Prévia do material em texto
PSICOPEDAGOGIA AULA 3 – O PROCESSO DE APRENDIZAGEM E SUAS DIFICULDADES Prezado (a) aluno (a), Os psicopedagogos possuem amplo conhecimento estudando o processo de aprendizagem humana, seus padrões normais e patológicos de desenvolvimento e o impacto do meio ambiente na vida das crianças. Portanto, o problema de aprendizagem não pode ser explicado por apenas um aspecto. O problema pode estar na criança, na família ou na escola, mas vários fatores devem ser levados em consideração nesse processo. Os psicopedagogos educacionais também implementam intervenções institucionais, identificam obstáculos, ajudam os educadores a relacionar e compreender diferentes métodos de ensino quando uma determinada criança não segue um processo e acompanham crianças com problemas de aprendizagem. Bons estudos! 3 O PROCESSO DE APRENDIZAGEM E SUAS DIFICULDADES Aprender é uma possibilidade que todo ser humano tem ao longo de sua existência, incorporando experiências e conhecimentos de forma exitosa que, por sua vez, afeta e produz mudanças em seu meio. A aprendizagem inclui não apenas aspectos intelectuais, mas também aspectos emocionais e relacionais, tanto conscientes quanto inconscientes. Cada pessoa tem sua própria maneira de aprender com base em suas próprias regras, história e relacionamento com os outros. Ao longo do desenvolvimento, a formação da personalidade se faz por meio da resolução de conflitos de aquisições, sendo a aprendizagem o produto da interação das necessidades que vão se modificando e, assim, configurando novos conflitos, que influenciam a maneira como as etapas posteriores do desenvolvimento serão experimentadas (PORTO, 2009, p. 40). Existem também barreiras duradouras à aprendizagem que resultam de uma variedade de causas. Todo mundo tem, em graus variados, equívocos, lacunas, resistência e ansiedade sobre o processo de aprendizagem. Os problemas de aprendizagem aparecem durante os anos escolares, principalmente nas crianças. É certo que as dificuldades e insucessos escolares têm impacto em todos os aspetos da personalidade da criança e as colocam em desvantagem no acesso às manifestações culturais e, em muitos casos, às futuras oportunidades sociais e laborais. Podemos considerar a dificuldade de aprendizagem um sintoma no sentido de que nenhuma aprendizagem está isolada de uma série de outros comportamentos. Nenhum fator determina sua ocorrência, pois a questão da aprendizagem surge de uma confluência de elementos. Podemos definir uma dificuldade de aprendizagem como uma palavra geral que descreve problemas específicos de aprendizagem. É um distúrbio que pode prejudicar a capacidade de uma pessoa de adquirir, compreender, organizar e armazenar informações. Essa desordem prejudica a aprendizagem de indivíduos com um nível de inteligência média ou superior à média. Tal problema pode levar uma pessoa a ter dificuldades em aprender e a usar certas habilidades. Segundo Jerônimo Sobrinho: O problema de aprendizagem é um conjunto de obstáculos ou transtornos que inferem no desenvolvimento normal das atividades escolares de uma criança, o que a impede de realizar os objetivos educativos propostos (JERÔNIMO SOBRINHO, 2016 p.59). Uma pessoa com um problema de aprendizagem pode ter um tipo diferente de problema do que outra pessoa. Ou seja, uma pessoa pode ter dificuldades para ler e escrever; outro pode ter dificuldades com a compreensão matemática; e ainda outro pode lutar em todas as três áreas. Em outras palavras, as dificuldades de aprendizagem diferem de pessoa para pessoa. As habilidades que são mais frequentemente prejudicadas pelas dificuldades de aprendizagem incluem: Leitura (visual): a criança segura o livro próximo; diz palavras em voz alta; substitui, omite e inverte palavras; vê dobras; pula e lê as mesmas Linha duas vezes: não lê fluentemente; tem má compreensão de leitura oral; omite consoantes finais na leitura oral; pisca excessivamente; tende a esfregar os olhos e reclama de coceira; tem problemas de deficiência visual; erros de ortografia, etc.; Escrita: Inverte e muda a altura das letras; sem espaços entre as palavras, sem quebras de linha; segura o lápis desajeitadamente, sem lateralidade; move e carrega o papel incorretamente; tenta escrever com os dedos; confusão; Audição e Fala: A criança frequentemente apresenta apatia, resfriado, alergia e/ou asma, pronuncia errado, respira pela boca, reclama de problemas de ouvido, sente tonturas, fala alto; não pode seguir mais de uma instrução por vez; coloca a