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GESTÃO DE PESSOAS Eliane Dalla Coletta Gestão global de recursos humanos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar o que é gestão global de recursos humanos. Contrastar corporação multinacional com corporação global. Definir as barreiras para uma gestão global de recursos humanos eficiente. Introdução Uma das ações de recursos humanos (RH) que se tornou primordial com o advento da globalização é a perspectiva de atuação internacional cada dia mais presente no seu dia a dia, consolidando a necessidade de sua atuação a nível estratégico nos negócios. As empresas, nesse cenário, passaram a se posicionar em mercados globais e locais considerando as demandas pela melhor região para desenvolver seus produtos com melhor vantagem competitiva. Nessa perspectiva da globalização, a gestão de RH amplia o seu foco e redimensiona as suas práticas, políticas e procedimentos nos seus processos estratégicos, como recrutamento e seleção, treinamento e desenvolvimento, remuneração e administração dos expatriados. O gestor global de RH enfrentará muitas barreiras e desafios que envolvem a compreensão da cultura, estratégias diferenciadas, assumir seu papel de parceiro estratégico, regulação das relações de trabalho, transferência de conhecimento, grau de comprometimento gerencial e a não adaptação dos expatriados que impactam nos resultados da empresa. Neste capítulo, portanto, você vai entender o que é a gestão global de recursos humanos, vai aprender a diferenciar corporações multinacionais de corporações globais e, além disso, vai ver as barreiras que podem ser aplicadas para uma gestão global de recursos humanos eficiente. O que é gestão global de recursos humanos? No século XX, o desenvolvimento das tecnologias de informação e comu- nicação teve um crescimento exponencial com a internet, que minimizou distâncias geográfi cas com a propagação da informação quase em tempo real. Computadores ligados em rede, rapidez nos canais de distribuição e maiores intercâmbios conectaram a economia mundial a um sistema global. Segundo Aguzzoli (2007, documento on-line), “[...] os indicadores que envolvem o incremento da economia mundial e dos mercados, a internacionalização, a importância dedicada às multinacionais, a relação das economias, as distintas maneiras de regionalização e o fortalecimento de blocos econômicos” são descritos como globalização. Para Ivancevich (2011), a evidência da globali- zação se dá por indicadores macroeconômicos variados, como o aumento do fl uxo comercial em 17 vezes, ao passo que a produção real cresceu somente 6 vezes, reaquecimento do investimento estrangeiro e a grande quantidade de acordos, como: joint venture, licenciamento, franquias, marketing, manu- fatura e pesquisa e desenvolvimento, aumento de trabalho para o exterior, o surgimento da União Europeia (UE), a abertura do comércio da China, entre outros. No contexto empresarial, todas essas mudanças signifi caram profundas variações nas estratégias dos negócios, que passaram a se posicionar não mais localmente e, sim, na consolidação de mercados globais e locais. Segundo Aguzzoli (2007), com a globalização, as empresas estabelecem a sua produção em regiões que lhes favoreçam e oportunizem uma maior produtividade e melhores resultados. Essas regiões potencializam, dessa forma (menor custo com a mão de obra e/ou matéria-prima), a internacionalização e também influenciam as subsidiárias com a sua cultura local. Os desafios que as empresas enfrentam na atuação no mercado global envolvem necessidades tanto nas estratégias do negócio quanto nas de recursos humanos. A realidade da nova economia impulsiona a área de RH a expandir cada vez mais o seu foco para uma função estratégica, com políticas e prática considerando uma organização orientada internacionalmente. Para Becker, Huselid e Ulrich (2001), as estratégias de recursos humanos com este novo paradigma — velocidade, inovação, curta duração dos ciclos, qualidade e satisfação dos clientes — devem considerar o que passou a ser de suma im- portância, como os ativos intangíveis, o conhecimento e o capital humano. Para esses autores, “As evidências são inquestionáveis. O potencial estratégico emergente, de RH, gira em torno do papel cada vez mais central dos recursos intangíveis e do capital intelectual na economia da atualidade” (BECKER; HUSELID; ULRICH, 