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AN02FREV001/REV 4.0 3 SUMÁRIO MÓDULO I 1 O SISTEMA CIRCULATÓRIO 1.1 CIRCUITO PULMONAR E SISTÊMICO 1.2 AS CIRCULAÇÕES 1.3 LOCALIZAÇÃO DO CORAÇÃO 1.4 FORMA DO CORAÇÃO 1.5 ÁTRIOS 1.6 VENTRÍCULOS 1.7 CORAÇÃO DIREITO 1.8 CORAÇÃO ESQUERDO 1.9 FLUXO SANGUÍNEO E VÁLVULAS 1.10 VÁLVULAS 1.11 PAREDES DO CORAÇÃO 1.12 AS ARTÉRIAS CORONÁRIAS 1.13 TERRITÓRIOS VASCULARES DAS CORONÁRIAS 1.14 CÉLULAS MUSCULARES CARDÍACAS 1.15 SISTEMA DE CONDUÇÃO ELÉTRICA 1.16 O CICLO CARDÍACO 1.17 DÉBITO CARDÍACO E ÍNDICE CARDÍACO 2 MEIOS DIAGNÓSTICOS EM CARDIOLOGIA 2.1 HISTÓRIA CLÍNICA E EXAME FÍSICO DO PACIENTE CARDIOPATA 2.2 EXAME FÍSICO/CARDIOLOGIA 2.2.1 Inspeção do Tórax 2.2.2 Palpação do Tórax 2.2.3 Percussão do Tórax 2.2.4 Ausculta Cardíaca 2.3 PACIENTE SEM ALTERAÇÕES AO EXAME CARDIOVASCULAR 2.4 EXAMES DIAGNÓSTICOS EM CARDIOLOGIA 2.4.1 Creatino Kinase (CK) 1 AN02FREV001/REV 4.0 4 2.4.2 CK-MB 2.4.3 CK-MB Massa 2.4.4 Troponina T 2.4.5 Colesterol Total 2.4.6 Colesterol Total e Frações 2.4.7 TGO - Transaminase Glutâmico Oxaloacética 2.4.8 TGP - Transaminase Glutâmica Pirúvica 2.5 EXAMES DIAGNÓSTICOS 2.5.1 Teste de Esforço 2.5.2 Eletrocardiografia 2.5.3 ECG: Interpretação das Ondas 2.5.4 Eletrocardiografia Ambulatorial Contínua (Holter) 2.5.5 Testagem Eletrofisiológica 2.5.6 Exames Radiológicos 2.5.7 Tomografia Computadorizada 2.5.8 Fluoroscopia (Radioscopia) 2.5.9 Ecocardiografia 2.5.10 Ressonância Magnética 2.5.11 Estudos com Radionuclídeos 2.5.12 Tomografia por Emissão de Pósitrons 2.5.13 Cateterismo Cardíaco 2.5.14 Angiografia Coronariana MÓDULO II 3 DOENÇAS ASSOCIADAS AOS PROBLEMAS CARDÍACOS E DOENÇAS CARDÍACAS I 3.1 HIPERTENSÃO ARTERIAL 3.2 DIABETES MELLITUS (DM) 3.3 FISIOPATOLOGIA DA CIRCULAÇÃO CORONÁRIA 3.4 A PLACA ATEROSCLERÓTICA 3.5 FATORES DE RISCO PARA ATEROSCLEROSE 3.6 SÍNDROMES CORONARIANAS AGUDAS (SCA) 3.6.1 A Dor Torácica Típica 2 AN02FREV001/REV 4.0 5 3.6.2 A dor torácica não coronariana 3.6.3 Estratificação da Dor no Atendimento 3.6.4 Estratificação dos Pacientes quanto à Probabilidade de Síndrome Coronariana Aguda 3.6.5 Dor Torácica Cardíaca de Causa Isquêmica 3.6.6 Dor Torácica Cardíaca de Causa Não Isquêmica 3.6.7 Dor Torácica de Causa Não Cardíaca 3.6.8 Atendimento Imediato na Sala de Urgência 3.7 ANGINA 3.8 INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO 3.9 INSUFICIÊNCIA CARDÍACA 3.10 EDEMA AGUDO DE PULMÃO 3.11 O CHOQUE E O CHOQUE CARDIOGÊNICO MÓDULO III 4 DOENÇAS CARDÍACAS II 4.1 ENDOCARDITES 4.2 MIOCARDIOPATIAS 4.2.1 Miocardiopatia Congestiva Dilatada 4.2.2 Miocardiopatia Hipertrófica 4.2.3 Miocardiopatia Restritiva 4.3 VALVULOPATIAS 4.3.1 Insuficiência Mitral 4.3.2 Prolapso da Válvula Mitral 4.3.3 Estenose Mitral 4.3.4 Insuficiência Aórtica 4.3.5 Estenose Aórtica 4.3.6 Insuficiência Tricúspide 4.3.7 Estenose Tricúspide 4.3.8 Estenose Pulmonar 4.4 FEBRE REUMÁTICA 4.5 PERICARDITES 4.5.1 Pericardite Aguda 3 AN02FREV001/REV 4.0 6 4.5.2 Pericardite Viral 4.5.3 Pericardite Tuberculosa 4.5.4 Pericardite Urêmica 4.5.5 Pericardite Neoplásica 4.5.6 Pericardite Pós-Radiação 4.5.7 Pericardite Pós-Infarto do Miocárdio 4.5.8 Pericardites Mais Raras 4.5.9 Pericardite Constritiva 4.5.10 Tamponamento Cardíaco: a Complicação da Pericardite 4.6 TUMORES CARDÍACOS 4.6.1 Mixomas 4.6.2 Outros Tumores Primários MÓDULO IV 5 CARDIOPATIAS CONGÊNITAS 5.1 CIRURGIA CARDÍACA INFANTIL 5.2 ANOMALIAS CARDÍACAS CIANÓTICAS 5.2.1 Tetralogia de Fallot 5.2.2 Tronco Arterioso 5.2.3 Atresia Tricúspide 5.2.4 Transposição das Grandes Artérias 5.2.5 Síndrome da Hipoplasia do Coração Esquerdo 5.2.6 Anomalia do Septoventricular (Comunicação Interventricular – CIV) 5.2.7 Anomalia do Septoatrial (Comunicação Interatrial – CIA) 5.2.8 Persistência do Canal Arterial (PCA) 5.2.9 Coarctação da Aorta (CoAo) 5.2.10 Estenose Pulmonar 5.2.11Estenose Aórtica 5.3 PROCEDIMENTOS HEMODINÂMICOS EM CARDIOPATIAS CONGÊNITAS 5.4 PAPEL DO ENFERMEIRO NO PÓS-OPERATÓRIO DE CIRURGIA CARDÍACA INFANTIL 5.5 CIRURGIAS CARDÍACAS NO ADULTO 5.5.1 Pré-Operatório de Cirurgia Cardíaca – Cuidados de Enfermagem 4 AN02FREV001/REV 4.0 7 5.5.2 Revascularização Miocárdica 5.5.3 Substituição Valvar 5.6 CIRCULAÇÃO EXTRACORPÓREA 5.7 COMPLICAÇÕES NO PÓS-OPERATÓRIO 5.8 TRANSPLANTE CARDÍACO 5.8.1 Recepção do Paciente na UTI no Pós-Operatório de Cirurgia Cardíaca pelo Enfermeiro 5.9 PROTOCOLO DE ORIENTAÇÃO PÓS ALTA HOSPITALAR PARA PACIENTES ADULTOS Submetidos à Cirurgia Cardíaca MÓDULO V 6 DROGAS UTILIZADAS EM CARDIOLOGIA 6.1 DROGAS QUE ATUAM SOBRE AS PLAQUETAS 6.2 DROGAS QUE ATUAM SOBRE A TROMBINA 6.3 BLOQUEADORES DOS CANAIS DE CÁLCIO 6.4 BETABLOQUEADORES 6.5 OS NITRATOS 6.6 DROGAS VASOATIVAS 6.7 FARMACOLOGIA NA REANIMAÇÃO CARDIORRESPIRATÓRIA 7 ARRITMIAS CARDÍACAS 7.1 ACOMPANHANDO A VIA ELÉTRICA DO CORAÇÃO 7.2 VIA ELÉTRICA 7.3 SINTOMAS 7.4 DIAGNÓSTICO 7.5 PROGNÓSTICO E TRATAMENTO 7.6 CRITÉRIOS ELETROCARDIOGRÁFICOS PARA CARACTERIZAÇÃO DAS ARRITMIAS SEGUNDO A SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA 7.6.1 Ritmo Sinusal e Arritmias Cardíacas 7.6.2 Outras Arritmias de Origem Supraventricular 7.6.3 Arritmias Ventriculares 7.6.4 Condução Atrioventricular 7.6.5 Alterações no Segmento ST e Onda T REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 5 AN02FREV001/REV 4.0 8 MÓDULO I 1 O SISTEMA CIRCULATÓRIO O coração é o órgão central do sistema circulatório. O sangue é o meio que fornece às células nutrientes, oxigênio, hormônios e recebe os produtos finais do metabolismo (gás carbônico). Os vasos sanguíneos são tubos pelos quais o sangue circula e é representado pelas artérias, veias e capilares. FIGURA 1 1.1 CIRCUITO PULMONAR E SISTÊMICO Circuito Pulmonar: transporta o sangue pobre em oxigênio do coração para os pulmões e traz o sangue oxigenado de volta ao coração. Circuito Sistêmico: conduz o sangue rico em oxigênio do coração para as partes do corpo, exceto os pulmões, e traz esse de volta ao coração. 6 AN02FREV001/REV 4.0 9 FIGURA 2 1.2 AS CIRCULAÇÕES As funções básicas do sistema cardiovascular são transportar oxigênio e outros nutrientes para as células do corpo, remover produtos do metabolismo celular e carregar substâncias de uma parte para outra do corpo. O funcionamento do coração é extraordinariamente complexo, sendo a resposta integrada de propriedades intrínsecas do miocárdio sob muitas influências extrínsecas, tais como: fatores do sistema nervoso, fatores humorais, o volume de sangue e o retorno venoso, e também as impedâncias instantâneas da vasculatura periférica. Chama-se circulação o movimento que o sangue realiza ciclicamente dentro do sistema vascular. Esse sistema compreende uma extensa rede de condutos ou tubos especialmente preparados para que o sangue circule em seu interior. As artérias são os vasos que levam o sangue do coração para os órgãos, músculos, ossos, enfim, para cada célula do nosso organismo. A parede das artérias é composta de três camadas: a camada adventícia, que é a camada mais externa; a camada média, formada por musculatura lisa e a camada íntima, que é um revestimento de endotélio. 7 AN02FREV001/REV 4.0 10 As artérias têm a propriedade especial de se contraírem assim que recebem o estímulo de substâncias contidas no próprio sangue (hormônios), produzindo o efeito que se chama de pressão arterial. O pulso arterial é produzido pela ejeção de sangue do ventrículo esquerdo dentro da aorta e grandes vasos. Essa pressão faz com que o sangue seja empurrado para frente, chegando aos órgãos e às células. As veias são os vasos que trazem o sangue de volta ao coração. Diferemda garganta do paciente até o esôfago, registrando os sinais a partir de um ponto situado logo atrás do coração. Esta técnica é conhecida como ecocardiografia transesofágica e pode detectar anormalidades de movimento da parede do coração e do volume de sangue que está sendo bombeado pelo coração em cada batimento, espessamentos e doenças da membrana que envolve o coração (pericárdio) e acúmulo de líquido entre o pericárdio e o músculo cardíaco (miocárdio). Os principais tipos de exames ultrassonográficos são: modo M, bidimensional, Doppler e Doppler colorido. Na ultrassonografia no modo M, que é a técnica mais simples, um feixe isolado de ultrassom é direcionado à parte do coração estudado. A ultrassonografia bidimensional, que é a técnica mais utilizada, produz imagens bidimensionais reais, em “cortes” gerados por computador. A ultrassonografia com Doppler detecta o movimento e a turbulência do sangue e pode produzir uma imagem colorida (Doppler colorido). As ecocardiografias com Doppler colorido e com Doppler simples podem determinar e mostrar a direção e a velocidade do fluxo sanguíneo nas câmaras cardíacas e nos vasos sanguíneos. As imagens permitem ao médico observar se as válvulas cardíacas abrem e fecham adequadamente, se há escape de sangue durante fechamento e, em caso afirmativo, a quantidade de sangue que escapa, e ainda se o sangue flui normalmente. Podem ser detectadas conexões anormais entre os vasos sanguíneos ou entre as câmaras cardíacas e a estrutura e o funcionamento de vasos e câmaras cardíacas podem ser determinados. 51 AN02FREV001/REV 4.0 54 2.5.10 Ressonância Magnética A ressonância magnética (RM) é uma técnica que utiliza um campo magnético potente para a produção de imagens detalhadas do coração e do tórax. Essa técnica extremamente cara e sofisticada ainda se encontra em estágio experimental para uso no diagnóstico de cardiopatias. O indivíduo é colocado no interior de um enorme ímã elétrico, o qual faz com que os núcleos dos átomos do organismo vibrem e emitam sinais característicos, os quais são convertidos em imagens bi e tridimensionais das estruturas cardíacas. Em geral, não há necessidade de agentes de contraste (radiopacos). No entanto, ocasionalmente, são administrados contrastes paramagnéticos pela via intravenosa, os quais ajudam na identificação de áreas de pouco fluxo sanguíneo do miocárdio. Uma desvantagem da RM é a demora em obter cada imagem, em comparação com a tomografia computadorizada (TC). Em razão dos movimentos cardíacos, as imagens obtidas com RM são borradas, em comparação com as obtidas por TC. Além disso, algumas pessoas apresentam claustrofobia durante a realização da RM, pois elas devem ficar imóveis em um espaço estreito dentro de uma máquina gigantesca. 2.5.11 Estudos com Radionuclídeos Nos estudos imagenológicos com radionuclídeos, quantidades diminutas de substâncias radioativamente marcadas (marcadores) são injetadas em uma veia, mas, de qualquer modo, o exame expõe o indivíduo a uma menor radiação do que na maioria dos estudos radiográficos. Os marcadores distribuem-se rapidamente por todo o corpo, incluindo o coração. Em seguida, eles são detectados por uma câmara gama. A imagem é apresentada em um monitor e gravada no disco rígido do computador para análise posterior. Diferentes tipos de câmaras de registro de 52 AN02FREV001/REV 4.0 55 radiação podem armazenar uma imagem isolada ou gerar uma série de imagens de cortes transversais, as quais são refinadas pelo computador – técnica conhecida como tomografia computadorizada por emissão de fótons isolados. O computador também pode gerar uma imagem tridimensional. Os estudos com radionuclídeos são particularmente úteis no diagnóstico de indivíduos com dor torácica de causa desconhecida. Nos indivíduos que apresentam estreitamento (estenose) de uma artéria coronária, a técnica é utilizada para a determinação da magnitude do efeito da estenose sobre o aporte sanguíneo e o funcionamento do coração. Os estudos com radionuclídeos também são utilizadas na comprovação da melhoria do fluxo sanguíneo ao miocárdio após uma cirurgia de bypass (revascularização miocárdica) ou um procedimento similar. Além disso, eles também são úteis na determinação do prognóstico de um indivíduo após um infarto do miocárdio. Geralmente, o fluxo sanguíneo miocárdico é examinado com o uso de uma injeção intravenosa de tálio-201 e por meio da obtenção de imagens enquanto a pessoa realiza um teste de esforço. A quantidade de tálio-201 absorvida pelas células do músculo cardíaco depende do fluxo sanguíneo. No pico do exercício, uma determinada área do miocárdio com irrigação sanguínea deficiente (isquemia) apresenta menor radioatividade (gera uma imagem menos nítida) que o músculo vizinho com uma circulação normal. Nos indivíduos incapazes de realizar o exercício, pode ser aplicada uma injeção intravenosa de dipiridamol ou de adenosina para simular os efeitos do exercício sobre o fluxo sanguíneo. Essas drogas desviam a irrigação sanguínea dos vasos anormais para os vasos normais. Após o indivíduo repousar algumas horas, é realizada uma segunda exploração. O médico pode então observar quais são as áreas do coração que apresentam uma ausência de fluxo reversível, a qual é comumente decorrente de uma estenose coronariana, e quais áreas apresentam cicatrizes irreversíveis do miocárdio – geralmente decorrentes de um infarto do miocárdio prévio. Se houver suspeita de um infarto agudo do miocárdio, são utilizados marcadores que contêm tecnécio 99 m como alternativa ao tálio-201. Ao contrário do tálio, o qual se acumula principalmente no tecido normal, o tecnécio se aglomera, sobretudo, no tecido anormal. No entanto, como o tecnécio também se acumula nos 53 AN02FREV001/REV 4.0 56 ossos, as costelas dificultam um pouco a avaliação da imagem cardíaca. Daí a cintilografia com tecnécio é utilizada no diagnóstico. A área lesada do coração absorve o tecnécio e o exame pode detectar um infarto do miocárdio durante aproximadamente uma semana, a partir de 12 a 24 horas após sua ocorrência. 2.5.12 Tomografia por Emissão de Pósitrons Na técnica de tomografia por emissão de pósitrons (TEP), um nutriente necessário para o funcionamento das células cardíacas é marcado com uma substância que emite partículas radioativas chamadas pósitrons e, em seguida, é injetado através da via intravenosa. Em poucos minutos, quando o nutriente marcado atinge a área do coração que está sendo examinada, um detector a examina e registra os locais com maior atividade. Um computador produz uma imagem tridimensional da área, revelando quão ativamente as diferentes regiões do miocárdio estão utilizando o nutriente marcado. A tomografia por emissão de pósitrons produz imagens mais nítidas que os demais estudos de medicina nuclear. Contudo, trata-se de um exame muito caro e ainda não está amplamente difundido. Essa técnica é utilizada como uma ferramenta de pesquisa e nos casos em que exames mais simples e baratos são inconclusivos. 2.5.13 Cateterismo Cardíaco No cateterismo cardíaco, um cateter (tubo) fino é inserido através de uma artéria ou veia, habitualmente de uma perna ou de um braço, e é conduzido até os grandes vasos e câmaras cardíacas. Para atingir o lado direito do coração, o médico insere o cateter em uma veia e, para atingir o lado esquerdo, é utilizada uma artéria. Os cateteres podem ser posicionados no coração com objetivos diagnósticos ou terapêuticos. 54 AN02FREV001/REV 4.0 57 A pessoa é submetida a uma anestesia local antes do procedimento, o qual é realizado no hospital. Frequentemente, o cateter contém um instrumento de mensuração ou outro dispositivo na extremidade. Dependendo do tipo, os cateteres podem ser utilizados para mensurar apressão, observar o interior dos vasos sanguíneos, alargar uma válvula cardíaca estreitada (estenosada) ou desobstruir uma artéria bloqueada. Os cateteres são muito utilizados na avaliação cardíaca, pois podem ser inseridos sem a necessidade de uma cirurgia importante. Um cateter especialmente projetado com um balão na sua extremidade pode ser inserido em uma veia do braço ou do pescoço, sendo direcionado através do átrio e do ventrículo direitos do coração até a abertura da válvula pulmonar. FIGURA 20 Este procedimento é chamado cateterismo da artéria pulmonar. O cateter é utilizado para mensurar a pressão arterial dos vasos de maior calibre e nas câmaras cardíacas. O débito cardíaco aos pulmões também pode ser mensurado. Amostras de sangue podem ser coletadas pelo cateter para análise do conteúdo de oxigênio e de dióxido de carbono. Como a inserção de um cateter na artéria pulmonar pode desencadear ritmos cardíacos anormais, o coração é controlado por meio do eletrocardiograma. Podem-se corrigir ritmos anormais mobilizando o cateter para outra posição. Se isso não resolver, o cateter é removido. O médico também pode utilizar o cateter 55 AN02FREV001/REV 4.0 58 para obter amostras de sangue para estudos metabólicos. Usando o cateter, o médico também pode instilar contrastes, os quais são observados na fluoroscopia ( FIGURA 21 Anormalidades anatômicas e do fluxo sanguíneo podem ser observadas e filmadas enquanto as radiografias são realizadas. Por intermédio da utilização de instrumentos introduzidos por meio do cateter, o médico pode obter amostras de tecido da superfície interna das câmaras cardíacas para exame microscópico (biópsia). Em cada local também podem ser mensuradas isoladamente as pressões arteriais nas câmaras cardíacas e nos vasos sanguíneos importantes e os conteúdos de oxigênio e de dióxido de carbono no sangue podem ser determinados em diferentes partes do coração. Pode-se também avaliar a capacidade de bombeamento do coração pela análise dos movimentos da parede do ventrículo esquerdo e calculando a eficácia com que o sangue é bombeado para fora do coração (fração de ejeção). Essa análise fornece uma medida do grau de intensidade da lesão cardíaca em decorrência de uma doença arterial coronariana isquêmica ou de outra patologia. 56 AN02FREV001/REV 4.0 59 2.5.14 Angiografia Coronariana A angiografia coronariana é o estudo das artérias coronárias com a utilização de um cateter. O médico introduz um cateter fino em uma artéria do braço ou da região inguinal, em direção ao coração, até atingir as artérias coronárias. Durante a inserção, o médico pode lançar mão da fluoroscopia (procedimento radiológico contínuo) para monitorizar a progressão do cateter. A extremidade do cateter é posicionada adequadamente. Em seguida, por meio do cateter, é injetado um contraste radiopaco nas artérias coronárias e o contorno destas é visualizado em um monitor. A cineangiografia fornece imagens nítidas das câmaras cardíacas e das artérias coronárias. FIGURA 22 A doença arterial coronariana manifesta-se sob a forma de irregularidades ou estenoses das paredes internas dessas artérias. Se um indivíduo apresenta doença arterial coronariana, um cateter poderá ser utilizado no tratamento para eliminar a obstrução. Esse procedimento é denominado angioplastia coronariana transluminal percutânea. Efeitos colaterais menores da angiografia coronariana ocorrem imediatamente após a injeção. Em geral, o paciente apresenta uma 57 AN02FREV001/REV 4.0 60 sensação temporária de calor, especialmente na cabeça e no rosto, enquanto o contraste se espalha pela corrente sanguínea. A frequência cardíaca aumenta, e a pressão arterial cai discretamente. A ocorrência de reações leves, como a náusea, o vômito e a tosse, são raros. Reações graves, as quais são ainda mais raras, incluem o choque, convulsões, problemas renais e cessação dos batimentos cardíacos (parada cardíaca). As reações alérgicas variam desde erupções cutâneas até uma condição rara, a anafilaxia, a qual é potencialmente letal. Caso o cateter toque a parede do coração, podem ocorrer ritmos cardíacos anormais. A equipe que está realizando o procedimento deve estar equipada e treinada para tratar imediatamente qualquer um dos efeitos colaterais. FIM DO MÓDULO I 58 AN02FREV001/REV 4.0 63 MÓDULO II 3 DOENÇAS ASSOCIADAS AOS PROBLEMAS CARDÍACOS E DOENÇAS CARDÍACAS I 3.1 HIPERTENSÃO ARTERIAL A OMS define como hipertenso: “todo indivíduo adulto, maior de 18 anos, com valores de pressão arterial sistólica (PAS) igual ou maior a 140 mmHg ou com pressão arterial diastólica (PAD) igual ou maior que 90 mmHg. Os valores intermediários aos acima mencionados serão considerados limítrofes” (Min.Saúde, 2002). Medida da PA em pelo menos 2 ou + visitas, no mínimo 2 medidas de cada vez, na posição sentada e/ou deitada e na primeira avaliação nos dois braços. 59 AN02FREV001/REV 4.0 64 RISCO ESTRATIFICADO E QUANTIFICAÇÃO DE PROGNÓSTICO Pressão Arterial (mmHg) Fatores de risco ou doenças associadas Grau I Hipertensão leve PAS 140-159 ou PAD 90-99 Grau 2 Hipertensão moderada PAS 160-179 ou PAD 100-109 Grau 3 Hipertensão grave I- Sem outros fatores de risco Risco baixo Risco médio Risco alto II- 1-2 fatores de risco Risco médio Risco médio Risco muito alto III- 3 ou mais fatores de risco ou lesões nos órgãos-alvo ou diabetes Risco alto Risco alto Risco muito alto IV- CCA* Risco muito alto Risco muito alto Risco muito alto *CCA = Condições clínicas associadas, incluindo doença cardiovascular ou renal CLASSIFICAÇÃO DA PRESSÃO ARTERIAL (! 18 ANOS) Classificação PA sistólica (mmHg) PA diastólica (mmHg) Ótima � 120 � 80 Normal � 130 � 85 Limítrofe 130-139 85-89 Hipertensão Estágio 1 (leve) 140-159 90-99 Estágio 2 (moderada) 160-179 100-109 Estágio 3(grave) ! ou 180 ! ou 110 Sistólica isolada ! ou 140 � 90 60 AN02FREV001/REV 4.0 65 Classificação quanto à Etiologia: x PRIMÁRIA OU ESSENCIAL: origem desconhecida, evolução lenta, pressão arterial instável até a estabilização em um nível fixo. 90% dos casos de hipertensão. x SECUNDÁRIA: quando estiver relacionada a um processo patológico (renal, endócrino, vascular, gravidez, iatrogenias). 5% a 10% dos casos de hipertensão. Urgência e Emergência em HA: CRISE HIPERTENSIVA: Alteração pressórica importante com cefaleia, alterações visuais recentes, dor retro esternal, dispneia e obnubilação. URGÊNCIA HIPERTENSIVA: aumento súbito da pressão arterial não associada a quadros clínicos agudos como obnubilação, vômitos e dispneia - não apresentam risco imediato de vida ou dano em órgão-alvo. PA pode ser controlada em 24h. EMERGÊNCIA HIPERTENSIVA: aumento súbito da pressão arterial com sinais e sintomas indicativos de risco de vida e dano em órgão-alvo. Ex. EAP, IAM, AVCE e outros. Fatores fisiológicos e Fisiopatológicos: Principais determinantes da Pressão Arterial: Débito cardíaco (DC), Resistência Vascular Periférica (RVP). Fatores circulatórios: viscosidade sanguínea, volume sanguíneo e elasticidade das artérias. Relação fluxo « pressão « resistência. Princípio de hidráulica: “o fluxo através de um tubo é diretamente proporcional à pressão no interior desse tubo e inversamente proporcional à sua resistência”. O Hipertenso apresenta: Aumento de Resistência Vascular Periférica: arteríolas estão anormalmente constritas. Considerar aterosclerose e arteriosclerose e influência hormonal. Aumento da Pressão Arterial: se houver aumento do débito cardíaco ou do fluxo sanguíneo total e a resistênciavascular periférica não se alterar. 61 AN02FREV001/REV 4.0 66 x Um aumento persistente da pressão arterial é igual a um maior esforço cardíaco, levando à hipertrofia do músculo cardíaco. x Na fase inicial - “hipertensão lábil”: elevações de pressão arterial intermitentes, com reações exageradas a determinados estímulos (frio, excitação, estresse). x Mais tarde torna-se persistente, porque o mecanismo barorreceptor é “reajustado” de tal modo que a pressão arterial permanece elevada. x Somado a isso, o espasmo das arteríolas produzido pela hipertensão estabelecida, leva à hipertrofia da musculatura lisa e estreitamento dos vasos. x Após um período assintomático, ocorrem as complicações em diversos órgãos (rim, coração, cérebro). Lei de Frank- Starling: Quanto mais o músculo é estirado na diástole (pré-carga - volume que enche os ventrículos), mais forte será a contração na sístole. A maior pressão nas artérias, contudo, impede cada vez mais a ejeção de sangue pelo coração (elevação pós- carga), dificultando a capacidade de contrair-se e estirar-se adequadamente. Essa limitação leva ao desenvolvimento da ICC. Há dois principais sistemas de controle de pressão arterial no organismo: Controle nervoso ou hormonal da circulação (barorreceptores - ação rápida). Sistema renina-angiotensina- (efeito vasoconstritor no túbulo CP, aumenta a reabsorção Na e H2O) - aldosterona (aumenta a reabsorção de Na, retenção de Na e H2O, auxilia no equilíbrio ácido-básico e de potássio) em longo prazo (GUYTON, 1997). Os rins regulam excreção de água e sódio - papel preponderante no controle da pressão em longo prazo. 62 AN02FREV001/REV 4.0 67 Mecanismo RENINA-ANGIOTENSINA-ALDOSTERONA x RENINA: enzima secretada pelo rim, por meio de estimulação simpática dos receptores beta-adrenérgicos da superfície das células renais. É liberada na corrente sanguínea. x A RENINA catalisa a conversão do angiotensinogênio (uma proteína plasmática) em ANGIOTENSINA I. Esta é convertida em ANGIOTENSINA II. x ANGIOTENSINA II: potente vasoconstritor das arteríolas aumenta resistência vascular periférica e eleva a pressão arterial. Estimula o sistema simpaticoadrenal a liberar noradrenalina e adrenalina (elevam a PA). Atua no córtex cerebral liberando aldosterona no sangue. x ALDOSTERONA: faz com que os túbulos renais reabsorvam e retenham sódio e líquido aumentando a volemia e a pressão arterial. Algumas drogas anti-hipertensivas alteram o mecanismo renina- angiotensina-aldosterona. Fatores de Risco x CONSTITUCIONAIS: Idade, Sexo, raça, história familiar, obesidade. x AMBIENTAIS: Ingestão de sal e de gorduras saturadas, tabagismo, alcoolismo, fármacos (contraceptivos orais, anti-inflamatórios, descongestionantes nasais e outros), estresse, sedentarismo. Cuidados na medida da P. A. – Pressão Arterial PACIENTE: Esvaziar a bexiga, repouso por 5 - 10 min. Afastar dor, tensão, ansiedade. Sentado, tronco apoiado, relaxado, pernas relaxadas e descruzadas. Braço no nível do coração, apoiado no suporte, livre de roupas, palma da mão voltada para cima. AMBIENTE: calmo, temperatura agradável, preferência sem observador. Melhor no domicílio. EQUIPAMENTO: esfigmomanômetro calibrado, manguito de tamanho adequado ao braço do paciente, válvulas e tubos sem vazamentos. Instalação segundo técnica. 63 AN02FREV001/REV 4.0 68 Tratamento 1 - MEDICAMENTOSO: drogas anti-hipertensivas: x Diuréticos: Tiazídicos - Hidroclorotiazida; diurético de alça - Furosemida; poupadores de potássio - Espironolactona. x Inibidores adrenérgicos: Ação central: Alfa-metildopa (gestantes), Clonidina; Betabloqueador: Propanolol; Alfabloqueador: Prazosina x Antagonista dos canais de cálcio: Nifedipina x Inibidor da ECA: Captopril, Enalapril. x Antagonista do receptor da angiotensina II: Valsartan, Losartan. x Vasodilatadores diretos: efeito vasodilatador direto no músculo liso vascular: Minoxidil 2 – NÃO MEDICAMENTOSO: Estilo de vida x Redução do peso (IMC= 25Kg/m²). x Dieta (diminuição de sal e gorduras saturadas, aumento do consumo de potássio e fibras, restrição de álcool). Diabéticos: 0 açúcar e diminuição no consumo de carboidratos. x Exercícios físicos regulares. x Redução do estresse. x Abandono do tabagismo. x Controle do Diabetes Mellitus e dislipidemia. x Controles periódicos: PA, peso, colesterol, glicemia, provas de função renal. Adesão ao Tratamento Fatores que interferem: Idade, sexo, escolaridade, cultura, socioeconômico, religião, crenças e hábitos de vida, ocupação, ausência de sintomas, efeitos indesejáveis da medicação, custo da medicação, contexto familiar, desconhecimento, percepção de gravidade da doença pelo paciente e família, autoestima, adesão da equipe de saúde, relacionamento da equipe com o paciente, organização do serviço de saúde. 64 AN02FREV001/REV 4.0 69 Sugestão de algumas Ações x Identificação de grupos de risco. x Educação; autocuidado; medir pressão arterial em casa. x Drogas com menos efeitos, baixo custo (favorecida), comodidade posológica. x Prescrições e informações por escrito e de fácil compreensão. Orientar efeitos da medicação. x Convocação de faltosos e abandonos. x Visita domiciliar. x Reuniões de grupo. x Estabelecer objetivos junto com o paciente. x Estabelecer contrato de direitos e deveres do paciente e equipe. x Flexibilidade na adoção de estratégias. x Fixar equipe de atendimento. x Obedecer aos horários de consultas. x Estabelecer vínculos com o paciente. x Considerar hábitos, crenças e cultura. Atendimento no local de trabalho. x Estabelecer formas de contato telefônico. Assistência de enfermagem ao paciente hospitalizado (considerar nível de complexidade): HISTÓRICO: Na coleta de dados investigar/identificar: x Idade, sexo, profissão, dados socioeconômicos, culturais, religião e escolaridade. x Hábitos de vida: tabagismo, alcoolismo, ingestão excessiva de sal e gorduras, controle de peso (sobrepeso e obesidade), estresse, sedentarismo, automedicação. x Utilização de anticoncepcionais, tratamentos anteriormente realizados e seguimento. x Sinais e sintomas de lesão em órgãos-alvo. x História familiar: HA, doenças cardio e cerebrovasculares, morte súbita, diabetes e doenças renais. 65 AN02FREV001/REV 4.0 70 Realizar EXAME FÍSICO dirigido - (quadro clínico, complicações, doenças associadas). x Pulsos carotídeos (inclusive ausculta) e dos 04 membros, verificar PA em ambos os membros superiores, deitado e sentado se possível; peso, altura e IMC; Fascies (lembrar renal, tireoide, uso de corticoide); sopro em carótidas, turgor das jugulares e aumento da tireoide ; precórdio (ictus - pode sugerir aumento do ventrículo esquerdo; arritmias - 3ª e 4ª bulhas, sopro em foco mitral e aórtico; abdome (palpação e ausculta); estado de consciência; acuidade visual; edemas; avaliar exames de urina, creatinina, potássio, glicemia, colesterol e ECG. x Realizar controle de Sinais Vitais (a frequência de acordo com avaliação individualizada). x Atentar para sinais de urgência e emergência hipertensiva - administrar medicamentos prescritos. x Realizar controle de diurese. x Realizar balanço hídrico. x Estimular aceitação da dieta hipossódica e hiperpotássica. x Observar necessidade de restrição hídrica. x Proporcionar condições para sono e repouso. x Administrar diuréticos pela manhã. x Observar efeitos colaterais e reações adversas das medicações. x Fazer controle de peso diariamente x Realizar educação em saúde (tabagismo, alcoolismo, automedicação, exercícios físicos, recreação, dieta, manutenção de controle e tratamento). 66 AN02FREV001/REV 4.0 71 3.2 DIABETES MELLITUS (DM) FIGURA 23 O DM é uma síndrome de etiologia múltipla, decorrente da falta de insulina e/ou incapacidadede a insulina exercer adequadamente seus efeitos. Caracteriza- se por hiperglicemia crônica com distúrbio do metabolismo dos carboidratos, lipídeos e proteínas. As consequências do DM, em longo prazo, incluem disfunção e falência de vários órgãos, especialmente dos rins, olhos, nervos, coração e vasos sanguíneos. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2002) 67 AN02FREV001/REV 4.0 72 O DM se dá quando há: x Sintomas clássicos e valores de glicemia de jejum = ou > 126 mg/dl. x Sintomas clássicos e valores de glicemia realizada em qualquer momento do dia = ou > 200 mg/. x Sem sintomas, mas com glicemia = ou > 126 mg/dl em mais de uma ocasião. x (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2002) Valor normal da glicemia: 70 a 110 mg/dl SINAIS E SINTOMAS: x Poliúria, nictúria; x Polidipsia (boca seca); x Emagrecimento rápido; x Fraqueza, astenia, letargia; x Prurido vulvar; x Acuidade visual; x Hiperglicemia/glicosúria; x Proteinúria, neuropatia periférica, retinopatia, úlceras pés, infecções, impotência sexual. CONDIÇÕES DE RISCO: x Idade >ou = 40 anos; x História familiar; x Obesidade (androide); x Doenças vasculares, HA, dislipidemia; x Mães RN c/ + 4 Kg; x História hiperglicemia/glicosúria; x Uso medicamentos diabetogênicos; x Antecedentes de aborto, parto prematuro. 68 AN02FREV001/REV 4.0 73 TOTG- TESTE ORAL DE TOLERÂNCIA À GLICOSE CUIDADOS x Repouso e não fumar durante o teste. Nos 03 dias antes do teste: dieta c/menos de 150 g de carboidratos; x Paciente não acamado e sem doença intercorrente; x Atenção ao uso de drogas hiperglicemiantes; x Jejum 10 a 16 h antes do teste (exceto água); x Iniciar teste pela manhã; INGERIR: Adultos: 75 g de glicose em 250-300 ml H2O em 05 minutos. Crianças até 12 anos: 1,75g/Kg glicose (até máximo de 75 g). COLETA: antes da ingestão glicose e 2 h após. DM: glicemia jejum > 126mg/dl; valor de 2h > ou = 200mg/dl Diminuição da tolerância à glicose: valor de 2h entre 140 a 199mg/dl CLASSIFICAÇÃO DO DM x TIPO I OU INSULINODEPENDENTE: 5% a 10% dos casos, maioria inicia na infância e juventude. Fatores genéticos e ambientais. x TIPO II OU NÃO INSULINODEPENDENTE: 90% dos casos, característico da idade adulta, incidência maior com o envelhecimento. Fatores hereditários; obesidade é frequente (60% a 90%). Pode precisar de insulina para controle glicêmico. x DIABETES GESTACIONAL: 7,6% das gestantes. Risco de morbidade perinatal. Retorna a normalidade na maioria das vezes após o parto. DM TIPO I - Características clínicas x Caracteriza-se pela destruição das células. Beta do pâncreas. Resulta de combinação de fatores genéticos, imunológicos (resposta autoimune) e possivelmente ambientais. x Início ocorre na infância ou juventude, antes dos 30 anos de idade. x Diagnóstico se baseia em quadro clínico abrupto com glicemia muito aumentada. 69 AN02FREV001/REV 4.0 74 x Pouca ou nenhuma insulina endógena. x Partes progridem para insulinoterapia em curto período de tempo. Precisam insulina p/ preservar a vida. x Propenso a cetose na ausência de insulina. x Complicação aguda: cetoacidose diabética. DM TIPO II - Características clínicas x OCORRE: secreção deficiente de insulina e resistência à insulina (sensibilidade diminuída dos tecidos à insulina - maior em obesos). x Normalmente a insulina liga-se a receptores especiais nas superfícies das células, desencadeando uma série de reações envolvidas no metabolismo da glicose dentro da célula. x Início em qualquer idade, geral/ acima dos 30 anos. x Início insidioso c/ poucos ou sem sintomas clínicos. x Não há dependência de insulina. Seu uso pode ser introduzido (evitar ou tratar estados de hiperglicemia). x Cetose rara. Exceto sob estresse ou infecção. x Complicação aguda: Síndrome não cetótica hiperosmolar. x Diagnóstico clínico e laboratorial. DIABETES GESTACIONAL - Características clínicas x Ocorre em aproximadamente 7,6% das gestações. x Aparece no 2º ou 3º trimestre da gravidez devido a hormônios secretados pela placenta que inibem a ação da insulina. x Após a gravidez: risco futuro de desenvolver a doença - 30% a 40% desenvolverão DM tipo II após 10 anos (especialmente as obesas). x Controle precário de Diabetes tem sido associado a más-formações congênitas, macrossomia, parto difícil, cesariana e natimortos. x Tratamento: Inicial dietético e monitoramento da glicose. Se hiperglicemia persistir indicado insulina. Os hiperglicemiantes orais são contraindicados. 70 AN02FREV001/REV 4.0 75 ASPECTOS FISIOLÓGICOS E FISIOPATOLÓGICOS Situação A: REFEIÇÃO o Aumenta a secreção de insulina pelas células beta do pâncreas, penetração da glicose sanguínea nos músculos, fígado e células gordurosas. Armazenamento de glicose no fígado e músculos sob a forma de glicogênio. Aceleração do transporte de aminoácidos (derivados das proteínas). Aumento da reserva de gordura dietética no tecido adiposo (lipogênese), entrada de ácidos graxos no adipócito para formar triglicerídeos. Situação B: (entre refeições e sono) JEJUM o Diminui a liberação de insulina e secreção de glucagon (hormônio pancreático - células alfa). Insulina + glucagon mantém nível de glicose no sangue, estimulando liberação de glicose pelo fígado. Inicialmente GLICOGENÓLISE: fígado produz glicose pela degradação de glicogênio. Após 8 - 12h de jejum: GLICONEOGÊNESE: fígado produz glicose pela degradação de substâncias não carboidratos, incluindo os aminoácidos. FISIOPATOLOGIA Diminui a secreção de insulina pelo pâncreas (DM Tipo II) oAUMENTO DA GLICOSE NO SANGUE Jejum � ¦Hiperglicemia (Glicogenólise) pós-prandial Quando a glicemia for maior que 180 mg/dl, os túbulos renais não conseguem reabsorver toda a glicose filtrada, determinando a presença de glicose na urina: GLICOSÚRIA o Diurese osmótica (perda de líquidos e eletrólitos) o poliúria o polidipsia x Esta situação pode evoluir para grave desidratação hipertônica. 71 AN02FREV001/REV 4.0 76 COMA HIPEROSMOLAR HIPERGLICÊMICO NÃO CETÓTICO Comprometimento do SNC (confusão mental, torpor, coma), mucosas secas, turgor subcutâneo diminuído, taquicardia, respiração superficial, hipotensão. FISIOPATOLOGIA CETOACIDOSE DIABÉTICA Falta insulina (Insulinodependentes ou Tipo I) o Uso de glicose pelos músculos, gordura e fígado. Aumento da produção glicose pelo fígado o hiperglicemia o visão turva, poliúria o desidratação, fraqueza, cefaleia o polidipsia. Aumento da degradação de gorduras o Aumento na quantidade de ácidos graxos o Aumento de corpos cetônicos (hálito), anorexia, náuseas o acidose metabólica o náuseas, vômitos, dor abdominal, anorexia o Aumento da frequência cardíaca, torpor e COMA. DIAGNÓSTICO (Considerar história familiar; patologias crônico-vasculares) x Baseia-se na presença de sinais clínicos de diabetes (poliúria/nictúria/polifagia/polidipsia/emagrecimento rápido) juntamente com elevações significativas da glicemia de jejum: 126mg/dl no sangue total ou 140mg/dl no plasma/soro. x Níveis glicêmicos aumentam em mais de uma determinação, com ausência parcial ou total dos sintomas. x Glicemia aleatória ! 120 mg/dl em mais de uma ocasião. x Glicemia de jejum normal ou quase normal e TOTG de 2h t 200mg/dl 72 AN02FREV001/REV 4.0 77 COMPLICAÇÕES DO DIABETES MELLITUS (AGUDAS E CRÔNICAS) COMPLICAÇÕES AGUDAS DO DM(Situações de Emergência) x Hipoglicemia; x Cetacidose diabética ou cetose (dm tipo i); x Coma hiperosmolar não cetótico ou estado hiperosmolar (dm tipo ii); x Acidose lática. COMPLICAÇÕES CRÔNICAS DO DM ³ MACROANGIOPATIAS x Doença arterial coronariana x Doença vascular cerebral x Doença vascular periférica ³ MICROANGIOPATIAS x Retinopatia diabética x Nefropatia diabética ³ NEUROPATIA DIABÉTICA (mononeuropatia, neuropatia periférica, neuropatia autonômica, pé diabético)COMPLICAÇÃO AGUDA - HIPOGLICEMIA CONDIÇÕES DE RISCO: x Uso de insulina; x Idosos e baixa idade; x Insuficiência Renal; x Omissão alimentar / exercício físico não usual; x Falta de conhecimento sobre educação em saúde; x Insulinoterapia recentemente iniciada; x Troca de insulina; x Glicemia baixa à noite; x Neuropatia autonômica. 73 AN02FREV001/REV 4.0 78 SINAIS E SINTOMAS: x Descarga adrenérgica: tremores, sudorese intensa, palidez, palpitações, fome intensa. x Neuroglicopenia: visão borrada, diplopia, tonturas, cefaleia, distúrbios de comportamento, convulsão, inconsciência, coma. ³ Confirmação: GLICEMIA � 60mg/dl CONDUTAS: x Paciente consciente: alimento com carboidrato de absorção rápida (refrigerante, suco, bala). x Paciente inconsciente: NADA VIA ORAL. Dar 20 ml de glicose a 50% EV e/ou 1mg de Glucagon IM ou SC. Enviar ao hospital. x Detectar causas. PREVENÇÃO DA HIPOGLICEMIA x Usar da medicação nas doses e horários prescritos; x Alimentar-se antes de exercícios físicos; x Cumprir plano alimentar: horário, quantidade, qualidade; x Evitar bebidas alcoólicas; x Se vômito ou diarreia, procurar logo o médico; x Portar açúcar de ação rápida; x Portar cartão de identificação com dados pessoais. COMPLICAÇÃO AGUDA - CETOACIDOSE DIABÉTICA OU CETOSE CONDIÇÕES DE RISCO � Doença febril aguda (GECA, IVAS, BCP, ITU, Dermatoses) ou uso de drogas hiperglicemiantes. � DM mal controlado/instável � DM + distúrbios psicológicos � Educação em saúde p � Suspensão da insulinoterapia 74 AN02FREV001/REV 4.0 79 SINAIS E SINTOMAS � Poliúria - Polidipsia � Desidratação � Dor abdominal � Rubor facial � Hálito cetônico � Hiperventilação � Náuseas � Sonolência � Vômitos COMPLICAÇÃO AGUDA - CETOACIDOSE DIABÉTICA OU CETOSE x Confirmação laboratorial: glicosúria intensa, cetonúria, hiperglicemia (!300 mg/dl), acidose, alterações eletrolíticas, leucocitose. CONDUTAS: x Monitorizar glicemia a cada 2h nas primeiras 12h, depois a cada 4-6h; x Aplicar Insulina R (IM ou SC) cf. prescrição; x Reposição Hidroeletrolítica; x Tratar doença intercorrente; x Não interromper ingestão de alimentos (líquidos). COMPLICAÇÃO AGUDA - ESTADO HIPEROSMOLAR CONDIÇÕES DE RISCO: x DM Tipo II com intercorrência: infecção, IAM, AVE, estresse intenso, pré- operatório; x Pode ser a forma de manifestação do DM Tipo II; x Má-aderência ao tratamento. SINAIS E SINTOMAS: x Poliúria intensa, evoluindo para oligúria; x Polidipsia; x Desidratação intensa; 75 AN02FREV001/REV 4.0 80 x Hipertermia; x Sonolência; x Obnubilação mental; x Ausência de hálito cetônico; x Coma. COMPLICAÇÃO AGUDA - ESTADO HIPEROSMOLAR CONFIRMAÇÃO: achados laboratoriais x Glicosúria intensa x Hiperglicemia (geral/ > 700 mg/dl) x Azotemia (Aumento de Compostos hidrogenados). CONDUTA: x Encaminhamento ao hospital - letalidade de 12% a 42%; x Atendimento de emergência; x Ênfase na reposição hidrossalina e administração gradual de insulina. COMPLICAÇÃO AGUDA DO DM A ACIDOSE LÁTICA: Ocorre em diabéticos tipo I e II. Considerada muito grave, quadro clínico semelhante aos anteriores, porém sem cetose. Tem início rápido (1 a 2 dias) e o tratamento consiste em hidratação e bicarbonato de sódio EV. É mais preocupante em pacientes idosos com funções cardíacas e renais precárias em função da sobrecarga circulatória. COMPLICAÇÕES CRÔNICAS 1- MACROANGIOPATIAS x Cardiopatia isquêmica: aterosclerose das coronárias, angina, IAM. 7,5% dos homens e 13,5% das mulheres entre 45 e 64 anos de idade. 50% a 60% das mortes em diabéticos x Doença coronária de pequenos vasos: Insuficiência cardíaca e arritmias x Doença cerebrovascular: 76 AN02FREV001/REV 4.0 81 Em 4,8% nos pacientes entre 45 e 64 anos e em 12,7% entre 65 e 74 anos de idade x Doença vascular periférica: 8% dos DM Tipo II no momento do diagnóstico; 45%, após 20 anos. MACROANGIOPATIAS - Exame físico dirigido de enfermagem Pesquisar alteração de sinais vitais (pulsação, frequência cardíaca e pressão arterial) dor retroesternal, dispneia, cianose, rubor facial. x Pesquisar pulsos carotídeos e detectar sopros e arritmias à ausculta. x Edema de membros e vísceras. x Pesquisar alteração do nível de consciência. x Verificar pulsos periféricos (artérias tibiais posteriores e pediosas). x Coloração, cianose e diminuição da temperatura da pele em extremidades. 2 - MICROANGIOPATIAS x Retinopatia: Ocorre mais ou menos após 05 anos de DM, ou por ocasião do diagnóstico DM II; Cerca 50% em 10 anos e 60% a 90% com mais de 15 anos de DM; Só há sintomas em estágios avançados: edema macular ou hemorragia devido à neovascularização. O controle glicêmico previne. x Nefropatia: DM Tipo I- 30% a 40% dos pacientes em 10 a 30anos; DM Tipo II - 40% dos pacientes após 20 anos; Agravantes: HAS descontrole glicêmico. Infecção urinária crônica, agentes nefrotóxicos. MICROANGIOPATIAS - Exame físico dirigido de enfermagem Retinopatia: x Pesquisar a diminuição da acuidade visual por qualquer causa; x Pesquisar exsudatos algodonosos, edemas, micro-hemorragias, venodilatação; x OBS: encaminhar ao oftalmologista para fundoscopia ou retinografia. 77 AN02FREV001/REV 4.0 82 Nefropatia: x Pesquisar Alteração de PA e do nível de consciência; x Pesquisar retenção urinária, oligúria, anúria, algúria, polaciúria, tremores, calafrios, alteração da T corporal; x Avaliar exames de urina, urocultura, dosagem de proteínas e albumina na urina. Dosagens de ureia e creatinina. NEUROPATIA DIABÉTICA: Grupo de doenças que afetam todos os tipos de nervos; os distúrbios dependem da localização. Mononeuropatia: Acomete troncos nervosos, sendo mais comuns nos nervos cranianos: paralisia facial, oftalmoplegia e alterações vestibulares. Neuropatia periférica: Perda da sensibilidade vibratória, tátil, dolorosa: parestesias (formigamentos, fisgadas, sensibilidade aumentada, sensação de queimadura). Neuropatia autonômica: x sistema urogenital: impotência sexual, bexiga neurogênica; x sistema cardiovascular: hipotensão postural, taquicardia, IAM indolor ou silencioso; x sistema digestivo: gastroparesias, enteropatias. x sudomotoras/vasomotoras: diminuição ou falta de suor (anidrose) nas extremidades e aumento de suor na parte superior do corpo; x sistema simpático: desconhecido/hipoglicêmico. NEUROPATIA DIABÉTICA - Exame físico dirigido de enfermagem: Pesquisar: x hipotensão postural, taquicardia paralisia facial, alterações oftálmicas e palpebrais; 78 AN02FREV001/REV 4.0 83 x náuseas, vômitos, desconforto abdominal, obstipação, diarreia; x retenção ou incontinência urinária, peso suprapúbico, polaciúria, impotência sexual; x anidrose nas extremidades, sudorese aumentada no tronco e face; x sensibilidade tátil e dolorosa de membros inferiores, claudicação intermitente. PÉ DIABÉTICO x 50 A 75% das amputações em diabéticos, 50% evitáveis; x Neuropatia diabética fator permissivo; x Úlceras complicam na presença de doença vascular periférica e infecções; x Fatores de risco: mau controle glicêmico, antecedentes úlceras e amputações, neuropatias, vasculopatias, calosidades, calçados inadequados, HAS, tabagismo, hiperlipidemia, micoses, bolhas, rachaduras, fissuras, educação em saúde deficiente. PÉ DIABÉTICO - Exame físico dirigido de enfermagem Pesquisar: x Dor, sensação de pressão, formigamento; x Lesões, calosidades, micoses, bolhas, fissuras; x Coloração da pele (acrocianose), ressecamento; x Alteração de temperatura (análise tátil comparativa); x Pulsos tibiais e pediosos; x Dificuldade de cicatrização. Assistência hospitalar específica do pé diabético: x Avaliar evolução (aspecto, temperatura, coloração); x Higiene, lixar unhas (retas), massagem pele com hidratante; x Se lesões: curativo (produtos indicados a cada caso), repouso. TRATAMENTODO DIABETES MELLITUS MEDICAMENTOSO 1- Hipoglicemiantes Orais: Empregados no DM Tipo II que não respondem à dieta e exercícios 79 AN02FREV001/REV 4.0 84 AGENTES QUE RETARDAM A ABSORÇÃO PÓS-PRANDIAL DE GLICOSE (Ex. inibidores da alfaglicosidase; acarbose); AGENTES QUE AUMENTAM A SECREÇÃO DE INSULINA Ex. sulfonilureias (no fígado); glitazonas (no músculo); AGENTES QUE REDUZEM A RESISTÊNCIA INSULÍNICA (Ex. metformina). SULFANILUREIAS: Estimulam pâncreas a secretar insulina; Diminuem a produção hepática de glicose; Aumentam a sensibilidade das células beta à glicose; Melhoram a sensibilidade das células-alvo à insulina. FÁRMACO: Clorpropamida; x Gliburida ou Glibenclamida; x Glipizida; x Glicazida; x Glimepirida. NOME COMERCIAL: x Diabinese; x Daonil, Euglucon, Lisaglucon; x Minidiab; x Diamicron; x Amaryl. BIGUANIDAS Usadas em pacientes que não conseguem emagrecer; Diminuem a produção hepática de glicose; 80 AN02FREV001/REV 4.0 85 Aumentam os receptores de insulina; Diminuem a absorção intestinal de glicose; FÁRMACO: METFORMINA Efeito Colateral: acidose lática - evitar uso em muitos obesos ou com patologias graves associadas; Podem surgir anorexia, náuseas, vômitos e diarreia. NOME COMERCIAL: x Glucoformin; x Glifage; x Dimefor. INSULINOTERAPIA INSULINA: Hormônio proteico, formado por duas cadeias de aminoácidos. Não tem ação quando administrado por via oral. Efeitos: Reduz níveis sanguíneos de glicose, ácidos graxos e aminoácidos; estimula conversão destes em compostos de armazenamento: glicogênio, triglicerídeos e proteínas. Classificadas de acordo com: x Sua origem: bovinas, suínas e humanas; x Grau de purificação; x Período de ação - CURTA: ultrarrápidas, rápidas (R), INTERMEDIÁRIAS: lentas e NPH e PROLONGADA: ultralentas. INSULINAS MAIS UTILIZADAS x Insulinas de ação INTERMEDIÁRIA (lenta): Designadas c/ a letra N, NPH ou L. Aspecto leitoso. Início da ação em 1 a 3h; pico máximo 20 a 24h. Via de Administração: Subcutânea geral/ 30 min antes da refeição. x Insulinas de ação PROLONGADA (ultralenta): Designadas pelas letras U e UL. Aspeto leitoso. Início da ação 4 a 6h; pico máximo 12 a 16h. 81 AN02FREV001/REV 4.0 86 Via de administração: Subcutânea. x Insulina de ação CURTA (rápida, ultrarrápidas): Designadas com a letra R (regular). Aspecto claro, transparente. Início ação em 1/2 a 1 hora, pico máximo em 2 a 3 h. Via de administração: Subcutânea, endovenosa e intramuscular, 20 a 30 min antes de uma refeição. CONSERVAÇÃO: Evitar temperatura extrema, manter sobras e frascos de utilização esporádica na prateleira inferior da geladeira. Evitar excessiva agitação, observar presença de grumos, alterações de aspecto e cor. COMPLICAÇÕES: x Reações alérgicas locais; x Reações alérgicas sistêmicas; x Resistência à insulina; x Lipodistrofias: nos locais de aplicação - lipoartrofia (leve/acentuada depressão da gordura subcutânea) e lipoipertrofia (massa fibrogordurosa). ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM AO PORTADOR DE DIABETES MELLITUS INDIVIDUALIZADA E SISTEMATIZADA x Avaliação (Histórico e Exame Físico); x Identificação dos problemas; x Diagnóstico de Enfermagem; x Assistência de Enfermagem (plano/prescrição/intervenção); x Evolução; EM TODOS OS NÍVEIS: AMBULATORIAL, DOMICILIAR, HOSPITALAR (emergência e internação); VISÃO DO HOMEM INTEGRAL: biopsicossócio espiritual, inserido na família, comunidade e trabalho. ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM QUANTO À TERAPÊUTICA MEDICAMENTOSA 82 AN02FREV001/REV 4.0 87 x Identificação correta do tipo de insulina, seringa, agulha, ação, dosagem e via de administração. x Utilização de técnica asséptica. x Rodízio dos locais de aplicação: face anterior da coxa, face externa/posterior do braço, nádegas e abdômen. x Avaliação de lipodistrofias e reações alérgicas. x Observação da conservação correta. x Alimentar o paciente depois da insulinoterapia. x Avaliar e ensinar autoaplicação - incluir cuidados no preparo, conservação, tipo agulha e seringa. x Orientar uso de hipoglicemiantes orais: tipo, ação, dosagem, frequência. QUANTO À HIPOGLICEMIA: x Orientar sinais e sintomas e para portar fonte de glicose; x Conhecer e observar sintomas de hipoglicemia (tremores, sudorese, palidez, fome, visão turva, cefaleia, distúrbios de comportamento, perda da consciência, coma); x Paciente em hipoglicemia: consciente: Colher amostra de sangue para glicemia; Oferecer carboidrato de ação rápida (suco, açúcar). Paciente inconsciente: NPVO; Infusão de glicose hipertônica (a 50%) via endovenosa, Glucagon via endovenosa ou intramuscular (hospitalar); x Realizar glicosúria e controle da diurese; x Manter vias aéreas livres (aspiração s/n) e oxigenar s/n; x Controlar sinais vitais e perfusão periférica; x Avaliar nível de consciência; x Assim que possível, alimentar VO; QUANTO À HIPERGLICEMIA: x Conhecer, observar e orientar sinais e sintomas (visão turva, poliúria, polidipsia, fraqueza, dor abdominal, sonolência, náuseas, vômitos, perda da consciência, coma); reforçar importância do tratamento correto; x Caso ocorra, manter vias aéreas livres e oxigenar s/n; 83 AN02FREV001/REV 4.0 88 x Coletar sangue para glicemia e dosagem de Na (sódio) e K (potássio); x Realizar glicosúria; x Administrar insulina conforme prescrição, respeitando rodízio e local (em emergência Insulina R pode ser via intramuscular ou endovenosa); x Instalação de PVC; x Controlar rigorosa/ de SV e perfusão periférica; x Infundir reposição hidroeletrolítica (SF, potássio, bicarbonato); x Monitorizar e avaliar nível de consciência; x Controlar diurese (se inconsciente cateterismo vesical); x Observar sinais de hipoglicemia durante tratamento; 3.3 FISIOPATOLOGIA DA CIRCULAÇÃO CORONÁRIA Diversos são os problemas que podem surgir e originar dificuldades na irrigação coronária e, consequentemente, propensão aumentada para a isquemia: Estenose Valvular Aórtica: o sangue vai fluir com muita dificuldade por duas razões que ocasionam ambas uma diminuição da pressão arterial ao nível da origem das coronárias: por um lado, o efeito explicado por Bernoulli, que diz que o sangue, fluindo por um espaço reduzido devido a uma estenose, vai apresentar uma velocidade maior e uma pressão proporcionalmente menor. Por outro lado, o aumento de velocidade referido não é normalmente suficiente para superar o pouco espaço e a grande resistência associada. Logo, não é gerada uma pressão aórtica tão grande como o normal. Aterosclerose: na obstrução de uma artéria por aterosclerose, temos, numa primeira fase, uma intolerância a todas as situações que exigem um esforço miocárdico aumentado, como exercício físico ou emoções fortes, que aumentam a frequência e contractilidade cardíacas. Isso porque a obstrução parcial de um vaso diminui o débito sanguíneo máximo destinado à nutrição da região do coração irrigada por esse vaso. Assim, sempre que os gastos de metabólicos e oxigênio superam as diminuídas quantidades disponibilizadas pela irrigação, surge uma forte 84 http://www.manuaisdecardiologia.med.br/dac/Atero1.htm AN02FREV001/REV 4.0 89 dor, designada de angina de peito (angina pectoris), que no fundo sinaliza a isquemia. É uma importante defesa uma vez que o indivíduo é obrigado pela dor a terminar toda a atividade que estava a realizar. Quando o problema se agrava ao ponto de a obstrução ser total ou quase total, e causar uma isquemia prolongada, surge o enfarte do miocárdio, que se caracteriza pela morte das células expostas à isquemia (necrose). Por sua vez, em caso de o coração “sobreviver” ao enfarte, a perda de uma porção funcional pode provocar insuficiência cardíaca de nível variável, que se caracteriza pela incapacidade do coração bombear quantidades de sangue acima de determinados valores, e aindaproblemas relacionados com a condução elétrica, estando estatisticamente comprovada uma maior propensão para arritmias em indivíduos com episódio(s) de enfarte. 3.4 A PLACA ATEROSCLERÓTICA Aterogênese e classificação fisiopatológica das lesões ateroscleróticas As lesões ateroscleróticas são classificáveis pela sua fisiopatologia em tipo I até VI, segundo a AHA (American Hearth Association): Lesões Iniciais Tipo I: Lesão microscópica, invisível a olho nu, que se caracteriza por um aumento no número de macrófago e pelo surgimento das “foam cells”, que são macrófagos cheios de gordura, em nível da íntima vascular. Estas lesões são detectáveis antes mesmo do 1º ano de vida. Tipo II: Conhecida como “estria gordurosa”, é a primeira fase visível a olho nu. São compostas por macrófagos células musculares lisas e pequenos grãos de gordura extracelular. Existem dois subtipos distintos “a” e “b’ da lesão tipo II. As lesões do tipo IIa são as menos frequentes, mas com maior potencial mórbido. São derivadas de lesões tipo I com um maior número de macrófagos, possuem maior celularidade e maior quantidade de matriz extracelular. Possuem preferência por sítios 85 AN02FREV001/REV 4.0 90 hemodinâmicos específicos e por fim tendem a progredir mais rápido e para formas mais complicadas de lesão aterosclerótica. Assim, notamos que precocemente já existem caminhos distintos que resultarão em lesões mais ou menos graves. Lesões tipo II são encontradas antes da 3º década de vida. A formação da “foam cell” (célula espumosa) Esta célula que é característica das lesões iniciais é formada por macrófagos que são ricos em lipídios. A lesão inicial depende do acúmulo de LDL no espaço subendotelial. O transporte do LDL para essa região é um fenômeno passivo e diretamente proporcional à sua concentração sanguínea. Teoricamente uma disfunção endotelial, em um endotélio ainda morfologicamente normal, decorrente, por exemplo, de stress hemodinâmico, aumentaria o aprisionamento da LDL. O LDL seria oxidado por ação de produtos oxidativos de células da parede arterial (endotélio, células musculares lisas e macrófagos). A oxidação da LDL é uma fase obrigatória para a formação da “foam cell”. A LDL oxidada seria então reconhecida pelo macrófago por meio de receptores scavenger e CD-36, englobando as moléculas de lipoproteínas, tornando-se ricos em conteúdo lipídico, formando assim a célula espumosa. Lesões intermediárias Tipo III: Chamada de pré-ateroma, origina-se principalmente das lesões tipo IIa e diferem destas por possuir maior quantidade de lipídeo extracelular ocupando parte da matriz de proteoglicanos, formando pequenos núcleos lipídicos visíveis a olho nu. É uma fase de transição para a formação da lesão tipo IV. Lesões avançadas Tipo IV: Ateroma. Possui um núcleo lipídico individualizado, formado pela fusão das ilhotas de gordura das lesões tipo III. Este núcleo é também chamado de centro necrótico por possuir além de macrófagos e gordura livre, grande quantidade de debris celulares. 86 AN02FREV001/REV 4.0 91 Tipo V: Caracteriza-se pela presença de tecido fibroso envolvendo o núcleo lipídico. Subdivide-se em três subtipos “a”, “b” e “c". Lesão Va - Fibroateroma - capa fibrótica envolvendo o núcleo lipídico; Lesão Vb - placa calcificada - presença de cálcio no componente fibrótico ou mesmo no núcleo lipídico; Lesão Vc - placa fibrótica - tecido fibrótico com ausência de núcleo lipídico. Tipo VI: É a placa complicada por trombo, fissura, rotura, hemorragia ou erosão. É a causa dos eventos coronarianos isquêmicos agudos e geralmente são oriundos de placas do tipo IV ou Va. A complicação da placa tem maior chance de ocorrer quando existe remodelamento positivo do vaso, presença de um núcleo lipídico > 40% da área total da placa, capa fibrótica fina e presença de grande quantidade de células inflamatórias. 3.5 FATORES DE RISCO PARA ATEROSCLEROSE FIGURA 24 87 AN02FREV001/REV 4.0 92 Fatores IRREVERSÍVEIS São fatores imutáveis aqueles que não podemos mudar e por isso não podemos tratá-los. São eles: Hereditários: os filhos de pessoas com doenças cardiovasculares têm uma maior propensão para desenvolverem doenças desse grupo. Descendentes de raça negra são mais propensos à hipertensão arterial e neles ela costuma ter um curso mais severo. Idade: quatro entre cincos pessoas acometidas de doenças cardiovasculares estão acima dos 65 anos. Entre as mulheres idosas, aquelas que tiverem um ataque cardíaco terão uma chance dupla de morrer em poucas semanas. Sexo: os homens têm maiores chances de ter um ataque cardíaco e os seus ataques ocorrem em uma faixa etária menor. Mesmo depois da menopausa, quando a taxa das mulheres aumenta, ela nunca é tão elevada como a dos homens. Fatores REVERSSÍVEIS São os fatores sobre os quais podemos influir, mudando, prevenindo ou tratando. Fumo: o risco de um ataque cardíaco em um fumante é duas vezes maior do que em um não fumante. O fumante de cigarros tem chances duas a quatro vezes maiores de morrer subitamente do que um não fumante. Os fumantes passivos também têm o risco de um ataque cardíaco aumentado. Colesterol elevado: os riscos de doença do coração aumentam na medida em que os níveis de colesterol estão mais elevados no sangue. Junto a outros fatores de risco como pressão arterial elevada e fumo esse risco é ainda maior. Esse fator de risco é agravado pela idade, sexo e dieta. 88 AN02FREV001/REV 4.0 93 Pressão arterial elevada: para manter a pressão elevada o coração realiza um trabalho maior, com isso vai hipertrofiando o músculo cardíaco, que se dilata e fica mais fraco com o tempo, aumentando os riscos de um ataque. A elevação da pressão também aumenta o risco de um acidente vascular cerebral, de lesão nos rins e de insuficiência cardíaca. O risco de um ataque em um hipertenso aumenta várias vezes, junto com o cigarro, o diabetes, a obesidade e o colesterol elevado. Vida sedentária: a falta de atividade física é outro fator de risco para doença das coronárias. Exercícios físicos regulares, moderados a vigorosos tem um importante papel em evitar doenças cardiovasculares. Mesmo os exercícios moderados, desde que feitos com regularidade são benéficos, contudo os mais intensos são mais indicados. A atividade física também previne a obesidade, a hipertensão, o diabetes e abaixa o colesterol. Obesidade: o excesso de peso tem uma maior probabilidade de provocar um acidente vascular cerebral ou doença cardíaca, mesmo na ausência de outros fatores de risco. A obesidade exige um maior esforço do coração, além de estar relacionada com doença das coronárias, pressão arterial, colesterol elevado e diabetes. Diminuir de 5 a 10 quilos no peso já reduz o risco de doença cardiovascular. Diabetes mellitus: o diabetes é um sério fator de risco para doença cardiovascular. Mesmo se o açúcar no sangue estiver sob controle, o diabetes aumenta significativamente o risco de doença cardiovascular e cerebral. Dois terços das pessoas com a doença morrem das complicações cardíacas ou cerebrais provocadas. Na presença do diabetes, os outros fatores de risco se tornam mais significativos e ameaçadores. Anticoncepcionais orais: os atuais têm pequenas doses de hormônios e os riscos de doenças cardiovasculares são praticamente nulos para a maioria das mulheres. Fumantes, hipertensas ou diabéticas não devem usar anticoncepcionais orais por aumentar em muito o risco de doenças cardiovasculares. Existem outros fatores que são citados que podem influenciar negativamente os fatores já citados. Por exemplo, 89 AN02FREV001/REV 4.0 94 estar constantemente sob tensão emocional (estresse) pode fazer com que uma pessoa coma mais, fume mais e tenha asua pressão elevada. Certos medicamentos podem ter efeitos semelhantes, por exemplo, a cortisona, os anti-inflamatórios e os hormônios sexuais masculinos e seus derivados. 3.6 SÍNDROMES CORONARIANAS AGUDAS (SCA) De toda a população que procura os serviços de emergência por dor torácica, mais da metade não possui doença coronariana isquêmica aguda. No entanto, muitos pacientes recebem alta dos serviços de emergência sem diagnóstico de Síndrome Coronarianas Agudas, sendo portadores de doença coronariana. Essa população é vítima de altos índices de mortalidade e chega a totalizar 12% das altas dos serviços de emergência em trabalhos americanos e suspeita-se que esse índice pode chegar até 20% no Brasil. A SCA é caracterizada por um espectro de manifestações clínicas e laboratoriais de isquemia miocárdica. É classificada de duas formas: angina instável e IAM. Apesar da diferenciação das SCA em grupos de formas clínicas diferentes, todas elas se dividem, na grande maioria dos casos, com a mesma fisiopatologia, a ruptura da placa aterosclerótica, seguida de trombose, até produzir uma isquemia miocárdica aguda. O conhecimento desses processos é importante não só para o adequado tratamento da SCA como também para sua prevenção. A SCA inicia-se com uma erosão ou ruptura de uma placa aterosclerótica nas artérias coronárias. As plaquetas aderem à área lesada e ficam expostos aos fatores ativadores, entre eles, colágenos, trombina, fator de Von Willebrand. Com a ativação das plaquetas produz glicoproteína IIb e receptores IIIa que se ligam ao fibrinogênio e a agregação e a adesão das plaquetas continuam e aumentam o tamanho do trombo. As causas que levam a SCA é principalmente doença aterosclerótica, que são as formações de ateromas, seguidas de embolia e trombos, a idade e o sexo também são considerados importantes. A placa aterosclerótica é formada por lipídio na camada íntima da artéria. A integridade da capa fibrosa é mantida por meio da síntese do colágeno e elastina, 90 AN02FREV001/REV 4.0 95 fortalecendo contra tensão gerada na luz da artéria coronária pela pressão arterial e do estresse gerado pelo fluxo sanguíneo coronariano sobre o endotélio. A doença aterosclerótica é entendida hoje como um forte componente inflamatório endotelial e subendotelial, ainda mais quando existe infiltração e depósitos de partículas lipídicas. A ruptura da placa é o fator responsável pela trombose, por causa da grande exposição do sangue aos fatores pró-coagulantes existentes abaixo do endotélio. Nos fatores de risco se incluem alimentação rica em gorduras e carboidratos hipercolesterolemia, hipertensão arterial, diabetes, tabagismo, obesidade, sedentarismo, infecções, menopausa, estresse, reações imunológicas e inflamatórias, susceptibilidade genética (antecedentes familiares) e individual. O tempo entre o início dos sintomas e a chegada ao hospital é uma variável relacionada de modo direto à morbimortalidade dos pacientes portadores de SCA. Estudos mostram que quanto mais precoce for o diagnóstico e instituído tratamento, melhor será o prognóstico desses pacientes, por isso, é importante que o atendimento e diagnóstico sejam rápidos e precisos. Com o objetivo de atacar diretamente estes fatores (redução do tempo de início de tratamento das SCA, impedir a alta de pacientes portadores de SCA dos serviços de emergência, evitar a internação indevida de pacientes sem indicação e gerar otimização dos custos médico-hospitalares) foram idealizadas as unidades de atendimento à dor torácica. Estas unidades seguem protocolos próprios, com o intuito de agilizar e otimizar o diagnóstico diferencial da dor torácica, aumentando a eficiência do serviço hospitalar no tratamento das síndromes isquêmicas miocárdicas instáveis. 3.6.1 A dor torácica típica As características da dor anginosa são: a) Dor opressiva ou sensação de pressão sem a menção de dor. b) Localização também não é bem definida na angina típica, sendo apontada em uma área não muito pequena, geralmente com o paciente esfregando a mão sobre o precórdio. A irradiação típica é para a região cervical e região medial do 91 AN02FREV001/REV 4.0 96 membro superior esquerdo, mas pode acontecer em qualquer localização do tórax, mesmo a direita, região epigástrica e dorso. c) A piora ou seu início com o esforço é uma marca importante da angina típica. d) Melhora com repouso ou com uso de nitratos. e) As crises são intermitentes, com duração geralmente superior a 2 minutos (nunca inferior a 1 minuto) e geralmente chegando até 10 ou no máximo 20 minutos. Crises de dor de tempo superior a 20 minutos ou são devido à angina instável / IAM ou não são coronarianas. No IAM ou na crise de angina instável a dor geralmente se inicia em repouso, sem relação com esforço, é mais prolongada, não melhora completamente com nitratos ou repouso, é acompanhada de sudorese, palidez e falta de ar. FIGURA 25 Irradiação típica Irradiações menos comuns 3.6.2 A dor torácica não coronariana As características a seguir são de dores não relacionadas à doença coronariana, no entanto deve ser sempre lembrado que nada impede de ocorrer 92 AN02FREV001/REV 4.0 97 algum fenômeno doloroso simultaneamente ao evento isquêmico – ex.: pericardite – que torne a dor atípica. a) Duração fugaz menor que 1 minuto; b) Dor relacionada a movimento respiratório ou dos membros superiores ou a palpação do examinador; c) Dor que não respeita a topografia da dor anginosa. Eventos dolorosos abaixo da cicatriz umbilical e superiores ao ramo da mandíbula não são relacionados a evento isquêmico coronariano; d) Dor pontual, com área não maior que uma polpa digital, mesmo sobre a região mamária; e) Dor prolongada, com horas de duração, sem comprovação de isquemia miocárdica por meio dos exames complementares. 3.6.3 Estratificação da dor no atendimento A dor torácica pode ser classificada em quatro categorias a partir das suas características clínicas, independente dos exames complementares. 1) Dor definitivamente anginosa: Características de angina típica evidentes, levando ao diagnóstico de síndrome coronariana aguda, mesmo sem o resultado de qualquer exame complementar. 2) Dor provavelmente anginosa: A dor não possui todas as características de uma angina típica, mas a doença coronariana é o principal diagnóstico. 3) Dor provavelmente não anginosa: Dor atípica, onde não é possível excluir totalmente o diagnóstico de doença coronariana instável sem exames complementares. 4) Dor definitivamente não anginosa: Dor com todas as características de dor não coronariana, em que outro diagnóstico se sobrepõe claramente à hipótese de doença coronariana. 93 AN02FREV001/REV 4.0 98 Pesquisa de fatores de risco Deve ser sempre pesquisada a presença de fatores de risco para doença coronariana. A presença ou não deles irá dirigir a conduta a ser tomada com o paciente, principalmente nos casos onde o diagnóstico de síndrome isquêmica coronariana aguda não é evidente a princípio. Pesquisar obrigatoriamente: Sexo/Idade; Tabagismo; Hipertensão Arterial; Dislipidemia; Obesidade; Diabetes; Passado de Doença coronariana ou de doença cerebrovascular; História familiar para doença coronariana ou cerebrovascular. Eletrocardiograma Deve ser executado logo após a chegada do paciente com queixa de dor torácica, tão logo a queixa se evidencie. O tempo ideal para a realização do eletrocardiograma é de no máximo 10 minutos desde a chegada do paciente ao serviço de emergência. Apesar de fundamental para o exame cardiológico e para a decisão terapêutica inicial, devemos lembrar que a sensibilidade do 1º ECG para o diagnóstico de IAM é inferior a 50%. 3.6.4 Estratificação dos pacientes quantoà probabilidade de Síndrome Coronariana Aguda Paciente com ALTA probabilidade: Possui dor torácica definitiva ou provavelmente anginosa e uma de qualquer das características abaixo: a) IAM prévio, morte súbita ou DAC conhecida; b) Quadro típico em homem maior que 60 anos e mulher maior que 70 anos; c) Alterações hemodinâmicas ou eletrocardiográficas durante a dor; 94 AN02FREV001/REV 4.0 99 d) Angina variante; e) Supra ou infradesnível de ST >= 1mm; f) Inversão de T simétrica em múltiplas derivações. Paciente com probabilidade INTERMEDIÁRIA: Possui dor, sem nenhuma das características de alta probabilidade e com uma das características abaixo: a) Quadro típico em homem menor que 60 anos e mulher menor que 70 anos; b) Quadro anginoso provável em homem > 60 anos e mulher maior que 70 anos; c) Dor atípica, na presença de dois ou mais fatores de risco ou se o único fator de risco for diabetes melitus; d) Doença vascular extracardíaca; e) Inversão de T >= 1 mm em derivações de R dominante. Paciente de BAIXA probabilidade: a) Ausência de qualquer das características de probabilidade alta ou intermediária; b) Dor torácica provavelmente não anginosa; c) Presença de apenas 1 (exceto DM) ou nenhum fator de risco; d) ECG normal ou com ondas T planas ou com inversão menor que 1 mm. 3.6.5 Dor torácica Cardíaca de Causa Isquêmica A angina pectoris pode ser definida como um desconforto no peito e/ou áreas adjacentes, associada à isquemia miocárdica sem necrose. Frequentemente é descrita como “aperto”, “queimação”, “ardência”, “pressão”, “peso” e outras sensações. Muitas vezes, passam-se meses até que o paciente procure ajuda para a dor que começa a aparecer somente ao final de grandes esforços, mas que passa com poucos instantes de repouso. O esforço necessário para desencadeá-la pode 95 AN02FREV001/REV 4.0 100 variar diariamente e, não raramente, o desconforto pode sumir após alguns momentos de exercício. Sua localização é geralmente no centro do peito e pode ter irradiação ou, até mesmo, localizarem-se somente em membros superiores, costas, garganta, mandíbulas e dentes. Em diversas ocasiões a dor pode se localizar em região epigástrica e cessar com eructações sendo erroneamente interpretada e tratada como dispepsia. Também podem ser acompanhadas de dispneia, sudorese, náuseas e tonturas. Em alguns casos esses sintomas podem aparecer sem a existência da dor e são chamados de equivalentes isquêmicos. A angina que só acontece desencadeada por esforços é classificada como estável. Ela passa a ser chamada de instável quando o indivíduo começa a senti-la mesmo em repouso. O fato de o paciente apresentar lesões ateroscleróticas comprovadas em outras áreas como claudicação intermitente ou AVC prévio, reforça a possibilidade de isquemia miocárdica. Uma dor mais intensa e com duração acima de 20 minutos, acompanhada de cansaço, sudorese profusa, palidez cutânea e náuseas frequentemente representa a instalação do infarto agudo do miocárdio. A dor causada por hipertensão pulmonar pode ser muito parecida com a angina típica, causada por isquemia do ventrículo direito ou por dilatação das artérias pulmonares. 3.6.6 Dor Torácica Cardíaca de Causa Não Isquêmica Pericardite aguda – Frequentemente precedida por quadro gripal. A dor é normalmente mais aguda do que a angina e tem caráter persistente. Piora com a inspiração profunda, tosse ou movimentação e melhora quando o indivíduo se inclina para frente. Dissecção aguda da aorta – Deve ser sempre lembrada quando o paciente hipertenso apresenta início súbito de dor lancinante, irradiada para as costas ou abdômen. A presença de um aneurisma de aorta ascendente também pode causar dor crônica de caráter mais errático. 96 AN02FREV001/REV 4.0 101 Prolapso da valva mitral – Os pacientes portadores desta variação anatômica, normalmente mulheres, frequentemente referem-se a dores torácicas em pontadas que podem ser bastante intensas, de localização variável e que aparecem em períodos de grande ansiedade. 3.6.7 Dor Torácica de Causa Não Cardíaca Distúrbios psiquiátricos – Síndrome do pânico, ansiedade ou depressão. Frequentemente o indivíduo tem dificuldade para definir a dor e se utiliza de comparações do tipo: “parece um choque, um líquido derramando, etc.” Doenças gastrointestinais – Hérnia de hiato com refluxo gastroesofágico, gastrite, pancreatite, colecistite, etc. Nesses casos a relação com a alimentação torna-se nítida. Doenças pulmonares – Pneumotórax, tromboembolismo pulmonar – Dor súbita, geralmente lateralizada, com alteração nos padrões respiratórios. Nos casos de TEP pode estar acompanhada de hemoptise ou tosse. Doenças da parede torácica – Herpes zoster e dores osteocondrais. O paciente que procura um serviço de cardiologia referindo-se à dor torácica é acometido por alto grau de ansiedade e preocupação. Sendo assim, quanto mais detalhes puderem ser obtidos sobre as características da dor em questão mais rápido e certeiro será o diagnóstico firmado, mesmo em locais onde não se disponha de métodos diagnósticos sofisticados. 3.6.8 Atendimento Imediato na Sala de Urgência 97 AN02FREV001/REV 4.0 102 Pacientes com quadro de dor torácica com suspeita de doença coronariana instável devem receber tratamento imediato. a) AAS - 300mg, preferencialmente os comprimidos devem ser mastigados. b) Nitrato SL - lembrar antes da administração de não haver sinais de baixo débito ou hipotensão, quando essa droga não deve ser administrada mesmo na vigência de dor. c) Oxigênio - 4 l/min. d) Analgesia - Preferencialmente com morfina ou derivados, caso a dor não melhore com o uso do nitrato. O ECG é obtido simultaneamente à coleta da história e exame físico e a administração dos medicamentos. Nos casos suspeitos, devemos ainda ter um acesso venoso e coletar sangue para a avaliação laboratorial. Raio-X deve ser tirado sem prejudicar o andamento do tratamento, em tempo inferior a 30 minutos da chegada. Rotas de tratamento A partir da avaliação inicial da dor torácica e do ECG são estipuladas, de forma padronizada, rotas de tratamento conforme a estratificação do caso. Conforme o diagnóstico de IAM c/ ST, IAM s/ST ou Angina instável o tratamento é conduzido conforme especificado em cada uma dessas patologias, necessitando internação em unidades coronarianas. Os pacientes de probabilidade intermediária/baixa devem seguir rotas de triagem, por meio da realização de ECGs seriados, dosagens enzimáticas, estudos ecocardiográfico e ergométrico, no intuito de se excluir ou não o diagnóstico de síndrome isquêmica aguda. Protocolos específicos para este tipo de triagem devem ser pesquisados em outras fontes, variando conforme o serviço pesquisado. 3.7 ANGINA 98 AN02FREV001/REV 4.0 103 A indicação clássica da deficiência circulatória miocárdica é um tipo bem distinto de dor torácica determinada angina instável. É o resultado do comprometimento do suprimento sanguíneo miocárdico, a quantidade de oxigênio disponível está reduzida e esta insuficiência na oxigenação causa a angina instável. Na angina pectoris ocorre um desconforto torácico, ou Precordialgia, tendo duração em geral dois a dez minutos, precedido por estresse, atividade rigorosa, moderada, discreta ou até em repouso. Na grande maioria dos casos reflete por aterosclerose coronária subjacente, envolvendo pelo menos 50% do diâmetro da luz da artéria, logo esta estenose reduz o fluxo sanguíneo durante as atividades realizadas, pois o principal fator determinante do fluxo sanguíneo coronariano total é a resistência vascular coronária. Então, em resposta, os estímulos adrenérgicos não dilatam, resultando na redução da resistência coronária permitindo o aumentodo fluxo sanguíneo que é indispensável para atender as demandas necessárias. As causas que podem causar angina instável são: trombose coronariana sobre lesão de alto grau, vasoespasmo da artéria coronária, aumento da demanda de oxigênio, redução da pressão de perfusão da artéria coronária, redução do tempo de enchimento diastólico e anemia. É importante observar na história do cliente com dor torácica sintomas associados, como: sudorese, náuseas, vômitos, dispneia, seguidos de sensação de morte iminente, também os fatores de risco para as doenças das artérias coronárias: hipertensão arterial, diabetes, estresse, tabagismo, dislipidemia, idade avançada, obesidade, sedentarismo e história familiar. A hipertensão arterial lesa o endotélio, produz radicais livres, podendo desencadear um processo inflamatório. Já o tabaco libera radicais livres de oxigênio que quando inalados produzem peroxidação lipídica e lesão endotelial. Os radicais livres e a hiperglicemia agem diretamente sobre o endotélio ou por meio da modificação do desidrogenase láctica (LDH) pode representar mecanismos patogênicos dos diferentes fatores de risco da aterosclerose. Classificação da angina A angina do peito, como também é conhecida, apresenta várias formas clínicas: Angina Clássica: desencadeada por esforço; Angina Instável: ou pré-infarto; 99 AN02FREV001/REV 4.0 104 Angina Variante; Angina Mista (BENETT & PLUM, 1996). Existe ainda outra forma assintomática conhecida como Isquemia Silenciosa: não existem sintomas, porém existe uma estenose nas coronárias que diminui o fluxo sanguíneo, reduzindo o nível de oxigênio no miocárdio, sendo diagnosticada por meio do eletrocardiograma. Os fatores de risco englobam idade, sexo, diabetes, hipertensão, presença de infarto prévio do miocárdio, extensão da doença arterial coronária e função ventricular (SOUSA & MANSUR, 1997). Porém, a SOCESP (1994) classifica a angina instável em: Angina Progressiva: com início recente e rápida progressão ou quadro crônico estável; Angina Prolongada: episódios dolorosos com longa duração; Angina de Repouso: episódios anginosos em repouso repetidos; Angina Variante: não relacionada aos esforços físicos, sendo desencadeada por espasmos das artérias; Angina pós-IAM: precoce, que começa na fase hospitalar pós-IAM; Angina de início recente: é um processo anginoso recentemente entre um a dois meses. Anamnese e exame físico A avaliação do paciente com angina deve ser criteriosa e exige a atenção dos profissionais envolvidos, devendo conter raciocínio duplo para o diagnóstico. Primeiramente necessita o reconhecimento ou confirmação de Insuficiência Coronariana (ICO) para obter um diagnóstico qualitativo, e concomitantemente, levantar uma estimativa da gravidade da situação para a obtenção de um diagnóstico quantitativo, não se esquecendo da história do paciente. Para isso, o primeiro passo na avaliação dos pacientes com dor torácica é caracterizar a dor em local, intensidade, irradiação, fatores desencadeantes e de alívio. Após é necessário verificar a presença de fatores de risco. E por fim analisar o conjunto idade, sexo, classificação da dor e a presença de fatores de risco. Com essa análise é possível identificar a gravidade em que o paciente se encontra. No exame físico devemos atentar principalmente aos sinais vitais (SSVV) quanto à verificação da pressão arterial (hipotensão e hipertensão) e frequência cardíaca (bradicardia e taquicardia), pulsos irregulares, temperatura elevada, ritmo respiratório alterado (dispneia), verificar traqueia, linha mediana, estase jugular, ausculta pulmonar (sons respiratórios), ausculta cardíaca (sons cardíacos distantes, 100 AN02FREV001/REV 4.0 105 murmúrios, galopes e esfrega por fricção), náuseas e/ou vômitos, palpação de abdome (massa ou distensão), e enfim, em extremidades observar cianose ou edema e verificar pulsos. Diagnóstico diferencial O diagnóstico implica na diferenciação da avaliação inicial em três grupos de risco: alto, intermediário e baixo risco, onde são evidenciadas as chances de morte ou de novos eventos cardíacos ou IAM. Estratificação do risco de morte ou infarto do miocárdio não fatal na angina instável. Risco alto Dor em repouso, prolongada, acelerada, nas últimas 48 horas Risco intermediário Antecedente de infarto, doença cerebrovascular, remissão de dor precordial prolongada, angina de repouso hipotensão, sopro cardíaco novo ou piora Alteração do segmento ST, arritmia ventricular sustentada Alteração de troponina acentuada Alterações da onda T Elevação discreta de troponina Eletrocardiograma normal ou inalterado Troponina normal Para um diagnóstico preciso devem ser solicitados exames complementares: eletrocardiograma (ECG); marcadores enzimáticos. O ECG é um mecanismo que registra, em forma de ondas, a atividade elétrica do coração, demonstrando o 101 AN02FREV001/REV 4.0 106 processo de despolarização e repolarização; sendo de fundamental importância para identificação de alterações cardíacas. Na angina pode apresentar-se sem alterações ou com sinais de isquemia. Os marcadores enzimáticos são proteínas liberadas na circulação após lesão do músculo cardíaco, em que são dosados os níveis de creatinoquinase total (CK), desidrogenase láctica (LDH) e troponina I. Na angina instável não sofrem alterações, pois não possuem injúria miocárdica. Tratamento O tratamento médico da angina tem como objetivo aumentar as demandas de oxigênio do miocárdio e oferecer o melhor suporte. Esses objetivos são alcançados por meio de terapia farmacológica e do controle dos fatores de risco. As drogas que fazem parte da terapia farmacológica agrupam-se entre os antiplaquetários e antitrombóticos, nitratos, betabloqueadores, bloqueadores dos canais de cálcio e trombolíticos. Os tratamentos invasivos incluem angioplastia (ATC) e cirurgia de revascularização do miocárdio. 3.8 INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO FIGURA 26 É o processo pelo qual áreas de células miocárdicas no coração são destruídas permanentemente, ocorre necrose, ou seja, morte das células. É 102 AN02FREV001/REV 4.0 107 geralmente causado pela diminuição do fluxo sanguíneo nas artérias coronárias devido à formação de ateroma, trombo ou êmbolo (ROGERS, OSBORN & POUSADA, 1992). Outras causas do IAM é o vasoespasmo das coronárias, diminuindo o suprimento de oxigênio e também pela diminuição na demanda de oxigênio. A área afetada pelo infarto leva tempo para desenvolver-se, no início, à proporção que as células são excluídas de oxigênio, a isquemia desenvolve-se e, com o passar do tempo, a falta de oxigênio leva ao IAM ou à morte das células (SMELTZER & BARE, 2002). Esse dano miocárdico é irreversível, ocorrendo quando uma artéria principal ou seus ramos sofrem oclusão. Na maioria dos casos a obstrução ocorre subitamente. O local infartado depende de qual artéria está bloqueada. Geralmente a artéria coronária esquerda ou seus ramos são os que mais obstruem, envolve o ventrículo esquerdo denominando assim de infarto anterior (MELTZER, PINNEO & KITCHELL, 1997). A localização da área infartada, como reflexo de obstrução das artérias nas áreas miocárdicas, classifica o IAM em: Infarto anterior: quando a artéria descendente anterior é obstruída; Infarto anterolateral: quando ocorre a obstrução da artéria diagonal; Infarto inferior: quando a coronária direita está obstruída ou aos ramos marginais da artéria circunflexa (MOTTA, 2003). A localização e o tamanho da IAM tem grandedas artérias por ter uma camada média menos espessa, isto porque a pressão de retorno do sangue para o coração é menor do que a de saída. O retorno do sangue ocorre devido ao pulso venoso gerado pela contração dos músculos e pela contração da própria veia. A isso se soma a ação das válvulas contidas no interior das veias que ajudam a vencer a força da gravidade. Além disso, o próprio átrio direito gera uma força ou pressão negativa, sugando o sangue na direção do coração. A grande circulação ou circulação sistêmica é o movimento do sangue que sai pela aorta e retorna pelas veias cavas, inferior e superior de volta ao átrio esquerdo. A pequena circulação ou circulação pulmonar é o movimento do sangue que sai do ventrículo direito através da artéria pulmonar, passando pelos capilares pulmonares (local onde o sangue entra em contato com o leito alveolar e é oxigenado). Depois de oxigenado o sangue retorna para o átrio esquerdo através das veias pulmonares, seguindo para o ventrículo esquerdo e a grande circulação. A terceira circulação ou circulação coronariana é o movimento do sangue a partir dos seios coronarianos localizados na raiz da aorta. Estes seios dão origem à artéria coronária direita e tronco da coronária esquerda. Assim que o miocárdio é irrigado, o sistema venoso coronariano traz de volta o sangue para o átrio direito. 1.3 LOCALIZAÇÃO DO CORAÇÃO Situa-se na porção mediana da cavidade torácica, encontrando-se separado pelo diafragma. Projeta-se na coluna vertebral, nas vértebras dorsais, estando separado dessas pelo esôfago e aorta torácica. Localiza-se na face interna dos pulmões, em um local denominado mediastino. 8 AN02FREV001/REV 4.0 11 FIGURA 3 1.4 FORMA DO CORAÇÃO FIGURA 4 O coração é um órgão muscular oco em forma de cone, contendo quatro câmaras internas e que fica posicionado dentro do saco pericárdico e abrigado bilateralmente pelos pulmões. Normalmente sua posição é inclinada a mais ou menos 30 graus para a esquerda e para baixo. É envolvido externamente pelo pericárdio e dentro deste envoltório é secretado um fluido que tem a finalidade de evitar o atrito do coração dentro do saco pericárdico. O coração é do tamanho 9 AN02FREV001/REV 4.0 12 aproximado de um punho fechado e com peso em média de 400 g, tem aproximadamente 12 cm de comprimento por 8 a 9 cm de largura. 1.5 ÁTRIOS Os átrios são as câmaras cardíacas superiores. Ambos os átrios são constituídos por uma camada miocárdica de espessura fina. Uma camada muscular chamada de septo divide o átrio direito do átrio esquerdo. O átrio direito comunica-se lateralmente com as veias cavas inferior e superior. Inferiormente liga-se com o ventrículo direito, sendo separado pela válvula tricúspide. Na porção posterior superior do átrio direito está localizado o nodo sinoatrial, que é o marca-passo natural, estrutura que rege os batimentos normais do coração. O átrio esquerdo comunica-se posteriormente com as quatro veias pulmonares e inferiormente com o ventrículo esquerdo, sendo separado pela válvula mitral. A função dos átrios é receber o sangue e conduzi-lo para os ventrículos. 1.6 VENTRÍCULOS Os ventrículos são as câmaras cardíacas inferiores. Como os átrios, são em número de dois. No lado direito o ventrículo se comunica com o átrio direito através da válvula tricúspide e com o tronco da artéria pulmonar através da válvula pulmonar. A parede muscular no ventrículo direito (VD) é mais espessa do que a parede dos átrios. Isso se deve ao esforço que o ventrículo realiza durante a contração. A cada contração o VD tem que vencer a resistência apresentada pela artéria pulmonar; essa resistência é traduzida por uma pressão. Uma camada muscular chamada de septo interventricular separa os dois ventrículos. O ventrículo esquerdo (VE) se comunica com o átrio esquerdo através da válvula mitral e com a aorta através da válvula aórtica. A parede do VE é duas vezes mais espessa que a parede do VD porque a pressão de resistência encontrada pelo 10 AN02FREV001/REV 4.0 13 VE na aorta é muito mais alta. O trabalho ventricular é diferente em cada lado. No lado direito o VD irriga os pulmões e no lado esquerdo o VE irriga todos os órgãos. De dentro dos ventrículos surgem as fibras tendinosas, onde se inserem as cordoalhas das válvulas de entrada, do lado direito à válvula tricúspide e do lado esquerdo a válvula mitral. Durante a contração ventricular estas fibras se distendem e dão a sustentação necessária para segurar os folhetos das válvulas, evitando o retorno do sangue para os átrios. FIGURA 5 1.7 CORAÇÃO DIREITO É constituído pelo átrio direito e ventrículo direito, que se comunicam entre si pelo orifício atrioventricular. O átrio direito é uma câmara de parede fina que recebe o sangue venoso. O ventrículo direito se liga à artéria pulmonar que leva o sangue pobre em oxigênio para os pulmões. 11 AN02FREV001/REV 4.0 14 1.8 CORAÇÃO ESQUERDO FIGURA 6 O átrio esquerdo apresenta uma espessura maior que o direito, assim como o ventrículo esquerdo é mais desenvolvido que o direito. O átrio esquerdo recebe as quatro veias pulmonares que trazem o sangue arterial vindo dos pulmões. O ventrículo esquerdo bombeia o sangue arterial para a artéria aorta e desta o sangue é encaminhado para todas as partes do corpo. 12 AN02FREV001/REV 4.0 15 1.9 FLUXO SANGUÍNEO E VÁLVULAS FIGURA 7 A existência de quatro válvulas cardíacas assegura o funcionamento do coração e o modo unidirecional como o sangue se desloca. As válvulas além de determinarem o sentido do fluxo sanguíneo, evitam o retrocesso de sangue no sistema. 13 AN02FREV001/REV 4.0 16 1.10 VÁLVULAS Válvulas átrio – ventriculares (AV) Asseguram a saída do sangue dos átrios para os ventrículos. São as válvulas TRICÚSPIDE e MITRAL. FIGURA 8 Válvulas Semilunares Permitem a saída de sangue dos ventrículos para as artérias. São as válvulas PULMONAR e AÓRTICA. 14 AN02FREV001/REV 4.0 17 FIGURA 9 As válvulas cardíacas são estruturas de material fibroso posicionadas na entrada e saída de ambos os ventrículos. As válvulas cardíacas são assim denominadas: Válvula Tricúspide: é uma válvula posicionada entre o átrio e o ventrículo direito. Possui três folhetos que se fecham no início da contração ventricular, evitando que o sangue retorne do ventrículo ao átrio direito. Os folhetos são sustentados em forma de um guarda-chuva pelas cordoalhas tendinosas. As cordoalhas são fibras miocárdicas altamente resistentes que se originam do interior do VD. Válvula Pulmonar: é a válvula posicionada na saída do fluxo sanguíneo do VD para o tronco da artéria pulmonar. Seus folhetos se fecham no final da contração ventricular, evitando que o sangue que atingiu a AP retorne para o VD. O diâmetro dessa válvula é menor do que a válvula tricúspide. 15 AN02FREV001/REV 4.0 18 Válvula Mitral: é a válvula posicionada entre o átrio e o ventrículo esquerdo. Sua função é a de evitar o refluxo de sangue do ventrículo para o átrio esquerdo. Como acontece no lado direito com a válvula tricúspide, a válvula mitral se fecha no início da contração ventricular. A sustentação dos folhetos se dá graças às cordoalhas tendinosas que se originam no interior do VE. Válvula Aórtica: é a válvula posicionada na saída do VE para a aorta. O fechamento dos folhetos desta válvula ocorre no final da contração ventricular com a função de evitar que o sangue que foi para a aorta retorne para o VE. FIGURA 10 1.11 PAREDES DO CORAÇÃO Endocárdioimportância para o prognóstico. O infarto subendocárdico, por exemplo, é comum, pois leva as camadas internas do miocárdio, à necrose. FIGURA 27 103 AN02FREV001/REV 4.0 108 Para Huddleston e Ferguson (2006), o IAM pode ser classificado como: ¾ Não onda Q, ou IAM subendocárdico: limitado à metade interna do músculo ventricular; ¾ IAM onda Q ou IAM transmural: envolve toda a espessura do miocárdio; ¾ IAM anterior: artéria coronária descendente anterior esquerda ocluída. No ECG são observadas alterações em V2 até V4. ¾ IAM inferior ou diafragmático: artéria coronária direita ocluída. No ECG são observadas alterações em DII, DIII e aVF; ¾ IAM posterior: artéria coronária direita ou ramo circunflexo da artéria coronária esquerda ocluídas, em geral, a parede lateral ou inferior do ventrículo. ECG são observadas alterações em V1 e V2; ¾ IAM septal: artéria descendente anterior esquerda e o septo que separa os ventrículos esquerdo e direito. No ECG são observadas alterações em V1 até V2. A localização e o tamanho da IAM tem grande importância para o prognóstico. O infarto subendocárdico, por exemplo, é comum, pois leva as camadas internas do miocárdio à necrose (HUDAK & GALLO, 1997). Anamnese e exame físico A principal sintomatologia é a dor prolongada localizada nas regiões subesternal, epigástrica, abdominal alta ou precordial, que pode se irradiar para o pescoço, ombro, mandíbula, braço e mão esquerda. Esta dor apresenta características distintas podendo ser agressiva (aperto) ou contínua (rasgando); a duração também varia de 20 minutos a vários dias (PIRES & STARLING, 2002). Esta dor não é aliviada por repouso e dura mais que 30 minutos. Além desse sintoma primordial, devemos atentar para dispneia, pele fria, pálida, pegajosa, hipoxêmia, sudorese intensa, náuseas, vômitos, ansiedade, redução da pressão sanguínea, elevação da temperatura. O cliente pode estar ansioso e necessitando de cuidados urgentes (HUDDLESTON & FERGUSON, 2006). 