televisão e o rádio com volume alto; Matemática: a criança inverte os números; tem dificuldade em contar as horas; tem pouca compreensão e memória de números; e não responde a dados matemáticos, áticos, e a uma tarefa individual. É consequência de processos em que se valoriza a colaboração e a partilha. Cada indivíduo aprende com base em sua história pessoal e familiar, bem como no período histórico em questão. Quando se trata de cultura, que influencia e é influenciada pelo ser humano, ela não pode ser ignorada. Se alisar a aprendizagem, se corre o risco de “fragmentar” o processo, como demonstra o fracasso dos modelos educativos nas culturas originárias O ser humano é por natureza multidimensional, um sistema complexo de relações e funcionamentos. Quando ele está em uma situação de aprendizagem, reproduz as características desta complexidade, portanto, não podemos observá-lo. Os seres humanos são multidimensionais por natureza, são um sistema complexo de relacionamentos e funções. Como resultado, não podemos observá-lo, nem tentar trabalhar com ele considerando apenas seus aspectos comportamentais. Também é necessário avaliar as relações estabelecidas. Portanto, ao analisar a etiologia dos problemas de aprendizagem, devemos levar em consideração fatores fisiológicos, emocionais, sociais e históricos. Paín (1989) identifica quatro fatores que influenciam os problemas de aprendizagem dos alunos: orgânicos, específicos, psicogênicos e ambiental. 3.1 Fatores orgânicos A origem de todo aprendizado está nos padrões de comportamento existentes no corpo. Portanto, a integração anatômica e funcional dos órgãos envolvidos com os sistemas nervoso central e sensorial é essencial. Nesse contexto, Paín (1989) sugere estudar os estados visual e auditivo. A alteração de alguns desses recursos pode interferir no aprendizado da matéria. Por exemplo, crianças com perda auditiva ou miopia geralmente optam por se isolar ou pedir a alguém que repita o que foi dito. Se tais problemas são causados por defeitos orgânicos corticais, glandulares e crônicos, isso deve ser esclarecido por investigações neurológicas. Esses distúrbios podem levar a problemas cognitivos mais ou menos graves não é, em si, um problema de aprendizagem. Também é importante saber se seu filho está comendo corretamente e em quais quantidades e variações. Os efeitos da desnutrição no atual sistema nervoso central em níveis anatômicos, neuroquímicos e fisiológicos prejudicam aspectos cognitivos, comportamentais e motores da memória e cognição. Crianças desnutridas interagem menos com seu ambiente, o que afeta suas relações com outras pessoas e objetos da vida cotidiana. Paín (1989) afirma que a desnutrição crônica causa uma distrofia generalizada que prejudica gravemente a capacidade de aprender. Eles também têm um sistema imunológico enfraquecido, tornando-os mais propensos a desenvolver infecções. A dieta da mulher também deve ser levada em consideração, pois a desnutrição em mulheres grávidas pode afetar diferentes aspectos do desenvolvimento infantil. Também é importante conhecer as condições de proteção e conforto do sono do seu filho, poissão fatores fundamentais para um melhor aproveitamento da experiência. 3.2 Fatores específicos Existem problemas decorrentes da adequação dos movimentos perceptivos. Eles estão associados à dificuldade de não conseguir provar uma origem orgânica. Tais problemas afetam particularmente os níveis de aprendizado de idiomas, pronúncia, leitura e escrita. É impossível criar uma imagem clara de fonemas, sílabas, palavras, imperfeições gráficas, etc. Estes também são encontrados na análise e síntese simbólica e nas habilidades sintáticas. Certas dificuldades de aprendizagem são frequentemente associadas à incerteza na idade lateral do sujeito. O termo "dislexia" como entidade específica merece atenção especial nos problemas de aprendizagem. De fato, neste caso, a dislexia é um problema dentro da agnosia que não impede que crianças ou adultos afetados a tenham, podendo ser considerada um único tipo de dislexia que ocorre raramente (PAÍN, 1989). Em tais casos, é extremamente doloroso e deve se desenvolver por meio de canais compensatórios para manter a saúde. Em todos os outros casos, a dislexia é usada como um nome chique simplesmente para traduzir dificuldade de aprender a ler e escrever. Tais dificuldades sempre podem ser diagnosticadas, é multifatorial e sua peculiaridade reside na dificuldade de adaptação. Nesses casos, se o diagnóstico estiver correto, o tratamento psicoeducativo é de rápido sucesso. 