Prévia do material em texto
Inserir Título Aqui Inserir Título Aqui As Diferentes Interações Sociais na Infância O Planejamento e a Organização do Tempo e Espaço na Educação Infantil Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Me. Carla Rizzo Revisão Textual: Prof. Me. Claudio Brites Nesta unidade, trabalharemos os seguintes tópicos: • O Ambiente Planejado como Projeto de Interações e dos Campos de Experiências; • O Cuidado e a Proteção das Interações Sociais para a Promoção da Autonomia; • O Tempo da Criança na Educação Infantil; • As Múltiplas Linguagens na Infância. Fonte: Getty Im ages Objetivos • Planejar a organização do tempo e espaço na Educação Infantil para o atendimento das necessidades infantis; • Atentar para as múltiplas manifestações da cultura lúdica e da infância na educação infantil. Caro Aluno(a)! Normalmente, com a correria do dia a dia, não nos organizamos e deixamos para o úl- timo momento o acesso ao estudo, o que implicará o não aprofundamento no material trabalhado ou, ainda, a perda dos prazos para o lançamento das atividades solicitadas. Assim, organize seus estudos de maneira que entrem na sua rotina. Por exemplo, você poderá escolher um dia ao longo da semana ou um determinado horário todos ou alguns dias e determinar como o seu “momento do estudo”. No material de cada Unidade, há videoaulas e leituras indicadas, assim como sugestões de materiais complementares, elementos didáticos que ampliarão sua interpretação e auxiliarão o pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois estes ajudarão a verificar o quanto você absorveu do conteúdo, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. Bons Estudos! O Planejamento e a Organização do Tempo e Espaço na Educação Infantil UNIDADE O Planejamento e a Organização do Tempo e Espaço na Educação Infantil Contextualização Para começarmos o estudo desta unidade, observe a imagem a seguir e perceba o quanto é importante a organização do ambiente na educação infantil. Perceba como essas crianças estão concentradas e trabalham tranquilamente em suas atividades expe- rimentais com o barro. Numa sociedade líquida, rápida, superficial e fugaz, o silêncio, a quietude e a con- centração não são quase cultivados e, em geral, notamos grande instabilidade emocio- nal e mental nas crianças pequenas, tornando-as agitadas, dispersas e sem concentração nas unidades infantis. O ambiente físico e as interações sociais exercem um grande impacto na maneira da criança interpretar o mundo ao seu redor. Para isso, é ur- gente formarmos educadores(as) sen- síveis e comprometidos com o desen- volvimento humano e da criança. O senso estético, a sensibilidade e a beleza devem ser resgatados e preservados, principalmente num momento histórico e social em que a relação do homem com o am- biente natural e humano está insustentável, e a natureza já está dando o seu recado por meio do desequilíbrio climático do planeta, no ritmo desordenado das estações do ano. Sim, o ritmo desordenado da sociedade líquida, globalizada e moderna, fez com que também perdêssemos a organização do nosso ritmo interno, o tempo para contemplar- mos as belezas naturais e sensíveis do cotidiano da vida. As crianças estão crescendo e, infelizmente, desenvolvendo-se em um mundo em que a segurança, a estabilidade, a proteção e o aconchego afetivo estão praticamente escassos nas relações humanas e nos espaços físicos em que habitam. Iniciamos esta quarta unidade com a seguinte afirmação provocativa do italiano Aldo Fortunati (2009, p. 39): [...] do espaço amorfo e sem história que caracteriza nefastamente a maioria dos ambientes escolares – que vem a ser o teste incontrovertí- vel da pobreza dos recursos materiais e culturais de que se dispõe para as crianças e para os educadores -, temos que passar decididamente a assumir o ambiente educacional como reserva das potencialidades que se oferecem explicitamente a seus usuários, como elemento explí- cito e permanentemente relacional no projeto das experiências, como lugar histórico e, portanto, continuamente afetado pelo impacto da memória dos acontecimentos que ocorreram no seu interior. Figura 1 Fonte: Getty Images 6 7 O Ambiente Planejado como Projeto de Interações e dos Campos de Experiências Segundo