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MEDLAB CITOLOGIA NORMAL DO COLO UTERINO O exame citopatológico do colo uterino avalia principalmente células descamadas dos epitélios da ectocérvice e endocérvice, sendo especialmente importante a adequada representação da região da junção escamocolunar/zona de transformação, onde se desenvolve a maior parte das lesões precursoras associadas ao HPV. ECTOCÉRVICE A ectocérvice é revestida por epitélio pavimentoso estratificado não queratinizado, cujas células amadurecem progressivamente da camada basal em direção à superfície. Células basais São as células germinativas do epitélio escamoso. São pequenas, arredondadas, com núcleo relativamente grande, alta relação núcleo/citoplasma e citoplasma escasso e basofílico. Possuem capacidade mitótica e encontram-se apoiadas sobre a membrana basal. Em condições habituais, não são normalmente encontradas em grande quantidade no esfregaço cervical, porque estão nas regiões profundas do epitélio. Células parabasais Originam-se da diferenciação das basais. São um pouco maiores, geralmente arredondadas ou ovais, com citoplasma basofílico/cianofílico e relação núcleo/citoplasma ainda relativamente elevada. Podem aparecer fisiologicamente em situações de atrofia, como na pós-menopausa, portanto a presença delas não significa automaticamente lesão. Células intermediárias Resultam da maturação das células parabasais. São maiores, poligonais, apresentam citoplasma abundante e geralmente cianofílico, núcleo menor e podem acumular glicogênio. Células superficiais Representam o estágio mais maduro da diferenciação escamosa. São grandes e poligonais, apresentam citoplasma abundante, frequentemente eosinofílico/orangeofílico, e núcleo pequeno e picnótico. No Papanicolaou, essa diferença tintorial ajuda bastante, pois células superficiais maduras tendem a apresentar citoplasma mais eosinofílico/alaranjado. Enquanto células intermediárias apresentam predominantemente citoplasma cianofílico/basofílico. ENDOCÉRVICE E ZONA DE TRANSFORMAÇÃO A endocérvice é revestida por epitélio cilíndrico simples mucossecretor, diferente do epitélio escamoso da ectocérvice. A região de encontro entre esses dois epitélios é a junção escamocolunar (JEC). Com a exposição do epitélio colunar endocervical ao ambiente vaginal, ocorre metaplasia escamosa fisiológica, com substituição progressiva do epitélio colunar por epitélio escamoso metaplásico. A região compreendida entre a JEC original e a nova JEC corresponde à zona de transformação. A zona de transformação é o principal local de desenvolvimento das lesões precursoras do câncer cervical associadas ao HPV. Portanto, quando se coleta material cervical, interessa obter uma amostra que represente adequadamente essa região. Células endocervicais: são células colunares mucossecretoras que podem aparecer isoladamente ou formando agrupamentos. Quando observadas de frente, podem apresentar disposição regular semelhante a “favo de mel”; quando vistas lateralmente, podem formar fileiras/paliçadas. Apresentam citoplasma delicado, frequentemente mucinoso, e núcleos relativamente uniformes. Células metaplásicas: na zona de transformação, o epitélio colunar endocervical é progressivamente substituído por epitélio escamoso por meio da metaplasia escamosa. As células metaplásicas imaturas apresentam citoplasma relativamente escasso e maior relação núcleo/citoplasma, enquanto, com a maturação, adquirem características semelhantes às células escamosas maduras. A identificação dessas células é importante porque indica representação da zona de transformação, região onde se desenvolve a maioria das lesões precursoras relacionadas ao HPV. INFECÇÃO PELO HPV E DESENVOLVIMENTO DO CÂNCER A infecção pelo HPV começa quando existem microlesões na mucosa do colo uterino, que rompem a barreira epitelial e permitem que o vírus alcance as células basais, principalmente na zona de transformação. Essas células são o principal alvo porque apresentam capacidade proliferativa e dão origem às demais células do epitélio escamoso. Após entrar na célula basal, o HPV mantém inicialmente seu DNA na forma episomal, separado