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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO DISSERTAÇÃO DE MESTRADO A FORMAÇÃO DE PROFESSORES E OS DESAFIOS PARA A EDUCAÇÃO INCLUSIVA: AS EXPERIÊNCIAS DA ESCOLA MUNICIPAL LEÔNIDAS SOBRINO PÔRTO Por Allan Rocha Damasceno Sob a orientação da Profª. Drª. Valdelúcia Alves da Costa ABRIL 2006 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto ii ALLAN ROCHA DAMASCENO A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Educação da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Educação. ORIENTADORA: Profª. Drª. Valdelúcia Alves da Costa Niterói 2006 2 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Ficha catalográfica Damasceno, Allan Rocha A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto / Allan Rocha Damasceno. – Niterói: 10/04/2006. 194 p., 3 cm. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal Fluminense, 2006. 3 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto iii ALLAN ROCHA DAMASCENO A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Aprovada em abril de 2006 Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Educação da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Educação. BANCA EXAMINADORA Niterói 2006 4 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto iv DEDICATÓRIA À minha família: Gilson, Rose e Amanda, meu eterno ninho; Tutuca, meu especial tio; Ruth, minha mãe e avó. À Janaína, minha incentivadora, com quem tenho uma dívida impagável. A Yago, um educando mais que especial em minha vida! 5 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto v AGRADECIMENTOS Gostaria inicialmente de agradecer a Deus por permitir que esteja aprendendo e crescendo um pouco mais a cada dia. A meus pais que sempre me incentivaram e à minha irmã querida meus sinceros agradecimentos pela presença preciosa. A minha Janaína pela paciência, perseverança e amor devotado durante toda a realização deste trabalho. À querida Ana Clara pelas horas que não pude me dedicar ao brincar tão precioso para ela, minhas desculpas e a certeza de que você um dia entenderá que papai além de ter um grande desafio a ser vencido, não podia se furtar em promover esse debate tão necessário e importante no cenário educacional brasileiro. À minha orientadora, interlocutora e amiga, Profª. Drª. Valdelúcia Alves da Costa, não tenho palavras para expressar tamanha gratidão e, com certeza, se me atrevesse a escolher algumas, nesta pequena página não haveria espaço suficiente. Obrigado por tudo Valdelúcia, você é um ícone na educação brasileira. Aos professores que participaram deste estudo, à coordenação e direção da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto, que abriram as suas portas, tornando possível investigar como vem se dando o processo inclusivo naquele espaço educacional. Enfim, agradeço a todos os amigos de cá e de lá, que contribuíram para a realização de minha dissertação de mestrado. 6 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto vi 7 “Todo o acto educativo é um acto feito de desafio, de imprevisível, de novo. É no confronto com as exigências que o quotidiano nos traz, que nos vamos fazendo mais e melhores educadores.” (Peças, 2003, p. 141) A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto vii SUMÁRIO APRESENTAÇÃO.................................................................................................................. 14 CAPÍTULO I - FORMULAÇÃO DA SITUAÇÃO-PROBLEMA: OS DESAFIOS DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA A ESCOLA INCLUSIVA ................................ 20 CAPÍTULO II - A FORMAÇÃO DE PROFESSORES FRENTE À DEMANDA DAS NECESSIDADES ESPECIAIS DOS ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIA ...................... 33 1. A DEMOCRATIZAÇÃO DA ESCOLA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA ..... 33 2. A FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA A AUTONOMIA E A EMANCIPAÇÃO PELA DEMOCRATIZAÇÃO DA ESCOLA ................................. 44 CAPÍTULO III - A FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA A INCLUSÃO ESCOLAR DE ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIA ............................................................................ 61 1. EDUCACAO INCLUSIVA: SEUS FUNDAMENTOS HISTÓRICOS, FILOSÓFICOS E LEGAIS ............................................................................................. 64 2. FORMAÇÃO DE PROFESSORES E ESCOLA INCLUSIVA: A QUESTÃO DO PRECONCEITO .............................................................................................................. 93 CAPÍTULO IV - DEFICIÊNCIA VISUAL, AUDITIVA E MENTAL: SEUS ASPECTOS EDUCACIONAIS .................................................................................................................. 104 CAPÍTULO V - EDUCAÇÃO INCLUSIVA E AS EXPERIÊNCIAS DOS PROFESSORES DA ESCOLA MUNICIPAL LEÔNIDAS SOBRINO PÔRTO/RIO DE JANEIRO ............................................................................................................................... 147 1. A FORMAÇÃO DOS PROFESSORES DA ESCOLA MUNICIPAL LEÔNIDAS SOBRINO PÔRTO/RIO DE JANEIRO ....................................................................... 149 a. A FORMAÇÃO DOS PROFESSORES: SUAS DIMENSÕES ACADÊMICAS E PROFISSIONAIS ..................................................................................................... 163 8 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto 2. AS CONCEPÇÕES SOBRE A ESCOLA INCLUSIVA: O QUE PENSAM AS PROFESSORAS DA ESCOLA MUNICIPAL LEÔNIDAS SOBRINO PÔRTO/RIO DE JANEIRO ........................................................................................... 169 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................................182 REFERERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 190 ANEXOS ................................................................................................................................ 196 9 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto ix TABELA DE ILUSTRAÇÕES Figura Título Autor URL Página 1 Viva a diferença Não divulgado www.veradias.pro.br 1 2 Dane of youth Pablo Picasso www.allposters.com 7 3 Education is the key to success Joysmith Brenda www.jbgallery.com 20 4 Projeto de valorização da cultura afro-brasileira na escola pública Não divulgado http://200.198.51.40/siste ma/projetos/transfer/diver sidade 48 5 Deficiente: para o povo essa história é uma lenda Não divulgado http://portal.prefeitura.sp. gov.br/cidadania/conselho secoordenadorias/deficien tes 91 6 Claude dessinant, Francoise et Paloma Pablo Picasso www.arteemcasa.com 134 7 Abaporu Tarcila do Amaral www.tarciladoamaral.co m.br 168 8 Reading, 1875 - 1876 Pierre A. Renoir www.allposters.com 177 10 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto x RESUMO Em minha dissertação realizei um estudo no qual investiguei a formação dos professores com vistas à organização da escola inclusiva. Busquei investigar questões: Como democratizar a escola, se seus professores permanecem atrelados às amarras conservadoras impostas pelo pensamento dominante? Como pensar em escolas inclusivas organizadas por professores que não se percebem capazes de elaborar sua prática pedagógica com base em ações reflexivas? A formação de professores, tanto inicial, quanto continuada tem contribuído para/na organização de escolas inclusivas? Este estudo se baseou, sobretudo, no pensamento de Theodor Adorno, representante da teoria crítica da escola de Frankfurt e de alguns de seus comentadores, onde procurei discutir a formação docente possível, no atual estágio civilizatório, que não dá conta do atendimento da diversidade dos estudantes com deficiência, pois sua dimensão unicamente adaptativa não vem sendo ainda capaz de possibilitar aos professores a reflexão necessária para o desenvolvimento de sua autonomia, com vistas à sua emancipação. Portanto, embora a formação docente possível não contemple as diferenças dos estudantes, pensando-as, sobretudo, como inerentes à condição humana, logo se faz necessário atualmente pensar para além dessa, na busca da superação dos limites impostos pelo desconhecimento acerca das necessidades educacionais especiais dos estudantes com deficiência. Tendo, então, como eixo norteador a formação crítica dos professores para a autonomia docente, com vistas à organização de escolas inclusivas analisei algumas dimensões, como a educação e emancipação; educação e política; educação e sensibilização. A inclusão escolar deve ocorrer por intermédio da mudança de concepção sobre educação, deficiência, escola, dentre outras categorias, e não apenas com base nos dispositivos legais ou por algum tipo de ação autoritária. O movimento inclusivo escolar de estudantes com deficiência é, sobretudo, sensibilizar os professores pela reflexão crítica acerca de sua formação e de sua prática pedagógica. Analisei também a educação inclusiva e suas possibilidades no desenvolvimento de sentimentos de solidariedade e respeito entre professores e estudantes, deficientes e não deficientes, para o acesso a uma educação emancipadora. Foram analisadas as questões legais que amparam a inclusão escolar de estudantes com deficiência na rede regular de ensino; as possibilidades na organização de escolas inclusivas; a inclusão escolar de estudantes com deficiência como um processo em andamento; a relação entre a inclusão escolar e o preconceito, com base no pensamento de autores como Crochík e Costa, entre outros, que possibilitaram aprofundar minhas reflexões críticas acerca da gênese do preconceito na sociedade e sua manifestação pelos indivíduos. Ainda analisei os aspectos educacionais que envolvem a deficiência visual, auditiva e mental, presentes na escola estudada. Os resultados deste estudo, que foi realizado em uma Escola de Ensino Fundamental da Rede Pública do Município do Rio de Janeiro, teve como sujeitos a diretora adjunta e quatro professoras da instituição. Por intermédio de entrevistas semi-estruturas com os profissionais da escola, foi possível perceber que o caminho a ser percorrido para a organização da escola inclusiva é muito extenso, contudo necessário. Os resultados obtidos no locus de meu estudo permitiram concluir que a formação dos professores tem contribuído pouco, de sobremaneira, no combate e na superação da exclusão dos estudantes deficientes, sobretudo pelo escasseamento do debate em torno dessa questão. Mesmo sentindo-se um tanto solitários no movimento de inclusão escolar, os professores da escola utilizam a experimentação como um dos recursos no fazer pedagógico frente às demandas dos estudantes deficientes. Dentre as considerações finais, penso que a principal contribuição de meu estudo é a possibilidade da crítica sobre a formação profissional, inicial e continuada do professor, que tem sido predominantemente voltada para a reprodução de fazeres pedagógicos, o que vem obstando ou retardando o processo de inclusão escolar de estudantes deficientes na escola pública inclusiva. Palavras-chave: formação de professores; educação e escola inclusiva; necessidades educacionais especiais. 11 A f ormação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto 12 xi ABSTRACT In my composition I accomplished a research witch I investigated a teacher formation craving the inclusive school organization. I searched for reasons: How could be possible to democratize the school, if its teachers maintain themselves linked by conservatory hawsers imposed by the ruling thoughts? How can we think about inclusive schools organized by teachers that do not seem to be able to create their own pedagogical practice based on reflective actions? Had the teachers’ formation (as initial as continuous) contributed for/in the inclusive schools organization? This research was based on, above all, the Theodor Adorno thoughts, an author of Frankfurt School, where I tried discussed the possible teaching staff formation, in current civilizatory stage that is not able to attend the disable students diversity, because its uniquely adaptable dimension has not being capable to make possible to the teachers the necessity reflection development of their autonomy, craving for a emancipation. Consequently the possible teaching staff formation does not perceive the differences of the students, thinking about them, above all, how inherent to the human condition, so making necessary nowadays thinking beyond this, in the quest for limit-breaks impost ignorance near to the specials educational need of the disable students. Having, then, like guide axle the criticism formation of the teachers for the teaching staff autonomy, craving the inclusive schools organization I analyzed some dimensions with the education and emancipation; education and politics; education and sensibility. The school inclusion should happen by the intermediate of the conception change about education, disability and school, between others categories, and not just basedon legal apparatus or by some kind of authority actions. Inclusive school movement of disable students is, above all, to sensibilize the teachers by the criticism reflection around their own formation and pedagogical practice. I analyzed too the inclusive education and their possibilities in the development of the solidarity feelings and respect between the teachers and students, disable and not disable, to the access of a emancipative education. The legal reasons that take care of school inclusion of disable students in the regular teaching web were analyzed; the possibilities in the inclusive schools organization; the school inclusion of disable students like a current process; the relation between school inclusion and the prejudice, based on the thoughts of the authors like Crochík and Costa, and others, that make possible to deepen my criticism reflections around the genesis of the prejudice in the society and its manifestation by each human being. I also analyzed the educational aspects that involve the visual, mental and auditory disabilities in view in the studied schools. The results of this study, that was accomplished in a Elementary school of the public web Municipality of Rio de Janeiro, had like subject the adjunct directorship and four teachers of the institution. By the intermediate of interview half structure with the school professionals, it was possible to perceive that the way we must travel over for the inclusive school organization is too long, however necessary. The results got in the locus of my study allows me to conclude that the teacher formation has contributed only a little, excessively, in the combat and the surmount of the exclusion of the disable students, above all scarcity of the debate pointed. Even feeling a kind solitary I the movement of the school inclusion, the schoolteachers utilized the experimentation like one of the resources in the pedagogical doing in front of the demands of the disable students. In the finals considerations, I think that the mainly contribution of my study is the possibility of the criticism about the professional formation, initial and continuous of the teacher that had been predominantly turned to the reproduction of the pedagogical doing, what come hindering retarding the process of the school inclusion of the disable students in the inclusive public school. Keyword: Teacher formation; education and inclusive school; special educational needs. A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto “A diferença é a essência da humanidade” Figura 1 13 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto “A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica.” “A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação.” Theodor Adorno APRESENTAÇÃO Este estudo representou para mim em mais uma oportunidade de viver experiências, que na sociedade da homogeneização têm sido dificultadas aos indivíduos. Colocar-me no movimento de viver essa experiência me fez relembrar a minha trajetória de professor, e atrelada essa, a minha trajetória humana. A experiência do convívio com a deficiência vem de longa data. Ter um tio deficiente fez-me despertar, ainda precocemente, para a diversidade humana. Esse convívio possibilitou-me compreender que a idéia da deficiência como incapacidade estava completamente equivocada. Entretanto, o olhar de censura, de condescendência, de preconceitos que o cercavam me levava a questionar a própria condição do ser deficiente. Contudo, ainda não possuía elementos que pudessem me apoiar a elaborar a idéia de deficiência, e daí, a dialogar com outras compreensões, que estivessem além das que comumente são difundidas. A opção pelo exercício do magistério, penso hoje, relaciona-se exatamente com a idéia que cultivava sobre a possibilidade infinita do ser humano aprender, mesmo com questões objetivas presentes, como a deficiência. A escolha pela área de atuação, a física, foi norteada com base nas dificuldades que observava, quando estudante no Ensino Médio, nos colegas que percebiam naquela área do conhecimento um grande quebra-cabeça, um saber cujo entendimento era possível apenas a poucos. O descontentamento com todo esse contexto levou-me, ainda no terceiro período do Curso de Física na Universidade a investigar as causas dessas dificuldades e a desenvolver estudos voltados para essa direção. 14 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Os resultados desses estudos se tornaram publicações apresentadas em congressos da área, com atenção especial à menção honrosa concedida pela Universidade a um, dentre os trabalhos que desenvolvi a época. No meu trabalho de conclusão do curso de Física, investiguei e desenvolvi propostas metodológicas de ensino de física para estudantes com dificuldades de aprendizagem. Recordo-me de ter ouvido de uma das avaliadoras da banca: “Eu se fosse você investiria nessa área. Você se revela no que faz!”. Nunca mais esqueci essa afirmação. Em minha primeira experiência em sala de aula como professor, em uma Escola de Ensino Médio Profissionalizante, localizada no Município do Rio de Janeiro, pude perceber que, entre tantos estudantes, havia um especial. Yago1, é seu nome. Ao encontrá-lo em minha classe o percebi muito distante, mas acolhido por alguns colegas que se identificavam com sua humanidade. Uma questão me afligiu naquele momento: Como trabalhar de maneira a atender as demandas educacionais daquele estudante? Como acolher Yago? Em nenhum momento em minha formação havia participado de debates que contemplassem as necessidades especiais de estudantes deficientes. Contudo, havia o desejo em ajudá-lo. Sentia-me sensível ao seu acolhimento. Embora tenha sentido medo, não me permiti imobilizar. Percebendo que existia a necessidade de me movimentar, busquei apoio junto aos pares. Minhas experiências não foram exitosas, no primeiro momento. Os demais professores, como eu, também não se reconheciam naquela realidade. Existia uma grande diferença entre nós: Eu não me contentava com que Yago estivesse à margem. Naquele contexto, verifiquei que a melhor opção era aprofundar os estudos que já realizava como autodidata. Foi no Curso de Especialização em Educação Especial da Universidade Federal Fluminense, onde encontrei elementos para poder intervir melhor naquele contexto. Dessa experiência, pude avançar e verificar que o problema que me afligia era extensivo a um contexto muito maior. Assim como eu, muitos outros professores estavam vivendo o dilema da inclusão escolar de deficientes. Entretanto, as minhas observações me revelaram que o medo que eu havia sentido, e que era recorrente, não os colocavam, em sua 1 Neste estudo todos os sujeitos são identificados por pseudônimos. 15 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto maioria, no movimento que ocorrera comigo. Muitos professores se imobilizavam frente à mudança necessária, mas nem por isso simples de ser realizada. Pensei: Como contribuir para minha diferenciação como indivíduo professor, como também possibilitar o debate acerca das lacunas que existiram em minha formação, paraque essas não se afirmem como elemento dificultador na formação de meus colegas professores e, conseqüentemente, em mais um obstáculo à inclusão escolar dos estudantes deficientes? Nesse sentido, apresento minhas contribuições apresentadas neste estudo. Com base nas reflexões do pensamento de Adorno, representante da Teoria Crítica da Sociedade, debato a formação de professores possível na sociedade contemporânea. Analisando as categorias como educação para a democratização; educação para emancipação; educação política; educação e preconceito; educação para a sensibilização; entre outras, busquei compreender a dimensão adaptativa que tem sido priorizada na formação dos professores, que não pode ser negada, mas que não tem oportunizado o desenvolvimento da autonomia e emancipação desses indivíduos. É com a premissa de que a formação dos professores, afastando-se da idéia de sua dicotomização inicial e continuada, embora sem negá-la, não tem oportunizado a diferenciação dos indivíduos na sociedade da homogeneização, que inicio o debate. Desse ponto podemos inferir: Como pensarmos uma educação que se volte para a diversidade e a diferença dos estudantes, se o enfoque é nos estudantes homogêneos, iguais? Como pensarmos em uma educação inclusiva se não reconhecemos a diversidade dos estudantes como sendo a essência de sua humanidade? Como pensarmos em uma sociedade democrática com a manutenção de escolas excludentes? Portanto defendo a idéia de que antes de pensarmos em capacitação e aperfeiçoamento para professores em serviço, incorporação de debates na formação inicial, que se voltem prioritariamente para o como fazer, o que considero reducionista, o movimento é de repensarmos a formação que aponte para além da adaptação, possibilitando o desenvolvimento da autonomia docente, migrando para o com base em minhas reflexões vou (vamos) realizar. A primeira pergunta a essa afirmativa é a de que, de fato, isso é uma transferência de responsabilidade, projetando-a exclusivamente para o professor? Essa argumentação é 16 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto desconstruída quando o professor é considerado como mais um agente, que considero nesse momento como elemento-chave para a efetivação do processo inclusivo, que deve partilhar as responsabilidades junto aos órgãos competentes e demais membros da sociedade pela redemocratização da escola, além dos profissionais da escola. A responsabilidade é de todos, mas caberá ao professor possibilitar o acolhimento e atendimento das necessidades educacionais especiais dos estudantes deficientes em sua sala de aula, uma vez que o sistema não vem sendo capaz de atender responsavelmente a complexa estrutura de transição da escola exclusiva para a escola inclusiva. Dessa forma, elaborar minha dissertação tornou-se um desafio, um entre muitos a serem vividos em minha formação. Escrevê-la levou-me a entender minha fragilidade humana e daí concluir que não somos imunes ao preconceito. Ter elaborado minha dissertação me fez perceber que na sociedade da homogeneização, da ideologia dominante, o germe da emancipação está presente, assim como o aprisionamento ideológico. E, penso que a autonomia está acessível pela reflexão crítica, em minha compreensão, uma instância de resistência à barbárie. Hoje, ao discutir sobre a escola inclusiva, penso em transformação social, em retomada da democratização do Brasil. E, ao pensar em redemocratização a associo à liberdade, ao desenvolvimento da sensibilidade com vistas à emancipação, à organização de uma sociedade mais justa e humanizada, portanto constituída por pessoas felizes. Foi nesse movimento que elaborei minha dissertação, que divide-se nas seguintes partes: a apresentação, com os fundamentos para a definição do objeto de estudo; o primeiro capítulo onde apresento o tema e a formulação da situação-problema, onde procuro apontar os desafios da formação de professores para a escola inclusiva, e discuto a formação do professor como questão de estudo necessária para o entendimento do atual processo de inclusão escolar de deficientes. No segundo capítulo foi desenvolvido o tema da formação de professores frente à demanda das necessidades especiais dos estudantes com deficiência; enfocando a democratização da escola na sociedade contemporânea, discutindo a inclusão escolar não só como movimento de redemocratização da escola, mas também como processo de mudança nas estruturas sociais, e debatendo ao mesmo tempo a formação de professores para a 17 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto autonomia e emancipação, buscando a compreensão da formação no pensamento de Adorno, Costa, Crochík, dentre outros autores. No terceiro capítulo, debato os aspectos presentes no processo de inclusão escolar, em especial os seus fundamentos históricos, filosóficos e legais, e apresento minhas reflexões sobre a questão do preconceito e a sua relação com a formação dos professores considerando a escola inclusiva. No penúltimo capítulo, o quarto, discuto aspectos educacionais no processo de escolarização de estudantes que apresentam deficiência visual, auditiva e mental, identificadas nos estudantes da escola estudada. Finalmente, o quinto capítulo refere-se à apresentação e análise dos dados coletados nas entrevistas realizadas com as professoras da Escola de Ensino Fundamental regular, Leônidas Sobrino Pôrto, pertencente à Rede Municipal do Rio de Janeiro, onde destaco questões ligadas à estruturação e organização da educação inclusiva, com ênfase nos aspectos da formação dos professores dessa Escola. Espero que minhas contribuições nesta dissertação, dando continuidade às minhas experiências, possam contribuir para a reflexão acerca da formação do professor, se contrapondo aos impedimentos postos à inclusão de estudantes com deficiência na mesma escola. 18 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto “Educação Inclusiva: por uma escola-mundo onde caibam todos os mundos” Figura 2 19 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto “Educar alunos com deficiência é tarefa a ser desenvolvida pelo professor no cotidiano escolar em parceria com esses mesmos alunos” Valdelúcia Alves da Costa “Uma escola que se desenvolve fugindo aos conflitos é uma escola débil” Américo Peças CAPÍTULO I - FORMULAÇÃO DA SITUAÇÃO-PROBLEMA: OS DESAFIOS DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA A ESCOLA INCLUSIVA A problemática deste estudo vincula-se à questão da formação dos professores, em particular os que atuam ou irão atuar em classes inclusivas. Embora minha análise possa se estender para a questão da formação dos professores de maneira geral, entendo que meu objeto de pesquisa necessita se particularizar, considerando os limites do estudo. Versando meu estudo sobre a formação do professor para e na escola inclusiva, tendo como pressuposto que essa se configura no espaço pedagógico que considero, assim como os pesquisadores da educação (Costa, Glat, Carvalho, dentre outros), como sendo o mais adequado para o atendimento dos estudantes deficientes, apresento algumas orientações defendidas por Ainscow (1995), autora com experiências internacionaissobre a realidade da formação de professores para a escola inclusiva. A primeira consideração que destaco aponta para as recomendações de outras realidades internacionais, incorporadas aqui com base nas experiências de Ainscow (1995, p. 14), que estão em consonância com as analisadas por outros estudiosos da formação de professores para a inclusão escolar de estudantes com deficiência1 no Brasil, como Costa, Crochík, dentre outros: 1 Aditarei neste trabalho algumas nomenclaturas que se referem ao mesmo grupo de indivíduos. Quando me referir aos estudantes com deficiência, estarei tratando daqueles que possuem alguma deficiência objetiva, como por exemplo: surdez ou cegueira. Excepcionalmente, também poderei me referir a estes sujeitos como estudantes com necessidades especiais. 20 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Ao encorajarmos os professores a explorarem formas de desenvolver a sua prática, de modo a facilitar a aprendizagem de todos os alunos, estamos, porventura, a convidá-los a experimentarem métodos que, no contexto da sua experiência anterior são estranhos. Consequentemente, é necessário empregar estratégais que lhes reforcem a auto-confiança e que os ajudem nas decisões arriscadas que tomarem. A nossa experiência diz-nos que uma estratégia eficaz consiste em implicar a participação dos professores em experiências que demonstrem e estimulem novas possibilidades de acção. Nesse sentido, se faz necessário que o professor desenvolva um senso crítico, para que enfrente o desafio, novo para todos, que é ensinar na e para a diversidade de seus estudantes. E, sobre a orientação que pensa que pode ser dada aos professores no desenvolvimento dessa capacidade, Ainscow (1995, p. 17), esclarece: Esta orientação acompanha o pensamento actual no mundo da formação dos professores em que se aceita, de forma crescente, que a prática se desenvolve a partir de um processo fundamentalmente intuitivo, através do qual os professores ajustam os seus planos de aula, a sua actuação e as sua respostas à luz do feedback dos elementos da sua classe. E acrescenta (1995, p. 17): Para além de se sublinhar a importância de se dar aos professores oportunidades de considerarem novas possibilidades, a outra estratégia que consideramos útil consiste no apoio à experimentação na sala de aula através de formas que encorajem a reflexão sobre as actividades. A chave desta estratégia que consideramos útil consiste no apoio à experimentação na sala de aula através de formas que encoraje, a reflexão sobre as actividades. A chave desta estratégia situa-se na área do trabalho em equipe. Encorajamos, especificamente, os professores a formarem equipes e/ou partenariados em que os respectivos membros concordem em se ajudar uns aos outros a explorar aspectos da sua prática. A referida autora (p. 18) recomenda o trabalho em equipe e a experimentação como sendo direções possíveis para o desenvolvimento das ações docentes que atendam às demandas de aprendizagem dos estudantes com deficiências na escola inclusiva. 21 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Através de todos este processos de trabalho em equipe e em partenariado é dada forte ênfase àquilo que Gidin (1990) chama de “diálogos”. Esta forma de reflexão crítica, realizada em colaboração com os colegas, é especialmente importante na área das necessidades educativas especiais. Especificamente, as nossas tradições levaram-nos a conceptualizar o trabalho de uma forma relativamente estreita, em que foram excluídas muitas possibilidades que poderiam ter gerado melhores oportunidades para as crianças que pretendemos ajudar. Especificamente, as nossas tradições levaram-nos a olhar para o nosso trabalho fundamentalmente em termos técnicos. A reflexão crítica por parte dos professores, que é o fio condutor da linha de análise deste trabalho, está presente nas experiências de Ainscow, como capaz de promover a mudança das idéias que derivem em ações factualmente acolhedoras e inclusivas, pois a ausência dessa capacidade promoveria certas implicações, como destacado por Ainscow (1995, p.18): No entanto, quando as abordagens são aplicadas de forma acrítica, podem conduzir a formas de trabalhar que continuam a manter, em relação a certas crianças, os pontos de vista baseados na deficiência. Assim, é necessário ajudar os professores a aperfeiçoar-se como profissionais mais reflexivos e mais críticos, de modo a ultrapassarem as limitações e os perigos das concepções baseadas na deficiência. Ou seja, a ausência da reflexão contribuirá para afirmar a exclusão dos estudantes com deficiência da escola regular. Assim, necessário se faz que os professores sejam apoiados a entenderem, enfrentarem e superarem os limites pedagógicos e atitudinais postos à inclusão escolar dos estudantes com deficiências, como destacado por Ainscow (1995 p. 20): Deste modo, é possível sensibilizar os professores a novas formas de pensar que lhes desvendarão novas possibilidades para o aperfeiçoamento da sua prática na sala de aula. Isto implica que não nos limitemos a preocupar-nos com métodos e materiais e que levemos os professores a tornarem-se pensadores reflexivos e a sentirem a confiança suficiente para experimentarem novas práticas, à luz do feedback que recebem dos seus alunos. 22 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Entendo que a formação de professores para o atendimento da diversidade dos estudantes com deficiências, não deverá apenas se circunscrever em torno dos métodos e técnicas, porque apenas esses não darão conta das diversas e diferentes condições pedagógicas não previstas do cotidiano escolar inclusivo. Os professores é que terão que desenvolver uma postura investigativa para o enfrentamento e superação dos desafios cotidianos. E, embora a questão pareça se fechar em torno da reflexão crítica dos professores, Ainscow (1995, p. 21) alerta para a necessidade de não se limitar a questão em torno do indivíduo. Ou seja, além dos profissionais elaborarem suas reflexões com base em suas percepções e análises, a necessidade de debater suas experiências é condicional para que o projeto da escola inclusiva se torne exitoso: Assim, embora a reflexão seja uma condição necessária para a formação profissional, não é suficiente. Tem de ser acrescida por confrontações com pontos de vista alternativos. Daí a necessidade de se criarem oportunidades para realizar experiências de demonstração de formas diferentes de trabalhar em colaboração com os colegas. Ante o exposto, é possível cotejar com a realidade brasileira, e afirmar que há em nosso meio educacional uma demanda por professores capazes de elaborarem concepções educacionais e pedagógicas com base em reflexões, tornando-se assim autores de sua própria prática pedagógica. Ou seja, vivemos em um contexto escolar atual onde os professores se tornaram reprodutores de práticas instituídas, muitas vezes pelo próprio sistema de ensino, contribuindo para a manutenção de estruturas das quais deveriam ser, a priori, seus reelaboradores. Nesse sentido, proponho algumas questões de análise relacionando-as à formação de professores e à organização de escolas inclusivas, cerne do meu estudo: • Como tornar a escola inclusiva se seus professores permanecem atrelados às amarras de uma prática pedagógica tradicional decorrentede uma formação docente conservadora ainda dominante? 23 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto • Como pensar em escolas inclusivas organizadas por professores que não se percebem capazes de elaborar sua própria prática pedagógica com base em reflexões críticas e experimentações junto com seus estudantes? • A formação de professores, inicial e continuada, tem contribuído para a organização de escolas inclusivas? • Os desafios postos à organização de escolas inclusivas estão presentes no processo de formação dos professores, tanto inicial quanto continuada? • Quais os elementos presentes no processo de formação (inicial e continuada) que contribuem para a organização de escolas inclusivas? • Como enfrentar ou mesmo superar, pela formação crítico-reflexiva, os desafios postos à inclusão de estudantes com deficiência na escola regular? • As experiências vividas pelos professores, tanto profissionais quanto acadêmicas, têm contribuído para a organização de escolas inclusivas? De que maneira? • Como os professores podem ser apoiados em sua atuação docente para tornar possível a organização de salas/escolas inclusivas? No caso da educação escolar inclusiva, minha experiência como professor de física do ensino regular, atuando em escolas com estudantes deficientes incluídos, revelou-me que existe uma grande resistência dos professores desse nível de ensino em acolher esses estudantes em suas salas de aula. Muitos são os fatores alegados para afirmar a segregação, como falta de preparo profissional, carência de cursos de capacitação e aperfeiçoamento, inexistência de adaptações estruturais das escolas, dentre outros. Entretanto, o que se observo é que mesmo quando alguns desses obstáculos são minimizados, ainda assim a resistência, de maneira geral, permanece. Qual será, então, o principal, se é que se pode singularizar, entrave à organização de escolas inclusivas? O que entendo e defendo é que os pensares e ações daqueles que deverão atuar nessas escolas demandadas socialmente, deverão se constituir em fator de modificação dessa estrutura, que hoje não atende à demanda humana, porque não está preparada para educar para e na diversidade humana. 24 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Penso que esperar que o sistema, por si mesmo, se reestruture, de maneira que os professores, em postura submissa, aguardem as propostas e estratégias de mudanças desenvolvidas pelo poder executivo objetivando a inclusão daqueles que foram, e porque não afirmar que ainda permanecem em outra escola, - a especial -, historicamente excluídos das instâncias sociais comuns, os deficientes, não resultará em mudanças efetivas no sistema educacional. O momento é de mobilização, do trabalho cooperativo, da busca de parcerias em prol da mudança escolar e educacional, e quiçá, social, promovida pela inclusão escolar no acolhimento da diversidade dos estudantes com deficiência na escola inclusiva. Contudo, observo que as escolas especiais sobrevivem mantendo longe do convívio social os estudantes deficientes, ratificando assim a lógica da exclusão presente na sociedade de classes. O momento atual que vivemos é de busca da superação da escola especial. Os professores podem e devem agir se desejam promover a reestruturação da escola para se tornar inclusiva. Quanto a isso Costa (2005, p. 67), esclarece: Diante dessa possibilidade, a questão posta aos profissionais que atuam na educação dos deficientes é: não é o momento de pensar a própria concepção de educação especial, uma vez que ela contém a idéia de discriminação, de segregação, de barbárie, de exclusão escolar, social e cultural dos educandos com deficiência denominados “especiais”, ou seja, inadaptados, desiguais? Pensar sobre isso pode ser revolucionário, pois “Aquele que pensa opõe resistência”, embora constatando que, para os profissionais dessa área “[...] é mais cômodo seguir a correnteza, ainda que declarando estar contra a correnteza.” (Adorno, 1995a, p. 208). Entretanto, para isso necessitamos desenvolver uma postura reflexiva, significada por Adorno (1995, p.169) como auto-reflexão crítica, elemento essencial no movimento pela emancipação das pessoas: ‘Esclarecimento é a saída dos homens de sua auto-inculpável menoridade’. A democracia repousa na formação da vontade de cada um em particular, tal como ela sintetiza na instituição das eleições representativas. Para evitar um resultado irracional é preciso pressupor a aptidão e a coragem de cada um em se servir de seu próprio entendimento. 25 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Não estou afirmando neste trabalho que a responsabilidade pela efetivação do processo inclusivo é exclusivamente do professor, eximindo o sistema, e apresentando-o como o “super-herói”. Estou debatendo as responsabilidades e posicionando o professor como um elemento essencial no atual estágio em que vivemos o processo de inclusão escolar de deficientes. Na verdade quero reforçar a idéia de que por mais que existam possibilidades de debate na formação do professor, seja inicial ou continuada, a questão é que nessa transição do processo inclusivo penso que não daremos conta de capacitar ou “formar” todos os educadores para intervirem na realidade atual. O professor deverá ser capaz de desenvolver suas estratégias, junto com seus estudantes, ainda que empiricamente, tendo como meta o atendimento das necessidades educacionais dos estudantes com deficiências. Isso não me parece que poderá ser contemplado em cursos extra-curriculares ou disciplinas inseridas dos cursos nos diversos níveis de ensino. E, isso também não reduz a importância desses. O trabalho a ser feito é o despertar pela conscientização da necessidade de se refletir sobre a realidade para nela intervir. Parece-me que isso está posto a poucos, daí podemos entender o discurso da maioria dos professores que se sentem incapazes de participar do processo. Refletindo sobre a realidade da formação de professores, e como vem se dando, podemos fazer algumas constatações. A primeira delas diz respeito à possibilidade de oferecimento dos cursos de formação inicial e continuada para professores pelo Ministério da Educação e suas Secretarias. Não me parece, hoje, que seja possível a promoção de cursos de capacitação em grande escala para a “preparação” dos docentes que irão atuar na escola inclusiva, pressupondo que essa seja a melhor alternativa para o desenvolvimento da auto-reflexão crítica capaz de promover a autonomia intelectual. Temos obstáculos a serem enfrentados, no que se refere às possibilidades da formação de professores para atuação na escola inclusiva. Destaco que hoje não dispomos de professores suficientes para capacitarem os professores em serviço, conforme foi apresentado em debate sobre a formação de professores para a escola inclusiva no II Congresso Brasileiro de Educação Especial, ocorrido em novembro de 2005 na Universidade Federal de São Carlos, São Paulo. Entretanto, outros serviços podem ser ofertados de maneira que busquem suprir essa carência de “professores de professores”. Serviços como TV escola e outros programas de educação à distância talvez se 26 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto constituíssem em possíveis soluções transitórias para esse obstáculo. Entretanto, teríamos que avaliarqual o impacto dessa formação no que diz respeito ao desenvolvimento da auto- reflexão crítica e da sensibilidade no trabalho com estudantes deficientes. Assumindo o risco, atrevería-me a afirmar que, possivelmente o debate e o diálogo nos cursos presenciais de formação de professores também não garantem o desenvolvimento das citadas posturas almejadas, porque deve existir o desejo do professor em ser um agente transformador. Contudo, a viabilidade do debate entre os pares nos encontros presenciais já denota a possibilidade de desenvolvimento dessas capacidades pela reflexão e análises coletivamente desenvolvidas. Em contrapartida, com quem os professores atendidos pelos programas de educação à distância poderiam debater suas questões? Existiriam tutorias? Caso existissem, seriam suficientes frente ao grande número de questões a serem enfrentadas? Percebo que a proposta de formação de professores à distância não é inviabilizada com as questões apresentadas, mas esses questionamentos desconstroem a possibilidade de debate efetivo. Não é minha intenção aprofundar questionamentos sobre esse aspecto em especial, entretanto penso que mencioná-los se fez necessário frente à possibilidade de formação de professores à distância, tão difundida hoje no país. Sobre esse aspecto, Crochík (1997, p. 144) apresenta sua idéia sobre o debate acerca da formação do professor para o atendimento da demanda da escola inclusiva, afirmando que “A transmissão de conhecimentos e a conseqüente reflexão sobre eles não podem prescindir da presença do professor”. É afirmado pelo autor a importância da formação presencial, uma vez que o esclarecimento não se dará na carência/ausência do debate, daí a importância do professor, um indivíduo mediador autônomo e emancipado. Outro ponto de análise se refere ao desenvolvimento das competências profissionais que terão que ser apresentadas pelos professores ao término dos seus cursos, sejam eles de formação inicial ou continuada. Percebo um outro sentido, velado, para o uso da terminologia competência, que entendo como uma retomada da tecnocratização da educação. Parece-me que para ser um promotor da inclusão escolar basta que se faça alguma disciplina incluída nos cursos de graduação ou mesmo ter freqüentado com um mínimo de aproveitamento algum curso de especialização ou capacitação profissional. Novamente vale retomar a concepção Adorniana de formação. Adorno (1995, p. 140) nos esclarece a pertinência do debate sobre para que educar: 27 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Quando sugeri que conversássemos sobre: ´Formação – para quê?´ ou Educação – para quê?