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TREINAMENTO ESPORTIVO Salma Hernandez História e evolução do treinamento físico Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar os aspectos históricos do treinamento físico. Analisar a evolução do treinamento físico no âmbito da saúde e do desempenho. Averiguar as tendências e tecnologias aplicadas ao treinamento físico. Introdução Registros muito antigos já comprovam que o ser humano tinha relação direta com o exercício físico, porém não da forma como enxergamos hoje. De lá para cá, muitos acontecimentos marcantes mudaram o rumo do nosso entendimento sobre treinamento, e diversos pensadores con- tribuíram para nosso constructo atual. Para entender o atual estado das coisas no universo do treinamento físico, vale a pena dar um passo atrás para examinar como e por que chegamos até aqui. Neste capítulo, você vai estudar a trajetória histórica do treinamento físico e suas diferentes aplicações, sejam voltadas à performance esportiva ou à saúde e bem-estar. Além disso, ficará a par das atuais tendências e tecnologias adotadas no ramo. O treinamento físico na linha do tempo Ao depararmos com os modernos sistemas de treinamento físico atuais, além das grandes academias, aparelhos, tecnologias e marcas envolvidas, fi ca até difícil imaginar que tudo isso teve início muito tempo atrás, antes mesmo de existir o conceito de treinamento físico tal como o concebemos hoje. Esse conceito, aliás, deve ser entendido como um processo sistematizado de estímulos motores que sejam capazes de gerar respostas ou adaptações a esses estímulos. Essas adaptações, por sua vez, devem benefi ciar a condição desportiva, de lazer, de saúde, de trabalho e de qualidade de vida dos praticantes (BOMPA, 2012; FLECK; KRAEMER, 2017) Desse modo, o resultado do treinamento físico como o concebemos hoje nem sempre foi decorrente de uma prática sistematizada. Isso faz com que muitos pesquisadores levem em consideração somente dados sobre treinamento físico a partir do advento das Olimpíadas modernas, período em que foi possível aliar o resultado com o conceito. Se imaginarmos, porém, a definição muscular como resultado de trei- namento físico, veremos que o ser humano pré-histórico tinha contornos expressivos em sua musculatura, tanto quanto nos dias atuais. No entanto, seu “método de treinamento” advinha de uma necessidade de sobrevivência, de caçar e não ser alvo fácil de outras presas. Mas em que momento, então, essa informação cruza com o treinamento físico? Bem, você pode imaginar que tanto para caçar quanto fugir de animais, os homens da caverna desen- volveram diversas destrezas motoras, como subir em árvores, rastejar, pular, saltar, correr, lançar, arremessar, etc. Sua vida era basicamente um sistema de treinamento físico sem fim, porém com um importante detalhe: sua finalidade era sobreviver. Isso leva pesquisadores a divergirem em relação ao “nascimento do treinamento físico” (RAMOS, 1983; SOUZA, 2005). Esse modo de vida ativo também acabou se transformando, já que o fim da era paleolítica foi marcado pelo início da agricultura. Com o advento da era neolítica, novas condições físicas eram exigidas para a subsistência. O ser humano adaptou seu corpo para outras demandas, como tarefas motoras e de aptidão física para arar a terra, semear, cultivar, colher, etc. Assim, a era “agrícola” também exigiu muito do ser humano em sua performance física, só que não entendemos essa prática cotidiana como o treinamento físico que temos hoje. Passando da era pré-histórica para a Idade Antiga (cerca de 4.000 anos a.C.), temos como destaque os povos gregos e romanos. Foi uma época marcada pela interação do ser humano com o meio físico-geográfico que habitava e pelo desenvolvimento comercial, tendo o Mar Mediterrâneo como principal rota. Nessa época, o “condicionamento físico” era geralmente obtido de forma instintiva ou natural e ainda bastante pautado na sobrevivência. História e evoluçãodo treinamento físico2 Como exemplo de treinamento mais rigoroso, podemos citar o grego Mílon de Crotona, cujo “treinamento” apresentava princípios dos quais nos valemos atualmente. Conta a história que, para se preparar para as batalhas, Mílon carregava diariamente um bezerro nas costas, realizando 120 passos. Conforme o bezerro foi crescendo, Mílon foi se adaptando e ganhando força (Figura 1). O crescimento do bezerro e o treinamento sob as mesmas condições representam muito bem o que entendemos como periodização de um treinamento físico e os princípios que o regem. Mílon foi atleta das antigas Olímpiadas gregas e se destacou pela exuberante força, ganhando diversas vezes suas batalhas. Reza a lenda que sua morte se deu de forma frívola, quando uma de suas mãos ficou presa em uma árvore, tornando-o alvo fácil para presas selvagens. Figura 1. Mílon de Crotona, um exemplo de treinamento físico em que a carga (peso do animal) foi aumentando gradativamente, proporcionando ganho expressivo de força muscular. Fonte: Alchetron (2018, documento on-line). 