Fortunati (2009), os espaços físicos das unidades infantis devem ser pla- nejados e organizados de forma que atendam às necessidades de conforto, proteção, segurança e aprendizagem daqueles que as frequentam diariamente: educadores(as) e crianças. O espaço físico deve ser pensado como gerador das experiências infantis (campos de experiências) (BNCC, 2017) e das interações sociais. Creio que já tenha observado como você e seus alunos, ao frequentarem um ambien- te harmonioso, belo, limpo e organizado, além de acolhidos como sujeitos, sentem-se tranquilos, reconhecidos, valorizados e pertencentes a um grupo. Todo(a) educador(a) também deve procurar estudar as leis e normas que norteiam as edifi cações das unidades infantis no Brasil, bem como os documentos municipais que orientam as condições dos mobiliários, dos equipamentos, dos utensílios, dos materiais pedagógicos e dos espaços que devem ser contemplados nas unidades infantis brasileiras. Nos links a seguir, você encontrará todas as informações necessárias sobre os me- lhores equipamentos, utensílios, mobiliários, pisos, azulejos, tetos, tipos de iluminação e ventilação e tamanhos ideais para a construção e/ou adaptação dos ambientes nas unidades infantis, tais como: lactário, cozinha, fraldário, banheiro, lavanderia, vestiário, dispensa de alimentos, sala de amamentação, setor administrativo, sala dos professores, sala de recepção, salas de repouso, salas de atividades, salas de armazenamento de ma- teriais diversos, sala de brinquedoteca, pátio, refeitório, entre outros. Essas diretrizes foram pensadas por especialistas e, geralmente são inspecionadas pela vigilância sanitária com o objetivo de se evitar a contaminação cruzada, garantir segurança no setor hidráulico, elétrico e na ocupação do terreno para a garantia da saú- de, higiene e bem-estar físico, psicológico e social de todas as crianças e profissionais da unidade infantil. Clique nos links a seguir para conhecer os documentos propostos pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento a Educação: • Fundo Nacional de desenvolvimento a Educação. Manual de Orientações Técnicas v. 7. Mobiliário e Equipamento Escolar Educação Infantil, Brasília, DF, 2017. Disponível em: http://bit.ly/2MdVxKS • Fundo Nacional de desenvolvimento a Educação. Manual de Orientações Técnicas v. 2. Elaboração de Projetos e Edificações Escolares: Educação Infantil, Brasília, DF, 2017. Disponível em: https://bit.ly/31sgJ34 7 UNIDADE O Planejamento e a Organização do Tempo e Espaço na Educação Infantil Infelizmente, boa parte das creches e dos estabelecimentos infantis públicos ou parti- culares ainda não atendem, ou atendem parcialmente, às solicitações da legislação brasi- leira. No entanto, é de grande valia que você realize a leitura dos documentos para que possa sugerir ou lutar por melhores condições de trabalho pedagógico e equipamentos na sua unidade infantil. Além da constituição adequada das edificações físicas nas unidades infantis, o(a) educa dor(a) necessita conhecer como pode planejar os espaços internos e externos dos ambien tes. Diariamente, na chegada da unidade infantil, a criança precisa ser recebida e acolhida num espaço organizado, de forma que possa interagir em cantos de interesses ou em es paços mais amplos, para brincadeiras que requerem maior mobilidade e que permitam o encontro com crianças de outras faixas etárias. Figura 2 Fonte: Getty Images Fazse necessário organizar ambientes acolhedores e tranquilos, dentro e fora das ativida des dos projetos, que proporcionem e facilitem as trocasde experiências em pequenos gru pos de crianças. Isso facilitará ainda a sua interação com elas, limitando as interferências sobre a habilidades de atenção e concentração, permitindo que possa observálas através da realização de registros avaliativos. Figura 3 Fonte: Getty Images Também é importante você planejar espaços para as situações de interação de aten- dimento pessoal, respeitando o tempo de cada criança. Segundo Fortunati (2009), nos ambientes, a segurança e os estímulos visuais ou sonoros devem favorecer a uma realida- de mais acolhedora e próxima da esfera familiar. É importante que o(a) educador(a) não abuse dos estímulos perceptivos ou sensoriais, invadindo