2001, p. 21). Gestão global de recursos humanos2 Ao mesmo tempo, na perspectiva da globalização e com as perspectivas de atuação internacional, é preciso, também, uma gestão global de recursos humanos que deve contemplar ações como recrutar, selecionar e desenvolver e remunerar as pessoas, tomadas de decisões que englobem as perspecti- vas locais e globais, como também tratar as divergências nas políticas de RH que precisam estar incluídas na estratégia global da organização para sustentar o planejamento de RH. O grande desafio é administrar o que deve ser local e o que deve ser global. Para Nogueira, Barreto e Delgado (2013, documento on-line), “O desafio não consiste apenas na questão de centralizar e descentralizar ou na estrutura para tomada de decisões, e sim em criar um sistema que deverá ser simultaneamente centralizado para a integração e coordenação global e descentralizado para as responsabilidades locais”. A pesquisa, citada por Ivancevich (2011), realizada com grandes executivos de recursos humanos internacionais demonstrou que há vários desafios críticos (Quadro 1). Fonte: Adaptado de Ivancevich (2011). Desafios envolvendo recursos humanos Percentual apontado como de alta prioridade Identificação de candidatos adequados 73 Entendimento intercultural 55 Gestão da carreira 45 Retenção de funcionários 44 Adaptação ao ambiente 42 Insatisfação do parceiro 41 Relutância na transferência (realocação) 36 Quadro 1. Pesquisa realizada com grandes executivos de recursos humanos internacionais As empresas que atuam internacionalmente sentem a dificuldade de fazer a gestão global porque atuam em ambientes diferentes, com particularidades que afetam o desenho dos modelos de gestão. Nogueira, Barreto e Delgado (2013) referem quatro tipos de estratégias que podem ser adotadas, veja a seguir. 3Gestão global de recursos humanos Estratégia global: há a integração de suas atividades no mundo todo, o que requer um alto nível de coordenação e interdependência entre as subsidiárias estrangeiras e o funcionamento da matriz. Essa estratégia visa o ganho de sinergia entre os países e, assim, aumenta a competitividade da empresa por meio da eficiência de custos e do ganho de escala dos produtos. Estratégia multinacional: a matriz atua como holding na gestão das subsidiárias com um portfólio de negócios isolados. Possuem grande autonomia na tomada de decisões e exigem resultados e o seguimento dos princípios e valores da empresa. Estratégia transnacional: há uma grande interação entre as subsidiárias, como uma organização em rede. A aprendizagem global é ressaltada, com interação e compartilhamento de conhecimentos. Estratégia regional: é uma escolha entre a estratégia global e a multinacional, em que as subsidiárias se reportam à matriz regional, que possui grande autonomia. Um dos grandes desafios para as empresas que atuam no mercado internacional é a compreensão da cultura, do comportamento do consumidor, do ambiente institucional. Alguns locais serão mais atrativos se apresentarem uma similaridade com as práticas de gestão e cultura da empresa, pois as regras e os procedimentos organizacionais não podem entrar em conflito com os valores das pessoas locais. Athayde (2017) cita um trabalho clássico de Hofstede, de 1993, que procurou entender o quanto as dimensões culturais intervêm nas organizações. Ele definiu as cinco dimensões básicas que você vê a seguir. Distância do poder: as culturas com grande distanciamento do poder enfatizam a desigualdade por meio da ostentação de títulos, escritórios amplos, etc. Individualismo: grau de individualidade que as pessoas preferem trabalhar. Nos EUA e na Austrália, por exemplo, são mais relevantes as metas e os trabalhos individuais. Masculinas: apresentam separação de papéis bem definidos entre homens e mulheres. Aversão à incerteza: as pessoas preferem situações mais estruturadas, com controles mais rígidos. Orientação de longo prazo: orientação voltada para gratificações futuras. Gestão global de recursos humanos4 Os processos de recursos humanos também sofrem alterações e, às vezes, exigem maiores cuidados ou estratégias diferenciadas para o atendimento de todos os públicos. No processo de recrutamento e seleção, não há muitas diferenças, apenas alguns cuidados a mais quando há seleção de pessoas para trabalhar no exterior, em que características de maior capacidade e f lexibilidade são preponderantes, pois