCAL Definição: Alteração neuromuscular que compromete a mobilidade de uma ou ambas as pregas vocais. Causa: Congênita (malformações neurológicas), ou adquirida (pós-cirúrgica, infecções virais, lesão no nervo vago ou laríngeo recorrente). Estruturas afetadas: Músculos intrínsecos da laringe (tiroaritenoideo, cricoaritenoideo posterior), nervo laríngeo recorrente. Fisiopatologia: A inervação inadequada impede a movimentação adequada da prega vocal, gerando escape de ar, falha no fechamento glótico e, nos casos bilaterais, risco respiratório. Sintomas: Rouquidão intensa, voz fraca, aspiração de líquidos, estridor, dificuldade respiratória se bilateral. --- 🔹 6. LARINGOMALÁCIA Definição: Malformação congênita mais comum da laringe, em que as cartilagens supraglóticas são flácidas. Causa: Congênita, por imaturidade do suporte cartilaginoso supraglótico. Estruturas afetadas: Epiglote, pregas ariepiglóticas e cartilagens aritenoides. Fisiopatologia: Durante a inspiração, as estruturas colapsam sobre a glote, dificultando a passagem do ar. Sintomas: Estridor inspiratório (mais acentuado ao mamar ou chorar), dificuldade de alimentação, apneias. Pode afetar a voz se houver obstrução crônica. --- 🔹 7. LARINGOCELE INFANTIL Definição: Dilatação anormal do sáculo laríngeo, podendo ser interna (limitada à laringe), externa (projeta-se no pescoço) ou mista. Causa: Congênita (falha na formação do sáculo) ou adquirida (aumento da pressão laríngea: esforço vocal, tosse crônica). Estruturas afetadas: Sáculo laríngeo, localizado entre a prega vocal e a prega vestibular (falsa). Fisiopatologia: A dilatação forma uma bolsa cheia de ar (laringocele) ou muco (mucocele), que pode comprimir as vias aéreas e alterar a ressonância e vibração vocal. Sintomas: Rouquidão, estridor, abaulamento visível no pescoço (se externa), dificuldade respiratória, sensação de pressão laríngea. --- 🔹 8. EDEMA DE REINKE (raro na infância, mais comum no fim da adolescência) Definição: Acúmulo de fluido gelatinoso no espaço de Reinke, resultando em pregas vocais flácidas e espessadas. Causa: Uso vocal intenso crônico, tabagismo precoce, exposição a irritantes respiratórios. Estruturas afetadas: Espaço de Reinke (camada superficial da lâmina própria das pregas vocais). Fisiopatologia: A inflamação crônica provoca extravasamento de líquido e aumento do peso das pregas, prejudicando a vibração. Sintomas: Rouquidão grave, voz grossa ou cavernosa, diminuição do pitch, fadiga vocal. Adolescência ALTERAÇÕES LARÍNGEAS COMUNS NA ADOLESCÊNCIA --- 🔹 1. Puberfonia (ou Falsete Mutacional) Descrição: Persistência da voz aguda mesmo após o término da puberdade, principalmente em meninos, quando já deveria haver queda da frequência fundamental. Causa: Fatores emocionais, resistência inconsciente à mudança vocal, falta de coordenação pneumofonoarticulatória, insegurança em relação à identidade vocal. Estrutura afetada: Pregas vocais verdadeiras (sem alteração anatômica), mas com uso inadequado da musculatura laríngea e tensão supraglótica. Sintomas: Voz aguda, fraca, com baixa ressonância; ausência de quebras vocais típicas da muda vocal; comunicação vocal imatura em relação à idade. --- 🔹 2. Disfonia Funcional Comportamental Descrição: Alteração vocal sem lesão visível, decorrente do uso vocal inadequado ou abusivo (gritos, cantar alto, falar em ambientes ruidosos). Causa: Comportamentos vocais de risco, excesso de fala, imitação de vozes, uso incorreto