3História e evoluçãodo treinamento físico Na Grécia antiga, além de promoverem o culto ao corpo, os jogos tinham enorme importância social, representando também uma forma de poder. Assim, o treinamento ou preparação para os jogos e guerras se assemelhavam muito com nossos atuais entendimentos sobre o treinamento físico. Eram propostas corridas, marchas, saltos e sobrecargas, além de massagens, apoio psicológico, aquecimento e desaquecimento, tudo primando pela melhoria do rendimento. No século VIII a.C., inaugura-se o que entendemos como Jogos Olímpicos, incluindo as seguintes modalidades: corrida, salto em distância, lançamento de dardo, pentatlo, arremesso de disco, pancrácio, boxe, luta, corrida de bigas e corrida de cavalo (TUBINO, 1984; BARBANTI, 1997). O treinamento grego era chamado tetra e representa, se não o primeiro, um dos primeiros modelos de periodização de treinamento físico como conhecemos hoje (Figura 2). O treinamento consistia em ciclos de três dias de treino e um de repouso (ou exercício ligeiro), com duração total de quatro meses (DANTAS, 2003). Figura 2. Treinamento tetra. Fonte: Adaptada de Dantas (2003). História e evoluçãodo treinamento físico4 A era greco-romana foi superada pela Era Cristã, e com ela novas propostas sobre perspectiva corporal e treinamento físico foram criadas. A partir de então, o corpo foi condenado e rebaixado ao pecado e Deus era o centro de todas as coisas. O culto ao corpo cabia apenas àqueles que dependiam dele, os militares; aos demais, restava apenas o exercício relacionado ao trabalho no campo (RAMOS, 1983; TUBINO, 1984; BARBANTI, 1997; SOUZA, 2005). Com o advento do Renascimento, por volta do século XIV, o pensamento sobre o corpo de forma mais anatômica e biológica é proposto. A partir dessa época, pensamentos e pesquisas mais similares aos atuais começam a surgir, e estudiosos começam a indagar como o treinamento pode ser realizado, aprofundando-se cada vez mais e destrinchando possíveis variáveis para sua manipulação. Sem dúvida, esse momento foi marcado por avanços na inves- tigação biológica e adaptativa frente ao exercício físico e por estudos sobre respostas em nosso organismo. Porém, cabe destacar que o exercício ainda era uma atividade elitista, sendo as modalidades de salto, corrida, natação, luta, equitação, jogo da pelota, dança e pesca prioridades para o ideal da educação cortesã (RAMOS, 1983; TUBINO, 1984; BARBANTI, 1997; SOUZA, 2005). Posteriormente, a Era Industrial, a partir de meados do século XVIII, trouxe uma nova relação com o corpo. A substituição dos seres humanos por máquinas em ambiente de trabalho foi sem dúvida uma das condições mais importantes para a mudança do corpo humano. Novas facilidades e conhecimentos tecnológicos trouxeram a condição do trabalho sedentário, mecanizado e repetitivo. O movimento passou a ser privilégio e escolha paraalgumas classes sociais em detrimento de outras. Longas jornadas de trabalho mecanizado, pouco acesso a formas de entretenimento, incluindo o exercício físico, e a diferença entre as classes impuseram um abismo no conhecimento adquirido até o momento ao longo da evolução do treinamento físico (RAMOS, 1983; TUBINO, 1984; BARBANTI, 1997; SOUZA, 2005). Em períodos mais recentes, encontramos as maiores contribuições teó- ricas sobre os modelos de periodização em treinamento físico. Em revisão da literatura realizada por Silva (1998), o autor retrata que as variáveis que conhecemos hoje dentro de um modelo de treinamento físico foram prove- nientes da necessidade de se dividir uma temporada de jogos em períodos e etapas específicos para atingir os objetivos (ganhar), levando em consideração as variações climáticas, as exigências físicas e suas adaptações e o próprio calendário. 