´, a intenção não era discutir para que fins a educação ainda seria necessária, mas sim: para onde a educação deve conduzir? A intenção era tomar a questão do objetivo educacional em um sentido muito fundamental, ou seja, que uma tal discussão geral acerca do objetivo da educação tivesse preponderância frente à discussão dos diversos campos e veículos da educação. Nesse sentido, Adorno nos apóia no esclarecimento de que a formação possível esteja somente sendo capaz de manter a idéia de que estamos capacitando/preparando os professores para atuarem na escola inclusiva, quando realmente estamos apenas informando os mesmos sobre algumas possibilidades de intervenções junto aos estudantes deficientes. É reducionista a idéia de uma formação que apenas instrumentalize pedagogicamente. Entretanto, apenas o conhecimento sobre técnicas e métodos, o que para mim está muito próximo da concepção de competências nos documentos legais e no contexto discursivo da educação, não é o único caminho para uma intervenção pedagógica bem sucedida. Nesse sentido, a educação teria apenas uma dimensão adaptativa, ou seja, não apontando a possibilidade e necessidade de uma formação que possa ir além da adaptação à demanda social, sem negá-la. Costa (2005, p. 61) nos auxilia nessa compreensão, afirmando que: A educação para a adaptação, como já destacado por Adorno (1995b), tem a função de preparar os homens para se orientarem no mundo. Ou seja, a questão da adaptação é importante e a educação deve tê-la como meta, mas deve ir além dela, no sentido da emancipação. Além de técnicas e métodos, o professor deve ser capaz de saber escolhê-las, quando usá-las, como usá-las, de transformá-las (adaptando-as de acordo com as necessidades). Para chegar a esse comportamento almejado, não me parece que nos cursos de formação (inicial e continuada) se priorizem as competências e habilidades. O enfoque deve se redirecionar do método para o professor, sem ignorar a importância do primeiro. O professor autônomo é capaz de buscar o conhecimento das metodologias existentes e de desenvolver as suas. Nesse sentido, o professor deve ser formado para pensar e elaborar seus próprios métodos de ensino. Uma outra discussão que retoma o ponto anterior se constitui em termos da inclusão de disciplinas com enfoque nas temáticas das necessidades educacionais especiais advindas 28 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto das deficiências dos estudantes, nos cursos de licenciatura e normal superior. Algumas instituições públicas e privadas já incorporaram em suas grades curriculares, em caráter obrigatório ou não, disciplinas que contemplem debates sobre a educação de deficientes. Contudo, ainda não conhecemos resultados sobre o impacto na prática dos professores que participaram desses debates na academia. Será necessária a realização de pesquisas para estudarmos essa questão, até para ratificarmos, se é/foi a melhor alternativa ou a suficiente para o desenvolvimento da auto-reflexão e da sensibilidade dos professores que irão atuar na escola inclusiva. Não comprovada a hipótese, teremos elementos para repensarmos a abordagem que as disciplinas oferecidas dispensam no que se referem ao desenvolvimento da consciência crítica por parte dos futuros professores. Este estudo transita por essas questões. E sobre essas questões, Costa (2002, p. 42), afirma que: Com isso quero dizer: educar alunos com deficiência é tarefa a ser desenvolvida pelo professor no cotidiano escolar em parceria com esses mesmos alunos. E mais, cabe ao professor, também, no espaço de aprendizagem estabelecido com seus alunos viabilizar o fim dos espaços considerados da educação especial, significando isso a possibilidade de acesso inicial e permanência em uma mesma escola para alunos com deficiência e alunos sem deficiência, na perspectiva da educação democrática. O que é afirmado pela referida autora sintetiza a idéia central deste trabalho. Pensarmos que a educação democrática nos leva a pensar na impossibilidade de coexistência de escolas especiais e regulares. Isso permite ratificar que o professor é elemento chave na mudança que se faz necessária, visto que uma sociedade democrática demanda escolas verdadeiramente democráticas, portanto constituídas por indivíduos/professores livres pensantes e emancipados. Outro aspecto que a aparece neste estudo como uma categoria de análise, inclusive anteriormente mencionada, é a sensibilização necessária para o atendimento das demandas humanas e pedagógicas dos estudantes deficientes. Penso que ninguém seja capaz de outorgar sensibilidade a outrem. Penso que a sensibilidade não é possível ser transferida entre indivíduos. Somos capazes de criar condições em espaços de formação que estimulem o desenvolvimento da sensibilidade nos professores. Nesse sentido, os indivíduossensíveis 29 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto estariam mais abertos ao acolhimento da diversidade humana, reconhecendo-a não como característica que apenas diferenciam os indivíduos, mas como essência da natureza humana, desenvolvendo assim a tolerância e aceitação no coletivo social. Uma vez que estivessem sensíveis à causa da inclusão de deficientes na escola regular, os professores estarão atentos para a condição da fragilidade humana, assim refletindo criticamente sobre a condição da deficiência, opondo obstáculo a um dos maiores agentes segregadores, ou seja, o preconceito. Sobre o preconceito, Costa (2005, p. 134), afirma que só o desenvolvimento da consciência verdadeira, por meio da reflexão crítica, é que poderá viabilizar a superação, e tomara, a eliminação do preconceito: A consciência da deficiência pode contribuir não só para o desenvolvimento humano das pessoas com deficiência, como para o enfrentamento do preconceito e da discriminação que norteiam a questão da deficiência, embora a aceitação da deficiência pelos deficientes não implique sua aceitação pela sociedade. E a autora ainda acrescenta: (...) considerando, sobretudo, que “(...) a nossa cultura, por diversos mecanismos, dentre os quais a distinção entre classes normais e especiais, pode favorecer o preconceito”, como destaca Crochík (1997, p. 19). Para isso, faz-se necessário pensar o ressignificado da formação dos professores e a educação dos deficientes, que pressupõem por parte dos educadores uma postura crítica em relação ao seu papel social e à própria educação, considerando essa como movimento, ou seja, como ação política e reflexiva. E mais, para Mazzotta (1993, p. 40) “A força do trabalho docente, pode canalizar-se tanto para a transformação quanto para a estagnação social” e, “Na qualidade de educador por excelência no sistema escolar, o professor constitui elemento-chave”.2 Penso que a análise da formação dos professores e sua atuação no cotidiano escolar é a questão central deste estudo. Como essa proposta, penso ser possível e necessário entendermos o processo de inclusão escolar de estudantes com deficiências na escola pública na atualidade. Penso também que meu estudo se torna neste momento emergencial, 2 Grifo nosso. 30 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto uma vez que vários estudos esclarecem que é o professor, na prática, o agente principal pela organização de escolas inclusivas, com todas as contradições que existem no processo de inclusão social e escolar, mas que poderão ser compreendidas e superadas. Portanto, este estudo objetiva, com base nos elementos que apontam para o entendimento da prática dos professores na escola inclusiva, com base na reflexão proposta por Adorno: * Caracterizar uma escola pública municipal com experiências de inclusão de estudantes com deficiência, no município do Rio de Janeiro, em seus aspectos político- administrativos, político-pedagógicos, acessibilidade física, pedagógicos e atitudinais; * Caracterizar a formação dos professores de uma escola pública municipal com experiências de inclusão de estudantes com deficiência, no município do Rio de Janeiro, considerando seus aspectos acadêmico-profissionais relativos à escola inclusiva e às necessidades educacionais especiais dos estudantes com deficiência; * Identificar na formação dos professores de uma escola pública municipal com experiências de inclusão de estudantes com deficiência, no município do Rio de Janeiro, os elementos relativos ao atendimento da diversidade dos estudantes com necessidades educacionais especiais em suas salas de aula. Considerando a problematização e os objetivos deste estudo, penso que sua elaboração poderá contribuir para a socialização das experiências de professores no processo de inclusão escolar de estudantes com deficiência em escolas públicas regulares, possibilitando dessa maneira o entendimento de como vem se dando o processo de inclusão escolar de estudantes com deficiência na atualidade e, assim, o desenvolvimento de ações em prol do atendimento às necessidades educacionais especiais desses estudantes na escola pública democrática. 31 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto “Formação de professores: tempo de esclarecimento!” Figura 3 32 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto “Eis um exemplo de como nossa educação constitui necessariamente um procedimento dialético, porque só podemos viver a democracia e só podemos viver na democracia quando nos damos conta igualmente de seus defeitos e de suas vantagens” Becker CAPÍTULO II - A FORMAÇÃO DE PROFESSORES FRENTE À DEMANDA DAS NECESSIDADES ESPECIAIS DOS ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIA 1. A DEMOCRATIZAÇÃO DA ESCOLA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Pensar em escola democrática nos possibilita a reflexão sobre a escola que temos e a escola que queremos. Sobre a escola que temos podemos fazer algumas constatações objetivas pertinentes, dentre as quais podemos destacar a mais relevante a este estudo: é segregadora. Como conseqüência decorrente dessa afirmação, podemos inferir - não dá conta de atender à diversidade humana; educa para a homogeneização, uma vez que desconsidera as diferenças; reproduz a lógica dominante - só os mais fortes resistem; hierarquiza os indivíduos, uma vez que reproduz as classes existentes na organização social; dentre muitas outras constatações. A afirmação e o reconhecimento da escola exclusiva estão em confronto com a proposta de inclusão escolar de deficientes, porque significa modificar estruturas cristalizadas espaço-temporalmente. Entretanto, a necessidade de mudarmos a escola que temos, excludente, segregadora, parece-me que nunca esteve tão evidente e fortalecida como hoje. A sociedade, ainda que pseudo-democrática, começa a se mobilizar pela mudança e reorientação da escola que não se contenta mais em reproduzir a lógica da marginalização, demasiadamente evidente na sociedade intolerante. 33 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Esse movimento é valioso uma vez que essa ressignificação aponta para a possibilidade de modificarmos outras instâncias sociais que também apresentam a mesma lógica da exclusão, como por exemplo, a formação para e pelo trabalho. Centrando a discussão na educação escolar e considerando os dados do Censo Escolar de 2004 (INEP, 2005), quanto à matrícula de estudantes deficientes na escola regular, observo que a inclusão escolar é um movimento em desenvolvimento no Brasil, o que reforça que os esforços pela democratização da escola e, por conseguinte, de redemocratização social, sendo irrefreável no atual estágio civilizatório. De acordo com os dados do INEP, apenas 34,4% dos estudantes com deficiência estão matriculados no ensino regular. Dos 566.753 estudantes deficientes matriculados nos sistemas de ensino, 323.258 (57,04 %) estão nas escolas da rede pública e 243.495 (42,96 %) nas escolas da rede privada, como verificado no gráfico abaixo:Relação de estudantes deficientes matriculados no ano de 2004, distribuidos por rede de ensino 43% Estudantes deficientes matriculados nas escolas da rede pública D com ne 65,6%, (regular importa 57% Estudantes deficientes matriculados nas escolas da rede privada Gráfico 1 etalhando esses números, chegamos a um outro dado, ou seja, 371.383 estudantes cessidades educacionais especiais são atendidos em escolas especiais; cerca de e 195.370 estudantes com necessidades especiais são atendidos em escolas comuns es), o que percentualmente significa 34,4% dos estudantes (vide gráfico 2). É nte destacar que o aumento da matrícula nas escolas que estão aderindo ao projeto 34 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto de escola inclusiva vem ocorrendo em maior número e proporção nas escolas públicas. Em contrapartida, nas escolas particulares, percebe-se um crescimento mais lento. Relação de estudantes deficientes atendidos por modalidade escolar no ano de 2004 34% 66% Estudantes deficientes atendidos em escolas especiais Estudantes deficientes atendidos em escolas comuns Gráfico 2 Refletindo acerca do atendimento dos estudantes deficientes, marcadamente predominante nas escolas especiais, podemos deduzir que ainda há um longo caminho a ser percorrido no que diz respeito à reestruturação da escola regular para o pleno atendimento desses estudantes, o que nos possibilita compreender a razão da maior incidência de estudantes deficientes serem atendidos nas escolas especiais. Dados mais recentes sobre o Censo Escolar de 2005, do INEP – MEC (informativo nº 131, 10/03/2006) já nos revela que houve uma diminuição do número de estudantes nas instituições especializadas em educação especial. Segundo o informe, há na educação básica brasileira 301.586 estudantes com necessidades especiais matriculados em escolas especializadas. Esse número inclui estudantes com cegueira, baixa visão, surdez profunda, surdez moderada, surdocegueira, necessidades físicas, necessidade mental (deficiência mental), autismo, síndrome de Down, necessidades múltiplas e condutas típicas. Proporciona mente, os estudantes com necessidades mentais especiais formam o maior grupo nas e meio do que l scolas de educação especial: 52,96% do total. Os dados foram coletados por stionário do Censo Escolar 2005. 35 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Necessidade Especial Creche Pré- Escola Ensino Fundamental Ensino Médio Educação de Jovens e Adultos Educação Profissional (Básico) Educação Profissional (Técnico) Total Cegueira 378 597 1.412 107 824 688 133 4.139 Baixa visão 679 779 1.896 57 605 901 106 5.023 Surdez severa ou profunda 617 2.549 11.040 501 1.791 1.001 33 17.532 Surdez leve ou moderada 239 760 2.286 38 415 361 16 4.115 Surdocegueira 42 99 241 1 33 40 0 456 Física 2.665 2.759 4.374 101 1.106 1.133 40 12.178 Mental 10.946 25.314 77.182 310 16.918 27.703 1.369 159.742 Autismo 562 1.994 2.500 42 531 573 8 6.210 Síndrome de Down 3.342 4.747 9.375 50 2.878 3.681 81 24.154 Múltipla 8.707 10.906 20.153 277 4.494 6.489 189 51.215 Condutas típicas 1.440 3.303 9.643 24 1.075 1.197 140 16.822 Total 29.617 53.807 140.102 1.508 30.670 43.767 2.115 301.586 Tabela 1 – Estudantes matriculados em escolas de educação especial, por nível de ensino, segundo o tipo de necessidade – Brasil – 2005 Isso significa que está ocorrendo o fenômeno de migração dos estudantes deficientes das escolas especializadas para as escolas regulares. É um fato inquestionável! Dados de uma outra pesquisa revelam que o número de estudantes deficientes que freqüentam classes comuns no ensino regular das redes de ensino pública e privada, de acordo com o Censo Escolar de 2004 (INEP, 2005), cresceu de 145.141, em 2003, para 195.370, em 2004. Na rede pública, esse número passou de 137.186 estudantes, em 2003, para 186.547, em 2004. Na rede particular, o aumento foi de 7.955 estudantes, em 2003, para 8.823, em 2004, como observado no gráfico seguinte: 36 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Relação de estudantes deficientes matriculados em escolas comuns (públicas e privadas) de acordo com o último Censo (INEP, 2005) 0 50.000 100.000 150.000 200.000 Anos N º. de a lu no s 12003 22004 Gráfico 3 Com relação à matrícula dos estudantes deficientes, observamos um aumento nesses números, conforme dados do INEP (MEC, 2005). As matrículas desses estudantes em classes comuns (inclusivas) atingiram 34,4% em 2004, enquanto as matrículas globais desse tipo de atendimento cresceram 12,4%. O crescimento dessas matrículas pode ser observado na tabela: Crescimento de Matrículas de Estudantes de Educação Especial por Tipo de Deficiência - Censo Escolar 2004 Tipo de Deficiência Crescimento Global % Crescimento Inclusivo % Visual 85 127 Auditiva 11 30 Física 28 38 Mental 16 58 Múltipla 14 58 Altas habilidades/superdotados 20 73 Condutas Típicas 279 597 Tabela 2 – Descrição do aumento de matrículas de estudantes deficientes por tipo de deficiência 37 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Comparativamente, de acordo com o Censo Escolar de 2003 (INEP, 2004), apenas 28,8% dos estudantes com deficiência estavam matriculados no ensino regular. Dos 504.039 estudantes deficientes matriculados nos sistemas de ensino, à época, 358.898 freqüentavam escolas exclusivamente especializadas e 145.141 estavam incluídos em escolas comuns. Ou seja, existe uma demanda a ser priorizada na organização de escolas inclusivas, como observada no seguinte gráfico: Gráfico 4 Relação de estudantes deficientes atendidos por modalidade escolar no ano de 2003 71% 29% Estudantes deficientes atendidos em escolas especiais Estudantes deficientes atendidos em escolas comuns Considerando o exposto, parece inegável a efetivação da matrícula dos estudantes deficientes na escola comum. Afirmamos somente em termos da matrícula porque não tivemos a sso a dados, sejam de pesquisas acadêmicas ou mesmo oficiais do Ministério da Educação obre a permanência e condição desses estudantes na escola comum. Da mesmos Universid de gradua Do total ce , s dos mais recentes do INEP (informativo nº. 128, 20/02/2006), revelam que esses estudantes deficientes estão concluindo o ensino médio e chegando às ades. No Brasil são mais de 5.077 estudantes deficientes matriculadas nos cursos ção. Isso representa 0,12% das 4.163.733 matrículas no ensino superior brasileiro. de estudantes com de necessidades especiais, 1.220 freqüentam instituições 38 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto públicas e 3.857 estão em instituições privadas. Essas informações estão mais detalhadas na tabela a seguir: Matrículas Unidade da Federação Total Pública Privada Total 5.077 1.220 3.857 Norte 342 229 113 Acre 1 1 - Amapá 11 3 8 Amazonas 231 213 18 Pará 55 1 54 Rondônia 19 - 19 Roraima 2 2 - Tocantins23 9 14 Nordeste 451 168 283 Alagoas 14 3 11 Bahia 145 7 138 Ceará 31 1 30 Maranhão 19 14 5 Paraíba 118 109 9 Pernambuco 77 14 63 Piauí 21 2 19 Rio Grande do Norte 13 8 5 Sergipe 13 10 3 Sudeste 2.618 459 2.159 Espirito Santo 37 1 36 Minas Gerais 586 187 399 Rio de Janeiro 1.006 234 772 São Paulo 989 37 952 Sul 1.147 255 892 Paraná 407 207 200 Rio Grande do Sul 570 1 569 Tabela 3 – Número de estudantes deficientes matriculados em cursos de graduação presenciais, por dependência administrativa das instituições, segundo Unidades da Federação, Brasil, 2004 No que se refere aos tipos de deficiências identificadas pelo Censo da Educação Superior 2004, a deficiência visual é a que concentra maior número de matrículas nos cursos de graduação do País, isso é, 1.606, o que corresponde a 31,63% do total de 39 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto matrículas de estudantes especiais. A seguir vêm a deficiência física, 30,52%, e auditiva, 17,58%. Os estudantes matriculados com altas habilidades representam 6,51% das necessidades especiais, somando 331 matrículas. Podemos visualizar essa descrição na tabela a seguir, com base no Informativo do INEP (nº. 128, 20/02/2006): Tipo de necessidade especial Regiões Total Auditiva Visual Física Múltiplas Mental Condutas Típicas Altas Habilidades Outras Total 5.077 893 1.606 1.550 180 59 224 331 234 Norte 342 32 233 64 1 - - - 12 Nordeste 451 77 104 203 4 8 6 40 9 Sudeste 2.618 364 980 702 145 32 53 280 62 Sul 1.147 322 198 324 30 14 144 6 109 Centro-Oeste 519 98 91 257 - 5 21 5 42 Tabela 4 – Número de estudantes deficientes matriculados em cursos de graduação presenciais, por tipo de necessidade, segundo Regiões, Brasil, 2004 Os dados até agora apresentados caracterizam o contexto atual do processo inclusivo. Mesmo considerando os limites sociais com os obstáculos existentes na inclusão dos estudantes deficientes, esses estão chegando às escolas comuns (regulares), nos três níveis de ensino, ou seja, fundamental, médio e superior. No que se refere à formação de professores para o atendimento das necessidades especiais dos estudantes deficientes, os dados nos revelam que desde o Censo Escolar de 2002 (INEP, MEC), não existem registros sobre o número de docentes da educação básica (que compreende a educação infantil, ensino fundamental e médio) que possuem curso específico ou formação sobre as questões presentes na educação especial. Ou seja, posso afirmar que, nos procedimentos de coleta de dados adotados não se contemplou nenhuma abordagem vinculando a formação docente à educação especial, o que considero uma hipótese remota, ou o número de professores com essa formação é inexpressivo frente ao total de professores da educação básica. Os dados da Secretaria de Educação Especial (INEP, 2005) nos apresentam em sua pesquisa informações sobre a formação dos professores atuantes na educação especial, nos 40 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto últimos três Censos Escolares (INEP, 2002, 2003 e 2004). Por exemplo, dos 50.079 educadores atuantes na educação especial no ano de 2004, um total de 35.875 professores (71,6%) possuíam cursos específicos na área. O que também é revelador, pois seria fundamental que todos os professores que atuam em instituições especializadas tivessem formação em educação especial. A carência de informações a respeito da formação docente dos professores atuantes na escola comum inclusiva nos instiga nessa discussão, considerando que são recentes as experiências de inclusão escolar de deficientes no Brasil. Estudos atuais revelam a necessidade de pensarmos a formação do professor para que o projeto de escola inclusiva seja exitoso, embora ainda de maneira dicotomizada, ou seja, professor de escola regular versus professor de escola especial. Mendes (2002, p. 81), em sua análise sobre as perspectivas para a construção de escolas inclusivas no Brasil, destaca que “Dois aspectos parecem centrais para que haja uma política de educação inclusiva: a organização de serviços e a formação de professores”. Por outro lado, em relação à formação do professor para educação inclusiva, Bueno (1999, p. 162) aponta a necessidade de capacitação de professores do ensino regular com formação básica, e professores especializados, destacando que: Se, por um lado, a educação inclusiva exige que o professor do ensino regular adquira formação para fazer frente a uma população que possui características peculiares, por outro, exige que o professor de educação especial amplie suas perspectivas, tradicionalmente centradas nessas características. O que ratifica minha afirmação sobre a dicotomização dos tipos de professores, ou seja, o da escola regular versus professor da escola especial. Temos que avançar, para além dos antagonismos que nos prendem às dissensões que acabam por ofuscar o objetivo da organização da escola inclusiva. Quanto à questão do que pensam os professores sobre a transição do processo inclusivo no cenário educacional brasileiro, Aranha (2004, p. 51) relata as narrativas desses, com base em sua participação em projetos de disseminação de políticas publicas de 41 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto inclusão, promovidos pela Secretaria de Educação Especial do MEC, em alguns municípios brasileiros: Nessa ocasião, os educadores puderam se manifestar com relação à proposta do governo federal, bem como quanto às dificuldades que tem vivenciado em sua realidade local. A proposta de implementação da educação inclusiva nos sistemas educacionais municipais e estaduais mostrou-se aceita por unanimidade, considerada consistente com a motivação e o interesse dos educadores presentes. Os participantes do encontro desvelaram dificuldades que têm sido encontradas no processo, como a necessidade de programas de formação continuada para professores, formalizados em cada sistema educacional, já que grande parte dos professores, nas diferentes redes educacionais, não se percebe capacitada para o ensino na diversidade.3 O observado por Aranha é factual e nos apóia no entendimento da escassez de informações nos últimos censos escolares sobre o quantitativo de professores da educação básica com formação específica ou mesmo com experiência profissional no atendimento aos estudantes deficientes. Isso posto, destacamos o pensamento de Oliveira (2004, p. 240), ao afirmar que: Nesse contexto, está em debate a Pedagogia Inclusiva, apontada como um novo paradigma em Educação. A proposta de uma educação inclusiva está pautada em uma concepção diferenciada de escola e aprendizagem, fundamentando sua prática pedagógica em uma aprendizagem mediada. Como decorrência, algumas alterações significativas devem ocorrer na dinâmica da escola, na busca dessa nova consciência coletiva e, portanto, a formação de professores, inicial e continuada, está no centro das discussões. Vale destacar que a própria idéia de formação, pressupõe um continuum, ou seja, por toda a vida. Entretanto, não poderíamos negar a dicotomização criada em torno da formação do professor, em inicial e continuada, o que faz com que nos aproximemos criticamente da expressão por não poder negar o seu uso recorrente no discurso pedagógico e nos documentos sobre formação de professores. 3 Grifo nosso.42 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Oliveira (2004, p. 240), ainda esclarece quanto a isso: No entanto, algumas impropriedades vêm sendo cometidas na forma de compreender e interpretar como se daria à formação de professores nesse novo contexto, principalmente a formação do professor de Educação Especial. Falar de uma educação inclusiva que pressupõe, entre outras coisas, a inserção de alunos com deficiência em classes comuns do ensino regular, é falar de uma pedagogia de suporte para que as diferenças não sejam meros pretextos para a não-aprendizagem. Assim, formar professores competentes e qualificados pode ser o alicerce para que se garanta o desenvolvimento das potencialidades máximas de TODOS os alunos, entre eles, os com deficiência.4 A referida autora destaca que a responsabilidade em promover a inclusão escolar está também nas mãos dos professores, lembrando Stainback (2004), ao afirmar que os estudantes e o professor e, não o sistema, têm a possibilidade de efetivar a criação de escolas acolhedoras. Essas questões reforçam a pertinência da pesquisa em formação de professores, que muito tem a contribuir sobre as possibilidades de mudança no sistema educacional. Bueno (1999, p. 18), a respeito da formação de professores para o atendimento das necessidades especiais dos estudantes deficientes, afirma que: (...) há de se contar com professores preparados para o trabalho docente que se estribem na perspectiva de diminuição gradativa da exclusão escolar e da qualificação do rendimento do aluno, ao mesmo tempo em que, dentro dessa perspectiva, adquiram conhecimentos e desenvolvem práticas específicas necessárias para absorção de crianças com necessidades educacionais especiais.5 Portanto, levando em conta a demanda existente de estudantes deficientes que estão sendo matriculados na escola comum, pela retomada do processo de democratização social, reafirmamos o compromisso dos professores com a organização de escolas inclusivas e os desafios postos à sua formação. 4 Grifo nosso. 5 Grifo nosso. 43 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto 2. A FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA A AUTONOMIA E EMANCIPAÇÃO PELA DEMOCRATIZAÇÃO DA ESCOLA Discutindo sobre a democracia, onde destaco o papel da escola como local da democratização do saber, Adorno (1995, p. 169) esclarece que a exigência de emancipação parece ser evidente. Assim: A democracia repousa na formação da vontade de cada um em particular, tal como ela se sintetiza na instituição das eleições representativas. Para evitar um resultado irracional é preciso pressupor a aptidão e a coragem de cada um em se servir de seu próprio entendimento. No que se refere à democracia, entendo que a criação de uma sociedade onde as escolas sejam democratizadas demanda indivíduos que sejam emancipados, autônomos. O chamamento feito por Adorno é importante uma vez que pensando que vivemos em um Estado democrático, vivemos sob a tutela das escolhas das minorias dominantes. Ou seja, um falseamento da democracia, uma pseudodemocracia. Penso na possibilidade de que somos capazes de fazer as nossas escolhas, mesmo sem nos libertarmos do que Adorno, inspirando-se em Kant, chama de auto-inculpável menoridade. E, Adorno (1995, p. 142), alerta quanto às posturas reacionárias anti-democráticas, características dos indivíduos heterônomos, afirmando que: Numa democracia, quem defende idéias contrárias à emancipação, e, portanto, contrários à decisão consciente independente de cada pessoa em particular, é um antidemocrata, até mesmo se as idéias que correspondam a seus desígnios são difundidas no plano formal da democracia. As tendências de apresentação de ideais exteriores que não se originam a partir da própria consciência emancipada, ou melhor, que se legitimam frente a essa consciência, permanecem sendo coletivo-reacionárias. No pensamento de Adorno, está presente a idéia de que democratizar significa formar indivíduos com autonomia. Sem a constituição das subjetividades, o que temos é a massificação, ou seja, alguns poucos indivíduos pensam por uma maioria, e se impõe o que os primeiros exigem, independente das necessidades da totalidade dos indivíduos. Isso é 44 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto pseudodemocracia. Os sujeitos que se submetem a essa lógica são os que se identificam cegamente com o coletivo. O indivíduo crítico é capaz de se perceber participante da cultura, até porque não existem indivíduos sem a cultura, mas é importante que não se confundam com ela. O que nos é trazido à reflexão por Adorno é que a democracia constitui-se no desejo de libertar a consciência dos domínios ideológicos sociais, ou seja, significa reconhecer que só através da reflexão e auto-reflexão crítica, da luta pela libertação do pensar é que nos tornaremos “iluministas” de nossa própria consciência. E, posso acrescentar que aquele que consegue vencer as suas próprias amarras do pensamento, é capaz de se tornar um libertador de outras consciências, sobretudo na relação entre professores e estudantes. Contudo, o que estaria sendo considerado por Adorno (1995, p. 124) como heteronomia? Ele considera a heteronomia como um tornar-se dependente de mandamentos, de normas que não são assumidas pela razão própria do indivíduo, ou seja, o antônimo da autonomia, significada por ele como “o poder para a reflexão, a autodeterminação, a não-participação”. Pensando nessa afirmação e fazendo uma analogia à questão da formação do professor da escola inclusiva, penso que o professor que puder libertar-se das dificuldades por ele mesmo impostas ao processo de acolhimento aos estudantes deficientes, poderá se tornar àquilo que chamamos de agente agregador, ou seja, um multiplicador de idéias e reflexões que também poderão apontar para a libertação de outras consciências, que se encontram encarceradas pela auto-inculpável menoridade. Segundo Becker, in Adorno (1995, pp. 169-170), a configuração da pseudodemocratização fundamenta-se na concepção educativa de cada país, pois: Parece-me ser possível mostrar claramente a partir de toda a concepção educacional até hoje existente na Alemanha Federal que no fundo não somos educados para a emancipação, pois a possibilidade de levar cada um a ‘aprender por intermédio da motivação’ converte-se numa forma particular do desenvolvimento da emancipação. Na realidade educacional, quando à época foi escrito o trecho citado, Becker destaca-nos que a educação ofertada não dava conta do desenvolvimento do sentimento da autonomia nos sujeitos. Ou seja, se não educamos para a emancipação, então educamos 45 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto para a reprodução. Daí ratificarmos o caráter da falsa democracia, uma vez que a verdadeira demanda sujeitos autônomos. Segundo Becker, é através do despertar do desejo no sujeito de se emancipar que a autonomia se configurará. E, Adorno (1995, pp. 174–175) confirma a existência dessa ausência/carência do sentimento autônomo, destacando que esse fenômeno não seria privilégio somente da Alemanha, pois: Creio que a questão da emancipação é a rigor um problema mundial. Estive durante algumas semanas visitando escolas na União Soviética. Foi muito interessante vercomo num país que há muito tempo realizou a transformação das relações de produção mudou extraordinariamente pouco em termos de não educar as crianças para a emancipação e que nessas escolas persista dominando um estilo totalmente autoritário de educar. É efetivamente muito interessante este fenômeno da continuidade mundial do domínio da educação não-emancipadora, embora a época do esclarecimento já vigore há tempos, e embora certamente não apenas em Kant, mas também em Karl Marx haja muitas coisas que se opõem a essa educação não-emancipadora. Essa constatação levou Becker (1995, p. 169) a afirmar que no fundo não somos educados para a emancipação, concluindo que: Evidentemente a isto corresponde uma instituição escolar em cuja estruturação não se perpetuem as desigualdades específicas das classes, mas que, partindo cedo de uma superação das barreiras classistas das crianças, torna praticamente possível o desenvolvimento em direção à emancipação mediante uma motivação do aprendizado baseada numa oferta diversificada ao extremo. Com isso, o referido pensador reconhece a necessidade de se ofertar propostas diversas de escolarização para que sejam atendidas as diferentes demandas presentes na diversidade dos sujeitos que constituem a coletividade. Quanto a isso (1995, p. 170), afirma que: Para nos expressarmos em termos corriqueiros, isto não significa emancipação mediante a escola para todos, mas emancipação pela demolição da estruturação vigente em três níveis e, por intermediário de uma oferta formativa bastante diferenciada e múltipla em todos os níveis, da pré-escola até o aperfeiçoamento permanente, 46 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto possibilitando, deste modo, o desenvolvimento da emancipação em cada indivíduo, o qual precisa assegurar sua emancipação em um mundo que parece particularmente determinado a dirigi-lo heteronomamente, situação que confere uma importância maior ao processo. Como está posta, a formação possível é a que prioritariamente conduz os indivíduos a um estado heterônomo. Com isso, fica clara a intenção do sistema em se servir do processo educativo para perpetuar a ideologia avassaladora que se fixa em seus ideais, atendendo assim à demanda de mercado posta no sistema neoliberal. Dessa forma, Adorno (1995, p. 168) acaba por concluir que “(...) o mero pressuposto da emancipação de que depende uma sociedade livre já se encontra determinado pela ausência de liberdade da sociedade, o que reforça a idéia anterior”. Fazendo um cotejamento com a formação dos professores, posso afirmar ante o exposto, para que minimizemos, até o total desaparecimento, que é o que desejamos, do sentimento de exclusão e do preconceito, como sendo um dos principais promotores dessa segregação, precisamos de professores que se constituam livres pensantes, educando para a liberdade e para a emancipação como proposto por Adorno. Nesse contexto emerge um debate importante, onde Adorno (1995, p. 139) apresenta uma questão epistemológica da formação docente, ao afirmar que “Nesta medida parece-me urgente incluir na discussão a questão do o que é e a questão do para que é a educação (...)”. Isto me leva a pensar qual a formação que desejamos e a possível para o desenvolvimento da autonomia dos professores atuantes na escola inclusiva. Não é suficiente apenas afirmarmos que os cursos oferecidos nas esferas municipais, estaduais e federais serão capazes de dar conta da demanda humana dos estudantes deficientes. São esforços que se constituem em ações no processo de organização da escola acolhedora e democrática. Entretanto, há de se questionar essa formação, até para verificarmos seu potencial, e não cairmos no erro de que estamos desenvolvendo o melhor, ou se é possível avançar ainda mais. Adorno (1995, p. 140), ainda nos esclarece quanto à pertinência do debate sobre o educar: para quê?, afirmando: 47 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Quando sugeri que conversássemos sobre: ´Formação – para quê?´ ou Educação – para quê?´, a intenção não era discutir para que fins a educação ainda seria necessária, mas sim: para onde a educação deve conduzir? A intenção era tomar a questão do objetivo educacional em um sentido muito fundamental, ou seja, que uma tal discussão geral acerca do objetivo da educação tivesse preponderância frente à discussão dos diversos campos e veículos da educação. Está posto em Adorno que antes de desenvolvermos ações despropositadas, porque na verdade não dão conta das questões para as quais foram pensadas, devemos refletir no significado das questões, no seu real entendimento e dimensão, para que sejam desenvolvidas estratégias políticas e atitudinais que se aproximem criticamente das questões sobre inclusão escolar de deficientes. Ou seja, temos que ter clareza sobre qual o sentido de educar, o que desejamos atingir e como podemos atingir nossos objetivos de uma educação democrática e inclusiva. Analogamente, posso ponderar sobre a questão do professor que está (vai) atuando (atuar) na escola inclusiva. A provocação feita por Adorno me faz pensar em questões do tipo: Onde queremos incluir estudantes deficientes? Estamos incluindo para quê? Quem é o responsável por essa inclusão? O(s) responsável(is) têm sido ouvido(s)? Participam na tomada de decisões? Como o professor tem se percebido frente a esse processo de mudança da inclusão escolar? Ele quer participar dessa mudança? Qual o sentido de incluir educandos deficientes para o professor? Enfim, essas são apenas algumas questões presentes neste estudo, apontando-nos a necessidade de refletir sobre elas. Nesse movimento, Costa (2002, p. 41) destaca que: Considerando a importância atribuída por Adorno à auto-reflexão crítica, essa representa um elemento fundamental na luta pela emancipação das pessoas com deficiência, pois, tomando por base à auto-reflexão, essas pessoas podem ser esclarecidas a respeito de sua situação como diferentes, no contexto de exploração e subordinação burguesa. Não apenas as pessoas deficientes, mas, também, aquelas que segregam precisam de auto-reflexão. Portanto, a auto-reflexão torna-se uma ferramenta para iluminar os dominados (no caso, os deficientes) no resgate dos elementos de classe, contidos em suas próprias culturas e no saber acumulado pelos homens, no decorrer dos tempos. Serviria, também, para orientá-los à conseqüente ação transformadora, exigência da própria reflexão crítica. 48 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto E, ainda sobre a educação, Adorno (1995, p. 141) acrescenta que “Eu diria que atualmente a educação tem muito mais a declarar acerca do comportamento no mundo do que intermediar para nós alguns modelos ideais preestabelecidos”. O que é expresso em Adorno é que o homem deve se libertar da heteronomia, se realmente desejar assumir para si a direção de sua vida. Por isso, atentamos para o debate onde apresentamos o professor como àquele que é capaz de buscar por si, o que não foi a ele possibilitado pelo sistema social e educacional, como alternativas e estratégias de inclusão que não estão postas em receituários e manuais de instruções pedagógicas e metodólogicas. O movimento é ir além do como fazer? Migrando para com base em minhas reflexões desenvolver o fazer. Em outras palavras, os professores deverão prescindir dos modelos pedagógicos e assumir a autonomia de seus fazeres pedagógicosjunto com seus estudantes em sala de aula. Aparece muito claramente no discurso dos professores com que estive interagindo na escola estudada, que o como fazer?, ainda permanece fortalecido, principalmente envolto na idéia de instrumentalização, do uso de técnicas. Muitos professores pensam que para efetivar a inclusão de deficientes em suas salas regulares, basta conhecer e aplicar as mais diversificadas tecnologias assistivas e, pronto, em um passe de mágica, a inclusão escolar se efetivará. Adorno (1995, p. 132) nos apóia a compreender que essa ênfase no discurso dos professores na realidade tem sua origem ligada à própria ideologia dominante, que é muito sutil, e acaba por impedir ou dificultar as experiências formativas dos professores, decorrente do empobrecimento da reflexão crítica desses, afirmando que: No que diz respeito à consciência coisificada, é preciso examinar também sua relação com a técnica. Um mundo em que a técnica ocupa uma posição tão decisiva como acontece atualmente gera pessoas tecnológicas, afinadas com a técnica. Na relação atual com a técnica existe algo de exagerado, irracional, patogênico. Isto se vincula ao ‘véu tecnológico’. Os homens se inclinam a considerar a técnica como sendo algo em si mesma, um fim em si mesma, uma força própria, esquecendo que ela é a extensão do braço dos homens. Com isso, é possível afirmar que as tecnologias, de modo geral, não podem e nem precisam ser desconsideradas. Elas têm importância. Entretanto, seu uso e adequação estão 49 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto vinculados à mediação humana. No que se refere à inclusão escolar de deficientes, apenas o uso das tecnologias chamadas assistivas não serão capazes, por si só, de efetivar a inclusão. A autonomia docente deverá estar presente nesse processo escolar democrático e inclusivo. Ao relacionar a heteronomia aos modelos ideais, Adorno (1995, p. 141), destaca que: Em relação a esta questão, gostaria apenas de atentar a um momento específico no conceito de modelo ideal, o da heteronomia, o momento autoritário, o que é imposto a partir do exterior. Nele existe algo de usurpatório. É de se perguntar de onde alguém se considera no direito de decidir a respeito da orientação da educação dos outros. Encontran- se em contradição com a idéia de um homem autônomo, emancipado, conforme a formulação definitiva de Kant na exigência de que os homens tenham que se libertar de sua auto-inculpável menoridade. Novamente nos deparamos com a questão da auto-inculpável menoridade discutida por Adorno. Essa adjetivação está muito próxima do sentido de menos-valia intelectual marxiana da produção. Analogamente, apontando para a formação de professores que atuam na escola inclusiva, essa idéia permite debatermos a incapacidade que os próprios professores atribuem a si quanto à possibilidade de atuarem em uma escola organizada para acolher a diversidade dos estudantes com deficiências. O ocorrido é que os professores, eles mesmos, não se reconhecem produtores de conhecimento com base em sua própria prática pedagógica. Como também, não percebem que ainda permanecem atrelados a um estado de menoridade auto-inculpável, ou seja, de heteronomia. E, nesse contexto, surge como justificativa para a inércia frente ao desafio da inclusão dos estudantes com deficiência o medo, sentimento transformado em recorrente palavra no discurso dos professores, e que pude compreender com base no pensamento de Adorno (1995, p. 129), assim: A educação precisa levar a sério o que já de há muito é do conhecimento da filosofia: que o medo não deve ser reprimido. Quando o medo não é reprimido, quando nos permitimos ter realmente tanto medo quanto esta realidade exige, então justamente por essa via desaparecerá provavelmente grande parte dos efeitos deletérios do medo inconsciente e reprimido. Ou seja, o medo não pode ser capaz de imobilizar e engessar os professores. Antes, o medo pode existir e inclusive provocar o movimento dialético de emancipação e 50 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto resistência, elementos necessários para a formação emancipatória. Para isso, se faz necessária à crítica reflexiva. Ser autônomo! A formação pela educação escolar e pela prática pedagógica que dê conta dessa demanda é possível. E, sobre o sentido que admite, inicialmente, para educação, Adorno (1995, p. 141), afirma: A seguir, e assumindo o risco, gostaria de apresentar a minha concepção inicial de educação. Evidentemente não a assim chamada modelagem de pessoas, porque não temos o direito de modelar pessoas a partir do seu exterior; mas também não a mera transmissão de conhecimentos, cuja característica de coisa morta já foi mais do que destacada, mas a produção de uma consciência verdadeira. Isto seria inclusive da maior importância política; sua idéia, se é permitido dizer assim, é uma exigência política. Isto é: uma democracia com o dever de não apenas funcionar, mas operar conforme seu conceito, demanda pessoas emancipadas. Uma democracia efetiva só pode ser imaginada enquanto uma sociedade de quem é emancipado6. Dessa maneira, Adorno ratifica considerações desenvolvidas neste estudo, e reitera a necessidade da autonomia dos professores para a constituição verdadeira de uma sociedade democrática. Todavia, em diálogo com Adorno, Becker esclarece que o conceito de homem emancipado deve ser utilizado com cuidado para não convertê-lo em ideal orientador. E, com base na concepção de emancipação, Adorno (1995, p. 143), justifica isso da seguinte maneira: A própria organização do mundo em que vivemos e a ideologia dominante (...) exerce uma pressão tão imensa sobre as pessoas que supera toda a educação. De um certo modo, emancipação significa o mesmo que conscientização, racionalidade7. Mas a realidade sempre é simultaneamente uma comprovação da realidade, e esta envolve continuamente um movimento de adaptação. A educação seria impotente e ideológica se ignorasse o objetivo de adaptação e não preparasse os homens para se orientarem no mundo. Porém ela seria igualmente questionável se ficasse nisto, produzindo nada além de well adjusted people, pessoas bem ajustadas, em conseqüência do que a situação existente se impõe precisamente no que tem de pior. Nestes termos, desde o início existe no conceito de educação para a 6 Grifo nosso. 