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1 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE ENSINO SUPERIOR DO AMAZONAS - CIESA Curso: Administração & Contabilidade Disciplina: Psicologia das Organizações / 2020 Prof.ª Msc. Margareth Galvão dos S. Presa O COMPORTAMENTO HUMANO NAS ORGANIZAÇOES 1- Percepção 1.1-Conceitos Função cerebral que atribui significado a estímulos sensoriais, a partir do histórico de vivências passadas; Interpretação da realidade a partir dos próprios referenciais internos; Processo pelo qual se forma impressões a respeito de si mesmo, das pessoas, grupo de pessoas e sobre as experiências da vida; Processo pelo qual as pessoas selecionam, organizam, interpretam, armazenam e recuperam informações do mundo que a rodeia; É a capacidade de associar as informações captadas pelos órgãos dos sentidos à memória e à cognição de modo a formar conceitos sobre o mundo e sobre nós mesmos e orientar nosso comportamento. A percepção relaciona-se com uma peneira ou filtro, através da qual a informação passa antes de causar efeito sobre a pessoa. Nós, seres humanos, dispomos de 5 sentidos pelos quais experimentamos o mundo à nossa volta: visão, audição, tato, olfato e paladar. A maioria de nós, “confia em nossos sentidos”, mas às vezes essa fé cega pode nos fazer acreditar que nossas percepções são um reflexo perfeito da realidade, quando não são. Reagimos àquilo que percebemos, porém, nossas percepções nem sempre refletem a realidade objetiva, não abarca a complexidade da situação ou do estímulo que se apresenta. Percebemos apenas parte dos estímulos. Observe as figuras http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A9rebro http://pt.wikipedia.org/wiki/Significado http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Est%C3%ADmulo_%28fisiologia%29&action=edit 2 Transpondo para o nosso dia-a-dia, identificamos que esse é um problema importante, porque à medida que aumenta a diferença entre a realidade percebida e a objetiva, aumenta proporcionalmente a possibilidade de incompreensão, frustração e conflito (WAGNER III; HOLLENBECK, 2000). No ambiente organizacional, um exemplo de percepções diferentes entre gerentes e subordinados quanto ao comportamento do gerente, pode ser visto no quadro a seguir. Como gerentes e subordinados percebem o elogio dos gerentes por um trabalho bem feito Forma de reconhecimento Freqüência com que os gerentes afirmam demonstrar reconhecimento Freqüência com que os empregados afirmam que os gerentes demonstram reconhecimento “Um tapinha” nas costas” Elogio sincero e profundo Treinamento para um cargo melhor Privilégios especiais Trabalho mais interessante Aumento da responsabilidade 82% 80% 64% 52% 51% 48% 13% 14% 9% 14% 5% 10% Fonte: Adaptado de R. Likert, New Patterns in Management (Nova Iorque: McGraw-Hill, 1961), p.71 Esses tipos de diferenças perceptivas numa equipe de trabalho geram aborrecimentos e frustrações tanto para o próprio gerente como para as pessoas com quem ele trabalha. Ampliando sua compreensão do processo perceptivo, você poderá evitar ficar numa situação em que suas percepções estejam tão fora da realidade como as relatadas acima (WAGNER III; HOLLENBECK, 2000). Percepção e Realidade O que você vê na figura ao lado? Eu posso ver um animal e você pode ver outro. Certo? http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Duck-Rabbit_illusion.jpg 3 Vamos a mais uma figura O que você vê? Essas figuras também nos mostram que existem várias formas de enxergarmos uma mesma situação e que não conseguimos visualizar todas as imagens presentes de uma vez. Precisamos nos ater aos detalhes e a cada parte da figura. O que será visto, dependerá do observador, de sua história de vida, do contexto em que ocorre determinada situação, o que está relacionado ao processo perceptivo, como será explicado a seguir. 1.2- Fatores que influenciam no processo perceptivo Como se explica o fato de que as pessoas possam perceber a mesma coisa de modo diferente? Uma série de fatores atua para moldar e às vezes distorcer a percepção. Estes fatores podem residir no observador (em relação ao objeto), no alvo da percepção ou no contexto da situação na qual se dá a percepção. Quando um indivíduo (observador) olha para um objeto (alvo da percepção) e tenta interpretar o que vê, sua subjetividade - que incluem, por exemplo, atitudes, personalidade, motivações, interesses, experiências passadas e expectativas – irão influenciar muito a interpretação. Não é de se admirar, que um cirurgião plástico seja mais propenso a notar um nariz imperfeito do que um encanador. Da mesma forma, o supervisor que acabou de ser repreendido pelo seu chefe pelo excesso de morosidade entre o seu pessoal estará mais propenso a notar atraso de um funcionário no dia seguinte do que há um ano. E se você está preocupado com um problema pessoal pode encontrar dificuldades em prestar atenção em uma aula. Esses exemplos ilustram que o foco de nossa atenção é influenciado pelos nossos interesses. Devido a consideráveis diferenças entre nossos interesses individuais, o que uma pessoa nota em uma situação pode diferir daquilo que os outros percebem. Um cachorro e uma mulher com vestido longo e rodado, um senhor idoso de pé, o rosto de um senhor de perfil? Outros rostos de perfil espalhados? Como uma figura pode apresentar duas ou mais imagens diferentes, que não podem ser vistas ao mesmo tempo? 4 As características do alvo da observação podem afetar o que é percebido. Pessoas falantes estão mais propensas a serem notadas em um grupo do que as caladas. O mesmo ocorre com os indivíduos bonitos ou os sem atrativos. Como os alvos não são observados isoladamente, a relação entre um alvo e seu pano de fundo também influencia a percepção. Os funcionários de um departamento específico, por exemplo, são encarados como um grupo. Se duas pessoas em um departamento constituído por quatro membros se demitirem, tendemos a supor que suas saídas estavam relacionadas, quando, na realidade, podem ter sido totalmente desconexas. O contexto no qual vemos os objetos ou eventos também é importante. O tempo durante o qual um objeto ou evento é visto podem influenciar a atenção, tal como a localização, a luz, o calor e inúmeros outros fatores situacionais. Você provavelmente, não prestaria nenhuma atenção particular a um casal vestido em traje noturno formal em um seletivo clube de empresários em uma noite de sábado. Mas esse mesmo casal, vestido da mesma forma, caminhando por uma rua residencial às 10 horas de uma manhã de terça- feira, certamente faria você virar a