do DNA da célula hospedeira. À medida que a célula infectada se divide e amadurece em direção às camadas superficiais, ocorre a replicação viral, permitindo a produção de novas partículas virais. Essa fase corresponde à infecção produtiva, frequentemente associada a alterações como a coilocitose. Na maioria dos casos, a infecção é transitória e eliminada pelo sistema imunológico. Entretanto, quando ocorre persistência de HPV de alto risco, principalmente dos tipos 16 e 18, aumenta o risco de desenvolvimento de lesões precursoras. Nas infecções persistentes, pode ocorrer a integração do DNA viral ao genoma da célula hospedeira. Durante esse processo, pode haver perda ou interrupção do gene viral E2, que normalmente participa da regulação da expressão de E6 e E7. Com isso, ocorre aumento da atividade dessas duas oncoproteínas. A E6 promove a degradação da proteína supressora tumoral p53, diminuindo a capacidade da célula de interromper o ciclo celular ou entrar em apoptose diante de danos ao DNA. Já a E7 liga-se à proteína pRb, inativando-a e liberando o fator de transcrição E2F, que estimula a progressão do ciclo celular e a proliferação. Assim, células com alterações genéticas continuam se proliferando em vez de serem eliminadas. Com a persistência desse processo, ocorre acúmulo progressivo de alterações genéticas, aumento da proliferação e perda da maturação e diferenciação do epitélio escamoso. Inicialmente, as alterações podem permanecer restritas às camadas inferiores do epitélio, caracterizando NIC 1/LSIL. Com a progressão, passam a comprometer porções maiores da espessura epitelial, originando NIC 2 e NIC 3/HSIL. Enquanto a membrana basal permanece íntegra, a lesão é intraepitelial. Quando as células neoplásicas rompem a membrana basal e invadem o estroma cervical, ocorre a evolução para carcinoma invasivo. COLETA DO PAPANICOLAOU E CONFECÇÃO DO ESFREGAÇO O objetivo da coleta é obter células representativas da ectocérvice, endocérvice e, principalmente, da junção escamocolunar (JEC). Coleta ectocervical — espátula de Ayre: após o posicionamento ginecológico e a introdução do espéculo, o colo uterino é visualizado completamente. Remove-se delicadamente o excesso de muco ou secreções e encaixa-se a extremidade mais longa da espátula no óstio externo do colo. Em seguida, realiza-se uma rotação completa de 360°, mantendo contato com a superfície da ectocérvice. Essa coleta fornece principalmente células escamosas superficiais e intermediárias. Coleta endocervical — cytobrush: a escova endocervical é introduzida no canal cervical até que apenas as cerdas inferiores permaneçam visíveis. Realiza-se uma rotação de aproximadamente 90° a 180°, permitindo desprender células do epitélio colunar endocervical e da JEC. Confecção e fixação do esfregaço: o material ectocervical é transferido imediatamente para uma metade da lâmina, em movimento único, uniforme e delicado. O material endocervical é depositado na outra metade. A fixação deve ser imediata, com álcool etílico a 95% ou spray citológico, antes que o esfregaço seque ao ar, pois o ressecamento produz artefatos que dificultam a avaliação microscópica. Uma amostra satisfatória deve conter células escamosas da ectocérvice e células glandulares da endocérvice ou células metaplásicas da zona de transformação, indicando que a JEC foi adequadamente amostrada. PAPANICOLAU O Papanicolaou é um exame citopatológico utilizado para avaliar a morfologia das células coletadas do colo uterino, principalmente da ectocérvice e endocérvice. A análise permite identificar alterações celulares sugestivas de infecção pelo HPV, lesões intraepiteliais e malignidade. Durante a avaliação citológica, são observadas características como tamanho e forma celular, quantidade e coloração do citoplasma, tamanho e aspecto do núcleo e relação núcleo/citoplasma. As alterações citopatológicas incluem: · Aumento nuclear; ·hipercromasia; · irregularidade da membrana nuclear; · cromatina grosseira; · aumento da relação núcleo/citoplasma; · multinucleação; · alterações da maturação celular; · coilocitose. ASPECTOS DAS CÉLULAS NORMAIS A aparência das células escamosas varia