3.3 Fatores psicogênicos Para reconhecer a expressão do conflito no psiquismo, é necessário recorrer à história pessoal do sujeito. O significado do problema de aprendizagem deve buscar tanto o conteúdo material sobre o qual opera quanto a manipulação do mesmo. As próprias operações e as fontes podem ser vistas como significantes associados a significados reprimidos inerentes ao funcionamento das estruturas neurais. Para interpretar seu significado, devemos observar o significado que uma tarefa de aprendizagem adquiriu em um determinado assunto. Paín (1989) discute a não-aprendizagem usando os termos sintoma e inibição, descritos por Freud. Primeiro, a não-aprendizagem tem um significado inconsciente. Há uma supressão prévia de eventos que de alguma forma implica um processo de aprendizagem. Na segunda, há uma retratação intelectual do ego (eu), o que provoca uma redução das funções cognitivas, acarretando problemas na aprendizagem. Em outras palavras, a inibição seria uma diminuição da função cognitiva da aprendizagem, e o sintoma a transformação dessa função. A supressão é uma peculiaridade dos fenômenos neuróticos e, segundo Freud (1976), implica a retirada do “ego” que ocorre em três casos. Primeiro, em relação à sexualização dos órgãos envolvidos na conspiração. Em segundo lugar, quando o sucesso é evitado ou forçado a falhar diante do sucesso. E terceiro, quando “eu” está preocupado com outras tarefas mentais que consomem toda a energia disponível. Os fatores psicogênicos dos problemas de aprendizagem estão, portanto, relacionados à sua importância e não podem ser inferidos sem considerar a matéria orgânica e o ambiente. A não aprendizagem é geralmente construída como um sintoma, quando existem outras condições que facilitam esse caminho. A chave aqui é que, para que os sintomas de aprendizagem ocorram, o sujeito deve ser um indivíduo dividido pela repressão. Desta forma, distinguimos entre dificuldades de aprendizagem e transtornos mentais graves que causam distúrbios do pensamento e deficiências intelectuais (autismo, psicose, transtornos narcísicos). Tais disfunções são distúrbios que, como antecedentes da formação dos sintomas, apresentam deficiências na organização do aparelho mental. O defeito do recalque originário indica um dispositivo que não se constitui plenamente e, portanto, funciona segundo sua estrutura particular, sob o domínio do processo primário. Quando falamos desse tipo de transtorno, não estamos necessariamente nos referindo a problemas de aprendizagem, mas os transtornos psicoestruturais fazem com que as crianças percam o potencial de ordem simbólica, afetando seus sistemas de pensamento e aprendizagem. Como os pacientes psicóticos não se envolvem na repressão, todo o processo secundário fica comprometido. O sujeito fica prisioneiro das múltiplas associações apresentadas, e o significante perde sua própria função de ser móvel e intercambiável. 3.4 Fatores ambientais As dificuldades de aprendizagem são causadas por problemas fisiológicos, a frequência com que as crianças são afetadas depende do ambiente em que vivem. Na verdade, a situação em casa e na escola pode significar a diferença entre uma deficiência leve e um problema de deficiência agravante. Precisamos entender como isso afeta o desenvolvimento intelectual e a capacidade de aprendizagem de uma criança (SMITH; STRICK, 2007). Este fator se concentra em questões escolares, em vez de questões de aprendizagem em si. Este fator contempla características como moradia, bairro, escola, acesso a locais de entretenimento e esportes, acesso à informação e cultura (jornais, televisão, rádio, livros, etc.) e a abertura profissional que a mídia oferece (PAÍN, 1989). Tais fatores permitem compreender sua correspondência (acréscimo) às ideologias e valores familiares. Os problemas de aprendizagem não são vistos da mesma forma em famílias onde a aprendizagem está num lugar privilegiado (onde a aprendizagem é valorizada e vista como importante) e em famílias onde não existe motivação para aprender. Portanto, é importante compreender o lugar da aprendizagem dentro dos grupos familiares e não deixar que a classe social seja o determinante da aprendizagem. Exemplos de fatores ambientais incluem baixo nível socioeconômico, mães sem família ou apoio social e baixa escolaridade dos pais. Nesses casos, é mais provável que a criança experimente alterações no desenvolvimento. A educação dos pais é fundamental para a sobrevivência e educação de uma criança. Outro