cabeça. Observe que a única coisa que mudou foi o contexto situacional no qual você viu um casal. OBSERVADOR SITUAÇÃO / CONTEXTO ALVO DA PERCEPÇÃO (Estímulo) Experiências anteriores Necessidades ou motivos Personalidade Valores , atitudes Interesses Expectativas Contexto: Físico Social Organizacional Contraste Intensidade (figura-fundo) Tamanho Movimento Som Repetição / novidade 1.3- Estágios do processo perceptivo Além dos fatores que afetam o processo perceptivo, existem os estágios do processamento da informação, que determinam a percepção e a reação de uma pessoa. São eles: 1.3.1- Atenção Processo psicológico relacionado com a capacidade que uma pessoa possui para se concentrar. Mecanismo que permite a fixação em alguns estímulos, internos ou externos, organizando as informações significativas para possibilitar algum tipo de ação. Constitui o filtro fundamental dos estímulos para o funcionamento da percepção, memória e do pensamento. É o instrumento pelo qual o cérebro discrimina a informação que será ou não processada cognitivamente. 5 Bombardeio de Informações Sobrecarga de informações Seleção de informações(Filtragem seletiva) O organismo filtra seletivamente informações existentes no ambiente que o cerca. Isto é necessário para que não exista uma sobrecarga de informações. A percepção das pessoas é, portanto, seletiva. Como não podem assimilar tudo o que observam, percebem um pouco de cada vez de acordo com seus interesses e experiências. O problema está, em que ao perceber apenas esse “pouco”, deixam de observar/captar aspectos que podem ser importantes para, por exemplo, uma tomada de decisão. Além de poder produzir julgamentos apressados, visto que, ao fazer uma interpretação, tomou-se como base apenas uma parte do contexto, desconsiderando outra. Quando a informação é captada ou interpretada de forma alterada, fala-se em distorção da percepção. Percepção seletiva, portanto, segundo Schermerhorn, Jr.; Hunt; Osborn (2001) é a tendência de destacar os aspectos de uma situação, pessoa ou objeto que estejam em consistência com suas necessidades, valores ou atitudes. Esse fenômeno da percepção seletiva, também explica a diferença entre a realidade percebida e a realidade objetiva, mencionado anteriormente. Sobre a Atenção Não há percepção sem atenção. A informação ignorada (eliminada no processo de filtragem) não participará do processo de decisão, o que pode se tornar um problema dentro das organizações. Erros na execução de tarefas, a não identificação de comunicados, a pouca receptividade a um lançamento de produto podem justificar-se pelo simples fato de que não se conseguiu despertar e/ou manter a atenção do público alvo. A batalha mercadológica, em muitos momentos, não passa de uma batalha para obtenção da atenção do cliente, para gerar a percepção. A obtenção e permanência da atenção dependem das características dos estímulos: Intensidade, novidade, repetição. Fatores internos aos indivíduos também influenciam no despertar e na manutenção da atenção: necessidade, objetivos, coisas que proporcionam prazer. (FIORELLI, 2000) 6 A atenção depende de outras funções psíquicas, como a consciência, por exemplo. Uma pessoa que faz uso de algumas medicações psicotrópicas ou que está sob o efeito de álcool e drogas está com seu estado de consciência alterado e geralmente se encontra com alterações no nível da atenção. Outra distorção ou erro da percepção, chama-se de expectação ou profecia auto-realizadora. As expectativas de quem percebe um objeto, por exemplo, geralmente afetarão a avaliação desse objeto. Um dos motivos para isso é que a nossa atenção é atraída mais facilmente para objetos que confirmem nossas expectativas. Exemplos que poderão se configurar como erro de percepção ocorre nas situações a seguir: Se um gerente achar que seus subordinados preferem satisfazer a maioria de suas necessidades fora do ambiente de trabalho e só querem o mínimo de envolvimento com o cargo, é provável que o gerente dê a eles tarefas simples, bastante estruturadas que exijam pouco envolvimento. Podemos prever as respostas dos funcionários para essa situação? Os efeitos da expectativa podem também ser positivos. Alunos considerados “intelectualmente” brilhantes” pelos professores saem-se melhor em testes de avaliação de auto-realização do que outros que não tiveram esse reforço positivo. Pesquisas explicam que os gerentes naturalmente, esbanjavam mais atenção às pessoas pelas quais nutriam expectativas mais positivas (SCHERMERHORN, JR.; HUNT; OSBORN, 2001). Nas relações superior-subordinado as profecias auto-realizadoras ou expectação, funcionam da seguinte maneira: Primeiro, o gerente forma uma impressão sobre o funcionário, para depois desenvolver expectativas sobre seu comportamento futuro. Quando essas expectativas são altas, o gerente se comporta de modo condizente com as expectativas altas. O gerente tenderá, por exemplo, a ser encorajador e amistoso, a oferecer feedback útil e a dar mais oportunidades ao funcionário. O funcionário, por sua vez, responde positivamente ao comportamento de seu gerente. Aproveitará o apoio e oportunidade oferecidos. Além disso, a confiança que o gerente demonstra pelo funcionário aumenta a sua auto-estima, e ele se comporta então, de modo a realizar as elevadas expectativas do gerente. 1.3.2 - Organização das informações Embora muitas informações sejam automaticamente filtradas na fase de atenção, as informações restantes ainda são muito abundantes e complexas para serem facilmente entendidas e armazenadas. Considerando que a percepção do ser humano pode processar 7 apenas algumas unidades de informação de cada vez, na fase de organização, simplificamos e organizamos mais os dados sensoriais acessados. Um dos métodos é “amassar” vários pedaços de informação em uma única peça que possa ser processada mais facilmente. Quando procedemos a essa espécie de amassamento, referimo-nos a esses amontoados como esquemas (processos cognitivos que representam o conhecimento organizado a respeito de um determinado conceito ou estímulo desenvolvido por meio da experiência). Protótipos, segundo Wagner III e Hollenbeck (2001) são esquemas que nos habilitam a “amontoar” informações sobre as características das pessoas. Se um gerente perguntasse para outro como é uma nova funcionária, o outro poderia informar que a recém-contratada é animada, exuberante, desembaraçada, falante e afetuosa. O primeiro gerente poderia dizer então: “Você quer dizer que ela é extrovertida”. Estamos diante de vários pedaços de informações agrupados em uma palavra que se destina a transmitir