104 AN02FREV001/REV 4.0 109 Além desses sintomas os pacientes coronariopatas podem apresentar agitação, taquicardia e hipertensão ou bradicardia. O precórdio em geral está silencioso e o impulso apical difícil de palpar; presença de terceira e quarta bulhas cardíacas, sopros sistólicos, veias jugulares distendidas e pulso carotídeo reduzido (ISSELBACHER et al, 1995). Diagnóstico diferencial Seguidos do exame físico, os exames complementares devem ser solicitados imediatamente, o ECG, marcadores enzimáticos, Raio-X, Ecocardiograma (ECO) e o Cateterismo cardíaco (CAT) com finalidade de uma intervenção rápida e eficaz. O Raio-X de tórax auxilia não só no diagnóstico diferencial, como também afasta outras causas de dor torácica, e define a presença de doenças cardiopulmonares associadas, o grau da disfunção hemodinâmica e o prognóstico resultante do IAM . No IAM o ECG apresenta-se alterado, sendo o principal dado orientando a terapêutica inicial. Pode não apresentar alterações em alguns pacientes. As alterações apresentam-se de acordo com as fases: Hiperaguda (primeiras horas) ocorre o supradesnível ST, onda T positiva, onda R pode aumentar sua amplitude e a onda Q patológica não aparece; Subaguda (após as primeiras horas até quatro semanas), onda T começa a negativar-se, modificando o formato ST, a onda R começa a reduzir sua amplitude, a onda Q patológica aparece; Crônica (após duas a seis semanas), supradesnível de ST desaparece, permanecendo a onda Q patológica e a onda T pode manter suas alterações. As alterações eletrocardiográficas podem ser: Elevação de ST ou bloqueio de ramo novo, ou presumidamente novo; Depressão de ST ou inversão de onda T; ECG não diagnóstico: ausência de alterações no segmento ST ou nas ondas T. Na presença de elevação de ST ou também pode ser chamado de supradesnivelamento do segmento ST, ou a presença de bloqueio de ramo novo ou supostamente novo deve ser identificado um supradesnível de ST igual ou maior que 0,1 mV em duas ou mais derivações anatomicamente contínuas. O supradesnivelamento de segmento ST deve ser corretamente mensurado: 105 AN02FREV001/REV 4.0 110 ¾ Medir 0,04 segundos (1mm) após o ponto J; ¾ O ponto J fica na junção (variação do ângulo) entre o complexo QRS e o segmento ST; ¾ A linha de base para essa medida tem sido tradicionalmente o segmento PR, mas a linha de base desenhada do início da onda P até o final da onda T é considerada mais precisa atualmente, principalmente para aqueles pacientes com segmentos ST côncavos ou convexos e ondas T pontiagudas. O bloqueio de ramo esquerdo (BRE) novo ou presumidamente novo tende a dificultar o diagnóstico de IAM, sendo que estes bloqueios distorcem o segmento ST, logo o supradesnivelamento de ST não pode ser identificado. O BRE é causado pela oclusão do ramo septal do ramo descendente anterior da coronária esquerda, visto que, em alguns pacientes o bloqueio de ramo direito (BRD) agudo, é causado por oclusão da coronária direita. Nos pacientes com quadro clínico sugestivo ou compatível com IAM, devem ser investigados os marcadores com o mais rápido aumento e queda da creatina cinase (CK) e elevação típica e queda gradual da troponina I, sendo a dosagem feita de seis em seis horas no primeiro dia, e diariamente a partir do segundo dia. A CK é um marcador muito importante, pois esta enzima regula a produção e a utilização do fosfato de alta energia nos tecidos contráteis, catalizando a fosforilação da creatina produzida nos rins, no fígado e no pâncreas pelo trifosfato de adenosina para formar o fosfato de creatina e o difosfato de adenosina, a CK é um indicador sensível de lesão muscular, porém não é específico para o diagnóstico de IAM. A CK é o marcador geralmente mais utilizado. Apresenta como principal limitação sua elevação após dano em tecidos não cardíacos, especialmente em musculatura lisa e esquelética. Porém, suas subformas têm sugerido marcadores precoces de lesão miocárdica. A CK possui subformas compostas por três isoenzimas. A combinação de duas subunidades: M (muscular) e B (cerebral) formam as três isoenzimas: CK-MM (designada a forma muscular), CK-BB (forma cerebral) e CK-MB que é encontrada na contração de 2 a 30% no músculo cardíaco. Nas últimas décadas a CK-MB tem sido o marcador padrão para o diagnóstico do IAM. Seu intervalo de referência depende do método utilizado para 106 AN02FREV001/REV 4.0 111 sua medida e seu valor superior de normalidade varia entre 10 Ul/l e 25 Ul/l. Para ser mais preciso o diagnóstico da CK-MB, é utilizado o índice relativo da CK-MB dado pela equação: 100 x CK-MB/CK e se o resultado for inferior a 4% sugere presença de lesão muscular periférica; se for entre 4% a 25% sugere IAM; e se for acima de 25%, deve ser considerada a presença de macroenzimas. A concentração da massa da CK-MB ou CK-MB massa eleva-se entre três e seis horas após o início dos sintomas, com pico entre 16 e 24 horas, normalizando- se entre 48 e 72 horas após o episódio. Estudos mostram que a dosagem da CK-MB para o diagnóstico do IAM entre 12 e 48 horas após o início dos sintomas, demonstrou sensibilidade de 96,8% e especificidade de 89,6%. Por causa disso alguns serviços vêm substituindo a medida da CK-MB pela dosagem CK-MB massa. Existe outro marcador importante na resposta da fase inflamatória aguda: a proteína C-reativa. É uma ferramenta útil na avaliação de algumas doenças agudas, ganhando destaque na área cardíaca com hipótese inflamatória para as doenças ateroscleróticas. A proteína C-reativa vem sendo sugerida na avaliação do risco cardiovascular global. Em pacientes com SCA a dosagem desse marcador mostrou- se útil na identificação dos indivíduos de maior risco de novos eventos. Os pacientes com esse marcador na admissão em nível elevado têm um risco muitogrande de complicações na internação e após alta hospitalar. A LDH pertence à classe de enzimas que catalisam as reações de oxirredução, sendo distribuída em vários tecidos, e sua concentração mais elevada é encontrada no fígado, nos rins, no musculoesquelético, no coração e nos eritrócitos. No IAM a LDH se eleva entre 12 a 18 horas após o início dos sintomas, atingindo o pico entre 48 e 72 horas, normalizando-se em 10 dias. Porém, não é específica do coração em decorrência da especificidade das troponinas que cobrem a mesma janela diagnóstica da LDH, não existindo mais indicação para seu uso. As troponinas estão presentes nos filamentos finos dos músculos estriados, que formam um complexo com três poliptídeos: troponina I (TnI), troponina T (TnT) e troponina C (TnC), que estão envolvidas com o mecanismo de regulação do cálcio celular. As formas TnI e TnT, possuem três formas de isoenzimas: duas nos músculos periféricos com contração lenta e contração rápida e uma no músculo cardíaco, sendo que as formas cardíacas de troponinas I e T são cTnI e cTnT que são diferentes dos músculos periféricos, tornando-as específicas do coração . 107 AN02FREV001/REV 4.0 112 As troponinas atingem a circulação sanguínea em tempo semelhante ao CK- MB, não permitindo o diagnóstico precoce de IAM. Elevam-se entre 3 a 8 horas após o início dos sintomas, possui pico entre 36 e 72 horas e normalização entre 5 e 14 dias. Sua sensibilidade diagnóstica é igual a da CK-MB em até 48 horas após o IAM. As troponinas I e T, no seu papel de estratificação de risco em pacientes com SCA, estão bem estabelecidas, independente da troponina utilizada, na presença ou não de SCA de supradesnível de ST. O cateterismo cardíaco (CAT) é um procedimento invasivo realizado para diagnosticar ou corrigir problemas cardiovasculares, como por exemplo, a visualização de um estreitamento das artérias coronárias, geralmente formado por uma placa de gordura. O ECO também é utilizado e, quase sempre há anormalidades da cinética mural. É um exame seguro que torna sua utilização atraente como método de triagem. No setor de emergência, a realização imediata do ECO ajuda nas decisões terapêuticas. A arteriografia coronária visualiza seletivamente as principais artérias coronárias epicárdicas com auxílio de contraste radiográfico. É o meio mais preciso atualmente disponível para se documentar a presença e a extensão da doença obstrutiva das artérias coronárias. Tratamento do IAM Para o tratamento terapêutico recomendam-se analgésicos (supressão da dor), sedativos (ansiedade), oxigênio (hipoxêmia), nitratos (nitroglicerina), betabloqueadores (redução da FC, PA e o consumo de oxigênio), bloqueadores de cálcio (anti-isquêmico), antiplaquetários (inibição das plaquetas), anticoagulantes (prevenção de reoclusão), lidocaína (controlar arritmias), sulfato de magnésio (antagoniza o cálcio) e inibidores da enzima conversora da angiostensina (hipotensor arterial). Os analgésicos tratam a dor e a sedação é obtida com o uso de morfina que pode ser utilizada para controle da dor. A morfina também ajuda no controle da ansiedade com diminuição das necessidades metabólicas do coração e apresentando efeitos benéficos na fase aguda do IAM. Os nitratos aliviam os sintomas, pois agem na diminuição da pré e pós-carga, vasoespasmo e do tônus coronário e redistribuição do fluxo na região do subendocárdio. Os 108 AN02FREV001/REV 4.0 113 betabloqueadores, com efeito predominante na redução do consumo de oxigênio pelo miocárdio, diminuindo a frequência cardíaca e a contratilidade do músculo cardíaco. Outros efeitos são a inibição da agregação plaquetária, a diminuição do efeito das catecolaminas e a redistribuição do fluxo sanguíneo através do subendocárdico. Bloqueadores dos canais de cálcio reduzem a demanda miocárdica de oxigênio, bem como aumentando o fluxo sanguíneo coronário, limitam a capacitação do cálcio pela musculatura lisa vascular e musculatura cardíaca necessária para acoplar a excitação-contração e, assim provocando dilatação arteriolar sistêmica, vasodilatação sistêmica, mecanismos que reduzem a demanda de oxigênio. Os antiplaquetários inibem a agregação plaquetária, têm se mostrado benéfico no tratamento. Os trombolíticos promovem a estabilização clínica quanto aos sintomas, porém não descartam a possibilidade de uma possível revascularização miocárdica. A angioplastia também é um tipo de tratamento que consiste em uma técnica de revascularização, resulta em uma maior taxa de reperfusão e perviabilidade coronariana, possui um menor risco de reoclusão. O tratamento cirúrgico para o IAM, após a estabilização do paciente e realização da angioplastia, será avaliado se existe possibilidade, e se é realmente necessária à cirurgia. Além de todos os tratamentos existentes, o paciente coronariopata terá na maioria das vezes que mudar os hábitos prejudiciais que o levaram e possam levar novamente a uma recidiva. Por isso, o cliente terá que seguir normas preventivas: abstenção do fumo, afastamento de situações de estresse, controle da PA, dietas com efeitos favoráveis, uso das medicações prescritas e exercícios físicos regulares. 3.9 INSUFICIÊNCIA CARDÍACA A insuficiência cardíaca (insuficiência cardíaca congestiva) é uma condição grave na qual a quantidade de sangue bombeada pelo coração a cada minuto (débito cardíaco) é insuficiente para suprir as demandas normais de oxigênio e de nutrientes do organismo. Apesar de algumas pessoas, de modo equivocado, acreditarem que o termo insuficiência cardíaca signifique parada cardíaca, o termo, 109 AN02FREV001/REV 4.0 114 na realidade, refere-se à diminuição da capacidade do coração suportar a carga de trabalho. A insuficiência cardíaca tem muitas causas, incluindo várias doenças. Ela é muito mais comum entre os idosos, pelo fato deles apresentarem maior probabilidade de apresentar alguma doença que a desencadeie. Apesar de o quadro apresentar um agravamento no decorrer do tempo, os indivíduos com insuficiência cardíaca podem viver muitos anos. Nos Estados Unidos, cerca de 400 mil casos novos de insuficiência cardíaca são diagnosticados anualmente e 70% das pessoas com insuficiência cardíaca morrem devido à mesma em um período de dez anos. Causas Qualquer doença que afete o coração e interfira na circulação pode levar à insuficiência cardíaca. As doenças podem afetar seletivamente o miocárdio, comprometendo sua capacidade de contrair e de bombear o sangue. Sem dúvida, a mais comum dessas doenças é a doença arterial coronariana, que limita o fluxo sanguíneo ao miocárdio e pode acarretar um infarto do miocárdio. A miocardite (infecção do miocárdio causada por bactéria, vírus ou outros micro-organismos) pode lesar o miocárdio, assim como o diabetes, o hipertireoidismo ou a obesidade. Uma valvulopatia cardíaca pode obstruir o fluxo sanguíneo entre as câmaras cardíacas ou entre o coração e as artérias principais. Alternativamente, uma válvula insuficiente pode permitir o refluxo do sangue. Esses distúrbios aumentam a carga de trabalho do miocárdio, o que acarreta a diminuição da força de contração cardíaca. Outras doenças afetam principalmente o sistema de condução elétrica do coração, resultando em batimentos cardíacos lentos, rápidos ou irregulares, prejudicando o bombeamento do sangue no coração. Quando o coração é submetido a uma carga de trabalho exagerada ao longo de meses ou anos, ele aumenta de tamanho, da mesma forma que um bíceps após meses de exercício. A princípio, esse aumento produz contrações mais fortes, porém, mais tarde, o coração aumentado de tamanho pode diminuir sua capacidade de bombeamento e tornar-se insuficiente (insuficiência cardíaca). A hipertensão arterial pode fazer com que o coração trabalhe mais vigorosamente. Ele também trabalha mais vigorosamentequando é forçado a ejetar 110 AN02FREV001/REV 4.0 115 o sangue por um orifício mais estreito. Geralmente uma válvula aórtica estenosada. A condição resultante é semelhante à carga adicional que uma bomba de água tem que suportar ao empurrar a água por tubos estreitos. Algumas pessoas apresentam enrijecimento do pericárdio (membrana delgada e transparente que reveste o coração). Esse enrijecimento impede que o coração expanda completamente entre os batimentos e encha de sangue de forma adequada. Embora com frequência muito menor, doenças que afetam outras partes do corpo aumentam exageradamente a demanda de oxigênio e nutrientes, de modo que o coração, apesar de ser normal, torna-se incapaz de suprir esse aumento da demanda. O resultado é a insuficiência cardíaca. As causas da insuficiência cardíaca variam nas diversas regiões do mundo, segundo as diferentes doenças que ocorrem em cada país. Por exemplo, nos países tropicais certos parasitas podem alojar-se no miocárdio, geralmente causando insuficiência cardíaca em pessoas muito mais jovens do que nos países desenvolvidos, por exemplo, a Doença de Chagas. Mecanismos de Compensação O organismo possui vários mecanismos de resposta para compensar a insuficiência cardíaca. O mecanismo de resposta de emergência inicial (minutos ou horas) é a reação de “luta ou fuga” causada pela liberação de adrenalina (epinefrina) e de noradrenalina (norepinefrina) pelas glândulas adrenais na corrente sanguínea. A noradrenalina também é liberada pelos nervos. A adrenalina e a noradrenalina são as defesas de primeira linha do organismo contra qualquer estresse súbito. Na insuficiência cardíaca compensada, a adrenalina e a noradrenalina fazem com que o coração trabalhe mais vigorosamente, ajudando-o a aumentar o débito sanguíneo e, até certo ponto, compensando o problema de bombeamento. O débito cardíaco pode retornar ao normal, embora, geralmente, à custa de um aumento da frequência cardíaca e de um batimento cardíaco mais forte. No indivíduo sem cardiopatia que necessita de um aumento momentâneo da função cardíaca, essas respostas são benéficas. No entanto, naquele com cardiopatia crônica, essas respostas podem gerar, em longo prazo, demandas maiores a um 111 AN02FREV001/REV 4.0 116 sistema cardiovascular que já se encontra lesado. No decorrer do tempo, essa demanda acarreta uma deterioração da função cardíaca. Outro mecanismo corretivo consiste na retenção de sal (sódio) pelos rins. Para manter constante a concentração de sódio no sangue, o organismo retém água concomitantemente. Essa água adicional aumenta o volume sanguíneo circulante e, a princípio, melhora o desempenho cardíaco. Uma das principais consequências da retenção de líquido é que o maior volume sanguíneo promove a distensão do miocárdio. Esse músculo distendido contrai com mais força, da mesma maneira que o fazem os músculos distendidos do atleta antes do exercício. Esse é um dos principais mecanismos utilizados pelo coração para melhorar seu desempenho em casos de insuficiência cardíaca. Contudo, à medida que a insuficiência cardíaca evolui, o líquido em excesso escapa da circulação e acumula-se em diversos locais do corpo, produzindo inchaço (edema). O local em que ocorre acúmulo de líquido depende da quantidade de líquido em excesso retido no corpo e dos efeitos da força da gravidade. Na posição ortostática (em pé), o líquido desce para as pernas e para os pés. Na posição deitada, o líquido geralmente acumula-se nas costas ou no abdômen. É comum o ganho de peso causado pela retenção de sódio e água no corpo. O outro mecanismo de compensação importante do coração é o aumento da espessura do miocárdio (hipertrofia). O miocárdio hipertrofiado pode contrair com mais força, mas acaba funcionando mal e agrava a insuficiência cardíaca. Sintomas As pessoas com insuficiência cardíaca descompensada apresentam cansaço e fraqueza ao ser compensada, a adrenalina e a noradrenalina fazem com que o coração trabalhe mais vigorosamente, ajudando-o a aumentar o débito sanguíneo e, até certo ponto, compensando o problema de bombeamento. O débito cardíaco pode retornar ao normal, embora, geralmente, à custa de um aumento da frequência cardíaca e de um batimento cardíaco mais forte. No indivíduo sem cardiopatia que necessita de um aumento momentâneo da função cardíaca, essas respostas são benéficas. 112 AN02FREV001/REV 4.0 117 No entanto, naquele com cardiopatia crônica, essas respostas podem gerar, em longo prazo, demandas maiores a um sistema cardiovascular que já se encontra lesado. No decorrer do tempo, essa demanda acarreta uma deterioração da função cardíaca. Outro mecanismo corretivo consiste na retenção de sal (sódio) pelos rins. Para manter constante a concentração de sódio no sangue, o organismo retém água concomitantemente. Essa água adicional aumenta o volume sanguíneo circulante e, a princípio, melhora o desempenho cardíaco. Uma das principais consequências da retenção de líquido é que o maior volume sanguíneo promove a distensão do miocárdio. Esse músculo distendido contrai com mais força, da mesma maneira que o fazem os músculos distendidos do atleta antes do exercício. Esse é um dos principais mecanismos utilizados pelo coração para melhorar seu desempenho em casos de realizar atividades físicas, pois os seus músculos não recebem um aporte adequado de sangue. O edema também provoca muitos sintomas. Além da influência exercida pela força da gravidade, a localização e os efeitos do edema são influenciados pelo lado do coração que apresenta maior comprometimento. Apesar da doença de um dos lados do coração sempre causar insuficiência do coração como um todo, frequentemente existe um predomínio dos sintomas da doença de um dos lados. A insuficiência cardíaca direita tende a produzir acúmulo de sangue que flui para o lado direito do coração. Esse acúmulo acarreta edema dos pés, tornozelos, pernas, fígado e abdômen. A insuficiência cardíaca esquerda acarreta um acúmulo de líquido nos pulmões (edema pulmonar), causando uma dificuldade respiratória intensa. Inicialmente, a falta de ar ocorre durante a realização de um esforço, mas, com a evolução da doença, ela também ocorre em repouso. Algumas vezes, a dificuldade respiratória manifesta-se à noite, quando a pessoa está deitada, em decorrência do deslocamento do líquido para o interior dos pulmões. Frequentemente, o indivíduo acorda com dificuldade respiratória ou apresentando sibilos (chiado de peito). Ao sentar-se, o líquido é drenado dos pulmões, o que torna a respiração mais fácil. Os indivíduos com insuficiência cardíaca podem ser obrigados a dormir na posição sentada para evitar que isso ocorra. Um acúmulo exagerado de líquido (edema pulmonar agudo) é uma emergência potencialmente letal. 113 AN02FREV001/REV 4.0 118 Diagnóstico Esses sintomas geralmente são suficientes para diagnosticar-se uma insuficiência cardíaca. Os eventos a seguir podem confirmar o diagnóstico inicial: pulso fraco e acelerado, hipotensão arterial, determinadas anomalias nas bulhas cardíacas, aumento do coração, dilatação das veias do pescoço, acúmulo de líquido nos pulmões, aumento do fígado, ganho rápido de peso e acúmulo de líquido no abdômen ou nos membros inferiores. Uma radiografia torácica pode revelar um aumento do coração e o acúmulo de líquido nos pulmões. Frequentemente, o desempenho cardíaco é avaliado por meio de outros exames, como a ecocardiografia, que utiliza ondas sonoras para gerar uma imagem do coração, e a eletrocardiografia, a qual examina a atividade elétrica do coração. Outros exames podem ser realizados para se determinar a causa subjacente da insuficiência cardíaca. Tratamento Muito pode ser feito para tornar a atividade física mais confortável, para melhorar a qualidadede vida e para prolongar a vida do paciente. No entanto, não existe uma cura para a maioria das pessoas com insuficiência cardíaca. Os médicos abordam a terapia por meio de três ângulos: tratamento da causa subjacente, remoção dos fatores que contribuem para o agravamento da insuficiência cardíaca e tratamento da insuficiência cardíaca em si. Tratamento da Causa Subjacente A cirurgia pode corrigir uma válvula cardíaca estenosada ou insuficiente, uma conexão anormal entre as câmaras cardíacas ou uma obstrução coronariana – todos os eventos que podem acarretar a insuficiência cardíaca. Algumas vezes, a causa pode ser totalmente eliminada sem necessidade de cirurgia. Tratamentos medicamentosos, cirúrgicos ou radioterápicos podem corrigir a hiperatividade da 114 AN02FREV001/REV 4.0 119 glândula tireoide. De modo similar, algumas drogas podem reduzir e controlar a hipertensão arterial. Remoção dos Fatores Contribuintes O tabagismo, a ingestão de sal, o excesso de peso e o consumo de bebidas alcoólicas são fatores que agravam a insuficiência cardíaca, assim como os extremos da temperatura ambiente. Os médicos podem recomendar um programa de suporte para a interrupção do tabagismo, para a realização das alterações dietéticas adequadas, para a interrupção do consumo de bebidas alcoólicas ou para a realização regular de exercícios moderados, visando melhorar o estado físico geral. Para os indivíduos com insuficiência cardíaca mais grave, o repouso ao leito por alguns dias pode ser indicado como uma parte importante do tratamento. O excesso de sal (sódio) na comida pode provocar retenção de líquido, complicando o tratamento clínico. Geralmente, a quantidade de sódio no organismo diminui quando o sal de mesa, o sal nos alimentos e os alimentos salgados são limitados. Os indivíduos com insuficiência cardíaca grave normalmente recebem informações detalhadas sobre como limitar a ingestão de sal. Os indivíduos com insuficiência cardíaca podem verificar o conteúdo de sal dos alimentos industrializados lendo as embalagens cuidadosamente. Um modo simples e confiável de controlar a retenção de líquido pelo organismo consiste no controle diário do peso corpóreo. Variações superiores a 1 kg por dia quase que seguramente são devidas à retenção de líquido. Um ganho de peso rápido e constante (1 kg por dia) é um indício de que a insuficiência cardíaca está agravando. Por essa razão, os médicos com frequência solicitam aos pacientes que eles controlem o peso diariamente com o máximo de acurácia possível, pela manhã, após a micção e antes do café da manhã. As tendências são mais fáceis de serem determinadas quando o indivíduo utiliza a mesma balança, veste a mesma roupa ou uma roupa similar e mantém um registro escrito de seu peso diário. 115 AN02FREV001/REV 4.0 120 Tratamento da Insuficiência Cardíaca O melhor tratamento para a insuficiência cardíaca é a prevenção ou a reversão precoce da causa subjacente. Entretanto, mesmo quando isso é impossível, os importantes avanços terapêuticos podem prolongar e melhorar a qualidade de vida dos indivíduos com insuficiência cardíaca. Insuficiência Cardíaca Crônica: quando apenas a restrição de sal não reduz a retenção de líquido, o médico pode prescrever drogas diuréticas para aumentar a produção de urina e remover sódio e água do organismo através dos rins. A redução de líquido diminui o volume sanguíneo que chega ao coração e, dessa forma, reduz o trabalho cardíaco. Os diuréticos são normalmente tomados por via oral, em longo prazo, mas, em uma emergência, esses medicamentos são muito eficazes quando administrados por via intravenosa. Como certos diuréticos podem acarretar uma perda indesejável de potássio do organismo, um suplemento de potássio ou um diurético poupador de potássio também pode ser administrado. A digoxina aumenta a força de cada batimento cardíaco e reduz a frequência cardíaca quando essa se encontra muito elevada. Irregularidades do ritmo cardíaco (arritmias) – nas quais o batimento cardíaco é demasiado rápido ou lento ou é errático – podem ser tratadas com medicamentos ou com um marca-passo artificial. Frequentemente são utilizadas drogas que relaxam (dilatam) os vasos sanguíneos (vasodilatadores). Um vasodilatador pode dilatar artérias e/ou veias. Os vasodilatadores arteriais dilatam as artérias e reduzem a pressão arterial, o que por sua vez, diminui o trabalho cardíaco. Os vasodilatadores venosos dilatam as veias e fornecem mais espaço para o sangue acumulado que não tem possibilidade de entrar no lado direito do coração. Esse espaço extra alivia a congestão e restringe a carga sobre o coração. Os vasodilatadores mais comumente utilizados são os inibidores da ECA (enzima conversora da angiotensina). Essas drogas não só melhoram os sintomas, mas também prolongam a vida. Os inibidores da ECA dilatam artérias e veias na mesma proporção, ao passo que muitas drogas mais antigas alargam esses vasos em graus diferentes. Por exemplo, a nitroglicerina dilata veias e a hidralazina dilata artérias. 116 AN02FREV001/REV 4.0 121 As câmaras cardíacas alargadas e com contração deficiente permitem a formação de coágulos sanguíneos em seu interior. Nesse caso, o perigo é o descolamento dos coágulos para o interior da circulação, causando lesões em outros órgãos vitais, como o cérebro, e acarretando um acidente vascular cerebral. As drogas anticoagulantes são importantes porque ajudam na prevenção da formação de coágulos de sangue no interior das câmaras cardíacas. Diversas drogas novas estão sendo pesquisadas com esse objetivo. Assim como os inibidores da ECA, a milrinona e a amrinona dilatam tanto as artérias quanto as veias e, como a digoxina, elas também aumentam a força contrátil do coração. Essas novas drogas são utilizadas apenas por curtos períodos em pacientes rigorosamente monitorizados em ambiente hospitalar, pois elas podem causar arritmias graves. O transplante de coração está indicado para alguns indivíduos que são saudáveis em outros aspectos e cuja insuficiência cardíaca, no entanto, vem se agravando, não respondendo de modo adequado aos medicamentos. Corações mecânicos temporários, parciais ou completos ainda se encontram em fase experimental. Ainda estão sendo intensamente estudados os problemas de eficácia, infecção e coágulos sanguíneos. A miocardioplastia é uma cirurgia experimental na qual um grande músculo retirado do dorso do indivíduo é utilizado para envolver o coração e, em seguida, estimulado por um marca-passo artificial para contrair de modo ritmado. Uma cirurgia experimental recente revelou ser promissora para pacientes selecionados com insuficiência cardíaca grave: o miocárdio fraco e insuficiente é simplesmente ressecado. Insuficiência Cardíaca Aguda: caso acumule-se subitamente líquido nos pulmões (edema pulmonar agudo), a pessoa com insuficiência cardíaca vai respirar com sofreguidão. São administradas altas concentrações de oxigênio por meio de uma máscara facial. Diuréticos intravenosos e drogas como a digoxina podem melhorar o quadro de forma rápida e eficiente. A nitroglicerina administrada por via intravenosa ou colocada sob a língua (via sublingual) dilata as veias e, assim, reduz o volume de sangue que flui pelos 117 AN02FREV001/REV 4.0 122 pulmões. Se essas medidas falharem, um tubo é inserido nas vias respiratórias do paciente, de modo que a respiração seja auxiliada por um ventilador mecânico. Em situações raras, torniquetes podem ser aplicados a três dos quatro membros, para reter temporariamente o sangue. Faz-se uma rotação desses torniquetes entre os membros a cada 10 ou 20 minutos, para evitar lesões nos membros. A morfina alivia a ansiedade que, geralmente, acompanha o edema pulmonar agudo, diminui a frequência respiratória e cardíaca, reduzindoassim a carga de trabalho do coração. Drogas similares à adrenalina e à noradrenalina, como a dopamina e a dobutamina, são utilizadas para estimular as contrações cardíacas em pacientes hospitalizados que necessitam de alívio em curto prazo. Mas, em alguns casos, se a estimulação do sistema interno de resposta emergencial do organismo for excessiva, são utilizadas outras drogas que têm ação oposta (betabloqueadores). 3.10 EDEMA AGUDO DE PULMÃO Definição O edema agudo do pulmão (EAP) representa uma síndrome clínica resultante da transudação de líquido dos capilares pulmonares, inicialmente para o tecido intersticial do pulmão e, posteriormente, para os espaços alveolares. O fato de essa transudação ocorrer de modo relativamente rápido e, às vezes, imprevisível distingue o edema agudo do pulmão de outras formas de edema pulmonar subagudo e crônico. Constitui uma emergência médica de extrema gravidade, porque pode evoluir para o óbito se não for tratada de modo adequado e imediato; por isso, exige do médico que a atende conhecimento e rapidez de ação. 118 AN02FREV001/REV 4.0 123 Etiologia O fator etiológico de edema agudo do pulmão mais frequente é a insuficiência ventricular esquerda. Entretanto, é comum que o EAP se instale em portadores de outros distúrbios, primariamente cardíacos ou extracardíacos. Embora as condições que produzem esses distúrbios sejam numerosas, elas operam por um número limitado de mecanismos que devem ser identificados em cada paciente para que o tratamento seja o mais adequado possível. Por esse motivo, a classificação etiológica do edema pulmonar é muito útil, desde que se reconheça que mais de um mecanismo pode estar presente em um mesmo enfermo. Os seguintes mecanismos devem ser considerados na classificação do edema pulmonar: 9 Aumento de permeabilidade alveolocapilar; 9 Aumento da pressão hidrostática capilar pulmonar; 9 Diminuição da pressão oncótica do plasma; 9 Diminuição da drenagem linfática; 9 Elevação da pressão negativa intersticial; e 9 Mecanismos múltiplos ou ignorados. Edema Pulmonar por Aumento da Permeabilidade Alveolocapilar É determinado com mais frequência por infecções pulmonares, bacterianas ou viróticas; pneumonias por aspiração ou irradiação; inalantes tóxicos como o cloro, o fosgênio, a amônia, os óxidos de nitrogênio e o dióxido de enxofre; intoxicação pelo oxigênio observada em doentes que o inalam em altas concentrações por períodos prolongados; toxinas circulantes como o veneno elapídico, o aloxano, a alfa-naftil-tio-ureia, ou produzidas no choque séptico, e na embolia gordurosa; substâncias vasoativas como a histamina, serotoninas, cininas e prostaglandinas; coagulação intravascular disseminada que ocorre em doença de imunocomplexos após infecções, malária, circulação extracorpórea, embolia por líquido amniótico, eclâmpsia e endotoxemia, reações imunológicas observadas em doenças autoimunes; reações a medicamentos; contusão pulmonar; hipóxia ou hiperoxia 119 AN02FREV001/REV 4.0 124 alveolar; estados de baixa perfusão pulmonar, ventilação artificial prolongada; síndrome de dificuldade respiratória aguda do adulto; síndrome urêmica; afogamento ou semiafogamento; insuficiência cardíaca congestiva; transfusão excessiva de sangue. Edema Pulmonar por Aumento de Pressão Hidrostática Capilar Esse mecanismo de edema pulmonar pode ser devido a fatores cardíacos e extracardíacos. Os fatores cardíacos que constituem a causa mais frequente desse tipo de edema são encontrados principalmente na insuficiência ventricular esquerda e na estenose mitral. Os fatores extracardíacos representam as causas menos frequentes de edema agudo do pulmão por aumento da pressão hidrostática capilar. A forma mais importante na clínica é consequência da administração excessiva de líquidos sob a forma de sangue ou de soluções eletrolíticas. É observada, especialmente, em doentes com cardiopatia e/ou oligúria. Edema Pulmonar por Diminuição da Pressão Oncótica do Plasma Embora constitua uma forma importante pelas manifestações pulmonares que decorrem do edema generalizado observadas em doenças crônicas nutricionais hepáticas, renais e intestinais, é pouco importante como causa de edema agudo do pulmão, a não ser que se considere sua participação como fator contribuinte. Edema Pulmonar por Diminuição da Drenagem Linfática O edema pulmonar pode surgir em consequência de alterações da rede linfática, como as que ocorrem na linfangite carcinomatosa ou na silicose. Desse modo, perturbações da drenagem linfática podem atuar como fator coadjuvante na ocorrência de edema pulmonar. 120 AN02FREV001/REV 4.0 125 Edema Pulmonar por Aumento da Pressão Negativa Intersticial Está relacionada à remoção rápida de grandes derrames pleurais ou pneumotórax. Tem sido atribuída a um aumento da pressão negativa intersticial que decorre desses procedimentos. Edema Pulmonar por Mecanismos Múltiplos ou Ignorados Existem formas especiais de edema agudo do pulmão que se distinguem pela dificuldade em identificar os fatores responsáveis pela sua ocorrência. Sintomas As manifestações clínicas do edema agudo do pulmão estão relacionadas com a fase evolutiva em que se encontra o edema. Nas fases iniciais o acúmulo de líquido no pulmão se limita ao interstício – edema intersticial. O diagnóstico clínico deste tipo de edema é muito difícil, pois os sinais e sintomas são discretos e inespecíficos, restringindo-se geralmente a taquipneia; a hipoxemia é mais tardia. Como é importante para o tratamento que o diagnóstico de edema agudo do pulmão seja precoce, considera-se a taquipneia como indicativa de edema intersticial em todo doente com prováveis fatores etiológicos. Nas fases avançadas o excesso de líquido extravasa para os espaços alveolares – edema alveolar –, às vezes, em quantidade suficiente para chegar às vias aéreas superiores. Nessa fase, é o edema agudo do pulmão diagnosticado com maior frequência, porque sua instalação geralmente é abrupta, evolui de modo rápido e os sinais e sintomas são mais evidentes. O doente primeiro fica extremamente ansioso, às vezes, possuído de sensação de morte eminente ou de tonturas. Posteriormente torna-se obnubilado. A dispneia é acentuada e habitualmente ele assume a posição sentada. As formas mais leves caracterizam-se pela dispneia paroxística noturna. A tosse, a princípio seca, com evolução passa a se acompanhar da eliminação de uma secreção espumosa de cor rósea. A ausculta pulmonar revela a presença de 121 AN02FREV001/REV 4.0 126 estertores bolhosos geralmente audíveis até a parte superior de ambos os hemitórax; ocasionalmente observam-se sinais de intenso broncoespasmo (asma cardíaca) e sibilos expiratórios são audíveis em ambos os hemitórax. A expansibilidade torácica pode estar diminuída em decorrência das alterações da complacência pulmonar. A taquicardia está presente na maioria dos casos que não apresentam distúrbio na formação ou condução do estímulo. A pressão arterial geralmente encontra-se aumentada mesmo em pacientes previamente normotensos. A queda da pressão arterial durante o edema agudo do pulmão sugere a possibilidade de infarto agudo do miocárdio. Nos estágios mais avançados a pele pode apresentar-se cianótica e coberta por um suor frio, como resultado de hipoxemia e vasoconstrição intensas; o paciente torna-se comatoso; a depressão respiratória geralmente antecede a instalação da parada cardíaca. Diagnóstico Na sua forma clássica, o diagnóstico de edema agudo do pulmão é simples e raramente pode ser confundido com outras condições. As maiores dificuldades surgem quando, devido à situação clínica do paciente, não se obtêm informações suficientes sobre os seus antecedentes ou o exame físico setorna muito precário. Exame radiológico do Tórax FIGURA 28 122 AN02FREV001/REV 4.0 127 Método auxiliar muito útil, também fornece informações sobre a área cardíaca. No edema pulmonar os sinais são distintos, conforme o edema seja intersticial ou alveolar. Eletrocardiograma Nas informações obtidas não é capaz de avaliar a capacidade funcional do coração, porém com o seu registro podem ser de grande utilidade no diagnóstico de cardiopatias ou de arritmias e, assim, oferecer elementos para a elucidação da etiologia ou mesmo para o tratamento do edema agudo do pulmão. Auxilia na avaliação da gravidade do edema agudo do pulmão e orienta sobre a indicação e emprego de outras medidas como a ventilação artificial. Tratamento Medidas recomendadas são distintas e devem-se avaliar as circunstâncias. Na maioria das vezes são empregadas de modo simultâneo. Posição do Paciente Sempre que possível deve ficar no leito com o tronco elevado, apoiado de maneira que se sinta confortável. Aplicação de Torniquetes nos membros É útil especialmente onde existem evidências de aumento do volume sanguíneo. 123 AN02FREV001/REV 4.0 128 Morfina É considerado o medicamento mais importante no edema agudo do pulmão cardiogênico, diminui a ansiedade, a atividade simpática do tônus venoso, com redistribuição de sangue da circulação pulmonar para a sistêmica e relaxamento direto da musculatura lisa das vias aéreas e ductos alveolares. A morfina está contraindicada no edema agudo do pulmão que ocorre na hemorragia intracraniana, na asma brônquica e no enfisema pulmonar obstrutivo crônico. Seu emprego deve ser cauteloso, a fim de se evitar o risco de depressão acentuada da ventilação pulmonar, especialmente em pacientes idosos, que são os mais susceptíveis. Oxigênio Está sempre indicada a administração de oxigênio no edema agudo do pulmão. Os métodos mais empregados são: 9 Cateter nasal; 9 Cânula nasal; 9 Máscara facial. Entretanto, em casos graves a ventilação artificial com pressão positiva intermitente, ou mesmo contínua, tem-se demonstrado útil. Digital Quando existe certeza de que o paciente não recebeu digital nos últimos 15 dias e o edema agudo do pulmão é de origem cardiogênica, o emprego do digital está indicado. 124 AN02FREV001/REV 4.0 129 Diuréticos A disponibilidade de diuréticos de ação rápida e potente motivou o seu emprego em grande escala no tratamento do edema agudo do pulmão. Flebotomia Nas formas de edema agudo do pulmão, acompanhada de hipervolemia, a retirada de 250 a 500 ml de sangue está indicada. Diálise Peritoneal Pode ser empregada nas formas de edema agudo do pulmão com hipervolemia, em que a simultaneidade de insuficiência renal impede a eliminação, por essa via, do excesso do líquido. Aminofilina Tem sido utilizada nas formas de edema agudo do pulmão que se acompanham de intenso broncoespasmo. Hipotensores Se o edema agudo do pulmão complica uma crise hipertensiva, ou as cifras tensionais se encontram muito elevadas, medicação hipotensora específica deve ser administrada. Cuidados de Enfermagem: 9 Administrar broncodilatadores, conforme prescrito, observando efeitos colaterais: taquicardia, disritmias, excitação do sistema nervoso central, náusea e vômito; 9 Avaliar para dificuldades respiratórias; 9 Administrar oxigênio pelo método prescrito, explicar a importância ao paciente; 125 AN02FREV001/REV 4.0 130 9 Observar sinais de hipóxia; 9 Notificar ao médico se houver agitação, ansiedade, sonolência, cianose ou taquicardia; e proporcionar ambiente tranquilo, mantendo sua privacidade, evitando medo e ansiedade. 3.11 O CHOQUE E CHOQUE CARDIOGÊNICO O choque é uma condição potencialmente letal na qual a pressão arterial é muito baixa para manter o indivíduo vivo. O choque é a consequência de uma hipotensão arterial importante em decorrência de um baixo volume sanguíneo, da inadequação da função de bombeamento de sangue do coração ou do relaxamento excessivo (dilatação) das paredes dos vasos sanguíneos (vasodilatação). Essa hipotensão arterial, a qual é muito mais grave e prolongada que no desmaio (síncope), acarreta um suprimento sanguíneo inadequado às células do organismo. Pode ocorrer uma lesão rápida e irreversível das células com sua consequente morte. O baixo volume sanguíneo pode ser devido a um sangramento intenso, à perda excessiva de líquidos corpóreos ou à ingestão inadequada de líquidos. O sangue pode ser perdido rapidamente em decorrência de um acidente ou de um sangramento interno, como o provocado por uma úlcera gástrica ou intestinal, pela ruptura de um vaso sanguíneo ou de uma gravidez ectópica (gestação fora do útero). Uma perda excessiva de outros líquidos corpóreos pode ocorrer em casos de grandes queimaduras, inflamação do pâncreas (pancreatite), perfuração da parede intestinal, diarreia intensa, doença renal ou uso excessivo de drogas potentes que aumentam a excreção de urina (diuréticos). Apesar de o indivíduo sentir sede, ele não consegue ingerir uma quantidade suficiente de líquido para compensar as perdas quando alguma incapacidade física (por exemplo, uma doença articular grave) o impede de fazê-lo de modo independente. Uma função de bombeamento inadequado do sangue do coração também pode fazer com que volumes sanguíneos inferiores ao normal sejam bombeados para o corpo em cada batimento cardíaco. 126 AN02FREV001/REV 4.0 131 A função de bombeamento inadequado pode ser decorrente de um infarto do miocárdio, de uma embolia pulmonar, de uma insuficiência valvular (particularmente de uma válvula artificial) ou de arritmias cardíacas. A dilatação excessiva das paredes dos vasos sanguíneos pode ser decorrente de uma lesão craniana, de uma insuficiência hepática, de um envenenamento, de doses excessivas de certas drogas ou de uma infecção bacteriana grave. O choque causado por uma infecção bacteriana é denominado choque séptico. Sintomas e Diagnóstico Os sintomas do choque são similares, quer a causa seja o baixo volume sanguíneo ou uma função de bombeamento inadequado do coração. O quadro pode iniciar com cansaço, sonolência e confusão mental. A pele torna-se fria, apresenta sudorese, com frequência, apresenta uma coloração azulada e palidez. Se a pele for pressionada, a cor normal retornará muito mais lentamente. Pode ocorrer o surgimento de uma rede de linhas azuladas sob a pele. O pulso torna-se fraco e rápido, exceto se a causa do choque for uma frequência cardíaca baixa. Em geral, o indivíduo apresenta uma respiração rápida, mas a respiração e o pulso podem tornar-se lentos se a morte for iminente. Periodicamente, a queda da pressão arterial é tão acentuada que ela não pode ser medida com um esfigmomanômetro. Finalmente, o indivíduo não consegue mais se sentar, uma vez que ele pode desmaiar ou mesmo morrer. Quando o choque é decorrente de uma dilatação excessiva dos vasos sanguíneos, os sintomas são um pouco diferentes. A pele pode, então, tornar-se quente e ruborizada, particularmente no início do quadro. Nos primeiros estágios do choque, sobretudo no caso de choque séptico, muitos sintomas podem estar ausentes ou podem não ser detectáveis, a menos que especificamente procurados. A pressão arterial é muito baixa, o fluxo urinário também e ocorre um acúmulo de produtos metabólicos no sangue. A mortalidade do choque cardiogênico não causado por lesão estrutural reparável, ou causado por uma lesão reparável não rapidamente corrigida é de 85%. Portanto, o choque cardiogênico deve ser rapidamente diagnosticado e tratado com vigor. Pacientes com hipoperfusão, mas com pressão arterial (PA) adequada devem ser tratados como estado pré-choque, tambémde maneira agressiva, no intuito de 127 AN02FREV001/REV 4.0 132 prevenir a progressão para o choque e óbito. Os princípios gerais de tratamento são o rápido reconhecimento da condição; rápido tratamento ou exclusão de causas reversíveis; e rápida estabilização do estado clínico e hemodinâmico. Deve-se obter um ECG, instituir monitorização cardíaca contínua, obter um acesso venoso profundo e um cateter arterial para PAM. Cateter arterial pulmonar deve ser usado nos estágios iniciais do choque, a não ser que o paciente responda a infusão rápida de fluidos. Arritmias, se presentes, devem ser avaliadas quanto à contribuição para o estado hemodinâmico e quanto à necessidade de rápida reversão ou de uso de marca-passo. A redução relativa ou absoluta da pressão de enchimento ventricular como causa básica da hipotensão deve ser sempre estudada. Estima-se que de 10 a 15% dos pacientes com infarto agudo do miocárdio (IAM) estão significativamente hipovolêmicos, devido à terapia diurética ou redistribuição vascular. Infarto do VD, tamponamento cardíaco e tromboembolismo pulmonar são outras causas comuns de IC aguda nesta categoria. A não ser que existam sinais de sobrecarga volumétrica (galope, estertores pulmonares, congestão pulmonar ao Raio-X), deve-se infundir solução salina rápida (500-ml bólus + 500 ml/h). A pressão venosa jugular não é um indicador fiel da pressão diastólica do VE e, portanto, a elevação da pressão venosa jugular não demonstra a necessidade da administração de volume em várias situações clínicas, como no tamponamento pericárdico e no infarto de VD. Nos pacientes com IAM inferior e choque, o infarto de VD deve ser suspeitado, resultando em insuficiência ventricular direita e enchimento ventricular esquerdo inadequado. O padrão de injúria nas derivações precordiais direitas é visto de forma comum, mas não uniforme no infarto de VD. O diagnóstico de infarto de VD frequentemente pode ser feito com base em sinais clínicos como o aumento da pressão jugular durante a inspiração. Quando o diagnóstico não é claro a ecocardiografia e a instalação de um cateter arterial pulmonar é útil. Registros de pressão cardíaca direita geralmente mostram a pressão atrial média e pressão diastólica ventricular igual ou maiores que a pressão arterial pulmonar de cunha capilar com pressão arterial pulmonar normal ou baixa. Ecocardiografia pode ser usada para diagnosticar a presença do envolvimento do VD, avaliar a função da valva tricúspide, a extensão do 128 AN02FREV001/REV 4.0 133 comprometimento do VE e sua função e excluir tamponamento pericárdico, que pode apresentar-se de forma clínica semelhante. A administração de volume é o principal componente da terapia do infarto de VD, a fim de manter uma pressão, nas cavidades direitas, suficiente para manter o débito cardíaco. A administração de fluidos inicialmente pode ser dirigida por variáveis clínicas (PA, perfusão periférica, débito urinário, presença de galope), mas geralmente a monitorização hemodinâmica se faz necessária para uma otimização do tratamento. A falha da reposição volêmica na obtenção de uma estabilização hemodinâmica nestes pacientes requer o uso de terapêutica mais agressiva (dobutamina, BIA ou procedimentos intervencionistas). O uso de drogas diuréticas ou vasodilatadoras em pacientes com infarto de VD pode resultar em hipotensão severa. Ocasionalmente, essas mesmas drogas produzem hipotensão em pacientes com IAM e edema pulmonar, devido à translocação do fluido para o pulmão e redução do volume intravascular. Hipotensão severa (PASriquetsias, clamídias, micoplasmas. Os agentes mais comuns são: estreptococos, estafilococos, enterococos, alguns germes gram-negativos. Também existem reações inflamatórias do endocárdio provocadas por doenças autoimunes, nas quais não encontramos um agente infeccioso na reação inflamatória do endocárdio. A endocardite localiza-se preferencialmente nas válvulas do coração, mas pode ser encontrada em qualquer parte do endocárdio, podendo ser classificada em aguda e subaguda. A aguda se caracteriza pela intensa toxicidade e rápida progressão, podendo evoluir em dias para a morte. Costuma provocar infecções a distância, como no cérebro, rins, pulmões, fígado, olhos. O agente etiológico mais comum é o estafilococos aureus. Já a subaguda tem a evolução mais lenta, persistindo por meses e, na maioria dos casos, é causada por Estreptococos viridans, enterococos, estafilococos coagulase negativos ou bacilos gram-negativos. A endocardite pode atingir as pessoas em qualquer idade e os sintomas e sinais principais são: febre de longa duração, suores noturnos persistentes, astenia, baço aumentado de volume, alterações cardíacas, como o agravamento súbito de uma doença cardíaca previamente existente. 