7 Grifo nosso. 51 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto consciência e para a racionalidade uma ambigüidade. Talvez não seja possível supera-la no existente, mas certamente não podemos nos desviar dela. Ou seja, Adorno ao concordar com Becker, esclarece que não é possível, no atual estágio civilizatório, negar a adaptação pela educação em prol da emancipação. É necessário primeiramente adaptar-se às demandas sociais vigentes para posteriormente emancipar-se, para não se alienar de si mesmo, sobretudo por intermédio da reflexão crítica sobre as condições objetivas sociais. Analogamente, ante o apresentado por Adorno podemos pensar na formação do professor para a escola inclusiva. Embora as críticas que foram feitas neste estudo sobre a formação dos professores que está sendo possível para o atendimento das necessidades educacionais dos estudantes deficientes não possam deixar de ser feitas, é com essa formação possível que vamos ser capazes de suscitar os questionamentos em termos doque está sendo ofertado como possível e o que pode melhorar e ir para além. É necessário pensar que embora a formação possível não dê conta de oportunizar para todos os professores a transição do comportamento heterônomo para o autônomo, muitos desses certamente conseguirão movidos por desejos pessoais ou outras causas sociais. E, serão esses professores que, mesmo se considerando o projeto de formação para a adaptação, buscarão sua emancipação, debatendo com seus pares a necessidade de mudança de pensamentos e atitudes com vistas à organização efetiva da escola inclusiva. E, sobre a adaptação, Becker (In: Adorno, 1995, p. 144), afirma que: A adaptação não deve conduzir à perda da individualidade em um conformismo uniformizador. Esta tarefa é tão complicada porque precisamos nos libertar de um sistema educacional referido apenas ao indivíduo. Mas, por outro lado, não devemos permitir uma educação sustentada na crença de poder eliminar o indivíduo. E esta tarefa de reunir na educação simultaneamente princípios individualistas e sociais, simultaneamente – como diz Schelsky – adaptação e resistência, é particularmente difícil ao pedagogo no estilo vigente. O que reforça as idéias de Adorno. Entretanto, a observação de Becker revela que adaptar-se não implica necessariamente em uma anulação da individualidade. Porém, o processo adaptativo de formação de professores em nossa sociedade tem se dado de 52 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto maneira contrária a que está sendo discutida com base em Adorno e Becker. Sobretudo, considerando-se a postura dos professores em esperarem por respostas e propostas prontas, cruzando, muitas vezes, os braços na expectativa de que lhes ensinem como lidar com estudantes deficientes. Isso, por si só, comprova, pelo menos em boa parte, a adaptação na formação dos professores com o sentido de anulação da autonomia. Contudo, emancipar-se em nossa sociedade não é algo simples. Porém, é possível afirmar que na mesma sociedade que existe o aprisionamento das mentes obscurecidas pela ideologia dominante, também existe o germe da liberdade humana por intermédio da crítica reflexiva. Sobre a possibilidade de emancipação dos indivíduos, Adorno (1995, p. 143), afirma que: (...) a idéia de emancipação, como parece inevitável com conceitos deste tipo, é ela própria ainda demasiado abstrata, além de encontrar- se relacionada a uma dialética. Esta precisa ser inserida no pensamento e também na prática educacional. Ou seja, a mesma educação que atende à ideologia dominante, pode reorientar-se e ressignificar seus objetivos, transformando-se em possibilidade de formação para a contradição e a resistência, para o rompimento do controle, para a reflexão e autonomia pela crítica reflexiva. E, é esse movimento que a escola deve empreender para o acolhimento da diversidade dos estudantes, deficientes e não deficientes. Por outro lado, isso não significa negar todo o processo até então desenvolvido. Deve-se sim, reorientá-lo, reestruturá-lo, e, para tal, isso demanda professores com autonomia para perceberem a necessidade e estarem sensíveis ao acolhimento das necessidades educacionais especiais dos estudantes com deficiência. Quanto a isso, Adorno (1995, p. 143), ainda ressalta que há dois grandes problemas a serem ultrapassados na transformação do comportamento heterônomo para o autônomo dos indivíduos, pois: Em primeiro lugar, a própria organização do mundo em que vivemos e a ideologia dominante. Ela exerce uma pressão tão imensa sobre as pessoas que supera toda a educação. No segundo problema, deverá haver entre nós diferenças muito sutis em relação ao problema da adaptação. 53 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Por outro lado, Becker (1995, p. 144) ainda esclarece que estarmos vivendo em uma proposta de sociedade democrática, ainda que pseudo, possibilita a reflexão sobre a mesma, com todas as contradições existentes, afirmando quanto a isso: Certa feita, quando discorria acerca de educação política para jovens professores, mostrei por que acredito que quem deseja educar para a democracia precisa esclarecer com muita precisão as debilidades da mesma. Eis um exemplo de como nossa educação constitui necessariamente um procedimento dialético, porque só podemos viver a democracia e só podemos viver na democracia quando nos damos conta igualmente de seus defeitos e de suas vantagens. Dessa maneira, é possível pensar que pode ser assim o processo de transição em que vivemos da escola excludente para a escola inclusiva. Só na ocorrência do processo é que iremos descortinando as questões que nos movem em torno da inclusão escolar de deficientes, desvelando suas perspectivas e limitações, pontos e contrapontos. Adorno (1995, p.154) ainda afirma que com todas as dicotomizações do processo educacional, é ele, e os sujeitos que nele atuam, que serão capazes de transformar as consciências, pois: A situação é paradoxal. Uma educação sem indivíduos é opressiva, repressiva. Mas quando procuramos cultivar indivíduos da mesma maneira que cultivamos plantas que regamos com água, então isto tem algo de quimérico e de ideológico. A única possibilidade que existe é tornar tudo isso consciente na educação; por exemplo, para voltar mais uma vez à adaptação, colocar no lugar da mera adaptação uma concessão transparente a si mesma onde isto é inevitável, e em qualquer hipótese confrontar a consciência desleixada. Eu diria que hoje o indivíduo só sobrevive enquanto núcleo impulsionador da resistência. Assim, está posto que embora os sujeitos sejam continuamente pacificados pelo sistema dominante, eles devem e podem se constituir na resistência à sua própria alienação. Ou seja, retomando a discussão central deste capítulo, o professor deve ser capaz de pensar sobre a formação que deseja para a constituição da escola e sociedade democrática tão almejada por todos, professores e estudantes, deficientes e não deficientes. 54 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Levando em consideração que a escola é o locus onde as relações sociais ocorrem mesmo em escala menor, reestruturá-la, apoiando seus professores e demais profissionais que nela atuam, significa provocar e promover mudanças sociais extraordinárias. Pensando sobre a condição da organização da escola inclusiva e o atendimento aos estudantes deficientes, a oferta educacional deve ser a mais diversificada possível para o atendimento das necessidades educacionais especiais individuais. Logicamente, essa idéia vem ao encontro às recomendações de muitos estudiosos da área da educação especial, ao destacarem que a educação para a diversidade implica que a escola é que deverá se preparar para dar conta da educação dos indivíduos com deficiência. Nisso se balizam os princípios e os fundamentos da inclusão escolar de estudantes com deficiência. A antiga história de que a escola não está preparada para educar a todos, é a desculpa que esse mesmo sistema classista burguês dá para velar sua ineficiência em gerenciar toda a complexa estrutura que está sob sua responsabilidade. Se não dermos conta de educarmos na diversidade para o atendimento da diversidade de todos os estudantes, deficientes e não deficientes, como poderemos pensar em uma sociedade de indivíduos emancipados? Conseqüentemente, parece que a questão posta é a questão central da formação de professoresna perspectiva da autonomia e da inclusão para todos. Adorno (1995, p.172) ainda, em tempo, tece uma crítica à literatura pedagógica, que a seu ver, deveria se constituir no ponto de destaque à necessidade do desenvolvimento de uma postura emancipadora por parte dos indivíduos. Quanto a isso, ele destaca que: Contudo, o que é peculiar no problema da emancipação, na medida em que esteja efetivamente centrado no complexo pedagógico, é que mesmo na literatura pedagógica não se encontre esta tomada de posição decisiva pela educação para a emancipação, como seria de se pressupor – o que constitui algo verdadeiramente assustador e muito nítido. Com o auxílio de amigos acompanhei um pouco a literatura pedagógica acerca da temática da emancipação. Mas, no lugar de emancipação, encontramos um conceito guarnecido nos termos de uma ontologia existencial de autoridade, de compromisso, ou outras abominações que sabotam o conceito de emancipação atuando assim não só de modo implícito, mas explicitamente contra os pressupostos de uma democracia. 55 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Considerando a citação, fica claro o escamoteamento que é feito com o conceito de emancipação. Na verdade essa confusão em termos desse conceito é proposital, uma vez que o esclarecimento a respeito do que significa aponta para a liberdade do pensamento, que se inicia com o entendimento de seu significado. Portanto, isso revela o quanto o sistema é capaz de atuar, em diferentes escalas e esferas, a fim de manter o controle com base no falseamento da realidade. E, na busca do desenvolvimento do sentimento emancipatório, Becker (In: Adorno, 1995, p. 177), destaca a importância da figura do professor para seus estudantes: Creio que é importante fixarmos esta questão: que evidentemente o processo de rompimento com a autoridade é necessário, porém que a descoberta da identidade, por sua vez, não é possível sem o encontro com a autoridade. Disto resulta uma série de conseqüências muito complexas e aparentemente contraditórias para a elaboração de nossa estrutura educacional. Afirma-se que não tem sentido uma escola sem professores, mas que, por sua vez, o professor precisa ter clareza quanto a que sua tarefa principal consiste. Dessa maneira, o professor comprometido com a educação emancipadora deve ter a consciência de seu papel e se configurar em um modelo que não se fixa, mas que aponta para além, um exemplo autônomo para a constituição de personalidades autônomas de seus estudantes, deficientes e não deficientes, como destacado por Adorno (1995, p.178), ao afirmar que: Esta simultaneidade é tão difícil porque nas formas de relacionamento atuais corre-se o risco de um comportamento autoritário do professor estimulando os alunos a se afastar dele. O resultado será uma emancipação ilusória de estudantes que acabará em supertição e na dependência de todo um conjunto de manipulações. O que é proposto por Adorno, sobretudo como reflexão, é que o encontro com a autoridade do professor é importante para o desenvolvimento da autonomia dos estudantes, sejam ou não deficientes. Contudo, o encontro com a autoridade não significa um exercício autoritário. São questões diferentes. A postura autoritária está em confronto com a idéia de sujeito emancipado. Quanto à questão de se viver experiências, - tanto os professores, quanto seus estudantes -, são necessárias para a constituição dos sujeitos, e que têm sido dificultadas em 56 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto nossas escolas que segregam os estudantes com deficiência, uma vez que estão afirmadas como pseudodemocráticas. Portanto, limitadoras das consciências e possibilidades dos estudantes com deficiências e também de seus professores. Quanto a isso, Becker (In: Adorno, 1995, p.180), destaca que: (...) num mundo como o nosso, o apelo à emancipação pode ser uma espécie de disfarce da manutenção geral de um estado de menoridade, e porque é muito importante traduzir a possibilidade de emancipação em situações formativas concretas. Dessa maneira, vale destacar que, com base nas experiências vividas entre diferentes subjetividades, tanto de professores, quanto de estudantes deficientes e não deficientes, pode ser afirmada uma diversidade de caminhos para o conhecimento, na busca da superação quanto à dualidade entre teoria e prática quanto à educação de estudantes com deficiência na escola inclusiva. Ambas podem e devem ser pensadas e exercidas com concomitância, como apontado por Becker (In: Adorno, 1995, p. 146), ao destacar que: Agora, justamente a idéia de uma desvinculação entre teoria e prática encontra-se consolidada de um modo tão infeliz, que desde o começo barreiras inteiras precisam ser removidas para erigir na educação as bases para uma relação adequada entre teoria e prática. Aproximando do nosso objeto de estudo, a experiência advinda do estar com estudantes deficientes constitui-se em importante fator para o desenvolvimento de uma postura inclusivista e a propagação do sentimento acolhedor na escola e nas demais instâncias da sociedade. Assim, mais uma vez é reforçada a idéia de que esperar que a escola e seus profissionais se preparem, e que quando ocorrida essa “preparação” promova- se à inclusão dos deficientes, significa manter a segregação. Para isso, a postura do professor deve estar em conformidade com as questões até então aqui analisadas, em termos de postura emancipatória de professores e estudantes com e sem deficiência, na superação da ideologia ainda dominante – a da segregação.. Quanto às ideologias dominantes, Adorno (1995, p.181), nos afirma que: Creio que nestes termos chegamos propriamente ao ponto crítico de nossa discussão. No ensaio que citei no início, referente à pergunta ‘vivemos atualmente em uma época esclarecida’ Kant respondeu: 57 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto ‘Não, mas certamente em uma época de esclarecimento’. Nestes termos ele determinou a emancipação de um modo inteiramente conseqüente, não como uma categoria estática, mas como uma categoria dinâmica, como um vir-a-ser e não um ser. Se atualmente ainda podemos afirmar que vivemos numa época de esclarecimento, isto tornou-se muito questionável em face da pressão inimaginável exercida sobre as pessoas, seja num sentido mais amplo, pelo controle planificado até mesmo de toda realidade interior pela industria cultural. Se não quisermos aplicar a palavra ‘emancipação’ num sentido meramente retórico, ele próprio tão vazio como o discurso dos compromissos que as outras senhorias empunham frente à emancipação, então por certo é preciso começar a ver efetivamente as enormes dificuldades que se opõem à emancipação nesta organização de mundo. O motivo evidentemente é a contradição social; é que a organização social em que vivemos continua sendo heterônoma, isto é, nenhuma pessoa pode existir na sociedade atual realmente conforme suas próprias determinações; enquanto isto ocorre, a sociedade forma as pessoas mediante inúmeros canais e instâncias mediadores, de um modo tal que tudo absorvem e aceitam nos termos desta configuração heterônoma8 que se desviou de si mesma em sua consciência. Ou seja, é possível pela educação possibilitarmos uma formação emancipatória, desde que se tenha clareza desse objetivo e dessa possibilidade. Se o processo educacional encontra-se obscurecidoquanto às suas orientações emancipatórias, os sujeitos participantes do processo – professores e estudantes, deficientes e não deficientes -, é que deverão, pela crítica reflexiva, instância possível de resistência à barbárie, resistir à sua reprodução e manutenção e, conseqüentemente, transformá-lo, pois, como afirmado por Adorno (1995, p. 121) “A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica”. Concluindo essa análise, mas longe de encerrá-la, destacamos mais uma afirmação de Adorno (1995, pp. 182–183), que ratifica a necessidade de diferenciação na postura e atitudes dos professores atuantes nas escolas inclusivas e a conseqüente necessidade de educar para e na diversidade social e humana, pois: Mesmo correndo o risco de ser taxado de filósofo, o que, afinal, sou, diria que a figura em que a emancipação se concretiza hoje em dia, e que não pode ser pressuposta sem mais nem menos, uma vez que ainda 8 Grifo nosso. 58 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto precisa ser elaborada em todos, mas realmente em todos os planos de nossa vida, e que, portanto, a única concretização efetiva da emancipação consiste em que aquelas poucas pessoas interessadas nesta direção orientem toda a sua energia para que a educação seja uma educação para a contradição e para a resistência9. CAPÍTULO III - A FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA A INCLUSÃO ESCOLAR DE ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIA Atualmente quando se discute a educação inclusiva não se faz referência somente aos estudantes deficientes. Antes, os desafios postos por essa discussão referem-se ao ‘educar para e na diversidade’. Qual a concepção de educação que respalda essa idéia? É educar não aproximando o deficiente do denominado normal, na tentativa de ‘normalizá-lo’ para aceitá-lo, mas sim de respeito como tal e qual ele se apresenta. Isso implica em reconhecer a diferença como marca da humanidade; os seres humanos são diversos, são constituídos de singularidades que demandam por reconhecimento. A tentativa de homogeneização é uma forma de controle, evidente no sistema capitalista neoliberal vigente em nossa sociedade. Os dispositivos legais vigentes, como as declarações, parâmetros e diretrizes curriculares, pareceres, dentre outros, não foram capazes de, por si só gerarem, transformações nas práticas docentes, que permanecem, em sua maioria, cristalizadas, no que tange à superação dos obstáculos postos à inclusão escolar de deficientes. Nesse contexto, nos situa Oliveira (2004, p. 240): A Educação Especial vive um momento ímpar de sua história. O movimento em busca de uma escola que responda e atenda às necesidades de todos os alunos pode ser percebido como um marco internacional em direção a uma escola para todos, capaz de assimilar e respeitar as diferenças e propiciar uma nova dinâmica pedagógica: a aprendizagem na diversidade. Não são poucos os autores da atualidade que vêm denunciando o perverso papel da escola diante das desigualdades sociais e apontando novas formas de atuação que propiciem a diferenciação do ensino como estratégia para se garantir a aprendizagem de todos os alunos. 9 Grifo nosso. 59 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Por sua vez, Peças (2003, p. 141) reforça a idéia de Oliveira, comentando acerca: Do apego ao especial, como idiossincrasia dominate na escola, decorre, como causa e conseqüencia, a fantasia do que chamo “professores diplomados em normalidade”; isto é, a idéia de que só somos professores de algumas crianças, porque só nos formaram para esse conjunto de seres que cabem num parâmetro difuso, mas estreito, do médio. Quem assim se assume, assim se reduz como pessoa e como profissional. Mas o mais grave é que pode reduzir tragicamente a vida de muitos meninos. Todo o acto educativo é um acto feito de desafio, de imprevisível, de novo. É no confronto com as exigências que o quotidiano nos traz que nos vamos fazendo mais e melhores educadores10. Dessa maneira, embora a crítica à dicotomização da formação em inicial e continuada, pelo menos nesse momento, não podemos negá-la, como discutido anteriormente. Portanto, faz-se necessário compreendermos suas especificidades para viabilizarmos, considerando o proposto nos dispositivos legais quanto à formação de professores com vistas à inclusão escolar de estudantes com necessidades especiais, como possibilitar espaços de reflexão nesses momentos possíveis de formação? Os dispositivos legais contemporâneos propõem a formação nos cursos de graduação (inicial) e nos cursos de capacitação, aperfeiçoamento e especialização (continuada) como espaços nos quais os debates necessários para o desenvolvimento da consciência verdadeira, na concepção de Adorno, possam ser promovidos. Para tal, faz-se necessário uma formação para além da apropriação de técnicas e recursos pedagógicos para o atendimento das necessidades especiais dos estudantes, considerando que, a educação, segundo Adorno, como já relatado (1995, p. 141) “não a (...) chamada modelagem de pessoas (...) mas também não a mera transmissão de conhecimentos (...) mas a produção de uma consciência verdadeira”. Isto posto, penso que temos elementos subsidiadores suficientes para pensar numa educação sustentada na crença de que os indivíduos são capazes de resistir a toda e qualquer forma de exclusão pela crítica. Sobre a formação inicial, Oliveira (2004, p. 240) aponta-nos que: 10 Grifo nosso. 60 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Nesse sentido, pensarmos que na formação inicial do professor, os princípios de uma educação inclusiva e os fundamentos da Educação Especial devem ser amplamente debatidos, como colocado na Resolução do CNE/CEB nº 01/2002. Esses conhecimentos capacitarão os professores a perceberem a diversidade de seus alunos, valorizarem a educação inclusiva, flexibilizarem a ação pedagógica, identificarem as necessidades educacionais especiais e, junto com o professor especializado, implementarem adaptações curriculares. Os programas de formação deveriam apresentar mudanças qualitativas substanciais, que realmente oferecessem novas possibilidades para os professores lidarem com a pluralidade no contexto da sala de aula.11 A afirmativa da referida autora reafirma nossa questão inicial, isto é, quando afirmávamos que somente a instrumentalização técnica dos professores não possibilitará o desenvolvimento de estratégias pedagógicas diferenciadas em contextos de aprendizagem diversos. A questão passa centralmente pela formação dos professores para a emancipação, como destacado por Adorno (1995). Nesse sentido, Oliveira (2004, p. 242) ratifica: Garantir uma sólida formação acadêmica que propicie a competência necessária para refletir sobre a prática educativa e atuar consistentemente para alterar a realidade objetiva, transpondo os limites impostos por uma perversa política sócio-econômica-cultural de exclusão exige tempo e aprofundamento reflexivo12. E, quanto à formação continuada, a mesma autora acrescenta: Não há como esgotar todas as discussões da prática pedagógica em um curso de formação. Se nos atermos à natureza do trabalho do pedagogo e do professor, certamente, não teremos dúvidas da necessidade de uma formação permanente. O contatodireto com a realidade didático-pedagógica e com o próprio sistema de ensino traz novas indagações e exige reflexões permanentes13 para que se efetive adequadamente o processo de ensino-aprendizagem. Assim, ao pensar a formação de professores não se pode perder de vista a necessidade de formação continuada, o que permitirá uma permanente reflexão sobre o fazer pedagógico e o enfrentamento dos desafios 11 Grifo nosso. 12 Grifo nosso. 13 Grifo nosso. 61 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto constantemente colocados para a superação das dificuldades do cotidiano escolar. (p. 242) Pensar nessa formação como possível nos apresenta algumas questões objetivas, posta às instâncias formadoras, de acordo com Oliveira (2004, p.242): E aí estamos em uma encruzilhada: como garantir a apropriação teórico-reflexiva do conhecimento pedagógico e, ao mesmo tempo, garantir a competência técnico-científica para o exercício das diferentes funções pedagógicas e, inclusive, a especificidade do processo educativo de alunos com deficiência? Sem dúvida alguma partilhamos do pensamento de González, quando afirma que seria necessário: “estabelecer propostas formativas polivalentes e integradoras, justificadas pelo fato de que as necessidades formativas não provêm exclusivamente da Educação Especial, mas pelo espaço circunscrito pelo conceito de diversidade, que implica tanto a educação geral como a especial”. (Oliveira, 2004, p. 242) E, é nesse processo dialético provocado pelo movimento de debate sobre a formação de professores para e na escola inclusiva, com o intuito de incluir os estudantes com necessidades educacionais especiais que a reflexão sobre o contexto histórico e social em que essa se apresenta torna-se necessária. Para tanto, delineio a seguir aspectos importantes para o entendimento de como se insere a análise que promovo neste estudo. 1. EDUCAÇÃO INCLUSIVA: SEUS FUNDAMENTOS HISTÓRICOS, FILOSÓFICOS E LEGAIS Quando discutimos inclusão escolar na atualidade entendemos que também estamos debatendo democratização social, porque não podemos pensar uma sociedade verdadeiramente democrática onde apenas uma parcela dela esteja freqüentando a escola. De maneira simplificada podemos afirmar que a educação inclusiva amplia a democracia social. Pensar na necessidade de educação inclusiva afirma a existência da exclusão, pois a educação deveria ser para todos, e se ela é hoje inclusiva é porque existem excluídos. Na sociedade burguesa de classes como pensar uma educação que se volte para inclusão de 62 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto todos os historicamente excluídos? Quando nos referimos à inclusão pensamos que não só devemos nos voltar para os deficientes, mas para todos os excluídos das diversas instâncias sociais. Segundo Peças (2003, p. 137), a importância da inclusão aponta para além de um momento pedagógico circunstancial, pois: (...) talvez não haja idéia tão grávida de esperança, tão intensa de premissas, tão determinante para nos acrescentarmos em cidadania e sageza, tão nuclear para a construção da profissionalidade de educadores, como a idéia de educação inclusiva. Ou seja, na concepção do autor, é reforçada a idéia de que a escola inclusiva é o espaço da convivência da diversidade, da tolerância, da construção do sentido do que é verdadeiramente democracia. É a escola onde todos têm seu lugar. Acolhedora dos estudantes e professores, e que tem muito a nos ensinar em termos de se repensar a estrutura social e a formação para além da reprodução do sistema totalizador. Constitucionalmente, as crianças e adolescentes deficientes têm direitos e deveres garantidos pela Constituição da República (1988), previstos em vários de seus artigos, onde destaco o art. 227, §1º, II: §1º - O Estado promoverá programas de assistência integral à saúde da criança e do adolescente, admitida a participação de entidades não governamentais e obedecendo os seguintes preceitos: (...) II - criação de programas de prevenção e atendimento especializado para os portadores de deficiência física, sensorial ou mental, bem como de integração social do adolescente portador de deficiência, mediante o treinamento para o trabalho e a convivência, e a facilitação do acesso aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de preconceitos e obstáculos arquitetônicos. Quanto a isso, é importante destacar a análise feita por Eugênia Fávero (2004, p. 76), Procuradora da República, quanto aos dispositivos constitucionais que fundamentam a inclusão escolar de deficientes: A nossa Constituição elegeu como fundamentos da República a cidadania e a dignidade da pessoa humana (art. 1º, incisos II e III), e 63 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto como um de seus objetivos fundamentais a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (art. 3º, inciso IV). Garante ainda, expressamente, o direito à igualdade (art. 5º), e trata, nos artigos 205 e seguintes, do direito de todos à educação. Esse direito deve visar ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (art. 205). Além disso, elege como um dos princípios para o ensino, a igualdade de condições de acesso e permanência na escola (art. 206, inciso I), acrescentando que o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de aceso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um (1988, art. 208, V). Com base nessa análise, é possível afirmar que a Constituição Federal garante o direito à educação e o acesso à escola para todos, pois segundo Fávero (2004, p. 77) “Estes dispositivos demonstram que ninguém pode negar, a qualquer pessoa com deficiência, o acesso à mesma sala de aula que qualquer outro, sob pena de ofensa ao princípio da igualdade”. Ou seja, é possível afirmar que a nossa Constituição Federal adota princípios consentâneos com o movimento de inclusão escolar, pois além de garantir o direito à igualdade, a não-discriminação, elege como seus objetivos fundamentais “(...) a construção de uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; reduzir as desigualdades sociais; promover o bem de todos, sem preconceitos” (Constituição da República, 1988, art. 3º). Como é percebido, a Constituição Federal é explícita, em vários artigos e incisos, quanto à legitimação da inclusão escolar de estudantes deficientes, coadunando com a proposta de redemocratização social, por meio da organização de escolas inclusivas. Quanto a isso, Fávero (2004, p. 77), ainda ratifica: Assim, não há alternativa se não a de tornar os espaços escolares acolhedores, mesmo a diferentes níveis intelectuais, até porque nenhum aprende em tempo e forma idênticos a de outros colegas de turma. É preciso que se enfrente o “pré-conceito” de que, se a pessoa não conseguir aprender os conteúdos escolares, conforme o padrão esperado pela escola para os alunos em geral, não pode permanecer na mesma sala de aula. Portanto, quando nossa Constituição Federal garante a educação para todos, significa que é para todos mesmo, em um mesmo ambiente, e este pode e deve ser o mais diversificado possível, como forma de atingir o pleno desenvolvimento humano e o preparo para a cidadania (Constituição Federal, 1988, art.205). 64 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Dispositivos legais elencados por Costa (2005) e Goffredo (2001) nos possibilitam compreender a proposta e a legitimização do processo escolar inclusivo, uma vez que existem ainda vários outros que reafirmam os direitos dos estudantes com necessidades educacionais especiais. O Princípio 5º da Declaração dos Direitos da Criança (1959) garante à pessoa com deficiência o recebimento de educação, tratamento e cuidados especiais. Esse direito, também, é reiterado no Art. 54, III, do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990). Da mesma forma, o Plano Decenal de Educação para Todos (MEC, 1993/2003), em seu capítulo II, C, ação 7ª, prevê a integração à escola de crianças e jovens portadores de deficiência. Por sua vez, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996 – LDBEN), apresenta propostas básicas de flexibilidade, além de algumas inovações que em muito favorecem os estudantes deficientes. Pela primeira vez em nossa história, em uma LDB, há um capítulo destinado à Educação Especial, cujos detalhamentos são fundamentais, como a garantia de matrícula para portadores de necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino (Art. 58); a criação de serviços de apoio especializado, para atender às peculiaridades da clientela de Educação Especial (Art. 58, § 1º); a oferta de Educação Especial durante a educação infantil (Art. 58, § 3º); a especialização de professores (Art. 59, III). Muito importante também é o compromisso assumido pelo poder público em ampliar o atendimento aos educandos com necessidades especiais na própria rede pública de ensino (Art. 60, parágrafo único). No período compreendido entre a promulgação da Constituição Federal (1988) e da Lei nº 9.394/1996, houve um momento histórico internacional no campo da educação - a “Conferência Mundial sobre Educação para Todos: Necessidades básicas de aprendizagem”, ocorrida em Jontiem, na Tailândia, em 1990. Dentre as diversas recomendações dessa Conferência, é particularmente importante que se destaque a primeira: “Relembrando que a educação é um direito fundamental de todos, mulheres e homens, de todas as idades, no mundo inteiro”. 65 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto O Brasil fez opção pela construção de um sistema educacional inclusivo ao concordar com a Declaração de Jontiem, e ao mostrar consonância com os postulados produzidos em Salamanca, na Espanha (1994), na “Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais: Acesso e Qualidade”. A seguir apresento alguns dos dispositivos legais e político-filosóficos que respaldam a constituição de uma sociedade democrática, entendendo a educação inclusiva como a possibilidade de democratização da escola e das demais instâncias sociais, preconizada pela legislação brasileira contemporânea em vigor: * Constituição Federal (1988), Título VIII, da ORDEM SOCIAL Artigo 208: III – Atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino; IV - § 1º - O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público e subjetivo. Com base nos “Referenciais para a Educação Especial”, devem ser feitas na introdução algumas recomendações aos sistemas de ensino e educação: 1. Implantar a educação especial em todas as etapas da educação básica; 2 . Prover a rede pública dos meios necessários e suficientes para essa modalidade; 3. Estabelecer políticas efetivas e adequadas à implantação da educação especial; 4. Orientar acerca de flexibilizações/adaptações dos currículos escolares; 5. Orientar acerca da avaliação pedagógica e do fluxo escolar de alunos com necessidades educacionais especiais; 6. Estabelecer ações conjuntas com as instituições de educação superior para a formação adequada de professores; 7. Prever condições para o atendimento extraordinário em classes especiais ou em escolas especiais; 8. Fazer cumprir o Decreto Federal nº 2.208/1997, no tocante à educação profissional de alunos com necessidades educacionais especiais [posteriormente, o 66 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Conselho Nacional de Educação aprovou o Parecer CNE/CEB nº. 16/1999 e a Resolução CNE/CEB nº. 4/1999]; 9. Estabelecer normas para o atendimento aos superdotados; e 10. Atentar para a observância de todas as normas de educação especial. V – Acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um. Art. 227: II - § 1º - Criação de programas de prevenção e atendimento especializado para os portadores de deficiência física, sensorial ou mental, bem como de integração social do adolescente portador de deficiência, mediante o treinamento para o trabalho e a convivência, e a facilitação do acesso aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de preconceitos e obstáculos arquitetônicos; § 2º - A lei disporá normas de construção dos logradouros e dos edifícios de uso público e de fabricação de veículos de transporte coletivo, a fim de garantir acesso adequado às pessoas portadoras de deficiência. * Constituição Estadual (1989) Art. 305: “(...) atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência e ensino profissionalizante na rede regular de ensino, quando necessário, por professores de educação especial”. * Lei n°. 10.172/2001: Aprova o Plano Nacional de Educação e dá outras providências. O Plano Nacional de Educação (1997) estabelece vinte e sete objetivos e metas para a educação das pessoas com necessidades educacionais especiais. Resumidamente, essas metas tratam: 67 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto do desenvolvimento de programas educacionais em todos os municípios – inclusive em parceria com as áreas de saúde e assistência social – visando à ampliação da oferta de atendimento desde a educação infantil até a qualificação profissional dos alunos; das ações preventivas nas áreas visual e auditiva até a generalização do atendimento aos alunos na educação infantil e no ensino fundamental; do atendimento educacional preferencialmente na rede regular de ensino; e da educação continuada dos professores que estão em exercício em instituições de ensino superior. * Lei n°. 853/1989: Dispõe sobre o apoio às pessoas com deficiências, sua integração social, assegurando o pleno exercício de seus direitos individuais e sociais. * Lei n°. 8.069/1990: Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente. O Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), entre outras determinações, estabelece, no § 1o do Artigo 2o: “A criança e o adolescente portadores de deficiências receberão atendimento especializado.” O ordenamento do Artigo 5o é contundente: “Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.” * Lei n°. 9.394/1996: Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional, assim: 68 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Art. 4º, III – atendimento educacional especializado aos portadoresde deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino. Art. 58. Entende-se por educação especial, para os efeitos desta lei, a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais. § 1º Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades da clientela de educação especial; § 2º O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns de ensino regular; § 3º A oferta de educação especial, dever constitucional do Estado, tem início na faixa etária de zero a seis anos, durante a educação infantil. Art. 59. Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais: I – currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades; II – terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados; III – professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns; IV – educação especial para o trabalho, visando a sua efetiva integração na vida em sociedade, inclusive condições adequadas para os que não revelarem capacidade de inserção no trabalho competitivo, mediante articulação com os órgãos oficiais afins, bem como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artística, intelectual ou psicomotora; 69 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto V – acesso igualitário aos benefícios dos programas sociais suplementares disponíveis para o respectivo nível do ensino regular. Art. 60. Os órgãos normativos dos sistemas de ensino estabelecerão critérios de caracterização das instituições privadas sem fins lucrativos, especializadas e com atuação exclusiva em educação especial, para fins de apoio técnico e financeiro pelo Poder Público. Parágrafo Único. O Poder Público adotará, como alternativa preferencial, a ampliação do atendimento aos educandos com necessidades especiais na própria rede pública regular de ensino, independentemente do apoio às instituições previstas neste artigo. * Decreto n°. 3.298/1999: Regulamenta a Lei nº. 7.853/1989, que dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, consolidando as normas de proteção e dando outras providências. * Resolução nº 2, do Conselho Nacional de Educação/CNE/CEB/2001 Art. 1º: (...) institui as Diretrizes Nacionais para a educação de alunos que apresentem necessidades educacionais especiais, na Educação Básica, em todas as suas etapas e modalidades”, ratificando a obrigatoriedade dos sistemas de ensino quanto à matrícula de todos os educandos, cabendo às escolas organizar-se para o atendimento dos que apresentam necessidades educacionais especiais, assegurando as condições necessárias de educação para todos. A referida resolução entende a educação especial, modalidade da educação escolar, como um processo educacional definido por uma proposta pedagógica que assegure recursos e serviços educacionais especiais, organizados institucionalmente para apoiar, complementar, suplementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns, de modo a garantir a educação escolar e promover o desenvolvimento das potencialidades dos educandos que apresentam necessidades educacionais especiais. Para tanto, as escolas, municipais 70 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto e estaduais, da rede regular de ensino devem prever e prover na organização de suas classes comuns, dentre outros aspectos, a formação de professores para a diversidade (Costa, 2005, p. 7) * Decreto n.º 5.296, de 02/12/2004 Regulamenta as Leis n.ºs 10.048, de 08 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. Art. 8º: Para os fins de acessibilidade, considera que: I - Acessibilidade: é a “Condição para utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos serviços de transporte e dos dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida;” (p. 4). * Portaria MEC n°. 1.679/1999: Dispõe sobre os requisitos de acessibilidade a pessoas portadoras de deficiências para instruir processos de autorização e de reconhecimento de cursos e de credenciamento de instituições. * Lei n°. 10.098/2000: Estabelece normas gerais e critérios básicos para promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida e dá outras providências. * Declaração de Salamanca e Linha de Ação/1994: Desse documento, ressaltamos alguns trechos que justificam as linhas de propostas que são apresentadas: 71 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto “Todas as crianças, de ambos os sexos, têm direito fundamental à educação e que a ela deva ser dada a oportunidade de obter e manter nível aceitável de conhecimento”; “Cada criança tem características, interesses, capacidades e necessidades de aprendizagem que lhe são próprios”; “Os sistemas educativos devem ser projetados e os programas aplicados de modo que tenham em vista toda gama dessas diferentes características e necessidades”; “As pessoas com necessidades educacionais especiais devem ter acesso às escolas comuns que deverão integrá-las numa pedagogia centralizada na criança, capaz de atender a essas necessidades”; “Adotar com força de lei ou como política, o princípio da educação integrada que permita a matrícula de todas as crianças em escolas comuns, a menos que haja razões convincentes para o contrário”; “Toda pessoa com deficiência tem o direito de manifestar seus desejos quanto a sua educação, na medida de sua capacidade de estar certa disso. Os pais têm o direito inerente de serem consultados sobre a forma de educação que melhor se ajuste às necessidades, circunstâncias e aspirações de seus filhos”; “As políticas educacionais deverão levar em conta as diferenças individuais e as diversas situações. Deve ser levada em consideração, por exemplo, a importância da língua de sinais como meio de comunicação para os surdos, e ser assegurado a todos os surdos acesso ao ensino da língua de sinais de seu país. Face às necessidades específicas de comunicação de surdos e de surdos-cegos, seria mais conveniente que a educação lhes fosse ministrada em escolas especiais ou em classes ou unidades especiais nas escolas comuns”; “(...) desenvolver uma pedagogia centralizada na criança, capaz de educar com sucesso todos os meninos e meninas, inclusive os que sofrem de deficiências graves. O mérito dessas escolas não está só na capacidade de dispensar educação de qualidade a todas as crianças; com sua criação, dá-seum passo muito importante para tentar mudar atitudes de discriminação, criar comunidades que acolham a todos”; 72 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto “(...) que todas as crianças, sempre que possível, possam aprender juntas, independentemente de suas dificuldades e diferenças. As crianças com necessidades educacionais especiais devem receber todo apoio adicional necessário para garantir uma educação eficaz. (...) deverá ser dispensado apoio contínuo, desde a ajuda mínima nas classes comuns até a aplicação de programas suplementares de apoio pedagógico na escola, ampliando-os, quando necessário, para receber a ajuda de professores especializados e de pessoal de apoio externo”; “A escolarização de crianças em escolas especiais – ou classes especiais na escola regular – deveria ser uma exceção, só recomendável naqueles casos, pouco freqüentes, nos quais se demonstre que a educação nas classes comuns não pode satisfazer às necessidades educativas ou sociais da criança, ou quando necessário para o bem-estar da criança. Nos casos excepcionais, em que seja necessário escolarizar crianças em escolas especiais, não é necessário que sua educação seja completamente isolada”. “Deverão ser tomadas as medidas necessárias, para conseguir a mesma política integradora de jovens e adultos com necessidades especiais, no ensino secundário e superior, assim como nos programas de formação profissional”; “A capacitação de professores especializados deverá ser reexaminada com vista a lhes permitir o trabalho em diferentes contextos e o desempenho de um papel-chave nos programas relativos às necessidades educacionais especiais. Seu núcleo comum deve ser um método geral que abranja todos os tipos de deficiências, antes de se especializar numa ou várias categorias particulares de deficiência”; “O acolhimento, pelas escolas, de todas as crianças, independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, lingüísticas ou outras (necessidades educativas especiais)”; “Uma pedagogia centralizada na criança, respeitando tanto a dignidade como as diferenças de todos os alunos”; “Uma atenção especial às necessidades de alunos com deficiências graves ou múltiplas, já que se assume terem eles os mesmos direitos, que os demais membros da comunidade, de virem a ser adultos que desfrutem de um máximo de independência. 