5História e evoluçãodo treinamento físico Por fim, o que notamos atualmente é um aumento incrível dos níveis de sedentarismo humano (Figura 3), suscitado pela era industrial e suas facilidades. Dominamos a tecnologia, inventamos diversas facilidades para reduzir a mão-de-obra humana e transferir seu esforço físico no trabalho por máquinas, dando-nos a possibilidade de utilizar o tempo livre da melhor maneira possível. Figura 3. O ser humano moderno dominou a tecnologia e se tornou extremamente sedentário. Fonte: txking/Shutterstock.com. Nos tempos atuais, a prática do exercício físico tem sido associada à saúde, tanto no âmbito da reabilitação quando da profilaxia em relação a doenças. Já no campo desportivo, destaca-se o uso de equipamentos para melhoria do desempenho. Houve sobretudo uma intensa popularização da prática do exercício físico em geral e uma massificação na formação de profissionais e espaços para a prática do exercício físico (RAMOS, 1983; TUBINO, 1984; BARBANTI, 1997; OLIVEIRA, 2006). História e evoluçãodo treinamento físico6 Treinamento físico para saúde e desempenho Ao traçar a história do treinamento físico na linha do tempo, é possível perce- ber que sua proposição ocorreu em altos e baixos durante sua trajetória, sem uma evolução contínua e paulatina. Tudo surgiu de forma empírica e quase sem querer, em uma espécie de sistematização que foi sendo implementada de forma acidental. Para Bompa (2012) e Weineck (1999), o principal objetivo do treinamento físico é promover adaptações positivas nos estados físico, motor, cognitivo e afetivo do indivíduo e aumentar o nível do seu condicionamento de forma que ele atinja o ápice do desempenho durante a competição atlética. Para promover essas adaptações no organismo, é necessário o que entendemos como periodização do treinamento. É como se a periodização representasse os ingredientes para uma receita, que, em sua versão final — o prato pronto — é representada pelo treinamento físico. Trata-se de uma divisão de segmentos a serem controlados a fim de se obter ao máximo desempenho ou saúde. Diversos autores se dedicaram a estudar e propor esses “ingredientes”. Tudo começou com Kotov, no início do século XX, que propôs uma divisão em três períodos de treinamento: geral, preparatório e especial. Já em 1930, Pihkala apresentou teorias sobre a alternância de trabalho e recuperação. Também considerou uma organização temporal levando em consideração os dias, semanas, meses e anos de treinamento. Para ele, o volume de treinamento devia ser inversamente proporcional à intensidade e o treinamento específico devia ser construído sobre a preparação geral ampla. Posteriormente, Matveiev propôs períodos bem definidos (preparatório, competitivo e transitório) em que grandes cargas deveriam ser realizadas na preparação geral. Esse autor também acreditava que as cargas deveriam ser organizadas em complexas (envolvendo diferentes capacidades em uma mesma sessão) e paralelas (envolvendo dife- rentes capacidades ao longo de um período) (BENTO; MARQUES, 1992). Os modelos tradicionais de periodização voltados tanto para a saúde quanto para o desempenho têm como base esses postulados antigos, recém- -examinados. De maneira geral, o modelo que seguimos atualmente é aquele proposto por Matveiev, em que treinamentos devem ser compostos em três níveis: micro, meso e macrociclos. O microciclo é o menor dos três níveis de treinamento. Se considerarmos um microciclo de uma semana, por exemplo, com duas sessões diárias, teremos um microciclo com 14 sessões, sendo as sessões de treinamento responsáveis pela ótima relação entre estímulo e recuperação, isto é, visando também uma utilização otimizada dos sistemas energéticos. 7História e evoluçãodo treinamento físico A Figura 4 mostra a distribuição de cargas de treinamento durante um microciclo de uma semana, com uma sessão diária. Figura 4. Exemplo de microciclo de uma semana de duração. O mesociclo, por sua vez, é constituído por no mínimo dois microciclos. É a combinação dos microciclos com objetivos bem definidos, o que é fundamental para controlar os efeitos cumulativos dos microciclos, mais uma vez visando a máxima relação entre estímulo e recuperação. Um mesociclo de duas semanas de treinamento e uma sessão diária está representado na Figura 5, evidenciando a variação do uso da carga de trabalho visando a relação entre estímulo e recuperação. Figura 5. Exemplo de um mesociclo de duas