conforme seu grau de maturação. À medida que ocorre diferenciação da camada basal em direção à superfície, há aumento do tamanho celular e da quantidade de citoplasma, enquanto o núcleo se torna progressivamente menor, reduzindo a relação núcleo/citoplasma (N/C). Células basais: pequenas, arredondadas, com citoplasma escasso e basofílico, núcleo relativamente grande e alta relação N/C. Possuem capacidade proliferativa. Células parabasais: maiores que as basais, arredondadas ou ovais, com citoplasma basofílico/cianofílico e relação N/C ainda relativamente elevada. Células intermediárias: grandes e poligonais, com citoplasma abundante e cianofílico, podendo conter glicogênio. O núcleo é menor e a relação N/C é baixa. Células superficiais: representam o maior grau de maturação. São grandes e poligonais, apresentam citoplasma abundante acidofílico/eosinofílico (rosa ou alaranjado) e núcleo pequeno e picnótico. ALTERAÇÕES CITOPATOLÓGICAS No Papanicolaou, a análise não se limita à coloração das células. São avaliadas principalmente alterações nucleares e citoplasmáticas que indiquem atipia. As principais alterações são: · aumento do tamanho nuclear; · hipercromasia nuclear; · irregularidade do contorno/membrana nuclear; · cromatina grosseira; · aumento da relação núcleo/citoplasma; · multinucleação; · alterações da maturação celular; · coilocitose. COLORAÇÃO DE PAPANICOLAOU A coloração de Papanicolaou utiliza diferentes corantes para evidenciar principalmente o núcleo, o grau de maturação celular e as características citoplasmáticas. Hematoxilina: cora os núcleos em azul-escuro ou roxo, permitindo avaliar tamanho nuclear, cromatina, hipercromasia e contorno nuclear. Orange G (OG-6): cora células altamente queratinizadas em tons de laranja ou rosado. EA (eosina + verde-claro): é responsável por grande parte da coloração citoplasmática em rosa ou azul-esverdeado. As células superficiais maduras tendem a apresentar citoplasma mais eosinofílico/alaranjado, enquanto as células intermediárias apresentam predominantemente citoplasma cianofílico/azul-esverdeado. A coloração, isoladamente, não define atipia. A interpretação depende principalmente das alterações nucleares, da relação núcleo/citoplasma e do grau de maturação celular. EFEITO CITOPÁTICO DO HPV — COILOCITOSE A infecção pelo HPV pode provocar alterações morfológicas características nas células escamosas. A principal delas é a coilocitose. O coilócito é uma célula escamosa que apresenta um halo claro ao redor do núcleo (halo perinuclear), acompanhado de alterações nucleares, principalmente: · aumento nuclear; · hipercromasia; · irregularidade do contorno nuclear; · podendo ocorrer binucleação ou multinucleação. A coilocitose representa um importante efeito citopático da infecção pelo HPV e é particularmente característica das lesões intraepiteliais escamosas de baixo grau (LSIL). SISTEMA BETHESDA O Sistema Bethesda é utilizado para classificar os achados citopatológicos cervicais. As principais alterações das células escamosas são divididas em: ASC-US → ASC-H → LSIL → HSIL → carcinoma de células escamosas. Essa sequência representa categorias citológicas de gravidade, e não significa que obrigatoriamente uma lesão passe por todas elas antes de evoluir. ASC-US ASC-US = células escamosas atípicas de significado indeterminado. As células apresentam alterações citológicas maiores do que as esperadas em células normais ou reativas, porém essas alterações não são suficientes para classificá-las como LSIL. Podem apresentar discreto: · aumento nuclear; · aumento da relação N/C; · hipercromasia; · irregularidade nuclear. Existe atipia, mas não há critérios suficientes para afirmar que existe uma lesão intraepitelial. LSIL — LESÃO INTRAEPITELIAL ESCAMOSA DE BAIXO GRAU A LSIL representa alterações citopatológicas relacionadas principalmente à infecção produtiva pelo HPV. As alterações aparecem predominantemente em células superficiais e intermediárias, ou seja, células que ainda apresentam grau relativamente preservado de maturação. As principais características citológicas são: · coilocitose; · aumento nuclear; · hipercromasia; · irregularidade do