73 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Sua educação, assim, deverá ser orientada nesse sentido, na medida de suas capacidades”; “Os programas de estudos devem ser adaptados às necessidades das crianças e não o contrário, sendo que as que apresentarem necessidades educativas especiais devem receber apoio adicional no programa regular de estudos, ao invés de seguir um programa de estudos diferente”; “Os administradores locais e os diretores de estabelecimentos escolares devem ser convidados a criar procedimentos mais flexíveis de gestão, a remanejar os recursos pedagógicos, diversificar as opções educativas, estabelecer relações com pais e a comunidade”; E, sobre a formação do professor e a inclusão de estudantes deficientes na rede comum ou regular de ensino, objeto de minha dissertação, destaco alguns pontos a seu respeito na Declaração de Salamanca e Linha de Ação (1994): “Assegurar que, num contexto de mudança sistemática, os programas de formação do professorado, tanto inicial como contínua, estejam voltados para atender às necessidades educacionais especiais nas escolas (...)”; “Os programas de formação inicial deverão incutir em todos os professores da educação básica uma orientação positiva sobre a deficiência que permita entender o que se pode conseguir nas escolas com serviços locais de apoio. Os conhecimentos e as aptidões requeridos são basicamente os mesmos de uma boa pedagogia, isto é, a capacidade de avaliar as necessidades especiais, de adaptar o conteúdo do programa de estudos, de recorrer à ajuda da tecnologia, de individualizar os procedimentos pedagógicos para atender a um maior número de aptidões. Atenção especial deverá ser dispensada à preparação de todos os professores para que exerçam sua autonomia14 e apliquem suas competências na adaptação dos programas de estudos e da pedagogia, a fim de atender às necessidades dos alunos e para que colaborem com os especialistas e com os pais”; 14 Grifo nosso. 74 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto “O corpo docente, e não cada professor, deverá partilhar a responsabilidade do ensino ministrado a crianças com necessidades especiais”; “As escolas comuns, com essa orientação integradora, representam o meio mais eficaz de combater atitudes discriminatórias, de criar comunidades acolhedoras, construir uma sociedade integradora e dar educação para todos; além disso, proporcionam uma educação efetiva à maioria das crianças e melhoram a eficiência e, certamente, a relação custo–benefício de todo o sistema educativo”; “A inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais, em classes comuns, exige que a escola regular se organize de forma a oferecer possibilidades objetivas de aprendizagem, a todos os alunos, especialmente àqueles portadores de deficiências”. Mais recentemente, o Brasil se tornou signatário de um documento internacional, firmado na Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Pessoas Portadoras de Deficiência, ou simplesmente Convenção da Guatemala (2001). Quanto a esse documento, Fávero (2004) destaca que esse acordo internacional faz parte do ordenamento jurídico brasileiro, pois foi aprovado pelo Congresso Nacional por meio do Decreto Legislativo nº 198, de 13 de junho de 2001, e promulgado pelo decreto nº 3.956, de 08 de outubro de 2001, da Presidência da República do Brasil. A importância dessa Convenção para a inclusão escolar de deficientes é afirmada por Fávero (2004, p. 43), assim: Sua importância está em definir o que é discriminação deixando clara a impossibilidade de diferenciação, exclusão ou restrição com base na deficiência. Para essa Convenção, discriminação é toda diferenciação, exclusão ou restrição baseada em deficiência, antecedente de deficiência, consequência de deficiência anterior ou percepção de deficiência presente ou passada, que tenha o efeito ou propósito de impedir ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício, por parte das pessoas portadoras de deficiência, de seus direitos humanos e suas liberdades fundamentais (art. I, nº 2, “a”). 75 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Todos essses dispositivos, dentre outros, permitem uma visão ampla dos aspectos que legitimizam a inclusão escolar de deficientes em um único sistema de ensino. Contudo, os dispositivos legais por si só não promovem a efetivação da inclusão escolar de deficientes, como afirma Costa (2005), embora exerçam papel de importância ímpar. Eles fundamentam o processo, entretanto, não promovem a efetividade da inclusão. Entendo que a falta de aproximação do diálogo entre as esferas legislativa e executiva, representados pelos juristas e professores, respectivamente, acaba por dificultar o processo inclusivo uma vez que a não audiência desses, que são os verdadeiros promotores da inclusão escolar, qual seja, toda equipe pedagógica presentenesse espaço formador (professores, diretores, supervisores, pedagogos, dentre outros atores sociais da escola), acaba por derivar na edição de leis que muito se distanciam das possibilidades factuais da escola. A própria dificuldade no entendimento da linguagem legal pelos professores e demais profissionais da escola acaba por criar possibilidades que justificam atitudes de resistência à inclusão escolar. Podemos citar um exemplo dessa incongruência. A Lei 7853/1989 e o Decreto 3298/1999, específicos sobre o direito das pessoas portadoras com deficiência, quando tratam do direito à educação, garantem aos estudantes com deficiência o direito de acesso ao ensino regular “sempre que possível”, ou “desde que capazes de se adaptar”. Em uma interpretação crítica, coerente com os princípios e objetivos constitucionais de “promoção do bem-estar de todos, sem qualquer discriminação”, verifica-se que essas normas, quando falam em “sempre que possível” e “desde que sejam capazes de se adaptar”, podem estar se referindo às pessoas com deficiência e severos comprometimentos de saúde. Entretanto, apropriadas da maneira como aparecem nos citados documentos oficiais viabilizam a possibilidade de justificar a impossibilidade de incluir estudantes deficientes com base nas lacunas que se estabelecem em torno da interpretação da Lei em vigor. Quando, em vez disso, e segundo Crochík (2003, p.22), a questão da inclusão escolar de deficientes deve ser fundamentada na própria concepção educacional, pois: Já a constituição brasileira propõe algo um pouco distinto. Privilegia, sempre que possível, a inclusão da criança com necessidades especiais em classes regulares, mas não determina a sua obrigatoriedade, favorecendo, assim, um sistema dicotômico: a existência de 76 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto instituições especializadas e de escolas regulares, e, dentro dessas últimas, a divisão entre classes especiais e classes regulares. Para ser mais exato, enquanto os princípios da educação inclusiva, presentes no projeto da UNESCO, indicam que apenas excepcionalmente uma criança não deva freqüentar as classes regulares, no Brasil, diz-se que todas as crianças devem preferencialmente estudar nessas classes. Pode parecer uma questão de semântica, mas um documento da Secretaria da Educação Especial (Brasil, 2000) apresenta uma preocupação que pode explicar as diferenças entre as propostas aprovadas nas conferências mundiais e suas adaptações ao Brasil: “Grandes são as implicações desse redirecionamento (promovido pela educação inclusiva), quando se pensa nas conseqüências práticas por ele impostas à vida educacional do aluno com necessidades especiais e sua relação com o meio sócio-cultural em que se encontra” (p.8). Ou seja, ao que parece, a questão que preocupa a Secretaria da Educação Especial, no Brasil, quanto à educação inclusiva, diz respeito às “conseqüências práticas” para o aluno com necessidades especiais e não necessariamente a motivos técnicos e/ou financeiros. Ou seja, de acordo com o referido autor, a própria legislação oportuniza que se criem dicotomias e antagonismos, uma vez que a dubiedade na interpretação da legislação vigente pode encaminhar esforços em direções opostas. E, essas dissensões acabam por gerar compreensões diferentes para o processo inclusivo, dicotomizações que acabam por retardar ou mesmo obstar o movimento de inclusão escolar dos estudantes deficientes. As dissenções legais, as interpretações equivocadas da Lei e a incompreensão do verdadeiro significado do processo escolar inclusivo podem propiciar as condições objetivas capazes de criar modelos que minem o fortalecimento do movimento de reestruturação e organização de escolas inclusivas. Com isso, concepções surgem e são disseminadas com base nas múltiplas interpretações sobre a inclusão escolar de deficientes. Objetivando conhecer algumas dessas interpretações acerca das concepções de educação inclusiva, destaco a compreensão de Mendes (2002, p. 61): A educação inclusiva é uma proposta de aplicação prática ao campo da educação de um movimento mundial, denominado de inclusão social, o qual é proposto como um novo paradigma e implica a construção de um processo bilateral no qual as pessoas excluídas e a sociedade buscam, em parceria, efetivar a equiparação de oportunidades para todos. Portanto, o movimento pela inclusão social está atrelado à construção de uma sociedade democrática, na qual todos conquistam 77 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto sua cidadania e na qual a diversidade é respeitada e há aceitação e reconhecimento político das diferenças. Cabe a crítica a essa concepção uma vez que a inclusão escolar de deficientes não pode se resumir a “uma proposta de aplicação prática”, pois em existindo e conhecendo-se uma proposta exitosa, significaria que a mesma poderia ser aplicada em todos os locais e com os mesmos resultados. A questão da inclusão escolar não pode se voltar somente para questões de aplicação prática. Ela encontra-se para além disso, não se restringindo apenas a métodos. Ela demanda concepções críticas de sociedade, educação, escola e indivíduo, que exigem reflexão e atitudes de combate ao preconceito e a segregação imposta historicamente às pessoas com deficiência. E, o que pensam os professores sobre a inclusão escolar? Costa (2005, p. 8) apresenta algumas concepções, obtidas em sua pesquisa, com base nos dados coletados durante a realização de um curso de formação continuada para os professores da Rede Estadual de Ensino do Rio de Janeiro, intitulado “A Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva”, realizado por meio de parceria entre a Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense e a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro, por intermédio da Coordenação de Educação Especial. Nas ocasiões dos encontros, os professores puderam narrar: “Para os alunos deficientes é muito importante a socialização com diferentes pessoas, não só com pessoas que tenham a mesma deficiência deles. Só que as escolas precisam preparar-se tanto com recursos físicos, quanto humanos”. (Poliana) “Penso que é de grande importância e muito válida a inclusão escolar. Porém, para que possam estudar junto com outros alunos, é necessária uma preparação profissional, da comunidade escolar para sua aceitação, e uma certa estrutura, como ambiente, material, entre outros aspectos, para se realizar um bom trabalho pedagógico”. (Lúcia) “Penso que é correto, democrático e justo promover a inclusão dos alunos com deficiência. É muito positivo, pois logo de início os alunos vão começar a aprender a lidar com os diferentes e a troca de experiências será muito rica”. (Eliana) 78 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Com base nos depoimentos, observa-se que as professoras são favoráveis à inclusão escolar (com exceção apenas de uma), afirmando, porém, que a readaptação das escolas é primordial para que a inclusão ocorra, se tornando em mais uma variável importante para a efetivação do processo inclusivo. Carvalho (2003, p. 43) nos apresenta outras concepções obtidas em pesquisas com os professores de redes governamentais de ensino, onde esteve trabalhando. Em relação ao que pensam da educação inclusiva, quase que unanimemente responderam a essa questão relacionando a inclusão à presença de alunos com deficiêncianas classes regulares. Essa correlação justifica as opiniões que se seguem, relacionadas das mais freqüentes às que foram menos citadas: sentem-se despreparados para trabalhar com alunos deficientes em suas turmas; embora concordando que eles têm direito à escola opinam que, igualmente, têm direito à presença de especialistas que os atendam em classes especiais ou que ofereçam supervisão aos professores; consideram falta de respeito aos alunos e a seus professores inclui-los no ensino regular sem que as escolas sejam adaptadas para esse trabalho, seja em termos arquitetônicos, profissionais ou atitudinais; alguns se sentem inseguros, mas desejosos em enfrentar o desafio.15 Essas concepções transitam pela idéia do que a própria sociedade encara como inclusão escolar de deficientes, ou seja, estudantes deficientes e não deficientes estudando juntos na mesma sala de aula. Entretanto, a questão a ser destacada é que se sabe que a convivência, somente, da maneira como está posta – física – entre estudantes com e sem deficiência, se distancia muito do que é a inclusão escolar. Alguns estudiosos nomeiam esse processo de integração escolar. Sobre essa questão Crochík (2003, p.22), afirma que: A inclusão no Brasil, segundo esse documento: “[...] está em processo de construção e por isso adquiriu conotações peculiares: 1º) O termo inclusão passou a ser utilizado no sentido de se ter acesso ao sistema de ensino, e não exclusivamente ao ensino regular; 2º) O termo inclusão passou a ser utilizado no sentido de ter acesso ao ensino regular que inicia um processo de reestruturação, mantendo os serviços de apoio de educação especial (p. 8).” 15 Grifo nosso. 79 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Dessa maneira, observamos o surgimento da dicotomia integração versus inclusão, onde a primeira seria um falseamento da inclusão, uma pseudoinclusão, ou até mesmo, a exclusão na inclusão. É fato a existência desse fenômeno, e entendê-lo é o primeiro passo para a superação dos obstáculos postos por sua existência. E, nesse movimento Crochík (2003, p. 23), nos esclarece que: Assim, o que parece estar em questão no Brasil, antes da contraposição estabelecida entre educação integrada e educação inclusiva, ambas realizadas em classes regulares, é a existência de lugares especiais – classes ou instituições – para aqueles que têm dificuldades de aprender. O referido autor nos provoca a reflexão quanto à questão em voga, isso é, a superação da dicotomia inclusão e exclusão, como destacado anteriormente. Quanto a isso, esclarece: Evidentemente, não é indiferente para a educação e, sobretudo para os alunos, a distinção entre integração e inclusão, que, como vimos, contêm propostas distintas. A discussão dará mais ênfase à distinção segregação/integração, considerando a inclusão como parte dessa última. Dada a não-uniformidade das definições de educação integrada e educação inclusiva, optamos por considerar a educação integrada/inclusiva como aquela que permite a convivência de alunos com dificuldades especiais de aprendizagem e alunos sem essas dificuldades em classes regulares no maior tempo do período letivo. (p. 25) Goffredo (2001, pp. 25 e 33), aponta-nos uma possibilidade similar sobre a relação inclusão e integração, reafirmando a idéia apresentada por Crochík. Assim: Na tentativa de eliminar os preconceitos e de integrar os alunos portadores de deficiências nas escolas comuns do ensino regular, surgiu o movimento de integração escolar. Esse movimento caracterizou-se, de início, pela utilização das classes especiais (integração parcial) na “preparação” do para a “integração total” na classe comum. Ocorria, com freqüência, o encaminhamento indevido de alunos para as classes especiais e, conseqüentemente, a rotulação a que eram submetidos. O aluno, nesse processo, tinha que se adequar à escola, que se mantinha inalterada. A integração total na classe comum só era permitida para aqueles alunos que conseguissem acompanhar o currículo ali desenvolvido. Tal processo, no entanto, impedia que a maioria das 80 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto crianças, jovens e adultos com necessidades especiais alcançassem os níveis mais elevados de ensino. Eles engrossavam, dessa forma, a lista dos excluídos do sistema educacional (...) Inclusão: Representando um avanço em relação ao movimento de integração escolar, que pressupunha o ajustamento da pessoa com deficiência para sua participação no processo educativo desenvolvido nas escolas comuns, a inclusão postula uma reestruturação do sistema educacional, ou seja, uma mudança estrutural no ensino regular, cujo objetivo é fazer com que a escola se torne inclusiva, um espaço democrático e competente para trabalhar com todos os educandos, sem distinção de raça, classe, gênero ou características pessoais, baseando-se no princípio de que a diversidade deve não só ser aceita como desejada. Nesse sentido, Mendes (2002, p. 61), acrescenta: Assim, embora o debate sobre a educação inclusiva não tenha nascido no contexto da educação especial, se aplica também a ela, na medida em que sua clientela também faz parte daquela população historicamente excluída da escola e da sociedade. Entretanto, ela não pode ser reduzida à errônea crença de que para implementá-la basta colocar crianças, jovens e adultos com necessidades educacionais especiais em escolas regulares ou nas classes comuns. Também Carvalho (2003, p.50) nos traz, com base em suas experiências em cursos de capacitação de professores, a confirmação da existência, na prática, da dualidade integração – inclusão, afirmando que: Integração e inclusão certamente são termos diferentes, e têm gerado modelos de organização político-administrativa distintos. Já tive o desprazer de ouvir, em uma das turmas que visitei, no município onde tenho trabalhado, uma professora dizer que havia alunos com deficiência incluídos em sua sala, contra sua vontade. Devido a isso eles estavam inseridos, colocados lá, mas constituíam um grupo à parte, até porque ela tinha ouvido que não devemos mais falar de integração. Estavam, portanto, segregados, na inclusão! E, Martins (In: Mendes, p. 64) reforça a idéia da dicotomia integração e inclusão, enfatizando: Peter Mittler confirma tal diferenciação, acrescentando que na perspectiva da integração não há pressuposição de mudança da escola e, conseqüentemente, do ensino, enquanto a inclusão estabelece que a 81 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto mudança é necessária, a partir da reformulação dos currículos, das formas de avaliação, da formação de professores e de uma política educacional mais democrática. Uma vez que entendo a existência da exclusão na inclusão, o que aqui foi chamado de integração escolar é possível avançar minhas considerações sobre as outras concepções que se constroem no processo de inclusão escolar de deficientes. Aranha (2001, p. 2) nos apresenta o seguinte entendimento para a inclusão escolar. A idéia de inclusão se fundamenta em uma filosofia que reconhece e aceita a diversidade na vida em sociedade. Isto significa garantia de acesso de todos a todas as oportunidades, independente das peculiaridades de cada indivíduo ou grupo social. Concordo com Aranha, penso que a inclusão escolar é um conjunto de questões que envolvem diferentes métodos de ensino, de ações pedagógicas, atitudes de acolhimento da diversidadee conhecimento teórico crítico, que acabam por constituir o que denomino de postura inclusivista por parte dos professores. Avançando na análise, Mendes (2002, p. 65) nos chama a atenção para as correntes que surgiram com base na compreensão diversa que se fez em torno do processo de inclusão escolar, afirmando que: Atualmente, pode-se observar duas correntes na perspectiva da educação inclusiva, a da “inclusão” e a da “inclusão total”, com propostas divergentes sobre qual é a melhor forma de educar crianças e jovens com necessidades educacionais especiais. Fuchs & Fuchs (1998) estabelecem as seguintes diferenças entre essas duas tendências: 1. Os “inclusionistas” consideram que o objetivo principal da escola é auxiliar o aluno a dominar habilidades e conhecimentos necessários à vida futura, tanto dentro quanto fora da escola, enquanto os “inclusionistas totais” acreditam que as escolas são importantes pelas oportunidades que oferecem de fazer amizades, mudar o pensamento estereotipado sobre as incapacidades e fortalecer as habilidades de socialização. 2. Os “inclusionistas” defendem a manutenção do continuum de serviços, que permite a colocação desde a classe comum até os serviços hospitalares, enquanto os “inclusionistas totais” advogam pela colocação apenas na classe comum da escola regular e pregam, ainda, a necessidade de extinção do continuum. 3. Os “inclusionistas” acreditam que a capacidade de mudança da classe comum é finita e, mesmo que uma reestruturação 82 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto ocorra, a escola comum não será adequada a todas as crianças, ao passo que os “inclusionistas totais” crêem na possibilidade de reinventar a escola a fim de acomodar todas as dimensões da diversidade da espécie humana. Considerando o exposto, penso ser regressivo para o debate, seu fechamento em questões que apenas tendem a categorizar, dicotomizar e enquadrar em modelos à proposta da inclusão escolar, correndo-se o risco de se reproduz assim a lógica da escola que não se modifica, ou seja, de uma dominação social ideológica. Enquanto nos detivermos em questões desse tipo, penso que pouco avanço ocorrerá na promoção da inclusão escolar dos deficientes. Penso que não ser possível negar a existência de tais categorizações, mas nossos esforços não podem se destinar, de sobremaneira, nessas discussões que pouco, ou nada, acrescentam para a promoção da inclusão escolar dos estudantes com necessidades especiais. Avançando nessa discussão quanto às concepções sobre inclusão escolar, apresento a perspectiva Peças (2003), refletindo sobre a escola inclusiva afirmando que: A inclusão de todos, a escola para todos, não é um mito. É uma evidência. É uma necessidade vital à organização das sociedades. É uma urgência incontornável para a escola, cujo adiantamento só nos atrasa e empobrece. E tenhamos a lucidez e o discernimento para compreender que, face à enorme crise social que se adivinha, esta cultura inclusiva, esta cultura cooperativa, é uma cultura de sobrevivência. A concepção de Peças é factual quando afirma que a cultura inclusiva é uma cultura de sobrevivência. Sou levado a pensar que até quando iremos negar a diversidade posta na condição humana, afirmando uma lógica homogeneizadora que se encontra em contradição com a condição humana? Não dá mais para pensar em uma sociedade democrática e igualitária, se a escola, que representa um locus menor dessas mesmas relações que ocorrem em maior escala social, continua segregadora e excludente. Ou seja, não dá para pensar em sociedade inclusiva com escolas que não sejam também inclusivas. E sobre essa questão Peças (2003, p. 143), refletindo sobre essa questão, afirma que: Temos consciência de que a escola é cada vez mais incontornável, fazendo dela um sítio acolhedor onde possa desabrochar o gosto pelo 83 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto acto de aprender, onde se aprenda pelo trabalho solidário e emancipador, onde se viva à democracia directa e se edifique a cidadania. Sintetizando seu pensamento sobre a inclusão escolar, Peças (2003, p. 143), afirma que: A educação inclusiva não é um conceito restrito à racionalidade pedagógica. A educação inclusiva inspira-se no substracto transdisciplinar aos mais recentes contributos das várias ciências e visa a sociedade inclusiva. A sua construção, que é um processo permanente, implica os mais amplos espaços sociais e culturais e apela a mais vasta participação das comunidades sociais e científicas. A escola inclusiva reivindica uma matriz cultural e uma cultura organizacional. Não se reduz a uma técnica, a um método;16 Temos que perceber que quando falamos de inclusão não nos reduzimos a um público tipificado. Se as crianças deficientes, por razões mais do que evidentes, preenchem uma preocupação central das estratégias de inclusão, as vítimas e/ou os candidatos a excluídos não param de crescer. São os “náufragos do desenvolvimento” como alguém lhes chamou, os pobres, os culturalmente marginais, os que sofrem todos os riscos da desumanidade crescente que as nossas sociedades inventam. São muitos destes que encontramos nas margens da escola e nos caminhos paralelos da segregação mais ou menos encoberta. È para estes que a escola é mais vital, são os mais desprotegidos e os mais diferentes que precisam de mais e melhor escola. A escola acolhedora funda-se neste paradigma: o de escola como organização de aprendizagem para todos. Neste entendimento reforçam-se dois sentidos indissociáveis para os sujeitos principais do encontro educativo: Os alunos todos vão à escola para aprender; Os professores são organizadores de ambiências de aprendizagem fecunda para todos. Penso ser evidente que uma cultura organizacional inclusiva deve ter pressupostos claros e objetivos. Contudo, podemos entender que a inclusão escolar perpassa por questões sócio-culturais. Portanto, não pode ser analisada isolada do meio que a produziu. As opiniões dos autores aqui apresentadas nos apóiam no entendimento desses processos que acabaram por derivar na necessidade de se efetivar essa inclusão. Segundo Goffredo (2001, p. 4) a origem da exclusão reproduz a lógica capitalista e neoliberal vigente, com base na realidade brasileira, na medida em que: 16 Grifo nosso. 84 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Acreditamos que esta triste realidade seja conseqüência de características excludentes e separatistas que são marcantes em nossa sociedade. A formação econômico–social brasileira exige e cultua a produtividade, a eficiência e a competição. Sob esse aspecto, como é visto o indivíduo que traz o estigma da deficiência, ou seja, da não eficiência? Parece-nos evidente que o problema recai sobre a visão que a sociedade ainda tem a respeito dos portadores de deficiência: a valorização de sua não eficiência. Tal condição, para a lógica capitalista do lucro, é suficiente para justificar a exclusão de investimentos na educação do portador de necessidades educativas especiais, pois seu retorno não se manifesta de maneira em mais valia. As atitudes discriminatórias dos planejadores e executores da educação prejudicam o ingresso dos portadores de necessidades educativas especiais no sistema escolar. Portanto, é necessário que a nossa política educacional esteja voltada para a heterogeneidade. Entretanto, é imprescindívelressaltar que, embora os dispositivos legais sejam fundamentais, não se devem excluir outras fontes de mudanças. No pensamento de Goffredo fica explicitada a sua concepção de exclusão dos estudantes que por serem deficientes, ou seja, “não eficientes”, não atendem às demandas impostas pelo mercado que exige cada vez mais indivíduos auto-suficientes, ou seja, a lógica do mercado é que define as interações sociais. Ainda nesse sentido, Carvalho (2003, p.96) nos apresenta a seguinte concepção: Na verdade, a inclusão escolar não é um processo em si mesmo, dissociado de outros, igualmente sociais. Para analisá-la, precisamos considerar os mecanismos excludentes que estão presentes na sociedade, segundo seus preconceitos e/ou o modelo de desenvolvimento econômico vigente no país. Avançando ainda mais, Goffredo (2001, p. 5) adianta que não basta apenas identificar os agentes segregadores, pois é nessa sociedade excludente que se deve lutar pela garantia e efetividade da inclusão dos marginalizados, pois: As pressões da sociedade por uma educação efetivamente democrática são essenciais na implementação de políticas e práticas de ensino que se traduzam na inclusão, na participação e na construção da cidadania. Precisamos, então, continuar na luta por uma educação de qualidade para todos, por uma escola pública que satisfaça as necessidades educacionais de todas as crianças. A nova proposta de Educação Inclusiva recomenda que todos os indivíduos portadores de 85 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto necessidades educativas especiais sejam matriculados em turma regular, o que se baseia no princípio de educação para todos. Frente a esse novo paradigma educativo, a escola deve ser definida como uma instituição social que tem por obrigação atender todas as crianças, sem exceção. A escola deve ser aberta, pluralista, democrática e de qualidade. Portanto, deve manter as suas portas abertas às pessoas com necessidades educativas especiais. A escola que desejamos para nossa sociedade deve conter, em seu projeto educativo, a idéia da unidade na diversidade. Não é possível a coexistência de democracia e segregação.17 A referida autora defende a idéia de que uma proposta de educação inclusiva não admite a segregação de estudantes deficientes em escolas especiais, constituindo verdadeiros guetos, mantendo-os assim longe dos olhos dos considerados estudantes normais. Quanto a esse ponto, penso ser importante desenvolver algumas considerações acerca da escola especial. Jannuzi, In: Costa (1995, p.74) também aponta a necessidade de se repensar a escola especial, considerando que: Aliás, seria necessário rever a função da escola especial. Enfim, o que está sendo esta educação especial afirmada como um momento intermediário para colocar o junto com os outros e só está perpetuando a separação, transmitindo muito pouco do saber sistematizado? Bueno, In: Costa (2005, p.74) apresenta considerações que se aproximam do pensamento de Jannuzzi, afirmando que: (...) estaremos contribuindo muito mais para a manutenção do processo de segregação do diferente, do que para a democratização do ensino, cujo caminho não pode se pautar na divisão abstrata entre os que, em si, têm condições de freqüentar a escola regular e os que, por características intrínsecas, devem ser encaminhados a processos especiais de ensino. Ou seja, as instituições especializadas afastam do convívio social os estudantes que não necessitam viver segregados pela sociedade por serem deficientes. Quanto a essa questão D’Antino, In: Costa (2005, p.74) esclarece que: 17 Grifo nosso. 86 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto (...) a função social dessas instituições percorre caminhos que parecem mais próximos de tornar distante o deficiente da comunidade em que vive (pela forma segregada de funcionamento institucional) do que efetivamente o de inseri-lo no espaço social. Ainda, seguindo essa linha de raciocínio, Bueno, In: Costa (2005, p.75), reafirma o pensamento de D’Antino, esclarecendo assim: (...) a educação especial que nasce sob a bandeira da ampliação de oportunidades educacionais aos que fogem da normalidade, uma vez que não desvela os determinantes sócio-econômicos-culturais que subjazem às dificuldades de integração do diferente, na escola e na sociedade, serve de instrumento para a legitimação de sua segregação. E, acrescenta mais: Por fim, a educação especial, para se integrar, de fato, ao movimento de democratização da escola no Brasil, que incorpore a criação de condições efetivas de escolarização daqueles que possuem características próprias que interferem em seu processo de aprendizagem, não pode manter seu papel de suporte dos rejeitados da escola regular como uma instância isolada que se volta unicamente para as manifestações peculiares geradas por suas diferenças pessoais. Ao mesmo tempo, é preciso se integrar na luta pela extensão e qualificação da escola pública, única forma para se encaminhar, de fato, o problema do acesso ao conhecimento daquela parcela que, em razão de uma política que, embora sustentada por um discurso democratizante, tem concretamente obstaculizado esse acesso aos membros das camadas populares, quer sejam eles normais ou excepcionais. (Bueno, In: Costa, 2005, p. 75) Nesse contexto, Costa (2005, p.26) apresenta suas reflexões acerca das instituições especializadas em educação especial, afirmando que: Para os indivíduos considerados deficientes, a sociedade encarregou-se de criar instituições de educação especial, que cumprem um papel muito curioso, no mínimo contraditório. Criadas para integrar e normalizar, elas servem, também, para retirar os deficientes dos meios normais de ensino, afastando-os do contexto geral da educação e da sociedade, explicando, dessa maneira, a não-participação social dos deficientes. 87 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto A afirmativa da referida autora nos leva a considerar qual será, portanto, o verdadeiro papel das escolas especiais? O que penso é que a sua existência mantém ainda a dicotomia da escola, uma vez que os que não podem estar na escola regular, se insulam naquela que lhes foi e o é ainda possibilitada, a que está à margem, a “outra” escola, a especial. E, Costa (2005, p. 26) ainda acrescenta: Sob a justificativa das necessidades especiais dos indivíduos, a instituição, na pessoa de seus profissionais, os rotula, os marca, por intermédio das classificações e os insere entre os muros institucionais. Nesses termos, as instituições destinadas ao atendimento de indivíduos com deficiência cumprem um único papel: excluem de maneira particular essa população. Com base na afirmação de Costa, ratificamos nossa hipótese inicial: a de que a escola especial acaba por se constituir em refúgio para os que não são tolerados, os anormais, os diferentes. O agora desgastado argumento que tenta justificar a sua existência, o de que a escola especial existiria para atender aos casos de deficiência múltipla e outros com grande comprometimento dos estudantes, acaba por se tornar o mote para a sobrevivência dessa instância que reafirma a exclusão. Em relação ao papel desempenhado por essas instituições, D’Antino, In: Costa (2005, p. 27) acrescenta: Ingênuo pensar que o marcante paternalismo explícito dessas instituições não fosse como opróprio espelho refletor de uma sociedade marcada, também, por forte caráter paternalista. Valores, altamente marcados pela ambivalência e pela ambigüidade, como fraternidade, solidariedade, benemerência, paternalismo e assistencialismo foram cultivados nesses grupos, os quais geram um estilo institucional próprio e específico e que parece permanecer intacto, resistindo ao tempo. Ou seja, a escola especial usa o assistencialismo como fundamento para sua sobrevivência, criando assim uma conspiração social, levando à falsa crença que ela seria o ambiente mais favorável para a escolarização dos estudantes deficientes. 88 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Frente ao exposto, a conclusão que apresento sobre a escola especial, após todas as considerações apresentadas, está de acordo com a visão de Costa (2005, p. 79): As instituições ou escolas especializadas tornaram-se estabelecimentos destinados ao tratamento médico-pedagógico dos deficientes, com ênfase na classificação e nos graus de deficiência, deixando de lado os aspectos ligados diretamente ao ensino e a aprendizagem, legitimando a diferença como sinônimo de desigualdade, aprisionando, e mais, como se a liberdade fosse incompatível com a condição de indivíduos com deficiência. Esses estabelecimentos, sem dúvida, são representantes legítimos da barbárie. E penso que para se contrapor à barbárie é necessária a reflexão e auto-reflexão crítica, base de minha proposta de formação de professores. A auto-reflexão torna-se elemento indispensável para o esclarecimento dos dominados (os deficientes) e dominadores (todos que reproduzem a lógica de controle e exclusão social). Portanto, segundo Costa (2005, p. 79): A área de educação dos deficientes, para se contrapor aos até então modelos existentes baseados na rotulação, no patológico e no clínico, ou seja, em modelos nem neutros nem arbitrários, precisa se transformar em uma área pedagógico-educacional e escolar a ser exercida, prioritariamente, pelos professores de maneira democrática, política, reflexiva, crítica, transformadora e no mesmo espaço escolar para todos.18 Portanto, é na diversidade que devemos educar, admitindo e acolhendo as diferenças que caracterizam as subjetividades, sem esquecermo-nos da condição de humanos que nos iguala. Segundo Mader, In: Goffredo (2001, p. 5): Um novo paradigma está nascendo, um paradigma que considera a diferença como algo inerente na relação entre os seres humanos. Cada vez mais a diversidade está sendo vista como algo natural. 18 Grifo nosso. 89 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Ou seja, o estar junto no cotidiano vai ensinando a todos o respeito às diferenças e a aceitação das limitações. Nessa perspectiva, Goffredo (2001, p. 5) destaca que: A escola deve promover o desenvolvimento físico, cognitivo, afetivo, moral e social dos alunos com necessidades educativas especiais, e ao mesmo tempo facilitar-lhes a integração na sociedade como membros ativos. Mas, para que isto aconteça, é importante que o indivíduo portador de necessidades educativas especiais seja visto como sujeito eficiente, capaz, produtivo e, principalmente, apto a aprender a aprender. A educação numa democracia é o principal meio de instrumentalização do indivíduo para o exercício de suas funções na sociedade. Logo, é de vital importância que as diretrizes norteadoras da política nacional de educação contemplem todos os alunos, sem exceção. Dialogando com Santos (2003, p. 79) observamos uma outra concepção de inclusão, mais generalista, que não atende somente estudantes deficientes. Dessa maneira: A educação encontra-se diante de um desafio: conseguir que todos os alunos tenham acesso à educação básica de qualidade por meio da inclusão escolar, respeitando as diferenças culturais, sociais e individuais, que podem configurar as necessidades educacionais especiais que todos podemos ter, em qualquer momento de nossas trajetórias escolares e que, dependendo de como sejam vistas pela instituição educacional e seu entorno, podem nos colocar em situações de desvantagem. Nessa perspectiva, a referida autora destaca a idéia de uma inclusão escolar que atenda todas as classes de excluídos e segregados. Comungo dessa mesma visão, uma vez que inclusão é por natureza etimológica para todos os excluídos, não cabendo a hierarquização ou fragmentação. Contudo, a inclusão escolar de deficientes apresenta questões objetivas que não podem ser negadas e demandam serem atendidas, como as adaptações curriculares, arquitetônicas e pedagógicas, mudanças organizacionais, de gestão, dentre outras. E, sobre as instituições que tenham uma orientação inclusiva, a mesma autora afirma que: (...) em se tratando do atendimento às necessidades de todo e qualquer aluno, as atitudes de uma instituição educacional inclusiva enfatizam uma postura não só dos educadores, mas de todo o sistema 90 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto educacional. Uma instituição educacional com orientação inclusiva é aquela que se preocupa com a modificação da estrutura, do funcionamento e da resposta educativa que se deve dar a todas as diferenças individuais, inclusive as associadas a alguma deficiência – em qualquer instituição de ensino, de qualquer nível educacional. (2003, p. 82) Ou seja, a reflexão ora apresentada revela que deve ser a escola, e todos os sujeitos que nela atuam, que devem preparar-se para atender a essa demanda humana. Ainda nesse sentido, Santos (2003, p.82) propõe que: Desse modo, assumindo funções sociais, culturais e políticas, a educação, na perspectiva da inclusão, não necessita modificar seus objetivos fundamentais, mas reorientar-se a partir dos mesmos; na busca da garantia das necessidades básicas essenciais ao desenvolvimento e aprendizagem e da construção do conhecimento deforma significativa, por meio das relações que estabelece com o meio. Promover a oportunidade de convívio com a diversidade e a singularidade, exercitando suas funções de forma aberta, flexível e acolhedora. O que é destacado por Santos é que uma educação com orientação inclusiva não significa uma mudança radical nos objetivos educacionais, e sim uma ressignificação dos mesmos, para assim acolher a diversidade humana dos estudantes, deficientes e não deficientes. Penso que com base nos aspectos históricos, legais e nas diversas concepções sobre o movimento escolar inclusivo de estudantes com necessidades educacionais especiais, apresentei elementos subsidiadores para a compreensão do contexto em que se insere a formação de professores e os desafios para a inclusão escolar. 2. FORMAÇÃO DE PROFESSORES E ESCOLA INCLUSIVA: A QUESTÃO DO PRECONCEITO Preconceito. Afinal, quem está imune a ele? Essa é uma questão necessária para ser discutida por quem deseja se contrapor à exclusão historicamente imposta aos indivíduos com deficiência, uma vez que o preconceito segrega, hierarquiza e classifica os indivíduos. 