semanas de duração. História e evoluçãodo treinamento físico8 Já o macrociclo representa a grande estrutura dos ciclos de treinamento, podendo ser semestral, anual ou plurianual. O macrociclo permite, portanto, uma preparação levando em consideração os calendários competitivos, podendo ser dividido em período preparatório, competitivo e de transição, segundo a proposição de Matveev (1986). A Figura 6 exibe um exemplo de modelo de macrociclo com cinco meses de duração. Figura 6. Exemplo de macrociclo. Basicamente, podemos observar que deve haver uma organização dos estímulos com a finalidade de melhorar o desempenho ou a saúde, com suas variações entre estética e qualidade de vida. Isto é, o treinamento físico é con- dicionado fundamentalmente pela relação entre os estímulos: carga e repouso. Para Matveiev, o modelo de periodização ideal deveria obedecer a uma relação ondulatória entre os estímulos de intensidade e volume. Por outro lado, Verkhoshanski defende uma modulação por blocos, isto é, cargas concentradas seguidas de um salto compensatório. A principal característica deste autor foi diferenciar a fase geral da específica para aquisição de habilidades. Assim, seria necessário criar uma habilidade geral básica, para posteriormente entrar em habilidades e desempenho mais específicos, como trabalhos de força e resistência muscular generalizada para membros inferiores, seguidos de treinos de potência e impulsão horizontal em um treinamento de salto em distância. Mais recentemente, Bompa propôs uma periodização para modalidades co- letivas em que o processo de treinamento acontece perante várias fases em forma sequencial, que se adapta ao modelo competitivo de longa duração (como vemos atualmente). Para este autor, a aquisição da condição geral deve ser prévia à específica, como pregava Verkhoshanski (1983). 9História e evoluçãodo treinamento físico O vídeo disponível no link a seguir debate de maneira bastante prática as diferenças entre os autores Matveiev e Verkhoshanski. https://qrgo.page.link/Bgzgt Nas últimas décadas, a literatura da área apresentou milhares de novas proposições em publicações que testaram, avaliaram e desenvolveram novos métodos de treinamento. Dentro de cada nova proposição, um autor defende seus resultados e a eficácia do treinamento aplicado. Ocorre, porém, que é utilizada uma metodologia diferente para cada estudo no que diz respeito a organização da sessão, controle das variáveis do treinamento, público avaliado e objetivos a serem testados. Como conclusão, avançamos bastante em aspectos importantes do treinamento,mas que basicamente se aplicam apenas a cada estudo proposto, sem substancial ou mesmo qualquer poder de extrapolação. A esse respeito, podemos destacar os estudos com populações especiais, sobretudo aqueles relacionados a aspectos de saúde de idosos, indivíduos com deficiência motora, intelectual e visual, além de crianças, gestantes e grupos com determinadas doenças, como hipertensão, dislipidemias, doenças degenerativas crônicas, entre outros, que foram grande destaque da literatura nos últimos anos. De todo modo, avançamos bastante em nosso conhecimento acerca dos benefícios do treinamento físico e, como consequência, foi possível promover uma democratização do acesso e relevância dessa prática. Outro importante aspecto a destacar é que, enquanto o treinamento físico voltado ao rendimento e desempenho desportivo tem suas condicionantes ou variáveis determinadas pelos campeonatos ou apresentações, o treinamento físico relacionado à saúde deve ter suas condicionantes ligadas diretamente aos objetivos pessoais do indivíduo. Sendo assim, as datas de campeonatos e apresentações irão determinar o planejamento do treinamento para a máxima performance coincidir essas datas, podendo existir vários campeonatos ao longo de um mesmo ciclo treinamento. Já nas relações do treinamento para a saúde em geral, o planejamento baseado em uma meta ou objetivo do indivíduo, quase sempre sendo um único momento de máxima aptidão para alcançar estes objetivos/metas. Ou seja, para o primeiro tipo de treina- História e evoluçãodo treinamento físico10 mento teremos maior influência de condicionantes externas (campeonatos), enquanto para o segundo levaremos em conta as condicionantes internas (objetivos e metas). Tecnologia aplicada ao treinamento físico Na segunda metade do século XX, sob infl uência da industrialização