132 AN02FREV001/REV 4.0 139 O que favorece o aparecimento de endocardites As pessoas portadoras de lesões valvulares do coração, congênitas ou adquiridas são as mais propensas a apresentarem a doença. Contudo, a endocardite também ocorre em pessoas que não tenham lesões cardíacas. Surge principalmente depois de procedimentos invasivos, em que há a incursão do organismo, como cirurgias, extrações dentárias, colocação de sondas, manipulação de abscessos (espinhas ou furúnculos). Em alguns grupos, a metade dos casos encontrados de endocardite é em pessoas que fizeram ou fazem uso de drogas injetáveis. Outro grupo de pessoas seguidamente acometido de endocardite encontra-se entre os que foram submetidos à cirurgia cardíaca. Há trabalhos que relatam que até 30% das válvulas artificiais implantadas nos corações são atingidas por infecção. Diagnóstico O diagnóstico de endocardite é feito principalmente quando existe um alto índice de suspeita do médico naqueles pacientes que tenham febres prolongadas e sem outro diagnóstico que explique a elevação da temperatura. A história de procedimentos cirúrgicos, dentários e uso de drogas aumenta a suspeita. Para um diagnóstico de endocardite, o médico se vale de um bom exame clínico do sistema cardiovascular, no qual se destacam o surgimento ou a alteração em sopros anteriormente existentes, o aumento do baço, alterações ecocardiográficas e culturas do sangue. Atualmente, um dos exames que mais auxilia para o diagnóstico de endocardite é a ecografia transesofágica. Em um grande número de casos não se consegue obter uma cultura positiva do sangue para identificar o agente causador da endocardite. Nos melhores laboratórios, que tenham acesso às técnicas mais apuradas, em cerca de 70 a 80% dos casos em que se colhe o sangue dos pacientes se consegue obter culturas positivas que identifiquem o agente etiológico. Uma das razões para a falta de identificação está no fato da maioria dos pacientes 133 AN02FREV001/REV 4.0 140 estarem recebendo antibióticos administrados às cegas, isto é, sem ter um diagnóstico etiológico confirmado. Tratamento O tratamento é feito com antibióticos em doses generosas e durante um tempo prolongado, em média 30 dias. Alguns pacientes, uma vez curada a infecção do coração, havendo alterações severas de válvulas, devem ser submetidos à troca cirúrgica dessa válvula. Denomina-se de endocardite hospitalar aquela que ocorre em pessoas tratadas em hospital, que não foram submetidas a procedimentos sobre o coração, e que tendo ou não uma lesão cardíaca ou uma válvula artificial, a desenvolve devido ao uso de agulhas ou cateteres infectados, instrumentação ou cirurgia de vias urinárias ou digestivas. Micro-organismos mais frequentemente envolvidos na endocardite Estreptococcus viridans De 30 a 65% dos casos de endocardite não relacionados ao uso de drogas ilícitas são causados por esse agente. Ele é um habitante normal das nossas vias aéreas e orofaringe. Essa infecção é muito encontrada em portadores de lesões valvulares que foram submetidos a tratamentos dentários nos dias precedentes à descoberta de endocardite. Estreptococcus bovis (e outros) É geralmente um habitante normal do trato digestivo, estando envolvido em aproximadamente 27% dos casos de endocardite. É mais frequente em pacientes portadores de câncer ou pólipos intestinais. 134 AN02FREV001/REV 4.0 141 Estreptococcus pneumoniae Embora esse germe seja muito encontrado no sangue dos portadores de infecções causadas por ele, só em 1 a 3% ele atinge o coração. Ocorre em alcoolistas e costuma estar associado à meningite e pneumonia. Enterococcus Em 85% dos casos de endocardite provocada pelos enterococos os responsáveis são e E. faecalis ou o E. faecium. São habitantes normais do trato digestivo e urinário e os casos de endocardite por eles causados costumam ser em pessoas jovens, principalmente em mulheres e homens idosos, como consequência da manipulações do trato genitourinário. Estafilococos O E. aureus dos coagulase positivos e o E. epidermidis entre os coagulase negativos são os mais encontrados em casos de endocardite provocados pelo uso de sondas, drenos e próteses de uso hospitalar. Fungos Os fungos podem estar envolvidos em casos de endocardite, bacteriana ou não, que se caracterizam por lesões vegetantes de proporções maiores, causando embolias. São particularmente encontrados em pacientes que tiveram válvulas cardíacas trocadas e em usuários de drogas ilícitas injetáveis. Endocardite não bacteriana trombótica Pode surgir em pacientes que tenham sofrido uma lesão no endocárdio e em portadores de doenças que se acompanham de hipercoagulabilidade do sangue. É mais encontrada em pessoas idosas, em portadores de doenças malignas, lesões de válvulas, portadores de lupus eritematoso sistêmico e em pacientes que tiveram cateteres implantados em procedimentos hospitalares. 135 AN02FREV001/REV 4.0 142 Esse tipo de endocardite chega a ser detectado em 1,3% das necropsias. Sintomas e sinais Sintomas de endocardite, mais frequentes: Calafrios - 40 a 70%; Suores, principalmente noturnos - 25%; Emagrecimento - 25 a 35%; Falta de ar - 20 a 40%; Tosse - 25%; Confusão mental - 10 a 20%; Dores diversas - 5 a 35%. Sinais de endocardite, os mais frequentes: Febre - 80 a 90%; Sopro no coração - 80 a 85%; Mudanças dos sopros cardíacos - 10 a 40%; Agravamento súbito de doença cardíaca preexistente - 30%; Alterações neurológicas - 30 a 40%; Embolias arteriais ou pulmonares - 20 a 40%; Aumento do baço - 15 a 50%; Manifestações periféricas - 5 a 40% (em pele, unhas, fundo do olho). 136 AN02FREV001/REV 4.0 143 4.2 MIOCARDIOPATIAS A miocardiopatia é um distúrbio progressivo que altera a estrutura ou compromete a função da parede muscular das câmaras inferiores do coração (ventrículos). Pode ser causada por muitas doenças conhecidas ou pode não ter uma causa identificável. 4.2.1 Miocardiopatia Congestiva Dilatada O termo miocardiopatia congestiva dilatada refere-se a um grupo de distúrbios cardíacos nos quais os ventrículos dilatam, mas são incapazes de bombear um volume de sangue suficiente que supra as demandas do organismo e acarretam a insuficiência cardíaca. Nos Estados Unidos, a causa identificável mais comum da miocardiopatia congestiva dilatada é a doença arterial coronariana disseminada. Essa doença arterial coronariana acarreta uma irrigação sanguínea inadequada ao miocárdio, a qual pode levar a umalesão permanente. Como consequência, a parte do miocárdio não lesada sofre um espessamento para compensar a perda da função de bomba. Quando esse espessamento não compensa adequadamente, ocorre a miocardiopatia congestiva dilatada. Uma inflamação aguda do miocárdio (miocardite) por uma infecção viral pode enfraquecer esse músculo e causar miocardiopatia congestiva dilatada (às vezes denominada miocardiopatia viral). Nos Estados Unidos, a infecção pelo coxsa- ckievírus B é a causa mais comum de miocardiopatia viral. Alguns distúrbios hormonais crônicos, como o diabetes e os distúrbios tireoideanos, podem produzir a miocardiopatia congestiva dilatada. O problema também pode ser causado por drogas, como o álcool e a cocaína, e por medicamentos, como os antidepressivos. A miocardiopatia alcoólica pode ocorrer após aproximadamente dez anos de consumo intenso de álcool. Raramente 137 AN02FREV001/REV 4.0 144 gravidez ou doenças do tecido conjuntivo, como a artrite reumatoide, podem causar a miocardiopatia congestiva dilatada. Sintomas e diagnóstico Os primeiros sintomas usuais da miocardiopatia congestiva dilatada – dificuldade respiratória durante os exercícios e cansaço fácil – são decorrentes do enfraquecimento da função de bomba do coração (insuficiência cardíaca). Quando a miocardiopatia é proveniente de uma infecção, os primeiros sintomas podem ser uma febre súbita e sinais similares aos do resfriado. Qualquer que seja a causa, a frequência cardíaca aumenta, a pressão arterial é normal ou baixa, ocorre retenção de líquido nos membros inferiores e no abdômen e os pulmões apresentam congestão líquida. A dilatação do coração faz com que as válvulas cardíacas abram e fechem inadequadamente e aquelas que permitem a passagem do sangue aos ventrículos (as válvulas mitral e tricúspide), frequentemente, apresentam insuficiência. Um fechamento valvular inadequado produz sopro, o qual pode ser auscultado pelo médico com o auxílio de um estetoscópio. A lesão miocárdica e a dilatação podem aumentar ou diminuir anormalmente o ritmo cardíaco. Essas anormalidades interferem ainda mais na função de bomba do coração. O diagnóstico é baseado nos sintomas e no exame físico. A eletrocardiografia (procedimento que examina a atividade elétrica do coração) pode revelar alterações características. A ecocardiografia (exame que utiliza ondas ultrassônicas para gerar uma imagem das estruturas cardíacas) e a ressonância magnética (RM) podem ser utilizadas para a confirmação do diagnóstico. Se o diagnóstico permanecer duvidoso, um cateter destinado a mensurar a pressão é inserido no coração para uma avaliação mais precisa. Durante a cateterização, uma amostra de tecido pode ser removida para ser submetida a um exame microscópico (biópsia), para confirmar o diagnóstico e, frequentemente, para detectar a causa. 138 AN02FREV001/REV 4.0 145 Prognóstico e tratamento Cerca de 70% das pessoas com miocardiopatia congestiva dilatada morre nos cinco anos subsequentes ao início dos sintomas e o prognóstico piora logo que as paredes cardíacas tornam-se mais delgadas e a função cardíaca diminui. As anomalias do ritmo cardíaco também indicam um prognóstico ruim. Em geral, a sobrevida dos homens equivale apenas à metade do tempo de sobrevida das mulheres e a sobrevida dos indivíduos da etnia negra equivale à metade do tempo de sobrevida dos brancos. Aproximadamente 50% das mortes são súbitas, provavelmente em razão de uma arritmia cardíaca. O tratamento das causas subjacentes específicas, como o consumo abusivo de álcool ou uma infecção, pode prolongar a vida do paciente. Se o uso abusivo de bebidas alcoólicas for a causa, o paciente deve abster-se da ingestão alcoólica. Se uma infecção bacteriana produzir uma inflamação aguda do miocárdio, essa deve ser tratada com antibiótico. No indivíduo com doença arterial coronariana, a irrigação sanguínea deficiente pode provocar angina (dor torácica causada por uma cardiopatia), impondo a necessidade de um tratamento com um nitrato, um betabloqueador ou um bloqueador dos canais de cálcio. Os betabloqueadores e os bloqueadores dos canais de cálcio podem reduzir a força das contrações cardíacas. Medidas que auxiliam a reduzir a tensão sobre o coração incluem o repouso e o sono suficientes e a redução do estresse. O acúmulo de sangue no coração dilatado pode acarretar a formação de coágulos nas paredes das câmaras cardíacas. Para prevenir a sua ocorrência, geralmente são utilizadas drogas anticoagulantes. Quase todas as drogas utilizadas na prevenção de arritmias cardíacas são prescritas em doses pequenas e essas são ajustadas por pequenos aumentos, pois esses agentes podem reduzir a força das contrações cardíacas. A insuficiência cardíaca também é tratada com drogas como, por exemplo, um inibidor da enzima conversora da angiotensina e, frequentemente, um diurético. No entanto, a menos que a causa da miocardiopatia congestiva dilatada possa ser tratada, é provável que a insuficiência cardíaca acarrete a morte do paciente. Devido a esse prognóstico 139 AN02FREV001/REV 4.0 146 sombrio, a miocardiopatia congestiva dilatada é a indicação mais comum para a realização de um transplante cardíaco. 4.2.2 Miocardiopatia Hipertrófica A miocardiopatia hipertrófica é um grupo de distúrbios cardíacos caracterizados pelo espessamento das paredes ventriculares. A miocardiopatia hipertrófica pode ser um defeito congênito. Ela também pode ocorrer em adultos com acromegalia, um distúrbio resultante do excesso de hormônio do crescimento no sangue, ou em portadores de feocromocitoma, um tumor que produz adrenalina. Indivíduos com neurofibromatose, um distúrbio hereditário, também podem apresentar miocardiopatia hipertrófica. Geralmente, qualquer espessamento das paredes musculares do coração representa a reação muscular a um aumento da carga de trabalho. As causas típicas são a hipertensão arterial, o estreitamento da válvula aórtica (estenose aórtica) e outros distúrbios que aumentam a resistência à saída do coração. No entanto, os indivíduos com miocardiopatia hipertrófica não apresentam essas condições. Por outro lado, o espessamento produzido nos casos de miocardiopatia hipertrófica geralmente é resultante de um defeito genético hereditário. O coração aumenta de espessura e torna-se mais rígido do que o normal e apresenta uma maior resistência à entrada de sangue proveniente dos pulmões. Uma das consequências é a pressão retrógrada nas veias pulmonares, a qual pode acarretar acúmulo de líquido nos pulmões e, consequentemente, uma dificuldade respiratória crônica. Além disso, à medida que as paredes ventriculares aumentam de espessura, elas podem bloquear o fluxo sanguíneo, impedindo o enchimento adequado do coração. 140 AN02FREV001/REV 4.0 147 Sintomas e diagnóstico Os sintomas incluem desmaio, dor torácica, palpitações produzidas pelas arritmias cardíacas e insuficiência cardíaca acompanhada de dificuldade respiratória. Em decorrência dos batimentos cardíacos irregulares, pode ocorrer a morte súbita. Geralmente o médico consegue diagnosticar a miocardiopatia hipertrófica por meio do exame físico. Por exemplo, os sons cardíacos auscultados por um estetoscópio costumam ser característicos. Em regra, o diagnóstico é confirmado por um ecocardiograma, eletrocardiograma (ECG) ou por radiografia torácica. No caso do médico aventar a possibilidade de uma cirurgia, pode haver necessidade de realizar um cateterismo cardíaco para a mensuração das pressões no interior do coração. Prognóstico e Tratamento Anualmente, cerca de 4% das pessoas com miocardiopatia hipertrófica morrem. Geralmente a morte é súbita. A morte por insuficiência cardíaca crônica é menos comum. Pode ser necessário o aconselhamentogenético para os indivíduos que apresentam esse distúrbio de natureza congênita e que desejam ter filhos. O tratamento tem como objetivo principal a redução da resistência cardíaca à entrada de sangue entre os batimentos cardíacos. Administrados de forma isolada ou simultânea, os betabloqueadores e os bloqueadores dos canais de cálcio representam o principal tratamento. A cirurgia de remoção de parte do miocárdio melhora o refluxo do sangue do coração, mas essa operação é realizada apenas em indivíduos cujos sintomas são incapacitantes apesar da terapia medicamentosa. A cirurgia pode reduzir os sintomas, mas não diminui o risco de vida. Antes de qualquer tipo de tratamento odontológico ou qualquer procedimento cirúrgico devem ser administrados antibióticos para reduzir o risco de infecção do revestimento interno do coração (endocardite infecciosa). 141 AN02FREV001/REV 4.0 148 4.2.3 Miocardiopatia Restritiva A miocardiopatia restritiva é um grupo de distúrbios do miocárdio nos quais as paredes ventriculares enrijecem, mas não necessariamente apresentam espessamento, produzindo uma resistência ao enchimento normal com sangue entre os batimentos cardíacos. Sendo a forma menos comum de miocardiopatia, a miocardiopatia restritiva apresenta muitas características da miocardiopatia hipertrófica. Comumente, a sua causa é desconhecida. Em um de seus dois tipos básicos, o miocárdio é substituído gradualmente por tecido cicatricial. No outro tipo, ocorre infiltração de um material anormal no miocárdio como, por exemplo, glóbulos brancos (leucócitos). Outras causas de infiltração são a amiloidose e a sarcoidose. Quando o organismo possui uma quantidade excessiva de ferro, esse metal pode acumular-se no miocárdio, como ocorre na hemocromatose (sobrecarga de ferro nos tecidos). A causa também pode ser um tumor que invade o tecido cardíaco, porque a resistência cardíaca ao enchimento com sangue e a quantidade de sangue bombeada para fora é adequada quando o indivíduo encontra-se em repouso, mas não quando ele está exercitando-se. Sintomas e diagnóstico A miocardiopatia restritiva causa insuficiência cardíaca acompanhada de dificuldade respiratória. O diagnóstico baseia-se, em grande parte, no exame físico, no eletrocardiograma (ECG) e no ecocardiograma. A ressonância magnética (RM) pode fornecer informações adicionais sobre a estrutura do coração. Geralmente, um diagnóstico preciso exige um cateterismo cardíaco, para a mensuração das pressões, e de uma biópsia do miocárdio (remoção e exame microscópico de uma amostra), a qual pode permitir a identificação da substância infiltrada. 142 AN02FREV001/REV 4.0 149 Prognóstico e tratamento Cerca de 70% dos indivíduos com miocardiopatia restritiva morrem nos cinco anos que sucedem o início dos sintomas. Para a maioria das pessoas com esse distúrbio não existe uma terapia satisfatória. Por exemplo, os diuréticos, que normalmente são utilizados no tratamento da insuficiência cardíaca, podem reduzir o volume sanguíneo que chega ao coração, agravando o problema em vez de melhorá-lo. As drogas normalmente utilizadas em casos de insuficiência cardíaca que visam reduzir a carga de trabalho do coração, em geral, não ajudam, pois elas podem produzir uma redução excessiva da pressão arterial. Algumas vezes, a causa da miocardiopatia restritiva pode ser tratada para prevenir a piora da lesão cardíaca ou mesmo para reverter o quadro. Por exemplo, nos casos de sobrecarga de ferro, a remoção de sangue em intervalos regulares reduz a quantidade de ferro armazenado. Os indivíduos com sarcoidose podem utilizar corticosteroides. 4.3 VALVULOPATIAS O coração possui quatro câmaras: duas superiores e de pequenas dimensões (os átrios), e duas inferiores e maiores (os ventrículos). Cada ventrículo possui uma válvula de entrada e uma válvula de saída, ambas unidirecionais. A válvula tricúspide abre-se do átrio direito para o ventrículo direito e a válvula pulmonar abre-se do ventrículo direito para as artérias pulmonares. A válvula mitral abre-se do átrio esquerdo para o ventrículo esquerdo e a válvula aórtica abre-se do ventrículo esquerdo para a aorta. As válvulas cardíacas podem apresentar um funcionamento deficiente, permitindo um vazamento (insuficiência valvular) ou uma abertura não adequada (estenose valvular). Qualquer um desses problemas pode interferir gravemente na 143 AN02FREV001/REV 4.0 150 capacidade de bombeamento de sangue do coração. Algumas vezes, uma válvula apresenta os dois problemas simultaneamente. Estenose e a Regurgitação (Insuficiência) As válvulas cardíacas podem funcionar mal, seja não abrindo adequadamente (estenose) seja permitindo o vazamento do sangue (regurgitação). Estas ilustrações apresentam os dois problemas na válvula mitral, embora eles também possam ocorrer nas demais válvulas cardíacas. FIGURA 29 144 AN02FREV001/REV 4.0 151 4.3.1 Insuficiência Mitral A insuficiência mitral (incompetência mitral, regurgitação mitral) consiste no fluxo retrógrado de sangue através dessa válvula ao átrio esquerdo cada vez que o ventrículo esquerdo se contrai. Quando o ventrículo esquerdo bombeia o sangue para fora do coração e para o interior da aorta, ocorre um fluxo retrógrado de certa quantidade de sangue ao átrio esquerdo, aumentando o volume e a pressão nessa câmara. Por sua vez, isso aumenta a pressão no interior dos vasos que levam o sangue dos pulmões ao coração, resultando em um acúmulo de líquido (congestão) no interior dos pulmões. A doença reumática costumava ser a causa mais comum de insuficiência mitral. Atualmente, ela é rara nos países que contam com uma medicina preventiva de boa qualidade. Na América do Norte e na Europa Ocidental, por exemplo, o uso de antibióticos contra a infecção de garganta por estreptococos impede, na maioria dos casos, a ocorrência da moléstia reumática. Nessas regiões, a insuficiência mitral causada pela moléstia reumática é comum apenas em pessoas idosas que não foram beneficiadas pelos antibióticos durante a juventude. Entretanto, nos países onde a medicina preventiva é de má qualidade, a moléstia reumática ainda está presente, sendo uma causa comum de insuficiência mitral. Na América do Norte e na Europa Ocidental, uma causa mais comum de insuficiência mitral é o infarto do miocárdio, o qual pode lesar as estruturas de sustentação da válvula mitral. Outra causa é a degeneração mixomatosa, um distúrbio no qual a válvula torna-se gradativamente mais flácida. Sintomas Uma insuficiência mitral leve pode não produzir qualquer sintoma. O problema, às vezes, é identificado apenas quando o médico, auscultando o paciente 145 AN02FREV001/REV 4.0 152 com um estetoscópio, ouve um sopro cardíaco característico resultante do fluxo retrógrado do sangue que retorna ao átrio esquerdo após a contração do ventrículo esquerdo. Pelo fato de ser obrigado a bombear mais sangue para compensar o fluxo retrógrado de sangue ao átrio esquerdo, ocorre um aumento progressivo do ventrículo esquerdo para aumentar a força de cada batimento cardíaco. O ventrículo dilatado pode produzir palpitações (percepção de batimentos cardíacos vigorosos), particularmente quando a pessoa encontra-se em decúbito lateral esquerdo. O átrio esquerdo também tende a dilatar para acomodar o sangue adicional que retorna do ventrículo. Geralmente, um átrio muito dilatado bate rapidamente e com um padrão desorganizado e irregular (fibrilação atrial), o qual reduz a eficácia do bombeamento do coração. Na realidade, o átrio em fibrilação não bombeia, apenas tremula, e a ausência de um fluxo sanguíneo adequado permite a formação de coágulos. Se um desses coágulos se soltar, será bombeado para fora do coração- Uma fina membrana serosa que forra o órgão interiormente e cobre a superfície das válvulas cardíacas. É formado por um tecido epitelial de revestimento interno que nas artérias e veias chama-se endotélio. Esse tecido permite a não coagulação do sangue; 16 AN02FREV001/REV 4.0 19 Miocárdio - Uma camada média, e mais espessa, da parede do coração, formada por músculo anatomicamente estriado (vermelho) e fisiologicamente liso. Forma o coração; Epicárdio - (mais externa) Fina camada visceral que reveste diretamente o coração. É uma víscera serosa: membrana que deriva do revestimento da primitiva cavidade celomática; Pericárdio - É um saco seroso de parede dupla, está localizado no mediastino médio, envolvendo o coração. Externamente é constituído por uma espessa lâmina de tecido fibroso denso – pericárdio fibroso. Internamente por uma membrana transparente chamada pericárdio seroso; fluido pericárdico no interior diminui a fricção entre as camadas. 1.12 AS ARTÉRIAS CORONÁRIAS As artérias do coração têm origem nas Artérias Coronárias, uma esquerda e outra direita. Têm origem na porção inicial da Aorta, constituindo os primeiros ramos colaterais desta artéria. A Artéria Coronária Esquerda nasce ao nível da parte média do Seio de Valssalva esquerdo. A Artéria Coronária Direita nasce ao nível do Seio de Valssalva direito. Artéria Coronária Esquerda O seu tronco de origem mede aproximadamente 1 cm. Dirige-se para frente, para baixo e para a esquerda. O tronco de origem divide-se depois em dois ramos terminais: a Artéria Interventricular Anterior ou Artéria Descendente Anterior e a Artéria Auriculoventricular Esquerda ou Ramo Circunflexo. Artéria Interventricular Anterior 17 AN02FREV001/REV 4.0 20 A também denominada Artéria Descendente Anterior desce ao longo do Sulco Interventricular Anterior, contorna o Bordo direito do coração à direita da ponta, terminando na face posterior do coração. Ao longo do seu trajeto a Artéria Interventricular Anterior dá origem a 3 classes de Ramos Colaterais: a) Ramos Direitos, que irrigam o Ventrículo Direito; b) Ramos Esquerdos, que irrigam o Ventrículo Esquerdo e c) Ramos Septais (que irrigam o septo interventricular). Artéria Auriculoventricular Esquerda Essa artéria, também denominada Ramo Circunflexo, pois contorna o bordo esquerdo do coração, seguindo o Sulco Coronário, termina na face posterior do Ventrículo esquerdo, a uma distância variável do Sulco Interventricular Posterior, não atingindo, na maior parte dos casos, o referido sulco. Dirige-se horizontalmente até a parte esquerda do Sulco Coronário e atinge a face esquerda do coração. A Artéria Auriculoventricular Esquerda dá: a) Ramos Ascendentes ou Auriculares e b) Ramos Descendentes ou Ventriculares (que irrigam as respectivas regiões do coração esquerdo). Coronária Direita A Artéria Coronária Direita percorre o Sulco Auriculoventricular Direito e o Sulco Interventricular Posterior. Ao longo do seu trajeto tem três segmentos: o 1º estende-se desde a origem até o bordo direito do coração e no órgão in situ tem inicialmente um trajeto oblíquo de trás para frente, tornando-se em seguida descendente; o 2º segmento desde o bordo direito do coração até à parte superior do Sulco Longitudinal Posterior, no ponto denominado Cruz do Coração e por último o 3º segue a parte esquerda do Sulco Interventricular Posterior. Ramos Colaterais Os Ramos Colaterais da Coronária Direita são de 2 tipo: a) Ascendentes ou Auriculares e b) Descendentes ou Ventriculares. 18 AN02FREV001/REV 4.0 21 Ramos Ascendentes ou Auriculares São 3 ou 4 (que são responsáveis majoritariamente pela irrigação da aurícula direita) dos quais 2 são principais: a) a Artéria Auricular Direita Anterior, responsável pela irrigação do nódulo sinusal e b) a Artéria Auricular do Bordo Direito. Ramos Descendentes ou Ventriculares. Existem nos três segmentos da artéria e são responsáveis pela irrigação do ventrículo direito. Ramo Terminal O ramo terminal da Coronária Direita é a Artéria Interventricular Posterior. Há numerosas variações na terminação da Artéria Coronária Direita, podendo dizer- se que está tanto mais desenvolvida quanto menos estiver a terminação da Coronária Esquerda. A Artéria Interventricular Posterior tem Ramos Direitos para a parede posterior do Ventrículo direito, Ramos Esquerdos para a parede posterior do Ventrículo esquerdo e por fim as Artérias Septais Posteriores. As Artérias Septais Posteriores são menos desenvolvidas que as Anteriores e o seu território resume-se ao 1/3 posterior do Septo Interventricular. É de realçar que o grupo inferior das septais posteriores tem frequentemente origem na terminação da Artéria Interventricular Anterior. 1.13 TERRITÓRIOS VASCULARES DAS CORONÁRIAS Em geral podemos considerar que: 19 AN02FREV001/REV 4.0 22 A Coronária Esquerda distribui-se pelo coração esquerdo e 2/3 Anteriores do Septo; A Coronária Direita distribui-se pelo coração direito e 1/3 Posterior do Septo; Cada uma das duas Coronárias contribui para a irrigação da outra metade do coração. FIGURA 11 1.14 CÉLULAS MUSCULARES CARDÍACAS 99% são células musculares contráteis 1% são células cardíacas especializadas do sistema de condução, não contráteis, com despolarização espontânea. - O Miocárdio é composto por fibras musculares cardíacas em espiral; - Células ramificadas e uninucleadas; - Células adjacentes unidas por discos intercalares. 20 AN02FREV001/REV 4.0 23 Discos intercalares contêm desmossomas e junções de hiato. - Desmossomas: conferem resistência mecânica. - Junções de hiato: permitem a propagação de potenciais de ação entre as células adjacentes. Tecido fibroso não condutor separa células musculares dos átrios das células musculares dos ventrículos. 1.15 SISTEMA DE CONDUÇÃO ELÉTRICA O estímulo elétrico para a contração do miocárdio se origina em um pequeno agrupamento de células especiais, localizado na junção da veia cava superior com o átrio direito, na região chamada seio venoso. Esse conjunto de células é o NÓDULO SINUSAL. As células do nódulo sinusal por meio das reações químicas no seu interior geram o impulso elétrico que se propaga pelos átrios e produz a contração do miocárdio atrial. O estímulo elétrico se propaga pelos átrios, em ondas e através de vias preferenciais chamadas vias internodais. O estímulo das vias internodais é captado em outro nódulo, localizado junto ao anel da válvula tricúspide, próximo ao orifício do seio coronário, chamado NÓDULO ATRIOVENTRICULAR, ou simplesmente nódulo A-V. Deste nódulo A-V parte um curto feixe das células especiais, o feixe atrioventricular ou FEIXE DE HISS, que atravessa o esqueleto fibroso e se divide em dois ramos, direito e esquerdo. O ramo esquerdo, por sua vez se subdivide em outros dois feixes, um anterior e um posterior. Os feixes principais, direito e esquerdo, vão se ramificando, como uma árvore, no interior da massa miocárdica, constituindo um emaranhado de células condutoras, chamado REDE DE PURKINJE. As células do nódulo sinusal, por mecanismos químicos, geram o próprio impulso elétrico, a intervalos regulares, o que garante a automaticidade e a ritmicidade da estimulação cardíaca. O estímulo gerado no nódulo sinusal se 21 AN02FREV001/REV 4.0 24 propaga pelos átrios e alcança o nódulo A-V e o feixe de Hiss, onde sofre um pequeno retardo. Do feixe de Hiss, o estímulo rapidamente alcança os feixes direito e esquerdo e as fibras terminais de Purkinje, que por sua vez estimulam o miocárdio ventricular. No adulto, o nódulo sinusal produz aproximadamente 80 impulsos elétricos por minuto, constituindo-se no marca-passo do próprio coração. O nódulo sinusal,e poderá obstruir uma artéria de menor calibre e pode provocar um acidente vascular cerebral ou outra lesão. A insuficiência grave reduz o fluxo sanguíneo anterógrado o suficiente para provocar uma insuficiência cardíaca, a qual pode produzir tosse, dificuldade respiratória durante o exercício ou esforço e edema nos membros inferiores. Diagnóstico Em geral pode-se diagnosticar uma insuficiência mitral através do sopro característico – um som auscultado por um estetoscópio quando o ventrículo esquerdo se contrai. O eletrocardiograma (ECG) e radiografias torácicas revelam se o ventrículo esquerdo encontra-se aumentado. O exame que fornece mais informações é a ecocardiografia, uma técnica de diagnóstico por imagem que utiliza ondas ultrassônicas. Esse exame pode gerar uma imagem de uma válvula defeituosa, indicando a gravidade do problema. Tratamento Se a insuficiência for grave, a válvula deverá ser reparada ou substituída antes que a anormalidade do ventrículo esquerdo torne-se muito importante e não possa ser corrigida. A cirurgia pode ter como objetivo a reparação da válvula 146 AN02FREV001/REV 4.0 153 (valvuloplastia) ou a sua substituição por uma válvula mecânica ou por uma válvula feita parcialmente com uma válvula de porco. A reparação valvular elimina ou diminui a insuficiência o suficiente para que os sintomas se tornem toleráveis e não ocorra lesão cardíaca. Cada tipo de válvula substituta apresenta vantagens e desvantagens. Apesar de normalmente serem eficazes, as válvulas mecânicas aumentam o risco de formação de coágulos sanguíneos, obrigando o paciente a tomar anticoagulantes por um período indeterminado para que haja menor risco. As válvulas de porco funcionam bem e não acarretam o risco de formação de coágulos, mas a sua duração é menor do que a das válvulas mecânicas. Se uma válvula substituta apresentar defeito, ela deve ser imediatamente substituída. A fibrilação atrial também pode exigir tratamento medicamentoso. Drogas como os betabloqueadores, a digoxina e o verapamil podem reduzir a frequência cardíaca e ajudar no controle da fibrilação. As superfícies das válvulas cardíacas lesadas podem ser locais de graves infecções (endocardite infecciosa). Qualquer pessoa que apresente uma lesão valvular ou uma válvula artificial deve tomar antibióticos antes de ser submetida a tratamento odontológico ou procedimento cirúrgico, para evitar a ocorrência de processos infecciosos. 4.3.2 Prolapso da Válvula Mitral No prolapso da válvula mitral ocorre uma protrusão dos folhetos da válvula para o interior do átrio esquerdo durante a contração ventricular, a qual, algumas vezes, permite o fluxo retrógrado de pequenas quantidades de sangue para o átrio. Cerca de 2 a 5% da população apresentam prolapso da válvula mitral. Raramente, essa anomalia produz problemas cardíacos graves. 147 AN02FREV001/REV 4.0 154 FIGURA 30 Sintomas e Diagnóstico A maioria dos indivíduos com prolapso da válvula mitral não apresenta sintomas. No entanto, alguns deles apresentam sintomas que são difíceis de serem explicados baseando-se apenas no problema mecânico. Esses sintomas incluem a dor torácica, palpitações, enxaqueca, fadiga e tontura. Em alguns indivíduos, a pressão arterial cai abaixo do normal quando eles assumem a posição ortostática e, em outros, batimentos cardíacos discretamente irregulares produzem palpitações (percepção dos batimentos cardíacos). Diagnostica-se o distúrbio através da ausculta de um som característico (“clique”) por meio do estetoscópio. A insuficiência é diagnosticada através da ausculta de um sopro durante a contração ventricular. A ecocardiografia, uma técnica de diagnóstico por imagens que utiliza ultrassom, permite a visualização do prolapso e a determinação da gravidade de qualquer insuficiência. 148 AN02FREV001/REV 4.0 155 Tratamento A maioria dos indivíduos que apresenta prolapso da válvula mitral não necessita de tratamento. Se o coração bater em uma frequência excessivamente rápida, o paciente pode utilizar um betabloqueador para diminuir a frequência cardíaca, as palpitações e outros sintomas. Caso o indivíduo apresente insuficiência, ele deve tomar antibióticos antes de procedimentos cirúrgicos ou odontológicos devido ao pequeno risco de infecção valvular decorrente das bactérias liberadas durante os mesmos. 4.3.3. Estenose Mitral A estenose mitral é o estreitamento da abertura dessa válvula que aumenta a resistência ao fluxo sanguíneo do átrio esquerdo para o ventrículo esquerdo. Quase sempre a estenose mitral é resultante da moléstia reumática, afecção que atualmente é rara na América do Norte e na Europa Ocidental. Por essa razão, nessas partes do mundo a estenose mitral ocorre principalmente em pessoas idosas que apresentaram moléstia reumática durante a infância. No resto do mundo a moléstia reumática é comum, levando à estenose mitral em adultos, adolescentes e mesmo em crianças. Em geral, quando a moléstia reumática é a causa da estenose, os folhetos da válvula mitral tornam-se parcialmente fundidos. A estenose mitral também pode ser congênita. Lactentes que nascem com esse distúrbio raramente sobrevivem além dos dois anos de idade, exceto quando submetidos a uma cirurgia. Um mixoma (tumor não maligno localizado no átrio esquerdo) ou um coágulo sanguíneo podem obstruir o fluxo sanguíneo através da válvula mitral, produzindo o mesmo efeito que a estenose. 149 AN02FREV001/REV 4.0 156 Sintomas e Diagnóstico Se a estenose for grave, a pressão arterial aumenta no átrio esquerdo e nas veias pulmonares, acarretando insuficiência cardíaca com acúmulo de líquido nos pulmões (edema pulmonar). Se uma mulher com estenose mitral grave engravidar pode ocorrer uma instalação rápida da insuficiência cardíaca. O indivíduo com insuficiência cardíaca apresenta cansaço fácil e dificuldade respiratória. Inicialmente ele pode mostrar dificuldade respiratória somente durante a atividade física. Posteriormente, os sintomas podem ocorrer mesmo durante o repouso. Alguns indivíduos respiram confortavelmente somente se ficarem recostados sobre travesseiros ou sentados eretos. Um rubor cor de ameixa nas regiões das bochechas é sugestivo de estenose mitral. A pressão elevada das veias pulmonares pode acarretar a ruptura venosa ou capilar, acarretando sangramento (discreto ou abundante) no interior dos pulmões. O aumento do átrio esquerdo pode levar à fibrilação atrial, um batimento cardíaco irregular e rápido. Por meio de um estetoscópio, o médico ausculta um sopro cardíaco característico quando o sangue proveniente do átrio esquerdo passa através da válvula estenosada. Ao contrário de uma válvula normal, cuja abertura é silenciosa, a válvula estenosada frequentemente produz um estalido ao se abrir para permitir a entrada do sangue para o interior do ventrículo esquerdo. Geralmente o diagnóstico é confirmado pelo eletrocardiograma, de uma radiografia torácica que revela a dilatação atrial ou de um ecocardiograma (técnica de diagnóstico por imagens que utiliza ondas ultrassônicas). Algumas vezes a realização de um cateterismo cardíaco é necessária para se determinar a extensão e as características da obstrução. Prevenção e Tratamento A estenose mitral pode ser evitada com a prevenção da moléstia reumática, uma doença infantil que, algumas vezes, ocorre após uma infecção estreptocóccica 150 AN02FREV001/REV 4.0 157 da garganta. Drogas, como os betabloqueadores, a digoxina e o verapamil podem reduzir a frequência cardíaca e ajudar no controle da fibrilação atrial. No caso de insuficiência cardíaca, a digoxina também fortalece os batimentos cardíacos. Os diuréticos, através da redução do volume sanguíneo circulante, podem diminuira pressão arterial nos pulmões. Se o tratamento medicamentoso não produzir redução dos sintomas de maneira satisfatória pode ser necessária a reparação ou a substituição da válvula. A abertura da válvula pode simplesmente ser aumentada através de um procedimento denominado valvuloplastia com cateter com balão. Nesse procedimento, um cateter que possui um balão na sua extremidade é introduzido através de uma veia e é dirigido ao coração. Quando o cateter estiver localizado na válvula, o balão é insuflado, afastando os folhetos valvulares nos locais de fusão. Opcionalmente o paciente é submetido a uma cirurgia de separação dos folhetos fundidos. Se a válvula apresentar uma lesão importante, ela poderá ser substituída cirurgicamente por uma válvula mecânica ou por uma válvula parcialmente produzida a partir de uma válvula de porco. Os indivíduos com estenose mitral são tratados com antibióticos antes de qualquer procedimento cirúrgico ou odontológico para reduzir o risco de infecção da válvula cardíaca. 4.3.4 Insuficiência Aórtica A insuficiência aórtica (incompetência ou regurgitação aórtica) é o refluxo de sangue através da válvula aórtica toda vez que o ventrículo esquerdo relaxa. Na América do Norte e na Europa Ocidental as causas mais comuns costumavam ser a moléstia reumática e a sífilis. Atualmente ambas são raras, graças ao uso disseminado de antibióticos. Em outras regiões, a lesão valvular causada pela moléstia reumática ainda é comum. Além dessas infecções, a causa mais comum de insuficiência aórtica é o enfraquecimento do material valvular, normalmente fibroso e resistente, devido a uma degeneração mixomatosa, a um defeito congênito ou a fatores desconhecidos. A degeneração mixomatosa é um distúrbio hereditário do tecido conjuntivo que 151 AN02FREV001/REV 4.0 158 enfraquece o tecido valvular cardíaco, o que permite sua distensão anormal e, raramente, o seu rompimento. Outras causas são as infecções bacterianas ou uma lesão. Cerca de 2% dos meninos e 1% das meninas nasce com uma válvula aórtica contendo dois folhetos em vez dos três habituais, o que pode causar insuficiência leve. Sintomas e Diagnóstico Uma insuficiência aórtica leve não produz sintomas além de um sopro cardíaco característico, o qual pode ser auscultado por meio de um estetoscópio em cada relaxamento do ventrículo esquerdo. No caso de uma insuficiência grave, o ventrículo esquerdo recebe uma quantidade de sangue cada vez maior, o que acarreta a dilatação do ventrículo e, finalmente, a insuficiência cardíaca. A insuficiência cardíaca produz dificuldade respiratória ao esforço ou em decúbito dorsal, especialmente à noite. A posição sentada permite a drenagem do líquido da parte superior dos pulmões e restauração da respiração normal. O indivíduo também pode apresentar palpitações (percepção dos batimentos cardíacos vigorosos), as quais são causadas por contrações fortes do ventrículo aumentado. Podem ocorrer dores torácicas, especialmente durante a noite. Geralmente o diagnóstico é estabelecido após auscultar o sopro característico, além dos outros sinais de insuficiência aórtica observados durante o exame físico (como certas anormalidades do pulso) e da presença de dilatação cardíaca nas radiografias. Um eletrocardiograma (ECG) pode revelar alterações do ritmo cardíaco e sinais de dilatação do ventrículo esquerdo. A ecocardiografia pode gerar uma imagem da válvula defeituosa, indicando a gravidade do problema. Tratamento Antibióticos são administrados antes de procedimentos odontológicos ou cirúrgicos para impedir infecção da válvula cardíaca lesada. Essa precaução é tomada mesmo nos casos de insuficiência aórtica leve. O indivíduo que apresenta sintomas de insuficiência cardíaca deve ser submetido à cirurgia antes que ocorra uma lesão irreversível do ventrículo esquerdo. 152 AN02FREV001/REV 4.0 159 Nas semanas que antecedem a cirurgia a insuficiência cardíaca é tratada com digoxina e inibidores da enzima conversora da angiotensina ou com outras drogas que produzem dilatação dos vasos sanguíneos e redução do trabalho cardíaco. Em geral a válvula é substituída por uma válvula mecânica ou por uma válvula parcialmente produzida a partir de uma válvula de porco. 4.3.5 Estenose Aórtica A estenose aórtica é o estreitamento da abertura dessa válvula que aumenta a resistência ao fluxo sanguíneo do ventrículo esquerdo para a aorta. Na América do Norte e na Europa Ocidental a estenose aórtica é uma doença típica de pessoas idosas – resultante da cicatrização e do acúmulo de cálcio nos folhetos da válvula. Por essa razão, a estenose aórtica inicia-se após os 60 anos de idade. No entanto, ela comumente não produz sintomas até os 70 ou 80 anos. A estenose aórtica também pode ser decorrente da moléstia reumática contraída na infância. Quando essa é a causa, a estenose aórtica geralmente é acompanhada por um distúrbio da válvula mitral, produzindo estenose, insuficiência ou ambas. FIGURA 31 153 AN02FREV001/REV 4.0 160 Em indivíduos jovens, a causa mais comum é um defeito congênito. A válvula aórtica estenosada pode não ser um problema durante a infância, tornando- se, no entanto, problemática na idade adulta. A válvula permanece do mesmo tamanho à medida que o coração aumenta e tenta bombear volumes maiores de sangue através da válvula pequena. A válvula pode apresentar apenas dois folhetos, em vez dos três habituais, ou uma forma anormal, em funil. Com o passar dos anos a abertura dessa válvula frequentemente torna-se rígida e estreitada devido ao acúmulo de depósitos de cálcio. Sintomas e Diagnóstico A parede do ventrículo esquerdo espessa à medida que o ventrículo tenta bombear um volume sanguíneo suficiente através da válvula aórtica estenosada e o miocárdio aumentado exige um maior suprimento sanguíneo das artérias coronárias. Finalmente, o suprimento sanguíneo torna-se insuficiente, produzindo dor torácica (angina) ao esforço. Essa irrigação insuficiente pode lesar o miocárdio e, consequentemente, o volume sanguíneo originário do coração torna-se inadequado para as necessidades do organismo. A insuficiência cardíaca resultante acarreta fadiga e dificuldade respiratória ao esforço. O indivíduo com estenose aórtica grave pode desmaiar durante o esforço, pois a válvula estenosada impede que o ventrículo bombeie sangue suficiente para as artérias dos músculos, os quais dilataram para receber mais sangue rico em oxigênio. Geralmente o médico baseia o diagnóstico em um sopro cardíaco característico (auscultado por um estetoscópio), em anormalidades do pulso, em anormalidades reveladas no eletrocardiograma (ECG) e no espessamento da parede cardíaca, desvendado por meio da radiografia torácica. Para a identificação da causa e a de terminação da gravidade da estenose em indivíduos que apresentam angina, dificuldade respiratória ou desmaios, a ecocardiografia (técnica de diagnóstico por imagem utilizando ondas ultrassônicas) e, possivelmente, o cateterismo cardíaco podem ser utilizados. 154 AN02FREV001/REV 4.0 161 Tratamento Em qualquer adulto que apresente desmaios, angina e dificuldade respiratória ao esforço provocado por uma estenose aórtica é realizada a substituição cirúrgica da mesma, de preferência antes que ocorra uma lesão irreparável do ventrículo esquerdo. A válvula substituta pode ser uma válvula mecânica ou uma válvula parcialmente produzida a partir de uma válvula de porco. Qualquer indivíduo com implante valvular deve tomar antibióticos antes de ser submetido a procedimentos odontológicos ou cirúrgicos para evitar uma infecção da válvula cardíaca. Em crianças, caso a estenose seja grave, a cirurgia pode ser realizada mesmo antes que haja manifestação dos sintomas. O tratamento precoce é importanteporque a morte súbita pode ocorrer antes do surgimento dos sintomas. Para crianças, as alterações efetivas e seguras à cirurgia de substituição da válvula são a reparação cirúrgica da válvula e a valvuloplastia com cateter com balão, na qual um cateter é inserido na válvula e o balão localizado em sua extremidade é insuflado para expandir a abertura valvular. A valvuloplastia é também utilizada em pacientes idosos e frágeis, os quais não suportariam uma cirurgia, embora exista a tendência de reincidência da estenose. No entanto, geralmente a substituição da válvula lesada é o melhor tratamento para adultos de todas as idades e seu prognóstico é excelente. 4.3.6 Insuficiência Tricúspide A insuficiência tricúspide (incompetência ou regurgitação da válvula tricúspide) consiste no refluxo sanguíneo através da válvula tricúspide em cada contração do ventrículo direito. No caso da insuficiência tricúspide, o ventrículo direito ao contrair não apenas bombeia o sangue para os pulmões, mas também envia certa quantidade de sangue de volta ao átrio direito. A insuficiência valvular 155 AN02FREV001/REV 4.0 162 aumenta a pressão no átrio direito, fazendo com que ele dilate. Essa pressão elevada é transmitida para as veias que desembocam no átrio, produzindo uma resistência ao fluxo sanguíneo proveniente do corpo em direção ao coração. A causa mais usual da insuficiência tricúspide é a resistência ao efluxo do sangue proveniente do ventrículo direito, a qual é produzida por uma doença pulmonar grave ou por um estreitamento da válvula pulmonar (estenose pulmonar). Como mecanismo de compensação, o ventrículo direito aumenta para bombear com mais força e ocorre uma dilatação da abertura valvular. Sintomas e Diagnóstico Além dos sintomas vagos, como a fraqueza e a fadiga decorrentes de um baixo débito sanguíneo do coração, os únicos sintomas geralmente são um desconforto na região superior direita do abdômen, em virtude do aumento do fígado, e pulsações na região do pescoço. Esses sintomas são decorrentes do fluxo retrógrado do sangue para as veias. A dilatação do átrio direito pode acarretar fibrilação atrial – batimentos cardíacos rápidos e irregulares. Finalmente ocorre a insuficiência cardíaca e a retenção líquida, principalmente nos membros inferiores. O diagnóstico é baseado no histórico clínico do indivíduo e no exame físico, no eletrocardiograma (ECG) e na radiografia torácica. A insuficiência valvular produz um sopro que pode ser auscultado pelo médico por meio de um estetoscópio. A ecocardiografia pode gerar uma imagem do refluxo, indicando sua gravidade. Tratamento Geralmente a insuficiência tricúspide em si requer pouco ou nenhum tratamento. No entanto, a doença pulmonar ou a valvulopatia pulmonar subjacente pode exigir tratamento. Problemas como as arritmias cardíacas e a insuficiência cardíaca comumente são tratadas sem que haja necessidade de cirurgia da válvula tricúspide. 