uma descrição detalhada de uma pessoa. Neste caso realizamos uma organização. Tem-se o auto-esquema que contém informações sobre a própria pessoa (personalidade, aparência, comportamento). Deste modo, uma pessoa que tenha o esquema de determinação, tende a se perceber nos termos deste aspecto em muitas situações. Os esquemas pessoais mostram como as pessoas classificam as demais em categorias. O termo protótipo é frequentemente usado para representar essas categorias. Ex. Protótipo do que você considera como um “bom trabalhador”, que inclui trabalho duro e pontualidade, será usado para analisar determinado comportamento. Um esquema de roteiro é definido como uma estrutura de conhecimento que descreve a seqüência apropriada de acontecimentos em dada situação. Ex. Um gerente utiliza-se de roteiro para tomar medidas apropriadas em uma reunião; organizar as informações para uma posterior tomada de decisão. Na área do comportamento organizacional, quais as características que tendem a levar as pessoas a categorizar alguém como líder? De acordo com uma pesquisa realizada por Robert Lord, o protótipo do líder é composto de 12 características. São elas: Inteligente, desembaraçado, compreensivo, articulado, agressivo, determinado, empreendedor, atencioso, decidido, dedicado, educado, bem vestido. É importante salientar que nem todos os protótipos são úteis. É o que ocorre quando generalizamos informações baseadas em crenças, valores, experiências pessoais que nem sempre retratam a realidade, possibilitando mais erro ou distorção na percepção. Estas generalizações são chamadas de estereótipos. 8 Um estereótipo é uma generalização amplamente disseminada sobre um grupo de pessoas. É uma avaliação inadequada baseada nas características gerais de um grupo. São distorções nas percepções baseadas em conceitos pré-formados. O estereótipo ocorre, quando alguém acha que uma pessoa pertence a um grupo ou categoria, por exemplo, os idosos e lhe atribui as características normalmente associadas à categoria - por exemplo, que as pessoas idosas não são criativas. Assim, se existe um conceito prévio de que as pessoas idosas não são criativas, a tendência é de que o administrador ou gerente possa cometer o equívoco de não delegar uma tarefa importante a uma pessoa inovadora de 60 anos. Este estereótipodeve ser revisto, tendo em vista a idade cada vez mais avançada da força de trabalho nacional. Embora o estereótipo seja considerado uma forma útil para classificar informações e evitar a sobrecarga destas, podem tornar a recuperação da informação imprecisa, passando a apresentar aspecto negativo, quando, por exemplo, reduz um grupo inteiro a meia dúzia de características básicas, esquecendo as diferenças individuais e deixando de avaliar uma pessoa de acordo com suas necessidades, preferências e habilidades. Um dos problemas dos estereótipos, segundo Robbins (2008), é que por serem populares, muitas pessoas apresentam a mesma percepção errada com base em uma falsa premissa sobre um grupo. 1.3.3 - Interpretação Uma vez que sua atenção foi dirigida para certos estímulos, e você tenha agrupado ou organizado a informação, o passo seguinte consiste em descobrir a razão para as ações. A interpretação é particular e individual, ou seja, própria de cada individuo. Mesmo que duas pessoas estejam dirigidas para a mesma informação e organizá-la da mesma forma, elas poderão interpretar diferentemente e dar atributos diferentes. Ex. Como gerente, você pode atribuir os cumprimentos de um subordinado gentil ao fato de ele ser um funcionário dedicado, e o seu amigo pode interpretar esse comportamento como bajulação. 1.3.4 - Recuperação A informação arquivada na memória precisa ser recuperada para ser usada. Ocorre, muitas vezes, durante o processo de armazenamento e recuperação, perder-se parte das informações, podendo levar a ilusões ou erros na tomada de decisão. Daí a importância dos esquemas. Não esquecendo que eles (esquemas) também sofrem influência das lentes de percepção. 9 1.4 - Distorções Perceptivas Como já foi mencionado, um dos princípios básicos do comportamento humano é que as pessoas agem segundo suas percepções e não segundo a realidade. O mundo tal como ele é percebido é o que importa no que se refere ao comportamento. E porque há uma série de fatores agindo para distorcer as percepções, as pessoas frequentemente interpretam mal os eventos e as atividades, influenciando negativamente as relações interpessoais e o crescimento organizacional. É importante que os gerentes, quando estão tentando explicar ou prever o comportamento de uma pessoa, procurem ver o mundo pelo modo como esta pessoa o vê. Dentre as distorções ou erros do processo perceptivo citamos: Expectação; Estereótipo; Percepção seletiva, já mencionadas anteriormente. Efeito halo - Quando se forma uma impressão geral sobre uma pessoa com base em uma característica isolada, como inteligência, aparência, sociabilidade ou interesse, e se deixa influenciar por elas (impressões); Efeito contraste - Ocorre quando as características de uma pessoa são contrastadas com as de outra encontrada logo em seguida, e essas têm uma gradação maior ou menor das mesmas características e Projeção - Atribuição de características pessoais para outras pessoas. Exemplo de erro clássico de projeção é quando os gerentes presumem que as necessidades de seus subordinados são iguais às suas. 1.5- Medidas para melhorar a precisão da percepção: Existem muitas maneiras pelas quais um observador pode deixar de retratar com precisão o ambiente. Felizmente, também existem muitas medidas que podem ser tomadas para evitar esses problemas. Entre elas destacam-se: 1. Aumentar a frequência das observações e elevar o aperfeiçoamento das percepções. Ao fazer mais observações, o observador pode coletar mais informações e com isso aumentar a acurácia das percepções. 2. Garantir a representatividade das informações (modo e momento das observações). Se realizamos observações por amostragem aleatória, aumentamos a probabilidade da acuracidade dessas observações. Se observarmos um grupo de trabalhadores somente em um determinado momento, de um determinado dia, ou somente quando ocorrem problemas, as observações podem não refletir realmente o que está acontecendo nesse grupo. Além disso, é importante realizar observações com bastante discrição, para que as pessoas não modifiquem seu comportamento ao saberem que estão sendo observadas. 3. Obter informações de diferentes pessoas e perspectivas (avaliação 360°) 10 4. Ser imparcial nas informações - obter informações que confirmem ou contradigam nossas convicções. Os observadores devem ter o cuidado para não ignorar informações que são incompatíveis com suas expectativas. 