essas pessoas irão enfrentar situações diferentes das vivenciadas até então. No processo de treinamento e desenvolvimento, uma estratégia que supre bem as necessidades variadas de todos os públicos é a estruturação de universidades corporativas, possibilitando a propagação da cultura e de valores comuns, promoção de mudanças, desenvolvimento de competências de liderança, habilidades com idiomas, etc. Outro aspecto bem peculiar e desafiador na gestão internacional de pessoas é o processo de expatriação, processo que tem um alto custo e dificuldades de ambientação. As condições de repatriação devem ser bem transparentes, pois, na volta ao país de origem, o profissional pode ter uma expectativa de carreira bem diferente da realidade que o aguarda. O processo de remuneração também aponta grandes particularidades tendo em vista as grandes variações no mundo em função da cultura, do estágio de desenvolvimento socioeconômico e das influências culturais e históricas de cada país (ATHAYDE, 2017). Outros aspectos que demandam cuidados especiais na gestão global de RH são a conduta ética e legal. Em termos de legislação, a organização internacional enfrenta inúmeros acordos de comércio internacional e legislação específica de cada país que podem desafiar os padrões normais de conduta ética, pois o que é considerado antiético num país pode ser uma conduta normal em outro. Um exemplo é a “oferta de presentes” praticada em muitos países, o que, se há conflito de interesse, pode ser entendido como suborno e corrupção. As práticas discriminatórias no emprego nos EUA são legisladas com muito rigor, afetando significativamente as práticas de recrutamento e seleção, treinamento e remuneração. Os dilemas éticos alusivos ao conflito entre a lucratividade e os direitos humanos são encontrados em países em desenvolvimento, nos quais há a exploração desmedida do trabalho infantil ou péssimas condições de trabalho do adulto com insalubridade e periculosidade. Em termos de relações trabalhistas, há uma grande diferença na estrutura e no relacionamento com o sindicato e uma legislação trabalhista específica em cada país. Segundo Ivancevich (2011, p. 115), “[...] a resposta para as relações com o trabalhador tem sido tentar estabelecer organizações globais para representá-lo”, porém, ainda sem muito efeito prático eficaz. 5Gestão global de recursos humanos Corporação multinacional versus corporação global As corporações multinacionais e globais, apesar de serem estudadas, às vezes, como tendo a mesma forma de atuação e estrutura, diferenciam-se em suas estratégias desde a implantação. A globalização também transformou a gestão dessas corporações, já que as multinacionais são vistas como “agentes da globalização”. Segundo Bitencourt e Boll (2014, documento on-line), “[...] empresas multinacionais tratam da questão de convergência em contraponto à continuidade da diversidade, nas formas organizacionais e práticas em diferentes ambientes”. Uma empresa pode ter sua expansão internacional marcada por estratégias de investimento (abertura de filiais), joint ventures, atualização tecnológica, proximidade do cliente, antecipação às ações da concorrência e outras alianças estratégicas, como fusões e aquisições entre empresas estrangeiras e locais. A necessidade de expandir seus negócios para competir globalmente visa a busca de uma vantagem competitiva e sua sobrevivência, o que acarreta fazer a gestão em diferentes países com culturas distintas. A padronização, centralização e rigidez nas políticas e práticas de gestão caracterizou muito as multinacionais na década de 1980 com dois modelos identificados e referidos por Bitencourt e Boll (2014, documento on-line) como: [...] modelo das nações unidas — as subsidiárias recebiam recursos, procedimentos e critérios de avaliação padronizados não sendo consideradas sua importância estratégica ou ambiente no qual estavam instaladas — e a síndrome da hierarquia da matriz — os gestores das matrizes tomavam as decisões chave e viam os gestores das subsidiárias como meros implementadores. Esses modelos possuíam claramente limitações acarretando grandes perdas em várias empresas. Para Ivancevich (2011), as corporações multinacionais buscam manter negócios em vários países distintos, onde cada operação é vista como um negócio parcialmente separado. As subsidiárias em cada país reproduzem o modelo da matriz em termos