156 AN02FREV001/REV 4.0 163 4.3.7 Estenose Tricúspide A estenose tricúspide é um estreitamento da abertura dessa válvula, o qual aumenta a resistência ao fluxo sanguíneo proveniente do átrio direito em direção ao ventrículo direito. No decorrer do tempo a estenose tricúspide produz dilatação do átrio direito e diminuição do ventrículo direito. O volume de sangue que retorna ao coração diminui e a pressão sobre as veias que conduzem o sangue de volta ao coração aumenta. Praticamente todos os casos são causados pela moléstia reumática, a qual se tornou rara na América do Norte e na Europa Ocidental. Raramente, a causa é um tumor no átrio direito, uma doença do tecido conjuntivo ou, ainda mais raramente, um defeito congênito. Sintomas, Diagnóstico e Tratamento Geralmente os sintomas são leves. O indivíduo pode apresentar palpitações (percepção dos batimentos cardíacos), uma tremulação desconfortável no pescoço e apresentar fadiga. Ele pode apresentar um desconforto abdominal se o aumento da pressão venosa acarretar aumento do fígado. Com o auxílio de um estetoscópio pode-se auscultar o sopro da estenose tricúspide. A radiografia torácica pode revelar dilatação do átrio direito e o ecocardiograma revela uma imagem da estenose, indicando sua gravidade. Eletrocardiograma (ECG) mostra alterações sugestivas de sobrecarga do átrio direito. Raramente a estenose tricúspide é suficientemente grave a ponto de exigir uma reparação cirúrgica. 4.3.8 Estenose Pulmonar A estenose pulmonar é o estreitamento da abertura dessa válvula, o qual aumenta a resistência ao fluxo sanguíneo proveniente do ventrículo direito para as 157 AN02FREV001/REV 4.0 164 artérias pulmonares. A estenose pulmonar, a qual é rara em adultos, geralmente é um defeito congênito. 4.4 FEBRE REUMÁTICA Doença inflamatória que ocorre após um episódio de amigdalite bacteriana tratada inadequadamente – pode atingir as articulações, o coração e o cérebro, deixando sequelas cardíacas graves, com consequências por toda a vida e podendo levar à morte. A doença ocorre em surtos, se não for prevenida, e a cada surto aumenta a chance de ocorrerem lesões cardíacas graves. Continua sendo a principal causa de doença cardíaca adquirida em crianças e adultos jovens em todo o mundo, mas é também a cardiopatia de mais fácil prevenção. É uma doença que acomete principalmente crianças de 5 a 15 anos, de baixo nível socioeconômico, que vivem em aglomerações urbanas. Embora seja uma doença de ocorrência universal, a distribuição da febre reumática no mundo reflete o padrão da desigualdade social, com manutenção de índices elevados em países em desenvolvimento, chegando a atingir 1% das crianças em idade escolar, e redução progressiva em países desenvolvidos, onde a incidência é mínima, ocorrendo por vezes em surtos isolados. Principais Sintomas da Infecção na Garganta (Amigdalite) Bacteriana Não é toda Infecção na garganta que pode causar a febre reumática, somente aquelas causadas por uma bactéria chamada Streptococcus Beta hemolítico do grupo A (ou Streptococcus pyogenes). Os sintomas desse tipo de amigdalite são os seguintes: Febre alta; Dor de garganta muito forte; Placas de pus nas amígdalas; Caroço inchado e dolorido no pescoço (Gânglio). 158 AN02FREV001/REV 4.0 165 Tratamento da Amigdalite Bacteriana O tratamento mais indicado é o uso da penicilina benzatina injetável em dose única ou antibiótico oral, por 10 dias, de acordo com o critério do médico. Se a amigdalite bacteriana for bem tratada, a criança não terá febre reumática. Principais sintomas da Febre Reumática - Os primeiros sintomas em geral são febre, edema e dores nas articulações (principalmente joelhos, cotovelos e tornozelos) cerca de duas semanas após uma infecção de garganta mal curada; - Muitas vezes a criança não consegue andar por causa da dor; - Quando atinge o coração, o paciente, em geral, sente cansaço constante, falta de ar e a sensação de coração disparado. Tratamento da Febre Reumática A partir do diagnóstico da doença é necessário usar anti-inflamatórios e tomar uma injeção intramuscular de penicilina benzatina em intervalos de até 21 dias, de acordo com o critério do seu médico para evitar novos episódios de amidalite bacteriana. A duração da profilaxia (tratamento com a penicilina) depende da gravidade da lesão cardíaca, e deve ser realizada no mínimo até os 25 anos. Interrompê-lo poderá ocasionar danos irreversíveis ao coração. 4.5 PERICARDITES O pericárdio é composto de duas camadas de um tecido fibroso pouco distensível. Dessas camadas, a interna, denominada de visceral está aderida e praticamente fazendo parte do coração. A outra, a externa, denominada parietal, está em volta dessa primeira. Elas estão separadas por um espaço virtual quecontém uma pequena quantidade de líquido. Essa segunda camada mantém o 159 AN02FREV001/REV 4.0 166 coração fixado no seu lugar dentro do tórax e evita o contato direto do coração com as estruturas vizinhas. Quando o pericárdio está inflamado ou infectado dizemos haver uma pericardite que pode ser um dos tipos de pericardite abaixo descritos. FIGURA 32 4.5.1 Pericardite Aguda A pericardite aguda é uma inflamação do pericárdio que apresenta um início súbito e que é frequentemente dolorosa. A inflamação faz com que o líquido (plasma) e os produtos do sangue (como fibrina, eritrócitos e leucócitos) depositem- se no espaço pericárdico. A pericardite aguda possui muitas causas, desde infecções virais (as quais podem ser dolorosas, mas de breve duração e, em geral, não produzem efeitos duradouros) até o câncer, o qual é potencialmente letal. Outras causas incluem a AIDS, infarto do miocárdio, cirurgia cardíaca, lúpus eritematoso sistêmico, doença reumatoide, insuficiência renal, lesões, radioterapia e escape de sangue de um aneurisma da aorta (dilatação da aorta com enfraquecimento de sua parede). A pericardite aguda também pode ser um efeito colateral de certas drogas, como anticoagulantes, penicilina, procainamida, fenitoína e fenilbutazona. 160 AN02FREV001/REV 4.0 167 4.5.2 Pericardite Viral Pode ser causada por diversos vírus, as coxsaquieviroses, os ecovírus e os vírus da gripe, da varicela, hepatite, caxumba e HIV, são os mais frequentes. A doença atinge mais a homens com menos de 50 anos, principalmente depois de doenças infecciosas das vias aéreas superiores. O diagnóstico geralmente é feito em bases clínicas. Em alguns casos o derrame entre as duas camadas do pericárdio pode ser de proporções maiores, provocando o tamponamento cardíaco. Em raros casos a doença torna-se crônica, podendo resultar em pericardite constritiva, que pela retração cicatricial do pericárdio provoca o encarceramento do coração. Nessa situação há necessidade de operar, retirando-se o pericárdio em torno do coração. Os casos mais benignos são tratados com aspirina ou outro anti-inflamatório. Em raros pacientes, que não respondem ao tratamento, os corticosteroides podem ser usados. 4.5.3 Pericardite Tuberculosa É rara nos países desenvolvidos e comum em outras áreas. Atinge o pericárdio diretamente via linfática ou por disseminação hematógena. Pode haver comprometimento ou não do pulmão, contudo o derrame pleural frequentemente acompanha a pericardite. O desenvolvimento da doença costuma ser subagudo, com o paciente apresentando cansaço, febre e suores noturnos. O diagnóstico não é fácil, havendo suspeita de evidência do bacilo álcool- ácido resistente (BAAR) em outras partes do doente. A positividade do BAAR no líquido retirado do saco pericárdico é muito baixa, do mesmo modo que o é no tecido biopsiado. Alguns pacientes que não respondem bem ao tratamento conservador antituberculose necessitam ser operados para retirarem o pericárdio. 161 AN02FREV001/REV 4.0 168 4.5.4 Pericardite Urêmica Pacientes com insuficiência renal podem apresentar pericardite. Os sintomas são semelhantes às outras pericardites, mas geralmente se acompanham das manifestações metabólicas decorrentes da uremia. Muitas vezes, a pericardite urêmica é diagnosticada pela dor pré-cordial apresentada pelos pacientes. O tratamento é o da doença básica que levou a pessoa à insuficiência renal ou a terapêutica da remissão isoladamente. 4.5.5 Pericardite Neoplásica A disseminação de um câncer adjacente de pulmão ou de mama, a disseminação de um carcinoma de rim, linfomas que envolvem o pericárdio e outros cânceres podem causar um derrame pericárdico e tamponamento do coração. Em geral não há muitos sintomas e os que existem podem ser atribuídos à doença básica com suas repercussões hemodinâmicas. O diagnóstico pode ser particularmente difícil se o paciente foi submetido a radioterapia em uma área que abrangeu o pericárdio. O prognóstico para pericardite neoplásica é mau, geralmente o paciente morre antes de um ano. Do tratamento cirúrgico faz parte a abertura de uma janela no pericárdio para drenar o líquido ou a pericardiectomia. Também se tenta a instilação de tetraciclina no saco pericárdico, o que em alguns casos evita a recidiva do derrame. 162 AN02FREV001/REV 4.0 169 4.5.6 Pericardite Pós-radiação A irradiação que atinge a área cardíaca pode desencadear uma reação fibrótica que se apresenta com uma pericardite subaguda ou constritiva. Ela pode aparecer dentro de um ano depois da irradiação, mas há casos em que surgiu anos depois. A solução muitas vezes é cirúrgica. 4.5.7 Pericardite Pós-infarto do Miocárdio É uma complicação do infarto agudo do miocárdio que aparece de 3 a 5 dias depois de um infarto transmural. O sintoma é de dor pré-cordial recorrente, geralmente atribuída ao próprio infarto. No eletrocardiograma aparecem mudanças confundíveis com alterações isquêmicas. Grandes derrames são raros. Muitas vezes, pode-se auscultar um atrito pericárdico. A síndrome de Dressler (SD) é uma pericardite que ocorre semanas ou meses depois do infarto ou depois de cirurgias cardíacas. Pode ser recorrente e é provavelmente uma resposta autoimune. Manifesta-se por febre, dor, mal-estar leucocitose e hemossedimentação elevada. O derrame pericárdico pode ser grande na síndrome de Dressler que ocorre depois de infarto e não depois de cirurgias cardíacas. Pode haver resposta terapêutica com o uso de anti-inflamatórios. 4.5.8 Pericardites Mais Raras São as atribuídas ao uso de medicamentos como o minoxidil e a penicilina. Podem ocorrer também nos pacientes com mixedema (Hipotireoidismo), lúpus eritematoso e artrite reumatoide. 163 AN02FREV001/REV 4.0 170 4.5.9 Pericardite Constritiva A inflamação do pericárdio pode levar ao seu espessamento e diminuição da distensibilidade por fibrose e por aderência ao coração, dificultando o enchimento do coração durante a diástole. Isso dificulta o retorno do sangue ao coração. Pode seguir-se a uma pericardite de qualquer etiologia. Atualmente é mais frequente nas pericardites pós-irradiação e depois de cirurgias cardíacas. Os principais sintomas são fadiga progressiva, falta de ar, fraqueza, edema, congestão do fígado e ascite. O que chama mais a atenção nesses pacientes é a distensão persistente das veias do pescoço, mesmo com a pessoa em pé ou inspirando fundo. Para confirmarmos o diagnóstico, o Raio-X geralmente mostra um coração de tamanho normal e só é útil se mostrar calcificações. O ecocardiograma pode indicar o pericárdio espessado e cavidades cardíacas pequenas. A tomografia e a ressonância magnética podem expor melhor as alterações já mostradas no ecocardiograma. O tratamento inclui o uso de diuréticos e a remoção cirúrgica do pericárdio. A mortalidade dessa operação é alta. 4.5.10 Tamponamento Cardíaco: a Complicação Mais Grave da Pericardite Em geral, o tamponamento é decorrente do acúmulo de líquido ou do sangramento no pericárdio, como consequência de um tumor, de uma lesão ou de uma cirurgia. Infecções virais e bacterianas e a insuficiência renal são outras causas comuns. A pressão arterial pode cair bruscamente, atingindo níveis anormalmente baixos durante a inspiração. Para confirmar o diagnóstico, o médico utiliza a ecocardiografia (procedimento que utiliza ondas ultrassônicas para gerar uma imagem do coração). Frequentemente o tamponamento cardíaco representa uma emergência médica. O distúrbio é imediatamente tratado por meio da drenagem 164 AN02FREV001/REV 4.0 171 cirúrgica ou da punção do pericárdio com uma agulha longa para remoção de líquido e redução da pressão.O médico utiliza um anestésico local para impedir que o paciente sinta dor durante a introdução da agulha através da parede torácica. Quando possível, a remoção do líquido é realizada com monitorização ecocardiográfica. No caso de uma pericardite de origem desconhecida pode-se drenar cirurgicamente o pericárdio, coletando uma amostra para auxiliar na determinação do diagnóstico. Depois de a pressão ser aliviada, o paciente comumente é mantido hospitalizado como medida de prevenção da recorrência do tamponamento. 4.6 TUMORES CARDÍACOS É denominado tumor qualquer tipo de crescimento anormal, seja ele canceroso (maligno) ou não canceroso (benigno). Os tumores originários do coração são denominados tumores primários e podem ocorrer em qualquer um de seus tecidos. Eles podem ser cancerosos ou não cancerosos e são raros. Os tumores secundários originam- se em alguma outra parte do corpo – geralmente no pulmão, na mama, no sangue ou na pele – e, em seguida, disseminam-se (produzem metástases) ao coração. Eles sempre são cancerosos. Os tumores secundários são 34 vezes mais comuns que os primários, mas, ainda assim, são considerados incomuns. Os tumores cardíacos podem não provocar sintomas ou podem produzir uma disfunção cardíaca potencialmente letal, simulando outras cardiopatias. Exemplos de tais disfunções incluem a insuficiência cardíaca súbita, o surgimento abrupto de arritmias e uma queda súbita da pressão arterial decorrente do sangramento no pericárdio (a membrana que envolve o coração). Os tumores cardíacos são de difícil diagnóstico, tanto por serem relativamente incomuns, quanto pelo fato de seus sintomas serem semelhantes aos de muitos outros distúrbios. Para chegar ao diagnóstico é necessário que o médico tenha indícios de sua presença. Por exemplo, se um indivíduo apresenta um câncer em qualquer outra região do corpo, mas procura auxílio médico por causa de 165 AN02FREV001/REV 4.0 172 sintomas relacionados à disfunção cardíaca, o profissional pode suspeitar da presença de um tumor cardíaco. 4.6.1 Mixomas O mixoma é um tumor não canceroso e, geralmente, apresenta uma forma irregular e uma consistência gelatinosa. Metade de todos os tumores cardíacos primários são mixomas. Três quartos dos mixomas localizam-se no átrio esquerdo, a câmara do coração que recebe o sangue rico em oxigênio proveniente dos pulmões. Geralmente os mixomas do átrio esquerdo originam-se de um pedículo e podem oscilar livremente com o fluxo sanguíneo, igual a uma bola fixada a um fio. Ao oscilarem, os mixomas podem mover-se para dentro e para fora da válvula mitral próxima – a via entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo. Essa oscilação pode obstruir e desobstruir a válvula continuamente, de modo que o fluxo sanguíneo é interrompido e reiniciado de forma intermitente. Na posição ortostática o indivíduo pode apresentar desmaios ou episódios de congestão pulmonar e de dificuldade respiratória, pois a força da gravidade faz com que o tumor se mova para baixo, até a abertura da válvula. O decúbito diminui os sintomas. O tumor pode lesar a válvula mitral e, consequentemente, ocorre um refluxo de sangue por essa abertura, com a produção de um sopro cardíaco que o médico ausculta com o auxílio de um estetoscópio. Baseando-se nas características do sopro cardíaco, o médico considera se o sopro é resultante de um refluxo causado por uma lesão decorrente do tumor, de uma causa rara ou de uma causa mais comum como, por exemplo, a cardiopatia reumática. Fragmentos de um mixoma ou coágulos sanguíneos que se formam na superfície do mixoma podem soltar-se, circularem até outros órgãos e obstruir os vasos sanguíneos nesses locais. Os sintomas dependem do vaso obstruído: a obstrução de um vaso sanguíneo cerebral pode causar um acidente vascular cerebral; a obstrução de um vaso pulmonar pode acarretar dor e expectoração sanguinolenta. Outros sintomas de mixomas incluem a febre, perda de peso, dedos das mãos e dos pés frios e doloridos ao serem expostos à baixa temperatura 166 AN02FREV001/REV 4.0 173 (fenômeno de Raynaud), anemia, contagem baixa de plaquetas (pois as plaquetas estão envolvidas na coagulação sanguínea) e sintomas sugestivos de infecção grave. Um mixoma no átrio esquerdo pode crescer a partir de um pedículo, oscilando livremente com o fluxo sanguíneo. Ao oscilar, o mixoma pode entrar e sair da válvula mitral próxima – a via de passagem entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo obstruindo o fluxo sanguíneo do coração. 4.6.2 Outros Tumores Primários Os tumores cardíacos não cancerosos menos comuns, como os fibromas e os rabdomiomas, podem crescer diretamente a partir das células do tecido fibroso do coração e das células do miocárdio. Os rabdomiomas, o segundo tipo mais comum de tumor primário, desenvolvem-se na infância ou na pré-adolescência, geralmente associados a uma rara doença infantil denominada esclerose tuberosa. Outros tumores cardíacos primários, como os cancerosos primários, são extremamente raros e, para eles, não existe um tratamento satisfatório. As crianças que apresentam esses tumores apresentam uma expectativa de vida inferior a um ano. Vários exames são utilizados no diagnóstico dos tumores cardíacos. Com frequência, para o delineamento dos tumores usa-se a ecocardiografia (exame que utiliza ondas ultrassônicas para investigar as estruturas internas do coração). As ondas ultrassônicas podem atravessar a parede torácica ou o lado interno do esôfago (procedimento chamado ecocardiografia transesofagiana). Um cateter inserido por uma veia até o coração pode ser utilizado para injetar substâncias que delineiem um tumor cardíaco nas radiografias; mas esse procedimento é menos frequentemente necessário. A tomografia computadorizada (TC) e imagens por ressonância magnética (RM) também são utilizadas. Se for detectado um tumor, uma pequena amostra poderá ser removida por meio de um cateter especial; a amostra será, então, utilizada para identificar o tipo de tumor, o que ajudará na seleção do tratamento adequado. 167 AN02FREV001/REV 4.0 174 Um tumor cardíaco primário não canceroso isolado pode ser removido por cirurgia, o que, em geral, cura o paciente. Os médicos não costumam tratar tumores primários quando existem diversos presentes, nem tratam de tumores que são tão grandes a ponto de impossibilitar a remoção. Tumores cancerosos primários e secundários são incuráveis; apenas seus sintomas podem ser tratados. FIM DO MÓDULO III 168 AN02FREV001/REV 4.0 177 MÓDULO IV 5 CARDIOPATIAS CONGÊNITAS Cardiopatias congênitas são anomalias resultantes de defeitos anatômicos do coração que comprometem a sua função. Representam a categoria mais comum dos defeitos ao nascimento, abrangendo aproximadamente 25% de todas as más- formações congênitas e 50% das causas de óbitos. Ocorrem em aproximadamente 8 a 10 de cada 1.000 recém-nascidos. Essa incidência torna-se muito significativa em números absolutos, pois corresponde, na população brasileira, cerca de 20 a 30 mil crianças por ano. Entretanto, a falta de estudos epidemiológicos nem sempre refletem a mesma realidade, em razão do grande número de partos domiciliares e o sub-registro dos nascidos vivos, principalmente na população de baixa renda. As anomalias cardíacas foram divididas em duas categorias. Atualmente, uma característica física, a cianose, é usada como fator direcional, classificada como cardiopatia cianótica (alto risco) e cardiopatia acianótica (baixo risco). Etiologia e fatores desencadeantes A etiologia da maior parte dos defeitos cardíacos congênitos não é conhecida. Entretanto, vários fatores estão associados com uma incidência maior que o normal. Estão incluídos fatores pré-natais, como: x Hereditariedade multifatorial,que é uma combinação de fatores genéticos, ambientais e intrauterinos, resultando no aumento do risco entre os lactentes com um dos gestores ou um irmão portador de anomalias cardíacas congênitas; x Doenças maternas como rubéola adquirida durante as primeiras oito semanas da gravidez, diabetes mellitus e alcoolismo; x Uso de fármacos como hidantoína, álcool e trimetadiona durante a gravidez. 169 AN02FREV001/REV 4.0 178 5.1 CIRURGIA CARDÍACA INFANTIL Nas últimas décadas houve uma melhora significativa do prognóstico dos pacientes portadores de cardiopatias congênitas, devido aos grandes avanços nos cuidados clínicos e cirúrgicos, pelo aperfeiçoamento e melhor entendimento da fisiopatologia, disponibilidade de drogas inotrópicas e avanços no manejo da ventilação mecânica. Segundo Emmanouulides et al (2000), poucos foram os atributos médicos de impacto tão significativo quanto as cirurgias para correção dos defeitos cardíacos congênitos. Apesar dos sensíveis avanços no seu tratamento nos últimos 50 anos, os defeitos cardíacos representam uma alta proporção da mortalidade infantil. Além disso, muitos sobreviventes às cirurgias cardíacas não estão curados e continuam a apresentar morbidade e mortalidade originárias de seus problemas cardíacos. 5.2 ANOMALIAS CARDÍACAS CIANÓTICAS 5.2.1 Tetralogia de Fallot Descrição: x Essa anomalia é a combinação de quatro anormalidades: do septoventricular, aorta cavalgada, estenose pulmonar e hipertrofia ventricular direita. O coração tem a forma de uma bota; x Sangue desoxigenado é desviado pela anomalia do septoventricular e mistura-se com o sangue oxigenado do ventrículo esquerdo. O resultado disso é cianose. x O fluxo sanguíneo pulmonar é dificultado pela estenose pulmonar, que aumenta a pressão e leva à hipertrofia do ventrículo direito, à medida que tenta fazer o shunt do sangue pela válvula pulmonar estenótica. 170 AN02FREV001/REV 4.0 179 FIGURA 33 Manifestações clínicas Se for grave: x Cianose com crise de hipóxia (aumenta depois do fechamento do PCA); x Sopro associado ao fluxo sanguíneo pela válvula pulmonar; x Estalido de ejeção aórtica com aorta mais larga; x Dispneia ao esforço; x Convulsões. Mais tarde: x Baqueteamento dos dedos e dos artelhos; x Taquipneia; x Fadiga; x Posição de cócoras (para aliviar a angústia respiratória); x Retardo no crescimento; x Sopro sistólico; 171 AN02FREV001/REV 4.0 180 x Segunda bulha cardíaca única à ausculta; x Frêmitos palpáveis na região esquerda da borda esternal. FIGURA 34 Tratamento cirúrgico: Derivação paliativa: O procedimento preferido é a derivação Blalock-Taussig modificada, a qual fornece fluxo sanguíneo para as artérias pulmonares pela artéria subclávia esquerda ou direita. Correção completa: É realizada no primeiro ano de vida. As indicações para a correção incluem cianose crescente e desenvolvimento de crises hipercianóticas. A correção completa envolve o fechamento da anomalia do septoventricular e a ressecção da estenose infundibular, com um retalho de pericárdio para aumentar a via de saída ventricular direita. O procedimento exige esternotomia mediana e uso de circulação extracorpórea. 172 AN02FREV001/REV 4.0 181 Prognóstico: A mortalidade cirúrgica para correção total está abaixo de 5%. 5.2.2 Tronco Arterioso Descrição: x Um único vaso cavalgado sobre os ventrículos (causado pela impossibilidade de haver separação da aorta e da artéria pulmonar) transporta sangue para a circulação pulmonar e sistêmica. Esse vaso pode estar acima ou abaixo do diafragma. Sua posição tem implicações prognósticas; x Os dois ventrículos bombeiam sangue oxigenado e desoxigenado para a mesma artéria, causando cianose; x Pode haver anormalidade do septoventricular. Manifestações clínicas: x Cianose com aspecto acinzentado; x Fadiga; x Dispneia; x Sopro sistólico da borda esternal inferior esquerda; x Segunda bulha cardíaca única; x Taquicardia; x Estertores; x Retardo no crescimento; x Insuficiência cardíaca. Tratamento cirúrgico: Correção precoce nos primeiros poucos meses de vida. A correção cirúrgica envolve o fechamento da anomalia do septoventricular, de modo que o tronco arterioso receba o fluxo de saída do ventrículo esquerdo, retirada das artérias pulmonares da aorta e conexão delas ao ventrículo direito através de um homoenxerto. Atualmente as complicações pós-operatórias incluem insuficiência 173 AN02FREV001/REV 4.0 182 cardíaca persistente, sangramento, hipertensão arterial pulmonar, arritmias e anomalia do septoventricular residual. Prognóstico: A mortalidade está acima de 10% 5.2.3 Atresia Tricúspide Descrição: x A válvula tricúspide está ausente; x O fluxo sanguíneo é desviado do átrio direito para o átrio esquerdo, resultando na mistura dos sangues arterial e venoso no ventrículo esquerdo. A entrada do sangue misturado na circulação causa cianose; x Fluxo sanguíneo pulmonar pelo canal arterial patente, se houver. Manifestações clínicas: x Dispneia; x Crise de anóxia; x Fadiga; x Primeira e segunda bulhas sem dois componentes; x Ausência de sopros; x Insuficiência cardíaca. Tratamento cirúrgico O tratamento paliativo: criação de uma derivação (sistêmica para a artéria pulmonar) para aumentar o fluxo sanguíneo aos pulmões. Se o defeito septoatrial for pequeno, é feita uma septostomia atrial durante o cateterismo cardíaco. Algumas crianças têm fluxo sanguíneo pulmonar aumentado e necessitam de bandeamento da artéria pulmonar para diminuir o volume de sangue nos pulmões. Uma derivação bidirecional de Glenn (anastomose cavopulmonar) pode ser realizada após 6 a 9 meses como um segundo estágio. 174 AN02FREV001/REV 4.0 183 Fontan modificado – o retorno venoso sistêmico é direcionado para os pulmões sem uma bomba ventricular por meio da conexão cirúrgica entre o átrio direito e a artéria pulmonar. O procedimento de Fontan modificado separa o sangue oxigenado do não oxigenado, eliminando o excesso de sobrecarga de volume sobre o ventrículo, mas não restaura a anatomia ou a hemodinâmica ao normal. Prognóstico: A mortalidade cirúrgica é maior do que 10%. As complicações cirúrgicas incluem arritmias, hipertensão venosa sistêmica, derrame pericárdico e pleural, aumento da resistência vascular pulmonar e disfunção ventricular. 5.2.4 Transposição das Grandes Artérias Descrição: x A aorta sai do ventrículo direito e a artéria pulmonar emerge do ventrículo esquerdo; x A circulação sistêmica não passa pelos pulmões para ser oxigenada; o fluxo sanguíneo pulmonar passa pelo coração e volta aos pulmões sem entrar na circulação sistêmica; x Antigamente essa anomalia era conhecida como transposição dos grandes vasos. Manifestações clínicas: x Cianose, principalmente durante ou depois da amamentação ou choro; x Taquipneia; x Sopro sistólico ou insuficiência cardíaca com anomalia do septoventricular; x Acidose metabólica devido à hipóxia; x Bulhas cardíacas anormais, dependendo do tipo de anomalia. 175 AN02FREV001/REV 4.0 184 Tratamento cirúrgico A correção cirúrgica é realizada por esternotomia mediana, com emprego de circulação extracorpórea. Existem duas técnicas distintas: - Cirurgia de Mustard: nesta técnica é utilizado um enxerto para a reconstrução das câmaras atriais, de modo que o fluxo venoso pulmonar retorne ao átrio direito e o sangue venoso sistêmico retorne ao átrio esquerdo. - Cirurgia de Jatene: esta técnica consiste ao nível arterial, transpondo-se os grandes vasos e reimplantando-se às artérias coronárias, sendo dita correção anatômica. Prognóstico: Amortalidade cirúrgica é de cerca de 5 a 10%. Com correções ao nível arterial existe um risco posterior de arritmias e disfunção ventricular. 176 AN02FREV001/REV 4.0 185 5.2.5 Síndrome da hipoplasia do coração esquerdo Descrição: x O ventrículo esquerdo não funciona normalmente; x O sangue pulmonar volta ao átrio esquerdo e, por uma anomalia do septoatrial, chega ao átrio direito. O débito cardíaco, levado da direita para a esquerda pelo canal arterial patente, é restringido pelo fechamento normal do canal arterial patente depois do nascimento. Manifestações clínicas: x Cianose grave; x Angústia respiratória; x Agravamento dos sintomas à medida que o canal arterial pertinente fecha; x Insuficiência cardíaca; x Morte dentro de uma semana, a menos que haja canal arterial patente e uma anomalia do septoatrial larga. Tratamento cirúrgico O primeiro estágio é o procedimento de Norwood: anastamose da artéria pulmonar principal à aorta para criar uma nova, derivação para ter fluxo sanguíneo pulmonar e criação de um grande defeito septoatrial. O segundo estágio muitas vezes é uma derivação bidirecional de Glenn, feita entre seis e nove meses de vida para aliviar a cianose e reduzir o volume de sobrecarga de volume sobre o ventrículo direito. A correção final é o procedimento de Fontan modificado. Alguns programas 177 AN02FREV001/REV 4.0 186 acreditam que o transplante cardíaco no período neonatal seja a melhor opção para esses recém-nascidos. Prognóstico: O risco de mortalidade de mais de 25% tanto com a cirurgia como o transplante. 5.2.6 Anomalia do Septoventricular (Comunicação Interventricular – CIV) Descrição: x O septoventricular tem uma comunicação anormal; x O sangue oxigenado proveniente do ventrículo esquerdo é desviado pela comunicação anormal e, em seguida, mistura-se com o sangue desoxigenado no átrio direito. FIGURA 35 Manifestações clínicas: x Sopro; 178 AN02FREV001/REV 4.0 187 x Taquicardia; x Irritabilidade; x Taquicardia; x Dificuldade alimentar; x Cianose branda causada por insuficiência cardíaca; x Dispneia durante a amamentação; x Retardo do crescimento. Tratamento cirúrgico: É realizada utilizando circulação extracorpórea e a abordagem cirúrgica é a esternotomia mediana. Os defeitos são suturados usando-se enxertos biológicos ou sintéticos. Prognóstico: Os riscos dependem da localização do defeito, do número de defeitos e de outros defeitos cardíacos associados. Defeitos membranosos isolados têm uma baixa mortalidade – menos de 5%. 5.2.7 Anomalia do Septoatrial (Comunicação Interatrial – CIA) Descrição: x O septoatrial tem uma comunicação anormal (causada pelo fechamento parcial do forame oval ou da parede do septoatrial); x O sangue passa do átrio esquerdo para o átrio direito pela comunicação anormal. Manifestações clínicas: x Pode ser assintomática; x Dispneia ao esforço; x Fadiga; 179 AN02FREV001/REV 4.0 188 x Ortopneia; x Cianose transitória; x Sopro mesossistólico pulmonar suave; x Retardo do crescimento. Tratamento cirúrgico: A idade ideal para a cirurgia eletiva é a pré-escolar. Para correção cirúrgica é necessário o emprego da circulação extracorpórea e a abordagem cirúrgica mais empregada é a esternotomia mediana. O defeito pode ser fechado com sutura contínua quando for pequeno e a aproximação das bordas for possível, ou então pode ser usado um enxerto biológico ou sintético, quando o defeito for maior. Prognóstico: Mortalidade cirúrgica muito baixa, menor do que 1%. 5.2.8 Persistência do canal arterial (PCA) Descrição: x Essa anomalia se deve à falta de fechamento do conduto vascular entre a aorta descendente e a artéria pulmonar depois do nascimento; x O sangue é desviado da aorta para a artéria pulmonar. Manifestações clínicas: x Sopro contínuo no segundo e terceiro espaços intercostais esquerdos; x Ampliação da pressão arterial e pulso; x Taquicardia; x Dificuldade alimentar; x Fadiga; x Choro débil; x Dispneia. 180 AN02FREV001/REV 4.0 189 Tratamento cirúrgico: A idade ideal para o fechamento cirúrgico do canal está entre os 12 e os 36 meses, sendo que abaixo dessa idade a cirurgia é indicada nos casos de insuficiência cardíaca com controle clínico difícil. A correção cirúrgica convencional é a realização de toracotomia posterolateral no quarto espaço intercostal esquerdo. É realizada a secção do canal, sendo suturadas as extremidades aórtica e pulmonar com fio adequado. Pode-se ainda proceder à ligadura dupla do canal ou à utilização de clipes metálicos, não sendo feita assim a secção do canal. Prognóstico: Mortalidade cirúrgica é abaixo de 1%. 5.2.9 Coarctação da aorta (CoAo) Descrição: x A aorta mostra-se estreitada; x Essa anomalia pode ser pré-ductal (antes da região do canal arterial) ou pós- ductal (depois da região do canal arterial). FIGURA 36 181 AN02FREV001/REV 4.0 190 Manifestações clínicas: x Aumento da pressão arterial e pulso forte na circulação proximal à anomalia; x Redução da pressão arterial e pulso débil na circulação distal à anomalia; x Vertigem; x Cefaleia; x Desmaio; x Epistaxe; x Escurecimento das pernas; x Pés frios; x Ganho ponderal reduzido; x Dificuldade alimentar; x Insuficiência cardíaca; x Pode haver sopro na borda esternal. Tratamento cirúrgico: A abordagem cirúrgica é feita por toracotomia posterolateral esquerda, sem o emprego da circulação extracorpórea. Resseca-se a coarctação e realiza-se uma anastomose término-terminal, com ou sem enxerto para restabelecer a continuidade. Prognóstico: Menos de 5% de mortalidade em pacientes com coarctação isolada, maior risco em recém-nascidos com outros defeitos cardíacos complexos. 5.2.10 Estenose Pulmonar Descrição: 182 AN02FREV001/REV 4.0 191 x O fluxo sanguíneo que se dirige aos pulmões, proveniente do ventrículo direito, é obstruído; x A obstrução pode estar situada acima ou abaixo da válvula pulmonar, ou a anomalia pode ocorrer em forma de estenose valvular; x A resistência ao fluxo sanguíneo (causada pela estenose) leva à hipertrofia do ventrículo direito. Manifestações clínicas: x Dispneia; x Fadiga; x Braços e pernas frias; x Cianose periférica; x Sopro de ejeção sistólica no segundo espaço intercostal esquerdo, acompanhado de frêmito sistólico com sopro irradiando-se para o precórdio e o dorso; x Segunda bulha cardíaca menos nítida (pode desaparecer). Tratamento cirúrgico: A correção cirúrgica pode ser realizada através de valvulotomia pulmonar, por toracotomia anterior esquerda, sem o uso de circulação extracorpórea. Também pode ser realizada valvulotomia sob visão direta, com emprego de circulação extracorpórea ou por angioplastia por balão no laboratório de cateterismo para dilatar a valva. Prognóstico: Baixo risco menos de 2 % de mortalidade. 5.2.11 Estenose Aórtica Descrição: 183 AN02FREV001/REV 4.0 192 x A válvula aórtica mostra-se estreitada, levando à obstrução do fluxo sanguíneo proveniente do ventrículo esquerdo e à persistência da circulação fetal. Manifestações clínicas: x Pulsos periféricos débeis; x Taquicardia; x Cansaço ao esforço; x Palidez cutânea; x Irritabilidade; x Síncope; x Angina do peito; x Sudorese; x Epistaxe. Tratamento cirúrgico: A abordagem cirúrgica é realizada pela esternotomia mediana. A correção cirúrgica se faz pela valvulotomia aórtica. Sob visão direta proporcionada pela circulação extracorpórea, deslocam-se as comissuras fundidas da válvula ou essa é ressecada e substituída por uma prótese. Prognóstico: Em recém-nascidoscriticamente enfermos e crianças acarreta uma mortalidade de 10 a 20% nos grandes centros médicos. Os resultados da valvulotomia aórtica em crianças mais crescidas são muito bons, com uma taxa de mortalidade de 0%. Contudo, a valvulotomia aórtica permanece um procedimento paliativo, e aproximadamente 25% dos pacientes necessitam de uma cirurgia adicional dentro de 10 anos para recidiva de estenose. 184 AN02FREV001/REV 4.0 193 5.3 PROCEDIMENTOS HEMODINÂMICOS EM CARDIOPATIAS CONGÊNITAS Atualmente, um grande número de defeitos cardíacos congênitos podem ser reparados em salas de cateterismo (ou hemodinâmica) ao invés de salas de operação em centros cirúrgicos. Atriosseptostomia com balão e valvuloplastia com balão são procedimentos efetuados por meio da cateterização cardíaca. Tais procedimentos podem salvar a vida de neonatos em situação crítica e em alguns casos poderão eliminar ou retardar procedimentos cirúrgicos mais invasivos. Espera-se que o cateterismo cardíaco continuará no futuro a substituir uma gama cada vez maior de procedimentos cirúrgicos para correção de defeitos congênitos do coração. O assim chamado cateter é um tubo fino que é inserido em uma artéria ou veia da perna, da virilha ou do braço, e conduzido até a área do coração que necessita de reparo. O paciente recebe anestesia no local do acesso e permanece acordado, mas sedado durante o procedimento. Atriosseptostomia com balão Este é o procedimento usual para a correção da transposição dos grandes vasos; às vezes é usado em pacientes com atresia (estreitamento) das válvulas mitral, pulmonar ou tricúspide. Um catéter especial provido com um balão inflável na extremidade é introduzido no átrio direito e com ele alarga-se a abertura do septoatrial. Valvuloplastia com balão O cateter balão é utilizado para abrir uma válvula cardíaca estreitada, melhorando o fluxo de sangue. É o procedimento de escolha na estenose pulmonar e às vezes é usado na estenose aórtica. Balões de polímeros plásticos são colocados na ponta do catéter e inflados para aliviar a obstrução da válvula cardíaca. Os resultados de longo prazo são excelentes na maioria dos casos. 185 AN02FREV001/REV 4.0 194 FIGURA 37 5.4 PAPEL DO ENFERMEIRO NO PÓS-OPERATÓRIO DE CIRURGIA CARDÍACA INFANTIL A evolução na área cirúrgica exigiu que a assistência de enfermagem no pós-operatório infantil cardíaco fosse continuamente aperfeiçoada e atualizada nos aspectos técnicos e científicos, visto que o êxito no tratamento clínico pós-operatório está diretamente relacionado à qualificação da assistência de enfermagem aplicada. O pós-operatório das cardiopatias congênitas envolve grave gama de procedimentos realizados à beira do leito na Unidade de Terapia Intensiva Infantil, procedimentos esses que envolvem monitoração de dados vitais, dados hemodinâmicos, análises laboratoriais, ajustes ventilatórios, suporte nutricional, infusão de drogas e algumas vezes procedimentos específicos, como diálise peritoneal ou hemodiálise. 186 AN02FREV001/REV 4.0 195 A adoção de uma estratégia específica para os cuidados pós-operatórios facilita o trabalho de equipe. As enfermeiras da unidade de pós-operatório de cirurgia cardíaca têm que ser capazes de efetuar esforços no sentido de que o paciente obtenha a recuperação em tempo hábil e, consequentemente, um nível elevado de saúde. 5.5 CIRURGIAS CARDÍACAS NO ADULTO 5.5.1 Pré-Operatório de Cirurgia Cardíaca – Cuidados de Enfermagem Uma sensata revisão da indicação cirúrgica e uma explicação dos procedimentos que serão realizados no pré-operatório ao paciente representam fator de relaxamento, reduzindo a ansiedade e as respostas psicológicas ao estresse antes e depois da cirurgia, o que se reflete em uma menor necessidade de sedativos e medicações anti-hipertensivas no transoperatório. Para isso, é importante uma assistência e acompanhamento ao paciente submetido à cirurgia cardíaca e aos seus familiares. É necessária a presença de uma equipe multidisciplinar cujo objetivo principal é personalizar os cuidados frente ao paciente e familiares no período intra- hospitalar. Enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e fisioterapeutas, por meio de suas atividades, prestam ao paciente atenção individualizada relacionada às suas necessidades. Esses cuidados se estendem após a alta por meio de um acompanhamento para avaliar e colaborar com o período de adaptação do paciente ao retorno de suas atividades regulares. É imperativa uma detalhada avaliação pré-operatória com a finalidade de minimizar as complicações pré e pós-operatório. A coleta da história clínica e o exame físico devem ser os mais completos possíveis. O propósito dessa rotina é orientar de forma objetiva e dirigida a busca de dados que possam interferir nos 187 AN02FREV001/REV 4.0 196 resultados e modificá-los antes mesmo da intervenção cirúrgica, se possível. 5.5.2 Revascularização Miocárdica A doença da artéria coronária é das maiores causas de morte no mundo. As medidas preventivas não conseguiram ainda erradicá-la, uma vez que há apenas 40 ou 50 anos vem sendo compreendido o papel de fatores como a ingestão de alimentos ricos em gordura e colesterol no desencadeamento da doença. A cirurgia de revascularização do miocárdio é, por isso, um recurso terapêutico importante a ser utilizado quando necessário. O coração é um músculo que se contrai sob condições adequadas, tal como os músculos do braço ou da perna. As células que formam o coração, os miócitos, ao se contraírem forçam o sangue a percorrer todo o corpo através de uma espécie de “árvore circulatória” ou rede de vasos sanguíneos. Para esta tarefa, o coração requer grande quantidade de energia e nutrientes, que é suprida por vasos sanguíneos próprios, as artérias coronárias. Na doença da artéria coronária a luz destes vasos encontra-se obstruída por placas de material carreado pelo sangue, denominando-se este processo aterosclerose. A obstrução das artérias resulta em insuficiência de nutrientes e oxigênio, o que provoca sintomas como dores no peito e baixa resistência ao esforço físico. Se a obstrução é total, o músculo cardíaco pode sofrer um dano irreversível e este é o chamado ataque cardíaco ou infarto do miocárdio. Alguns pacientes podem se beneficiar do tratamento cirúrgico para prevenir ataques cardíacos ou para corrigir a insuficiência na quantidade de sangue nutrindo o músculo cardíaco. História A reconstrução cirúrgica de artérias obstruídas iniciou-se por volta de 1960. A finalidade da operação de revascularização do miocárdio é restaurar o suprimento de sangue ao músculo cardíaco, criando uma nova rota que contorna a área bloqueada da artéria coronária doente. Desde o início do século XX técnicas de sutura de pequenos vasos vêm sendo desenvolvidas, ao lado de métodos e 188 AN02FREV001/REV 4.0 197 diagnósticos de manuseio da coagulação sanguínea. Também foram criados artefatos que permitem manter a circulação sanguínea pelo corpo enquanto o coração encontra-se temporariamente parado para a intervenção cirúrgica, a máquina de circulação extracorpórea. Saiba mais sobre Circulação Extracorpórea no subitem 5.6. Além disso, o aperfeiçoamento das técnicas anestésicas que permitiu a respiração controlada do paciente com o tórax aberto foi fundamental para o aprimoramento da cirurgia cardíaca até o ponto atualmente alcançado. Saiba mais sobre anestesia. Em 1966, em Leningrado (atual São Petersburgo), na União Soviética, o Dr. Kolessov reportou o uso de artéria mamária interna para criar um desvio (“bypass”) para a artéria coronária em 6 pacientes, dos quais 5 sobreviveram. Em 1967, o médico argentino Renée Favalaro publicou os resultados iniciais de uma pequena sériede pacientes que receberam enxertos coronarianos de veia safena. A partir desses importantes marcos muitos investigadores começaram a expandir o conceito de reconstrução do suprimento de sangue ao coração com enxertos de vias alternativas ao percurso coronariano. A reconstrução cirúrgica do suprimento sanguíneo foi a partir de então rapidamente reconhecida como altamente efetiva em várias doenças, como a angina e atualmente permanece como principal recurso terapêutico para grande grupo de pacientes. Como funciona A cirurgia de revascularização do miocárdio cria um novo percurso para o fluxo sanguíneo. Frequentemente o bloqueio da artéria ocorre nos primeiros dois centímetros dos ramos maiores que suprem o coração. Os menores ramos usualmente não estão comprometidos até uma idade mais avançada. Assim, torna- se possível introduzir uma fonte nova de sangue na artéria logo adiante do bloqueio. O fluxo sanguíneo vai percorrer um caminho alternativo até atingir o tecido muscular cardíaco ali onde é requerido. Uma vez que o volume e a pressão do sangue são restaurados pelo procedimento cirúrgico, aliviam-se os sintomas decorrentes da má nutrição e hipóxia (falta de oxigênio) do músculo cardíaco. A veia safena é o mais comum material utilizado para a construção desse novo percurso. Também se usa a artéria mamária interna esquerda, que é até mais 189 AN02FREV001/REV 4.0 198 resistente à deposição aterosclerótica que as próprias coronárias. Ambos os enxertos cumprem a função de fornecer ao músculo o suprimento de sangue necessário à função contrátil. Aspectos técnicos É difícil, embora não impossível, costurarem-se finas artérias e veias umas nas outras com o coração batendo. A introdução de dispositivos de circulação extracorpórea – máquina coração-pulmão – permitiu aos cirurgiões suspender temporariamente os movimentos cardíacos enquanto essas delicadas ligações são executadas. Durante a operação as funções de órgãos como cérebro, rins e fígado são plenamente mantidos por esta circulação artificial. Após completar o enxerto, as contrações cardíacas são restauradas e as tarefas da circulação são devolvidas ao coração e aos pulmões. A bomba extracorpórea é removida do sistema vascular do paciente, a anticoagulação é revertida e a cirurgia está terminada. Uma típica cirurgia de revascularização do miocárdio começa com uma incisão vertical no peito. O osso frontal do tórax (esterno) é cortado com uma serra especialmente desenhada para tal e é separado com um artefato apropriado. Com a abertura do esterno e o afastamento dos tecidos moles permite-se o acesso à membrana que envolve o coração, o pericárdio, que recebe uma incisão. Em seguida o cirurgião remove a artéria mamária interna da parede do tórax, de modo a obter uma artéria doadora para o enxerto. Simultaneamente, um cirurgião assistente provê um vaso doador adicional, normalmente a grande veia safena, a partir da coxa ou da panturrilha. Como a perna contém muitas veias redundantes, a circulação de retorno não será comprometida. Após a coleta dos vasos doadores, o sangue do paciente recebe substâncias para que não venha a coagular em contato com o equipamento de circulação extracorpórea. São feitas as conexões desse equipamento com a circulação do paciente, que tem então a temperatura corporal reduzida por meio da refrigeração do sangue que circula pela máquina. Além disso, os fluxos sanguíneos do coração e do resto do corpo são separados por meio de um grampo vascular (“clamp”) aplicado à aorta logo abaixo da inserção da cânula de retorno arterial. As artérias coronárias são então perfundidas com uma solução de potássio a baixa 190 AN02FREV001/REV 4.0 199 temperatura. Imediatamente o coração para, resfria e relaxa-se. O corpo é preservado pelo fluxo de nutrientes advindo do circuito coração-pulmão, enquanto o coração é preservado pela baixa temperatura e por outras condições manejadas pela equipe cirúrgica. Em seguida, cada vaso-alvo é identificado e para cada enxerto a coronária- alvo recebe uma pequena incisão feita com um fino bisturi. A incisão é expandida com tesouras especiais. Um vaso doador – veia ou artérias – é anexado a esta incisão com delicados fios de sutura, em geral feitos de polipropileno, mais finos que um fio de cabelo. Depois que todos os enxertos já estão ligados às artérias do coração, o “clamp” vascular é liberado, restabelecendo o fluxo de sangue para as artérias cardíacas. FIGURA 38 Quando o coração afinal se recupera de seu repouso temporário a circulação extracorpórea pode ser gradualmente retirada. Só após estar o coração batendo perfeita e vigorosamente o equipamento é removido. O anticoagulante é revertido quimicamente e o cirurgião inspeciona, controla sangramentos restantes e 191 AN02FREV001/REV 4.0 200 fecha as incisões. Por fim o paciente é enviado à unidade de cuidados intensivos para recuperação. Pacientes que não apresentam problemas maiores no pós- operatório podem sair do hospital em cerca de seis dias depois da cirurgia. Após duas ou três semanas a maioria dos pacientes recupera seu vigor físico e suas rotinas corporais, o apetite, sono e funcionamento intestinal. Pacientes cuja atividade profissional não exige esforços físicos podem retomá-la em 4 a 6 semanas ou até antes, dependendo de seu nível de energia. Normalmente não serão mais necessários medicamentos antianginosos. Mas medicamentos para controle de pressão arterial e do diabetes continuam sendo necessários. Após a completa recuperação da cirurgia, a vasta maioria de pacientes pode retomar suas atividades de vida diária, inclusive exercícios, viagens e trabalho. 