de- senfreada, muitos equipamentos específi cos para treinamento físico foram desenvolvidos. Acreditava-se que a resistência física era obtida de forma mais efi caz pelo treinamento com pesos. O mercado fi tness crescia de forma estruturada e acelerada e muitas academias especializadas em treinamento físico foram criadas — e nelas os equipamentos específi cos para atingir seus objetivos. Novas tendências sobre a saúde se reforçaram e o exercício físico passou a ser mais vinculado às condições de saúde e doença do que apenas ao rendimento esportivo (RAMOS, 1983; TUBINO, 1984; BARBANTI, 1997; OLIVEIRA, 2006). Nessa nova relação com o treinamento físico e em meio ao processo co- mercial intenso que vivemos até hoje, um filão comercial foi descoberto. Diversas empresas passaram a se especializar nesse setor de serviços, levando investimentos pesados ao desenvolvimento de roupas específicas para a prática de exercício físico e equipamentos específicos mais eficazes e ergonômicos, além de equipamentos periféricos capazes de medir o rendimento de forma individualizada (RAMOS, 1983; TUBINO, 1984; BARBANTI, 1997; OLI- VEIRA, 2006). A Internet disseminou essas informações de forma absurdamente rápida e o exercício físico passou a ser acessível a todas as esferas sociais. Fosse na televisão, no rádio ou nas revistas, todos os meios de comunicação propuseram a prática de exercício físico como uma possibilidade de promoção da saúde e do bem-estar. Roupas específicas, que facilitam a transpiração ou com ação antibacteriana, e monitores cardíacos, de distância, velocidade e performance se difundiram e ficaram mais acessíveis para a compra (RAMOS, 1983; TUBINO, 1984; BARBANTI, 1997; OLIVEIRA, 2006; BOMPA, 2010) Atualmente, diversos meios de inovações tecnológicas buscam soluções para este setor de mercado, como aplicativos para celulares com modelos de exercícios e prescrições de treinamento, relógios inteligentes com medidores relacionados ao treinamento físico (contadores de passos, frequência cardíaca, registro de atividades entre outros). Até o setor alimentício foi influenciado 11História e evoluçãodo treinamento físico pela “vibe fitness”, com oferta de comida saudável e que ajuda no rendimento e forma física. Nossa relação com a comida também foi melhor estudada e proposta pelos meios de comunicação. Para além dos aparelhos, roupas, acessórios e comidas, a própria posição do exercício físico se transformou — a presença do professor ou treinador passou a ser pormenorizada, em decorrência da informação difundida de forma massiva. As “fórmulas prontas” para o treinamento e seus objetivos ganharam destaque, sobretudo nas últimas décadas. Porém, cabe ressaltar que ainda não superamos a necessidade de uma boa periodização e prescrição de treinamento físico com acompanhamento especializado. Assim, os profissionais também tiveram que se adequar a essa nova demanda, criando novas formas de atendimento, como as plataformas digitais de atendimento ou atendimento domiciliar. Um recente estudo proposto pelo Colégio Americano de Esportes e Medicina (THOMPSON, 2018), intitulado “Pesquisa mundial de tendências fitness para 2019”, traz à tona os 20 tópicos relacionados ao treinamento físico com mais popularidade e tendência para o mercado profissional: 1. Tecnologia utilizável. Isto é, tecnologia relacionada a vestuário e aces- sórios, como rastreadores, relógios inteligentes, monitores de frequência cardíaca e de gasto calórico e dispositivos de rastreamento por GPS. 2. Treinamento em grupo. Os instrutores de exercícios em grupo ensinam, lideram e motivam indivíduos por meio de projetos específicos e aulas presenciais em grupo (mais de cinco participantes). 3. Treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT). Programas de exercícios que envolvem tiros curtos de alta intensidade, seguidos por um curto período de descanso. 4. Programas de condicionamento físico para idosos. Atendem às necessidades de uma população de idosos em rápido crescimento ao redor do mundo. 5. Treinamento com peso corporal. Uma combinação de treinamento com pesos corporais em resistência variável e movimentos neuromotores usando vários planos de movimento. Este tipo de programa se destaca pela utilização de equipamento mínimo, tornando-o uma maneira fun- cional e barata de se exercitar de forma eficaz. 