de estrutura, linha de produtos e procedimentos, e têm como meta a adequação dos produtos para a cultura local. Porém, os principais controles são de responsabilidade da matriz ou de algum expatriado que veio representar a organização. Bitencourt e Boll (2014) referem que as multinacionais norte-americanas são as que têm mais tendência a manter a gestão de RH padronizada e centralizada, principalmente quanto a práticas de remuneração atreladas ao desempenho, políticas de promoção da diversidade Gestão global de recursos humanos6 e posição contra a regulação das relações de trabalho pelo estado, que são transferidas para as subsidiárias. Ao mesmo tempo, inibem e são reacionários com novas práticas de RH das subsidiárias, que dificilmente são consideradas para implementação na matriz, mesmo que sejam inovadoras e eficazes. Essa rejeição é um extremo cuidado contra ações sindicais. Essa perspectiva é tratada por Ivancevich (2011) como sendo etnocêntrica, com a utilização de políticas de RH do país de origem (matriz) com pequenos ajustes locais. A estratégia etnocêntrica também pode ser encontrada nas multinacionais japonesas. Por outro lado, em função da cultura singular, no Japão, as empresas multinacionais de outros países possuem no seu quadro executivo 80% de gestores japoneses. Já a corporação global estrutura-se com os profissionais melhores qualifi- cados, não importando as suas nacionalidades, estabelecendo-se em qualquer local que lhe conceda uma vantagem competitiva com economia de custo. Ivancevich (2011, p. 101) cita como exemplo de corporações globais Coca-Cola, Nestlé e McDonald’s, que “[...] acreditam também em um mercado mundial para seus produtos [...], onde cada subsidiária não fica restrita apenas a atender a cultura local”. O autor considera essa perspectiva das corporações globais como geocên- trica, com a visão de mundo como sendo seu mercado de trabalho. Além disso, busca atrair os profissionais de qualquer parte do mundo, desde que atendam aos requisitos das competências necessárias ao negócio. Para Nogueira, Barreto e Delgado (2013), essa perspectiva é a mais indicada quando a empresa quer desenvolver um quadro de gestor global para atuar em atividades estratégicas. Para esse autor, na estratégia global, as atividades das empresas são incorporadas no mundo visando alcançar vantagens, isenções e/ou incentivos, entre outros, criando esforços simultâneos nos países entre si para gerar vantagem competitiva. Para tanto, será necessário um grande gerenciamento, organização e reciprocidade entre as subsidiárias e entre essas e a matriz. Dessa forma, busca-se ampliar a produtividade por meio de uma forte administração e eficácia dos custos e ganho de escala. Veja, no Quadro 2, uma comparação entre os focos e filosofias de corpo- rações multinacionais e globais segundo Ivancevich (2011). 7Gestão global de recursos humanos Fonte: Adaptado de Ivancevich (2011). Decisão Internacional Filosofia de gestão de RH Estrutura corporativa Foco crítico de gestão de RH Etnocêntrica Multinacional Adaptação do expatriado: seleção; treinamento; avaliação e compensação; repatriação Geocêntrica Global Utilização de talento de gestão global: métodos de recrutamento local; gestão da diversidade cultural Quadro 2. Foco da gestão de RH das corporações multinacionais e globais Na gestão global de RH, os processos de recrutamento e seleção, treinamento e desenvolvimento e remuneração são os de maior complexidade. O processo de recrutamento e seleção tem influência da “[...] estratégia do negócio, o estágio de desenvolvimento internacional da empresa, experiência específica em determinado mercado estrangeiro, incentivos e restrições governamentais, restrições socioculturais do país estrangeiro, planos individuais e desenvolvimento organizacional” (NOGUEIRA; BARRETO; DELGADO, 2013, documento on- line). No treinamento e desenvolvimento, há a necessidade de uma concepção estratégica global, que deverá considerar um aumento de funcionários em ocupações internacionais e o advento do gerenciamento da transferência de tecnologia. Além da estratégia das universidades corporativas, são necessárias novas formas de desenvolvimento dos líderes globais, como troca de posições, desenvolvimento de projetos globais com times multidisciplinares e aumento da rede de relacionamentos, práticas de benchmarking e desenvolvimento, por exemplo, de comunidades de