5.5.3 Substituição Valvar Histórico As primeiras intervenções realizadas sobre as válvulas cardíacas após o advento da circulação extracorpórea foram procedimentos reconstrutivos. Os resultados iniciais foram animadores, especialmente nas estenoses, possibilitando o tratamento de inúmeros pacientes, até então condenados à evolução natural da doença. Nas insuficiências valvulares, entretanto, os resultados não foram consistentes. Talvez devido ao pouco conhecimento da anatomia patológica da época, certamente aliada a pouca experiência cirúrgica, os procedimentos reconstrutivos nas insuficiências valvulares eram realizadas com maior índice de insucesso. Além disso, não puderam ser reproduzidos em todos os centros de cirurgia, consequentemente não se tornaram difundidos a ponto de beneficiar número significativo de pacientes. Com a criação das próteses valvulares artificiais, na década de 60, houve nítido retrocesso na popularidade dos procedimentos reconstrutivos. Tornou-se muito mais padronizado e reprodutível de maneira uniforme o tratamento das lesões valvulares pela substituição protética, pelo menos na fase hospitalar e em curto 192 AN02FREV001/REV 4.0 201 prazo. As próteses, entretanto, apresentam problemas e complicações próprias e, embora propiciando excelente melhora funcional cardiovascular, estavam então, como ainda hoje, longe de ser um tratamento ideal e definitivo. Procedimento Operatório 9 Depois da instituição da circulação extracorpórea, um cateter de esvaziamento é introduzido através de uma incisão na veia pulmonar direita e a sua extremidade é avançada até o interior do ventrículo esquerdo; 9 A aorta é clampeada. Se estiver presente uma insuficiência aórtica, uma dose única inicial de solução cardioplégica é infundida retrogradamente. Na presença de estenose aórtica, a dose inicial da solução cardioplégica pode ser infundida na raiz da aorta. Uma vez parado o coração, a aorta é aberta; 9 A valva nativa é inspecionada e é confirmada a extensão do defeito patológico. Se existirem depósitos de cálcio, eles devem ser debridados com tesouras ou ruginas. A valva deveser retirada cuidadosamente para evitar danificar o anel e as estruturas subjacentes. Pode-se usar pequena quantidade de gaze dentro do ventrículo esquerdo para reter fragmentos pequenos, soltos, de cálcio que poderiam subsequentemente embolizar. Os instrumentos devem ser bem limpos e enxugados frequentemente; 9 Anel é medido, é escolhida a prótese adequada, e é conectado o fixador da prótese; 9 Se for escolhida uma prótese biológica, ela é colocada no campo e lavada com banhos de soro fisiológico: 9 Se for escolhido um aloenxerto, ele é colocado no campo e descongelado com banhos de soro fisiológico de acordo com o protocolo; e 9 Se for escolhida uma prótese mecânica, ela pode ser colocada dentro de um banho de solução antibiótica até ser usada (soluções antibióticas não devem ser despejadas diretamente sobre as valvas biológicas). As valvas biológicas devem ser mantidas úmidas através de irrigação frequente com soro fisiológico; 9 A valva nova é implantada de acordo com uma técnica semelhante àquela descrita para a substituição da valva mitral; 193 AN02FREV001/REV 4.0 202 9 Se o anel aórtico for demasiadamente pequeno para aceitar uma prótese de tamanho adequado, pode ser efetuado o procedimento de Konno para aumentar o anel, bem como a porção inicial da aorta ascendente (Waldhausert e Pierce, 1985). Um retalho losangular de pericárdio bovino ou de Dacrort é colocado longitudinalmente na aorta ascendente anterior proximal onde foi cortado o anel aórtico. A prótese valvar desejada é suturada ao anel natural e depois ao retalho. O retalho é suturado às bordas restantes da aortotomia; 9 A aorta é fechada com suturas não absorvíveis e é removido o clampeamento; 9 Ar no lado esquerdo do coração é esvaziado (por catéter de esvaziamento, movimentando-se a mesa de cirurgia de um lado para o outro ou por meio de outras manobras escolhidas pelo cirurgião). O paciente é colocado em posição de Trendelenburg e os pulmões são inflados. Não se permite que o coração volte a bater e ejete sangue até que o cirurgião se certifique de que não existe mais ar dentro do ventrículo esquerdo. O coração é desfibrilado se não retomar espontaneamente os seus batimentos; 9 É mantido o reaquecimento do coração, os cateteres de esvaziamento são removidos e o tórax é fechado da maneira rotineira. Substitutos Valvulares A substituição valvar cardíaca protética representou um importante avanço no tratamento de pacientes com patologia orovalvar. O desenvolvimento de diferentes substitutos valvares e a evolução na técnica cirúrgica e no manejo perioperatório resultaram no implante de próteses com: 9 Reduzido risco operatório; 9 Substancial melhora na qualidade e duração de vida dos pacientes quando a indicação cirúrgica é correta; e 9 Pequeno risco adicional na substituição de próteses com disfunção ou se o procedimento cirúrgico associado é necessário (implante de enxertos tubulares, revascularização miocárdica, valvoplastia, etc.). A cirurgia de substituição valvar apresenta ainda aspectos desfavoráveis, que devem ser considerados quando da indicação cirúrgica: o risco operatório, que 194 AN02FREV001/REV 4.0 203 subsiste, embora venha sendo progressivamente reduzido, a variável incidência de complicações tardias relativas à prótese (tais como tromboembolismo, degeneração, infecção, hemólise), a manutenção de um gradiente transvalvular e outros. O Substituto Valvar Ideal A efetividade de qualquer substituto valvar usualmente é obtida da comparação com o desempenho de um modelo ideal, cujas características foram delineadas por Harken em 1962: 9 Não deve propagar êmbolos; 9 Deve ser quimicamente inerte e não danificar elementos sanguíneos; 9 Não deve oferecer resistência aos fluxos fisiológicos; 9 Deve fechar prontamente (menos do que 0,05 segundos); 9 Deve permanecer fechado durante a fase apropriada do ciclo cardíaco; 9 Deve manter suas características físicas e geométricas; 9 Deve ser inserido em posição fisiológica, usualmente no local anatômico normal; 9 Deve ter fixação permanente; 9 Não deve incomodar o paciente; e 9 Deve ser tecnicamente prático para implante. O crescente número de cirurgias que requerem implante de válvulas cardíacas artificiais obriga-nos à adição de novos critérios: 9 Facilidade de obtenção e conservação; e 9 Pronta disponibilidade em diversos tamanhos. Evidentemente nenhum dispositivo valvar artificial disponível preenche integralmente esses critérios e não existe ainda um acordo universal sobre qual a melhor prótese cardíaca; a extensão em que cada um dos modelos existentes se enquadra nessas características determina sua aceitação entre os cirurgiões cardiovasculares. 195 AN02FREV001/REV 4.0 204 Classificação dos Substitutos Valvulares Os substitutos valvares cardíacos são classificados usualmente de acordo com a composição do material constituinte e forma de funcionamento, conforme expresso na tabela abaixo: CLASSIFICAÇÃO DOS SUBSTITUTOS VALVARES PRESENTEMENTE UTILIZADOS PARA IMPLANTE CIRÚRGICO Mecânicos Fluxo lateral Bola Disco Fluxo central Disco basculante Duplo folheto Biológicos Autrólogos Válvula pulmonar Homólogos Válvula aórtica Heterólogos Válvula aórtica do porco Pericárdio bovino Substitutos Valvares Mecânicos Os substitutos valvares mecânicos apresentam como características favoráveis a disponibilidade em diversos tamanhos e modelos, a facilidade de inserção por técnicas reproduzíveis, um adequado desempenho hemodinâmico (favorável nos modelos de diâmetro reduzido, se comparado às biopróteses) e a inquestionável durabilidade. Contudo, podem resultar em complicações tromboembólicas, requerendo o uso de anticoagulantes, um tratamento por si só não desprovido de risco. 196 AN02FREV001/REV 4.0 205 Substitutos Valvares Biológicos Próteses biológicas foram desenvolvidas visando minimizar ou mesmo eliminar a incidência de tromboembolismo e a necessidade do emprego de anticoagulantes associados ao implante de próteses metálicas e a dispor de uma prótese que mostrasse características de fluxo semelhante ao das valvas cardíacas. Embora os episódios tromboembólicos tenham sido reduzidos desde os primeiros modelos, outros problemas como a seleção do enxerto biológico, o desenvolvimento de técnica de preparo, esterilização e preservação, a disponibilidade em diferentes tamanhos e para implante em diferentes posições e a incidência relativamente alta de falência tardia devido a alterações teciduais foram uma constante até o desenvolvimento de próteses biológicas aceitáveis para utilização clínica difundida. 5.6 CIRCULAÇÃO EXTRACORPÓREA A ideia de perfundir os órgãos com finalidade de mantê-los em condições de vitalidade tem origem no século passado, Gilbon, em Boston, a partir de 1937, foi quem primeiro demonstrou com sucesso a utilização da circulação extracorpórea (C. E. C.) para realização de cirurgias cardíacas. Na década de 50 houve um acentuado avanço em relação à utilização dos oxigenadores artificiais, das bombas de fluxo, do manuseio de heparina e do aprimoramento da hemostasia. Novas tecnologias e o maior conhecimento da fisiologia e da fisiopatologia possibilitaram realizar a circulação extracorpórea com morbidade reduzida. A circulação extracorpórea é um recurso conceitualmente simples, seguro e de fácil manuseio. Ela é utilizada na cirurgia cardíaca para desviar o sangue não oxigenado do paciente e devolver sangue reoxigenado para a sua circulação. Essa técnica é feita por uma bomba oxigenadora (máquina coração – pulmão). O desvio do sangue permite ao cirurgião visualizar o coração diretamente durante a operação. A bomba oxigenadora, mais que qualquer outro dispositivo, tornou possível a mais sofisticada cirurgiao nódulo atrioventricular e o feixe de Purkinje recebem terminações nervosas simpáticas e parassimpáticas. Quando há estimulação simpática, liberam-se as catecolaminas adrenalina e noradrenalina, que produzem aumento da frequência dos impulsos elétricos do nódulo sinusal. A estimulação parassimpática ou vagal se faz pela acetilcolina e tem o efeito oposto, reduzindo a frequência dos impulsos. Na eventualidade de secção das fibras nervosas simpáticas e parassimpáticas cessa a influência nervosa sobre o coração, que, contudo, mantém a automaticidade e ritmicidade pelo nódulo sinusal. FIGURA 12 22 AN02FREV001/REV 4.0 25 Atividade Elétrica das Células A concentração de íons no interior de uma célula é diferente da concentração no seu exterior, o que propicia a geração de uma diferença de potencial denominada “potencial de membrana”. Simultaneamente, o gradiente de concentração iônica está associado ao aparecimento de forças elétricas de difusão. Quando não há condução de impulsos elétricos o potencial de repouso da membrana é de cerca de – 70mVolt em relação ao líquido extracelular. Esse valor se modifica devido a uma excitação externa, quando ocorre uma tendência de inversão do potencial de membrana. Por exemplo, com a entrada maciça de íons sódio (Na+) na célula, essa começa a se despolarizar, isto é, o potencial negativo no interior da célula desaparece, tornando-se positivo no interior da fibra e negativo no exterior. Quando há um grande gradiente de concentração de íons, tanto fora quanto dentro da célula, as forças de difusão elétrica fazem com que os íons positivos se desloquem para regiões cujo potencial é predominantemente negativo, enquanto que os íons negativos se deslocam para regiões cujo potencial é predominantemente positivo. Quando as cargas positivas e negativas se igualam há um equilíbrio da energia potencial, não ocorrendo, portanto, nenhuma movimentação de íons. Para que a membrana permaneça no estado de repouso, é necessário manter o potencial elétrico por meio da diferença de concentração de íons entre o meio intracelular e o meio extracelular. No corpo humano, tal gradiente de concentração ocorre por transporte ativo, com gasto de energia na forma de ATP (adenosina trifosfato), proveniente do metabolismo celular. Esse processo ativo denomina-se “bomba de sódio-potássio”. A atividade elétrica do coração é o resultado do movimento de íons (partículas ativadas, como sódio, potássio e cálcio) através da membrana celular. As alterações elétricas registradas no interior de uma única célula resultam no que se conhece como potencial de ação cardíaco. No músculo cardíaco existem três tipos de canais iônicos importantes na produção da variação de voltagem da membrana; o potencial de ação nessas fibras se dá como no esquema abaixo: 23 AN02FREV001/REV 4.0 26 O potencial de repouso de membrana da fibra muscular cardíaca é de aproximadamente -90 mV. Quando um impulso despolarizante chega a ela, ocorrem os seguintes eventos: 0 - Abertura dos canais rápidos de Na+ (o Na+ entra rapidamente na célula, elevando o potencial de membrana); 1 - Abertura dos canais de K+ (o K+ sai da célula, repolarizando-a); 2 - Os canais lentos de Ca+2, que começaram a se abrir lentamente em -60 a -50 mV abrem-se por completo, permitindo a saída do íon cálcio e interrompendo a queda do potencial causada pela saída de íons K+; 3 - Os canais lentos de Ca+2 se fecham e a saída de K+ leva o potencial de volta ao valor normal de repouso; 4 - Os canais de K+ se fecham e a membrana permanece no seu potencial de repouso. Nos nós sinoatrial e atrioventricular encontramos outro tipo de curva de potencial de ação: FIGURA 13 24 AN02FREV001/REV 4.0 27 Fibras do nó Sinoatrial FIGURA 14 Fibras do nó Atrioventricular FIGURA 15 Como podemos observar, a frequência de despolarização e deflagração de potenciais de ação no nó sinoatrial é maior que nos demais tecidos especializados. Por isso, o nó sinoatrial é o marca-passo normal do coração. Como o nó sinoatrial despolariza mais rapidamente seu impulso é gerado e conduzido através do átrio até alcançar o nó A-V, que ainda não se despolarizou o suficiente para deflagrar seu 25 AN02FREV001/REV 4.0 28 potencial de ação independentemente; com o impulso despolarizante vindo do nó sinoatrial o nó A-V atinge seu limiar e transmite o impulso elétrico aos ventrículos. Temos então que o coração possui uma ritmicidade sinusal, porém, em situações onde o nó sinoatrial está danificado, o nó A-V assume o controle da ritmicidade e passamos a ter o chamado ritmo infrassinusal, mais lento (bradicardia nodal) devido ao nó A-V ter uma frequência de impulsos menor. Em casos em que ocorre a falência desses dois tecidos, o próximo a assumir o controle da ritmicidade seriam as fibras de Purkinge, porém a frequência de impulsos dessas é muito baixa e não é suficiente para manter os níveis normais de pressão arterial necessário. Nesse caso são implantados os chamados marca-passos artificiais. O nó A-V possui uma importante função no que diz respeito ao retardo da transmissão do impulso elétrico do átrio ao ventrículo, sincronizando assim a contração dos miocárdios atrial e ventricular de forma que os átrios se contraiam um pouco antes da contração ventricular. A parte do sistema nervoso que regula a frequência cardíaca automaticamente é o sistema nervoso autônomo, constituído pelos sistemas nervoso simpático e parassimpático. O sistema nervoso simpático aumenta a frequência cardíaca, enquanto o sistema nervoso parassimpático a diminui. O sistema simpático supre o coração com uma rede de nervos, o plexo simpático. O sistema parassimpático preenche o coração por um único nervo, o nervo vago. A frequência cardíaca também é influenciada pelos hormônios circulantes do sistema simpático – a epinefrina (adrenalina) e a norepinefrina (noradrenalina) –, os quais são responsáveis por sua aceleração. O hormônio tireoidiano também influencia a frequência cardíaca: quando em excesso, essa se torna muito elevada; quando há deficiência do mesmo, o coração bate muito lentamente. Geralmente a frequência cardíaca normal em repouso é de 60 a 100 batimentos por minuto. Entretanto, frequências muito baixas podem ser normais em adultos jovens, particularmente entre aqueles que apresentam um bom condicionamento físico. Variações da frequência cardíaca são normais. A frequência cardíaca responde não só ao exercício e à inatividade, mas também a estímulos como, por exemplo, a dor e a raiva. Apenas quando a frequência cardíaca é inadequadamente elevada (taquicardia) ou baixa (bradicardia) ou quando os impulsos elétricos são transmitidos por vias anormais é que se 26 AN02FREV001/REV 4.0 29 considera que o coração apresenta um ritmo anormal (arritmia). Os ritmos anormais podem ser regulares ou irregulares. 1.16 O CICLO CARDÍACO Um batimento cardíaco completo é chamado ciclo cardíaco. O ciclo cardíaco vai do final de uma contração cardíaca até o final da contração seguinte e inclui quatro eventos mecânicos principais, a saber: contração atrial ou sístole atrial, relaxamento atrial ou diástole atrial, contração ventricular ou sístole ventricular e relaxamento ventricular ou diástole ventricular. Um batimento cardíaco se inicia com a sístole atrial. A seguir, durante a diástole atrial, ocorrem sucessivamente a sístole e a diástole ventricular. O sangue flui de modo contínuo, das grandes veias para os átrios e cerca de 70% desse volume flui diretamente dos átrios para os ventrículos. A contração dos átrios produz um enchimento ventricular adicional de 30%. Os átrios funcionam como bombas de ativação, que aumentam a eficácia do bombeamento ventricular.cardíaca. 197 AN02FREV001/REV 4.0 206 As quatro finalidades da bomba oxigenadora são: 9 Desviar a circulação do coração e dos pulmões, oferecendo ao cirurgião um campo sem sangue; 9 Realizar todas as trocas gasosas para o corpo enquanto o sistema cardiopulmonar do paciente está em repouso; 9 Filtrar, reaquecer e resfriar o sangue; e 9 Circular o sangue filtrado e oxigenado de volta para o sistema arterial. O procedimento da circulação extracorpórea é o seguinte: a máquina tem de ser ativada (cheia) antes de o procedimento começar. No passado, isso era feito com três a quatro litros de sangue heparinizado, mas hoje em dia geralmente é feito com solução fisiológica cristaloide (por exemplo, lactato de Ringer). Após a abertura do tórax do paciente o cirurgião introduz duas cânulas de largo calibre no átrio direito e, em seguida, nas veias cavas inferior e superior e cateteres de sucção dentro da cavidade torácica e dentro dos ventrículos. Antes do início da circulação extracorpórea, o paciente necessita ser anticoagulado para neutralizar a cascata da coagulação pelo contato sanguíneo com tubos e circuitos não endotelizados. Isso é possível por meio da administração intravenosa de heparina, geralmente na dose de 300 a 400 U/kg (3 a 4 ml/kg). Em seguida, o sangue é bombeado das veias cavas, da cavidade torácica e dos ventrículos para dentro da bomba oxigenadora. Na máquina, o trocador de calor reaquece (ou esfria o sangue, se o cirurgião desejar hipotermia). Um oxigenador em seguida remove o dióxido de carbono do sangue e adiciona oxigênio. Finalmente o sangue passa por meio de um filtro que remove as bolhas de ar e outros êmbolos antes de retornar esse sangue para o corpo através da aorta. Procedimento para finalização da circulação extracorpórea: 9 Depois de o procedimento intracardíaco ter sido completado, todo o ar deve ser evacuado do ventrículo esquerdo. Uma dose aquecida de solução cardioplégica pode ser dada, depois da qual a pinça de clampeamento é removida; 9 Muitas vezes, a desfibrilação é espontânea com a remoção do clampeamento aórtico e entrada de sangue quente dentro da circulação coronária. Se não 198 AN02FREV001/REV 4.0 207 ocorrer, torna-se necessária a desfibrilação elétrica. Cabos de marca-passo temporário são conectados ao átrio e ao ventrículo; 9 É reduzido o fluxo de sangue venoso à bomba. O fluxo arterial também é reduzido para igualar o retorno venoso. Quando o funcionamento cardíaco for suficiente e a pressão sanguínea sistêmica tiver se estabilizado, o retorno venoso é reduzido ainda mais e o paciente é desligado da circulação extracorpórea, pinçando-se todas as vias de acesso e parando a bomba; 9 À medida que são removidos os cateteres de canulação, as suturas em bolsas são apertadas e cortadas. Suturas adicionais podem ser necessárias para hemostase; 9 Os tubos torácicos devem ser introduzidos dentro do pericárdio (e da cavidade pleural, caso a pleura tenha sido aberta); 9 É administrado sulfato de protamina, um antagonista da heparina; e 9 Usualmente o pericárdio é deixado aberto, de modo que o acúmulo de secreções não produza tamponamento cardíaco. Equipamentos Utilizados na Circulação Extracorpórea Oxigenador O oxigenador é um dispositivo mecânico que possibilita as trocas de oxigênio, dióxido de carbono, vapor de água e gases anestésicos entre o sangue e a atmosfera adjacente. O termo “oxigenador” é inadequado, porque se refere apenas à propriedade da oxigenação e não à da remoção do gás carbônico. No entanto, é uma referência consagrada na literatura. Nos primórdios da circulação extracorpórea foram feitas tentativas para se utilizar o pulmão humano como órgão oxigenador para os pacientes, na chamada circulação cruzada. Uma vez estabelecido o cruzamento temporário entre a circulação do paciente e a de um “doador” temporário (usualmente a mãe do doente), era possível realizar a cirurgia intracardíaca. Foram ainda testados o pulmão de animais e o pulmão do próprio paciente. Entretanto, as dificuldades, limitações e complicações inerentes a estes métodos levaram ao seu total abandono. 199 AN02FREV001/REV 4.0 208 Existem dois tipos de oxigenadores de sangue – o de membrana e o de bolha. As mais das vezes o método de membrana é usado para a troca gasosa (ou seja, remoção do dióxido de carbono e subsequente oxigenação). Com o método de membrana o oxigênio é difundido através de uma membrana permeável ao gás que o separa do sangue venoso. Menos comumente, o método de bolha é empregado, com o qual o oxigênio é borbulhado através de uma coluna de sangue venoso. Os oxigenadores de membrana são preferidos aos oxigenadores de bolha por causa de uma melhor preservação das plaquetas, menos uso de sangue do banco de sangue, melhor função renal pós-operatória e porque não empregam uma interface direta sangue – gás, que é inerentemente destrutiva para os elementos formados do sangue. Bomba Arterial A perfusão do paciente é assegurada por pelo menos uma bomba de sangue que é incorporada ao sistema de circulação extracorpórea. Essa bomba tem como características principais: 9 Capacidade de bombear até seis litros de sangue por minuto, independente da pressão na linha de saída; 9 Não ocasionar danos aos componentes celulares e acelulares do sangue; 9 Todas as partes em contato com o sangue devem ter superfície lisa e contínua, sem espaços ou áreas mortas que possam produzir estagnação ou turbulência desnecessária; 9 Calibração do fluxo exata e reproduzível, de forma que o fluxo sanguíneo possa ser monitorizado precisamente; 9 Capacidade de operação manual em situações de emergência; e 9 Partes que conduzem o sangue descartáveis, não contaminando as partes permanentes da bomba. 200 AN02FREV001/REV 4.0 209 As bombas podem ser classificadas como pulsáteis (de baixa ou de ampla amplitude) ou não pulsáteis, conforme as características de deslocamento que apresentam. Bombas de fluxo pulsátil são atraentes pelo fato de apresentarem contornos de pulso razoavelmente fisiológicos e foram inicialmente projetadas por Hooker em 1911; diversos tipos surgiram posteriormente: diafragma, pneumática, pistão, fole e compressão. Dispositivos especiais podem também ser colocados entre uma bomba de fluxo não pulsátil e o paciente, visando obter-se um fluxo pulsátil. Embora considerado essencial para perfusões prolongadas em órgãos isolados e diversos trabalhos tenham demonstrado suas vantagens sobre o fluxo não pulsátil, limitações práticas impedem o uso difundido do fluxo pulsátil: o reduzido diâmetro de conectores e cânulas arteriais usados em circulação extracorpórea (com relação ao diâmetro aórtico e à magnitude do fluxo) tende a amortecer os contornos do pulso e torná-lo menos fisiológico o aumento do gradiente pressórico entre a linha arterial e a aorta, e a força de aceleração aguda do jato sanguíneo durante o período do pico pressórico resulta em turbulência, podendo induzir cavitação e formação de microbolhas. A bomba arterial mais empregada atualmente é a de roletes, introduzida por De Bakey em 1934. É simples, segura e mais acessível em termos de custos. Nela, o fluxo arterial sistêmico é modificado, com o transcorrer da circulação extracorpórea, de acordo com a idade, a superfície corpórea e a temperatura do momento. Condutores Sanguíneos A condução do sangue entre o oxigenador e o paciente é feita por tubos, usualmente confeccionados com cloreto de polivinila (P. V. C.). Entre as características desejáveis destes condutores destacam-se: 9 Transparência, não umidificação e baixa tensão superficial; 9 Inércia química e tromborresistência; 9 Superfície interna lisa e baixa resistência ao fluxo; 9 Flexibilidade, de modo a retornar à forma original após remoção de pinça ou uso embomba rotatória; 201 AN02FREV001/REV 4.0 210 9 Resistência angular ou colapsar se a pressão negativa é aplicada; e 9 Capacidade de tolerar sem dano estrutural a esterilização em altas temperaturas. Termopermutadores As funções comumente desempenhadas são a redução da temperatura do sangue para indução de hipotermia sistêmica, seu aquecimento após realização da cirurgia, bem como a manutenção da temperatura do sangue em cirurgias normotérmicas, pois ocorre perda de calor pelo oxigenador. Entre as características ideais de um termopermutador, considerando-se a alta efetividade (capacidade de modificar a temperatura do sangue), baixo volume de perfusato, baixa resistência ao fluxo, mínimo dano aos componentes sanguíneos e simplicidade de manutenção limpeza e esterilização se a unidade não for descartável. Usualmente a água é o meio utilizado para esfriamento e aquecimento do sangue, pela facilidade de bombeamento e esfriamento, disponibilidade e baixa resistência à transferência de calor em condições de fluxo turbulento. Em condições operacionais a temperatura da água não deve exceder 42ºC, pela indução de hemólise significativa, ou ser inferior a 0ºC, pois o congelamento da água no permutador irá determinar destruição celular. A temperatura do sangue não deverá exceder 39ºC. Um gradiente máximo de 14ºC deve ser respeitado entre a temperatura da água e a do perfusato, especialmente no aquecimento do sangue que foi oxigenado à baixa temperatura, pelo aumento da solubilidade de oxigênio e eventual formação de bolhas. Visando diminuir este risco, um filtro cata-bolha deve ser colocado distalmente ao permutador, na linha arterial. Este cuidado é dispensável na maioria dos oxigenadores descartáveis com termopermutador incorporado, que é posicionado previamente ao desborbulhador e ao filtro. Filtros A identificação de um nível aumentado de partículas circulantes durante a circulação extracorpórea, tais como fragmentos teciduais e de células vermelhas, 202 AN02FREV001/REV 4.0 211 agregados de plaquetas e leucócitos, microbolhas gasosas, silicone e gordura, e a incidência de complicações pós-operatórias envolvendo sistema nervoso central, pulmão, rim, coração e fígado permitem concluir que a circulação extracorpórea e o trauma cirúrgico podem alterar componentes sanguíneos e determinar a formação de microêmbolos, que ocasionam oclusão microvascular e resultam em dano a órgãos vitais. Embora eventos microembólicos sejam preferentemente subclínicos e transitórios, algumas vezes podem deixar sequelas permanentes. As condições que propiciam a formação de agregados são: 9 Trauma sanguíneo na sucção, oxigenação e bombeamento; 9 Uso de sangue estocado, que contém aproximadamente 100 agregados de diâmetro entre 10 e 300 µ por mm3; 9 Mistura entre o sangue do paciente e o do doador, que resulta em certo grau de reação sanguínea e grumos; 9 Hipotensão e trauma, que causam a liberação de substâncias teciduais (exemplo serotonina), contribuindo para a agregação plaquetária; e 9 Contato do sangue com substâncias estranhas. Para tornar a circulação extracorpórea, um procedimento fisiológico – a formação de êmbolos – deve ser prevenido e o material embólico removido com auxílio de filtros. O filtro deve extrair todas as partículas estranhas ao sangue sem causar resistência ao fluxo sanguíneo, trauma adicional ao sangue ou ter seu desempenho diminuído por obstrução parcial do sistema de filtragem, o que pode ocorrer no transcorrer da circulação extracorpórea. Os êmbolos grandes (maiores do que 200 µ), como coágulos sanguíneos, partículas teciduais, fragmentos de cálcio ou bolhas de gás, são usualmente removidos no oxigenador ou no reservatório de cardiotomia, que possui um filtro de malha capaz de bloquear as partículas antes que estas ingressem no reservatório arterial. Contudo, partículas pequenas (50 a 200 µ), como glóbulos de gordura e agregados de eritrócitos, não são inteiramente bloqueadas, exceto se microfiltros são incorporados ao sistema de circulação extracorpórea. Atualmente a maioria dos filtros é do tipo malha e fabricada em nylon ou poliéster, com poros entre 20 e 40 µ. Seu projeto não apenas possibilita aprisionar as partículas de matéria como servir como cata-bolhas. 203 AN02FREV001/REV 4.0 212 Sistema de Aspiração O sistema de aspiração durante circulação extracorpórea visa ao aproveitamento de sangue extravasado no campo cirúrgico ou que se acumula no interior do coração. Como o trauma sanguíneo está diretamente ligado à aspiração, deve-se atentar para a correta oclusividade das bombas, manutenção da aspiração em velocidade suficiente apenas para remover o sangue do campo cirúrgico e confecção das linhas em tubo de PVC com diâmetro de 3/8, com o menor comprimento possível. Eventualmente a força de sucção pode ser obtida de uma fonte de vácuo. Contudo, se resultar pressão negativa excessiva, hemólise significativa poderá ocorrer. Como a aspiração do sangue do campo cirúrgico é indiscriminada, está indicada a interposição do filtro entre os aspiradores e o oxigenador. Cânula Arterial A reentrada de sangue arterial no paciente é um aspecto crítico em circulação extracorpórea, pois a quantidade máxima de sangue a ser infundida não é determinada pela capacidade da bomba arterial, mas pela estenose relativa existente no local da canulação; se essa estenose for excessiva, resultando em elevada velocidade do fluxo sanguíneo, podem ocorrer turbulência, dano aos elementos sanguíneos ou mesmo o fenômeno da cavitação. Para que o gradiente de pressão seja mantido em um valor seguro (o gradiente aceitável é menor do que 100 mmHg), a cânula selecionada deve ter um diâmetro apropriado em relação ao fluxo de sangue, conforme demonstrado no anexo 1. As cânulas arteriais são confeccionadas em metal, como aço inox, ou plástico, como o cloreto de polivinila. Quando a canulação é feita na aorta 204 AN02FREV001/REV 4.0 213 ascendente, cânulas de PVC são satisfatórias, pois a espessura aumentada da parede da cânula não dificulta a manobra de canulação. Cânula Venosa As cânulas venosas são o local de maior estreitamento no sistema de drenagem de sangue do paciente ao oxigenador e podem representar importante fonte de resistência ao fluxo sanguíneo no sistema de circulação extracorpórea. A drenagem venosa pode ser assegurada por bomba ou por gravidade, sendo essa última o processo habitualmente utilizado pela simplicidade, menor risco e necessidade de menor volume de perfusato. Um retorno venoso adequado ao oxigenador pode ser assegurado por: 9 Seleção de cânulas com diâmetro adequado; 9 Elevação da mesa de cirurgia quando é empregada drenagem por gravidade; 9 Modo do volume circulante pela adição de perfusato sempre que necessário; e 9 Aumento do tônus venoso pelo uso de catecolaminas. Estas medidas usualmente concorrem para retorno venoso superior ao fluxo sanguíneo calculado, permitindo-se que o sangue se acumule no reservatório arterial ou oclui-se a pinça da linha do retorno venoso (o que pode determinar acúmulo de sangue no coração se torniquetes não são aplicados nas veias cavas canuladas). Para introdução de cânulas venosas (após canulação arterial do paciente), uma incisão simples é feita no centro da bolsa e a cânula introduzida. Pinçamento parcial do átrio pode ser utilizado para canulação, visando à redução da perda de sangue. A canulação das veias cavas é feita pela tração da parede com uma pinça, um corte longitudinal e introdução da cânula metálica angulada, iniciando-se pela veia cava superior. Por vezes, circulação extracorpórea pode ser estabelecida apenas com a cânula de veia cava superior posicionada, visando facilitar a introdução da cânula da veia cava inferior e evitar hipotensãosecundária ao manuseio do coração. 205 AN02FREV001/REV 4.0 214 Parada Cardioplégica Os melhores resultados na cirurgia cardíaca se devem em grande parte ao progresso feito na proteção do miocárdio. As interrupções circulatórias, isquemia e hipotermia que acompanham a parada cardíaca são necessárias para permitir que o cirurgião tenha tempo suficiente para fazer a correção das lesões cardíacas sob visão direta. A não ser que sejam tomadas medidas para proteger o miocárdio durante esses períodos, pode haver lesão irreversível. A proteção é feita resfriando o coração (e o restante do corpo) para reduzir as necessidades metabólicas e parando o coração rapidamente, de modo que os recursos energéticos miocárdicos sejam preservados. A rápida parada do coração durante a diástole é benéfica porque o coração parado usa menos energia do que o coração fibrilando ou batendo. A parada cardioplégica fria é obtida pela infusão das artérias coronárias com uma solução a 4º a 10ºC (39,2º a 50ºF) contendo potássio (2 a 50 mEq/l) e várias soluções-tampão para combater a acidose isquêmica. O uso de tampões para minimizar os efeitos da acidose durante a isquemia é fundamental na manutenção do metabolismo aeróbico, anaeróbico às bombas de sódio, potássio, cálcio e à integridade da membrana. É importante lembrar que quanto mais baixa for a temperatura, maior deverá ser o pH. Têm sido usados os mais diferentes tampões, como o bicarbonato de sódio, os tampões fosfato, o THAM, o imidazol, a histidina ou o próprio sangue. Deve-se selecionar o tampão que tiver o maior poder na temperatura desejada, embora o tampão mais fácil de ser conseguido em nosso meio seja o próprio bicarbonato de sódio, utilizado na concentração de 5 mEq/l de cardioplegia. A solução de cardioplegia é dada sob pressão à circulação coronária a intervalos frequentes para manter a parada hipotérmica. O potássio é usado rotineiramente como agente cardioplégico, ou agente paralisante, para causar parada cardíaca por despolarizar a membrana celular miocárdica. Quando o coração está suficientemente parado, o eletrocardiograma mostra uma linha reta; quando se observa uma atividade elétrica no monitor (fibrilação fina), a solução cardioplégica é reinfundida quando se deseja um resfriamento contínuo (aproximadamente a cada 15 a 20 minutos). Durante este período, é completada a correção cirúrgica. 206 AN02FREV001/REV 4.0 215 5.7 COMPLICAÇÕES NO PÓS-OPERATÓRIO Os pacientes apresentam riscos de complicações pós-operatórias devido às doenças associadas ao tratamento e aos traumatismos cirúrgicos. Além disso, existe uma série de fatores agravantes desencadeados pelo desvio cardiopulmonar (quando presente), produzindo profundos efeitos fisiológicos. Tamponamento Cardíaco no Pós-Operatório de Cirurgia Cardíaca O derrame pericárdico ocorre comumente após cirurgias cardíacas, entretanto apenas alguns casos desenvolverão tamponamento cardíaco, sendo cruciais o diagnóstico e o tratamento precoces, pois ele se associa à alta morbidade e à alta mortalidade. A apresentação clínica pode ser de maneira insidiosa, com sintomas inespecíficos, incluindo mal-estar, fraqueza, dor torácica e anorexia. As manifestações do comprometimento cardíaco como dispneia, hipotensão, taquicardia, diaforese e hepatomegalia em geral aparecem tardiamente no curso clínico. Quando não diagnosticado e previamente tratado, evoluem rapidamente as manifestações clínicas de choque. Complicações Digestivas em Pós-Operatório de Cirurgia Cardíaca (hemorragia digestiva alta, complicações isquêmicas, complicações medicamentosas) Poucos trabalhos relatam as intercorrências digestivas no pós-operatório de cirurgia cardíaca; sabe-se, porém, que estas são acompanhadas de elevado índice de morbidade e mortalidade, uma vez que estes pacientes são portadores de múltiplas doenças. Além disso, muitas vezes os pacientes encontram-se impossibilitados de fornecer história clínica adequada e sinais de doença intestinal podem estar mascarados pelas drogas usadas e pela doença cardíaca. Estes pacientes recebem inúmeras terapias medicamentosas, que não somente podem desencadear as intercorrências digestivas, mas também dificultar 207 AN02FREV001/REV 4.0 216 seu diagnóstico. A observação precoce dessas complicações, com pronta abordagem terapêutica específica, permitirá, sem dúvida, a redução dos índices desses agravantes. Apesar de pouco estudadas, as complicações digestivas ocorrem em torno de 2% no pós-operatório de Cirurgia Cardíaca, sendo a hemorragia digestiva alta a mais comum dentre elas. As ulcerações são responsáveis por cerca de 60% das hemorragias digestivas, tendo resolução espontânea em 80% dos casos, conferindo maior morbidade ao POI. As causas principais de hemorragias digestivas são varizes do esôfago ou do fundo gástrico, síndrome de Mallory-Weiss, úlcera do esôfago ou esofagite, gastrite erosiva, neoplasias de esôfago e estômago, úlceras isquêmicas e hipertensão portal. Na vigência do sangramento, além de suporte e reposição volêmica, uma das primeiras medidas de urgência seria o tamponamento com balão esofágico. A endoscopia digestiva deverá ser realizada o mais rápido possível, não apenas pelo sentido de localizar o sangramento, mas, principalmente, pela sua ação terapêutica por meio de esclerose e/ou ligadura elástica da veia sangrante. Infecção em Pós- Operatório de Cirurgia Cardíaca A partir do momento em que o paciente entra em cirurgia cardíaca, com circulação extracorpórea ou não, uma série de eventos pode ocorrer. A síndrome de resposta inflamatória sistêmica é o mais importante deles, pois há a liberação de citocinas pelo músculo cardíaco e pulmões. Essas alterações sistêmicas muitas vezes podem ser confundidas com quadro séptico ou pulmão de choque. A febre, quando no pós-operatório, nem sempre é decorrente de quadro infeccioso, podendo ser atribuída à própria circulação extracorpórea. As principais complicações infecciosas que podem ocorrer são as do sítio cirúrgico, seguidas por pneumonia, sepse, infecções relacionadas a cateteres e infecções do trato urinário. Medidas preventivas devem ser instituídas pelas comissões de controle de infecção hospitalar e seguidas pela comunidade hospitalar com o objetivo de diminuir o risco de o paciente adquirir uma infecção pós- operatória. Deve-se também conhecer a flora bacteriana predominante no hospital, 208 AN02FREV001/REV 4.0 217 conforme o tipo de infecção, com a finalidade de se introduzir corretamente a terapia empírica inicial. Sabe-se que, mesmo que as técnicas de assepsia, antissepsia e antibioticoprofilaxia sejam seguidas rigorosamente, a grande maioria das infecções pós-cirúrgicas é de origem endógena. A infecção em pós-operatório de maneira geral é um sério problema, pois pode aumentar o tempo de internação, majorando a letalidade, a mortalidade e os custos hospitalares. Dentre as infecções hospitalares, a infecção do sítio cirúrgico é a segunda causa mais frequente, sendo suplantada somente pela infecção urinária. Existem vários fatores que podem favorecer o aparecimento de infecção no sítio cirúrgico: fatores relacionados ao hospedeiro (obesidade, extremos de idade, duração do tempo de hospitalização pré-operatória, presença de infecção em outros sítios, índice de gravidade da doença) e fatores relacionados ao procedimento (má vascularização, má aproximação das bordas, presença de tecido necrótico, corpo estranho, tempo cirúrgico, além de outros problemas técnicos referentes ao ato cirúrgico). O Center for Diseases Control (1999) lançou algumas recomendações para a prevenção da infecção de sítio cirúrgico: tratar todas as infecções preexistentes antes da cirurgia; não realizar tricotomia pré-operatória, a não ser que os pelos atrapalhem a técnicacirúrgica; e utilizar antibioticoprofilaxia endovenosa durante todo o procedimento e algumas horas após. Outras infecções que podem acometer os pacientes em pós-operatório de cirurgia cardíaca são relacionadas aos procedimentos de terapia intensiva, principalmente quando o paciente permanece por um tempo maior na Unidade de Terapia Intensiva, em decorrência de complicações clínicas e/ou cirúrgica. Temos, nesses casos, pneumonias relacionadas à ventilação mecânica, infecções urinárias, infecções relacionadas a cateteres e sepse. 209 AN02FREV001/REV 4.0 218 Avaliação Renal em Cirurgia Cardíaca Tanto os rins quanto o coração fazem parte do sistema circulatório, onde este é responsável pelo transporte de nutrientes e oxigênio aos tecidos e aquele é responsável pela remoção de substâncias produzidas pelo metabolismo celular. Os rins participam ativamente do controle da pressão arterial e sua função é regulada por diversos mecanismos intrínsecos e extrínsecos, que se alteram quando o paciente é submetido à cirurgia cardíaca, principalmente com circulação extracorpórea. É fundamental, portanto, que se efetue controle rigoroso da função renal do paciente operado, uma vez que causas pré, intra e pós-operatórias podem causar insuficiência renal, que se acompanha de maior risco cirúrgico. Frente à disfunção renal, deve-se agir prontamente, até com a instalação de diálise. A circulação extracorpórea, muito utilizada em cirurgia cardíaca, determina uma série de modificações fisiológicas. O contato do sangue com a superfície da membrana do filtro da circulação extracorpórea leva a uma resposta inflamatória generalizada, por meio de um sistema de cascata com a participação de uma série de enzimas proteolíticas, que promovem modificações hemodinâmicas importantes, podendo chegar até aos quadros graves de vasoplegia. Durante a circulação extracorpórea o fluxo sanguíneo renal diminui aproximadamente 25% a 75%, onde leva a uma redução da reserva funcional renal, que chega a demorar até seis meses para retornar ao normal após a cirurgia cardíaca. A disfunção renal em cirurgia cardíaca tem prevalência de aproximadamente 35% após circulação extracorpórea. Insuficiência renal aguda que necessita de suporte dialítico acontece em aproximadamente 1,5% dos pacientes submetidos a este procedimento. 210 AN02FREV001/REV 4.0 219 Infecção Respiratória no Pós-Operatório de Cirurgia Cardíaca A insuficiência respiratória é definida como a incapacidade do sistema respiratório em manter as necessidades metabólicas do organismo, resultando em hipóxia e/ou hipercarbia. A insuficiência respiratória é uma complicação frequente, sendo a causa mais significativa de morbidade no pós-operatório de cirurgia cardíaca. Interferem em sua instalação: condições do sistema respiratório prévias à cirurgia (pacientes portadores de pneumonia, em vigência de descompensação cardíaca, ou com doenças que interfiram no funcionamento respiratório ou em seu estado nutricional); fatores intraoperatórios, tendo importância particular a anestesia e a circulação extracorpórea; e fatores pós-operatórios, representados particularmente pela assistência ventilatória mecânica, com potencial para causar lesões pulmonares e torná-las críticas. Os cuidados iniciais com o paciente sob assistência ventilatória mecânica, a programação ventilatória adequada e o manejo apropriado das complicações tanto da disfunção ventilatória como cardiovascular são primordiais para a melhora do prognóstico ou, no mínimo, para se evitar a geração de lesões pulmonares adicionais. Os principais objetivos da abordagem terapêutica são, portanto, a correção do processo fisiopatológico, a atenuação dos efeitos da incapacidade temporária do sistema respiratório e a adequação do transporte periférico de oxigênio, além de evitar ou minimizar as possíveis complicações, como desnutrição, infecção e cronicidade do processo. 211 AN02FREV001/REV 4.0 220 Arritmias no Pós-Operatório de Cirurgia Cardíaca As arritmias cardíacas são achados comuns no pós-operatório de cirurgias cardíacas, acometendo entre 20% e 40% dos pacientes. São causas de retardo na evolução clínica em decorrência dos distúrbios hemodinâmicos que acarretam. Taquicardias rápidas aumentam o consumo de oxigênio miocárdico e provocam baixo débito, cuja gravidade dependerá do grau de disfunção ventricular. A fibrilação atrial e a taquirritimia são mais comuns e suas consequências se dão por elevação da frequência cardíaca e os fenômenos tromboembólicos A falta de estudos prospectivos impede a instalação de uma conduta definitiva como tratamento. Ou faz-se a prevenção medicamentosa, ou a utilização de marca-passo para a estimulação atrial contínua. O risco de tromboembolismo deve ser considerado e a tendência atual é que os pacientes sejam anticoagulados quando a arritmia tem a duração igual ou maior que 48 horas. Infarto Agudo do Miocárdio no Pós-Operatório de Cirurgia Cardíaca O Infarto Agudo do Miocárdio no pós-operatório de revascularização do miocárdio é considerado de difícil diagnóstico, pois os sintomas como a dor torácica e a dispneia são comuns nesta população, limitando a avaliação clínica ou tornando- a impossível na maioria dos casos. A dor torácica que envolve as regiões, anterior do tórax e epigástrio é comum no pós-operatório decorrente da esternotomia mediana, drenos mediastinais e pleurais, e pericardite. A mobilização prolongada pode causar dor em região dorsal e cervical e a intubação ortraqueal pode causar dor em região mandibular. A dispneia pode ser decorrente da congestão venocapilar, secreções em vias aéreas superiores, atelectasias pulmonares, derrame pleural, pneumotórax e presença de drenos pleurais e mediastinais. A diaforese ocorre secundária à hipoglicemia, à hipóxia, à hipotensão arterial, à dor intensa e às náuseas e vômitos. 