exemplo é a exposição de crianças à violência doméstica. Essa situação se manifesta nas crianças por meio de sintomas psicológicos comportamentais, emocionais e físicos. O impacto varia de acordo com a idade, reticência familiar, características residenciais, experiência anterior com abuso, proximidade com os fatos, sua gravidade, tipo ou forma de abuso e familiaridade com a vítima ou perpetrador. Uso de substâncias, transtornos emocionais ou psiquiátricos graves, falta de cuidados pré-natais e falta de habilidades parentais no manejo pediátrico também são exemplos de fatores ambientais. As crianças formam um vínculo com seus pais ao longo do tempo. Esse vínculo é bidirecional e não instantâneo, e começa no útero quando a mãe sente os primeiros movimentos do feto. Construir um apego seguro requer a presença constante de um adulto que atenda com amor às necessidades emocionais e físicas de uma criança. Existem fatores pré-natais e pós-natais que colocam em risco os apegos. Por exemplo, gravidez indesejada, perda de filhos anteriores e bebês nascidos com malformações. A separação dos filhos dos pais por meio de hospitalização, divórcio e prisão dos pais são outros fatores ambientais. O fator ambiental é muito importante no diagnóstico de problemas de aprendizagem, pois permite entender nosso alinhamento com a ideologia e os valores do grupo. Não basta simplesmente colocar o paciente em uma classe social. Também é necessário determinar o nível de conscientização e participação. A dificuldade de aprendizagem que surge em cada caso terá um significado diferente, pois diferem o padrão contra o qual se dirige e a expectativa que desqualifica (PAÍN, 1989). A abordagem psicopedagógica, com sua multiplicidade de olhares, permite que educadores e familiares modifiquem suas atitudes diante das dificuldades de aprendizagem de qualquer pessoa;analisá-los a partir da dialética cada vez maior entre os equipamentos biológico-hereditários materializados em um corpo e um organismo, e os ambientes nos quais o educador vive e existe como ser de desejos, pensamentos e ações. Utiliza-se a contribuição de Scoz (1994), porque ela sintetiza a mensagem que se buscava compartilhar: (...) os problemas de aprendizagem não são restringíveis nem a causas físicas ou psicológicas, nem a análises das conjunturas sociais. É preciso compreendê-los a partir de um enfoque multidimensional, que amalgame fatores orgânicos, cognitivos, afetivos, sociais e pedagógicos, percebidos dentro das articulações sociais. Tanto quanto possível, a análise, as ações sobre os problemas de aprendizagem devem inserir-se num movimento mais amplo de luta pela transformação da sociedade (SCOZ, 1994, p.22) Espera-se que a abordagem psicopedagógica permita compreender melhor as dificuldades de aprendizagem sem penalizar os afetados, mas sim buscar a melhor ajuda para todos. Após o término da escola, o aprendizado é considerado a mãe da própria vida e, por isso, a compreensão e o tratamento dispensado às pessoas (com ou sem problemas de desenvolvimento) não devem mais se basear em teorias que promovem o sentimento de inferioridade e diferença, que leva ao preconceito. Por conta desse entendimento, a psicopedagogia é o tratamento mais indicado para os problemas de aprendizagem. A psicopedagogia contribui abrindo possibilidades de mudança a partir das diferenças, incutindo no aluno a vontade de aprender e tornando o único aos seus próprios olhos, aos olhos de sua família e aos olhos da escola. Psicopedagogos e alunos criam estratégias juntos para um melhor desempenho de acordo com possibilidades e interesses. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREUD, S. Obras Completas – Volumes I, IV VI, VII, XIV. XVII, XVIII, XIX, XXIII. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1976. JERÔNIMO SOBRINHO, P. Psicopedagogia clínica e institucional [recurso eletrônico] – São Paulo: Cengage Learning, 2016. PAÍN, S. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. Tradução: Ana Maria Netto Machado. 3º edição. Porto Alegre: Artes Medicas, 1989. PORTO, O. Psicopedagogia Institucional: teoria, prática e assessoramento psicopedagógico. 3. ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2009. SCOZ, B. A psicopedagogia e a realidade escolar: o problema escolar e de aprendizagem. Rio de Janeiro: Vozes, 1994 SMITH, C; STRICK, L. Dificuldades de aprendizagem de A a Z: um guia completo para pais e educadores.; tradução Dayse Batista. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre: Artmed, 2007.