6. Profissionais certificados. Com tanta disseminação de conteúdo, as pessoas deverão buscar pela contratação de profissionais certificados e credenciados em órgãos específicos e com reconhecimento. História e evoluçãodo treinamento físico12 7. Ioga. Atividade que ampliou sua possibilidade de atuação nos últimos anos, com variações como power yoga e yogapilates, destacando-se na busca por novos praticantes. 8. Treinamento pessoal. Segundo o estudo, essa tendência continua, à medida que a profissão de personal trainer se torna mais acessível on-line, em academias de ginástica, em casa e em locais de trabalho com academia. O treinamento pessoal inclui testes de condicionamento físico e estabelecimento de metas, com o treinador trabalhando para prescrever exercícios específicos para as necessidades e metas indivi- duais de cada cliente. 9. Treinamento funcional de condicionamento físico. Tendência de uso do treinamento de força e outras atividades, como equilíbrio, coorde- nação e resistência, para melhorar as atividades da vida diária. 10. Exercise is Medicine. Tendo como tradução “Exercício é Remédio”, esta iniciativa de saúde busca incentivar os médicos e outros prestadores de cuidados de saúde a incluírem avaliações para a prática de ativida- des físicas e recomendações de tratamento associadas a cada visita dos pacientes, além de encaminhar seus pacientes para profissionais habilitados. 11. Treinamento em saúde/bem-estar. Tendência de incorporar ciência comportamental na promoção da saúde e estilo de vida dos indivíduos. Neste tipo de treinamento, o treinador pode atuar individualmente ou em pequenos grupos. A abordagem do treinador fornece suporte, definição de metas, orientação e incentivo. O treinamento em saúde e bem-estar concentra-senos valores, necessidades, visão e objetivos a curto e longo prazo do cliente, usando o comportamento para alterar estratégias de intervenção. 12. Exercício para perda de peso. Tendência de incorporar todos os programas de perda de peso em um programa de exercício sensato. Representa a união de vários profissionais que utilizam, por exemplo, dietas, massagem e exercícios físicos no programa para perda de peso. 13. Aplicativos de exercícios móveis. Disponíveis para dispositivos móveis como iPhone, iPad e Android, aplicativos como Nike+, Club W e Ma- pMyRun incluem áudio e instruções visuais para prática de exercícios e dicas para ir em frente. Outros aplicativos incluem o Endomondo, Strava e Janet Stone Yoga, entre muitos outros. Alguns desses aplicativos podem acompanhar o progresso ao longo do tempo, bem como centenas de outras funcionalidades. 13História e evoluçãodo treinamento físico 14. Dispositivos miofasciais. Esses dispositivos incluem rolos para libe- ração miofascial. Pontos de disparos são projetados para massagear a musculatura, aliviar a contração e espasmos musculares, aumentar a circulação, aliviar o desconforto e ajudar no retorno venoso. Os rolos foram projetados para a região lombar, quadris e grupos musculares maiores, como os isquiotibiais e os glúteos. 15. Programas de promoção da saúde e bem-estar no local de trabalho. Esta é uma tendência em direção a uma variedade de programas e serviços fornecidos para melhorar a saúde e o bem-estar dos trabalha- dores e é integrada aos sistemas para apoiar a avaliação e a geração de relatórios sobre saúde, custos e produtividade. Tais programas ocorrem geralmente no local ou são programados em uma academia local. 16. Medições de resultados. Tendência voltada à prestação de contas. São necessárias medições para determinar os benefícios dos programas de saúde e fitness. A proliferação de tecnologias ajudará na coleta de dados para apoiar esses esforços. 17. Atividades ao ar livre. Os profissionais devem estar preparados para oferecer mais atividades ao ar livre, como caminhadas e passeios em grupos. Podem ser eventos curtos, eventos de um dia ou eventos de uma semana de caminhadas e excursões. Os participantes podem se reunir em um parque local, área de caminhada ou em uma trilha de bicicleta com um líder, por exemplo. 18. Licenciamento para profissionais de fitness. Algumas profissões nos Estados Unidos e em todo o mundo são reguladas por licenciamento. Ninguém pode se intitular médico ou enfermeiro sem licença, por exemplo. Essa também é uma tendência no setor de fitness, para obter mais regulamentações de profissionais como personal trainers. 