5. Assegurar a precisão dos protótipos (não deixar que sua visão contamine as observações) Os observadores devem ser alertados sobre a possíveis protótipos e estereótipos que possam ter sobre as pessoas, bem como a abandonarem protótipos que possam levá- los a erros, substituindo por outros que os ajudem na simplificação dos dados. 6. Aumentar a exposição dos observadores a grupos sociais diferentes. Nos casos em que as pessoas precisem trabalhar com grupos sociais diferentes do seu e onde seja necessário desenvolver protótipos mais precisos. 2- Teoria da Atribuição Proposta para formular explicações para os modos diferentes pelos quais julgamos as pessoas, dependendo do significado que atribuímos a um determinado comportamento. (Os julgamentos que fazemos das pessoas, dependem do significado que damos ao comportamento destas pessoas). Ênfase no estágio de interpretação do processo perceptivo. Segundo Schermerhorn, Jr.; Hunt; Osborn (2001) a teoria da atribuição ajuda, examinando como as pessoas tentam: (1) entender as causas de um determinado evento; (2) avaliar a responsabilidade do evento; (3) avaliar as qualidades pessoais dos envolvidos no evento. A teoria sugere que quando observamos o comportamento de uma pessoa, tentamos determinar se teve uma causa interna ou externa. Acreditamos que as causas internas estão sob o controle da pessoa – por exemplo que o desempenho de Carlos é ruim porque ele é preguiçoso. Causas externas estão fora da pessoa. São vistas como resultante de estímulos de fora, ou seja, a pessoa é vista como se tivesse sido forçada àquele comportamento pela situação. Por exemplo, você acha que o desempenho da Sílvia é ruim porque a máquina dela é antiquada. Assim, ao compreendermos uma ação como resultado de fatores pessoais, estamos fazendo uma atribuição de causalidade interna. Se, pelo contrário, atribuímos a ocorrência como resultado de fatores externos, sobre os quais não temos controle, estamos fazendo uma atribuição de causalidade externa. 11 2.1- Fatores que influenciam na determinação do comportamento se por causas externas ou internas a) Distinção ou distintividade Analisa a consistência do comportamento do individuo em situações diferentes. As pessoas apresentam comportamentos diferentes em situações diferentes (alta distinção). Exemplo: Fato1: Funcionário chega atrasado para a reunião. Fato 2: O desempenho de Carlos é ruim Análise: O comportamento é comum ou incomum? Se incomum Atribuição deste comportamento se deve a algo externo. Se comum Atribuição será julgada como interna. No caso do fato 2, se o desempenho de Carlos é ruim, independente da máquina na qual está trabalhando (mesmo comportamento em situações diferentes), tendemos a dar a seu desempenho ruim uma atribuição interna; se por outro lado seu desempenho ruim é incomum, tendemos a atribuir isso a uma causa externa. b) Consenso Leva em conta a probabilidade de as pessoas que enfrentaram situações semelhantes reagirem da mesma forma. O comportamento mostra consenso quando todos os que passaram por uma situação semelhante responderem da mesma forma. Exemplo: Os funcionários que pegaram o mesmo caminho do funcionário mencionado no fato 1, também chegaram atrasados (causa externa). Se as outras pessoas que usam máquinas iguais às da Sílvia têm um desempenho ruim, tendemos darao desempenho da Silvia uma causalidade ou atribuição externa; se as outras pessoas não têm resultados ruins, atribuímos o mau desempenho de Sílvia a causas internas. Se o consenso é alto atribuímos ao comportamento (atraso) causa externa. Se o consenso é baixo atribuímos ao comportamento, causa interna. c) Consistência Busca-se a coerência nas ações de uma pessoa. Analisa se uma pessoa reage da mesma forma ao longo do tempo. É procurado se há consistência no comportamento ao longo do tempo. Se o funcionário teve um atraso em 2 meses Causa externa Se o funcionário teve 2 ou 3 atrasos na semana Causa interna 12 Se Carlos tem um registro constante de mau desempenho, tendemos a dar a isso uma atribuição interna. Por outro lado se for um incidente isolado, atribuiremos o mau desempenho de Carlos a uma causa externa. Quanto mais constante o comportamento, mais o observador tende a atribuir ao mesmo, causas internas. Além dessas três influências, existem segundo Schermerhorn, Jr.; Hunt; Osborn (2001), dois erros que têm impacto sobre a determinação interna versos externa. 2.2- Erros ou preconceitos que distorcem as atribuições Erro de atribuição fundamental Tendência de subestimar a influência de fatores situacionais (externos) e de superestimar a influência de fatores pessoais (internos) ao avaliar o comportamento de alguém. Explica porque um gerente de vendas é propenso a atribuir o mal desempenho de seus agentes de vendas mais à preguiça do que à linha inovadora de produtos lançados por um concorrente, por exemplo. Situação 2: Quando solicitado a um supervisor da área de saúde que identificasse ou atribuísse as causas do mau desempenho de seus subordinados, eles apresentaram mais deficiências internas – falta de habilidades e esforço – do que as deficiências externas – falta de apoio. Auto-tendência de desvio ou viés da autopromoção Tendência das pessoas atribuírem seus sucessos a fatores internos, como habilidade ou esforço e, ao mesmo tempo, atribuir a culpa pelo fracasso a fatores externos, como a sorte. Tendência a negar a responsabilidade pessoal nos problemas de desempenho, mas aceitar a responsabilidade pessoal nos desempenhos de sucesso. Deve-se ter cuidado ao administrar as atribuições, pois ênfases superestimadas podem resultar em atribuições negativas, levando a medidas disciplinares, avaliações negativas de desempenho, transferências para outros departamentos e confiança excessiva em treinamentos, em vez de focalizar causas externas, tais como falta de apoio no trabalho. Os empregados também se prejudicam com a má atribuição gerencial e, através de profecias de auto-tendência de desvios negativas, podem vir a confirmar a má atribuição original dos gerentes. Tanto os empregados quanto os gerentes podem aprender um realinhamento atribucional, que os ajude a lidar com as más atribuições. 