91 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Quanto ao preconceito, sua formação ocorre no processo de socialização dos indivíduos. A formação inicial dos professores, na maioria das vezes, nãocontemplou questões ligadas às necessidades especiais dos estudantes com deficiência, o que acaba por produzir a dificuldade em lidar com as diferenças desses na sala de aula, configurando assim mais um obstáculo em sua escolarização. A palavra diferença no dicionário Aurélio significa qualidade de diferente, falta de semelhança, desconformidade. Enquanto que a palavra preconceito significa uma opinião formada sem reflexão, um conceito antecipado, uma superstição. Sobre o significado que a diferença assume quando se aproxima do sentido de anormalidade, Amaral (1998, p. 15) acrescenta: Penso que se abstrairmos ou mesmo “desconstruirmos” a conotação pejorativa das palavras: significativamente diferente, divergente, desviante, anormal, deficientes, e pensarmos nos parâmetros que as produzem, poderemos nos debruçar sobre elas para melhor contextualizar os critérios empregados para sua eleição como designativas de algo ou alguém. Penso também que a partir da exploração e do questionamento desses parâmetros pode-se pensar a anormalidade de forma inovadora: não mais e somente como patologia – seja individual ou social – mas como expressão da diversidade da natureza e da condição humana, seja qual for o critério utilizado. O que a autora propõe é a reelaboração do conceito de diferença, não adotando francamente os valores sociais que são atribuídos a ela, mas refletindo sobre o próprio sentido do conceito, destacando que: Mas, embora presente no discurso oficial há algum tempo, essa visão “generosa” do trato com a deficiência encontra ainda muitos entraves (conscientes e inconscientes, admitidos ou inconfessos), por parte de muitos dos protagonistas individuais ou institucionais envolvidos nesse “drama”. E que entraves são esses? Sinteticamente pode-se dizer que, por um lado, são os próprios mitos que cercam a questão da deficiência (criados e perpetuados socialmente) e, por outro, as barreiras atitudinais (emanadas prioritariamente do âmbito intrapsíquico) – embora a separação entre ambos seja quase imperceptível. (p.16) 92 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Quanto às barreiras atitudinais, o preconceito aparece como um anteparo interposto nas relações, onde uma tem predisposição desfavorável em relação à outra, por essa ser significativamente diferente, como destacado por Amaral (1998, p. 17). Quanto ao preconceito, Crochík (1997, p.11) destaca que: Escrever sobre preconceito não é uma tarefa fácil, não só porque o tema é complexo, mas, principalmente porque o tema é complexo e nos obriga a refletir sobre nós mesmos, sobre nossos sentimentos, pensamentos e atos cotidianos, uma vez que não somos imunes a ele. E, é exatamente essa constatação que nos instiga a refletir sobre o preconceito. Temos realizado esforços no combate ao preconceito? Devemos pela reflexão crítica desenvolver a conscientização necessária no entendimento e combate do preconceito. E, Crochík (1997, p. 11) acrescenta: Para se estudar e entender o preconceito, é necessário recorrer a mais de uma área do saber. Embora esse seja um fenômeno também psicológico, aquilo que leva o indivíduo a ser ou não ser preconceituoso pode ser encontrado no seu processo de socialização, no qual se transforma e se forma como indivíduo. Ou seja, aquilo que permite ao indivíduo se constituir é também responsável por ele desenvolver ou não preconceitos. Ou seja, o referido autor destaca o processo de socialização como capaz de influenciar no desenvolvimento do preconceito nos indivíduos, pois “(...) não existe indivíduo sem cultura, mas a cultura pode facilitar ou dificultar o desenvolvimento do indivíduo” e “(...) as idéias sobre o objeto do preconceito não surgem do nada, mas da própria cultura”. (1997, p. 12 e 13). Ou seja, sem a experiência e sem reflexão sobre os objetos alvo do preconceito e na ausência da auto-reflexão a constituição do indivíduo é dificultada ou mesmo impedida, por ocorrer em sua ausência uma identificação cega com a cultura, caracterizando assim o preconceito, como destacado por Crochík. Crochík (1997, p. 12) ainda pondera sobre a identificação entre o objeto do preconceito e o preconceituoso: 93 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Isto mostra que o preconceito diz mais respeito às necessidades do preconceituoso do que às características de seus objetos, pois cada um destes é imaginariamente dotado de aspectos distintos daquilo que eles são. De outro lado, os conteúdos do preconceito em relação aos diversos objetos não são semelhantes entre si. Aquilo que o preconceituoso imaginariamente percebe como sendo o deficiente físico não é o mesmo que imagina ser o deficiente mental; o estereótipo sobre o negro de que se utiliza é distinto do estereótipo sobre o judeu. Ou seja, cada objeto suscita no preconceituoso afetos diversos relacionados a conteúdos psíquicos distintos. Quanto ao preconceito Crochík (1997, p. 12) destaca também que: O preconceito, ao mesmo tempo em que diz mais do preconceituoso do que do alvo do preconceito, não é totalmente independente deste último. Não se pode por isso estabelecer um conceito unitário de preconceito, pois este tem aspectos constantes, que dizem respeito a uma conduta rígida frente a diversos objetos, e aspectos variáveis, que remetem às necessidades específicas do preconceituoso, sendo representadas nos conteúdos distintos atribuídos aos objetos. Entretanto, o que estamos admitindo como conceituação do preconceito? Amaral (1998, p. 17) afirma tratar-se de: (...) um conceito que formamos aprioristicamente, anterior, portanto à nossa experiência. Dois são seus componentes básicos: uma atitude (predisposições psíquicas favoráveis ou desfavoráveis em relação a algo ou alguém – no caso aqui discutido, desfavorável por excelência) e o desconhecimento concreto e vivencial desse algo ou alguém, assim como de nossas próprias reações diante deles. Então, se não somos imunes ao preconceito, devemos empreender um movimento de resistência a ele, se primarmos pela busca da experiência entre diferentes subjetividades no movimento de inclusão escolar dos estudantes com necessidades educacionais especiais. Deveríamos nos reconhecer na humanidade dos nossos estudantes com deficiência, porque ela nos é comum. Entretanto, o que ocorre, é que características que nos individualizam como raça, sexo, deficiência, por exemplo, se apresentam para muitos como particularidades que acabam não somente por nos diferenciar, mas também por nos segregar, nos inferiorizar no contexto social, como destacado por Crochík (1997). 94 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Quanto a isso, Crochík (1997, pp. 13 e 23) ainda analisa que: Assim, à onipotência – manifestada ou velada – pela qual o preconceituoso julga-se superior o seu objeto, corresponde a impotência que sente para lidar com os sofrimentos provenientes da realidade. (...) Numa cultura que privilegia a força, o preconceito prepara a ação da exclusão do mais frágil por aqueles que não podem viver a sua própria fragilidade. E, sobre a manutenção dos preconceitos Crochík (1997, p. 31), prossegue: (...) uma sociedade que se sustenta pela ameaça da exclusão, ainda que velada, daqueles que não seguem os seus ditames, sem que estes correspondam às necessidades individuais racionais, e sem que lhes proporcione uma vida sem ameaças, gera continuamente a necessidade do estabelecimentode preconceitos como forma de defesa individual. E, ao relacionar preconceito à diferença Crochík (1997, p. 15), enfatiza que: (...) é preciso dizer que a diferença não é necessariamente fruto do preconceito, pois, quando ela é reconhecida como essência da humanidade, e não como exceção da regra, permite a própria elaboração do conceito. Crochík (1997, p. 15) prossegue, afirmando que “Se o preconceito não é inato, a criança pode, de fato, perceber que o outro é diferente dela, sem que isso impeça o seu relacionamento com ele.” Ou seja, para a criança, que não está submetida totalmente a cultura por estar ainda se socializando, o preconceito não é inato, o que reforça a idéia de ser fruto do processo de socialização. Isso leva Crochík (1997, p. 16) que: Assim, na transmissão da cultura para as gerações mais jovens, já são transmitidos preconceitos: idéias que devem ser assumidas como próprias sem que se possam pensar na sua racionalidade e na conseqüente adesão ou não a elas. É importante enfatizar que a questão do objeto do preconceito está carregada de idéias que surgem da própria cultura. Como somos sujeitos que vivem em sociedade, a 95 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto cultura construída nas interações sociais pode facilitar ou dificultar o desenvolvimento do preconceito. O indivíduo é produto da cultura, mas pela sua singularidade pode se diferenciar dela. Quando o indivíduo não se diferencia por haver intensa identificação, torna-se seu reprodutor, como analisado por Crochík (1997). Por sua vez, Costa (2003, p. 30) apresenta elementos para entender o preconceito como construção social. Ela estabeleceu um elo de ligação entre o preconceito, o indivíduo deficiente e a cultura. Vejamos, então: Mas, ao acontecido em relação ao deficiente não é diferente. Para o sujeito deficiente a sociedade lhe atribuiu um empobrecimento generalizado, um impedimento ao esclarecimento que tende a reduzi-lo a uma alteridade, ao outro opaco, pois, no limite, na conduta preconceituosa, não há sujeitos verdadeiros, porque não há reflexão a permitir ao sujeito devolver ao objeto aquilo que dele recebeu. Ao refletir sobre a condição de ser deficiente, os atributos do sujeito como discernimento, escolha e decisão parecem estar fora de foco. Pois, se o sujeito é deficiente, torna-se reduzido a essa deficiência, isso é, impedido, segundo a percepção gélida da sociedade burguesa, de tornar-se e de exercer seu papel de indivíduo, tornando-se um sujeito ofuscado. Porém, essa ofuscação não é a resultante da deficiência e, sim, da gelidez do olhar atento do preconceituoso, fixo em um só ponto, no caso, a deficiência. Ou seja, a referida autora expressa que, no caso do preconceito, ante o deficiente, o preconceituoso tende a reduzir a condição humana, que é comum tanto a ele quanto ao objeto alvo do preconceito, e a generalizar a deficiência. Nesse sentido, o indivíduo deficiente é anulado, ofuscado em seu entendimento, reduzido à sua deficiência. É bárbaro e regressivo o olhar nesse sentido. E, como destaca Costa (2003), o empobrecimento de que é imbuído o deficiente é social, ou seja, o indivíduo que não pratica a auto-reflexão crítica se vê obrigado a compactuar com o ideário dominante, até para se sentir participante dessa sociedade. Crochík (1997, p. 13) afirma ainda em relação ao preconceito que: Como a experiência e a reflexão são as bases da constituição do indivíduo, em sua relação com a cultura, sua ausência caracteriza o preconceito. O agir sem reflexão, de forma aparentemente imediata perante alguém, marca o preconceito, que sendo, a priori, uma reação 96 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto congelada, assemelha-se à reação de paralisia momentânea que temos frente a um perigo real ou imaginário. Ou seja, o preconceito é produto do automatismo e da ausência de reflexão. Sem a reflexão crítica e a análise, o indivíduo torna-se mero reprodutor do ideário da sociedade burguesa de classes, tornado-se também parte de uma massa amorfa, como destacado por Adorno (1995), ou seja, agindo conforme o pensamento dominante. A dimensão psíquica por trás das atitudes preconceituosas revela que o sentimento de superioridade esconde uma fragilidade e um desconforto em saber lidar com o objeto alvo do preconceito, no nosso caso, os estudantes com deficiência. E, revelando mais sobre o preconceituoso do que o alvo do preconceito, observa-se uma dimensão psíquica que pode ser destacada na fala de Amaral (1998, p. 17): A atitude que subjaz ao preconceito baseia-se, por sua vez, em conteúdos emocionais: atração, amor, admiração, medo, raiva, repulsa. Os preconceitos, assim constituídos, são como filtros de nossa percepção, colorindo o olhar, modulando o ouvir, modelando o tocar – fazendo com que não percebamos a totalidade do que se encontra à nossa frente. Configuram uma predisposição perceptual. E, mais, Crochík (1997, P. 15) afirma que: Como o preconceito não é inato, nele está presente a interferência dos processos de socialização, que, como foi dito antes, obrigam o indivíduo a se modificar para se adaptar. E, nessa perspectiva destacam-se elementos para se refletir sobre o preconceito. O preconceito revela nossas tendências e preferências, portanto no campo do psiquismo, existe identificação entre o objeto alvo do preconceito e o preconceituoso. É possível afirmar que negamos no outro aquilo com que nos identificamos, ou seja, o que está reprimido no nosso íntimo. Negamos o outro na impossibilidade de enfrentar nossa fragilidade, e por isso temos que negá-la para não enfrentá-la. Assim, desenvolvem-se atitudes preconceituosas com diferentes manifestações. A maneira encontrada por muitos para não encarar essa fragilidade mediante algo que o fragiliza, é repudiar. Segregar, como muitos fazem. Daí, surgem os inóspitos que 97 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto tentam sufocar as minorias, sejam quais forem, que apresentem alguma diferença considerada marcante, se comparada aos grupos majoritários. Com relação aos deficientes, temos muitos exemplos na história que remetem a essa mesma questão. Assim, na transmissão da cultura para as gerações mais jovens, são transmitidos preconceitos, ou seja, idéias que devem ser assumidas como próprias sem que se possa pensar na sua racionalidade e na conseqüente adesão ou não a elas, como analisado por Crochík (1997, p. 16): Mais do que as diferenças individuais, o que leva o indivíduo a desenvolver preconceitos, ou não, é a possibilidade de ter experiências e refletir sobre si mesmo e sobre os outros nas relações sociais, facilitadas ou dificultadas pelas diversas instâncias sociais, presentes no processo de socialização. E nesse contexto, vale destacar a questão dos estereótipos, que não deve ser confundida com o preconceito, mas que representam um de seus elementos, assim destacados por Crochík (1997, p. 18): Os estereótipos são proporcionados pela cultura e se mostram propícios à estereotipia do pensamento do indivíduo preconceituoso, fortalecendo o preconceito e servindo para a sua justificativa, ou então são formados à base de mecanismos psíquicos que tentam perceber a realidade de forma primitiva, sendo estes mesmos mecanismos a base do pensamento estereotipado. (...) o estereótipo não se confundecom o preconceito, mas é um de seus elementos. Por outro lado, o preconceito voltado contra os indivíduos com deficiência pode assumir outra conotação, como a destacada por Costa (2003): Em relação à deficiência, verifica-se que o preconceito, na maioria das vezes, é baseado em atitude comiserativa, resultante do desconhecimento, esse podendo ser considerado a matéria-prima para a perpetuação das atitudes preconceituosas e das leituras estereotipadas da deficiência – seja esse desconhecimento relativo ao fato em si, às emoções geradas ou às reações subseqüentes. Assim, em relação à manifestação de preconceito Crochík (2003, p. 28), aponta elementos para a compreensão da barbárie posta em sua manifestação: 98 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Segundo Adorno et al. (1950), o preconceito é produzido nas relações entre ideologia e as necessidades psíquicas, tais como são delimitadas pela psicanálise e, segundo Horkheimer e Adorno (1985), pode surgir mesmo na ausência de contato com o seu alvo, ou seja, crenças e valores são relacionados com determinado objeto sem que haja contato com esse objeto. Esses autores alegam, por exemplo, que há anti- semitas, mesmo onde não há judeus. O preconceito, assim, teria um componente imaginário. E, ainda mais, Crochík (1997, pp. 18-19), afirma que: O preconceito diz respeito a um mecanismo desenvolvido pelo indivíduo para poder se defender de ameaças imaginárias, e assim é um falseamento da realidade, a qual o indivíduo foi impedido de enxergar e que contém elementos que ele gostaria de ter para si, mas se vê obrigado a não poder tê-los; quanto maior o desejo de poder se identificar com a pessoa vítima do preconceito, mais este tem de ser fortalecido. Já os estereótipos são produzidos e fomentados por uma cultura, que pede por definições precisas através de suas diversas agências: família, escola, meios de comunicação de massa, nas quais duvida, como inimiga da ação, deve ser eliminada do pensamento e a certeza, perante a eficácia da ação, deve tomar o lugar da verdade que aquela ação aponta: o controle, quer o da natureza, quer o dos homens, para melhor administrá-los. Mas, é o próprio Crochík (1997, p. 25), que nos aponta a possibilidade de superação do preconceito, destacando que: (...) o antídoto do preconceito está na possibilidade de experimentar, sem ter a necessidade de se prevenir da experiência pela ansiedade que ela acarreta, assim como na possibilidade de refletir sobre si mesmo nos juízos formados através da experiência. Dessa maneira, com relação à formação de professores podemos analisá-la com base nos elementos apresentados. A ausência de experiência no lidar com estudantes deficientes constitui em obstáculo para o enfrentamento do preconceito e dos sentimentos provocados por sua presença em nossas salas de aula. Muitas são as justificativas que permitem compreender a gênese do preconceito contra os estudantes deficientes: a carência de professores autônomos e capazes, portanto, 99 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto de encararem a fragilidade humana como constituinte de sua natureza; idéias equivocadas que foram constituídas pela cultura acerca da deficiência; experiências exitosas que são pouco difundidas, levando à vã crença de que deficiência e incapacidade de aprender são sinônimas; entre outras. Penso que para o enfrentamento desse entrave, considerado como um obstáculo significativo à organização de escolas inclusivas, é necessário empreender um movimento de reflexão e auto-reflexão por parte dos professores. Pela crítica é que iremos resistir à barbárie. Quanto a isso, Crochík acrescenta (1997, p. 21) que, “Em outras palavras, aprendemos a desenvolver um tipo de pensamento que exclui a reflexão sobre outras possibilidades de vida”. Amaral ainda reforça essa idéia (1998, p. 27) destacando que: A filósofa Agnes Heller já nos ensinou que a cotidianidade – entendida como uma não apropriação plena dos objetos e fatos que se apresentam – pode impregnar de tal forma nossa percepção do mundo que tornamos “natural” aquilo que é historicamente constituído. E, assim, deixamos de perceber as nuanças infinitas que colorem o dia-a- dia, o cotidiano propriamente dito, obscurecida a visão pela vitalidade da ideologia dominante. Concluindo, vale reafirmar que os professores não são imunes ao preconceito. Porém, com base na reflexão crítica, buscando o desenvolvimento da autonomia do pensar, da superação de modelos pedagógicos impositivos, portanto, ideológicos, é que eles poderão enfrentar, e, tomara, superar, esse sentimento que revela a condição ególatra humana, que, embora compreensível, não atende à demanda humana dos estudantes com deficiência, considerados socialmente diferentes, tornando possível, dessa maneira, a inclusão desses em uma mesma escola, pública, democrática e inclusiva, como afirmado por Costa (2005). 100 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto “Ele é mais que uma lenda” Figura 5 “(...) os profissionais da educação especial enfrentam o desafio de ‘ressignificar’ as questões marcadas pela excepcionalidade (...), redimensionando os papéis de professor (ensinante) e aluno (aprendente)” Neusa Hickel “Não apenas as pessoas deficientes, mas também aquelas que segregam, precisam de auto-reflexão” Valdelúcia Alves da Costa CAPÍTULO IV - DEFICIÊNCIA VISUAL, AUDITIVA E MENTAL: SEUS ASPECTOS EDUCACIONAIS Neste capítulo, penso ser importante destacar alguns aspectos referentes à deficiência, de maneira objetiva, uma vez que pensar em inclusão escolar de deficientes demanda conhecermos suas necessidades educacionais. Considerando que em meu locus de estudo foram identificados estudantes com deficiências visual, auditiva e mental (vide capítulo 5), penso que necessário se faz a promoção do debate dos aspectos educacionais referentes ao trabalho pedagógico possivelmente realizável junto a estes estudantes com necessidades especiais. Para tanto, com base em publicações da Secretaria de Educação Especial - SEESP, do Ministério da Educação - MEC (site: http://portal.mec.gov.br/seesp, consultado em janeiro de 2006), desenvolvo este capitulo. Utilizando o material didático do Programa de Capacitação de Recursos Humanos do Ensino Fundamental: Deficiência Múltipla (Vol. 1, MEC, SEESP, 2000) descrevo um 101 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto breve histórico sobre a deficiência e seu perpassar no tempo, aspecto fundamental para entendermos o contexto atual em que a mesma se insere. Isso posto, faço algumas considerações sobre as deficiências. Para a deficiência visual os textos escolhidos foram desenvolvidos em uma parceria MEC – IBC (Instituto Benjamim Constant), e se intitula Programa de Capacitação de Recursos Humanos do Ensino Fundamental: Deficiência Visual (vols. 1 e 2, MEC, SEESP, 2001). A escolha do material que subsidia o debate sobre os aspectos educacionais da educação de surdos se deu pelo Saberes e Práticas da Inclusão: Desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais de alunos surdos (MEC, SEESP, 2003). Sobre a deficiência mental, referenciando-me no material intitulado Educação Inclusiva: atendimento educacional especializadopara a deficiência mental (MEC, SEESP, 2005), apresento as considerações da obra, aqui relatadas de forma sucinta, de maneira que possibilite uma compreensão geral sobre a mesma. Sobre a escolha do material que fundamenta minhas argumentações, muitas são as pesquisas que balizam as discussões sobre essas deficiências. No entanto, como o objetivo de narrar sobre essas deficiências não encerrava o desejo de um aprofundamento sobre as mesmas, mas sim de entendimento sobre seus aspectos educacionais, isso me permitiu realizar tal escolha, inclusive me reservando o movimento de selecionar e adaptar os textos dessas obras em meu estudo. Portanto, penso que devido ao caráter de síntese dessas obras, sua riqueza bibliográfica e, principalmente, por ser um material produzido pela Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação destinado aos professores, ratifico que a escolha é pertinente. Breve histórico sobre a deficiência Inicialmente vale destacar que são muitos os eventos, as circunstâncias e os fatos históricos que têm influenciado a evolução no campo do estudo sobre as deficiências. Os registros históricos demonstram que forças políticas expressas em ações pessoais, grupais ou institucionais contribuíram significativamente para os avanços nesse campo nos últimos tempos. 102 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto O conceito de deficiência desenvolveu-se com a história, influenciado pelas diversas culturas que, a seu tempo, lhe destinaram natureza e significado diversos. Na atualidade, em âmbito internacional, o movimento da escola inclusiva ganhou força após a Declaração de Salamanca (1994), discutida anteriormente, que preconiza a escola para todos, sem discriminação, em ambiente acolhedor e inclusivo. O movimento atual desaconselha a segregação de estudantes deficientes em instituições especializadas e defende que o sistema educacional deve organizar-se de tal modo, que inclua e dê respostas educacionais adequadas a todos. O movimento da escola inclusiva preconiza, ainda, que a educação desses estudantes seja a mais acolhedora possível, isso é, que se utilizem recursos, programas, serviços e tecnologias disponíveis para todos que necessitarem, adaptando o currículo no caso de necessidade evidenciada pelo estudante. Essa postura foi adotada por quase cem países representados em Salamanca, na Espanha (1994), em Conferência Internacional apoiada pela UNESCO, que reflete a política que prioriza os direitos humanos, a igualdade de oportunidades para todas as pessoas e a participação efetiva dos deficientes, na condição de cidadãos, na sociedade em que vivem. Os princípios que norteiam a atual linha de ação prevalecem desde a conferência e serão básicos para a definição das políticas e das ações desse milênio. Certamente, constituirão parâmetros para a postura dos cidadãos quanto aos deficientes, vindo a influenciar as políticas governamentais, as ações sociais e as instituições que oferecem serviços educacionais a essa população específica. Esse é um novo capítulo da História. As diferenças, ao invés de discriminadas, passam a ser aceitas e respeitadas, sem que se almeje tornar ou tentar tornar alguém “normal”. Os sujeitos deficientes devem ser tratados como cidadãos, com direitos e deveres iguais. Os registros históricos, entretanto, revelam atitudes e ações muito distantes do pensamento atual. As pessoas com deficiência viveram situações desde o extremo de serem consideradas divinas e superiores, até situações de ameaça e consumação de morte. Patton, Payne & Beirne-Smith (1985), In: programa de Capacitação de Recursos Humanos do Ensino Fundamental: deficiência múltipla (vol. 1, Mec, SEESP, 2000), fizeram uma divisão do percurso histórico das deficiências na humanidade, desde a 103 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Antigüidade até nossos dias, focalizando mais detalhadamente a concepção de deficiência nos últimos duzentos anos, classificando-o em nove períodos representativos das diversas posturas e atitudes socioculturais prevalecentes em cada um deles. Embora a análise dos autores seja restrita ao contexto histórico da deficiência mental e às influências sócio-políticas que marcaram sua concepção, verifica-se que se aplicam às demais deficiências, uma vez que eram vistas como categorias “iguais”. Por isso, a análise dos autores será estendida às demais. Passamos então a considerar os períodos classificatórios de Patton, Payne & Beirne-Smith e sua caracterização: Antigüidade: até os anos 1700 As sociedades apresentavam atitudes e percepções variadas acerca das pessoas com deficiências, especialmente as com deficiência mental. Eram tratadas como demônios ou detentoras de dons, poderes ou revelações divinas. Os comportamentos sociais em relação a essas pessoas correspondiam, naturalmente, às visões prevalecentes em seu entendimento, ou seja, de medo, rejeição, respeito ou admiração. Durante a Renascença, a concepção predominante revelava um caráter mais aberto, natural e “científico”. As forças sociais dominantes baseavam seus pressupostos numa postura filosófica humanista que situava de modo mais favorável à visão corrente das pessoas deficientes. No período anterior a 1700, não se tem notícias de serviços de atendimento a essas pessoas. Se havia, tratava-se de locais para abrigo a oferecer cuidado e amparo, possivelmente em monastérios. Genericamente, não há evidência de programas sistemáticos de atendimento nesse período histórico. Emergência de um campo: 1700 – 1860 Esse período foi apoiado pelo humanismo renascentista. Esse movimento preconizava o valor das pessoas como seres humanos e seu direito à oportunidade de desenvolver o máximo de suas potencialidades. Prevalecia a idéia de que todos foram criados dentro do princípio de igualdade, com direito à liberdade e a uma vida feliz. Essa 104 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto forma de pensar, certamente influenciou a mudança de atitude com relação às pessoas deficientes. A defesa da igualdade de direitos não as excluía, o que gerou ações no sentido de lhes prestar assistência. O pensamento filosófico de Locke trouxe mudanças nas concepções pedagógicas da época que influenciaram, inevitavelmente, a visão dominante de deficiência mental. Para o filósofo, a experiência é a fonte do saber, ou seja, todas as idéias, conhecimentos e, até mesmo, o uso da razão, são construídos sobre os dados sensoriais. À educação caberia suprir as carências de conhecimentos e idéias nas pessoas, a serem adquiridos pelas vias e experiências sensoriais, de modo a atingir processos mais complexos do pensamento. O período foi marcado, também, pelas idéias de Rousseau (1712–1778), que se tornaram muito difundidas. De interesse para a educação especial, a teoria do bom selvagem, da qual Rousseau foi um grande expoente, pregava que “tudo o que provém da natureza é puro e imaculado, tudo que provém da sociedade é sujo e corrupto” (citado em Elkind, p. 48). Criticava os métodos e as finalidades educacionais e reconhecia a importância de ensinar o que é útil às crianças e não o que tem utilidade para os adultos. Defendia o princípio de ensinar o que os estudantes são capazes de aprender, o que é de utilidade e de interesse. Pode-se considerar que esse período alimentou certo entusiasmo no atendimento às pessoas deficientes. Os esforços foramsistematizados, sendo possível reconhecer o nascimento da educação especial na Europa, nos primórdios dos anos 1800. O campo da Educação Especial foi muito influenciado por Jean Marc Itard (1774– 1838), um médico interessado por pessoas com deficiência. Seu trabalho foi influenciado pelas idéias de Rousseau, com relação à persistência em utilizar a estimulação sensorial como forma de favorecer o desenvolvimento. Trabalhou na educação de surdos, na qual encontrou paralelos importantes entre “fonação e audição, linguagem e pensamento, percepção e abstração, cultura e inteligência, experiência e criação”, como descrito por Pessotti (1984, p. 30), In: Programa de Capacitação de Recursos Humanos do Ensino Fundamental: Deficiência múltipla (vol. 1, Mec, SEESP, 2000). O trabalho de Itard exerceu muita influência em pesquisadores talentosos e destacados que criaram um clima de otimismo e vieram a contribuir, de forma significativa, para o atendimento aos deficientes. Passou-se, então, a pensar que essas pessoas poderiam 105 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto ser tratadas, treinadas e reintegradas à comunidade como seres humanos produtivos. O otimismo foi exagerado para a época, como normalmente acontece com as novas idéias. Desilusão: 1860 - 1890 Esse período caracterizou-se por uma mudança de atitude quanto à possibilidade de integração (terminologia da época) da pessoa com deficiência na comunidade, gerando um clima de pessimismo. Os resultados obtidos com pessoas severamente comprometidas haviam sido parcialmente bem sucedidos, mas não chegavam à expectativa de “cura”, a despeito dos ganhos conquistados. Os esforços de atendimento não levaram à mudança suficiente que capacitasse a pessoa com deficiência para a esperada integração e participação, no nível das expectativas do grupo social a que pertenciam. A desilusão que marcou esse período deveu-se aos seguintes motivos: a limitação dos resultados obtidos com os severamente comprometidos, não alcançando a esperada “cura” de suas deficiências ou sua total integração como membros “normais” da sociedade; a integração social e comunitária não era um objetivo previsto nos tratamentos realizados na primeira parte dos anos 1800, que priorizavam as metas de treinamento basicamente voltadas para o desenvolvimento da pessoa; após a fase de esperança e excitação da primeira metade dos anos 1800, sucedeu-se um período em que os atendimentos sistemáticos e intensivos para pessoas severamente comprometidas foram-se diluindo e um número crescente de instituições foram criadas e os avanços que acompanharam a sociedade mais desenvolvida e complexa, urbanizada e industrializada, ressaltaram e acentuaram as diferenças entre os deficientes e os outros membros da sociedade. O século XIX caracterizou-se por um retorno às idéias de proteção e custódia, abandonando as concepções recém-conquistadas dos programas de treinamento, visando ao retorno à vida comunitária. Sucedeu uma mudança nas atitudes sociais, enfraquecendo qualquer movimento favorável às necessidades dessas pessoas, consideradas agora, até mesmo como perigosas à sociedade. Como resultado, a segregação e a esterilização passaram a ser vistas como meios de controle para lidar com essa população específica, de modo a evitar a “proliferação”, na sociedade, de pessoas atingidas pela deficiência. 106 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Alguns fatores parecem ter contribuído significativamente para esse retrocesso, dentre os quais o movimento eugênico e o advento dos testes psicológicos. O pensamento difundido nesse período – de que os traços individuais eram herdados e que a evolução humana era baseada principalmente na transmissão genética – alimentou o movimento eugênico, segundo o qual a sociedade reduz o número de pessoas com deficiência pelo controle de natalidade. As expressões do medo configuravam-na como tendência inata, degenerescência, degradação, dentre outras. Esses obstáculos influenciaram para que ocorresse o arrefecimento das conquistas dos pioneiros dos anos 1800. A idéia de incurabilidade das deficiências enfraqueceu o entusiasmo e gerou novo retrocesso. Recuo: 1890 – 1925 Esse período ainda estava marcado pelo movimento eugênico, segundo o qual a sociedade deveria controlar o número de pessoas “fracas de espírito”, como eram conhecidos os deficientes mentais. Esse controle deveria ser feito por meio da seleção geracional e racial. Em reforço a essa posição, as idéias de sir Francis Galton, no livro Hereditary Genius, da época, defendem o controle genético das desordens mentais transmitidas pela hereditariedade. As descobertas de Mendel, acerca das leis da hereditariedade, vieram a reafirmar o pensamento de Galton acerca das implicações genéticas das deficiências mentais. Os estudos clássicos sobre diversas gerações de uma mesma família que apresentavam retardo mental, realizados por Goddard em 1912, também deram incremento a essas concepções, de tal modo que, no início do século XX, alguns países decretaram leis para a esterilização de pessoas com deficiência, a exemplo de vários estados americanos. Os testes de inteligência, também tiveram efeito no retrocesso para a integração de pessoas com deficiências, porque foram utilizados para classificar os deficientes mentais. O mal uso de seus resultados justificaram a exclusão escolar e social de muitas pessoas. Em 1816, nos Estados Unidos, foram criadas classes especiais para os que apresentavam baixos resultados nos testes de inteligência. Para agravar a situação, associava-se, naquele período, deficiência mental com delinqüência, e inadaptação social com doença. 107 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Movimento gradual: 1925 – 1950 O final da Primeira Guerra Mundial provocou a necessidade da criação de serviços de reabilitação para atender aos soldados que retornavam dos conflitos apresentando graves deficiências e reivindicando atendimento. Os serviços criados para atender a essa demanda provocaram a necessidade de atender a outras pessoas, igualmente atingidas, que não tiveram a origem de suas deficiências na guerra. Em função dessa nova visão, foram criados serviços para crianças com deficiências e uma perspectiva de educação especial tomou lugar em muitas partes do mundo, durante esse período. A ciência genética, a partir daí, alcançou mais desenvolvimento e precisão. As influências ambientais ganharam força na concepção da deficiência mental, quando outros fatores etiológicos não hereditários passaram, também, a ser identificados como causadores de deficiência mental. Entre eles destacam-se as infecções, traumatismos e problemas endócrinos. Embora a dimensão orgânica tivesse prevalência, a concepção genética perdeu força, como etiologia única de deficiência mental, com os avanços da ciência. Na década de 30, alguns movimentos de direitos humanos provocaram novas atitudes de apoio às pessoas com deficiência, reforçando a tese de responsabilidade social em relação a elas. O advento da Segunda Guerra Mundial reviveu a necessidade de apoio aos egressos das batalhas, afetados por diversas deficiências. Novas providências foram tomadas. Essas influências, nascidas em países mais desenvolvidos, foram sendo gradativamente incorporadas a outros, a exemplo do Brasil. Algumas descobertas científicas no campo das ciências sociais e fisiológicas contribuírampara novas concepções de deficiência. A influência de fatores ambientais na etiologia da deficiência enfraqueceu a ênfase hereditária e orgânica, atenuando as visões fatalistas, predominantes à época. Redespertamento: 1950 – 1960 Esse período revelou um clima de maior aceitação das pessoas com deficiência. Ampliou o interesse pelo seu atendimento, sobretudo nos países mais desenvolvidos. A pressão exercida pelas famílias, o interesse e otimismo de profissionais da área somaram-se 108 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto ao envolvimento estatal e de organizações privadas, dando novo impulso a essa fase de progresso. Ainda assim, as pessoas com deficiência eram institucionalizadas em larga escala e muitas foram submetidas à esterilização e os sentimentos de medo e rejeição foram dando lugar à atitude de tolerância e compaixão, como ainda se pode observar na sociedade atual. Os serviços educacionais, não eram destinados a todos. As pessoas que apresentavam múltipla deficiência ou limitações mais graves eram excluídas dos programas educacionais. Infelizmente, essa situação se mantém na maioria dos estados brasileiros, mesmo ainda em nossos dias. Começamos a assumir, na década de 50, a educação especial em âmbito nacional por meio de campanhas. Ilustram essa fase a Campanha para a Educação do Surdo Brasileiro (1957), a Campanha Nacional de Educação e Reabilitação de Deficientes da Visão (1958), e a Campanha Nacional de Educação e Reabilitação de Deficientes Mentais (1960). Notoriedade: 1960 – 1970 O movimento dos direitos humanos, nos países desenvolvidos e sua influência sobre os demais, favoreceram as pessoas com deficiência. Pesquisas multidisciplinares foram realizadas, contribuído para o entendimento das diversas deficiências. Nos Estados Unidos, as comprovações dos bons resultados dos programas de intervenção precoce deram impulso a essas iniciativas. Os programas preveniam os efeitos adversos das deficiências e de suas desvantagens sociais e culturais. Reviveu-se o otimismo naquele país e naqueles que absorviam sua influência. Os Países Escandinavos, já na década de 50, preconizavam o princípio de normalização. Segundo esse princípio, as pessoas com deficiência devem ter condições de vida o mais próximo possível das normas e padrões destinados aos demais membros da sociedade. Época de litígio: 1970 – 1980 Os anos 70 vieram a confirmar as conquistas anteriores na área das deficiências e buscaram consolidar o movimento dos direitos humanos. Nos Estados Unidos, a legislação 109 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto garantia atendimento educacional, irrestritamente, para os deficientes, sobretudo os mais comprometidos. Nesse período, as famílias desse país descobriram os recursos judiciais como um meio de fazer valer os direitos de seus filhos a um adequado atendimento educacional. A sociedade brasileira tornou-se mais receptiva e sofreu significativa influência acerca dos direitos humanos. Nesse período, os estados brasileiros mais desenvolvidos contavam com legislações locais que recomendavam o atendimento educacional especializado. Ação e reação: 1980 até o presente Os últimos anos têm sido de avanço na educação especial. Procura-se definir políticas adequadas e prover serviços de atendimento para as pessoas com deficiências, na maioria dos países desenvolvidos e em desenvolvimento. No Brasil, os dispositivos legais constituídos para o atendimento da demanda dos deficientes, como a educação e o trabalho coadunam com esse movimento. No final da década de 80, uma lei federal determinou a matrícula compulsória dos estudantes deficientes nos sistemas educacionais, indistintamente (Lei nº. 7.853/1989), embora seu cumprimento não tenha se efetivado em âmbito nacional, principalmente no que toca às pessoas com deficiências múltiplas e severas. O movimento atual brasileiro focaliza a expansão das ofertas de atendimento educacional, que ainda estão aquém da demanda, principalmente no interior do país. Enfatiza, também, a melhoria de sua qualidade, adotando uma constante avaliação das ações realizadas em âmbito nacional. Isso posto, penso que está caracterizado que embora ainda existam muitos obstáculos à inclusão escolar dos considerados diferentes, os deficientes, muito já se avançou no que tange à sua compreensão e representação social. E, é essa leitura do avanço que me permite pensar e defender a idéia da inclusão escolar de deficientes, pela democratização escolar e social. É perceptível na historicização aqui descrita, que a educação de deficientes apresentou, até mais recorrentemente, um caráter clínico. O enfoque pedagógico é um movimento mais recente. 110 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Assim, apresento a seguir linhas gerais de atuação pedagógica com deficientes visuais, auditivos e mentais, incluídos na escola estudada. * Deficiência visual A educação de deficientes visuais: suas construções históricas As preocupações de cunho educacional em relação às pessoas cegas, surgiram no século XVI, com Girolínia Cardono – médico italiano – que testou a possibilidade de algum aprendizado de leitura através do tato. Peter Pontamus, Fleming (cego) e o padre Lara Terzi escreveram os primeiros livros sobre a educação das pessoas cegas. A partir de então, as idéias difundidas vão ganhando força até que, no século XVIII, 1784, surge em Paris, criada por Valentin Haüy, a primeira escola para cegos, o Instituto Real dos Jovens Cegos. Nela Haüy exercita sua invenção – um sistema de leitura em alto relevo com letras em caracteres comuns. No século XIX, proliferaram na Europa e nos Estados Unidos escolas com a mesma proposta educacional. Um novo sistema com caracteres em relevo para escrita e leitura de cegos é desenvolvido por Louis Braille e tornado público em 1825 – o Sistema Braille. Assim, o processo de ensino-aprendizagem das pessoas cegas deslancha, possibilitando- lhes maior participação social. A repercussão do sucesso das novas técnicas e métodos e a credibilidade na capacidade das pessoas cegas chegam ao Brasil, encarnadas em José Álvares de Azevedo ao regressar de seus estudos em Paris, no Instituto Real dos Jovens Cegos. Ele ensinaria o Sistema Braille à Adèle Sigaud, filha cega do Dr. Xavier Sigaud, médico do Paço, e logo Adèle é levada à presença de D. Pedro II pelo Dr. Sigaud e pelo Barão do Bom Retiro para apresentar suas idéias de construção no Brasil de um colégio onde as pessoas cegas pudessem estudar. A concretização desse ideal se consubstanciou na criação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos a 17 de setembro 1854, hoje Instituto Benjamin Constant. O Instituto Benjamin Constant (IBC) foi o primeiro educandário para cegos na América Latina e é a única Instituição Federal de ensino destinada a promover a educação das pessoas cegas e de baixa visão no Brasil. Além de ter criado a primeira Imprensa Braile 111 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto do País (1926), tem-se dedicado à capacitação de recursos humanos, à publicações científicas e à inserção de pessoas deficientes visuais no mercado de trabalho. Um grande marco na história da educação de pessoas cegas foi a criação, em 1946, da Fundação para o Livro do Cego no Brasil, hoje denominada Fundação Dorina Nowillpara cegos que, com o objetivo original de divulgar livros do Sistema Braille, alargou sua área de atuação, apresentando-se como pioneira na defesa do ensino integrado, prestando relevantes serviços na capacitação de recursos humanos e de práticas pedagógicas. Já em 1950, na cidade de São Paulo e, em 1957, na cidade do Rio de Janeiro foram inauguradas escolas comuns, pertencentes à Rede Regular de Ensino, o ensino integrado. A partir de então, em inúmeras regiões do Brasil a oportunidade de educar pessoas com deficiência visual é oferecida em salas de recursos, salas especiais e mais recentemente nos Centros de Apoio Pedagógico. Na década de 80 e 90, com o avanço científico, foram criados nas Universidades os cursos para capacitação de professores e a criação de Centros de Atendimentos com Núcleos de Estudos, tais como na UNESP/Marília, UNICAMP/SP, USP, SANTA CASA/ SP, UERJ/RJ e UFF/RJ. Nesse mesmo período surgem as Associações de Pais, Deficientes e Amigos como Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual/LARAMARA, de São Paulo e outras que além de advogar o direito de cidadania, têm lutado pela melhoria de vida e qualidade na educação de pessoas com deficiência visual. A sociedade dá indícios de que precisa se preparar para atender às necessidades de seus membros. O modelo social da deficiência se fortalece como processo bilateral no qual, na conjugação de esforços, pessoas e sistemas sociais se reestruturam, simultaneamente, com vistas à edificação de uma sociedade para todos. Compreendendo a deficiência visual Baixa visão é a alteração da capacidade funcional da visão, decorrente de inúmeros fatores isolados ou associados tais como baixa acuidade visual significativa, redução importante do campo visual, alterações corticais e/ou de sensibilidade aos contrastes que interferem ou limitam o desempenho visual do indivíduo. A perda da função visual pode 112 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto ser em nível severo, moderado ou leve, podendo ser influenciada também por fatores ambientais inadequados. Quanto à cegueira, refere-se à perda total da visão até a ausência de projeção de luz. Do ponto de vista educacional, deve-se evitar o conceito de cegueira legal (acuidade visual igual ou menor que 20/200 ou campo visual inferior a 20° no menor olho), utilizada apenas para fins sociais, pois não revelam o potencial visual útil para execução de tarefas. A comprovação de que portadores do mesmo grau de acuidade apresentam níveis diferentes de desempenho visual e a necessidade de relacionar a utilização máxima da visão residual com o potencial de aprendizagem da criança, levou as Dras. Faye e Barraga a enfatizarem a necessidade de uma avaliação funcional, pela observação criteriosa da capacidade e desempenho visual da criança. Sob esse aspecto e, portanto, para fins educacionais, são por elas considerados: Pessoas com baixa visão – aquelas que apresentam “desde condições de indicar projeção de luz até o grau em que a redução da acuidade visual interfere ou limita seu desempenho”. Seu processo educativo se desenvolverá, principalmente, por meios visuais, ainda que com a utilização de recursos específicos. Cegas – pessoas que apresentam “desde ausência total de visão até a perda da projeção de luz”. O processo de aprendizagem se fará através dos sentidos remanescentes (tato, audição, olfato, paladar), utilizando o Sistema Braille, como principal meio de comunicação escrita. Incidência, causas e formas de prevenção da deficiência visual Dados da Organização Mundial de Saúde revelam a existência de aproximadamente 40 milhões de pessoas deficientes visuais no mundo, dos quais 75% são provenientes de regiões consideradas em desenvolvimento. O Brasil, segundo essa mesma fonte, deve apresentar taxa de incidência de deficiência visual entre 1,0 a 1,5% da população. Sendo a estimativa da cegueira infantil de uma entre 3.000 crianças e de uma entre 500 crianças para a baixa visão. Observando-se que essa corresponde a 80% dos casos e a 20% de pessoas totalmente cegas. 