19. Treinamento pessoal para grupos pequenos. Tendência que expande o papel do personal trainer do treinamento estritamente individual para treinamento em pequenos grupos. Neste modelo, o personal trainer trabalha com um grupo de duas a cinco pessoas e oferece descontos aos participantes. 20. Aulas de pós-reabilitação. Programas de exercícios projetados es- pecificamente para pacientes com condições crônicas de saúde, como câncer, doenças cardiovasculares, Parkinson e recuperação de AVC, que geralmente estão fora de um encaminhamento médico; também podem tratar de distúrbios pós-traumáticos observados em soldados que retornam do combate militar. História e evoluçãodo treinamento físico14 A utilização das tecnologias no treinamento físico é irrevogável. Mais que uma mera tendência, elas representam uma nova ordem de relação ditada pelo consumo tecnológico que veio para engolir métodos e instrumentos mais tradicionais. Mas será que essa relação é 100% positiva? A princípio, quando avaliamos essas novas tecnologias, como os aplicativos em smart- phones, é improvável que pensemos em algo “ruim”, afinal, trata-se de uma forma de democratização e incentivo à prática do exercício. Você tem ali, na palma da sua mão, um treinamento elaborado, pronto para atender seus objetivos. Por outro lado, essa democratização desenfreada traz consequências: qual a qualidade do que será executado pelo indivíduo, quem o supervisionará evitando lesões, quem o incentivará e acompanhará sua evolução? Será a extinção do profissional de educação física? Se de um lado a tecnologia traz inúmeros benefícios de acesso e uma gama enorme de variações em atividade física, por outro ela traz uma desvalorização da presença de um profissional e sua sistematizada atuação junto ao indivíduo. Essa situação ainda deve ser muito discutida, a fim de chegarmos a um consenso. Diante do estudo proposto pelo ACSM (THOMPSON, 2018), e levando em consideração todo o contexto histórico em que o treinamento físico se desenvolveu, podemos presumir que ainda há muitas possibilidades de atua- ção profissional, tanto no âmbito das pesquisas, que podem contribuir para o constructo teórico específico da área, quanto no campo da prática profissional. Afinal, o treinamento físico parece ser inerente ao ser humano, acompanhando- -o em diversos contextos e momentos evolutivos. ALCHETRON. Milo of Croton. Search Alchetron, 2018. Disponível em: https://alchetron. com/Milo-of-Croton. Acesso em: 6 dez. 2019. BARBANTI, V. J. Teoria e prática do treinamento esportivo. 2. ed. São Paulo: Blucher, 1997. BENTO, J.; MARQUES, A. (ed.). A ciência do desporto, a cultura e o homem. Porto: Univer- sidade do Porto, 1992. BOMPA, T. O. Periodização: teoria e metodologia do treinamento. 5. ed. São Paulo: Phorte Editora, 2012. 15História e evoluçãodo treinamento físico Os links para sites da Web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. DANTAS, E. H. M. A. A prática da preparação física. 5. ed. Rio de Janeiro: Shape, 2003. FLECK, S. J.; KRAEMER, W. J. Fundamentos do treinamento de força muscular. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. E-book. MATVEEV, L. P. Fundamentos do treino desportivo. Lisboa: Livros Horizontes, 1986. OLIVEIRA, V. M. O que é educação física. 11. ed. São Paulo: Brasiliense, 2006. RAMOS, J. J. Exercício físico na história e na arte: do homem primitivo aos nossos dias. São Paulo: IBRASA, 1983. SILVA, F. M. Planejamento e periodização do treinamento desportivo: mudanças e perspectivas. In: SILVA, F. M. Treinamento desportivo: reflexões e experiências. João Pessoa: Editora Universitária, 1998. SOUZA, J. M. C. Atividade física na idade média: bravura e lealdade acima de tudo. Revista de Educação Física - Centro de Capacitação Física do Exército, n. 131, 2005. Dispo- nível em: http://www.revistadeeducacaofisica.com.br/artigos/2005.2/ARTIGO%207. pdf. Acesso em: 6 dez. 2019. THOMPSON, W. R. Worldwide survey of fitness trends for 2019. ACSM’s Health & Fitness Journal, v. 22, n. 6, p. 10–17, 2018. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile. php/4477166/mod_resource/content/1/2018%20PESQUISA%20MUNDIAL%20DE%20 TEND%C3%8ANCIAS%20FITNESS%20PARA%202019.pdf. Acesso em: 6 dez. 2019. TUBINO, M. J. G. Metodologia científica do treinamento desportivo. 3. ed. São Paulo: IBRASA, 1984. VERKHOSHANSKY, I. V. Principios de entrenamiento para atletas de élite. Revista Stadium, n. 99, p. 3-8, 1983. 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