13 Com relação a atribuição, é importante considerar a diferença cultural. Segundo Kleinman (2015), pessoas de culturas individualistas como as que vivem na América do Norte e Europa ocidental, tendem a cometer mais erros de atribuição fundamental e viés da atribuição do que pessoas de culturas coletivistas como as da América Latina, Ásia e África. Quando atentamos para a percepção nas organizações identificamos que questões como a remuneração justa do trabalho, a validade das avaliações de desempenho e a adequação das condições de trabalho não são avaliadas pelos funcionários pela ótica de uma percepção comum, nem há como assegurar que as pessoas vão considerar suas condições de trabalho sob uma luz favorável. Portanto, para influenciar a produtividade, é preciso antes descobrir como seus funcionários percebem seus próprios trabalhos. Os executivos devem se preocupar em compreender como cada funcionário interpreta a realidade e, onde houver uma diferença significativa entre a percepção e a realidade, tentar eliminar esta distorção. 3- Motivação Motivação é um tema complexo que vem sendo estudado por vários autores ao longo do tempo. Cada um formulou teorias que analisam o comportamento humano, buscam entender o que leva o indivíduo a se sentir motivado e como o processo motivacional ocorre. Não iremos estudar, neste momento, sobre as várias teorias motivacionais, mas apenas focar em alguns dos aspectos relacionados ao comportamento motivacional. 3.1- Conceitos Etimologicamente, motivação origina-se da palavra latina movere, que significa mover. Essa origem da palavra contém a noção de dinâmica ou de ação que é a principal tônica dessa função particular da vida psíquica. O caráter motivacional do psiquismo humano abrange, portanto, os diferentes aspectos que são inerentes ao processo, por meio do qual o comportamento das pessoas pode ser ativado. Motivação é geralmente descrita como um estado interior que induz uma pessoa a assumir determinados tipos de comportamento. Definida por Schermerhorn (1999) e por Robbins (2008) a motivação refere-se às forças dentro de uma pessoa, responsáveis pela intensidade, direção e persistência despendidas no trabalho com objetivo de alcançar uma meta. Nessa definição os três elementos chaves são: A direção corresponde à escolha de comportamentos específicos dentro de uma série de comportamentos possíveis. Consiste na opção que a pessoa faz quando está frente 14 a um grande número de alternativas. Por exemplo, um funcionário pode decidir ir ao trabalho em determinado dia, em vez de ligar para a empresa dizendo que está doente e fazer alguma outra coisa, como assistir televisão, fazer compras ou visitar um amigo. A intensidade se refere ao esforço que uma pessoa empenha na realização de uma tarefa. Se a um funcionário é dada a tarefa de varrer o chão, ele pode empenhar um grande esforço varrendo com força e rapidamente ou não querer se esforçar, varrendo vagarosamente. A persistência diz respeito ao contínuo engajamento em um determinado tipo de comportamento ao longo do tempo, ou seja, por quanto tempo uma pessoa consegue manter seu esforço e continua em uma determinada ação. Os funcionários podem fazer horas extras para concluir tarefas que eles estejam motivados a completar. Numa outra perspectiva, a motivação está associada ao desejo de adquirir ou alcançar algum objetivo, ou seja, a motivação resulta dos desejos, necessidades ou vontades. Algumas pessoas são altamente motivadas a ganhar dinheiro, e presume-se que esse alto grau de motivação pode afetar o comportamento para tal aquisição. Segundo Bergamini (2005), o estudo da motivação guarda algumas particularidades. As necessidades, por exemplo, que são os motivos pelos quais cada um se põe em movimento na busca de certos fins, não podem ser observadas de maneira direta. Sendo assim, as razões que justificam um comportamento motivacional só podem ser inferidas a partir de comportamentos individuais evidentes, devendo ser correlacionadas por uma ligação de causa e efeito. Mesmo assim, uma única ação pode estar expressando numerosos motivos potenciais, isto é, motivos diferentes podem ser expressos por meio de atos semelhantes, ou muito parecidos. Por outro lado, motivos semelhantes podem ser expressos mediante comportamentos diferentes. Portanto, a simples observação do comportamento não garante, com absoluta precisão, que se esteja conhecendo exatamente o tipo de carência a que corresponde. 3.2- Características do Comportamento Motivacional Quando se fala de motivação humana, parece inapropriado que uma simples regra geral seja considerada como recurso suficiente do qual se lança mão quando o objetivo é a busca de uma explicação mais abrangente e mais precisa sobre as possíveis razões que levam as pessoas a agirem. Existem muitas razões que explicam uma simples ação. Grande parte desses determinantes residem no interior das pessoas, tais comoos seus traços de personalidade, sua predisposições e emoções, as suas atitudes, bem como as suas crenças, e assim por diante. Isto torna o estudo da motivação mais complexo (BERGAMINI, 2005). Aos poucos vai se tornando viável entender que não é possível motivar quem quer que seja. As pessoas já trazem dentro de si expectativas pessoais que ativam determinado 15 tipo de busca de objetivos. Essa tem sido a grande dificuldade em orientar as pessoas para que determinado trabalho seja feito. Métodos que se aproximam da coerção e do controle não tem conseguido a eficácia que no geral se espera em situação de trabalho. Como já foi mencionado, hoje, essa orientação é sustentada por experientes autores ao proporem que “supervisionar sem coagir significa criar um ambiente onde se conversa e, principalmente, se ouve. Mais do que qualquer outra coisa, isso faz com que os funcionários sintam que tem algum poder”. A motivação, de acordo com o pensamento mencionado acima, é considerada um processo intrínseco. Envolve, portanto, o conceito de motivação intrínseca, que é o desejo de ser eficiente e de desempenhar um comportamento por si mesmo. Desse modo, refere- se ao processo de desenvolver uma atividade pelo prazer que ela mesma proporciona, isto é, desenvolver uma atividade pela recompensa inerente a essa mesma atividade. Nesse caso, dizemos que o comportamento é intrinsecamente recompensador. Essa forma de considerar o comportamento motivacional implica no reconhecimento de que ele representa a fonte mais importante de autonomia pessoal, à medida que as pessoas podem, de certa forma, escolher que tipo de ação empreender com base em suas próprias fontes internas de necessidades e não simplesmente responder aos controles impostos pelo exterior, procurando recompensas externas e evitando punições, o que se refere à motivação extrínseca, onde as recompensas não são obtidas da atividade, mas são a consequência dessa atividade. Segundo