113 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto A escolarização do estudante com deficiência visual As crianças desde o nascimento têm as mais diversas experiências que as levam às aqüisições, relacionamento com a figura materna e com outros familiares, adquirindo a segurança para a satisfação de suas necessidades básicas. Por meio dessas relações, as crianças entram em contato com o mundo, formando conceitos, estabelecendo relações, desenvolvendo a linguagem, a compreensão de símbolos, dando início ao período de alfabetização. O desenvolvimento da criança cega sofre interferência da perda visual, acarretando dificuldades para a compreensão e organização do meio. Observa-se a necessidade de estimulação permanente, dentro das possibilidades da faixa etária, a fim de que alcance progresso em todas suas potencialidades. Crianças com perda visual severa podem apresentar ainda atraso no desenvolvimento global. Isso se deve em grande parte à dificuldade de interação, apreensão, exploração e domínio do meio físico. Essas experiências significativas são responsáveis pela decodificação e interpretação do mundo pelas vias sensoriais remanescentes (táteis, auditivas, olfativas e gustativas). A falta dessas experiências pode prejudicar a compreensão das relações espaciais, temporais e a aquisição de conceitos necessários ao processo de alfabetização. De igual relevância são os aspectos de orientação e mobilidade e de relacionamento social. Também não se deve esquecer o desenvolvimento da consciência corporal, coordenando e dissociando movimentos e orientação no espaço. O sucesso escolar da criança vai depender de uma série de fatores, independentemente da idade em que comece a freqüentar a escola e do tipo de programa no qual esteja matriculada. Toda criança precisará de certas atitudes, maneiras de trabalhar, capacidades e habilidades. Entre essas, destacam-se escutar atentamente; seguir instruções e ordens, entender palavras que designam localização e direção; movimentar-se independentemente pela escola; trabalhar da esquerda para direita; saber o que é semelhante e diferente, no que diz respeito a sons, formatos e texturas; usar significativamente as 114 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto palavras; cuidar de si mesma; usar bem a musculatura fina; usar a visão residual (exclusivo para pessoas com baixa visão). Também são muito importantes as atitudes emocionais e sociais. Entre essas, estar motivado para o trabalho; gostar das coisas que está fazendo; trabalhar com outras pessoas; trabalhar individualmente; desempenhar tarefas por período de tempo crescente; tentar novas experiências. As crianças que conseguirem adquirir as atitudes, capacidades e habilidades mencionadas, terão mais facilidades para um bom e completo envolvimento na vida escolar. O professor deve ajudar a criança a lidar com frustrações e motivá-la a investigar, pesquisar, construir novos significados, reforçando sua identidade e constituindo a base da futura aprendizagem. Cabe ao professor a análise, organização e sistematização de atividades pedagógicas específicas, necessárias ao desenvolvimento integral do estudante, como também propor e adaptar atividades lúdicas, prazerosas e situações de interação, socialização e participação coletiva com os demais colegas da escola.A inclusão do estudante com deficiência visual no ensino regular Atendendo aos princípios da educação inclusiva, as classes comuns do ensino regular constituem espaço privilegiado para a educação desses estudantes. Desde a educação infantil, providências devem ser tomadas para que os estudantes com deficiência visual tenham acesso à rede regular de ensino, beneficiando-se das orientações comuns aos demais, bem como de ações pedagógicas específicas e sistemas de apoio sempre que necessários, de modo a assegurar seu êxito escolar. Segundo as Diretrizes Nacionais da Educação Especial na Educação Básica, presentes na Resolução n.º 2/2001-CNE-CEB, “Extraordinariamente, os serviços de educação especial podem ser oferecidos em classes especiais, escolas especiais, classes hospitalares e em ambientes domiciliar” (p. 35). Na impossibilidade de promover a inclusão escolar dos estudantes com deficiência visual nas classes comuns do ensino regular, as seguintes alternativas poderão ser utilizadas, como classe comum com apoio de serviços especializados; sala de recursos na rede regular de ensino; ensino itinerante; classe especial 115 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto na rede regular de ensino; escola ou centro de educação especial; classe hospitalar; atendimento domiciliar, dentre outras. A escolha da melhor alternativa de atendimento educacional deve levar em conta o grau de deficiência e as potencialidades de cada estudante; a idade cronológica; o histórico de seu desenvolvimento escolar; a disponibilidade de recursos humanos e materiais existentes na comunidade; as condições socioeconômicas e culturais da região. O atendimento do estudante com deficiência visual conta, ainda, com os Centros de Apoio Pedagógico para Atendimento às Pessoas com Deficiência Visual - CAP, existentes nas Unidades Federadas. A realidade brasileira, no momento em que experimenta a transição para o processo inclusivo, tem revelado que a educação do estudante com deficiência visual ocorre predominante mediante o processo de integração. Isso é, na realidade o que se tem observado no Brasil, de um modo geral, é que os estudantes com deficiência visual são inicialmente alfabetizados em classes ou escolas especiais e só após esse processo, são matriculados em classes comuns do ensino regular e, no outro turno, freqüentam salas de recursos, onde continuam a receber atendimento especializado. Para eles e para os professores do ensino regular, a Educação Especial oferece os serviços do professor itinerante. O atendimento aos deficientes visuais, em alguns Estados brasileiros, também ocorre em escolas especializadas e em classes especiais das escolas públicas até a conclusão, pelo estudante cego, de seu processo de alfabetização. Embora a inclusão na rede regular de ensino seja o eixo orientador do atendimento educacional, ainda não foi possível atingir o nível considerado satisfatório, por uma série de fatores. Entre eles, vale ressaltar a falta de sensibilização da comunidade escolar; o desconhecimento dos professores acerca da educação especial; a insuficiência e a inadequação de recursos instrucionais e pedagógicos; a inadequação da rede física e de equipamentos pedagógicos, adequados às necessidades dos estudantes com deficiências. A classe comum e o papel do professor frente ao estudante com deficiência visual 116 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto No caso específico do estudante com deficiência visual, entende-se que a inclusão nas classes comuns no sistema regular de ensino deve ser um processo preferencial, com possibilidade de progresso, êxito e condições de desenvolvimento e aprendizagem. A inclusão do estudante com deficiência visual em classe comum não acontece como um passe de mágica. É algo que tem de ser feito com muito estudo, trabalho e dedicação de todas as pessoas envolvidas no processo. Para a inclusão do estudante com deficiência visual em classe comum, é recomendado que a escola se estruture quanto aos recursos humanos, físicos e materiais; a inclusão aconteça desde a educação infantil; a escola tenha conhecimento da sua forma de comunicação escrita e a orientação básica no relacionamento com as pessoas deficientes visuais; a escola organize a classe comum de forma que possa reduzir o número de estudantes da turma; sua idade cronológica seja compatível com a média do grupo da classe comum que irá freqüentar; a escola comum mantenha um trabalho sistemático visando a participação da família no processo educacional de seus filhos. Orientação ao professor de estudantes com deficiência visual no ensino regular O estudante com deficiência visual deve freqüentar a classe comum do ensino regular, porque é um cidadão com os mesmos direitos que outro estudante e porque ele precisa conhecer o ambiente social dos que têm visão e com quem ele conviverá sempre. A escola, ao elaborar seu Projeto Político Pedagógico, deverá prever cursos de capacitação de professores, assessorias e encontros da equipe pedagógica com professores ou instituições especializadas no processo ensino–aprendizagem do estudante com deficiência visual. A escola regular será para esse estudante um estímulo para a aquisição de comportamentos, atitudes e habilidades semelhantes aos colegas não deficientes, mais socialmente aceitos. Mesmo considerando as limitações visuais, é preciso lembrar que o estudante com deficiência visual compreenderá o que lhe disser, pois a deficiência visual não implica em comprometimento mental. Portanto, o professor poderá facilitar sua educação por meio das seguintes medidas: aceite-o bem, não o rejeite; trate-o como qualquer um de seus estudantes, sem fazer discriminação ou distinção; prepare os colegas para recebê-lo e estimule-os a se 117 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto relacionarem com ele; diga o nome do estudante deficiente visual sempre que desejar sua participação; identifique-se sempre que começar a conversar com um deficiente visual; informe-o quando vai ausentar-se da classe e, quando for embora, despeça-se dele; quando escrever, leia e dê mais tempo para que possa tomar notas e acompanhar o raciocínio; sempre que dispuser de modelos, objetos, mapas em relevo, figuras em três dimensões; faça-o observar pelo tato; não se esqueça de que são mais lentas a leitura e a escrita do braile do que a escrita comum; quando se tratar de baixa visão, coloque-o nas primeiras filas, sem que receba luz de frente; quando se tratar de cego, coloque-o numa carteira das primeiras filas, de modo que fique bem à sua frente para ouvir-lhe; dentre outras. * Deficiência auditiva É comum ouvirmos falar na surdez ou na deficiência auditiva como uma diminuição na capacidade de ouvir de um indivíduo. Pois bem, para compreendermos melhor as conseqüências decorrentes da surdez é importante sabermos mais sobre o processamento normal da audição, que inclui o conhecimento das estruturas anatômicas do ouvido humano e de seu funcionamento. É por meio da audição que aprendemos a identificar e reconhecer os diferentes sons do ambiente. As informações trazidas pela audição, além de funcionarem como sinais de alerta, auxiliam o desenvolvimento da linguagem, possibilitando a comunicação oral com nossos semelhantes. A educação dos surdos: suas construções históricas Os pontos de vista sobre a surdez variam de acordo comas diferentes épocas e os grupos sociais no qual são produzidos. Essas representações darão origem a diferentes práticas sociais, que limitarão ou ampliarão o universo de possibilidades de exercício de cidadania das pessoas surdas. A história da educação de surdos é uma história repleta de controvérsias e descontinuidades. Como qualquer outro grupo minoritário, os surdos constituíram-se objeto de discriminação em relação à maioria ouvinte. 118 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Antes do século XIX, os surdos ocupavam papéis significativos. Sua educação realizava-se por meio de língua de sinais e a maioria dos seus professores eram surdos. No entanto, estudiosos, surdos e professores ouvintes, à época, divergiam quanto ao método mais indicado para ser adotado no ensino de surdos. Uns acreditavam que deveriam priorizar a língua falada, outros a língua de sinais e outros, ainda, o método combinado. Em 1880, no Congresso Mundial de Professores de Surdos (Milão-Itália) chegou- se à conclusão de que os surdos deveriam ser ensinados pelo método oral puro, sendo proibida a utilização da língua de sinais. A partir daí, a opressão de mais de um século a que os surdos foram submetidos, sendo proibidos de utilizar sua língua e obrigados a comportarem-se como os ouvintes, trouxe uma série de conseqüências sociais e educacionais negativas. Os estudos sobre a surdez e suas conseqüências lingüísticas e cognitivas continuaram a provocar controvérsias e, ainda hoje, esse tema é de grande interesse para todos os profissionais que buscam uma melhor qualidade na educação do estudante surdo. As mudanças de concepção dependem da forma de pensar e narrar a surdez e são elas múltiplas e variadas. Conhecendo a deficiência auditiva O conhecimento sobre as características da surdez permite àqueles que se relacionam ou que pretendem desenvolver algum tipo de trabalho pedagógico com pessoas surdas, a compreensão desse fenômeno, aumentando sua possibilidade de atender às necessidades especiais constatadas. Quanto ao período de aquisição, a surdez pode ser dividida em dois grandes grupos: congênitas, quando o indivíduo nasceu surdo. Nesse caso a surdez é pré-lingual, ou seja, ocorreu antes da aquisição da linguagem e adquirida, quando o indivíduo perde a audição no decorrer da sua vida. Nesse caso, a surdez poderá ser pré ou pós-lingual, dependendo da sua ocorrência ter se dado antes ou depois da aquisição da linguagem. O audiômetro é um instrumento utilizado para medir a sensibilidade auditiva de um indivíduo. O nível de intensidade sonora é medido em decibel (dB). Por meio desse instrumento, faz-se possível a realização de alguns testes, obtendo-se uma classificação da surdez quanto ao grau de comprometimento (grau e/ou intensidade da 119 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto perda auditiva), a qual está classificada em níveis, de acordo com a sensibilidade auditiva do indivíduo. Sendo a surdez uma privação sensorial que interfere diretamente na comunicação, alterando a qualidade da relação que o indivíduo estabelece com o meio, ela pode ter sérias implicações para o desenvolvimento de uma criança, conforme o grau da perda auditiva que as mesmas apresentem, como: Surdez leve – a criança é capaz de perceber os sons da fala; adquire e desenvolve a linguagem oral espontaneamente; o problema geralmente é tardiamente descoberto; dificilmente se coloca o aparelho de amplificação porque a audição é muito próxima do normal. Surdez moderada – a criança pode demorar um pouco para desenvolver a fala e linguagem; apresenta alterações articulatórias (trocas na fala) por não perceber todos os sons com clareza; tem dificuldade em perceber a fala em ambientes ruidosos; são crianças desatentas e com dificuldade no aprendizado da leitura e escrita. Surdez severa – a criança terá dificuldades em adquirir a fala e linguagem espontaneamente; poderá adquirir vocabulário do contexto familiar; existe a necessidade do uso de aparelho de amplificação e acompanhamento especializado. Surdez profunda – a criança dificilmente desenvolverá a linguagem oral espontaneamente; só responde auditivamente a sons muito intensos como bombas, trovão, motor de carro e avião; freqüentemente utiliza a leitura oro-facial; necessita fazer uso de aparelho de amplificação e/ou implante coclear, bem como de acompanhamento especializado. A linguagem e a surdez A linguagem permite ao homem estruturar seu pensamento, traduzir o que sente, registrar o que conhece e comunicar-se com outros homens. Ela marca o ingresso do homem na cultura, construindo-o como sujeito capaz de produzir transformações nunca antes imaginadas. 120 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Apesar da evidente importância do raciocínio lógico-matemático e dos sistemas de símbolos, a linguagem, tanto na forma verbal como em outras maneiras de comunicação, permanece como meio ideal para transmitir conceitos e sentimentos, além de fornecer elementos para expandir o conhecimento. A linguagem, prova clara da inteligência do homem, tem sido objeto de pesquisa e de discussões. Ela tem sido um campo fértil para estudos referentes à aptidão lingüística, tendo em vista a discussão sobre falhas decorrentes de danos cerebrais ou de distúrbios sensoriais, como a surdez. A palavra tem uma importância excepcional, no sentido de dar forma à atividade mental e é fator fundamental de formação da consciência. Ela é capaz de assegurar o processo de abstração e de generalização, além de ser veículo de transmissão do saber. Os indivíduos que ouvem parecem utilizar, em sua linguagem, os dois processos, ou seja, o verbal e o não verbal. A surdez congênita e pré-verbal pode bloquear o desenvolvimento a linguagem verbal, mas não impede o desenvolvimento dos processos não-verbais. A falta do intercâmbio auditivo-verbal traz para o surdo, prejuízos ao seu desenvolvimento. Pessoas surdas podem adquirir linguagem, comprovando assim seu potencial lingüístico. É comprovado cientificamente que o ser humano possui dois sistemas para a produção e reconhecimento da linguagem, o sistema sensorial, que faz uso da anatomia visual/auditiva e vocal (línguas orais) e o sistema motor, que faz uso da anatomia visual e da anatomia da mão e do braço (língua de sinais). Essa é considerada a língua natural dos surdos, emitida através de gestos e com estrutura sintática própria. Na aquisição da linguagem, as pessoas surdas utilizam o segundo sistema porque apresentam o primeiro sistema seriamente prejudicado. Várias pesquisas comprovaram que crianças surdas procuram criar e desenvolver alguma forma de linguagem, mesmo não sendo expostas à língua de sinais. Essas crianças desenvolvem espontaneamente um sistema de gesticulação manual que tem semelhança com outros sistemas desenvolvidos por outros surdos que nunca tiveram contato entre si e com as línguas de sinais já conhecidas. Há estudos que demonstram as características morfológicas desses sistemas como os realizados por Petitto & Marantette (1991), que identificaram inclusive que os balbucios observados em bebês 121 A formação de professores e os desafiospara a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto são resultantes da capacidade inata no homem e referentes ao desenvolvimento da linguagem, sendo comuns a surdos e ouvintes, inclusive manifestados por gestos. A capacidade de comunicação lingüística apresenta-se como um dos principais responsáveis pelo processo de desenvolvimento da criança surda em toda a sua potencialidade, para que possa desempenhar seu papel social e integrar-se verdadeiramente à sociedade. Entre os grandes desafios para pesquisadores e professores de surdos encontra-se o de explicar e superar as muitas dificuldades que esses apresentam no aprendizado e no uso de línguas orais, como é o caso da língua portuguesa. Sabe-se que, quanto mais cedo tenham sido privados de audição, e quanto mais significativo for o comprometimento, maiores serão as dificuldades. No que se refere à língua portuguesa, segundo Fernandes (1990), a maioria das pessoas surdas escolarizadas, continua demonstrando dificuldades tanto nos níveis fonológico e morfossintático, como nos níveis semântico e pragmático. É de fundamental importância que os efeitos da língua oral portuguesa sobre a cognição não sejam supervalorizados em relação ao desempenho do surdo, dificultando sua aprendizagem e diminuindo suas chances de integração plena. Faz-se necessária, por conseguinte, a utilização de alternativas de comunicação que possam propiciar um melhor intercâmbio, em todas as áreas, entre surdos e ouvintes. Essas alternativas devem basear-se na substituição da audição por outros canais, destacando a visão, o tato e movimento além do aproveitamento dos resíduos auditivos existentes. Face ao exposto, pode-se concluir que o estudante com surdez tem as mesmas possibilidades de desenvolvimento que a pessoa ouvinte, precisando, somente, que tenha suas necessidades especiais supridas, visto que o natural do homem é a linguagem. A surdez na perspectiva pedagógica e social A surdez é uma experiência que oportuniza aos surdos a possibilidade de constituir sua subjetividade por meio de experiências cognitivo-lingüísticas e visuais diversas, mediadas por formas alternativas de comunicação simbólica, que encontram na língua de sinais, seu principal meio de concretização. 122 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto A surdez é uma realidade heterogênea e multifacetada e cada sujeito surdo é único, pois sua identidade se constituirá vinculada às experiências sócio-culturais que compartilhará ao longo de sua vida em sociedade. Os surdos têm direito a uma educação bilíngüe, que priorize a língua de sinais como sua língua natural e primeira língua, bem como o aprendizado da língua portuguesa, como segunda língua. O desenvolvimento de uma educação bilíngüe de qualidade é fundamental ao exercício de sua cidadania, na qual o acesso aos conteúdos curriculares, leitura e escrita não dependam do domínio da oralidade. A língua portuguesa precisa ser viabilizada, tanto como linguagem dialógica/ funcional/ instrumental, quanto como uma área do conhecimento, ou seja, disciplina curricular. A presença de educadores surdos, é imprescindível no processo educacional, atuando como modelos de identificação lingüístico-cultural e exercendo funções e papéis significativos junto aos estudantes surdos. Essa compreensão diferenciada da surdez, que não estabelece limites para o sujeito que aprende, mas, sim, possibilidades de diversas elaborações, é relativamente nova para os professores. Parece incrível que apenas no terceiro milênio, as propostas educacionais estejam voltadas ao reconhecimento político e humano das diferenças relativas aos surdos e levem-nas em conta no momento de organizar os sistemas e na prática pedagógica. Atualmente, a Lingüística da Língua de Sinais é uma disciplina em expansão no mundo e estudos demonstram sua importância na constituição do indivíduo surdo. Os estudos até então desenvolvidos, como os de Chomsky (1995), com base nos realizados por Bellugi & Klima (1972), Siple (1978) e Lillo-Martin (1986), demonstram que as etapas de aquisição da língua de sinais são semelhantes àquelas apresentadas por crianças ouvintes com a língua oral, demonstrando as limitações generalizadas decorrentes do processo de desenvolvimento das crianças surdas, privadas dessa forma de linguagem. Diante disso, é impossível pensar em um projeto educacional de qualidade que não mantenha como premissas básicas a importância da Língua de Sinais e a atuação de surdos adultos, competentes lingüisticamente, como interlocutores no processo de aquisição 123 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto dessa Língua, contribuindo, significativamente, na formação da personalidade e no processo educacional das crianças surdas. A inclusão do estudante com deficiência auditiva no ensino regular A inclusão de estudantes surdos no contexto regular de ensino, impõe-nos desafios uma vez que, dada a diferença lingüística que lhes é peculiar, é complexo seu acesso aos conteúdos de ensino, de forma igualitária, em relação aos ouvintes, tendo em vista que, nesse contexto, a forma usual de comunicação é a língua oral, para a qual essa parcela de estudantes encontra mais dificuldade, devido ao impedimento auditivo. Além disso, a surdez não é uma realidade homogênea, mas multicultural, a depender do histórico de vida de cada estudante e das relações sociais que estabeleceu, desde o nascimento. A escola poderá se deparar com diferentes identidades surdas, como surdos que têm consciência de sua diferença e reivindicam recursos essencialmente visuais nas suas interações; surdos que nasceram ouvintes e, portanto, conheceram a experiência auditiva e o português como primeira língua; surdos que passaram por experiências educacionais oralistas e desconhecem a língua de sinais; surdos que viveram isolados de toda e qualquer referência identificatória e desconhecem sua situação de diferença, entre outras. Embora tenhamos hoje, nos grandes centros urbanos, o atendimento a estudantes surdos em escolas especiais, essa não é, definitivamente, a realidade da maioria dos municípios e localidades, nos quais a única possibilidade de o estudante ter acesso às experiências de aprendizagem e, por conseqüência, ao avanço e a terminalidade acadêmica é estando inserido no contexto regular de ensino. Entretanto, esse processo implica em muitas variáveis e impõe a necessidade de a proposta pedagógica da escola levar em consideração a presença dos estudantes surdos e oferecer respostas adequadas às suas necessidades educacionais. Dito de outra forma, a presença de estudantes surdos em uma escola pensada, a priori, para ouvintes, não depende única e exclusivamente desse ou daquele professor, isoladamente, e de sua boa vontade em receber esses estudantes. Antes, significa um redimensionamento do projeto da escola e de sua reestruturação. 124 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Desde sempre, variáveis como o favorecimento da identidade pessoal, a interação social e a comunicação do estudante surdo, facilitada por recursos visuais, com ênfase na Língua de Sinais, devem estar presentes na planificação de objetivosque irão constituir esse projeto, em diferentes níveis de atuação, como na delimitação de objetivos educacionais gerais; na organização da escola; na programação das atividades; na troca de informações entre os professores; na forma de comunicação entre comunidade escolar/estudantes surdos; na presença de professores/profissionais de apoio; no desenvolvimento da proposta curricular; na metodologia utilizada em sala de aula; nos critérios de avaliação dos estudantes surdos, dentre outras. Nesse sentido, é importante que os sistemas educacionais estejam preparados para lidar com as diferentes demandas sócio-culturais presentes nas escolas, planejando e implementando propostas pedagógicas que estejam, desde a sua concepção, comprometidas com a diversificação e flexibilização curricular, a fim de que o convívio entre as diferenças possa ser, de fato, um exercício cotidiano, no qual ritmos e estilos de aprendizagem sejam respeitados e a prática da avaliação seja concebida em uma perspectiva dialógica. Isso significa envolver a co-participação de estudante e professor, em relação ao conhecimento que se deseja incorporar. A partir de uma concepção flexibilizada de currículo que se define no movimento e dinâmica da escola e não no conjunto fechado de possibilidades, decididas previamente, entendo que faz-se necessário pensar, para a área da surdez, as adaptações curriculares em três níveis, conforme apresentada na obra Saberes e Práticas da Inclusão: Desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais de s surdos (MEC, SEESP, 2003): • No nível da proposta pedagógica - orientações e decisões que serão adotadas no projeto da escola e nas suas interfaces com outros órgãos da comunidade (previsão de serviços de apoio, parcerias com associações de surdos para oferta de cursos de Língua de Sinais, atendimento na área da saúde); • No nível de sala de aula - decisões que dizem respeito diretamente à ação docente, relacionadas aos componentes curriculares que se concretizam no cotidiano das relações entre professor/estudantes, envolvendo metodologias, objetivos, conteúdos e avaliação; 125 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto • Em nível individual - modificações pensadas a partir das necessidades específicas dos estudantes surdos, em questão, uma vez que a surdez é uma realidade heterogênea e plural e cada sujeito constitui sua subjetividade, a depender de seu histórico de vida. Isso significa dizer que suas necessidades sócio-culturais é que se constituirão ponto de partida para as decisões a serem tomadas pela escola. Recomendações ao trabalho do professor na escola inclusiva com estudantes surdos Como afirmamos, anteriormente, para que cada professor possa desencadear sua ação docente, de forma responsável e competente, é necessário que haja uma ampla discussão pela comunidade escolar das decisões a serem adotadas pela escola que contar com estudantes surdos em suas salas de aula. Deve-se refletir para além dos objetivos educacionais gerais, propostos para todos os estudantes da escola, considerando-se os objetivos pensados, especificamente, para os surdos, e outros, para os ouvintes que com eles convivem. Genericamente, em relação à educação de surdos, a comunidade escolar deverá considerar alguns aspectos, como informar à comunidade escolar sobre a diferença relativa à surdez, suas especificidades e a Língua de Sinais; refletir sobre a necessidade de utilizar a Língua de Sinais no processo educacional e buscar formas para sua aquisição e desenvolvimento pelas crianças surdas, demais estudantes e profissionais da escola, por intermédio de suas relações com associações de surdos ou outras referências comunitárias; oportunizar a presença de adultos surdos na escola, colaborando no processo educacional do estudante surdo, estabelecendo relações, formais ou informais, entre a escola e a comunidade surda adulta; promover a reestruturação do currículo escolar e dos sistemas de apoio, de forma a configurar uma educação bilíngüe; refletir sobre a questão do aprendizado, do uso e do estudo da língua portuguesa pelos estudantes surdos, organizando as condições para a sua oferta; decidir sobre o tipo de apoio ao estudante surdo, como professores-intérpretes, sala de recursos, professor fixo de apoio, entre outros; realizar, regularmente, uma análise crítica das atividades e objetivos propostos a todos os estudantes, considerando a presença de surdos na escola; prever a possibilidade de realização de adaptações curriculares, em diferentes níveis, como forma de garantir o acesso pleno ao conhecimento veiculado pela escola e sua apropriação pelo 126 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto estudante surdo, significativamente; promover uma interface com outros órgãos da comunidade que poderão ofertar atendimentos complementares como forma de garantir um desenvolvimento global ao estudante surdo, como parcerias com a saúde/associações/ creches/conselhos/igrejas; refletir sobre as implicações da inclusão escolar de estudantes surdos no sistema educacional e as formas para superação dos desafios que se propõem; oportunizar a formação continuada dos professores e demais profissionais da comunidade escolar, para atuar com estudantes surdos. * Deficiência mental Significando a deficiência mental Na procura de compreensão mais global das deficiências em geral, a Organização Mundial de Saúde (OMS) propôs três níveis para esclarecer todas as deficiências, a saber: deficiência, incapacidade e desvantagem social. Em 2001, essa classificação foi revista e reeditada, não contendo mais uma sucessão linear dos níveis, mas indicando a interação entre as funções orgânicas, as atividades e a participação social. O importante dessa nova definição é que ela destaca o funcionamento global da pessoa em relação aos fatores contextuais e do meio, redefinindo entre as demais e rompendo o seu isolamento. Essa definição motivou a proposta de substituir a terminologia “pessoa deficiente” por Assante (2000). A idéia dessa proposta é a de mostrar a vantagem de integrar os efeitos do meio nas apreciações da capacidade de autonomia de uma pessoa com deficiência. Em conseqüência, uma pessoa pode sentir discriminação em um meio que constitui ou, ao contrario, ter acesso a esse meio, graças às transformações desse para atender suas necessidades. A convenção da Guatemala, internalizada na Constituição Brasileira pelo Decreto 3956/2001, no seu artigo 1º, define deficiência como “[...] uma restrição física, mental ou sensorial, de natureza permanente ou transitória, que limita a capacidade de exercer uma ou mais atividades essenciais da vida diária, causada ou agravada pelo ambiente econômico social”. Essa definição ratifica a deficiência como uma situação. A deficiência mental constitui um impasse para o ensino na escola comum e para a definição do atendimento especializado, pela complexidade do conceito e por sua grande quantidade e variedade de abordagens. 127 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto A dificuldade de detectar com clareza os diagnósticos de deficiência mental tem elevado a uma série de definições e revisões do seu conceito. A medida do coeficiente de inteligência (Q.I.) foi utilizadadurante muitos anos como parâmetro de definição dos casos. O próprio CID 10 (Código Internacional de Doenças, desenvolvida pela Organização Mundial de Saúde), ao especificar o Retardo Mental (F70-79) propõe uma definição ainda baseada no coeficiente de inteligência, classificando-o entre leve, moderado e profundo, conforme o comprometimento. Também inclui vários outros sintomas de manifestação dessa deficiência como a “[...] dificuldade do aprendizado e comprometimento do comportamento”, o que coincide com outros diagnósticos e de áreas diferentes. O diagnóstico na deficiência mental não se esclarece por uma causa orgânica, nem tampouco pela inteligência, sua quantidade, supostas categorias e tipos. Tanto as teorias psicológicas desenvolvimentistas, como as de caráter sociológico, antropológico, tem posições assumidas diante da condição mental das pessoas, mas ainda assim não se consegue estabelecer um conceito único que dê conta dessa intricada questão. A psicanálise, por exemplo, apresenta a dimensão do inconsciente, importante contribuição que introduz os processos psíquicos na determinação de diversas patologias, como a questão da deficiência mental. A inibição, desenvolvida por Freud, pode-se definir pela limitação de determinadas atividades, causada pelo bloqueio de algumas funções, como pensamento, por exemplo. A debilidade, para Lacan, define a maneira particular do sujeito lidar com o saber, podendo ser natural ao sujeito, por caracterizar um mal-estar fundamental em relação ao saber, ou seja, todos nós temos algo que não conseguimos ou não queremos saber. Mas também define uma patologia, quando o sujeito se fixa em uma posição débil, de total recusa de apropriação do saber. Além de toda essa pluralidade de conceitos que em muitos casos são antagônicos, existe a dificuldade de estabelecer um diagnostico diferencial entre o que seja “doença mental” e “deficiência mental”, principalmente no caso de crianças pequenas que estão na idade escolar. Por todos esses motivos, há uma busca para encampar esse problema o mais amplamente possível, introduzindo dimensões de diferentes áreas do conhecimento na tentativa de abranger o fenômeno mental. 128 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Em síntese, a deficiência mental não se esgota na sua condição orgânica e/ou intelectual e nem pode ser definida por um único saber. Ela é uma interrogação e objeto de investigação para todas as áreas do conhecimento. A dificuldade de precisar um conceito de deficiência mental trouxe conseqüências indeléveis na maneira de as demais pessoas lidarem com a deficiência. O medo da diferença e do desconhecido é responsável, em grande parte, pela discriminação que se verifica nas escolas e na sociedade em relação às pessoas com deficiência em geral, mas principalmente àquelas com deficiência mental. O sociólogo Erving Goffman desenvolveu uma estrutura conceitual, a estigmatização, para definir essa reação diante daquele que é diferente e que acarreta certo descrédito e desaprovação por parte das demais pessoas. Freud, em seu trabalho sobre o estranho, também demonstra como o sujeito evita aquilo que lhe parece estranho e diferente, mas que no fundo remete a questões pessoais e mais intimas do próprio sujeito. Ainda podemos acrescentar a resistência institucional que contribui para aumentar e manter a discriminação. Presa ao conservadorismo e à estrutura de gestão dos serviços públicos educacionais, a escola continua norteada por mecanismos elitistas de promoção dos melhores estudantes em todos os níveis. Além disso, há de considerar as contradições entre culturas profissionais que definem a identidade e o trabalho de cada uma, gerando corporativismo, práticas isoladas, busca por maior reconhecimento social e acarretando formas desarticuladas de enfocar o mesmo problema, como é o caso do atendimento à deficiência mental. Por essas razões, e pelos princípios inclusivos, esse atendimento, seja na escola comum, ou nos locais reservados ao atendimento educacional e/ou especializado necessita ser reinterpretado e reestruturado. A escola regular diante da deficiência mental: o período pré-inclusivista A deficiência mental coloca em xeque a função primordial da escola comum, que é a produção do conhecimento, pois o estudante com essa deficiência tem uma maneira própria de lidar com o saber que, invariavelmente, não corresponde ao ideal da escola. Na verdade, não corresponder ao esperado pode acontecer com todo e qualquer estudante, mas 129 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto os estudantes com deficiência mental denunciam a impossibilidade de atingir esse ideal, de forma tácita. Eles não permitem que a escola dissimule essa verdade. O estudante com deficiência mental tem dificuldade de construir conhecimento como os demais e de demonstrar a sua capacidade cognitiva, principalmente nas escolas que mantêm um modelo conservador de atuação e uma gestão autoritária e centralizadora. Essas escolas apenas acentuam a deficiência e, em conseqüência, aumentam a inibição, reforçam os sintomas existentes e agravam as dificuldades do estudante com deficiência mental. Tal situação ilustra o que a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 2001 e a convenção da Guatemala acusam como agravante da situação de deficiência. O caráter elitista, meritocrático, homogeneizador e competitivo das escolas regulares aprisiona o professor, e o reduz a uma situação de isolamento e impotência, principalmente diante dos estudantes com deficiência mental, pois são os que mais ‘amarram’ o desenvolvimento do processo escolar, em todos os níveis e séries. Diante disso, a saída encontrada pela maioria dos professores, é desvencilhar-se dos estudantes que não acompanham as turmas, encaminhando-os para qualquer outro lugar que supostamente entenda de ensiná-los. O número de estudantes classificados como deficientes mentais foi ampliado enormemente, abrangendo todos aqueles que não demonstram bom aproveitamento escolar e com dificuldade de seguir as normas disciplinares da escola. O aparecimento de novas terminologias como “necessidades educacionais especiais” e outras contribui para aumentar a confusão entre casos de deficiência mental e aqueles que apenas apresentam problemas na aprendizagem, muitas vezes devidos às próprias práticas escolares. Caso as escolas não se democratizem, a situação da excludência generalizada tenderá a aumentar, provocando cada vez mais queixas e maior distanciamento da escola comum dos estudantes com deficiência mental que, supostamente, não aprende. O desconhecimento e a busca de soluções imediatistas para resolver a premência do direito de todos à educação fez com que algumas escolas procurassem soluções paliativas, que envolvem todo o tipo de adaptação: de currículos, de atividades, de avaliação, de atendimento em sala de aula, que se destinam unicamente aos estudantes com deficiência. Essas soluções continuam mantendo o caráter substitutivo da Educação Especial, principalmente quando se trata de estudantes com deficiência mental. 130 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Tais práticas adaptativas funcionam como um regulador externo de aprendizagem e estão baseadas nos propósitos e procedimentos de ensino que decidem “o que falta” ao estudante de uma turma de escola comum. Em outras palavras, ao adaptar currículos, selecionar atividades e formular provasdiferentes para estudantes com deficiência e/ou dificuldade de aprender, o professor interfere de fora, submetendo os estudantes ao que supõe que eles sejam capazes de aprender. A inclusão escolar de deficientes mentais: a situação atual Na concepção inclusiva, a adaptação ao conteúdo escolar é realizada pelo próprio estudante e testemunha a sua emancipação intelectual. Essa emancipação é conseqüência do processo de auto-regulação de aprendizagem, em que o estudante assimila o novo conhecimento, de acordo com suas possibilidades de incorporá-lo ao que conhece. Entender esse sentido emancipador da adaptação intelectual é sumamente importante para o professor, pois aprender é uma ação humana criativa, individual, heterogênea e regulada pelo sujeito da aprendizagem, independentemente da sua condição intelectual, se mais ou se menos privilegiada. São as diferenças de idéias, opiniões, níveis de compreensão que enriquecem o processo escolar e que clareiam o entendimento dos estudantes e professores – essa diversidade deriva das formas singulares de nos adaptamos cognitivamente a um dado conteúdo e da possibilidade de nos expressarmos abertamente sobre ele. Por outro lado, ensinar é um ato coletivo, no qual o professor disponibiliza a todos os estudantes, sem exceção, um mesmo conhecimento. Em vez de adaptar e individualizar/diferenciar o ensino para alguns, a escola comum precisa recriar suas práticas, mudar suas concepções, rever seu papel, sempre reconhecendo e valorizando as diferenças dos estudantes, deficientes e não deficientes. As práticas escolares que permitem ao estudante aprender e ter reconhecidos e valorizados os conhecimentos que é capaz de elaborar, segundo suas possibilidades, são próprias de um ensino escolar que se distingue pela diversidade de atividades. O professor, na ótica da educação inclusiva, não é aquele que ministra um “ensino diversificado” para alguns, mas aquele que prepara atividades diversas para seus estudantes com e sem deficiência mental, ao ensinar um mesmo conteúdo curricular. As atividades não são 131 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto graduadas, para atender a níveis diferentes de compreensão, e estão disponíveis na sala de aula para que os estudantes as escolham livremente, de acordo com o interesse que têm por elas. Para exemplificar essa pratica consideremos, por exemplo, o ensino dos planetas do sistema solar para uma turma de estudantes com e sem deficiência. As atividades podem variar de propostas de elaboração de textos; construção de maquetes do sistema planetário; realização de pesquisas em livros, revistas, jornais, internet; confecção de cartazes; realização de leitura interpretativa de textos literários e poesias; de seminários com apresentação do referido tema, entre outras. O estudante com deficiência mental, assim como os demais, escolhe a atividade que mais lhe interessar, pois a sua capacidade de desempenho e dos colegas, não é pré-definida pelo professor. Essa prática é distinta daquelas que habitualmente encontramos nas salas de aula, nas quais o professor escolhe e determina uma atividade para todos os estudantes realizarem individualmente e uniformemente, sendo que aos estudantes com deficiência mental oferece uma atividade facilitada sobre o mesmo assunto, ou até mesmo sobre outro completamente diverso. Contraditoriamente essa pratica discriminatória tem sido adotada para impedir a “exclusão na inclusão”. Utilizando como exemplo esse mesmo conteúdo – o estudo dos planetas do sistema solar, é comum o professor selecionar uma atividade de leitura e interpretação de textos para todos os estudantes, cabendo àquele com deficiência mental apenas colorir um dos planetas em folha mimeografada pela professora. Modificar essa prática, para a prática escolar inclusiva é uma verdadeira revolução, que implica inovações na forma do professor e o estudante avaliarem o processo de ensino e de aprendizagem. Ela desmonta o caráter homogeneizador da aprendizagem e elimina as demais características excludentes das escolas comuns que adotam propostas pedagógicas conservadoras. A prática escolar inclusiva promove a cooperação entre todos os estudantes e o reconhecimento de que ensinar uma turma é, na verdade, atuar com um grande grupo e com todas as possibilidades de subdividi-lo. Dessa forma, nas subdivisões de uma turma, os estudantes com deficiência mental podem se incluir em qualquer grupo de colegas, sem formar um grupo à parte, constituído apenas de colegas com deficiência e/ou problemas de aprendizagem. 