aprendizagem. Barreiras para uma gestão global de recursos humanos eficientes A área de recursos humanos, nos últimos anos, vem passando por diversas transformações, e os profi ssionais de RH são cada vez mais desafi ados na adoção de uma postura mais estratégica quanto ao seu papel na empresa. Antigamente, a área tinha o papel convencional de simples administrativos Gestão global de recursos humanos8 que gerenciavam benefícios, folha de pagamento, atividades rotineiras de contratação e demissão de empregados e outras atribuições rotineiras. Essas práticas tradicionais enfatizavam e eram entendidas como sufi cientes para o desenvolvimento do desempenho individual e para o desempenho da organi- zação. Com a globalização e a necessidade de uma atuação para fortalecer a competitividade e a sustentabilidade, o RH necessitou evoluir de uma pers- pectiva de atuação da “base para o topo” (funções de pessoal tradicional) para uma atuação do “topo para a base”, com o objetivo de implementação da estratégia. Com o novo paradigma econômico (globalização), marcado por velocidade, inovação, ciclos de curto prazo, qualidade e satisfação dos clien- tes, o profi ssional de RH deve tornar-se um parceiro estratégico (BECKER; HUSELID; ULRICH, 2001). No contexto da atuação internacional, o profissional de RH global irá se deparar com aspectos fundamentais para o crescimento no exterior. Segundo Aguzzoli (2007, documento on-line), “[...] englobam gestão, fluxo e volume de informação, os modos de operação, demandas do país anfitrião, a cultura nacional e idioma, os mecanismos de controle, a dispersão geográfica, a estrutura e o tamanho da organização”. Assim, são várias as barreiras que uma gestão global de RH eficiente precisa transpor. Por exemplo, a cultura local, com suas diferenças, irá impactar na interação e no andamento das atividades entre matriz e subsidiária e a vantagem competitiva almejada será obtida com custos menores e na diferenciação de produtos por meio dos processos de inovação. Portanto, a gestão de RH deverá adaptar suas políticas e práticas à realidade e à cultura de cada país para um desempenho eficaz (AGUZZOLI, 2007). Nessa atuação internacionalizada das empresas, ocorre uma mobilização de trabalhadores para as subsidiárias, os chamados expatriados, que, num período de um ou mais anos, são responsáveis pela implementação em outros países das operações de suas empresas. Criar um bom ambiente e condições de trabalho para o expatriado é um desafio para a gestão de RH, que deverá conduzir a integração desses profissionais que irão trabalhar num ambiente novo e com novas culturas. É preciso, portanto, motivá-los, acolhê-los e adaptá-los a uma nova realidade, conciliando a necessidade de ampliação global e ajustamento local. Esses profissionais expatriados também se deparam com formas de trabalho diferentes das tradicionais, com trabalho independente, trabalho temporário, trabalho em tempo parcial, teletrabalho, entre outros (SILVA, 2012). Uma das barreiras que a gestão global de RH poderá encontrar é, segundo Ramos Filho (2008), o processo de transferência entre unidades organizacionais. O relacionamento interorganizacional pode ser conflituoso e pode ser agrupado em três categorias: 9Gestão global de recursos humanos [...] a primeira é o contexto organizacional, incluindo, entre outros fatores, o ambiente institucional e organizacional, identidade e cultura. A segunda está relacionada ao processo de difusão em si, seus ciclos, conhecimento a ser transferido, etc. A terceira, por fim, inclui as barreiras relacionadas á gestão, como o grau de comprometimento gerencial e sistemas de treinamento e de recompensa apropriados (RAMOS FILHO, 2008, documento on-line). As multinacionais, na medida em que fazem parte de um sistema social, necessitam que suas subsidiárias tenham legitimidade no local de atuação, pois, além de recursos tecnológicos e informacionais, precisam ser aceitas e ter credibilidade. Essa legitimação pode ter barreiras a serem suplantadas, como a complexidade do ambiente em função dos aspectos regulatórios e normativos, a complexidade organizacional sendo a legitimação mais complexa em organizações etnocêntricas (utilização de políticas e práticas da matriz com pequenos ajustes locais) e, dependendo do tamanho da multinacional, também haverá repercussão no processo de legitimação, pois, quanto maior ela for, mais difícil