Myers (1999), para entender melhor a diferença entre motivação intrínseca e extrínseca, você pode refletir sobre sua própria experiência atual. Você se sente pressionado a terminar esta leitura antes de um prazo estabelecido? Preocupa-se com a nota que vai tirar? Está ansioso por recompensas que dependam de seu bom desempenho? Se a resposta for sim, então você tem uma motivação extrínseca (como acontece até certo ponto com quase todos os estudantes). Você também está achando interessante a matéria do curso? Aprendê-la faz com que você se sinta mais competente? Se não houvesse uma nota em jogo, você ainda teria curiosidade para aprender a matéria? Se a resposta for sim, a motivação intrínseca também alimenta seus esforços. Nem sempre fica claro se um comportamento é motivado intrínseca ou extrinsecamente. A motivação intrínseca estimula a realização, sobretudo nas situações em que as pessoas trabalham de forma independentes como ocorre com frequência com estudantes, cientistas e executivos. De acordo com Malone & Lepper (1986) para estimulá-la deve-se apresentar tarefas que desafiem e despertem a curiosidade, bem como evitar sufocar o senso de autodeterminação das pessoas com um exagero de recompensas extrínsecas controladoras. 16 É importante que se leve em consideração a existência das diferenças individuais e culturais entre as pessoas quando se fala em motivação. Essa diferença não só pode afetar significativamente a interpretação de um desejo, mas também o entendimento da maneira particular como as pessoas agem na busca dos seus objetivos. Ter consciência do fato de que cada um possa perseguir determinado objetivo motivacional não diz muita coisa. No entanto, conhecer as razões pelas quais essas pessoas fazem isso e como o fazem pressupõe um conhecimento mais profundo do comportamento humano, que não se restringe apenas àquele que o leigo usa para interpretar as ações humanas. 3.3- Âncoras da dinâmica motivacional nas empresas As empresas devem estar atentas para o que pode favorecer a motivação dos funcionários. Segundo Broxado (2008), existem 6 âncoras que podem ajudar nesse processo, Nelas encontram-se a profundidade ou a superficialidade do clima organizacional. São elas: 3.3.1- Dimensão Pessoal (Intrapessoal) É importante que cada pessoa descubra-se e reconheça suas potencialidades, saiba do que gosta de fazer, em que é bom e onde precisa melhorar, que trace objetivos e os passos para alcançá-los independente de a organização pedir, pois a motivação deve partir da própria pessoa. 3.3.2- Dimensão Interpessoal Procurar, dentro do possível, manter bons relacionamentos. É necessário compreender que o jogo de poder, a politicagem, o conflito, a inveja e as conversas de corredores são tão naturais como a própria ansiedade, a fome, a sede. Porém, deve-se estar atento aos lados extremos das situações. Nesse grande jogo ao vivo das relações humanas, deve-se ter controle e conhecimento de todos os lados da moeda, para não julgar ou conduzir erroneamente, além de se levar em conta que as pessoas são diferentes por fatores genéticos, culturais, ambientais, grau educacional. 3.3.3- Dimensão dos Salários, Benefícios e Gratificações Os funcionários esperam que os salários e benefícios sejam justos, crescentes, acompanhados por um bom plano de cargos e carreira crescente e temporal. Identificam-os como sendo importantes para a autoestima e para valorização do status social. 3.4.4- Dimensão da Quantidade e Qualidade das Tarefas por Funcionários Atenção tanto as características que as pessoas devem ter para ocupar determinado cargo, as quais estão relacionadas aos CHAOs, quanto a descrição dos cargos, deixando claro as habilidades necessárias, os objetivos dos cargos, a responsabilidade e autonomia, abrangência das tarefas e perspectivas de crescimento. 17 Seja qual for a função, ela deve ser considerada interessante pela pessoa que a exercerá e proporcionar satisfação. Deve ser motivacional. 3.3.5- Dimensão do Aparato e do Nível de Atualização das Máquinas, Móveis e Equipamentos (Ergonomia) Os objetos e sua eficácia enquanto móveis e equipamentos atualizáveis e versáteis auxiliam no conforto, preservação da saúde, aumento de prazer e descontração do ambiente de trabalho. 3.3.6- Dimensão do Tipo de Negócio da Empresa Ter uma missão voltada para a elevação dos padrões de vida da sociedade, protegendo e preservando o meio ambiente, participando das questões críticas sociais do país e do mundo, ajudando comunidades carentes. Tudo isso agregando uma imagem de valor, responsabilidade social, confiabilidade, honestidade e orgulho. Essas âncoras como menciona Broxado (2008), devem ser levadas em consideração quando se fala em comportamento motivacional. A interação entre o colaborador e a empresa, o clima organizacional resultante, irão contribuir para a motivação do colaborador e alcance dos resultados organizacionais. É importante lembrar que nas questões motivacionais, os funcionários esperam muito mais que o salário no final do mês. Querem respeito, serem ouvidos, oportunidade de exercerem seu potencial criativo, necessitam de desafios para crescerem pessoalmente e profissionalmente. 4- Aprendizagem em Organizações de Trabalho 4.1- Conceitos Aprender vem do latim ad prendere que significa dar forma às coisas, dominar o caos. A aprendizagem é um processo de aquisição da capacidade de usar o conhecimento que ocorre como resultado da prática, da experiência e da reflexão crítica, capaz de produzir mudanças profundas e significativas no comportamento; É um processo pelo qual as pessoas adquirem conhecimentos sobre seu meio ambiente e suas relações durante o seu tempo de vida; É um movimento contínuo e dinâmico em que o aprendiz enfrenta a realidade pessoal de maneira crítica. Assim sendo, a aprendizagem implica o caminhar em direção a umobjetivo específico, durante o qual, através da reflexão sobre a própria experiência, são geradas novas formas de se perceber a realidade e lidar com ela. 18 Podemos então dizer, que a aprendizagem é uma mudança ou alteração permanente no comportamento da pessoa em resposta a uma experiência anterior. Segundo Pereira (2000), a aprendizagem é uma aquisição, que uma vez adquirida tende a se perpetuar. Quanto mais se usa o conteúdo da aprendizagem ou habilidade adquirida, mais ela se amplia; quanto mais se repete, mais se institucionaliza; quanto mais institucionalizada, mais tende para a permanência. Por isso, desaprender é mais difícil do que aprender. O desaprender contraria a motivação natural do homem, coloca-o na contramão da história, significa