132 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Para conseguir atuar na proposta educacional inclusiva, o professor demanda o respaldo de uma direção escolar e de outros profissionais da escola, como orientadores, surpevisores educacionais e outros, que adotam uma proposta de gestão escolar verdadeiramente participativa e descentralizada. Muitas vezes o professor tem idéias novas para colocar em ação em sua sala de aula, mas não é bem recebido pelos colegas e pelos demais membros da escola, devido ao descompasso entre o que está proposto, e o que a escola tem o hábito de fazer para o mesmo fim. Por outro lado, a receptividade à inovação anima todos a criar e ter liberdade para experimentar alternativas de ensino. Essa autonomia para criar e experimentar coisas novas será naturalmente extensiva aos estudantes com ou sem deficiência. Assim, os estudantes com deficiência mental serão naturalmente valorizados pelo reconhecimento de suas capacidades e respeito à suas limitações. Essa liberdade do professor e dos estudantes de criar as melhores condições de ensino e de aprendizagem, não dispensa um planejamento de trabalho, seja ele anual, mensal, quinzenal ou mesmo diário. Ser livre para aprender e ensinar não implica falta de limites e regras ou ainda queda em um espotaneísmo de atuação. O ano letivo, assim como a rotina diária de uma turma, deve contemplar um tempo para planejar, outro para executar, outro para avaliar e socializar os conhecimentos aprendidos. Esse processo é realizado coletiva e individualmente. Um exemplo de rotina de sala de aula seria desenvolver um primeiro momento o planejamento coletivo, que compreende uma conversação livre entre o professor e seus estudantes a respeito do emprego do tempo naquela jornada. Esse momento permite ao expressar-se livremente a respeito do que pretende fazer/aprender nesse dia, e o professor colocar suas intenções no mesmo sentido, estabelecendo um acordo entre ambas as partes. Nesse momento toda a classe pode tomar decisões com relação às atividades e os grupos a serem formados para realizá-las. No segundo momento as atividades são realizadas conforme o plano estabelecido. Finalmente, a jornada de trabalho é reconstituída na ultima parte dessa rotina, com participação de todos os estudantes que socializam o que aprendem e avaliam a produção obtida. O estudante com deficiência mental participa igualmente de todos esses momentos: planejamento, avaliação e socialização. 133 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto A avaliação dos estudantes com deficiência mental visa o conhecimento de seus avanços no entendimento dos conteúdos curriculares durante o ano letivo escolar, seja ele organizado por serie ou por ciclos. O mesmo vale para os demais estudantes, para que não sejam feridos os princípios da inclusão escolar. A promoção automática exclusivapara os estudantes com deficiência mental constitui uma distinção pela deficiência, o que caracteriza discriminação. Em ambos os casos, o que interessa para que um novo ano de estudos se inicie é o quanto o estudante, com ou sem deficiência, aprendeu no ano anterior, pois nenhum conhecimento é adquirido sem base no que se conheceu antes. O atendimento educacional especializado e a inclusão escolar dos estudantes com deficiência mental A imprecisão do conceito de deficiência mental trouxe conseqüências que impediram uma definição clara desse tipo de atendimento nas escolas comuns e especiais. A proposta constitucional de prescrever o atendimento educacional especializado para estudantes com deficiência precipitou e necessidade de distinguir o que é próprio de uma intervenção especifica para a deficiência mental, complementar à escola comum, do que é substitutivo e meramente compensatório, visando à aquisição paralela do saber escolar. A partir de 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) classificou a educação especial como uma modalidade de ensino. Com isso, a educação especial perdeu a função de substituição dos níveis de ensino. No entanto, essa mesma Lei, ao dedicar a ela um de seus capítulos, possibilita interpretações enganosas que a mantêm como um subsistema paralelo de ensino escolar. Além disso, o atendimento educacional especializado também não foi amplamente esclarecido quanto à sua natureza educacional, por ter sido criado legalmente sem ter suas ações descritas. Talvez por esse motivo continue sendo confundido com o reforço escolar, e/ou como o que é próprio do atendimento clínico, aceitando e se submetendo a todo e qualquer outro conhecimento das áreas afins que tratam da deficiência mental. A educação especial, durante décadas, manteve as mesmas características do ensino regular desenvolvido nas escolas tradicionais, como descrevemos anteriormente, e sempre adotando práticas adaptativas. No primeiro momento, para fundamentar/organizar o 134 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto trabalho educacional especializado, essas escolas limitaram-se a treinar seus estudantes, subdivididos nas categorias educacionais: treináveis e educáveis, limítrofes e dependentes. Esse treinamento era desenvolvido visando à inserção familiar e social. Muitas vezes, o treino se resumia às atividades de vida diária: estereotipadas, repetitivas e descontextualizadas O movimento pela integração escolar manteve as práticas adaptativas, com o objetivo de proporcionar a inserção e/ou a reinserção de estudantes com deficiência na escola comum, pelo treino dos mesmos conteúdos e programas do ensino regular. O aspecto agravante dessa prática adaptativa/interativa está no fato de se insistir para que esse treino se realize como base no que é concreto, ou seja, palpável, tangível, insistentemente reproduzido, de forma alienante, supondo que os estudantes com deficiência mental só “aprendem no concreto”. A idéia contida nesse treino, por meio do que é concreto, é uma pseudonecessidade, pois o concreto, que no caso se refere ao que é real, não contempla o que um objeto é em toda a sua extensão, e não se limita ao significado que cada pessoa pode atribuir a esse objeto, em função de sua vivência e referências anteriores. Para muitos estudantes, contar palitos de fósforos não significa uma ação de aprendizagem dos numerais e nem a possibilidade de elaborar o conceito de número, como deseja o professor. O estudante pode estar apenas manuseando material para entender o modo de sua mãe acender o fogo, por exemplo. Por mais que se busque o conhecimento com base no concreto, ele não se esgotará na sua dimensão física. A compreensão total do real é algo que jamais se alcançará, mesmo no mais avançado estado de entendimento e de cognição. Por outro lado, a repetição de uma ação sobre o objeto, sem que o sujeito lhe atribua algum significado, é vazia, sem nenhuma repercussão, intelectual e estéril, pois nada produz de novo, apenas coloca as pessoas com deficiência mental em posição inferior, enfraquecida e debilitada diante do conhecimento. O grande equívoco de uma pedagogia que se baseia nessa lógica do concreto e da repetição alienante é negar o acesso da pessoa com deficiência mental ao plano abstrato e simbólico da compreensão, ou seja, negar a sua capacidade de estabelecer uma interação simbólica com o meio. O risco desse equívoco é empobrecer cada vez mais a condição das 135 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto pessoas com deficiência mental de lidar com o pensamento, usar o raciocínio, utilizar a capacidade de descobrir o que é visível e prever o invisível, a criar e inovar, enfim, ter acesso a tudo o que é próprio da ação de conhecer. Como exemplo dessa lógica repetitiva, podemos citar as tarefas, como decorar famílias silábicas; aprender a multiplicar, dividir ou somar com inúmeras contas, envolvendo as mesmas operações aritméticas; repetir o cabeçalho todos os dias por várias vezes; responder copiando do livro; colorir desenhos reproduzidos e mimeografados pela professora para treinamento motor com cores pré- definidas; além de outras atividades de pura memorização, que sustentam o ensino de má qualidade em geral. A educação especializada tem sido utilizada para tentar “adaptar” os estudantes com deficiência mental às exigências da escola comum tradicional. Assim, durante anos e mesmo até hoje, os profissionais da educação especial, ao discutirem a inclusão escolar de estudantes com deficiência, defendem que ela só é possível em alguns casos, apenas para os “estudantes adaptáveis” ao modelo excludente dessa escola. Alegam nessa lógica que toda e qualquer outra forma de inserção escolar configuraria uma inclusão irresponsável, provocando segregação dentro da própria escola especial, ou seja, uma espécie de “exclusão da exclusão”, na qual os estudantes são subdivididos entre os que têm condições de ser encaminhados para a escola comum e aqueles que, por serem considerados “casos graves”, jamais poderão ser incluídos. O atendimento educacional especializado decorre de uma nova visão da educação especial, sustentada legalmente, e é uma das condições para o sucesso da inclusão escolar dos estudantes com deficiência. Esse atendimento existe para que os estudantes com deficiência mental possam aprender o que é diferente do currículo do ensino comum, e necessário para que possam ultrapassar as barreiras impostas à sua aprendizagem. As especificidades da deficiência mental diferem muito das demais deficiências. Trata-se de especificidades referentes à maneira de lidar com o saber em geral, refletindo preponderantemente na elaboração do conhecimento escolar. Por esse motivo, a educação especializada, realizada nos moldes do treinamento e da adaptação, reforça a condição de deficiente desse estudante. Essas formas de intervenção mantêm o estudante no nível de compreensão que é muito primitivo, sendo que esse estudante tem dificuldades de ultrapassar – nas chamadas regulações automáticas, de Piaget. É necessário que se estimule 136 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto o estudante com deficiência mental a progredir nos níveis de compreensão, criando novos meios para se adaptar às novas situações, ou seja, desafiando-o a realizar regulações ativas. Assim sendo, o estudante com deficiência mental desenvolverá, por meio de atendimento educacionalespecializado, as condições de passar de um tipo de ação automática e mecânica diante de uma situação de aprendizado/experiência para outro tipo, que lhe possibilite selecionar e optar por meios mais convenientes de atuar intelectualmente. O atendimento educacional para tais estudantes deve, portanto, privilegiar o desenvolvimento e a superação daquilo que lhe é limitado, exatamente como acontece com as demais deficiências, como exemplo: para o cego, a possibilidade de ler em Braile; para o surdo a forma mais conveniente de se comunicar; e, para a pessoa com deficiência física, o modo mais adequado de se orientar e se locomover. Para a pessoa com deficiência mental, a acessibilidade não depende de suportes externos ao sujeito, mas tem a ver com a saída de uma posição passiva e automatizada diante da aprendizagem para o acesso e apropriação ativa do próprio saber. De fato, a pessoa com deficiência mental encontra inúmeras barreiras nas interações que realiza com o meio para assimilar desde os componentes físicos do objeto de conhecimento, como por exemplo, o reconhecimento e a identidade da cor, forma, textura, tamanho e outras características que ele precisa retirar diretamente desse objeto. Isso ocorre porque são pessoas que apresentam prejuízos no funcionamento, na estruturação e na reelaboração do conhecimento. Exatamente por isso, não adianta propor atividades que insistem na repetição pura e simples de noções de cor e forma, dentre outras. Para que desse suposto aprendizado, o estudante consiga dominar essas noções e as demais propriedades físicas dos objetos, e ainda possa transpô-lo para um outro contexto. O estudante sem deficiência mental consegue isso espontaneamente. Enquanto que o estudante com deficiência mental precisa de outra atenção, ou seja, de exercitar sua atividade cognitiva, de modo que consiga o mesmo resultado, ou uma aproximação dele. Esse exercício implica desenvolver a abstração por meio da projeção das ações práticas em pensamento. A passagem das ações práticas e a coordenação dessas ações em pensamento são partes de um processo cognitivo que é natural para aqueles que não tem deficiência mental. E para aqueles que têm deficiência mental, essa passagem deve ser 137 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto estimulada e provocada, de modo que o conhecimento possa se tornar consciente e interiorizado. O atendimento educacional especializado para pessoas com deficiência mental está centrado na dimensão subjetiva do processo de conhecimento, complementando o conhecimento acadêmico e o ensino coletivo que caracteriza a escola comum. O conhecimento acadêmico exige o domínio de um determinado conteúdo curricular; o atendimento educacional, por sua vez, refere-se à forma pela qual o estudante trata todo e qualquer conteúdo que lhe é apresentado, e como consegue significá-lo, ou seja, compreendê-lo. É importante esclarecer que o atendimento educacional especializado não é ensino particular, nem reforço escolar. Ele pode ser desenvolvido em grupos, porém com atenção para as formas específicas de cada estudante se relacionar com o saber. Isso também não implica atender a esses estudantes, formando grupos homogêneos com o mesmo tipo de deficiência mental ou desenvolvimento cognitivo. Pelo contrário, os grupos devem ser constituir obrigatoriamente por estudantes da mesma faixa etária e em vários níveis do processo de conhecimento. Estudantes com Síndrome de Down, por exemplo, poderão compartilhar esse atendimento com seus colegas autistas, com outras síndromes, seqüelas de paralisia cerebral, e ainda outros com ou sem uma causa orgânica esclarecida de sua deficiência e com diferentes possibilidades de acesso ao conhecimento. O atendimento especial especializado para o estudante com deficiência mental deve permitir que esse estudante saia de uma posição de “não saber”, ou de “recusa de saber” para se apropriar de um saber que lhe é próprio, ou melhor, que ele tem consciência de que construiu. A inibição, definida na teoria freudiana, ou a “posição débil” enunciada por Lacan provocam atitudes particulares diante do saber, influenciando a pessoa na aquisição do conhecimento acadêmico. É importante ressaltar que o saber da psicanálise é o “saber inconsciente”, relativo à verdade do sujeito. Em outras palavras, trata-se de um processo inconsciente e o que o sujeito recusa saber é sobre a própria incompletude, tanto dele quanto do outro. O estudante com deficiência mental, nessa posição de recusa e de negação do saber, fica passivo e dependente do outro, do seu professor, por exemplo, ao qual outorga o poder de todo o saber. Se o professor assume o lugar daquele que sabe tudo e 138 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto oferece todas as respostas a seus estudantes, o que é muito comum nas escolas e principalmente na prática da educação especial, ele reforça essa posição débil e de inibição, não permitindo que esses se mobilizem para adquirir/construir qualquer tipo de conhecimento. Quando o atendimento educacional permite que o estudante afirme sua vivência e que se posicione de forma autônoma e criativa diante do conhecimento, o professor sai da posição de detentor de todo o saber. Dessa maneira, o estudante pode se questionar e modificar sua atitude de recusa do saber e sua posição de “não saber”. Ele, então, pode se mobilizar e buscar o saber. Na verdade, é na tomada da consciência de não saber, que o estudante pode se mobilizar e buscar o saber. A liberdade de criação e de posicionamento autônomo do estudante diante do saber permite que sua verdade seja considerada, o que é fundamental para o estudante com deficiência mental. Ele deixa de ser o “repeteco”, o eco do outro e se torna um ser pensante e desejante de saber. Mas o atendimento educacional não deve funcionar como uma análise interpretativa, própria das sessões psicanalíticas, e nem como uma intervenção psicopedagógica, tradicionalmente praticada. Esse atendimento deve permitir ao estudante elaborar suas questões, suas idéias, de forma ativa, e não corroborar para sua alienação diante de todo e qualquer saber. A escola - especial e comum - ao desenvolver o atendimento educacional especializado deve oferecer todas as oportunidades possíveis para que nos espaços educacionais em que ele acontece o estudante seja incentivado a se expressar, pesquisar, inventar hipóteses e reinventar o conhecimento livremente. Assim, ele pode trazer para os atendimentos os conteúdos advindos da sua própria experiência, segundo seus desejos, necessidades e capacidades. O exercício da atividade cognitiva ocorrerá a partir desses conteúdos. Devem ser oferecidas situações, que comportem ações em que o próprio estudante teve participação ativa na execução e/ou façam parte da experiência de vida dele. Essa pratica difere de todo modelo de atuação privilegiado até então pela educação especial Trabalhar a ampliação da capacidade de abstração não significa apenas desenvolver a memória, a atenção, as noções de espaço, tempo, causalidade, raciocínio lógico em si 139 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto mesmo. Nem tampouco tem a ver com a desvalorização da ação direta sobre os objetos de conhecimento, pois a ação é o primeiro nível de toda a construção mental. O objetivo do atendimento educacional especializado é propiciar condições e liberdade para que o estudante com deficiência mental possa desenvolversua inteligência, dentro do quadro de recursos intelectuais que lhe é disponível, tornando-se agente capaz de produzir significado/conhecimento. O contato direto com os objetos a serem conhecidos, ou seja, com sua “concretude” não pode ser descartado, mas o importante é intervir no sentido de fazer com que esses estudantes percebam a capacidade que têm de pensar, de realizar ações em pensamento, de tomar consciência de que são capazes de usar a inteligência de que dispõem e de ampliá-la, pelo seu esforço de compreensão, ao resolver uma situação-problema qualquer. Mas, sempre agindo com autonomia para escolher o caminho da solução e a sua maneira de atuar inteligentemente. O estudante com deficiência mental, como os não deficientes, pode desenvolver a sua criatividade, a capacidade de conhecer o mundo e a si mesmo, não apenas superficialmente ou por meio do que o outro pensa. O nosso maior engano é generalizar a dotação mental das pessoas com deficiência em um nível sempre muito baixo, carregado de preconceitos sobre capacidade de, como estudantes, progredirem na escola, acompanhando os colegas. Desse engano derivam todas as ações educativas que desconsideram o fato de que cada pessoa é uma pessoa, que tem antecedentes diferentes de formação, experiências de vida e que sempre é capaz de aprender e de exprimir um conhecimento. O atendimento educacional especializado não deve ser uma atividade que tenha como objetivo o ensino escolar especial, adaptado para desenvolver conteúdos acadêmicos, tais como a Língua Portuguesa, a Matemática, entre outros. Com relação à Língua Portuguesa e Matemática, o atendimento educacional especial buscará o conhecimento que permite ao estudante a leitura, a escrita e a quantificação, sem o compromisso de sistematizar essas noções, como é o objetivo da escola regular. Para possibilitar a produção do saber e preservar sua condição de complemento do ensino regular, o atendimento educacional especializado tem que estar desvinculado da necessidade típica da produção acadêmica. A aprendizagem do conteúdo acadêmico limita as ações do professor especializado, principalmente quanto ao permitir a liberdade de 140 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto tempo e de criação que o estudante com deficiência mental precisa ter para organizar-se diante do desafio do processo de elaboração do conhecimento, ao contrario do que ocorre na escola comum, não é determinado por metas a serem atingidas em uma determinada série, ou ciclo, ou mesmo etapas de níveis ou de desenvolvimento. O processo de elaboração do conhecimento, no atendimento educacional especializado, não é ordenado de fora, e não é possível ser planejado sistematicamente, obedecendo a uma seqüência rígida e pré-definida de conteúdos a serem ensinados e aprendidos. E, assim sendo, não persegue a promoção escolar, mesmo por que esse estudante encontra-se incluído na escola regular. Na escola comum, o estudante elabora o conhecimento necessário e exigido socialmente e que depende de aprovação e reconhecimento da sua aquisição por um outro, seja ele professor, pais, autoridades escolares, exames e avaliações institucionais. No atendimento educacional especializado, o estudante elabora conhecimento para si mesmo, o que é fundamental para que consiga alcançar o conhecimento acadêmico. Aqui, ele não depende de uma avaliação externa, calcada na evolução do conhecimento acadêmico, mas de novos parâmetros relativos às suas conquistas diante do desafio da elaboração do conhecimento. Portanto, os dois – escola comum e atendimento educacional especializado precisam acontecer concomitantemente, pois um beneficia o desenvolvimento do outro e jamais esse beneficio deverá caminhar linear e seqüencialmente, como se pensava até então. Por mais limitação que o estudante com deficiência mental apresente, ir à escola para aprender conteúdos acadêmicos e participar de um grupo social mais amplo, favorece o seu desenvolvimento no atendimento educacional especializado e vice-versa. O atendimento educacional especializado é, de fato, muito importante para o progresso escolar do estudante com deficiência mental. Aqui é importante salientar que a “socialização” justificada, como único objetivo da entrada desses estudantes na escola comum, especialmente para os casos mais graves, não permite essa complementação e muito menos significa que está havendo uma inclusão escolar real. A verdadeira socialização, em todos os seus níveis, exige elaborações cognitivas e a compreensão da relação com o outro. O que tem acontecido, em nome dessa suposta socialização, é uma espécie de tolerância da presença do estudante em sala de aula 141 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto e o que decorre dessa situação é a perpetuação da segregação, mesmo que o estudante esteja freqüentando um ambiente escolar comum. O arranjo físico do espaço reservado ao atendimento especializado precisa coincidir com o seu objetivo de enriquecer o processo de desenvolvimento cognitivo do estudante com deficiência mental e de oferecer-lhe o maior número possível de alternativas de envolvimento e interação com o que compõe esse espaço. Portando, não pode reproduzir uma sala de aula comum e tradicional. O espaço físico para o atendimento educacional especializado deve ser preservado, tanto na escola especial como na escola comum, ou seja, deve ser criado e utilizado unicamente para esse fim. O tempo reservado para o atendimento será definido conforme a necessidade de cada estudante e as sessões acontecerão sempre em horário diferente do das aulas do ensino regular. A interface entre o atendimento educacional especializado e a escola comum acontecerá conforme a necessidade de caso a caso, sem a intenção primeira de apenas garantir o bom desempenho escolar do estudante com deficiência mental, mas muito mais para que ambos os professores se empenhem em entender a maneira desse estudante lidar com o conhecimento no seu processo construtivo. Esse esforço de entendimento conjunto não caracteriza uma forma de orientação pedagógica do professor especializado para o professor comum e vice-versa, mas a busca de soluções que beneficiem o estudante de todas as maneiras possíveis e não apenas para avançar no conteúdo escolar. Penso que neste capítulo apresentei elementos importantes para a compreensão dos aspectos educacionais do processo de escolarização dos estudantes com deficiência visual, auditiva e mental. Tais considerações se constituíram em elementos essenciais para a elaboração de meu estudo, pois entender as demandas postas pela condição das deficiências permite a reflexão sobre essas necessidades, pois para afirmarmos que um estudante deficiente está de fato acolhido/incluído na escola regular, todas as suas necessidades educacionais especiais devem ser atendidas e os obstáculos superados/eliminados, pois do contrário não se poderá concretizar a democratização e a inclusão escolar. 142 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Estudar a deficiência e suas variantes é importante para o entendimento das condições que a caracterizam e, conseqüentemente, na busca e desenvolvimento de estratégias de inclusão escolar para os estudantes excluídos por carregarem essa “marca”. E, de sobremaneira, estudar sobre a deficiência me levou a refletir sobre a própria condição humana e da diversidade como sua característica inata.“Prática reflexiva: Ponto de chegada ou ponto de partida?” Figura 6 “Em momento algum o professor pode duvidar que o ser humano é perfeito, e que tem capacidade infinita de aprender.” Fernando Savater “O aluno reflexivo gerencia seu estudo porque o professor tenta formá-lo como indivíduo autônomo.” Isabel Alarcão CAPÍTULO V - EDUCAÇÃO INCLUSIVA E AS EXPERIÊNCIAS DOS PROFESSORES DA ESCOLA MUNICIPAL LEÔNIDAS SOBRINO PÔRTO / RIO DE JANEIRO Este capítulo refere-se à apresentação e análise dos dados de meu estudo. No que se refere ao material e aos procedimentos de coleta de dados, foram realizadas entrevistas semi-estruturas com os professores da escola de ensino fundamental da rede pública, Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto, localizada no bairro de Bangu, na cidade do Rio de Janeiro, focando questões ligadas à estruturação e organização da escola inclusiva. 143 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Considerando os elementos que apóiam o entendimento da prática dos professores na escola inclusiva com base na reflexão proposta por Adorno, destaco os objetivos deste estudo que se constituíram nos seguintes: • Caracterizar uma escola pública inclusiva, no município do Rio de Janeiro, em seus aspectos político-administrativos, de acessibilidade física, pedagógica e as atitudes dos professores frente à inclusão escolar de estudantes com necessidades educacionais especiais; • Descrever a formação dos professores de uma escola pública, no município do Rio de Janeiro, considerando seus aspectos acadêmico-profissionais relativos à educação inclusiva e às necessidades educacionais especiais dos estudantes; • Identificar na formação dos professores os elementos relativos ao atendimento da diversidade dos estudantes com necessidades educacionais especiais na escola pública. E, com os objetivos estabelecidos, elenquei as questões que foram investigadas, a seguir: • A formação de professores (inicial e continuada) tem contribuído para/na organização de escolas inclusivas? • Os desafios postos à organização de escolas inclusivas estão presentes no processo de formação dos professores, tanto inicial quanto continuada? • Quais os elementos presentes no processo de formação inicial e continuada dos professores que dificultam a organização de escolas inclusivas? • Como enfrentar (ou mesmo superar) pela formação crítico-reflexiva os obstáculos postos à inclusão de educandos com necessidades educacionais especiais na escola? • As experiências vividas pelos professores, tanto profissionais quanto acadêmicas, têm contribuído para a organização de escolas inclusivas? De que maneira? • Como os professores podem ser apoiados em seu processo formativo para tornar possível a organização de escolas inclusivas? 144 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Na elaboração deste estudo, considerando seus objetivos e as questões investigadas, foram utilizados os seguintes instrumentos de coleta de dados, por mim aplicados junto aos sujeitos participantes do estudo, tais como entrevistas semi-estruturadas e questionários abertos. Inicialmente foram realizadas visitas semanais, durante aproximadamente três semanas, onde busquei uma aproximação do locus da pesquisa e dos sujeitos que lá atuam. No estabelecimento do primeiro contato, elaborei um questionário onde investiguei os aspectos acadêmicos e profissionais da formação dos professores (ver anexo 1), visando estabelecer o diálogo com os mesmos. Vale destacar que os professores escolhidos como participantes da pesquisa foram indicados pela direção da escola. As entrevistas semi-estruturadas foram realizadas com vistas à caracterização do atual processo inclusivo e seus desafios, tais como as barreiras atitudinais, físicas e os estereótipos. Essas entrevistas ocorreram no horário em que as professoras encontravam-se na escola, em dias diversos, ao longo de três semanas, na sala dos professores. O mote inicial para as entrevistas estruturadas foram as respostas dadas ao questionário de levantamento inicial. Recorrentemente, ao se analisar as narrativas das professoras questões não exploradas durante as entrevistas iniciais emergiam, provocando assim a necessidade de se realizar outras que pudessem explorar contextos antes não esclarecidos. Aproximadamente, pude realizar e analisar os textos discursivos dessas entrevistas ao longo de dois meses. Além das entrevistas semi-estruturas com as professoras, pude também realizar posteriormente entrevistas com a diretora adjunta da escola, para investigar os aspectos referentes à estruturação e organização da escola, a percepção do trabalho dos professores pela direção escolar e o relacionamento interpessoal entre professores, estudantes deficientes e direção, dentre outros aspectos. Essas entrevistas ocorreram ao longo de aproximadamente duas semanas, na escola, mais precisamente na sala da direção, nos horários onde a diretora encontrava-se menos ocupada com as questões da gestão da escola. Esta pesquisa, obrigatoriamente, transitou de maneira crítico-reflexiva por questões acerca da formação de professores para a organização de escolas inclusivas, democráticas e para a inclusão de estudantes com necessidades especiais. Para tal, me apropriei de categorias adornianas para analisar as narrativas das professoras decorrentes dessas 145 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto questões, tais como: educação para a sensibilização, educação para emancipação, educação para o desenvolvimento da consciência verdadeira, educação política, dentre outras. Dessa forma, quanto à caracterização da pesquisa em relação ao seu procedimento teórico- metodológico posso afirmar de maneira enfática que a própria teoria foi o método adotado, tanto na organização dos procedimentos de coleta de dados, quanto na avaliação desses mesmos dados. 1. A FORMAÇÃO DOS PROFESSORES DA ESCOLA MUNICIPAL LEÔNIDAS SOBRINO PÔRTO/ RIO DE JANEIRO Caracterização da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto: sua história no atendimento aos estudantes deficientes A Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto, fundada em 1972, apresenta uma importante história no que se refere ao atendimento de estudantes deficientes na região. A diretora19 da escola, professora Joana20, afirmou que tudo começou com a chegada de muitos pedidos da comunidade para que a escola criasse um espaço para o atendimento dos estudantes deficientes. À época, a escola encaminhava os responsáveis por esses estudantes à Coordenadoria local (Conselho Regional de Educação), chamado naquele tempo de DEC. Entretanto, esses mesmos responsáveis retornavam à escola, com a resposta de que a mesma é que teria a responsabilidade e a autonomia para a criação das salas especiais para o atendimento escolar de seus filhos. Então, a partir dessa demanda a escola resolveu utilizar um laboratório de ciências para o atendimento dos estudantes deficientes, que naquele momento eram apenas estudantes com deficiência mental. No turno em que o laboratório não era utilizado, a classe de retardo mental, como era então denominada, utilizava o laboratório como sala de aula. Contudo, como o laboratório não era o melhor espaço para esse atendimento escolar, houve a necessidade de se encontrar um outro local. 19 A escolha pela diretora parao entendimento das questões referentes à organização da escola se deu basicamente por dois motivos: o primeiro devido à sua presença diária no convívio escolar, o que não é possível aos professores, em sua maioria, e o segundo devido à perspectiva de quem está acompanhando as transformações na escola como gestor, ou seja, mais ampla e descritiva. 20 Todos os sujeitos deste estudo foram identificados por pseudônimos. 146 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Em 1987, aproximadamente, a escola resolveu adaptar um antigo almoxarifado para organizar uma sala de aula para estudantes especiais. A demanda por educação por parte dos estudantes deficientes foi aumentando, visto que as famílias passaram a não “esconder” seus filhos do convívio social. A adaptação do almoxarifado deu-se somente com a construção de um banheiro e a colocação de algumas carteiras e cadeiras, onde a sala não comportava mais do que seis conjuntos destas. A sala de aula especial ficava no último andar de um prédio com quatro andares, sem rampa, sem elevador e sem corrimão. Nessa época, a escola tinha uma classe especial de deficientes mentais. Depois, no ano de 1990 aproximadamente, a escola passou a ter também uma classe especial de deficientes visuais e uma sala de recursos para deficientes visuais, que funcionavam em horários diferentes. Essa estruturação foi narrada pela diretora, professora Joana, da seguinte maneira: “Quando eu ingressei aqui na Leônidas, ela já tinha turmas com alunos especiais. Naquele momento tínhamos deficientes visuais e deficientes mentais. Eu, inclusive, em certa ocasião fui convidada pela diretora da época a fazer uma dupla regência21 numa turma de crianças com retardo mental. Nunca tinha trabalhado com essas crianças antes. Fiquei quase que imobilizada na hora. Entretanto, a diretora me concedeu um período de experiência de um mês. Caso não me adaptasse eu poderia largar a turma. A experiência foi incrível. Fui muito bem acolhida pelas famílias desses alunos e desenvolvi um afeto tão grande por eles que no ano seguinte a turma novamente foi minha, e não mais em caráter de dupla regência.” Na fala da diretora está presente a idéia de que não houve uma capacitação prévia ou mesmo aperfeiçoamento dela para atuar junto às turmas especiais. Ou seja, o trabalho que foi desenvolvido por ela, e provavelmente por todos que a antecederam na tarefa de escolarizar os estudantes deficientes, se deu com base na experimentação, no empirismo e nos diálogos entre os professores novatos e os experientes, que conviveram com esta realidade na escola anteriormente. Ela destaca ainda que a capacitação ocorreu concomitante ao trabalho com os estudantes deficientes, e foi promovida pela Secretaria Municipal de Educação, com cursos, palestras e seminários. 21 Significa hora extra. 147 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto O fato que é atribuído hoje como marco do surgimento da proposta inclusiva na escola, a transformação do almoxarifado em sala de aula para os estudantes deficientes. Á época, deviam existir outras escolas que também desenvolviam estratégias similares a que a Leônidas adotou, muito poucas, segundo relato da diretora. Em geral os estudantes deficientes eram atendidos em escolas especiais. O fato que desencadeou o surgimento da proposta inclusiva na escola estudada foi a sensibilização da equipe pedagógica pela necessidade de atendimento educacional dos estudantes deficientes. O movimento de inclusão escolar de deficientes se fortaleceu na Escola com a entrada da professora Edna, que se predispôs a desenvolver estratégias de inclusão para os deficientes visuais. Ela é um marco na história do acolhimento de estudantes com deficiências na Escola. Com a proposta de atendimento especializado a deficientes visuais, a Escola se tornou reconhecida na localidade pelo importante trabalho que desenvolve com esses estudantes. Sua formação se deu em sociologia, com pós-graduação em educação especial. Segundo relato da diretora, a Escola foi reformada e adaptada para receber os estudantes deficientes graças à iniciativa da professora Edna: “Nossa escola, antes da reforma conseguida pela professora Edna, era bastante diferente. Você a conheceu? Era um prédio grande, com problemas de infra-estrutura. Ela desejava ter uma sala de aula totalmente reestruturada para os estudantes deficientes. Então, resolveu mandar um e-mail para o prefeito. Descreveu nossa realidade e foi atendida. Isso mesmo. O prefeito atendeu sua solicitação e hoje temos essa escola maravilhosa. E obtivemos não só uma sala, mas todo o prédio adaptado para receber os estudantes deficientes.” Ou seja, a professora Edna buscou apoio institucional para que a escola tivesse as barreiras arquitetônicas minimizadas ou excluídas, para melhor atendimento das demandas dos estudantes deficientes. Com a reforma foi criada mais uma sala especial para atender os estudantes com deficiência visual. As barreiras arquitetônicas na Escola foram minimizadas, possuindo banheiros adaptados, corrimãos, rampas de acesso à Escola e elevador para a plena acomodação dos estudantes deficientes, como verificado no anexo 1. 148 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto A Escola passou, então, a ter três classes especiais, sendo uma para estudantes com deficiência mental e duas para estudantes com deficiência visual, e mais uma sala de recursos. A inclusão escolar de deficientes na Escola A Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto tem hoje 890 estudantes, dos quais 38 são deficientes, o que corresponde a, aproximadamente, 4,3% do número total de estudantes da Escola. Os estudantes deficientes apresentam deficiência visual, mental e auditiva. Alguns casos mais comprometidos de estudantes com deficiência visual apresentam também associada à primeira, deficiência mental. Quanto à distribuição desses estudantes por deficiência, os mesmos se apresentam como observado no gráfico a seguir: men com Caracterização dos tipos de deficiências apresentadas pelos estudantes incluídos em classes regulares na Escola Municipal Leônidas Sobriño Porto 14 1 23 Deficiência visual Deficiência mental Deficiência auditiva Gráfico 5 Quanto à caracterização dos atuais estudantes que constam da categoria deficiência tal, a diretora informa que estão incluídas nela algumas síndromes. Sobre os estudantes deficiência visual, eles foram identificados se eram cegos totais ou com baixa visão. A 149 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto seguir, apresentamos a tabela com a distribuição, por série, dos estudantes deficientes, matriculados em classes inclusivas: Série Deficiência visual Deficiência mental Deficiência auditiva Jardim 1 (cego) 1 - Período final do 1º ciclo de progressão 1 (cego) - - Classe de progressão - 2 - 3ª série 3 (cegos) - - 5ª série 2 (cego e baixa visão) - - 6ª série 2 (cego e baixa visão) - - 7ª série - 2 - 8ª série 1 (baixa visão) 1 1 Tabela 4 – Distribuição dos estudantes deficientes, por tipo de deficiência, nas séries das classes inclusivas da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto. Vale destacaralguns aspectos importantes. No jardim, o único estudante identificado como deficiente mental (Tabela 4), apresenta Síndrome de Down. Em uma das turmas de 5ª série há um estudante deficiente físico (usa cadeira de rodas) matriculado. Contudo, o mesmo não freqüenta a Escola, pois as salas de aula estão situadas nos andares superiores e o elevador encontra-se quebrado desde 2005. O referido estudante foi matriculado em 2006, residindo próximo à Escola, em uma instituição de atendimento especializado a crianças deficientes. A Escola comunicou o fato, por várias vezes à Coordenadoria Regional de Educação, ficando resolvido esse estudante deveria ser transferido para uma outra escola (térrea) situada próxima à Escola Municipal Leônidas, até que o problema do elevador pudessse ser resolvido. Quanto à seriação se apresentar de maneira diferente para a 2ª série, identificada como período final do 1º ciclo de formação e a existência de uma classe de progressão, isso se deve à proposta de organização em ciclos das escolas da rede municipal do Rio de Janeiro, como foi esclarecido pela diretora. Na realidade, o 1º ciclo do ensino fundamental acabou por extinguir a classe de alfabetização, a 1ª série e a 2ª série do ensino fundamental. 150 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Vale esclarecer que o 1º ciclo de ensino fundamental está dividido em período inicial, período intermediário e período final, tendo a duração de três anos. Porém, de acordo com o desempenho do estudante, ele poderá avançar sem ter que necessariamente cursar os três anos. Convém destacar que dentro do ciclo não existe reprovação, mas o estudante que chegar ao período final do ciclo sem se alfabetizar, cursará a classe de progressão. Portanto, na Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto coexistem o sistema de ciclos com a seriação. A dicotomização: classe inclusiva versus classe especial A proposta de inclusão da Escola estudada admite a existência de classes especiais e de classes inclusivas. Sobre essa organização a diretora, professora Joana esclareceu que: “Na nossa escola nós temos três classes especiais. Elas existem para que os estudantes sejam preparados, para então, quando possível, serem inseridos nas classes inclusivas. Contudo, nem sempre isso se efetiva. Temos casos de estudantes bem comprometidos que ficam nessas classes durante muito tempo. Temos um exemplo de uma estudante que decidiu sair da escola e a família acatou sua decisão. Sabemos a dificuldade que ela encontrará, mas não podemos ir contra a vontade da família. Para esses casos o maior ganho é a socialização destes estudantes.” Quando foi perguntado sobre a possibilidade de inclusão desses estudantes mais comprometidos, a mesma afirmou que: “Devido ao grau de comprometimento de alguns estudantes ser grande, como havia dito, estes muito dificilmente serão incluídos em turmas comuns. Temos outros estudantes que já conseguem. A maioria dos estudantes com deficiência visual é incluída.” A distribuição de estudantes nas classes especiais se apresenta da seguinte maneira: 8 estão na classe que a escola denomina de retardo mental, que identifico neste estudo como deficiente mental, e 13 estão na classe de deficientes visuais. Alguns casos dos estudantes com deficiência visual estão combinados com outros tipos de deficiência, como síndromes e déficits cognitivos, como relatado anteriormente. 