será o processo. As práticas e os conhecimentos gerenciais são aspectos críticos desse processo de conhecimento organizacional que deve ser difundido e ter uma troca mútua na interação entre a matriz e a subsidiária, interferindo significativamente na gestão do negócio (RAMOS FILHO, 2008). Segundo Gallon et al. (2017, documento on-line): Uma orientação etnocêntrica pode, entretanto, levar à miopia cultural ou a uma falha na compreensão das diferenças do país anfitrião. [...] A orientação geocêntrica pressupõe que os empregados mais qualificados devem ocupar cargos gerenciais importantes, independente de nacionalidade. Essa abordagem é atraente em empresas com estrutura organizacional interdependente, pois elimina a hierarquia de influência e facilita a criação de uma empresa internacional que se identifica com os interesses de ambos os países, permitindoo desenvolvimento das melhores pessoas para as melhores posições. As barreiras são muitas, mas é possível identificar alguns pontos básicos para ultrapassá-las. Ter uma gestão de RH tradicional dificultará o processo de internacionalização de uma empresa, pois não se atuará de forma estratégica, com a compreensão da gestão de pessoas globalmente nos contextos culturalmente diferenciados, e não se compreenderá todos os processos que envolvem essas iniciativas, como os aspectos legais, econômicos, políticos, sociais e culturais que requer uma gestão de RH integrada nas subsidiárias. Se as subsidiárias puderem implantar novas práticas para responder ao ambiente Gestão global de recursos humanos10 institucional de um país, devem ser amparadas pelas melhores práticas de RH. Porém, se as multinacionais estabelecerem um planejamento único para todas as subsidiárias, não estando dispostas a conciliar a pluralidade das diversas culturas, não terão uma estratégia global de sucesso, pois as práticas serão imperativas, e não construídas globalmente (GALLON et al., 2017). Em função de todo esse contexto, algumas subsidiárias podem ter um alto turnover de funcionários, conflitos e problemas de comunicação entre os funcionários locais e os expatriados, funcionários locais com insatisfação de salário e com os processos de promoção, além de aspectos legais impedindo a implantação de uma diretriz da matriz. AGUZZOLI, R. L. Gestão de pessoas internacional: como multinacionais brasileiras internacionalizam seus recursos humanos. 2007. Dissertação (Mestrado em Administração) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2007. Disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/11234. Acesso em: 2 jul. 2019. ATHAYDE, A. L. M. Gestão internacional de pessoas: revisão da produção nacional de 2012 a 2016 e a agenda de pesquisa para o contexto brasileiro. In: SEMEAD, 10., 2017, São Paulo. Anais [...]. São Paulo: USP, 2017. Disponível em: http://login.semead.com. br/20semead/arquivos/445.pdf. Acesso em: 2 jul. 2019. BECKER, B. E.; HUSELID, M. A.; ULRICH, D. Gestão estratégica de pessoas com “scorecard”: interligando pessoas, estratégia e performance. Rio de janeiro: Campus, 2001. BITENCOURT, C. C.; BOLL, D. Análise da relação entre subsidiária brasileira e matriz de corporação norte-americana com foco na gestão de RH. Revista de Negócios, v. 19, n. 2, p. 36-61, 2014. Disponível em: http://proxy.furb.br/ojs/index.php/rn/article/view/2687. Acesso em: 2 jul. 2019. GALLON, S. et al. Gestão de recursos humanos no contexto internacional: um estudo comparativo entre duas empresas multinacionais. Teoria e Prática em Administração, v. 7, p. 66-101, 2017. Disponível em: https://www.researchgate. net/publication/322880598_Gestao_de_Recursos_Humanos_no_Contexto_ Internacional_Um_Estudo_Comparativo_entre_Duas_Empresas_Multinacionais. Acesso em: 2 jul. 2019. IVANCEVICH, J. M. Gestão de recursos humanos. Porto Alegre: Artmed, 2011. E-book. NOGUEIRA, A. M.; BARRETO, M. S. P.; DELGADO, M. P. Gestão de recursos humanos no processo de internacionalização. Revista Eletrônica de Negócios Internacionais, v. 8, n. 4, p. 48-67, 2013. Disponível em: http://internext.espm.br/internext/article/viewFile/150/146. Acesso em: 2 jul. 2019. 11Gestão global de recursos humanos RAMOS FILHO, A. C. O global e o contextual no aprendizado gerencial de multinacionais: uma perspectiva brasileira. 2008. Tese (Doutorado em Administração) – Fundação Getúlio Vargas, Brasília, 2008. 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