uma frustração profunda, um enorme desperdício de energia. Implica em jogar fora a experiência adquirida, em abrir mão de crenças, valores, conhecimentos e práticas costumeiras. Gera uma tremenda sensação de perda, a qual vem sempre acompanhada de insegurança e ambiguidade. Desaprender significa abandonar a rotina, modificar hábitos, os maiores geradores de apego ao status quo. Pereira (2000), menciona que paradoxalmente, “a sociedade do conhecimento”, é também caracterizada como “a sociedade da desaprendizagem”, porque para receber o novo, temos que abandonar o velho que a nossa história construiu. Desaprender é ser capaz de despojar-se do velho, de não sentir-se ameaçado com o novo, de ter esperança na capacidade humana de construir algo melhor, de usar a liberdade de ser e fazer acontecer aquilo que desejamos. Nesse sentido o desaprender é condição para reaprender, para mudar, para transformar a nós e ao mundo. Reaprender é reiniciar um processo de aprendizagem. Envolve uma transição, uma transformação, uma mudança de patamar que está inserida em um nível de aprendizagem conhecida como aprender a aprender (base do processo de auto-renovação contínua, que produz mudanças profundas, definitivas e evolutivas). O Aprender a aprender significa não se deixar aprisionar por certezas preconcebidas, considerar de antemão como duvidosas as próprias crenças e os próprios conceitos e navegar em outras teses e hipóteses. É habituar-se a flexibilidade, estar sempre pronto a construir significados diferentes para a realidade a partir da própria experiência. Implica a aquisição da capacidade de acrescentar algo novo àquilo que já é sabido ou que é recorrente, permitindo uma reorganização do sistema que o transporta para um outro estado ou patamar. É um tipo de aprendizagem orgânica, que comporta correções, modificações, adaptações dinâmicas, sendo a base do processo de auto-renovação contínua. Produz mudanças profundas e definitivas (PEREIRA, 2000). Ler os capítulos: 4- Conhecimento, a principal vantagem competitiva (p.59-66) e 5- O eterno aprendiz (p. 67-73) do livro MUSSAK, Eugênio. Metacompetência: Uma nova visão do trabalho e da realização pessoal. 3.ed. São Paulo: Editora gente, 2003. 19 4.2- Aprendizagem Organizacional O aprendizado para a humanidade sempre exerceu importante papel no que diz respeito ao desenvolvimento dos povos, seja ele social, profissional e em todas as outras áreas da dinâmica do ser humano. A nova ordem do momento exige do indivíduo, que ele saiba cada vez mais lidar com as mudanças rápidas que ocorrem a sua volta. O desenvolvimento da tecnologia, seja no campo da telecomunicação, seja na informática, tem imposto um ritmo acelerado no cotidiano das pessoas. No ambiente coorporativo isso não tem sido diferente, as distâncias parecem que diminuíram. É possível se estabelecer uma negociação com países ou pessoas em qualquer lugar do planeta em tempo instantâneo. O volume de informações, que é transferido com rapidez é grande como nunca se viu. Guns (1998, p. 7), destaca que “Muito tem sido escrito a respeito do impacto da era da informação sobre as organizações. Executivos, gerentes e trabalhadores de linha de frente enfrentam, igualmente, quantidades gigantescas de informações”. A busca pelo conhecimento, pelo aprendizado, passa a ser, dentro do cenário apresentado, fator importante para indivíduos e organizações. O funcionário ganha cada vez mais ênfase no cenário empresarial. De simples executor de tarefas passou a cliente interno, demonstrando assim sua importância na sobrevivência das organizações. Novos estudos e técnicas surgem, demonstrando a importância desse elemento que até pouco tempo atrás não despertava a atenção de grandes estudiosos, como Taylor, por exemplo. Mas a realidade é outra. Cada vez mais as organizações percebem o valor de seus funcionários, denominando-os colaboradores. É uma grandiosa mudança de paradigmas. O que antes era descartável, agora passou a ser determinante. Descobriu-se que o homem, enquanto funcionário, pode pensar. Mais do que isso, descobriu-se que ele pode gerar conhecimento. Nesse contexto, surge o termo aprendizagem organizacional levantado como a grande bandeira das organizações do futuro, chegando a ser considerada por alguns autores, como Kiernan (1998), como a religião da organização do futuro. Aprendizagem organizacional pode ser definida como “a aquisição de conhecimentos, habilidades, valores, convicções e atitudes que acentuem a manutenção, o crescimento e o desenvolvimento da organização” (GUNS, 1998, p. 33). “Uma organização que aprende é uma organização habilitada na criação, na aquisição e na transferência de conhecimento e em modificar seu comportamento para refletir novos conhecimentos e percepções” (KIERNAN, 1998, p. 198). O processo de aprendizagem em uma organização não só envolve a elaboração de novos mapas cognitivos, que possibilitem compreender melhor o que está ocorrendo em seu ambiente externo e interno, como também a definição de novos comportamentos, que comprovam a efetividade do aprendizado (FLEURY E FLEURY, 1997, p. 20). Para esse novo processo, 20 tão valoroso para o futuro das empresas, é necessário que existam condições propícias para o seu surgimento. Segundo Peter Senge apud Fleury e Fleury (1997), são necessárias as seguintes disciplinas para o processo de inovação e aprendizagem organizacional: • Domínio pessoal: Por meio do autoconhecimento o indivíduo tem condição de aprofundar seus objetivos, concentrando esforços e passando consequentemente a ver a realidade de forma objetiva. Implica na capacidade de produzir os resultados desejados. • Modelos mentais: São ideias e imagens que contribuem para influenciar o indivíduo quanto ao seu modo de ver o mundo e seus atos. • Visões partilhadas: Dá-se a partir da percepção de um objetivo como concreto e real. Neste ponto o indivíduo passa a querer aprender por iniciativa própria e não mais por obrigação. • Aprendizagem em grupo: Nesse ponto a aprendizagem dá-se pelo diálogo. A apresentação de ideias, por parte dos membros integrantes, é fundamental para um raciocínio comum. • Pensamento sistêmico: Esta disciplina contribui para que se faça uma análise do todo e não das partes individualmente. Garvin apud Fleury e Fleury (1997), propõe caminhos através dos quais a aprendizagem organizacional ocorre, tais como: Resolução sistemática de problema, a qual apoiada na solução de problemas, engloba técnicas como diagnóstico feito com métodos científicos, uso de dados para a tomada de decisões e uso de ferramental estatístico para organizar