tudo com cores e objetos . Evite 8 9 o ruído ou as músicas altas, a fim de que a criança possa agir conforme seu interesse pessoal, grau de concentração sobre os objetos e observar suas próprias sensações, sem se ver continuamente distraída por novos estímulos. O espaço também deve garantir momentos de referência estável em relação a alguns afazeres do dia, “ritualizar uma rotina”, para que a criança se conscientize das suas pró- prias necessidades interiores, como: a hora do descanso, do sono, da higienização, da alimentação, das atividades individuais ou coletivas, das brincadeiras e jogos. Fortunati (2009) também orienta que os espaços destinados aos jogos e às brinca- deiras infantis devem ser diferenciados e separados, com objetos e adereços para que as crianças possam identificar e escolher se desejam brincar sozinhas ou na companhia dos adultos ou de outras crianças. Na unidade infantil, em espaços variados, os jogos de construção, os jogos de faz de conta, simbólicos ou de ficção, os jogos e as brincadeiras tradicionais devem ser propostos e aliados aos diversos materiais reciclados que necessitam de uma atividade exploratória, criativa, tais como acontecem no brincar heurístico ou cestos de tesouros. O que é o brincar heurístico? Atualmente, ele é muito difundido nas unidades infantis de todo o Brasil. Convidamos você, a assistir o vídeo Mostra 2018: Brincar Heurístico, o que é isso? – CEI Encantada, disponível em: https://youtu.be/o88SjIwqwA Obs.: esse vídeo será usado no processo avaliativo das atividades de sistematização. É fato que a Educação Infantil é um lugar de relacionamentos sociais e que essas inte- rações estão muito ligadas ao contexto da organização dos espaços. Para Rizzo (1996), a educação infantil deve ser um espaço que favoreça situações em que a criança possa manifestar suas impressões, sentimentos, vontades e ideias, por meio de conversas, jogos e brincadeiras. Nesse espaço, situações de grupo favorecem essas manifestações; é fundamental o papel do grupo na vida da criança. A educação infantil é um espaço privilegiado voltado para a socialização da criança. Nela, a criança aprende a conviver com outras crianças da mesma idade, com crianças mais experientes e com adultos, o que significa realizar, permanentemente, atividades em grupo. Durante as horas que passam juntas, explica Rizzo (1996), nos diversos espaços da unidade infantil – brincando na areia, montando quebra-cabeça e outros brinquedos, ob- servando a horta e outros objetos, organizando os materiais da caixinha (tesoura, cola, lápis etc.), tomando lanche no salão –, as crianças se tornam mais conscientes da sua própria pessoa, aprendem a ouvir, a expressar suas ideias, a dividir materiais, tarefas e esforços. Segundo Wallon (1979, p. 66), no grupo, a criança poderá “adquirir gradual- mente o sentimento de que a personalidade é polivalente e, por conseguinte, mais livre. É uma entre outras, e suscetível de entrar em combinações variadas modificáveis”. É nos grupos que a criança entra em contato com as normas estabelecidas e percebe que essas devem ser cumpridas. As normas, explica Wallon (1975), forçam a criança a regular seus impulsos e ações; obrigam-na a olhar para o outro e notar que, no mundo, as pessoas nem sempre respondem a seus desejos e expectativas. 9 UNIDADE O Planejamento e a Organização do Tempo e Espaço na Educação Infantil Para Wallon (1975), o grupo de brincadeira, de trabalho, é indispensável na vida da criança, porque a introduz na aprendizagem das práticas sociais e a ajuda a tomar cons- ciência de si mesma e do outro. Convidamos você a refletir sobre as imagens, sons, pensamentos contidos no vídeo Ca- ramba, Carambola: o Brincar tá na Escola. Disponível em: https://youtu.be/_lQWGDV81Vs Obs.: esse vídeo será usado no processo avaliativo das atividades de sistematização. Encerramos esta parte de nossa reflexão com o pensamento de Wallon (1968, p.131): “a criança só tem a oportunidade para explorar o meio através da intervenção daqueles que a rodeiam”. Cabe ao adulto, especialmente ao educador, criar oportunidades para a criança conhecer a si mesma e ao outro, através de ações pedagógicas intencionais e significativas, nas várias ressignificações do tempo e espaço infantil. O