contorno nuclear; · binucleação ou multinucleação; · alterações nucleares em células com citoplasma ainda relativamente abundante. LSIL = célula relativamente madura + alterações nucleares + efeito citopático do HPV. ASC-H ASC-H = células escamosas atípicas, não sendo possível excluir HSIL. As células apresentam alterações mais preocupantes, geralmente com características de imaturidade celular, como: · menor quantidade de citoplasma; · aumento da relação N/C; · alterações nucleares; · hipercromasia. Entretanto, os achados ainda não preenchem completamente os critérios necessários para o diagnóstico definitivo de HSIL. ASC-H = suspeita de HSIL, mas critérios insuficientes para fechar o diagnóstico citológico de HSIL. HSIL — LESÃO INTRAEPITELIAL ESCAMOSA DE ALTO GRAU Na HSIL, ocorre maior alteração da proliferação e da maturação das células escamosas. As células tornam-se mais imaturas, apresentando características semelhantes às células das camadas basal/parabasal. Citologicamente, predominam: · células menores e imaturas; · citoplasma escasso; · relação núcleo/citoplasma muito aumentada; · núcleos hipercromáticos; · irregularidade acentuada do contorno nuclear; · cromatina grosseira; · perda da maturação celular. HSIL = célula imatura + pouco citoplasma + núcleo proporcionalmente grande e alterado + alta relação N/C. PROGRESSÃO DA LESÃO As lesões precursoras do câncer do colo uterino estão relacionadas principalmente à persistência da infecção por HPV de alto risco. Conforme ocorre progressão da lesão, as células alteradas passam a ocupar porções cada vez maiores da espessura do epitélio escamoso, com aumento da proliferação celular, maior atipia e perda progressiva da maturação. NIC 1 — Neoplasia intraepitelial cervical grau 1 As alterações celulares ficam predominantemente restritas ao terço inferior do epitélio. · proliferação de células basais/parabasais no terço inferior; · atipias nucleares leves; · maturação preservada nas camadas superiores; · presença frequente de coilocitose nas camadas superficiais; · membrana basal preservada. NIC 1 ≈ LSIL na citologia. NIC 2 — Neoplasia intraepitelial cervical grau 2 As células atípicas passam a ocupar aproximadamente os dois terços inferiores do epitélio. · maior proliferação de células imaturas; · aumento da relação N/C; · maior hipercromasia e pleomorfismo nuclear; · mitoses podem aparecer em níveis mais altos; · redução da maturação celular; · membrana basal ainda preservada. NIC 2 → geralmente corresponde ao espectro de HSIL. NIC 3 — Neoplasia intraepitelial cervical grau 3 As alterações comprometem mais de dois terços, podendo atingir praticamente toda a espessura do epitélio. · intensa proliferação de células imaturas; · perda acentuada ou completa da maturação; · alta relação N/C; · hipercromasia e irregularidade nuclear acentuadas; · aumento das figuras mitóticas; · membrana basal preservada. Quando as alterações ocupam toda a espessura epitelial, sem invasão da membrana basal, tradicionalmente pode-se falar em carcinoma in situ. NIC 3 → HSIL. CARCINOMA INVASIVO A mudança fundamental ocorre quando as células neoplásicas rompem a membrana basal e invadem o estroma cervical. A partir desse momento, a lesão deixa de ser exclusivamente intraepitelial e passa a ser carcinoma invasivo, adquirindo acesso potencial aos vasos linfáticos e sanguíneos do estroma. COLPOSCOPIA E SUBSTÂNCIAS AUXILIARES A colposcopia permite observar o colo uterino com aumento e avaliar áreas suspeitas, especialmente após a aplicação de substâncias auxiliares. Ácido acético (3–5%): provoca coagulação de proteínasnucleares e citoplasmáticas. Áreas com maior atividade celular podem tornar-se acetobrancas. Em lesões de alto grau, podem ser observados padrões como mosaico e pontilhado, relacionados a alterações vasculares. Lugol — teste de Schiller: o iodo reage com o glicogênio das células escamosas maduras, produzindo coloração marrom. Áreas com pouco ou nenhum glicogênio permanecem pouco coradas/amareladas, sendo descritas como iodonegativas ou Schiller positivas no contexto de suspeita de lesão. CONDUTA INICIAL NAS PRINCIPAIS ALTERAÇÕES CITOLÓGICAS ASC-US: ·