as informações e proceder a interferências; Experimentação, que envolve a procura sistemática e o teste de novos conhecimentos, através do método científico. É movida por oportunidades de expandir horizontes, não por dificuldades corrente; Experiências passadas com revisão de sucessos e fracassos, avaliando sistematicamente e gravando lições de forma acessível a todos os membros; Circulação de conhecimento que significa a circulação rápida e eficiente do conhecimentopor toda a organização, proporcionando condições para que novas ideias tenham um impacto maior quando forem compartilhadas coletivamente ao invés de serem dirigidas a uns poucos; Experiências realizadas por outros: observar e analisar experiências vividas por outras organizações pode constituir um importante meio de aprendizado, como a utilização do benchmarking, por exemplo. O aprendizado é próprio do ser humano. É uma característica predominante já no momento do nascimento e que o acompanha por toda sua existência. Ao penetrar no ambiente de trabalho, essa característica não desaparece. As organizações, para se denominarem organizações de aprendizado ou de aprendizagem, precisam antes de tudo se ater para esse fato. 21 4.3- Aprendizagem e Desempenho O dia-a-dia empresarial é baseado em desempenho e resultados. Não é raro o funcionário se defrontar com metas de desempenho a serem batidas, como um meio dos empregadores avaliarem seu rendimento e possível permanência ou não no quadro da organização. Se o desempenho for bom ou relativamente satisfatório, fica. Se for ruim, que tenha sorte em outra empresa. São poucas as empresas que se preocupam verdadeiramente com o aprendizado do funcionário. Não quer dizer que o desempenho não seja importante. “O aprendizado organizacional tem a ver com desempenho. Se uma equipe estiver aprendendo, esperamos que seu desempenho melhore. (...). Porém, (...) um erro comum nos dias de hoje é dizer que o aprendizado organizacional é sinônimo de melhoria de desempenho” (WARDMAN, 1996, p. 171). De acordo com Guns (1998), a organização baseada no desempenho obtém seus resultados no curto prazo, enquanto as baseadas na aprendizagem focam o longo prazo. Alguns fatores demonstram essa diferença: • O desempenho de hoje é produto da aprendizagem de ontem e o desempenho de amanhã é resultado da aprendizagem de hoje. • A organização baseada na aprendizagem consegue melhorar seu desempenho com o decorrer do tempo, já que reinveste continuamente em aprendizagem. • A eficácia da organização baseada no desempenho acaba sendo prejudicada, já que ela não reinveste em aprendizagem. “Organizações baseadas na aprendizagem concentram-se em realizar melhor suas tarefas. Elas veem a aprendizagem como uma ótima maneira de melhorar o desempenho de longo prazo” (GUNS, 1998, p. 17). O desempenho é exigido no tempo imediato, não pode demorar muito para aparecer, sob pena de causar prejuízos à empresa. Já o aprendizado necessita de um espaço de tempo maior para começar a apresentar frutos. Enquanto o desempenho tem seus benefícios ocasionados no curto prazo, a aprendizagem somente começará a demonstrar benefícios, no longo e talvez médio prazos, pois necessita de constante reinvestimento para ser sustentada e desenvolvida. Pelo exposto até aqui, conclui-se que a aprendizagem é um processo psicológico essencial para a sobrevivência dos seres humanos no decorrer de todo o seu desenvolvimento. Sem ele, de nada valeria o investimento em educação feito pela sociedade, ou o esforço feito pelas organizações para treinar seus membros, ou o desses membros para progredirem no trabalho. Hoje não basta apenas treinar e educar. É necessário compreender a aquisição, manutenção e transferência do conhecimento como ferramenta estratégica e de sustentabilidade das organizações como instrumento de empregabilidade para os trabalhadores. As organizações, para serem bem-sucedidas no mercado cada vez mais 22 competitivo, precisam criar condições para que seus integrantes adquiram e apliquem constantemente novas capacidades, habilidades, atitudes exigidas pelo trabalho também cada vez mais complexo. A rapidez com que se processam as mudanças tecnológicas no trabalho torna imperativa a criação de comunidades de aprendizagem, uma vez que indivíduos isolados dificilmente serão bem-sucedidos em suas tentativas de se manterem empregáveis, atualizados e criativos. Portanto, procurar estar sintonizado com as atualidades é fato importante para o crescimento profissional e pessoal, O desenvolvimento do conhecimento se faz necessário tanto na organização quanto no indivíduo. Ambos estão ligados entre si. A organização que aprende, aprende por que o indivíduo aprende. E esse aprendizado deve ocorrer para todo o conjunto, para a equipe. Assim ambos irão se beneficiar. ____________________________ REFERÊNCIAS 1- BERGAMINI, Cecília W. Psicologia Aplicada a Administração de Empresas. 4.ed. São Paulo: Atlas, 2005. 2- BJUR, Wesley; CARAVANTES, Geraldo. Reengenharia ou readministração? – do útil e do fútil nos processos de mudança. 2.ed. Porto Alegre: Ed. AGE, 1995 3- BROXADO, Silvio. A Verdadeira Motivação na Empresa: Dicas para clima e cultura motivacionais. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2008. 4- FIORELLI, José Osmir. Psicologia para Administradores: Integrando Teoria e Prática. São Paulo: Atlas, 2000. 5- FLEURY, Afonso e FLEURY, Maria T. L. Aprendizagem e Inovação Organizacional: As experiências de Japão, Coréia e Brasil. 3. ed., São Paulo: Atlas, 2000. 6- GUNS, Bob. A Organização que aprende rápido: Seja competitivo utilizando o aprendizado organizacional. São Paulo: Futura, 1998. 7- KLEINMAN, P. Tudo o que você precisa saber sobre psicologia. 9.ed. São Paulo: Editora Gente, 2015. 8- MUSSAK, Eugênio. Metacompetência: Uma nova visão do trabalho e da realização pessoal. 3.ed. São Paulo: Editora gente, 2003. 9- MYERS, Davi. Introdução a Psicologia Geral. 5. ed. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1998. 10- PEREIRA, M.J.L.B. Aprendizagem contínua- O desafio do trabalhador contemporâneo. Belo Horizonte, 2000. 11- ROBBINS, Stephan P. Comportamento Organizacional. 11.ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2008. 12- SCHERMERHORN, JR., John R., HUNT, James G., OSBORN, Richard N. Fundamentos do Comportamento Organizacional. 2.ed. Porto Alegre: Bookman, 2001. 13- WAGNER III, JONH A., HOLLENBECK, JOHN. Comportamento Organizacional: Criando Vantagem Competitiva. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 2000. 14- WARDMAN, Kellie T. Criando Organizações que aprendem. São Paulo: Futura,1996.