da respiração e articulação. Estrutura afetada: Pregas vocais verdadeiras, musculatura intrínseca da laringe, com sobrecarga funcional. Sintomas: Rouquidão, voz soprosa, fadiga vocal, falhas na emissão, esforço vocal. --- 🔹 3. Nódulos Vocais Descrição: Lesões benignas bilaterais nas pregas vocais devido ao atrito repetido durante o uso vocal inadequado. Causa: Uso abusivo da voz, especialmente em adolescentes que participam de atividades com fala intensa (líderes de grupo, animadores, cantores amadores). Estrutura afetada: Margens das pregas vocais – junção do terço anterior com o terço médio. Sintomas: Rouquidão persistente, voz áspera, soprosidade, fadiga vocal, esforço para projetar a voz. --- 🔹 4. Pólipos Vocais Descrição: Lesão vocal única, unilateral, geralmente mole e associada a trauma vocal agudo. Causa: Grito súbito, tosse intensa, esforço vocal em excesso. Estrutura afetada: Margem livre da prega vocal, geralmente no terço médio. Sintomas: Rouquidão imediata após o esforço, sensação de corpo estranho, quebra vocal. --- 🔹 5. Disfonia Psicogênica Descrição: Alteração vocal sem base orgânica, associada a conflitos emocionais, traumas ou distúrbios de ansiedade/depressão. Causa: Fatores emocionais e psicossociais – muito comum em adolescentes com quadros de sofrimento psíquico ou dificuldade de expressão emocional. Estrutura afetada: Não há lesão anatômica, mas pode haver hiperfunção supraglótica (com constrição das pregas vestibulares e da musculatura extrínseca da laringe). Sintomas: Rouquidão, afonia, voz tensa ou bloqueada, voz “presa” ou inconstante. A história clínica e o contexto emocional são essenciais para diagnóstico. --- 🔹 6. Edema de Reinke (mais frequente em adolescentes fumantes) Descrição: Acúmulo de líquido gelatinoso na camada superficial da prega vocal, tornando-a espessa e flácida. Causa: Tabagismo precoce, uso excessivo da voz, exposição à poluição e refluxo gastroesofágico. Estrutura afetada: Espaço de Reinke– camada superficial da lâmina própria das pregas vocais. Sintomas: Voz rouca, grave, opaca; pregas vocais espessadas; fadiga vocal. --- 🔹 7. Disfonia por Muda Vocal Tardia ou Acelerada Descrição: Mudança vocal fora do tempo esperado: – Tardia: voz infantil persiste até tarde da adolescência. – Acelerada: voz grave muito precoce (às vezes ainda na infância). Causa: Alterações hormonais ou distúrbios endócrinos, além de fatores hereditários e ambientais. Estrutura afetada: Pregas vocais (alterações no comprimento, espessura e tensão das pregas com maturação hormonal). Sintomas: Descompasso entre a voz e a idade, instabilidade vocal, quebra de voz, dificuldades para regular intensidade e pitch. --- 🔹 8. Papilomatose Laríngea Recorrente (em adolescentes) Descrição: Proliferação epitelial causada pelo HPV, podendo persistir desde a infância ou surgir tardiamente. Causa: Infecção pelo HPV (tipos 6 e 11). Nos adolescentes, pode estar relacionada a contato sexual precoce ou persistência da forma juvenil. Estrutura afetada: Pregas vocais, área glótica e subglótica. Sintomas: Disfonia progressiva, estridor, obstrução respiratória em casos graves. Camadas: 🔹 Divisão funcional (Modelo de Hirano): Quanto à qualidade vocal (perceptivo-auditiva): Avaliação Perceptivo-Auditiva da Voz Parâmetros acústicos mais utilizados na clínica vocal Frequência fundamental (f₀) Shimmer Razão Harmônico-Ruído (HNR ou NHR) Amplitude Cepstral Peak Prominence (CPP) Tempo Máximo de Fonação (TMF)