Cuidado e a Proteção das Interações Sociais para a Promoção da Autonomia Dando continuidade à nossa análise, é importante que o(a) professor(a) perceba que a organização da rotina, do tempo e do espaço na unidade infantil imprime ritmo e significado emocional à vida da criança que frequenta o estabelecimento educacional. Esses fatores organizacionais só surtirão efeito se o relacionamento afetivo entre o(a) educador(a) e os outros adultos da unidade infantil acontecerem de forma positiva com as crianças. O meio físico protegido, seguro e organizado, explica Rizzo (1996), favorece à segu- rança que a criança necessita para ser menos dependente do adulto e desenvolver sua capacidade de autonomia. Outra questão que contribui para a criança avançar em seu processo de independên- cia emocional e autonomia é a capacidade de conseguir descentrar do seu eu e adminis- trar as diferenças entre ela, seus pares e os adultos. Figura 4 Fonte: Getty Images 10 11 O campo de experiência o eu, o outro e o nós proposto na BNCC (2017) tem como base as interações que a criança estabelecerá consigo mesma, seus pares e adultos nas uni dades infantis? Convidamos você a compreender esses movimentos interacionais da criança com o seu meio social na educação infantil, acompanhando as ideias de Rizzo (1996) e Wallon (19681967). A educação infantil é um local precioso para as crianças aprenderem as práticas sociais. Segundo Rizzo (1996), a necessidade de expressar a sua pessoa por meio do pronome eu e de combater com veemência as sugestões e os limites estabelecidos pelo outro têm a sua origem no desejo de eliminar a confusão inicial (simbiose afetiva – ex- pressada desde o nascimento) em que se encontrava a personalidade infantil e assegurar o espaço para o seu processo de autonomia e independência. É na relação com os objetos, o espaço e o outro que a criança vai adquirindo compre- ensão acerca da sua própria personalidade e chega à distinção dos outros e dos objetos, começando a trilhar o longo processo de construção do eu, explica Rizzo (1996), um processo originalmente social. Ainda segundo Rizzo (1996), para afirmar o seu eu, a criança necessita ser reconhe- cida por aqueles pelos quais sente afeição. A oposição, a imitação e idade da graça são posturas que revelam a sua afetividade. Para compreender como se desenvolve o processo de autonomia na educação infantil, con vidamos você para assistir o vídeo Identidade e Autonomia. Disponível em: https://youtu.be/hDba0NLZuC4 Obs.: esse vídeo será utilizado para o processo de avaliativo de sistematização desta unidade. Segundo Rizzo (1996), o relacionamento da criança com os colegas e educadores(as), geralmente, é de proximidade e afeto, evitando ficar longe deles. Dos 3 aos 5 anos, as crianças vão se tornando cada vez mais independentes com o advento do andar e da fala, já mudam de espaço sem tanto depender da presença dos(as) educadores(as), ex- ploram e conhecem situações desconhecidas. Ainda mostram forte ligação com os(as)educadores(as) e, quando se sentem assus- tadas ou inseguras com alguma situação, é comum as crianças agarrarem-se, ficarem muito perto ou pedirem colo quando amedrontadas ou inseguras. Por isso a necessidade de planejarmos os espaços e as atividades pedagógicas com cuidado, uma vez que as crianças ainda estão em pleno processo de fortalecimento da personalidade. No pátio, na sala de aula, nos corredores, geralmente, estão acompanhados por co- legas e, às vezes, chegam a andar em grupos. Tal postura é própria da faixa etária dos 3 aos 5 anos ou devido às afinidades; para Wallon (1968), é devido à necessidade de ficarem próximas, buscar contato e proteção. 