212 AN02FREV001/REV 4.0 221 Nas primeiras horas após o término da cirurgia a avaliação clínica fica prejudicada pelos efeitos anestésicos, associado à dificuldade de comunicação pela entubação orotraqueal. As alterações clínicas mais comuns do infarto perioperatório são a instabilidade hemodinâmica e/ou a presença de arritmia ventricular grave. Na presença dessas alterações deve-se avaliar cuidadosamente o paciente para excluir esse diagnóstico. Alterações no Sistema Nervoso e Periférico As complicações que ocorrem no sistema nervoso central e periférico continuam presentes mesmo com os avanços tecnológicos nesta área. Com o aumento da média de idade dos pacientes, essas complicações tornam-se mais frequentes. As encefalopatias tóxicas e metabólicas são comuns, porém de controle clínico satisfatório na maioria das vezes. As alterações comportamentais agudas e crônicas estão amplamente demonstradas. O acidente vascular cerebral isquêmico é complicação de alta morbidade, sendo mais comum em cirurgias intracardíacas. As artérias aorta e carótida também têm papel importante na causa do acidente vascular cerebral. O acidente vascular cerebral hemorrágico é menos frequente. O diagnóstico e tratamento são específicos para cada tipo. A encefalopatia anóxia pode levar ao coma transitório, com recuperação ou estado vegetativo permanente. As convulsões podem ter manifestações isoladas ou associadas a outras complicações. As lesões do sistema nervoso mais comuns são as do plexo braquial. Vasoplegia em Cirurgia Cardíaca A vasoplegia é uma antiga causa de instabilidade hemodinâmica em cirurgia cardíaca. Estatísticas baseadas na estratificação de risco utilizando marcadores da inflamação evidenciam incidência precoce de 2% a 10% associadas à maior 213 AN02FREV001/REV 4.0 222 morbidade e maior mortalidade. A situaçãode instabilidade hemodinâmica após cirurgias cardíacas tem sido descrita como síndrome pós-perfusional, síndrome vasoplégica e síndrome de baixa resistência vascular periférica, todas podendo ser enquadradas na terminologia geral de síndrome da resposta inflamatória sistêmica. Essa situação vem sendo responsável por mortes em cirurgia cardíaca, muitas vezes em casos cuja indicação cirúrgica não está associada a grandes riscos, o que acarreta uma situação extremamente dramática. Ela é desencadeada, em parte, pela circulação extracorpórea e contribui fortemente para a morbidade, por exemplo, depressão do miocárdio, e com a mortalidade em pacientes submetidos à cirurgia cardíaca. Parada Cardíaca no Pós-Operatório de Cirurgia Cardíaca A parada cardíaca caracteriza-se pela ausência da atividade mecânica miocárdica eficaz e, em qualquer ocasião, representa um acontecimento grave e potencialmente fatal, com riscos de sequelas futuras, principalmente neurológicas. Durante o pós-operatório da cirurgia cardíaca, esta se torna ainda mais grave, pois apresenta aspectos particulares, sendo este um coração com sofrimento miocárdico previamente estabelecido. A melhor forma de tratamento da parada cardíaca é o reconhecimento precoce e a correção desses fatores desencadeantes. Uma vez instalada, a parada cardíaca exige abordagem rápida, coordenada e eficaz, fatores de fundamental importância para a obtenção do sucesso em sua reversão e para minimizar a ocorrência de sequelas. 5.8 TRANSPLANTE CARDÍACO O transplante de órgãos permite que indivíduos seriamente incapacitados ou com a vida em risco possam conduzi-la de forma mais funcional e confortável. O rim foi o primeiro órgão a ser transplantado com sucesso em humanos e hoje são 214 AN02FREV001/REV 4.0 223 transplantados também fígado, pâncreas, pulmões, coração, intestinos, medula óssea, ossos, córnea, pele, veias safenas e válvulas do coração. Transplante cardíaco é a colocação de um coração saudável de doador humano em uma pessoa cujo órgão está gravemente comprometido. Indica-se o transplante quando falência cardíaca congestiva ou grave dano ao músculo cardíaco não podem ser tratados por outro meio clínico ou cirúrgico. Reserva-se o procedimento àqueles indivíduos com alto risco de falecer de doença cardíaca em menos de um ou dois anos. A maioria dos pacientes que recebe um transplante de coração teve uma das duas condições a seguir: lesão irreversível no coração causada por doenças das artérias coronárias com múltiplos ataques cardíacos; ou miocardiopatias, isto é, doença do músculo cardíaco. Nessa última situação o coração não se contrai normalmente em razão de lesões nas células musculares resultantes de infecções bacterianas ou virais, ou ainda por fatores hereditários. Indicações do Transplante A indicação principal do transplante cardíaco é a insuficiência cardíaca irreversível, com importante dispneia e fadiga extrema, resistente a tratamentos clínicos. O ventrículo esquerdo apresenta-se muito debilitado e a fração de ejeção (proporção de sangue que sai do coração) é frequentemente inferior a 25%. O débito cardíaco está igualmente diminuído, com aumento da pressão pulmonar. O método mais sensível de avaliação da insuficiência cardíaca é a medida das trocas gasosas após esforço e em particular a medida do volume de oxigênio (VO² max). Uma VO² max inferior a 14 ml/min/Kg é indicação obrigatória de transplante cardíaco. Esses são alguns dos mecanismos da grave insuficiência cardíaca: o coração pode estar dilatado (caso das cardiopatias dilatadas primárias ou secundárias a um infarto do miocárdio); o coração pode estar hipertrofiado (paredes muito aumentadas) e não consegue receber quantidade suficiente de sangue; ou o coração pode ainda apresentar doenças específicas do músculo cardíaco, como as miocardites, que são inflamações devidas a um agente infeccioso. Em certos casos, cardiopatias congênitas também exigem transplante cardíaco. 215 AN02FREV001/REV 4.0 224 As principais contraindicações para o transplante são as seguintes: - hipertensão pulmonar com resistência pulmonar elevada; - curta esperança de vida; - câncer em evolução; - infecções graves; - flebites e embolia pulmonar repetidas; - toxicomania; - aterosclerose; - diabetes insulinodependente, com frequentes complicações; - insuficiência hepática; - insuficiência renal avançada; - distúrbios psíquicos, instabilidade psicossocial; - úlcera digestiva não controlada; - soropositividade para HIV; - osteoporose severa; - obesidade severa; - doença imunológica com possível agressão ao coração. A contraindicação mais importante é a existência de hipertensão da circulação pulmonar, traduzida pela elevação da resistência pulmonar. No caso de lesão pulmonar, torna-se então necessário um transplante coração-pulmão. A Técnica de Transplante Um transplante cardíaco exige duas equipes cirúrgicas envolvidas: uma para retirar o coração do doador e a outra para implantá-lo no receptor. Uma equipe coordena as diferentes intervenções e assegura que o coração do doador é compatível com o receptor. 216 AN02FREV001/REV 4.0 225 A retirada do coração do doador Esta etapa é capital, pois a qualidade do órgão a ser implantado condiciona o sucesso da operação. Os critérios de qualidade de um implante cardíaco são os seguintes: idade do doador inferior a 45 anos, sexo masculino, menos de três horas de distância até o receptor e compatibilidade do sistema HLA-DR (compatibilidade sanguínea) entre doador e receptor. O cirurgião abre o tórax através do osso esterno e examina o coração. Esse deve estar se contraindo normalmente e não deve apresentar sinais de contusão. Dissecam-se então a aorta (vaso pelo qual sai o sangue do coração para todo o corpo) e as veias cavas (vasos através dos quais o sangue chega do corpo ao coração). As contrações do coração são então suprimidas por meio de um líquido administrado pela raiz da aorta (líquido de cardioplegia). O coração em seguida é desconectado, após o seccionamento dos grandes vasos – aorta, veias cavas, veias e artérias pulmonares. O órgão é imediatamente imerso em soro resfriado a 4ºC e transportado o mais rapidamente possível (por via terrestre e aérea principalmente) para o hospital do receptor. O implante do coração no receptor O coração doente do receptor é primeiramente retirado: o cirurgião abre o tórax cortando o esterno e instala a circulação extracorpórea. A aorta e as veias cavas do receptor são clampeadas e o coração pode ser retirado. O cirurgião vai deixar no local uma parte do átrio direito – onde desembocam as veias cavas – e uma parte do átrio esquerdo ao nível da implantação das veias pulmonares, que trazem ao coração o sangue oxigenado vindo dos pulmões. Esta técnica permite ao cirurgião não ter de reimplantar as grandes veias, o que evita numerosas complicações. 217 AN02FREV001/REV 4.0 226 O coração do doador pode agora ser colocado no lugar. A técnica operatória tem, portanto 4 pontos de ancoragem: o átrio esquerdo, o átrio direito, a aorta e a artéria pulmonar. O átrio esquerdo (que recebe as veias pulmonares) do receptor é suturado à parte correspondente do átrio esquerdo do coração doado e o mesmo é feito para o átrio direito. Em seguida a artéria pulmonar do receptor é ligada em sua posição, na saída do ventrículo direito do doador, e da mesma forma a aorta é conectada ao ventrículo esquerdo. O coração é esvaziado e o ar totalmente evacuado. O órgão enxertado pode então receber o sangue do paciente receptor e a circulação extracorpórea é desconectada, após ter-se assegurado do bom funcionamento do coração. 5.8.1 Recepção do Paciente na UTI no Pós-Operatório de CirurgiaCardíaca pelo Enfermeiro O paciente deve ser atendido com eficácia, rapidez e coordenação. Será recebido por um enfermeiro e sua equipe de enfermagem. Funções do ENFERMEIRO: x Conectará o paciente ao ventilador, que previamente terá sido programado com os parâmetros ventilatórios adequados; x Verificará se o paciente é portador de marca-passo e as características do mesmo; x Realizará uma primeira coleta de sangue, para que sejam confiáveis os resultados de bioquímica e gasometria arterial; x Realizará uma prescrição de enfermagem; x Observar os parâmetros hemodinâmicos, o estado de consciência, a boa auscultação em ambos os campos pulmonares; x Observar a equipe de enfermagem na administração de medicações que sempre será feita através de torneira de três vias, nunca por punção do sistema; 218 AN02FREV001/REV 4.0 227 x Observar a existência de sangramentos nos locais de inserção de vias centrais e periféricas de drenagens; x Fazer a evolução de enfermagem; x Dará o apoio necessário em outros procedimentos clínicos gerais e de enfermagem. 5.9 PROTOCOLO DE ORIENTAÇÃO PÓS ALTA HOSPITALAR PARA PACIENTES ADULTOS SUBMETIDOS À CIRURGIA CARDÍACA Alimentação A alimentação deve ser escolhida com muito critério e sem excessos, seguindo as seguintes orientações para sua recuperação: 1 - Utilize óleo vegetal, leite magro e produtos derivados do leite sem gordura; 2 - Buscar alimentar-se de peixes, aves ou carnes magras; 3 - Frutas, legumes e verduras são importantes devido às vitaminas e fibras que elas contêm e que são fundamentais para o bom funcionamento do aparelho gastrointestinal; 4 - Gordura animal, frituras, massas, açúcar e sal em excesso são prejudiciais; 5 - Não ingerir bebidas alcoólicas durante os primeiros meses após a cirurgia e somente consumir após liberação do seu médico; 6 - Evitar a ingestão de café, pois em grande quantidade é estimulante do sistema Nervoso Central; 7 - Caso você seja diabético, procure orientações do médico ou nutricionista. Medicação Na alta hospitalar o médico deverá dar receita e todas as orientações referentes a medicamentos a serem utilizados. Evite automedicação. 219 AN02FREV001/REV 4.0 228 Incisões 1 - Nas incisões cirúrgicas pode ocorrer formigamento, queimação, coceira com frequência, mas estes eventos são normais e dissipam-se espontaneamente com o decorrer dos próximos seis meses; 2 - Caso ocorra secreção ou abertura da cicatriz procure o seu médico imediatamente; 3 - Caso sinta que ao movimentar-se o esterno produz um barulho estranho, procure seu médico; 4 - Após a alta, lave normalmente a cicatriz com seu sabonete de preferência e seque a pele com toalha limpa e seca; 5 - O seu osso esterno precisará de 60 dias para sua total consolidação, por isto tome os cuidados devidos; 6 - Não receba sol diretamente na cicatriz por 30 dias. Caso o faça, utilize protetor solar acima de 30(FPS). Banho 1 - Tome banho normalmente com água corrente, com seu sabonete de preferência; 2 - Se nos primeiros dias sentir-se inseguro quanto ao banho, solicite auxílio de outra pessoa; 3 - Caso tenha alguma incisão ainda não cicatrizada, tome banho e depois faça o curativo e avise ao seu médico; 4 - Natação ou banho de piscina deverão somente ser realizados após 60 dias da alta hospitalar e com autorização do seu médico. Sexo 1 - Atividade sexual poderá somente ser iniciada após 30 dias da alta hospitalar; 2 - A atividade deve ser feita em posições passivas; 3 - Deve-se observar moderação nesta prática. 220 AN02FREV001/REV 4.0 229 Sono 1 - Você poderá dormir 8 horas por noite; 2 - Caso não consiga dormir, procure orientação médica; 3 - Evite tomar café, pois é estimulante, recomendam-se chás relaxantes (ex: camomila, erva cidreira ou outros de sua preferência); 4 - Evite situações de estresse; 5 - Procure relaxar ouvindo boa música e ler bons livros, etc. Fumo 1 - É terminantemente proibido fumar após a alta hospitalar, pois o cigarro danifica de forma irreversível o tecido pulmonar causando aumento da pressão arterial, além da constrição vascular das artérias; 2 - Este hábito só poderá ser realizado com autorização do seu médico. Relacionamento Social Nos primeiros 15 dias: 1 - Repouso em casa de forma tranquila; 2 - Procure não receber visitas em excesso; 3 - Evitar locais de aglomeração; 4 - Evitar aborrecimentos, situações tensas e de estresse; 5 - Relaxe e descanse ao máximo. Após 15 dias · Poderá realizar visitas curtas a familiares e amigos. Atividade Física Nos primeiros 10 dias 221 AN02FREV001/REV 4.0 230 1 - Movimentos sem esforço, permanecer uma parcela de tempo deitado, outra andando e uma parcela de tempo sentado, manter um equilíbrio sem fazer esforço; 2 - Evite fazer esforços físicos pesados; 3 - Evite carregar peso (crianças, malas, etc.); 4 - Evite exercícios que movimentem os braços em excesso (manusear martelo, bater bolo, trocar pneu, etc.). Trabalho 1 - O retorno ao trabalho deverá ser feito de forma gradativa e após 30 dias da alta hospitalar, assumindo meio período de acordo com o tipo de atividade exercida; 2 - Após 60 dias de alta hospitalar poderá assumir período integral; 3 - Se o seu trabalho exigir a utilização da força do seu corpo (braços) deverá buscar orientação médica para autorização ou não do início das atividades profissionais; 4 - Evite situações de ansiedade, estresse e fadiga. Viagens 1 - Recomendam-se trajetos de no máximo 2 horas no 1º mês; 2 - Trajetos que se estendam por mais de 2 horas é aconselhado interromper o trajeto e caminhar períodos curtos; 3 - Aguardar liberação médica para viagens prolongadas; 4 - Evite subir escadas. Se for indispensável, faça-o com auxílio de uma pessoa, subindo devagar e parando a cada três degraus. Após 1º dia 1 - Evite carregar peso; 2 - Faça caminhadas diariamente em locais planos; 3 - Evite exercícios prolongados e cansativos; 4 - Não realizar exercícios após as refeições; • As caminhadas deverão ser aumentadas consecutivamente com passos normais: duração de 15 a 20 minutos, sendo caminhadas diárias; 222 AN02FREV001/REV 4.0 231 5 - Dirigir automóvel somente após 30 dias da alta e com liberação do seu médico; 6 - Atividades domésticas somente poderão ser realizadas após 60 dias da alta hospitalar, com moderação, e devem ser iniciadas de forma passiva e gradativa, evitando todo o tipo de cansaço e estresse e com liberação do seu médico; 7 - Esportes em geral somente deverão ser realizados após autorização do seu médico. Orientações da Fisioterapia 1 - Os exercícios respiratórios – sempre inspiratórios – devem ser realizados diariamente, pelo menos 2 vezes ao dia; 2 - Evitar os movimentos de rotação e pressão sobre o tórax, pois os mesmos podem forçar o osso esterno e prejudicar a sua consolidação, que leva em torno de 6 a 8 semanas. 3 - Caso persista tosse com expectoração: A) A eliminação desta secreção residual é fundamental para melhor oxigenação dos tecidos e disposição para atividades físicas. B) Não iniba a tosse, utilize almofadas ou travesseiros para apoio do tórax e realize primeiramente tosses suaves com aumento gradativo das mesmas, porém sem causar grandes esforços. C) As nebulizações podem continuar sendo realizadas em casa desde que haja necessidade. Respeite os cuidados com a esterilização do aparelho; D) Se o seu médico liberou a ingestão de líquidos, é recomendável o consumo de 1 a 2 litros, dividindo esse consumo durante o dia todo. Cuidados para prevenir o edema de membros inferiores: 4 - Quando sentado, mantenha as pernas elevadas; 5- Realize exercícios ativos de dorsi e planti flexão dos pés (movimentos paracima e para baixo); 6 - Massagens podem ser realizadas nos pés e pernas, auxiliando o retorno venoso, como orientado antes da alta; Procure não exagerar na execução dos exercícios; Procure um programa de reabilitação cardíaca. 223 AN02FREV001/REV 4.0 232 Consulta após a alta hospitalar Após oito dias da alta hospitalar recomenda-se a primeira consulta com seu médico cardiologista. Evite fazer outra cirurgia. Procure seu médico e faça check-up periodicamente. FIM DO MÓDULO IV 224 AN02FREV001/REV 4.0 234 MÓDULO V 6 DROGAS UTILIZADAS EM CARDIOLOGIA 6.1 DROGAS QUE ATUAM SOBRE AS PLAQUETAS Drogas antiplaquetárias Ativação plaquetária Agressões que produzam alteração ou perda das células endoteliais levam a dois fenômenos simultâneos: a ativação de plaquetas e da coagulação, que são sinérgicos na formação do trombo. A célula endotelial lesada perde a capacidade de produzir os fatores que impedem a adesão de plaquetas, como o óxido nítrico ou “endothelial derived relaxing factor (EDRF)” e a Prostaciclina (PGI3), além de permitir a exposição de estruturas subendoteliais, especialmente o colágeno. Com a exposição de estruturas subendoteliais, as plaquetas ligam-se ao colágeno por meio de sítios específicos, o complexo formado pelas glicoproteínas Ib e IX (GP IbIX), que também se une ao fator plasmático, o fator de von Willebrand, formando uma ponte entre as plaquetas e o subendotélio. Outros agentes agregantes plaquetários atuam por meio de receptores específicos: trombina, o principal ativador em condições fisiológicas, adenosina difosfato (ADP), tromboxane A2, serotonina, prostaglandinas. Essa interação com receptores da superfície plaquetária aciona os gatilhos para sua ativação, por meio de sinal transmitido para o interior da célula. O sinal gerado pela interação entre o ligante e o receptor faz a mediação da transformação de compostos altamente fosforilados em mensageiros intracitoplasmáticos. 225 AN02FREV001/REV 4.0 235 A geração do segundo mensageiro em qualquer das duas vias é feita dentro do citoplasma da plaqueta por meio da ativação do sistema de proteínas ligadoras de guanina – as proteínas G –, presentes também em outras células. A proteína G, na face interna da plaqueta, liga-se a uma molécula de guanina difosfato (GDP) em situação de repouso. O ligante interage com o receptor específico para ele, na face externa da membrana plaquetária. A molécula de GDP dissocia-se então da proteína, deixando-a livre. Uma molécula de guanina trifosfato (GTP) liga-se em seu lugar e interage com a enzima fosfolipase C ou a adenil ciclase, que é o amplificador de sinal, dentro da membrana plaquetária. Essa enzima então vai converter um composto fosforilado em segundo mensageiro, que inicia a resposta plaquetária. Na via de ativação, a fosfolipase C transforma o fosfatidilinositol em inositol trifosfato e diacilglicerol. Na via de inibição, a adenil ciclase converte a adenosina trifosfato (ATP) em adenosina monofosfato cíclico (AMPc). A fosfolipase C é uma família de enzimas que representam o segundo mensageiro para agonistas plaquetários, como a trombina, o colágeno, o PAF, os endoperóxidos de prostaglandinas, a desmopressina e a adrenalina. Sua função é quebrar uma ligação na molécula do fosfatidil inositol (PIP2) da membrana plaquetária, formando dois compostos importantes na ativação plaquetária: o inositol trifosfato (IP3), que atua aumentando o cálcio intracitoplasmático, e o diacilglicerol (DG), que ativa a proteína cinase C. Tanto o aumento do cálcio intracitoplasmático como a ativação da proteína cinase C atuam de modo sinérgico, estimulando várias etapas da intensificação plaquetária, isto é, a secreção de grânulos e liberação do ácido araquidônico do estoque de fosfolipídios da membrana plaquetária. O cálcio intracitoplasmático liga- se à calmodulina, ativando o sistema contrátil actina-miosina e promovendo a mudança de forma e secreção dos grânulos plaquetários. Isso resulta no recrutamento de novas plaquetas por meio dos constituintes dos grânulos, como o ADP e a serotonina. O cálcio ativa ainda a fosfolipase A2, que libera o ácido araquidônico a partir do fosfatidilinositol da membrana plaquetária, iniciando a via de síntese de prostaglandinas e de tromboxane A2. O ácido araquidônico sofre deacilação, por meio da via da ciclo-oxigenase, que o transforma em endoperóxidos de prostaglandina: prostaglandina G2 (PGG2) e prostaglandina H2 (PGH2). Esses são 226 AN02FREV001/REV 4.0 236 então transformados em tromboxane A2 pela tromboxane sintetase, presente apenas nas plaquetas. O tromboxane A2 também recruta novas plaquetas para o local de formação do trombo. É nesse ponto que atua o agente antiagregante mais utilizado mundialmente: a aspirina. Ela acetila a ciclo-oxigenase de modo irreversível, inibindo a síntese de tromboxane A2 e a ativação plaquetária. Após ativação, a proteína cinase C modifica a conformação da glicoproteína (GP) IIb/IIIa, o que a torna capaz de ligar o fibrinogênio, promovendo a interação plaqueta a plaqueta. A ligação do fibrinogênio à GP IIb/IIIa é específica e dependente de íons cálcio. Só ocorre quando a plaqueta foi ativada, não ocorrendo ligação à plaqueta em repouso. O abximab, composto pela fração Fab da imunoglobulina quimérica (humana e de coelho) dirigida contra a GP IIb/IIIa, permite a inibição desse ponto da função plaquetária. Essa droga tem sido utilizada, com sucesso, na prevenção de trombose em procedimentos como a angioplastia. O agente capaz de inibir a função plaquetária é a prostaciclina, ou PGI3, produzida na célula endotelial. A PGI3 liga-se a um receptor específico, ativando a proteína G, que atua sobre a adenilciclase da membrana plaquetária. A adenilciclase leva à transformação do ATP em AMPc. A adenosina monofosfato (AMP) impede a liberação de cálcio do sistema tubular denso, inibindo a ação do inositol trifosfato e de várias cinases, prevenindo a agregação plaquetária. Ácido Acetilsalicílico O tromboxane A2 (TA2) é um indutor da agregação plaquetária e potente vasoconstritor, sendo produzido pelas plaquetas através do metabolismo do ácido aracdônico. A cicloxigenase é enzima fundamental nesse metabolismo, produzindo na plaqueta uma endoperoxidase precursora do TA2. O ácido acetilsalicílico (AAS) bloqueia de forma irreversível a cicloxigenase que na plaqueta existe em quantidade limitada por não existir produção proteica neste fragmento celular. Assim, a ação de inibição plaquetária do AAS dura por toda a vida da plaqueta, que é de 7 a 10 dias. Doses diárias de 160 mg causam um bloqueio completo da ação da cicloxigenase plaquetária, sendo 320 mg/dia a dose máxima usada em estudos. Doses maiores não aumentam a eficácia antiplaquetária e produzem efeito de bloqueio de outros eicosanoides, interferindo na produção de prostaciclinas, o 227 AN02FREV001/REV 4.0 237 que não é desejável. Doses maiores também podem acarretar maior incidência de paraefeitos, como sangramentos. Há evidências de um segundo mecanismo de ação do AAS, que seria impedir a trombinogenese por um mecanismo independente da cicloxigenase, colaboraria com seu efeito antitrombótico. O AAS está indicado em TODAS as síndromes coronarianas agudas ou crônicas e nos procedimentos de revascularização, desde que não haja contraindicação formal à droga. A profilaxia primária da DAC com o uso de AAS em pacientes sem doença coronariana conhecida não é indicada, pois não há benefício evidente. Pode ser considerado como exceção seu uso no homem sem DAC diagnosticada, acima de 50 anos, com vários fatores de risco não controlados para a DAC. Nome comercial: AAS (Sanofi-Synthelabo) comp.100/500mg; Aceticil (Cazi) 100/500mg Aspirina (Bayer) comp. 500mg; Aspirina prevent(Bayer) cápsulas 100mg; Aspisin (Farmasa) gotas 200mg/ml; Alidor (Aventis Pharma) 500mg; Analgesin (Teuto Brasileiro) 100/500mg; Antifebrin (Royton) 100/500mg; A-Salicil (Itafarma) 100/500mg; Bufferin (Bristol Meyers Squibb) 500mg; Cimaas (Cimed) 100/500mg; Somalgim (Novaquimica) comp. 325/500mg; Somalgim cardio (Novaquimica) comp. 100/325mg; Acido Acetilsalicilico (EMS, NeoVita,Vital Brazil, Green Pharma, Catarinense) Ticlopidina e Clopidogrel Ambos os compostos são derivados da tienopiridina, sem ação in vitro, sugerindo serem precursores de um metabólito ativo não identificado. São antagonistas seletivos, não competitivos da agregação plaquetária pela via do ADP, bloqueando a ativação do receptor IIb/IIIa, mas não atuando diretamente sobre este 228 AN02FREV001/REV 4.0 238 receptor. A ticlopidina e o clopidogrel inibem a agregação plaquetária e a retração do coágulo, prolongando o teste de tempo de sangramento. A principal indicação é a substituição do AAS nos casos de contraindicação ou intolerância ao AAS. É usada em associação ao AAS na PTCA eletiva. O efeito máximo da droga só ocorre após vários dias de uso e após a sua interrupção persiste por vários dias. O Clopidogrel tem potência equivalente seis vezes maior que a Ticlopidina. O principal paraefeito da Ticlopidina é toxicidade para a medula óssea (leucopenia, trombocitopenia e pancitopenia). O clopidogrel não possui essa toxicidade quando testado em ratos. Ticlopidina - Nome comercial: Ticlid (Sanofi) comp. 250mg; Cloridrato de Ticlopidina (Biosintética, Merck) comp. 250mg. Clopidogrel - Nome Comercial: Plavix (Sanofi) comp. 75mg 6.2 DROGAS QUE ATUAM SOBRE A TROMBINA Heparina Mecanismo de ação: Heparina catalisa a reação de inibição da antitrombina III sobre a trombina e fatores Xa, IXa, XIa, XIIa e calicreina. Uso Clínico: EV 5.000U em bólus, seguido de 1000 a 1.600 U / H em BI. Dose: controlada pelo PTTa, que deve permanecer de 1,5 a 2,5 o padrão. Inicialmente o controle deve ser de 6/6h, podendo passar para uso diário após atingir “steady-state”. - SC em megadoses, como substituição aos cumarínicos, como por exemplo, durante a gestação, em doses de até 35.000U/dia em três doses diárias. 229 AN02FREV001/REV 4.0 239 - SC em baixas doses 5.000U 12/12H para profilaxia da trombose venosa profunda e do tromboembolismo. Efeitos Adversos: Sangramento, trombocitopenia após 7 a 14 dias de uso contínuo. Antídoto: Sulfato de Protamina - 1mg / 100 U Heparina Nome Comercial: Actaprin (Bergamo) 0,25ml/5.000U e 5ml/25.000U; Cellparin (Cellofarm) 5ml/25.000U; Disotron (Ariston) 5ml/25.000U. Heparinas de Baixo peso molecular Enoxiparina: Clexane (Aventis) 20 / 40mg - amp uso SC 6.3 BLOQUEADORES DOS CANAIS DE CÁLCIO Uso no IAM Apesar de evidências de ação anti-isquêmica, o uso dos bloqueadores de cálcio na fase aguda do IAM não é indicado, e o emprego rotineiro demonstrou em estudos aumento da mortalidade. O uso de di-hidropiridinas de ação curta demonstrou aumento da mortalidade de forma dose dependente. Não existem no momento estudos sobre di-hidropiridinas de nova geração, não havendo recomendação de seu uso rotineiro. Quanto ao diltiazem e o verapamil os estudos não demonstraram benefícios em relação à mortalidade ou na redução da área infartada, salvo um benefício em relação à prevenção de arritmias supraventriculares. Apesar de evidências sugerindo a redução do reinfarto com o uso nos primeiros dias após o IAM não Q, esses dados não possuem um suporte estatístico significativo, pois os trabalhos que demonstraram melhora da mortalidade com o uso 230 AN02FREV001/REV 4.0 240 dessas drogas são passíveis de crítica. Recomendação de uso no IAM: Não há. Contraindicações específicas para o uso no IAM: Estado hemodinâmico Killip II ou maior. Uso na Angina instável O alívio dos sintomas produzido pelos bloqueadores de cálcio é comparável ao dos betabloqueadores. No entanto, não ocorre redução na incidência do IAM ou reduz a mortalidade. Portanto, são drogas de segunda escolha nessa situação, utilizados em associação, nos casos em que não se consiga controle satisfatório com betabloqueadores e nitratos apenas. Máxima atenção deve ser dada ao paciente com disfunção ventricular utilizando essa associação. Uso na Angina estável A eficácia dos antagonistas do cálcio em pacientes com angina pectoris é relacionada à redução da demanda de oxigênio, associado a um aumento da oferta por vasodilatação. Essa última ação tem grande valor nos pacientes com angina de Prinzmetal ou com reserva coronariana reduzida. São eficazes isoladamente ou em conjunto com betabloqueadores ou nitratos. Das drogas existentes no Brasil o FDA aprova para uso nos Estados Unidos para o controle da angina estável o Verapamil, o Diltiazem, a Nifedipina, a Nicardipina e a Amlodipina. Todos causam dilatação arterial sistêmica e coronariana, por ação na musculatura lisa do vaso. Os betabloqueadores são a primeira escolha na maioria das situações de DAC crônica, por extrapolação do pensamento de melhora de sobrevida no IAM e na angina instável e a falta desse efeito nos bloqueadores do cálcio. No entanto, os bloqueadores do cálcio devem ser lembrados nas seguintes situações: Contraindicações aos betabloqueadores: - como nos casos de asma; 231 AN02FREV001/REV 4.0 241 - bradicardia sinusal ou doença do nó sinusal; - angina de Prinzmetal; - doença arterial periférica; - disfunção ventricular (apenas di-hidropiridinas nesse caso); - angina com desencadeamento variável. 6.4 BETABLOQUEADORES Betabloqueadores no IAM O uso na fase aguda do IAM reduz o índice cardíaco, a frequência cardíaca e a pressão arterial. Em última análise, diminui o consumo de oxigênio pelo miocárdio. Um efeito metabólico benéfico do beta bloqueio é a redução dos níveis sérios de ácidos graxos, causada pela inibição da lipólise, por redução das catecolaminas. Os ácidos graxos livres aumentam o consumo de miocárdico de O2 e provavelmente a incidência de arritmias. O uso na fase aguda, em especial nas primeiras 4 horas de IAM, reduz a área infartada. Ocorre redução da mortalidade, do reinfarto e de parada cardíaca não fatal. Apesar da droga potencialmente poder causar aumento dos níveis da pressão capilar pulmonar, ela só leva ao edema agudo de pulmão ou choque cardiogênico em cerca de 2 a 3 % dos casos de IAM, se o paciente for bem selecionado. Recomendação de uso: Pacientes em estado hiperdinâmico, taquicardia sinusal, hipertensão, na ausência de sinais de insuficiência ventricular ou broncoespasmo, em especial nas primeiras 4 horas de IAM. Caso não haja contraindicações o betabloqueador deve ser mantido no pós IAM por pelo menos dois anos. Caso o paciente apresente alguma complicação como broncoespasmo, insuficiência cardíaca ou bloqueio AV, a droga deve ser suspensa. Não devem ser usados no IAM os betabloqueadores com atividade simpaticomimética intrínseca, como o pindolol e o oxprenolol. 232 AN02FREV001/REV 4.0 242 Contraindicações específicas para o uso no IAM: - FC menor que 60 bpm; - PA sistólica menor que 100mmHg; - Insuficiência Ventricular esquerda moderada ou severa; - Sinais de hipoperfusão periférica; - ECG com PR maior que 0,22 s; - BAV de 2º (seja tipo I ou II) ou 3º grau; - Doença pulmonar obstrutiva crônica severa. Contraindicações relativas: - Passado de asma; - Doença vascular periférica severa; - Diabetes mellitus insulinodependente de difícil controle. Angina instável Deve ser administrado a todos os pacientes com angina instável desde que não estejam incluídos em contraindicação da droga. Pacientes que não usavam anteriormente o betabloqueador deve ter esta incluídaà sua prescrição mesmo que já em uso de bloqueadores de cálcio ou nitratos. Os pacientes já em uso do betabloqueador devem ter como parâmetro a frequência cardíaca, que deve permanecer em torno de 60 bpm, para o ajuste de dose. Novamente nessa situação a insuficiência cardíaca originada pela isquemia pode melhorar com o betabloqueador, seja por disfunção sistólica ou diastólica. Descompensação de insuficiência cardíaca não é comum se respeitadas as contraindicações. Angina estável Pelas suas propriedades anti-isquêmicas, anti-hipertensivas e antiarrítmicas, pela redução comprovada da mortalidade do IAM e do reinfarto, o betabloqueador é a pedra angular do tratamento da doença coronariana crônica, sendo extremamente útil no controle desses pacientes. Normalmente são bem tolerados, reduzem o limiar 233 AN02FREV001/REV 4.0 243 e a frequência da angina, seja em uso isolado ou em conjunto com outros anti- isquêmicos. 6.5 OS NITRATOS Nitrito de amilo; Nitroglicerina; Dinitrato de Isossorbida; 5-mononitrato de isossorbida; Propatilnitrato. Mecanismo de ação: Produzindo a liberação de óxido nítrico a nível vascular, ativa a guanilato ciclase nas células musculares lisas. O aumento do GMPc intracelular no músculo liso vascular produz a desfosforilação da cadeia leve de miosina, que é a reguladora do estado contrátil desse músculo, levando ao relaxamento da parede vascular. Os efeitos farmacológicos e bioquímicos dos nitratos são idênticos aos do fator relaxante derivado do endotélio, que é o próprio óxido nítrico. O nitrato endógeno é derivado da transformação da l-arginina em citrulina, pela óxido nítrico sintetase existente no endotélio. Efeito Hemodinâmico: Os nitratos produzem o relaxamento vascular em artérias e veias. Baixas concentrações de nitratos produzem uma vasodilatação predominantemente mais venosa do que arteriolar. A venodilatação predominante produz diminuição do volume das câmaras cardíacas e da pressão diastólica final, ocorrendo pouca alteração na resistência vascular sistêmica. A pressão arterial pode cair pouco e a frequência cardíaca normalmente se mantém inalterada ou pouco aumentada por ação reflexa. A resistência vascular pulmonar diminui, bem como o débito cardíaco. Mesmo doses que não alterem a pressão arterial levam à dilatação arteriolar nos vasos meníngeos, induzindo a flush facial e à cefaleia. Doses elevadas podem causar maior sequestro venoso, hipotensão e baixo débito. Efeitos na circulação coronariana: Os nitratos têm a capacidade de causar vasodilatação das artérias epicárdicas mesmo que acometidas por aterosclerose. 234 AN02FREV001/REV 4.0 244 Promove a redistribuição do fluxo coronariano para áreas isquêmicas. Produz principalmente a diminuição da demanda de oxigênio miocárdico indiretamente por meio do seu efeito hemodinâmico. A redução do volume e da pressão diastólica final dos ventrículos leva a uma redução da tensão da parede ventricular. A tensão da parede é um dos principais determinantes do nível de consumo de oxigênio pela fibra miocárdica e sua redução parece ser o principal mecanismo antianginoso dos nitratos. Metabolismo: Os nitratos orgânicos lipossolúveis sofrem metabolização hepática pela enzima glutation-redutase, gerando compostos mais hidrossolúveis menos potentes e nitritos inorgânicos. Esse metabolismo vai determinar a biodisponibilidade e o tempo de ação da droga. O tempo de absorção do dinitrato de isossorbida e da nitroglicerina é rápida, levando a concentrações plasmáticas em cerca de 5 minutos. A meia vida desses dois compostos é da ordem de 40 minutos, sendo um pouco mais rápida a da nitroglicerina. O 5-monitrato de isossorbida possui uma meia vida mais longa, permitindo uma posologia melhor, sendo usado por via oral. Tolerância: O uso contínuo dos nitratos leva à redução do seu efeito farmacológico com o passar do tempo. Esta tolerância pode ser diminuída se o uso do nitrato for interrompido por cerca de 8 a 12 horas entre a última dose de um dia e a primeira dose do dia seguinte. O 5-mononitrato deve ser prescrito com horário excêntrico (ex: 08h00 e 16h00) para evitar esse fenômeno, não devendo ser usado em intervalos regulares (ex: 12/12h). Efeitos colaterais: Cefaleia é um efeito comum e pode ser severa. Normalmente diminui após alguns dias de tratamento. Pode ocorrer hipotensão postural em pacientes imobilizados por longos períodos. Mononitrato de Isossorbida Nome comercial: Angil (Sanval) 5/10mg Monocordil (Baldacci) 20/40/50mg , Cincordil (Novaquimica) comp 20/40mg; Coronar (Biolab) comp. 20mg / amp. 10mg /1ml. 235 AN02FREV001/REV 4.0 245 6.6 DROGAS VASOATIVAS Comumente empregadas nos pacientes graves, às drogas vasoativas são de uso corriqueiro nas unidades de terapia intensiva e o conhecimento exato da sua farmacocinética e farmacodinâmica é de vital importância, pois daí decorre o sucesso ou mesmo o insucesso de sua utilização. O termo droga vasoativa é atribuído às substâncias que apresentam efeitos vasculares periféricos, pulmonares ou cardíacos, sejam eles diretos ou indiretos, atuando em pequenas doses e com respostas dependentes de efeito rápido e curto, através de receptores situados no endotélio vascular. Então, na maioria das vezes, é necessário o uso da monitorização hemodinâmica, invasiva, quando da utilização dessas substâncias, pois suas potentes ações determinam mudanças drásticas tanto em parâmetros circulatórios como respiratórios, podendo, do seu uso inadequado, advir efeitos colaterais indesejáveis, graves e deletérios, que obrigam sua suspensão. As drogas vasoativas mais empregadas são as catecolaminas, também denominadas aminas vasoativas ou drogas simpatomiméticas. Dentre elas destacam-se a noradrenalina (NA), a adrenalina, a dopamina, a dopexamina, a dobutamina e o isoproterenol. Dispomos, também, da amrinone e dos vasodilatadores (nitroprussiato de sódio, nitratos, clorpromazina, prazozin, captopril, enalapril e bloqueadores de cálcio). AGENTES SIMPATOMIMÉTICOS As catecolaminas (adrenalina, noradrenalina, dopexamina, dopamina, isoproterenol e dobutamina) e drogas não catecolaminas (metaraminol, fenilefrina e metoxamina) são os agentes simpatomiméticos mais utilizados. As catecolaminas exibem efeitos de acordo com a dose utilizada, podendo estimular receptores alfa, beta e dopa. Essas drogas são, então, classificadas em alfa-adrenérgicas, beta- adrenérgicas e dopaminérgicas ou mistas, de acordo com o predomínio de receptores sensibilizados. 236 AN02FREV001/REV 4.0 246 Dopamina Indicações As indicações principais da Dopamina estão relacionadas aos estados de baixo débito com volemia controlada ou aumentada (efeito beta-adrenérgico). Pelo fato de essa droga vasoativa possuir, em baixas doses, um efeito vasodilatador renal, é também indicado em situações nas quais os parâmetros hemodinâmicos estejam estáveis, porém com oligúria persistente (efeito dopaminérgico). Ela pode, também, ser utilizado em condições de choque com resistência periférica, diminuída (efeito alfa-adrenérgico). Doses A diluição padrão é de cinco (5) ampolas em 200 ml de solução (ringer simples ou lactato), soro fisiológico (SF 0,9%), soro glicosado (SG 5%) sendo somente incompatível com soluções alcalinas. Essa diluição apresentará uma concentração final da droga de 1 mg/mL. A dopamina é disponível na forma de cloridrato de dopamina em ampolas com 50 e 200 mg da droga. Deve ser utilizada sempre diluída e podemos usá-la de 2,5 a 20 mg/kg/min. A dose deve ser administrada de acordo com o efeito desejado e individualizada para cada paciente. Cuidados Deve ser utilizada somente para uso endovenoso, com o cuidado de não haver extravasamento tissular, o que poderá acarretar uma intensa vasoconstriçãolocal, com necrose tecidual. Os efeitos colaterais da dopamina incluem: náuseas, vômitos, arritmias (supraventriculares 4% e ventriculares 1 a 1,5%) e agravamento da vasoconstrição pulmonar. Parece não haver uma interação medicamentosa importante com outras drogas, podendo ser associada a corticoides, catecolaminas e diuréticos. 237 AN02FREV001/REV 4.0 247 Dobutamina A dobutamina é uma droga simpatomimética sintética, com ação predominantemente beta 1 agonista, tendo sido desenvolvida em 1978, depois que a molécula da catecolamina foi modificada, à procura de uma droga que tivesse atividade inotrópica. Trata-se de uma substância derivada da fenilalanina, agindo por meio da estimulação direta nos receptores beta 1 e, indiretamente, nos demais receptores, por meio da liberação de NA que, por sua vez, também estimula receptores beta 1. Possui inúmeros efeitos, pois estimula todos os tipos de receptores, sendo esses dosedependentes. Por ser uma molécula polar, não atravessa a barreira hematoencefálica, não apresentando, assim, ação no sistema nervoso central (SNC). Possui vida média de 1,7 minutos, sendo metabolizada e inativada diretamente pela catecol-o-metil transferase (COMT) e monoamina oxidase (MAO), e parte transformada em noradrenalina e adrenalina. Os seus metabólitos são eliminados por via renal. Esta droga vasoativa possui baixa afinidade por receptores beta 2 e é quase desprovida de efeitos alfa-adrenérgicos. Ao contrário da dopamina, a ação farmacológica da dobutamina não depende das reservas liberáveis de noradrenalina. A dobutamina perde seu efeito hemodinâmico durante infusão prolongada, presumivelmente por causa da diminuição da atividade dos receptores adrenérgicos (“down regulation”), mas mantém o seu efeito hemodinâmico melhor que a dopamina, uma vez que essa diminui as reservas de noradrenalina do miocárdio. A dobutamina possui vida média de dois (2) minutos, seu início de ação é rápido, não havendo, então, necessidade de dose de ataque. A sua excreção é renal. Além disso, a dobutamina apresenta poucos efeitos sobre a FC, aumenta a contratilidade miocárdica e o índice cardíaco, não agindo sobre a resistência vascular, periférica, em doses médias. Indicações A droga é utilizada para melhorar a função ventricular e o desempenho cardíaco em pacientes nos quais a disfunção ventricular acarreta diminuição no volume sistólico e no DC como, por exemplo, choque cardiogênico e insuficiência 238 AN02FREV001/REV 4.0 248 cardíaca, congestiva. O VO2 do miocárdio, sob o uso da dobutamina, é menor do que sob a ação de outras catecolaminas. A estimulação dos betarreceptores provoca leve queda da pressão arterial (PA) por vasodilatação periférica. Há também aumento da velocidade de condução atrioventricular, o que limita seu uso na vigência de fluter ou fibrilação atrial. Doses A dobutamina é disponível na forma de hidrocloridrato de dobutamina, em ampolas de 20 ml, com 250 mg da droga. Dilui-se uma (1) ampola (250 mg) em 230 ml de solução (exceto soluções alcalinas). A concentração final será de 1mg/ml. Sua utilização é sempre diluída, endovenosamente, em infusão contínua, em doses de 3 a 15 mg/kg/min, que deverá ser individualizada para cada paciente de acordo com o efeito hemodinâmico que se espera obter. O início da ação ocorre em dois (2) minutos, com efeito máximo em dez (10) minutos. Efeitos colaterais Os efeitos colaterais da dobutamina incluem: arritmias, dores de cabeça, ansiedade, tremores, aumentos ou reduções excessivas da PA. Noradrenalina (NA) A noradrenalina (NA) é o neurotransmissor do sistema nervoso simpático e precursor da adrenalina. A NA possui atividade tanto no receptor alfa, como beta 1 adrenérgico, com pouca ação sobre receptores beta 2. Dependendo da dose utilizada, obtém-se aumento do volume sistólico, diminuição reflexa da FC e importante vasoconstrição periférica, com aumento da PA. A contratilidade e o trabalho cardíaco também aumentam se o avanço da pós-carga for tolerado pelo ventrículo. A noradrenalina é também um potente vasoconstritor visceral e renal, o que limita sua utilização clínica. É também vasoconstritora sobre a rede vascular, sistêmica e pulmonar, e deve ser usada com prudência em pacientes com hipertensão pulmonar. 239 AN02FREV001/REV 4.0 249 Indicações A noradrenalina é uma droga de eleição no choque séptico, cuja finalidade é elevar a PA em pacientes hipotensos, que não responderam à ressuscitação por volume e a outros inotrópicos menos potentes. Além disso, essa potente droga vasoativa é quase sempre utilizada durante as manobras da ressuscitação cardiopulmonar (RCP), como droga vasoconstritora. A droga é rapidamente eliminada do plasma após a sua administração intravenosa, com vida média de dois (2) a dois e meio (2,5) minutos, embora haja grande variação individual. A sua degradação é hepática e a eliminação renal. Doses Utilizam-se, normalmente, cinco (5) ampolas (2 mg) diluídas em 250 ml de qualquer solução rotineira (exceto em soluções alcalinas), cuja concentração final será de 0,04 mg/ml. A droga é disponível sob a forma de bitartarato de noradrenalina, sendo que a infusão endovenosa, contínua é, geralmente, iniciada em doses de 0,05 a 0,1 mg/kg/min, até que o efeito hemodinâmico desejado seja alcançado e não haja efeitos colaterais importantes. As doses administradas podem atingir um máximo de 1,5 a 2 mg/kg/min. Durante as manobras de RCP podem-se usar doses de 0,1 a 0,2 mg/kg, endovenosas ou intratraqueais, diluídas em 10 ml de água destilada. Cuidados As infusões de NA devem ser administradas preferivelmente por uma veia central, a PA deve ser monitorizada a cada quinze (15) minutos, principalmente durante o ajuste da dose. A função renal também deve ser monitorizada por meio de dosagens de ureia, creatinina e volume de diurese. Cuidados com necrose e escaras, no local da injeção intravenosa, devem ser prevenidos, evitando-se o extravasamento da droga. A infusão deve ser efetuada em veia de grosso calibre e a localização desta deve ser alterada, no mínimo, a cada doze (12) horas. A droga deve ser evitada em grávidas pelo seu efeito contrátil sobre o útero gravídico. A administração de altas concentrações também pode precipitar hipotensão acentuada, infarto do miocárdio ou hemorragia cerebral. 