151 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Quando perguntado sobre a existência dessas classes, da maneira como elas se apresentam não segregariam esses estudantes, a diretora, professora Joana, afirmou não perceber dessa maneira, dizendo que: “Na verdade não consigo enxergar a existência destes espaços como locais de segregação, como você indaga. Penso que para estes estudantes é o melhor a ser feito, uma vez que suas necessidades educacionais são atendidas nesses espaços. E, de qualquer maneira eles têm o convívio na escola com os demais estudantes não deficientes.” Sobre essa questão, esclarece-nos Glat & Nogueira (2002, p. 37) que: O modelo segregado de Educação Especial passou a ser severamente questionado, desencadeando a busca de alternativas pedagógicas para a inserção de todos os alunos, mesmo os portadores de deficiências severas, preferencialmente no sistema regular de ensino. Considerando a concepção das referidas autoras, manter esses estudantes mais severamente comprometidos nas classes especiais, é reproduzir a mesma lógica da exclusão presente nas instituições especializadas. No entanto, a diretora destaca como positivos alguns aspectos atribuídos às classes especiais, como a seguir: “Essas turmas são muito queridas pelos alunos e professores. É comum vermos alunos que pedem para sair da sala de aula para ir ao banheiro ou beber água e que ficam na porta expiando os estudantes deficientes em suas atividades pedagógicas. Nossos professores também. Quando podem dão uma fugida para observar o trabalho que é realizado nessas turmas. É impressionante como a escola se mobiliza em torno do trabalho com os deficientes. Eles são muito queridos. Em nossas atividades pedagógicas coletivas todos participam juntos, estudantes incluídos, estudantes das classes especiais e os demais estudantes da escola. Um exemplo disso é nossa festa junina. É uma grande festa! Todos querem ajudá-los. O convívio é muito harmonioso.” Isso de alguma forma apresenta um alento, uma vez que existem momentos de convivência coletiva entre todos os estudantes. Não é o ideal, mas é o possível. Quando indaguei sobre a percepção dos demais estudantes sobre os colegas da classe especial, a diretora foi enfática: 152 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto “Eles não são vistos com estranhamento pelos demais alunos, até porque existem alunos incluídos na maioria das turmas da escola. Eles se sentem curiosos. Querem saber o que fazem em suas salas. O clima é de muita tolerância. Nossos professores procuram reforçar essa idéia.” Penso que nesse ponto cabe empreender a crítica. É compreensível o movimento que a escola realiza de manter classes especiais para a posterior inclusão nas classes comuns dos estudantes deficientes. Contudo, a maneira como se apresenta a realidade da escola não me parece que seja a mais adequada. Penso que estudos deveriam ser realizados para que se oportunizasse o convívio entre esses estudantes mais comprometidos, com os menos comprometidos e com os demais estudantes. Quanto a isso, o pensamento de Costa (2005, p. 77), nos provoca a reflexão, pois: A ênfase nos aspectos clínicos e/ou patológicos das prováveis necessidades especiais ou deficiências sempre justificou a retirada da escola regular das crianças e adolescentes considerados especiais ou deficientes, reforçando as chamadas classes especiais e instituições especializadas, essas sim, legítimos espaços de segregação e de negação da liberdade humana, uma vez que reforçam a concepção da diferença – no caso, a deficiência – como desigualdade, incompatível com a escola regular e a sociedade burguesa de cultura homogênea dominadora. Portanto, é incompatível a idéia de uma escola inclusiva onde espaços de segregação sejam efetivados e mantidos, sob quais argumentos forem, inclusive como sendo de espaços adaptativos transitórios. O Projeto Político-Pedagógico da Escola Outro aspecto importante da Escola é que, embora existauma proposta inclusiva objetivada pelas ações da equipe pedagógica, não existe um Projeto Político-Pedagógico formal, ou seja, não existe de fato por escrito. Quanto a isso, esclarece a diretora: “Nossa escola como você pode ver, tem uma proposta inclusiva. No entanto, nós ainda não nos reunimos para escrever o nosso Projeto Político-Pedagógico. Todos nós temos clareza dele em nossas ações, mas infelizmente ainda não conseguimos formalizá-lo.” 153 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Penso que o movimento de formalização do Projeto Político-Pedagógico se constituiria em um importante espaço de debate e reflexão das práticas que se instituíram em torno da proposta inclusiva da escola. Inclusive, o debate acerca da proposta da classe especial e a sua efetivação como espaço de segregação poderia ser contemplado nas análises realizadas. A questão do preconceito na Escola A diretora esclareceu que a manifestação do preconceito não é perceptível na escola, tanto por ela quanto pelos professores, o que foi confirmado por uma professora que assistia à entrevista, ou seja, atitudes preconceituosas contra os estudantes deficientes da escola, ao afirmar que: “Nossa escola tem uma história no atendimento aos estudantes deficientes. Talvez, lá no início do atendimento, esse tipo de sentimento fosse presente. Contudo, hoje posso lhe afirmar com convicção que eu não percebo atitudes ou ações, sejam de alunos, professores ou qualquer outro indivíduo pertencente ao convívio de nossa escola, que depreciem os estudantes deficientes. Como já havia dito, o sentimento de tolerância, de harmonia, de equilíbrio estão sempre presentes. O que geralmente acontece com um professor novo na escola ao entrar numa sala com estudantes deficientes incluídos é se assustar, mas não de ter atitudes preconceituosas. Estamos ali para dar o apoio que ele precisa.” Como é percebido na fala da diretora, professora Joana, devido ao atendimento oferecido aos estudantes deficientes ser de longa data, hoje o sentimento de respeito às diferenças é uma constante no convívio escolar. Penso ser ingênuo pensar que não exista nenhum tipo de atitude que revele preconceito. Entretanto, penso que em dimensões pequenas. O debate promovido pelos professores em torno das questões inerentes às limitações presentes na deficiência deve ser um importante aliado no desenvolvimento do sentimento de solidariedade e acolhimento entre os estudantes, deficientes e não deficientes e seus professores. 154 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Na entrevista realizada com as professoras participantes deste estudo observaremos, mais à frente, que a professora Marta revela que muitas atitudes preconceituosas foram vencidas, em seu entender, no convívio com os estudantes deficientes. E, é exatamente isso que penso que possibilitou o desenvolvimento do sentimento de acolhimento e solidariedade na diversidade da Escola estudada, considerando o que Crochík (1997, p. 15), nos esclarece, pois: (...) é preciso dizer que a diferença não é necessariamente fruto do preconceito, pois, quando ela é reconhecida como essência da humanidade, e não como exceção da regra, permite a própria elaboração do conceito. A parceria família-escola: um estreitamento do diálogo entre professores e estudantes com deficiência Um elemento que considerei importante para caracterizar a Escola foi a participação das famílias dos estudantes deficientes e a sua presença no cotidiano pedagógico. Sobre essas questões nos esclareceu a diretora, afirmando que: “Os pais de nossos alunos deficientes são muito presentes. Como você pode ver, a entrada de nossa escola é muito pequena. Os pais dos alunos deficientes são os primeiros a chegar para apanhar seus filhos. Nós não permitimos que os pais aguardem neste espaço seus filhos, pois não cabem todos. As exceções são os pais dos estudantes deficientes. Você sabe que nunca nenhum responsável questionou porque eles aguardavam dentro da escola?” Ou seja, a própria comunidade escolar entende as necessidades advindas da deficiência, e o sentimento de aceitação da diferença acaba por transpor os muros da escola, como destacado pela diretora, assim: “Esses pais são muito presentes. Em todas as atividades festivas da escola eles estão lá. É impressionante como se mobilizam. Fazem questão que seus filhos estejam participando das atividades coletivas. É uma graça!” 155 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto É possível perceber nas palavras diretora que os pais dos estudantes deficientes não medem esforços para a inclusão escolar e social de seus filhos, sendo esse um comportamento recorrente na Escola, como por ela afirmado; “Você me fez uma pergunta muito interessante. Eu não tenho como saber como chegam os estudantes deficientes aqui na escola, porque cada caso é um caso. Mas sei que se integram, geralmente, bem. E, os pais são importantes aliados nessa integração. Como estão próximos querendo acompanhar o trabalho desenvolvido se tornam importantes no processo. Existem pais que ficam tão preocupados que passam o dia sentados ai na entrada da escola. Geralmente isso acontece no período de adaptação.” Além disso, é ainda esclarecido que há baixa expectativa sobre a educação dos estudantes deficientes por parte dos pais, segundo a diretora, pois: “Muitos pais sequer reconhecem a importância da escolarização de seus filhos. Para eles, de maneira mais comum, o maior ganho é a socialização de seus filhos. O que querem garantir, primeiramente, é a convivência num local que eles reconhecem como sendo adequado: a escola. O que vier, além disso, será ganho secundário.” Quanto à essa concepção, eu atribuo, inicialmente, às condições sócio-econômicas e culturais desses pais, pois muitos desconhecem ou possuem pouco conhecimento sobre as deficiências de seus filhos, elaborando uma concepção acerca da deficiência geralmente atrelada à idéia de incapacidade escolar. Embora não se possa estabelecer uma relação direta entre nível sócio-econômico e nível cultural, geralmente, segundo relato da diretora Joana da Escola estudada, os pais menos favorecidos economicamente são os que cultivam idéias equivocadas sobre as deficiências de seus filhos. Entretanto, a escola apresenta um disparate muito grande em relação ao nível social dos pais dos estudantes, como relatado assim pela diretora: “Tenho algumas impressões sobre os pais dos alunos. Sei que muitos são pobres, mas seus filhos andam sempre arrumados e limpos. Temos aqui um deficiente que é filho de uma professora. Ele tem retardo mental e é o melhor de sua turma (704). Esse é um caso. Existem outros alunos que possuem família com um bom nível social e estão aqui porque nossa escola se tornou referência.” 156 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto De maneira geral, podemos sintetizar que os pais são presentes no cotidiano da escola, acreditam e ratificam a importância da escola para seus filhos deficientes. No entanto, nada foi declarado pela diretora em termos de reconhecerem na educação inclusiva a melhor forma de socialização de seus filhos. Penso que questões como essas devem ficar sob a responsabilidade da coordenação pedagógica da Escola, que devem orientar os pais sobre o que decidir em termos da melhor forma deescolarização para seus filhos deficientes. A percepção da direção sobre os estudantes deficientes na Escola Sobre a presença dos estudantes deficientes na escola estudada, a diretora, professora Joana, afirmou que: “Nossos estudantes são especiais. Todos! Deficientes e não deficientes. Os estudantes deficientes se relacionam muito bem com os que não são deficientes. Percebo eles muito motivados a virem para a escola. Aqui na escola eles são bem tratados, são respeitados, por isso se sentem estimulados a estarem juntos.” O sentimento de respeito que se desenvolveu no interior da Escola é o grande trunfo, segundo sua diretora, na convivência harmoniosa que se instalou entre todos, como destacado abaixo: “O que teria a afirmar sobre a minha visão de diretora já fiz. Acompanho a escola, seu cotidiano e fico feliz em saber que podemos desenvolver um trabalho deste tipo. Todos nós nos esforçamos muito. Existem coisas a serem melhoradas. Sempre existirá. Estamos aí para melhorar, não é isso?” Em resumo, a visão da diretora sobre os estudantes deficientes é a de que no momento está sendo oferecido o que eles conseguem desenvolver de melhor. Vale destacar que o trabalho pedagógico, no que se refere à inclusão, é todo desenvolvido pela Escola. Há uma professora na Escola que trabalha, também, na 8ª Coordenadoria Regional de Educação do Município do Rio de Janeiro, e que contribui no que se refere à organização da Escola para o atendimento das necessidades educacionais especiais dos deficientes. 157 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto A percepção da direção sobre os professores da Escola As considerações feitas pela diretora da Escola sobre o trabalho dos professores com os estudantes deficientes que atuam na Escola, levam-na a pensar na sua condição de professora. “Bom, eu sou professora também. Somos muito engajados. Todos os nossos alunos gostam dos professores. Dificilmente temos problemas com os professores que atuam em classes inclusivas. Escolhemos os que sabemos que gostam de estar naquele ambiente. Nossos estudantes se sentem muito acolhidos. E não pense você que agimos com compaixão não. Cobramos dos estudantes deficientes o que sabemos que eles podem exatamente dar de si. Não somos protetores. Um de nossos alunos deficiente visual acabou de fazer concursos para diversos locais (escolas e empresas) e passou em todos, com boa colocação. Se não existisse reserva de vaga para deficientes passaria do mesmo jeito.” Nas palavras da diretora está presente que a deficiência não é encarada de maneira comiserativa pelos professores da Escola. Para eles, segundo a mesma, deficiência não traz consigo a idéia da ineficência. Dadas às peculiaridades dos deficientes, eles são exigidos no seu processo de escolarização, mantendo-se a flexibilidade que deve ser garantida aos mesmos. A comprovação disso está, dentre outros feitos, na aprovação de um estudante em concursos públicos recentes. Sobre a relação entre os professores que tem e os que não tem estudantes deficientes incluídos em suas salas de aula, a diretora afirma que “A relação é muito tranqüila. Não existe nenhum tipo de diferenciação”. Conclusivamente, o trabalho dos professores é percebido pela diretora da Escola como sendo adequado e que eles o entendem como o melhor a fazer. No momento, nada foi afirmado em termos de capacitação e aperfeiçoamento oferecido a esses professores para atuarem em salas inclusivas, o que me levou a pensar que a diretora não teria essas informações. Sobre a formação dos professores da escola, a diretora destacou que: “Há alguns anos atrás as capacitações eram remuneradas e em horário diferente do trabalho do professor. Penso que se essas considerações não forem levadas em conta, poucos poderão participar desses encontros.” 158 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto O que me leva a concluir, com base na referida afirmação da diretora, é que os professores só se interessariam em participar do processo de formação continuada, em sua maioria, se fosse disponibilizado algum tipo de pagamento para estarem se capacitando, o que revela minimamente uma insensibilidade com relação à escolarização e atendimento da demanda dos estudantes deficientes na perspectiva da escola inclusiva. Foi afirmado também pela diretora da Escola que, no momento, o assessoramento prestado pelo Instituto Helena Antipoff do Município do Rio de Janeiro é mínimo, e que outrora teria sido bem melhor. Para finalizar, a diretora Joana faz uma crítica à proposta escolar inclusiva na atualidade, afirmando que “Para o deficiente chegar numa classe inclusiva ele tem que ser quase que normalizado”. Penso que sua afirmativa reafirma a necessidade e a importância do debate acerca da reestruturação da escola e da formação de professores para a inclusão escolar de estudantes com deficiência. Caracterização dos professores da Escola Municipal Leônidas Sobrino Porto A população–alvo da Escola se constituiu por quatro professores distribuídos da 1.ª à 8.ª série. A escolha da referida Escola se deu por dois motivos: primeiro a proposta inclusiva implementada nos leva a considerá-la um campo fértil para este estudo, e a segunda se deve à facilidade do acesso ao convívio pedagógico da escola. De imediato se faz necessário explicitar que minha pesquisa não teve intenção de fazer um levantamento quantitativo, ou seja, não reconheci, metodologicamente falando, a necessidade de estudar vários locus diferentes, o que demandaria também um tempo maior para o estudo, tempo esse que poderia ultrapassar o disponível para sua realização. Meus esforços se destinaram à análise em uma única escola, com o desejo de entender como o processo de formação dos professores da escola poderia nos apoiar no entendimento do processo e da dinâmica de outras escolas que também atuam com propostas inclusivas para estudantes com deficiência. Os professores, sujeitos deste estudo, atuam em classes inclusivas, ou seja, com estudantes deficientes em suas salas de aula. Para melhor descrição da formação dos 159 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto professores, considerando as séries que lecionam, escolhemos um professor de cada série: a primeira, das séries iniciais, professora Guida, a segunda da 4ª série, professora Eunice, a terceira da 5ª série, professora Marta, e a última da 8ª série, professora Aline. Escolhemos duas professoras de séries consecutivas, 4ª e 5ª, porque entendemos que há uma mudança considerável para o estudante que deixa o renomeado primário e ingressa no ginásio. Essa ruptura é de caráter não só social, porque passa a ser vista não mais como um ser humano infantilizado, e sim como um jovem ingressando na pré-adolescencência. 1.1. FORMAÇÃO DOS PROFESSORES: SUAS DIMENSÕES ACADÊMICAS E PROFISSIONAIS Aspectos acadêmicos da formação dos professores da Escola A seguir apresentamos uma tabela contendo a idade e o tempo de magistério das professoras, com o intuito de caracterizar de quais professoras estamos tratando: mais experiente, recém concursada, entre outras variáveis que podem contribuir no entendimento do perfil dessas professoras: Professora Idade Tempo de magistério Tempo que leciona na Escola Série que leciona Disciplina habilitada Guida 28 anos 6 anos 6 anos Séries iniciais Geografia Eunice 38 anos 20anos 11 anos 4ª Ciências Marta 48 anos 20 anos 6 anos 5ª Língua Portuguesa Aline 56 anos 38 anos 26 anos 8ª Matemática Tabela 5 – Caracterização das professoras entrevistadas que atuam em classes inclusivas da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Todas as professoras entrevistadas são formadas em nível superior em cursos de licenciatura, inclusive a professora Guida, das séries iniciais. 160 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Quando questionadas sobre a realização de cursos de extensão (formação continuada), apenas a professora Eunice afirmou ter realizado cursos desse tipo, inclusive os oferecidos pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Nenhuma professora entrevistada cursou pós-graduação. Apenas a professora Aline afirmou que iniciou uma pós-graduação de matemática, porém não o concluiu. O mesmo ocorreu em relação a cursos que abordam questões sobre educação inclusiva. A professora Eunice afirmou que só participou de encontros entre professores da rede municipal de ensino com estudantes deficientes incluídos, além de algumas palestras sobre inclusão escolar. Isso significa que, ou existe um escasseamento da oferta de cursos para professores na ativa na rede municipal do Rio de Janeiro, ou realmente não há interesse por parte das professoras na participação desses cursos. Isso nos leva ao entendimento de que a formação continuada de professores, para a inclusão de estudantes com deficiência na Escola estudada, não contribuiu para sua organização inclusiva. Em contato com representante do Instituto Helena Antipoff do Município do Rio de Janeiro, por ocasião do I Encontro do Projeto Rompendo Barreiras para a Inclusão, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, promovido em novembro de 2005, o que foi declarado em público é que há uma demanda muito maior do que o Sistema Municipal de Ensino pode dar conta. Foi afirmado também que ainda há um número de vagas anual que é oferecido para os professores que desejam capacitação quanto às questões da educação inclusiva. Entretanto, algumas oportunidades de palestras e seminários são oferecidas para a promoção do debate em torno das questões que envolvem a educação de deficientes na escola regular. Um fato interessante observado foi que todas as professoras, quando se referiram ao processo de inclusão escolar, o denominaram de integração escolar, o que realmente demonstra que desconhecem a dicotomização entre integração e inclusão escolar, inclusive discutida nesta dissertação. Quando inquiridas sobre a realização de alguma disciplina específica tratando das questões inerentes à educação especial/inclusiva ou mesmo algum debate promovido, ainda que pormenorizado, em alguma disciplina na graduação sem enfoque específico na educação especial/inclusiva, apenas a professora Marta, que não era, entre as professoras 161 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto entrevistadas, a com formação mais recente, afirmou que participou de algumas discussões, mas segundo ela, “Tudo muito diluído e generalizado”. Essas falas reforçam o que sabemos sobre a formação de professores que tem sido possível até então. Ou seja, para a escola estudada, a formação inicial também não se constituiu em determinante no atendimento das necessidades especiais dos estudantes deficientes e, por conseguinte, também não contribuiu inicialmente na implementação da proposta inclusiva na Escola estudada. Isso é, de maneira geral, as professoras entrevistadas, no que se refere à formação acadêmica, não tiveram a oportunidade de vivenciar um debate em torno das questões da educação de deficientes, seja para a escola especial ou para a inclusiva. Aspectos profissionais da formação das professoras da Escola Com o intuito de investigar os aspectos profissionais presentes na formação das professoras entrevistadas, que se relacionam com o atendimento das necessidades dos estudantes deficientes, indagamos às mesmas se realizaram cursos pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, e todas afirmaram que realizaram vários. Entretanto, como foi afirmado anteriormente, não chegaram a realizar nenhum na perspectiva da escola inclusiva. Vale destacar que, foi relatado pelas professoras que os cursos geralmente tinham abordagens voltadas para suas áreas de formação, ou seja, as diversas licenciaturas. Com relação ao uso de recursos didático-pedagógicos para o atendimento da diversidade dos estudantes, decorrentes de suas deficiências, percebemos um certo ‘empirismo’ subentendido nas falas das professoras. Como não possuem conhecimentos além daqueles que recebem da professora da Sala de Recursos da Escola, com uma professora especializada em deficiência visual, acabam tendo que usar como recurso pedagógico inclusivo o método de ‘tentativa acerto-erro’. Sobre esse ponto, a diretora da Escola, professora Joana, esclareceu que: “Nossos professores recebem apoio direto da sala de recursos, que é coordenada pela professora Edna. Ela dá suporte aos professores que trabalham com os alunos com deficiência visual. Quanto aos alunos com retardo mental, nós recebemos ajuda de um professor itinerante. Quanto a esse tipo de apoio, nossos professores vêem com certo cuidado e distanciamento. Eles pensam que o professor itinerante quer 162 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto determinar como eles devem agir com as crianças com retardo. Isso provoca o afastamento profissional. No final acabam acatando suas sugestões. E quanto à aluna que recebemos esse ano com deficiência auditiva, ainda estamos engatinhando com relação a este caso.” Na fala da diretora da Escola está mais que explicitado que o apoio realmente é dado pela professora responsável pela Sala de Recursos de deficiência visual, pois a relação com o professor itinerante não se constitui em uma estratégia efetiva de apoio pedagógico inclusivo para os estudantes com deficiência visual. Foi possível observar que as professoras se sentem inseguras diante das necessidades educacionais especiais dos estudantes com deficiência mental que desconhecem, e se ressentem por alguém – professor itinerante - que longe do convívio da Escola lhes visite, em certas ocasiões, para lhes ensinar como ensinar. Em relação à estudante com deficiência auditiva, como a mesma chegou à Escola neste ano (2006), ainda não foram desenvolvidas linhas de ação para seu atendimento pedagógico. As professoras esclareceram que utilizam estratégias pedagógicas como vídeos, leitura de histórias infanto-juvenis, materiais adaptados para deficientes visuais, como reglete, textos em braile, dentre outras. A professora Aline destacou o atendimento individualizado como um recurso pedagógico que possibilita atender as dificuldades de aprendizagem dos estudantes com deficiência visual. Muito interessante foi a consideração feita pela professora Marta. Ela afirmou, em sua entrevista, que a intuição é o seu melhor recurso pedagógico e que vem dando certo. Ou seja, ela se percebe como sendo capaz de atuar em uma realidade adversa, em condições de promover mudanças importantes, apesar de não possuir formação acadêmica específica para atuar com estudantes deficientes. As atitudes dessa professora afirmam a questão central desta dissertação, ou seja, que em relação ao professor, como destacado por Costa (2005, p.81), basendo-se em Hickel: “(...) o pressuposto é pensar: que marcasas marcas de uma deficiência que rotulam meu aluno impedem ou não que ele enfrente o desafio de desenvolver suas possibilidades e aprender? Como se pode desafiá- lo?”. 163 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Isso é, o professor é capaz de superar os obstáculos postos pela formação não recebida e ensinar ao estudante deficiente que ele é capaz. O movimento, portanto, é pela reflexão crítica. E, Costa (2005, p.81), conclui: Para isso, faz-se necessário pensar o ressignificado da educação dos deficientes, que pressupõe por parte dos educadores uma postura crítica em relação ao seu papel social e à própria educação especial, considerando a educação como movimento, como ação política e reflexão. A professora Marta ainda esclareceu que “Procuro dar dentro da realidade de turmas superlotadas, um atendimento mais individualizado”. A referida professora destacou também uma outra questão presente atualmente na realidade educacional do Município do Rio de Janeiro: “Como trabalhar numa proposta inclusiva, na transição em que vivemos, com um agravante que são as turmas superlotadas, com estudantes com e sem deficiência?” Isso dificulta qualquer tipo de apoio pedagógico individualizado para que o estudante deficiente se sinta acolhido e com possibilidade de ter acesso ao conhecimento na sala de aula. No final, resultam professoras, estudantes, com e sem deficiência, tentando estabelecer relação efetiva de ensino e aprendizagem. Todas as professoras afirmaram que lêem periódicos sobre educação. Entretanto, a professora Eunice destacou que somente tem acesso aos periódicos enviados pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, afirmando que alguns programas televisivos a auxiliam muito no entendimento de questões presentes no seu cotidiano pedagógico com estudantes deficientes em suas salas de aula. De maneira geral, percebi que o trabalho pedagógico desenvolvido pelas professoras da Escola estudada tem um caráter essencialmente empírico, no que diz respeito ao atendimento das necessidades educacionais dos estudantes com deficiência mental e auditiva em suas salas de aula. Foi possível observar que as professoras só se sentem capazes de incluir em suas salas de aula os estudantes com deficiência visual, uma vez que a escola possui uma professora especialista em deficiência visual, a professora Edna. O repúdio ao trabalho do professor itinerante se constitui em um obstáculo a mais para os estudantes deficientes 164 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto mentais, que por causa de dissensões entre as professoras da Escola e a professora que vai prestar o apoio necessário, acabam por interferir no atendimento das necessidades educacionais especiais desses estudantes. Vale destacar que, em não sendo objeto deste estudo a investigação do trabalho pedagógico do professor itinerante junto à escola estudada, penso que a natureza das dissensões entre as professoras não foi então aprofundada, apenas identificada, e neste estudo relatada. De maneira geral, é possível concluir que as experiências profissionais vividas pelas professoras e pelas que as antecederam na tarefa de ensinar estudantes deficientes, sem a devida formação, têm se constituído em importante elemento para a organização da proposta inclusiva da Escola estudada. Sobre esse aspecto, Ainscow (1995, p. 16), destaca que: Em cada classe os alunos representam uma fonte rica de experiências, de inspiração, de desafio e de apoio que, se for utilizada, pode insuflar uma imensa energia adicional às tarefas e actividades em curso. Ou seja, os próprios estudantes representam importante estratégia no desenvolvimento da profissionalidade dos professores. Com isso, a reestruturação da escola vem se configurando para o atendimento das necessidades educacionais especiais dos estudantes com deficiência. 2. AS CONCEPÇÕES SOBRE A ESCOLA INCLUSIVA: O QUE PENSAM AS PROFESSORAS DA ESCOLA MUNICIPAL LEÔNIDAS SOBRINO PÔRTO/RIO DE JANEIRO Nesse item penso ser importante caracterizar as idéias que as professoras entrevistadas possuem sobre a escola inclusiva. Como discutido anteriormente nesta dissertação, as idéias das professoras a respeito da inclusão escolar de deficientes interferem diretamente nas práticas pedagógicas desenvolvidas na Escola estudada. Portanto, enfatizo a importância de apresentar seus pensares sobre a organização para e na escola inclusiva. 165 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Caracterizando o que pensam as professoras sobre a escola inclusiva Inicialmente desejava entender as concepções das professoras entrevistadas sobre a escola inclusiva, com base na seguinte questão: “O que elas pensam ou sabem sobre a escola inclusiva?22”, obtendo as seguintes respostas: “Penso que é de extrema importância para a evolução do sistema educacional e a igualdade social como um todo.” (Guida) “A escola inclusiva é mais abrangente e integradora socialmente falando.” (Eunice) “A escola inclusiva deve oferecer meios de desenvolver no com necessidades todos os aspectos que facilitem a sua integração social, profissional e psicológica.” (Marta) “A mesma deve oferecer ao todos os recursos para o seu desenvolvimento integral.” (Aline) Na fala da professora Guida fica claro o seu reconhecimento de que a escola inclusiva é um passo para a promoção da diminuição das desigualdades sociais. Para a professora Eunice a escola inclusiva é apontada como um lugar onde todos têm vez, um local de acolhimento, se contrapondo à segregação social onde essa mesma escola está inserida. Para as professoras Marta e Aline seus entendimentos revelam: É na escola que a mudança pode e deve ocorrer para que os estudantes com deficiência possam realmente ter a oportunidade, de pela educação, perceberem que são capazes, rompendo o desmonorável ideológico paradigma da deficiência como incapacidade. De maneira geral, podemos perceber que é recorrente a idéia de que a escola inclusiva é uma retomada da democratização social. Portanto, uma maneira de tornar a sociedade mais justa, humana e solidária. Em outras palavras, as professoras reconhecem a importância da escola inclusiva. Quanto a isso, Costa (2001, p. 91), afirma que: A urgência de uma educação democrática e emancipadora parece constituir-se como alternativa para a superação da diferença 22 Grifo nosso. 166 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto significativa como obstáculo para o acesso e permanência na escola regular dos estudantes com deficiência e na possibilidade de se pensar em um sociedade justa e humana. Quando questionei às professores se elas se sentem preparadas para atuar em classes inclusivas23, as respostas foram diversificadas. Vejamos separadamente o que pensa cada professora: “Se tivermos o apoio (Sala de Recursos) eficiente, sim. Podemos desenvolver um bom trabalho.” (Guida). Como podemos observar na fala da professora, o sucesso do processo inclusivo está associado ao apoio pedagógico da Sala de Recursos aos demais professores. A conotação assumida pela palavra ‘apoio’ em sua resposta, está significando que a professora da Sala de Recursos é quem vaiensiná-la como lidar com os estudantes deficientes. Ou seja, ela não percebe a possibilidade de se tornar autora de sua própria prática e em diálogo/parceria com os pares desenvolver estratégias de inclusão em sua sala de aula. Na ausência da Sala de Recursos ou na presença de uma sala pouco equipada pedagogicamente, não será possível incluir estudantes deficientes. Isso é o que vai se confirmar em outra resposta sua mais adiante. Isso afirma a dimensão que discutimos no referencial teórico, quando afirmei, com base no pensamento de Adorno, que enquanto os professores não se libertarem da auto- inculpável menoridade, pouco será possível avançar no que diz respeito à formação docente para efetivação da inclusão escolar de estudantes deficientes na rede regular de ensino. Nesse ponto, esclarece-nos Glat & Nogueira (2002, p. 24), que: O professor, no contexto de uma educação inclusiva precisa, muito mais do que no passado, ser preparado para lidar com as diferenças, com a singularidade e a diversidade de todas as crianças e não com um modelo de pensamento comum a todas elas. A idéia da autora reforça o pensamento de que não se pode resumir uma prática pedagógica a um modelo único de pensamento. As diferenças demandam condições de 23 Grifo nosso. 167 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto entendimento diversificadas, operacionalizando assim o atendimento às diversas maneiras de aprendizagem dos estudantes com deficiência e sem deficiência. A professora Eunice foi objetiva em sua resposta, quanto a que se sente preparada para atuar em classes inclusivas24: “Sim, com deficientes visuais. Não, com outras deficiências.” (Eunice) Ou seja, a professora Eunice ratifica a idéia expressa na fala da professora Guida. Como na Escola onde atuam só existe uma Sala de Recursos para deficientes visuais, elas só recebem apoio da profissional dessa Sala para atender a demanda dos deficientes visuais. E, o que fazer com os deficientes mentais e auditivos? Por outro lado, a professora Marta afirmou quanto a isso, que: “Até o momento não tive problemas significativos, porém não recebi nenhum treinamento específico para tal.” (Marta). Na fala dessa professora, observamos um destaque para a instrumentalização, associada à idéia de treinamento. Embora ela não tenha tido problemas maiores, os menores puderam ser contornados com base na sua intuição relatada anteriormente, que está muito próxima da idéia de autonomia de Adorno. Essa professora se percebe capaz de buscar o conhecimento para a solução das dificuldades que se afiguram. Ela valoriza a instrumentalização porque reconhece sua importância, notadamente por essa lhe faltar. Entretanto, a possibilidade de criar, estabelecer diálogos e estudar questões, presentes em seu cotidiano, fazem parte da sua prática pedagógica. De outra parte, a professora Aline foi categórica em sua afirmação quanto a se sentir preparada para atuar em classes inclusivas: “Não!”. Foi firme na negação, porque reconhece que realmente o processo de inclusão escolar envolvem questões que estão além do simples ato de inserir um estudante deficiente em uma sala de aula com outros sem deficiência, como nos esclarece Glat & Nogueira (2002, p. 26). Assim: 24 Grifo nosso. 168 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto No entanto, vale sempre enfatizar que a inclusão de indivíduos com necessidades educacionais especiais na rede regular de ensino não consiste apenas na sua permanência junto aos demais alunos. Nesse aspecto, uma vez que foram ouvidas todas as professoras, vale apresentar meu entendimento com base nas respostas das professoras. Isso me levou a concluir que as professoras da Escola estudada não se sentem capazes de incluir os estudantes deficientes em suas salas de aula, inclusive os deficientes visuais, porque contam com uma profissional capacitada que dirige e determina o trabalho pedagógico que deve ser desenvolvido com esses estudantes. Penso que a única professora que se mostrou mais sensível à inclusão escolar dos estudantes deficientes foi à professora Marta. Considerando, inclusive, que não teve uma formação específica para isso, em sua resposta afirmou que não tinha grandes problemas porque estava sempre buscando parcerias e fontes de estudo para dar conta de sua demanda como mediadora da aprendizagem dos estudantes deficientes incluídos em sua sala de aula. Fica claro nesse ponto que não há contradição no discurso das professoras e a percepção que a diretora tem acerca do trabalho docente delas. O que acontece é que a diretora considera todas muito engajadas, mas parece desconhecer as dificuldades enfrentadas pelas professoras no processo de inclusão dos estudantes deficientes nas classes inclusivas. Glat & Nogueira (2002, p. 26), nos auxiliam no entendimento desse resultado, citando Fonseca (1995), que, em uma de suas obras, afirmou acreditar que: (...) é preciso preparar todos os professores, com urgência, para se obter sucesso na inclusão, por meio de um processo de inserção progressiva, assim eles poderão aceitar e relacionar-se com seus diferentes alunos e, conseqüentemente, suas diferenças e necessidades individuais. Porém, os professores só poderão adotar este comportamento se forem convenientemente equipados com recursos pedagógicos, se a sua formação for melhorada, se lhes for dado meios de avaliar seus alunos e elaborar objetivos específicos, se estiverem instrumentados para analisar a eficiência dos programas pedagógicos, preparados para a superação dos medos e supertições e contarem com uma orientação eficiente nesta mudança de postura para buscar novas aquisições e competências. 169 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto Ou seja, a questão da inclusão escolar de estudantes deficientes refere-se diretamente à formação que as professoras tiveram. E, a formação das professoras da Escola estudada, em sua maioria, não permitiu a postura crítico-reflexiva necessária para atuar na escola inclusiva, e mais, que nessa transição, é importante que essa capacidade esteja, mais do que nunca, latente na criação de ambientes escolares mais acolhedores, portanto democráticos. Penso que um passo importante a ser dado é oportunizar debates durante o processo de formação (inicial e continuada) dos professores. Esse é um tipo de apoio imprescindível para que se sintam balizados, na perspectiva de conhecerem teoricamente as questões a serem enfrentadas, e assim se reconheçam então preparados para o desafio que é a inclusão escolar de estudantes deficientes. A questão central da formação é permitir aos professores o desenvolvimento da consciência crítica da realidade, fazendo-os perceber que nesse estágio de transição do processo inclusivo, quem será capaz de transformar essa realidade são eles, os professores, com todos os limites presentes em sua formação e as dificuldades postas pelo sistema social, que reconhece, mas não efetiva o apoio necessário para o professor em seu movimento inclusivo escolar de estudantes com deficiência. Inclusive, defendo a idéia que esses debates deveriam ocorrer nas escolas, pois cada espaço pedagógico apresenta questões que são sazonais, e nada mais propício do que debater questões que são vividas na realidade local da escola. Sobre esse ponto, propõem Glat & Nogueira (2002, p. 27), que: A educação inclusiva,apesar de encontrar, ainda, sérias resistências (legítimas ou preconceituosas) por parte de muitos educadores, constitui, sem dúvida, uma proposta que busca resgatar valores sociais fundamentais, condizentes com a igualdade de direitos e de oportunidades para todos. Porém, para que a inclusão de alunos com necessidades especiais no sistema regular de ensino se efetive, possibilitando o resgate de sua cidadania e ampliando suas perspectivas existenciais, não basta a promulgação de leis que determinem a criação de cursos de capacitação básica de professores, nem a obrigatoriedade de matrícula nas escolas da rede pública. Estas são, sem dúvida, medidas essenciais, porém não suficientes. As políticas públicas para a inclusão devem ser concretizadas na forma de programas de capacitação e acompanhamento contínuo, que orientem o trabalho docente na perspectiva da diminuição gradativa da exclusão escolar, o que virá a beneficiar, não apenas os alunos com 170 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto necessidades especiais, mas, de uma forma geral, a educação escolar como um todo. Quero enfatizar o ponto de vista defendido pelos referidos autores. Essa capacitação e acompanhamento contínuo a que ela se refere, não podem ter como norte somente o referencial de assessoramento. Essa formação, seja inicial ou continuada, deverá ser capaz de levar os professores a se perceberem autores de sua prática, até porque não conseguiremos formar professores especialistas nas diversas deficiências. Isso é, o professor precisará ser capaz de, por si mesmo, buscar o apoio na experimentação, nos diálogos com os pares, nas pesquisas das Universidades para o enfrentamento das condições adversas que venha encontrar na estruturação/organização de sua escola com proposta inclusiva. Isso me parece que somente será possível se, pela formação crítico- reflexiva, levarmos os professores a não dicotomizarem a teoria e a prática, percebendo sua prática como teoria; se permitirem viver experiências e, principalmente, se tornarem autônomos, condição para se sentirem capazes de enfrentar os desafios da inclusão escolar de estudantes com deficientes. E, “o que pensam as professoras sobre necessidades educacionais especiais?25” Para essa questão, as professoras da Escola estudada apresentaram as seguintes respostas. “Penso que é necessário incluir sim os portadores de deficiências, a fim de contribuir para o progresso da educação.” (Guida). “Devem ser atendidas.” (Eunice). “São sempre um grande desafio. Porém, em maior ou menor grau. Sempre existem necessidades, cabe enfrentá-las com vontade de fazer o melhor possível.” (Marta). “É muito difícil para o professor enfrentar essa dificuldade. Há necessidade de uma ajuda enorme, tanto para o educador como para o educando.” (Aline). Para a professora Guida a inclusão é um movimento que está associado ao desenvolvimento/progresso da educação no país. 25 Grifo nosso. 171 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto A professora Eunice foi mais pontual na sua observação, destacando que é dever do Estado ofertar uma educação de qualidade e que atenda a todas às necessidades, sejam quais forem suas ordens, dos estudantes com deficiência. Em sua concepção, não adianta ter um sistema que atenda parcialmente a necessidade de alguém. E, se apenas alguns forem contemplados e tiverem atendimento efetivo e outros não, o sistema continuará sendo excludente. Quanto à professora Marta obtive informações preciosas. O desafio de educar deficientes sem a devida formação é apresentado por ela como primeiro desafio. Depois, ao afirmar que existem graus de necessidades, afirmou ter a compreensão de que todos necessitam de algum tipo de atendimento especializado em algum momento na vida. E, por último, apontou que para atuar com esses estudantes, é necessário querer para poder fazer o melhor. Ou seja, a efetividade da inclusão não está somente nos dispositivos legais e nos cursos de formação para essa professora, e sim na sensibilidade dos professores em reconhecer as diferenças como constituintes da subjetividade humana, promovendo o acolhimento necessário de que necessitam esses estudantes. Quanto a isso, Costa (2006, p. 6), afirma que: É importante, porém, destacar que um projeto educacional democrático inclusivo não se realizará com base apenas em leis, mas principalmente como decorrente de uma auto-reflexão crítica por parte de toda a sociedade, com ênfase nesse momento, nos professores das redes de ensino, pública e privada. A postura assumida pela professora Aline é a de entender que a inclusão escolar de deficientes não depende só dela. E, de fato isso é uma importante consideração. Não podemos perceber o professor como um “super-herói”. Entretanto, o que destaco é que cruzar os braços à espera das soluções para os problemas enfrentados na realidade escolar de cada um, não é o caminho mais viável. Dessa maneira, é o professor o agente transformador dessa realidade. Ele pode aprender a mediar e gerir situações de conflito e principalmente, ter iniciativa (autonomia) para buscar apoio quando não conseguir dar conta de solucionar as questões que se apresentem em seu cotidiano pedagógico de sala de aula inclusiva. 172 A formação de professores e os desafios para a educação inclusiva: as experiências da Escola Municipal Leônidas Sobrino Pôrto De maneira geral, as professoras se posicionaram entendendo que é imperioso que as necessidades educacionais dos estudantes deficientes sejam atendidas. Entretanto, pontuam que é um desafio esse enfrentamento. E, sobre a inclusão escolar de estudantes deficientes, a questão posta foi: “O que pensam as professoras sobre a presença e participação desses estudantes nas classes regulares (comuns)26?”, as professoras da Escola afirmaram: “Creio que é importante. Os alunos não portadores de deficiência desenvolvem valores, sentidos bons para sua formação enquanto cidadãos e seres humanos.” (Guida). “A inclusão é uma boa opção, mas deve ser feita com o cuidado de acompanhamento das necessidades.” (Eunice). “A princípio senti-me assustada, não sabia como lidar. Hoje percebo a necessidade dessa inclusão que é benéfica para todos, pois desenvolve valores positivos em todos os aspectos.” (Marta). “Acho muito bom. Dá para ver o grande desenvolvimento do que está nessas condições ao chegar ao fim do ano.” (Aline). A professora Guida reconhece que o conviver com as diferenças no cotidiano escolar vai desenvolvendo o sentimento de respeito e tolerância entre deficientes e não deficientes. É a idéia de unidade na diversidade. É o reconhecimento da condição humana que é comum a todos independente de cor, raça, sexo, deficiência, dentre outras diferenças. Penso que o reconhecimento de que a inclusão escolar é benéfica, por parte da professora Guida, é um caminho para a sensibilização no acolhimento da diversidade presente nas deficiências, e mais, no desenvolvimento da auto-reflexão crítica necessária à estruturação da escola inclusiva, por parte dos professores. Na fala da professora Eunice está claro que a inclusão escolar é importante, mas não pode ser feita isoladamente. É necessário o trabalho de apoio pedagógico ao professor para que ele também se sinta acolhido. Quanto ao acolhimento e os serviços de apoio ao professor, Glat & Nogueira (2002, p. 27), defendem que: As