240 AN02FREV001/REV 4.0 250 O uso da noradrenalina, em altas doses e por tempo prolongado, pode provocar graves lesões renais, cutâneas e mesmo cardíacas devido à vasoconstrição excessiva. No choque cardiogênico, o seu uso é limitado devido ao aumento do VO2 e do trabalho cardíaco, provocado pelo incremento da pós-carga no miocárdio isquêmico. Adrenalina A adrenalina é um hormônio endógeno, largamente produzido pela suprarrenal e liberado em resposta ao estresse. Essa droga vasoativa é um potente estimulador alfa e beta-adrenérgico, com notáveis ações sobre o miocárdio, músculos vasculares e outros músculos lisos, cujo efeito vasopressor é muito conhecido. O mecanismo da elevação da PA, causado pela adrenalina, é devido a uma ação direta no miocárdio, com aumento da contração ventricular (inotropismo positivo), um aumento da frequência cardíaca (cronotropismo positivo) e uma vasoconstrição em muitos leitos vasculares (arteríolas da pele, rins e vênulas). Seus efeitos são diferentes, quando a droga é administrada por infusão intravenosa ou injeção subcutânea, sendo que a absorção por esta via é mais lenta devido à ação vasoconstritora, local, causada pela adrenalina. No miocárdio, a adrenalina exerce uma ação direta sobre receptores beta 1 do músculo, células do marca-passo e tecido condutor. A FC e o ritmo quase sempre são alterados. A sístole torna-se mais curta e potente. Aumentam o débito e o trabalho cardíacos, bem como o VO2 do miocárdio. O períodoDurante a sístole ventricular, o sangue se acumula nos átrios, porque as válvulas atrioventriculares estão fechadas. Ao terminar a sístole ventricular, a pressão nos átrios faz com que as válvulas atrioventriculares se abram, permitindo que os ventrículos se encham rapidamente. Esse período é seguido por outro curto período de enchimento mais lento dos ventrículos, com o sangue que continuou a fluir para os átrios durante o período anterior. Na fase final do enchimento ou diástole ventricular, ocorre a sístole atrial. Ao se iniciar a contração ou sístole ventricular, a pressão no interior do ventrículo se eleva muito rapidamente, pelo retesamento das suas fibras, fechando as válvulas atrioventriculares. Logo após uma pequena fração de segundo, o ventrículo ganha pressão suficiente para abrir as válvulas semilunares (aórtica ou pulmonar) e iniciar a ejeção do sangue para as grandes artérias. Cerca de 60% do volume de sangue do ventrículo é ejetado nessa primeira fase da sístole ventricular e os 40% restantes, logo a seguir, um pouco mais lentamente. Ao final da sístole, pouco sangue passa às grandes artérias. A pressão 27 AN02FREV001/REV 4.0 30 ventricular começa a cair rapidamente pelo início do relaxamento da musculatura miocárdica, o que fecha as válvulas aórtica e pulmonar. A continuação do relaxamento ou diástole ventricular, logo a seguir, permite a abertura das válvulas atrioventriculares e se inicia um novo período de enchimento ventricular. 1.17 DÉBITO CARDÍACO E ÍNDICE CARDÍACO Durante a diástole ocorre o enchimento ventricular que, ao final, atinge um volume de aproximadamente 120 ml, chamado volume diastólico final. À medida que a sístole ventricular ejeta sangue para as grandes artérias, o volume ventricular cai, sendo de aproximadamente 50 ml ao final da sístole (volume sistólico final). A diferença entre o volume diastólico final e o volume sistólico final é chamada de volume de ejeção ou volume sistólico e corresponde ao volume de sangue impulsionado a cada batimento cardíaco. Em um adulto, o volume sistólico médio é de cerca de 70 ml de sangue. O volume sistólico varia com os indivíduos, sendo menor nas crianças. No coração normal é o mesmo para ambos os ventrículos. Quando o coração se contrai com mais força o volume sistólico final pode cair para apenas 20 ml. Quando grandes quantidades de sangue fluem para os ventrículos durante a diástole, o volume diastólico final pode atingir 200 ml. Em ambas as circunstâncias, o volume de ejeção ou volume sistólico estará aumentado e, portanto, estará majorado o débito do ventrículo, a cada batimento. O débito cardíaco sistêmico corresponde à quantidade de sangue lançada pelo ventrículo esquerdo na aorta, a cada minuto. Essa é a forma habitual de expressar a função de bomba do coração. Em cada batimento o volume ejetado pelo ventrículo esquerdo na aorta é a diferença entre o volume diastólico final (VDF) e o volume sistólico final (VSF). O débito cardíaco (DC) será igual àquela diferença multiplicada pelo número de batimentos a cada minuto (frequência cardíaca, FC). O débito cardíaco pode ser expresso pela seguinte equação: DC = (VDF - VSF) x FC em que: DC = débito cardíaco, 28 AN02FREV001/REV 4.0 31 VDF = volume diastólico final, VSF = volume sistólico final e, FC = frequência cardíaca. O volume sistólico de um adulto médio é de aproximadamente 70 ml e a frequência cardíaca é de 80 batimentos por minuto. O débito cardíaco desse indivíduo será de 70 x 80 = 5.600ml/min. (5,6 litros/ minuto). O débito cardíaco é habitualmente expresso em litros por minuto (l/min.). Se, em uma criança, por exemplo, o volume diastólico final é de 60 ml, o volume sistólico final é de 25 ml e a frequência cardíaca é de 100 batimentos por minuto, o seu débito cardíaco será: DC = (60 - 25) x 100 = 35 x 100 = 3.500 ml/min ou 3,5 l/min. O débito cardíaco na criança é inferior ao débito calculado para os adultos, o que nos mostra a dificuldade de comparar o débito cardíaco de diferentes indivíduos, em face das variações de seu peso e massa corporal, dos quais dependem os volumes diastólico e sistólico finais. Para permitir a comparação do débito cardíaco entre diferentes indivíduos, usa-se dividir o valor do débito cardíaco pela superfície corpórea (SC), expressa em metros quadrados. Esse novo indicador da função de bomba do coração tem maior significado que o anterior e é chamado de Índice Cardíaco (IC). Se a superfície corpórea do adulto do exemplo anterior é de 1,8 m2 e a superfície corpórea da criança é de 1,1 m2, teremos os seguintes índices da função ventricular: IC = DC/SC = 5,6/1,8 = 3,1 l/min/m2 IC = DC/SC = 3,5/1,1 = 3,1 l/min/m2 O índice cardíaco de ambos os indivíduos é o mesmo, de 3,1 litros de sangue por minuto, por cada metro quadrado de superfície corporal. O índice cardíaco é o indicador mais importante da função do sistema cardiovascular, porque expressa a quantidade de sangue que o coração impulsiona cada minuto, para o transporte dos elementos essenciais à função celular em todos os tecidos do organismo. O índice cardíaco varia com a idade. Nas crianças, é de 2,5 l/ min/m2, 29 AN02FREV001/REV 4.0 32 desde o nascimento, para atingir pouco mais de 4 l/min/m2 aos 10 anos de idade. Na velhice, o índice declina, alcançando os 2,4 l/min/m2, em torno dos oitenta anos. O índice cardíaco normal, para os indivíduos de todas as idades, em repouso, varia de 2,5 a 3,75 l/min/m2 atinge cerca de 120mmHg. 2 MEIOS DIAGNÓSTICOS EM CARDIOLOGIA 2.1 HISTÓRIA CLÍNICA E EXAME FÍSICO DO PACIENTE CARDIOPATA Em primeiro lugar, interrogamos o indivíduo sobre sintomas como, por exemplo, dor torácica, dispneia, edema dos pés e tornozelos e palpitações, os quais sugerem a possibilidade de uma cardiopatia. Em seguida, deve-se perguntar se a pessoa tem outros sintomas como febre, debilidade, fadiga, falta de apetite e mal- estar generalizado, que também são indícios de cardiopatia. A seguir, o paciente é questionado sobre infecções passadas, exposição prévia a agentes químicos, uso de medicações, álcool e tabaco, ambientes doméstico e profissional e atividades de lazer. Também questionamos a pessoa acerca de membros da família que tiveram cardiopatias e moléstias afins e sobre o paciente manifestar alguma outra doença que afete o sistema cardiovascular. Durante o exame físico, anotamos o peso, o estado físico e o aspecto geral da pessoa, verificando a presença de palidez, sudorese ou sonolência – as quais podem ser indicadores sutis de uma cardiopatia. Também são observados o humor do indivíduo e sua disposição, os quais costumam ser afetados pelas cardiopatias. A avaliação da cor da pele é importante, porque a palidez anormal ou a cianose (coloração azulada) podem indicar anemia ou deficiência do fluxo sanguíneo. Esses achados podem indicar que a pele está recebendo oxigênio de forma inadequada devido a uma doença pulmonar, à insuficiência cardíaca ou a problemas circulatórios. Verificamos o pulso de artérias do pescoço, sob os braços, nos cotovelos e pulsos, no abdômen, na região inguinal, nos joelhos e nos tornozelos e pés, para avaliar melhor se o fluxo sanguíneo é adequado e igual em ambos os lados do 30 AN02FREV001/REV 4.0 33 corpo. A pressão arterial e a temperatura corpórea também são verificadas. Qualquer anormalidade pode sugerir uma cardiopatia. As veias no pescoço são então analisadas porque elas estão conectadas diretamente ao átrio direito do coração e fornecem uma indicação sobre o volume e a pressão do sangue que está entrando no lado direito do coração. Nessa etapa do exame a pessoa coloca-se em decúbito dorsal com a parte superior do corpo elevada em um ângulo de 45°. Às vezes, o indivíduo pode sentar- se, permanecer em pé ou deitar em decúbito dorsal totalmenterefratário do músculo ventricular, por sua vez, diminui, predispondo-o ao aparecimento de arritmias. Na musculatura lisa sua ação predominante é de relaxamento pela ativação de receptores alfa e beta- adrenérgicos. A droga exerce, também, importantes efeitos na musculatura brônquica (broncodilatação) pela interação com receptores beta 2 do músculo liso, bronquial, combinada à inibição da degranulação de mastócitos. Esse efeito é determinado largamente pela quantidade de adrenalina circulante, visto que a inervação simpática do músculo liso, brônquico é escassa. A droga também eleva as concentrações de glicose (aumento da neoglicogênese e inibição da secreção de insulina) e do lactato sérico. Pode, também, provocar hipopotassemia e aumento 241 AN02FREV001/REV 4.0 251 dos níveis de ácidos graxos livres. A absorção da adrenalina, quando administrada por via subcutânea, é lenta. Todavia, é mais rápida quando usada por via intravenosa ou intramuscular. As ações se restringem ao trato respiratório, quando a droga é nebulizada, podendo, entretanto, ocorrer reações sistêmicas, acompanhadas de arritmias. A sua metabolização é hepática, sendo que sua vida média é de, aproximadamente, três (3) minutos. Indicações As principais indicações da adrenalina incluem estados de choque circulatório que não respondem às outras catecolaminas menos potentes, em particular no choque cardiogênico, quando de uso combinado com agentes redutores da pós-carga. Recomenda-se esta droga no tratamento de brocoespamos severos, na dose de 0,01 mg/kg até 0,3 mg, a cada vinte (20) minutos. Endovenosamente é indicada no tratamento da anafilaxia e, durante as manobras de ressuscitação cardiopulmonar, é o agente farmacológico de efeito vasoconstritor mais eficaz. Doses A adrenalina é disponível em uma variedade de formulações para as diferentes indicações clínicas e vias de administração. A droga é instável, em solução alcalina, e é oxidada, quando exposta ao ar ou à luz. A sua apresentação mais comumente encontrada são ampolas de 1 ml, com 1 mg da droga (1:1000). Em infusão contínua, costuma-se diluir a droga em SF 0,9% ou SG 5%. Utilizam-se cinco (5) ampolas (5 mg) em 250 ml de solução, cuja concentração será de 20 mg/ml. O início da administração é efetuado com doses de 0,05 a 0,1 mg/kg/min, que podem ser aumentadas, progressivamente, até que se obtenha o efeito hemodinâmico desejado. Doses maiores que 2 mg/kg/min devem ser evitadas. Durante as manobras de RCP, as doses padronizadas são de 0,5 a 1 mg (endovenoso ou endotraqueal, diluídas em 10-20 ml de água destilada) repetidas a cada cinco a dez (5-10) minutos. 242 AN02FREV001/REV 4.0 252 Cuidados A adrenalina deve ser administrada com o auxílio de bombas de infusão, preferivelmente, através de uma veia central (de grosso calibre), uma vez que o extravasamento da droga pode provocar lesões cutâneas importantes. Além disso, há as reações desagradáveis como tremor, ansiedade, tensão, cefaleia, vertigem, dificuldade respiratória, hipertensão grave, hemorragia cerebral, arritmias (principalmente ventriculares) e angina pectoris. Vasodilatadores A falência circulatória aguda possui muitas etiologias, porém os mecanismos determinantes são: a diminuição do volume circulante, a diminuição do DC e a diminuição da resistência vascular periférica. O uso de drogas com ação vasodilatadora é útil nos casos em que a reposição volêmica adequada e a otimização do DC com os agentes inotrópicos não reverteram à condição de baixo débito, persistente. Isso acontece, principalmente, nos casos de choque cardiogênico pós IAM, nos quais existe um aumento nas pressões de enchimento ventricular, associadas a incremento na resistência vascular, periférica (pós-carga). Nitroprussiato de sódio O nitroprussiato de sódio é um vasodilatador misto, com efeitos sobre os territórios arterial e venoso. Age diretamente na musculatura lisa, vascular, pela interação com grupos intracelulares de sulfidrila, inibição do transporte de cálcio e alteração dos nucleotídeos cíclicos, intracelulares. Não apresenta efeito direto sobre as fibras musculares cardíacas, sendo seu incremento no DC devido à ação vasodilatadora. O nitroprussiato de sódio promove uma redução no VO2 do miocárdio. O fluxo sanguíneo renal e a taxa de filtração glomerular são mantidos e a secreção de renina, pelo organismo, é aumentada. A droga promove, então, diminuição da resistência periférica total, diminuição da PA, pouca alteração da FC e redução da resistência vascular, pulmonar, sendo rapidamente metabolizada e convertida em tiocianato através de reação catalisada pela rodonase no fígado. 243 AN02FREV001/REV 4.0 253 Indicações Indicado no tratamento das emergências hipertensivas e como droga auxiliar nos estados de choque circulatório, com pressões de enchimento ventricular e resistência periférica aumentada (situações em que se desejam reduções em curto prazo da pré-carga e/ou pós-carga cardíacas). Doses O nitroprussiato de sódio é utilizado em infusão endovenosa, contínua e exclusivamente em doses que variam de 1 a 5 mg/kg/min. As doses necessárias para se obter uma resposta adequada devem ser tituladas e são variáveis, dependentes da idade do paciente e do grau de hipotensão desejado. A duração da terapêutica não deve exceder três (3) a quatro (4) dias. Dispõe-se, para utilização, de ampolas com 50 mg da droga, normalmente diluídas em 2 ml de solvente e adicionadas a 250 ml de SG 5%, com concentração final de 200 mg/ml. Como existe uma sensibilidade da substância à luz, apenas soluções recentes (no máximo seis (6) horas após o preparo) devem ser utilizadas, e o frasco, assim como o equipo, devem ser envoltos com material opaco. Efeitos colaterais As intoxicações pelo cianeto e tiocianato podem ocorrer, quando se usam doses superiores a 5 mg/kg/min, por tempo prolongado. Parece que a toxicidade desses metabólitos é proporcional à velocidade de infusão e não à quantidade total de nitroprussiato de sódio, administrada. A intoxicação pelo cianeto leva ao bloqueio da respiração aeróbica, celular, promovendo acidose metabólica, sendo, no entanto, um evento de ocorrência rara. Constituem-se sinais de intoxicação aumento na resistência periférica, total, cujo resultado será o aumento da pressão arterial e a redução do DC. O VO2 do miocárdio aumenta proporcionalmente à tensão na parede ventricular. A pressão de enchimento ventricular, aumentada, predispõe à hipertensão pulmonar com grande risco de desenvolvimento de edema agudo de pulmão. Dessa forma, com a diminuição simultânea da pressão de enchimento 244 AN02FREV001/REV 4.0 254 ventricular esquerdo, da resistência periférica total (com redistribuição do fluxo sanguíneo de áreas não essenciais para áreas nobres) e da impedância ao esvaziamento ventricular esquerdo, o uso de vasodilatadores está indicado, ocasionando uma melhor performance cardíaca, com incremento no débito. Consequentemente, a pressão capilar, pulmonar seria reduzida com benefícios imediatos. O uso de vasodilatadores não altera significativamente a frequência cardíaca, visto que há um aumento do volume sistólico, em resposta à queda da resistência vascular, sistêmica, induzida por essas drogas. Os vasodilatadores podem ser classificados, genericamente, de acordo com seu sítio de ação em venodilatadores (nitratos e nitroglicerina), arteriolodilatadores (hidralazina) e de ação mista (nitroprussiato de sódio, prazozin, inibidores da ECA e clorpromazina). Particularmente, o vasodilatador mais utilizado em terapia intensiva é o nitroprussiato de sódio. 6.7 FARMACOLOGIA NA REANIMAÇÃO CARDIORRESPIRATÓRIA Os objetivos: Devemos pensar em farmacologia em termos de indicação e categoria de ação e sempre lembrar os objetivos principais:horizontal. A pele sobre os tornozelos e a perna (e, em alguns casos, sobre a região dorsal inferior) é pressionada, para verificar a presença de acúmulo de líquido (edema) nos tecidos subcutâneos. É utilizado um oftalmoscópio (instrumento que permite examinar o interior do olho) para a observação dos vasos sanguíneos e tecidos nervosos da retina (a membrana sensível à luz existente na superfície interna da parte posterior do olho). São comuns as anormalidades visíveis na retina em pessoas com hipertensão, diabetes, arteriosclerose e infecções bacterianas das válvulas cardíacas. Observamos a região torácica para determinar se a frequência e os movimentos respiratórios são normais e, em seguida, percute o tórax com os dedos para determinar se os pulmões estão cheios de ar, o que seria normal, ou se eles contêm líquido, condição anormal. A percussão também ajuda a determinar se a membrana que envolve o coração (pericárdio) ou a dupla camada membranosa que reveste os pulmões (pleura) contém líquido. Usando um estetoscópio, também auscultamos os sons respiratórios para determinar se o fluxo de ar encontra-se normal ou obstruído e se os pulmões contêm líquido em decorrência da insuficiência cardíaca. Uma das mãos é colocada sobre o tórax para determinar o tamanho do coração, o tipo e a força das contrações durante cada batimento cardíaco. Às vezes, um fluxo sanguíneo turbulento e anormal no interior dos vasos ou entre as câmaras cardíacas causa uma vibração que pode ser sentida com a ponta dos dedos ou a palma da mão. Com um estetoscópio, escutamos o coração (procedimento denominado auscultação), observando os diferentes sons produzidos pela abertura e pelo fechamento das válvulas. 31 AN02FREV001/REV 4.0 34 FIGURA 16 Anormalidades das válvulas e de estruturas cardíacas produzem um fluxo sanguíneo turbulento, o qual dá origem a sons característicos denominados sopros. Em geral, o fluxo sanguíneo turbulento ocorre quando o sangue passa por válvulas estenosadas (estreitadas) ou insuficientes (que permitem o refluxo). No entanto, nem todas as cardiopatias causam sopros, e nem todos os sopros indicam cardiopatia. É comum mulheres grávidas apresentarem sopros cardíacos em razão do aumento normal do fluxo sanguíneo. Sopros cardíacos inofensivos também são comuns em bebês e crianças, em virtude do rápido fluxo do sangue através das pequenas estruturas do coração. À medida que as paredes dos vasos, das válvulas e dos outros tecidos se enrijecem nos idosos, o sangue vai fluindo de forma turbulenta, mesmo que não exista cardiopatia grave subjacente. O posicionamento do estetoscópio sobre artérias e veias em qualquer outro ponto do corpo permite realizarmos a auscultação em busca de sons do fluxo sanguíneo turbulento, denominados ruídos e causados pelo estreitamento (estenose) dos vasos ou por conexões anormais entre vasos. 32 AN02FREV001/REV 4.0 35 FIGURA 17 Palpamos o abdômen para determinar se o fígado está aumentado de volume em consequência do acúmulo de sangue nas veias principais que se dirigem ao coração. Um abdômen com um aumento anormal de volume em decorrência da retenção de líquido pode indicar insuficiência cardíaca. O pulso e o tamanho da aorta abdominal também são verificados. Os membros inferiores devem ser observados quanto à perfusão, edema e simetria dos pulsos periféricos. 2.2 EXAME FÍSICO/CARDIOLOGIA 2.2.1. Inspeção do Tórax ABAULAMENTOS Causas Extracardíacas Causas Cardíacas 33 AN02FREV001/REV 4.0 36 RETRAÇÕES Cicatrizes de toracotomia PULSAÇÕES ANORMAIS Precordiais Epigástricas ICTUS CORDIS 2.2.2 Palpação do Tórax 1. ICTUS CORDIS: Localização; Extensão; Intensidade; Mobilidade; 2. FRÊMITO CATÁREO: Sede; Tempo; Intensidade; 3. CHOQUE VALVAR; 4. ATRITO PERICÁRDICO; 5. RITMO DE GALOPE; 6. PULSAÇÕES ANORMAIS. 2.2.3 Percussão do Tórax 1. LIMITES NORMAIS DA ÁREA CARDÍACA; 2. MACICEZ CARDÍACA; 2.2.4 Ausculta Cardíaca a) FOCOS DE AUSCULTA 34 AN02FREV001/REV 4.0 37 Foco Aórtico: 2º espaço intercostal direito, linha paraesternal; Foco Pulmonar: 2º espaço intercostal esquerdo, linha paraesternal; Foco Tricúspide: base apêndice xifoide; Foco Mitral ou Apical: 5º espaço intercostal na linha hemiclavicular à esquerda do esterno (sede do ictus). b) RITMO: Regular; c) FREQUÊNCIA Recém-nascidos: 130 a 160 bpm; Lactentes: 110 a 130 bpm; Crianças: 80 a 120 bpm; Adultos: 60 a100 bpm. d) BULHAS CARDÍACAS B1- Fechamento das válvulas mitral e tricúspide; B2 - Fechamento das válvulas aórtica e pulmonar; B3 - Presente em crianças e adultos jovens; B4 – Patológica. SOPROS (alterações das bulhas cardíacas) Avaliação x INTENSIDADE: + sopro suave ++ sopro moderado +++ sopro forte ++++ sopro intenso x TIMBRE: Suave - Musical - Áspero x DURAÇÃO: Proto - início do ciclo; 35 AN02FREV001/REV 4.0 38 Meso - parte média do ciclo; Tele - segunda parte do ciclo; Holo - todo o ciclo. x IRRADIAÇÃO Classificação - Sistólico: Ocupam total ou parcialmente a sístole (ejeção e/ou regurgitação); - Diastólico: Ocupam total ou parcialmente a diástole (regurgitação e/ou enchimento ventricular); - Contínuos: Regurgitação e obstrução. - Inocentes: Sopros suaves e sem frêmitos 2.3 PACIENTE SEM ALTERAÇÕES AO EXAME CARDIOVASCULAR x Precórdio calmo. Ausência de abaulamentos e retrações. Ausência de pulsações visíveis e palpáveis nas regiões paraesternal, epigástrica, supraclaviculares e em fúrcula. x Ictus cordis visível e palpável no 5º espaço intercostal esquerdo (EICE), na linha hemiclavicular esquerda (LHCE) (a 10 cm da linha médio-esternal), normoimpulsivo, com frequência de 75 bpm, rítmico, de amplitude normal, com uma polpa digital de extensão, com discreta mobilidade ao decúbito de Pachón (deslocamento de cerca de 2 cm para esquerda). Ausência de frêmitos e de atrito pericárdico palpável. Bulhas cardíacas (choques valvares) impalpáveis. x A percussão da área cardíaca mostra limite de transição de submacicez para som claro pulmonar no 3º, 4º e 5º EICE a 4, 7 e 10 cm da borda esternal esquerda, respectivamente. x À ausculta observa-se ritmo cardíaco regular em 2 tempos, bulhas normofonéticas com desdobramento fisiológico (respiratório) da 2ª bulha no foco pulmonar, ausência de sopros e de atrito pericárdico. 36 AN02FREV001/REV 4.0 39 2.4 EXAMES DIAGNÓSTICOS EM CARDIOLOGIA Exames de Sangue 2.4.1 Creatino Kinase (CK) É uma enzima citoplasmática e mitocondrial que cataliza a fosforilação reversível da creatinina com formação de ATP. A CK é composta de duas subunidades (M e B) que se combinam em três tipos: MM, MB e BB que são encontradas em maior proporção respectivamente, no musculoesquelético, cardíaco e nos tecidos. Elevações de MM são encontradas nas disfunções tireoideanas e BB nas doenças gastrointestinais, adenomas, carcinomas, doenças vasculares, autoimunes e cirrose. Portanto, a sua elevação não significa necessariamente Infarto Agudo do Miocárdio (IAM). A associação clínica com ECG e outras provas laboratoriais aumentam o seu valor diagnóstico no IAM. A elevação do CK Total ocorre 4 a 8 horas após o início da dor peitoral, tendo o seu pico máximo de 12 a 24 horas, retornando ao normal em 3 a 4 dias. Os níveis aumentados podem indicar: infarto do miocárdio, lesão da musculatura cardíaca ou esquelética, doença muscular cardíaca congênita, acidente vascular cerebral, injeções intramusculares, hipotireoidismo, doenças infecciosas, embolia pulmonar, hipertermia maligna, convulsões generalizadas, neoplasias de próstata, vesícula e trato gastrintestinal. Considerando as limitações da CKtotal, o CKMB é um marcador mais específico para detecção de lesões no miocárdio, pois 25 a 46% da concentração desta enzima encontram-se no músculo cardíaco e apenas 5% no musculoesquelético. Elevações de CKMB ocorrem de 2 a 6 horas após as manifestações cardíacas, com pico máximo em torno de 24 horas, retornando ao normal dentro de 48 horas. Precocidade de sua detecção e maior especificidade faz com que ela seja o marcador de escolha em relação ao CK Total. 37 AN02FREV001/REV 4.0 40 2.4.2 CK-MB É uma isoenzima da creatina fosfoquinase (CPK) que corresponde à enzima liberada pelo músculo cardíaco. Esta enzima eleva-se quando ocorre isquemia em uma determinada região do músculo cardíaco. No infarto agudo do miocárdio os valores de CK-MB podem estar superiores a 16 U/L e entre 4% a 25% do valor de CPK total. A interpretação dos resultados pode ser a seguinte: Valores de CK-MB acima de 16 U/L, mas inferiores a 4% do valor do CPK total podem sugerir lesão de musculoesquelético; CK-MB acima de 25% do valor do CPK total pode indicar presença de isoenzima, nesse caso o indicado é dosar o CK-MB por meio de metodologias alternativas, como no caso do CK-MB por quimioluminescência. A interpretação deste exame é a seguinte: o CK-MB encontra-se predominantemente no músculo cardíaco, sendo responsável por aproximadamente 10 a 40% das miocardites. Os danos no miocárdio originam a liberação transitória de CKMB para a circulação. Esse aumento de CKMB atinge o auge entre 12 e 24 horas, depois regressa ao normal dentro de 48 a 72 horas. 2.4.3 CK-MB massa Enquanto na dosagem de CK-MB é determinada a atividade da enzima, o teste de CK-MB massa detecta sua concentração, independentemente de sua atividade, o que torna o CK-MB massa mais confiável que os testes de CK-MB atividade. Dessa maneira, o CK-MB massa apresenta melhor sensibilidade analítica, pois detecta enzimas ativas e inativas. A sensibilidade analítica também aumenta, já que pode detectar lesões no miocárdio 1 a 2 horas antes do CK-MB. A menor incidência de resultados falso- positivos ocorre devido ao fato de o teste não sofrer interferência de outras enzimas com atividade semelhante. Na prática laboratorial podem-se encontrar valores de 38 AN02FREV001/REV 4.0 41 CK-MB maiores que CK total, isso ocorre devido a formas macromoleculares da enzima (macro-CK), que levam a resultados falso-positivos em ensaios de CK-MB. Por meio de alguns exames de sangue é possível detectar tanto um risco para doença arterial coronariana como a presença de doença arterial coronariana. No primeiro caso, certas substâncias são dosadas e quando estão acima dos valores normais indicam um risco para desenvolver a doença arterial coronariana e, no segundo caso, algumas substâncias chamadas de enzimas, quando aumentadas, indicam dano ou isquemia no miocárdio. A seguir serão apresentados os exames laboratoriais mais comumente realizados na avaliação do risco para doença arterial coronariana. 2.4.4 Troponina T É um exame que começa a ser muito utilizado no diagnóstico do infarto agudo do miocárdio. Esta enzima é liberada no sangue a partir de 2 a 8 horas após a lesão do miocárdio. Os valores se elevam por um período de 2 horas a 14 dias após o infarto. O resultado positivo significa que a concentração de Troponina T contida na amostra supera o valor de sensibilidade do teste, que é 0,1 ng/ml. Entretanto, o resultado negativo não permite excluir com segurança um infarto do miocárdio nas primeiras 8 horas após a aparição dos primeiros sintomas. Se a suspeita persistir, o exame deve ser repetido em intervalos apropriados. Pode-se utilizar uma ampla gama de exames e procedimentos para a realização de diagnósticos rápidos e precisos. A tecnologia inclui as mensurações elétricas, os estudos radiográficos, a ecocardiografia, a ressonância magnética (RM), a tomografia por emissão de pósitrons (TEP) e o cateterismo cardíaco. A maioria dos procedimentos diagnósticos cardíacos apresenta apenas um risco mínimo, mas esse aumenta de acordo com a complexidade do procedimento e a gravidade da cardiopatia subjacente. Nos casos do cateterismo e da angiografia cardíacos, a probabilidade de uma complicação grave – como acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio ou morte – é de 1:1.000. Os testes de esforço apresentam risco de infarto do miocárdio 39 AN02FREV001/REV 4.0 42 ou de morte de 1:5.000. Virtualmente, o único risco dos estudos com radionuclídeos é originário da diminuta dose de radiação recebida pelo paciente, que é inferior à radiação recebida pelos indivíduos na maioria das radiografias. 2.4.5 Colesterol Total Esse é um exame que determina a dosagem total de colesterol no sangue. A unidade de medida é em miligramas por decilitro de sangue (mg/dl). As frações são exames específicos. Abaixo estão os valores para o colesterol e as suas frações. 2.4.6 Colesterol Total e Frações Colesterol Total e Frações Desejável Limite Superior Muito Alto Colesterol Total 240 mg/dl LDL Colesterol 160 mg/dl Triglicérides 200 mg/dl 2.4.7 TGO - Transaminase glutâmico oxaloacética No infarto agudo do miocárdio o aumento do TGO está ligado à necrose de células miocárdicas. A elevação é geralmente moderada, chegando a atingir 10 vezes o limite superior normal. A elevação da TGO aparece entre a sexta e a décima segunda hora após o episódio de dor, atinge seu nível máximo em 24 a 48 horas e o 40 AN02FREV001/REV 4.0 43 seu retorno ao normal se processa entre o quarto e o sétimo dia após o episódio de dor. 2.4.8 TGP - Transaminase glutâmica-pirúvica Nos pacientes com infarto do miocárdio seus níveis de elevação sérica são leves ou ausentes. Entretanto, na insuficiência cardíaca ou no choque com necrose hepática presente pode-se ter níveis elevados. A aplicação principal da determinação desta enzima sérica está no diagnóstico da destruição hepatocelular. 2.5 EXAMES DIAGNÓSTICOS Pode-se utilizar uma ampla gama de exames e procedimentos para a realização de diagnósticos rápidos e precisos. A tecnologia inclui as mensurações elétricas, os estudos radiográficos, a ecocardiografia, a ressonância magnética (RM), a tomografia por emissão de pósitrons (TEP) e o cateterismo cardíaco. A maioria dos procedimentos diagnósticos cardíacos apresenta apenas um risco mínimo, mas esse aumenta de acordo com a complexidade do procedimento e a gravidade da cardiopatia subjacente. Nos casos do cateterismo e da angiografia cardíacos, a probabilidade de uma complicação grave – como acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio ou morte – é de 1:1.000. Os testes de esforço apresentam risco de infarto do miocárdio ou de morte de 1:5.000. Virtualmente, o único risco dos estudos com radionuclídeos é originário da diminuta dose de radiação recebida pelo paciente, que é inferior à radiação recebida pelos indivíduos na maioria das radiografias. 2.5.1 Teste de Esforço 41 AN02FREV001/REV 4.0 44 A resistência dos indivíduos ao exercício fornece ao médico informações sobre a existência e a gravidade de uma doença arterial coronariana e de outros distúrbios cardíacos. Um teste de esforço, o qual permite controlar o ECG e a pressão arterial do indivíduo durante o exercício, pode revelar problemas que não são evidenciados em repouso. Se as artérias coronárias apresentam um bloqueio parcial, o coração pode apresentar uma circulação sanguínea suficiente quando o indivíduo encontra-se em repouso, mas não quando ele se exercita. A realização simultânea de uma prova da função pulmonar pode diferenciar a limitação do exercício por uma doença cardíaca ou pulmonar da limitação em função da ocorrênciaconcomitante de uma patologia cardíaca e uma patologia pulmonar. Durante a prova, a pessoa pedala uma bicicleta ergométrica ou anda sobre uma esteira rolante em um determinado ritmo. FIGURA 18 O ritmo é gradualmente aumentado. O ECG é monitorizado de forma contínua e a pressão arterial é medida em intervalos regulares. Em geral, é solicitado ao indivíduo que está sendo testado que ele continue o teste até a sua frequência cardíaca atingir entre 80 e 90% do máximo para sua idade e seu sexo. 42 AN02FREV001/REV 4.0 45 Se sintomas, como a dificuldade respiratória ou a dor torácica, tornarem-se muito desconfortáveis ou se forem detectadas anormalidades significativas no registro eletrocardiográfico ou da pressão arterial, a prova deve ser interrompida. Os indivíduos que, por alguma razão, não podem realizar exercícios, são submetidas ao eletrocardiograma de estresse, o qual fornece informações semelhantes às do teste de esforço, mas não envolve a prática de exercícios. Em vez disso, uma substância que aumenta o suprimento sanguíneo ao tecido cardíaco normal, mas diminui o suprimento ao tecido anormal, como o dipiridamol ou a adenosina, é injetada no indivíduo para simular os efeitos do esforço. O teste de esforço sugere a presença de uma doença arterial coronariana quando surgem determinadas anormalidades eletrocardiográficas, o indivíduo apresenta angina ou a sua pressão arterial diminui. Nenhum teste é perfeito. Às vezes eles revelam anormalidades em pessoas que não apresentam doença arterial coronariana (resultado falso-positivo) e, às vezes, eles não revelam anormalidades em pessoas que realmente apresentam angina (resultado falso-negativo). Para os indivíduos assintomáticos (sem sintomas), especialmente os mais jovens, a probabilidade de doença arterial coronariana é baixa, apesar de um resultado anormal do teste. Apesar disso, é frequente o teste de esforço ser utilizado com finalidade de controle de indivíduos aparentemente saudáveis como, por exemplo, antes do início de um programa de exercícios ou na avaliação para a realização de um seguro de vida. Os muitos falso-positivos resultantes causam uma preocupação considerável e despesas médicas desnecessárias. Por isso, a maioria dos especialistas não incentiva a utilização do teste de esforço em pessoas assintomáticas. 2.5.2 Eletrocardiografia A eletrocardiografia é um procedimento rápido, simples e indolor, em que impulsos elétricos no coração são amplificados e registrados em uma fita de papel em movimento. O eletrocardiograma (ECG) permite que o médico analise o marca- passo do coração, o qual dispara cada batimento, as vias de condução nervosa do 43 AN02FREV001/REV 4.0 46 coração, a frequência e o ritmo cardíaco. Para obter um ECG, o examinador instala pequenos contatos metálicos (eletrodos) sobre a pele dos braços, das pernas e do tórax do indivíduo. Esses eletrodos mensuram o fluxo e a direção das correntes elétricas no coração durante cada batimento cardíaco. Os eletrodos são conectados por meio de fios metálicos a um aparelho que gera um traçado para cada eletrodo. Cada traçado representa uma “imagem” particular dos padrões elétricos do coração; essas imagens são denominadas derivações. Quase todas as pessoas com suspeita de serem portadoras de uma cardiopatia devem ser submetidas à realização de um ECG. Esse exame pode ajudar a identificar diversos problemas cardíacos, como ritmos cardíacos anormais, suprimento inadequado de sangue e de oxigênio ao coração e um espessamento (hipertrofia) exagerado do miocárdio, o qual pode ser decorrente da hipertensão arterial. O ECG também pode revelar o adelgaçamento do miocárdio ou sua ausência (em razão de sua substituição por tecido não muscular), condição essa que pode ser decorrente de um infarto do miocárdio. O eletrocardiograma (ECG) é uma representação da atividade elétrica do coração, refletida pelas alterações do potencial elétrico na superfície da pele. O ECG é registrado como um traçado sobre uma fita de papel milimetrado, onde os espaços entre as linhas verticais representam a amplitude e distâncias entre si 1 milímetro. Cada 10 milímetros corresponde a 1 milivolt (mV). A distância entre as linhas horizontais medem o tempo, e cada 1 milímetro corresponde a 0,04 segundos ou 400 milissegundos. O ECG é particularmente útil na avaliação das condições que interferem com as funções cardíacas normais, como distúrbios da frequência ou ritmo, anormalidades da condução, crescimento das câmaras cardíacas, presença de um infarto do miocárdio e desequilíbrios eletrolíticos. A informação registrada no ECG representa impulsos elétricos do coração. Os impulsos elétricos representam várias etapas da estimulação cardíaca. Quando se estimula o músculo cardíaco eletricamente, ele se contrai. No estado de repouso as células do coração estão POLARIZADAS, o interior das células se acha NEGATIVAMENTE carregado. Quando se estimula as células a contraírem-se, se tornam POSITIVAMENTE carregadas, denominando-se 44 AN02FREV001/REV 4.0 47 DESPOLARIZAÇÃO. Assim uma onda progressiva de estimulação (despolarização) atravessa o coração, produzindo contração do miocárdio. O estímulo elétrico de despolarização causa contração progressiva das células miocárdicas, quando então a onda de cargas positivas progride para o interior das células. A onda de despolarização (o interior das células se torna positivo) e a repolarização (as células voltam a ser negativas). O impulso elétrico ao se difundir nos átrios forma a primeira onda positiva-onda P. Depois da onda P, registra-se um segmento sem ondas, porque a atividade elétrica é de pequena magnitude - segmento PR, que representa a despolarização do tecido específico (região do nódulo AV e feixe de His). Em seguida, vemos uma onda negativa - onda Q; uma onda positiva alta - onda R e outra negativa - onda S. Forma-se o complexo QRS que representa a estimulação elétrica dos ventrículos e não a contração mecânica das câmaras ventriculares. Em seguida há repouso elétrico do coração quando se inscreve outro segmento sem ondas - segmento ST. Finalmente, inicia-se o fenômeno espontâneo e mais lento da repolarização ventricular, representado por uma deflexão positiva, onda T. Muitas vezes, observa-se outra onda positiva (onda U), que aparece principalmente quando a frequência cardíaca é baixa. Para se registrar o traçado eletrocardiográfico algumas precauções devem ser observadas. ¾ O paciente deve estar preferencialmente deitado e em absoluto repouso - relaxado; ¾ Os eletrodos dos membros deverão ser conectados aos punhos e ao terço inferior das pernas. Todavia, porém podem ser colocados desde a raiz da coxa até o dorso do pé, ou desde o ombro até o dorso da mão, pois que na prática se pode considerar que um eletrodo explorador colocado além de 12 cm do coração capta sempre o mesmo potencial; ¾ Entre a pele e o eletrodo explorador deve ser colocado um bom condutor de eletricidade: certas pastas (gel condutor), álcool ou mesmo água; ¾ As crianças, pela sua natural inquietação, podem ou devem ser sedadas. O ECG consiste em 12 derivações. A informação sobre a atividade elétrica do coração é obtida colocando-se eletrodos sobre a superfície da pele, em posições 45 AN02FREV001/REV 4.0 48 anatômicas convencionadas. As diversas posições dos eletrodos que podem ser monitorizadas são denominadas derivações. Para um ECG completo com 12 derivações, o coração é analisado em cada uma das 12 posições anatômicas diferentes. O sistema é composto de 4 eletrodos periféricos, um em cada braço e cada perna e 6 precordiais, constituindo as derivações standarts (D1, D2, D3) e 3 variáveis (aVR , aVL e aVF). Colocação dos eletrodos nos membros COR POSIÇÃO VERMELHO Braço direito AMARELO Braço esquerdoPRETO Perna direita VERDE Perna esquerda AZUL Precordiais Posição das derivações precordiais Derivação POSIÇÕES V1 4º espaço intercostal na borda direita do esterno V2 4º espaço intercostal na borda esquerda do esterno V3 Espaço intermediário entre V2 e V4 V4 5º espaço intercostal esquerdo na linha médio clavicular V5 5º espaço intercostal esquerdo na linha axilar anterior V6 5º espaço intercostal esquerdo na linha axilar média 2.5.3 ECG: Interpretação das Ondas O eletrocardiograma (ECG) representa a corrente elétrica que percorre o coração durante um batimento cardíaco. Cada parte do ECG é designada por uma letra. Cada batimento cardíaco começa com um impulso do principal marca-passo 46 AN02FREV001/REV 4.0 49 do coração (nódulo sinoatrial). Esse impulso ativa primeiramente as câmaras superiores do coração (átrios). A onda P representa essa ativação dos átrios. Em seguida, a corrente elétrica flui até as câmaras inferiores do coração (ventrículos). O complexo QRS representa a ativação dos ventrículos. A onda T representa a onda de recuperação, enquanto a corrente elétrica dissemina-se de forma retrógrada sobre os ventrículos. Muitos tipos de anormalidades são revelados num ECG. As de compreensão mais fácil são as anormalidades do ritmo do batimento cardíaco: demasiadamente rápido, lento ou irregular. Em geral, ao analisar o ECG, o médico determina em qual parte do coração o ritmo anormal é originado e pode dar início ao processo de determinação de sua causa. 2.5.4 Eletrocardiografia Ambulatorial Contínua (Holter) Os ritmos cardíacos anormais e o fluxo sanguíneo insuficiente ao miocárdio podem ocorrer apenas durante um curto período de tempo ou de maneira imprevisível. Para detectar esses problemas, o médico pode lançar mão da monitorização eletrocardiográfica ambulatorial contínua. Nesse exame, o indivíduo carrega consigo um pequeno aparelho movido à pilha (monitor Holter), o qual registra o ECG durante 24 horas. Enquanto estiver com o monitor, a pessoa anota em um diário o horário e o tipo de qualquer sintoma. Em seguida, o registro é transferido para um computador, o qual analisa a frequência e o ritmo do coração, verifica a ocorrência de alterações na atividade elétrica que possam indicar um fluxo sanguíneo inadequado ao miocárdio e reproduz um registro de cada batimento cardíaco ocorrido durante as 24 horas. Os sintomas armazenados no diário podem então ser relacionados às alterações eletrocardiográficas. Caso seja necessário, o ECG pode ser transmitido por via telefônica a um computador localizado no hospital ou no consultório médico, para leitura imediata, assim que o paciente apresenta sintomas. Aparelhos ambulatoriais sofisticados podem registrar simultaneamente um ECG e um 47 AN02FREV001/REV 4.0 50 eletroencefalograma (mensurações da atividade elétrica do cérebro) em pacientes que apresentam episódios de perda da consciência. Esses registros ajudam a diferenciar as crises convulsivas epilépticas das anormalidades do ritmo cardíaco. FIGURA 19 A pessoa utiliza um pequeno monitor, que é sustentado por um dos ombros por uma correia. Com os eletrodos fixados no tórax, o monitor registra continuamente a atividade elétrica do coração. 2.5.5 Testagem Eletrofisiológica A testagem eletrofisiológica é utilizada na avaliação de alterações graves do ritmo ou da condução elétrica. No hospital, o médico insere diminutos eletrodos através das veias e, em alguns casos, através das artérias, atingindo diretamente o 48 AN02FREV001/REV 4.0 51 interior das câmaras cardíacas, para obter o registro eletrocardiográfico a partir do interior do coração e para identificar a localização exata das vias de condução elétrica. Às vezes o médico provoca intencionalmente um ritmo cardíaco anormal durante a testagem para descobrir se determinado medicamento pode interromper o distúrbio ou se uma cirurgia irá ajudar o paciente. Em caso de necessidade, o médico retorna rapidamente ao ritmo normal com um choque elétrico de curta duração sobre o coração (cardioversão). Embora seja um procedimento invasivo e exija a anestesia do paciente, a testagem eletrofisiológica é muito segura e o seu risco de morte é de 1:5.000. 2.5.6 Exames Radiológicos Qualquer pessoa com suspeita de cardiopatia deve ser submetida a radiografias nas incidências, frontal e de perfil. As radiografias revelam a forma e o tamanho do coração e delineiam os vasos sanguíneos nos pulmões e no tórax. A anormalidade da forma ou do tamanho do coração e alterações, como depósitos de cálcio no interior do coração, são imediatamente observadas. As radiografias torácicas também podem revelar o estado dos pulmões, particularmente dos vasos sanguíneos pulmonares, e a presença de qualquer líquido no interior ou em torno dos pulmões. Frequentemente, a insuficiência cardíaca ou uma alteração de uma válvula cardíaca acarreta um aumento do volume do coração. No entanto, o tamanho do coração pode ser normal mesmo em pessoas com cardiopatia grave. Nos casos de pericardite constritiva, a qual cria um envelope de tecido cicatricial envolvendo o coração, esse não aumenta de volume, mesmo na vigência de uma insuficiência cardíaca. O aspecto dos vasos sanguíneos nos pulmões é muitas vezes mais importante na confirmação diagnóstica do que o aspecto do coração em si. Por exemplo, a dilatação das artérias pulmonares localizadas próximas ao coração e a sua estenose no interior do tecido pulmonar sugerem o aumento do ventrículo direito. 49 AN02FREV001/REV 4.0 52 2.5.7 Tomografia Computadorizada A tomografia computadorizada (TC) comum não é frequentemente utilizada no diagnóstico das cardiopatias. No entanto, ela pode detectar anormalidades estruturais do coração, do pericárdio, dos vasos principais, dos pulmões e das estruturas de sustentação no tórax. Nesse exame, um computador gera imagens de cortes transversais de todo o tórax utilizando raios-X, revelando a localização exata de qualquer anomalia. A tomografia computadorizada é moderna e ultrarrápida, também chamada de cinetomografia computadorizada, fornece uma imagem móvel tridimensional do coração. Esse exame pode ser utilizado na avaliação de anormalidades estruturais e de movimento. 2.5.8 Fluoroscopia (Radioscopia) A fluoroscopia (radioscopia) é um procedimento radiológico contínuo que mostra em um monitor o coração batendo e os pulmões insuflando e desinsuflando. Contudo, a fluoroscopia, a qual envolve uma dose relativamente alta de radiação, vem sendo amplamente substituída pela ecocardiografia e por outros exames. A fluoroscopia também é utilizada como um componente do cateterismo cardíaco e da testagem eletrofisiológica. Ela pode ser útil em alguns diagnósticos difíceis que envolvem doenças valvulares e defeitos congênitos do coração. 2.5.9 Ecocardiografia É uma das técnicas mais amplamente utilizadas no diagnóstico das cardiopatias, por não ser invasiva, não utilizar raios-X e fornecer imagens 50 AN02FREV001/REV 4.0 53 excelentes. O exame é inofensivo, indolor, relativamente barato e amplamente disponível. A ecocardiografia utiliza ondas de ultrassom de alta frequência, as quais são emitidas por uma sonda de registro (transdutor), choca-se contra as estruturas do coração e os vasos sanguíneos e são retornadas, produzindo uma imagem móvel. A imagem é visualizada em um monitor e é registrada em videocassete ou em papel. Ao variar a posição e o ângulo da sonda, o médico visualiza o coração e os vasos sanguíneos importantes sob vários ângulos, obtendo um retrato acurado da estrutura e do funcionamento do coração. Para uma maior nitidez ou para analisar estruturas localizadas na parte posterior do coração, pode-se passar uma sonda através