11 UNIDADE O Planejamento e a Organização do Tempo e Espaço na Educação Infantil Figura 5 Fonte: Getty Images Segundo Wallon (1968, p. 219), dos três anos até os cinco, a criança “pode dar pro- vas de autêntico altruísmo, não só partilhando com outras os seus divertimentos, mas também sofrendo, em benefício de outro, um dissabor ou uma privação”. A diretora de uma creche escuta um certo diálogo entre crianças de 3 a 4 anos que caracteriza bem o que estamos descrevendo aqui. Uma dessas crianças, chamada Léo, em fase de adaptação, chorava muito pelo pátio e salão e alguns de seus colegas procu- ravam consolá-lo, dizendo: – Não chora, amigo, a mamãe já vem vindo. A gente fica pertinho de você, tá? Outra criança passava a mão na cabeça de Léo, tentando consolá-lo: – Coitadinho, vai passar. Não chora, eu vou chamar a diretora. Figura 6 Fonte: Getty Images São fortes os laços de amizades com os colegas do grupo: as meninas tendem a brin- car com as meninas, e os meninos, com meninos. Já é possível observar a formação de vínculos individuais com o melhor amigo. As crianças da educação infantil, explica Rizzo (1996), costumam andar sempre juntos, quase grudadas, no pátio, nas atividades. Em algumas situações, “o melhor amigo(a)” oferece segurança para a criança se lançar à descoberta de novos espaços ou enfrentar algo desconhecido. Os amigos acabam por resolver um problema que, sozinhos, não conseguiriam. 12 13 Na relação criança/criança, explica Rizzo (1996), existe muita troca de ideias, vivências, uma criança acaba dando pistas para a outra e, assim, vão se conhecendo e desenvolvendo suas capacidades cognitivas. Quando as crianças começam a conversar, juntar e separar as peças de um jogo, elas partilham ideias, objetos e, principal mente, conhecimento. O altruísmo, a cooperação, a amizade fazem parte das práticas sociais na educação infantil, assim como o ciúme, a competição e o confronto. Frequentemente, explica Rizzo (1996), nas unidades infantis, presenciamos crianças brigando pela posse de um brinquedo ou ob jeto: o “meu copo”, a “minha boneca”, o “meu carrinho”, o(a) “meu(minha) educador(a)”. Isso mostra a necessidade que a criança tem de projetar o eu nas coisas, para apropriarse de si mesma. A disputa pela atenção ou colo dos(as) educadores(as) é comum na educação infantil. Na roda ou no pátio, as crianças chegam a trocar empurrões, para sentar perto dos adultos. A posse do brinquedo, do objeto e dos adultos torna-se a posse do próprio eu. Figura 7 Fonte: Getty Images Para afirmar sua personalidade recém-descoberta, diferenciada do outro, a criança se opõe, retruca, imita, faz gracejos e seduz. Como Wallon (1968) descreve, identificamos inúmeras situações em que as crianças se opunham pelo simples desejo de afirmar-se sobre a pessoa do adulto. Para Rizzo (1996), a criança tenta chamar a atenção do adulto por meio da oposição, o não pelo não, a força pela força. Com isso, a criança pretende, segundo Wallon (1975), revelar-se diferenciada das pessoas que a cercam, opondo-se sempre que pode a tudo o que não é ela mesma. A diferenciação vai para qualquer coisa mais estável e mais constante que atos, onde a criança opõe sua própria pessoa a dos outros e o faz com uma intemperança que prova o aparecimento duma nova aptidão e necessidade de exercê-la. (WALLON, 1975, p. 199) Wallon (1975, p. 212) destaca ainda a necessidade de habilidade dos(as) educado- res(as) para lidar com o caráter negativo das crianças, “é preciso evitar contrariar a criança nos seus desejos, nas suas necessidades, e evitar desenvolver na criança, em vez de solidariedade , a inveja e o ciúme”. Nessa fase de intemperança infantil, caro(a) educador(a), convém muito mais uma atitude de benevolência do que de rivalidade. 13 UNIDADE O Planejamento e a Organização do Tempo e Espaço na Educação Infantil De acordo com Wallon (1968), logo depois da fase da oposição, dá-se início à idade da graça (Hamburger), que equivale ao narcisismo dos psicanalistas. Os “olha como faço” substituem os “não, não quero”, “é meu”, “empresto, mas não dou”. O tom agres- sivo ou arrogante torna-se conciliador ou sedutor (WALLON, 1968, p. 64). Nessa fase, frequentemente, observamos as crianças da educação infantil se divertindo na frente do espelho com caretas e palhaçadas ou inventando palavras ou frases sem sentindo, e ficam satisfeitas quando os adultos tomam partido em suas bobagens e brincadeiras. Explica Rizzo (1996) que a etapa da sedução e conciliação traz consigo a necessidade de reaproximação com o outro que tinha sido anteriormente rejeitado. A criança procu- ra imitar aqueles que mais atraem ou admira. Entretanto, o que ela secretamente deseja é não perder a afeição daqueles a quem se opôs um dia. Para Pereira (1992, p. 26), “na concepção walloniana, expulsão e incorporação do outro, são movimentos complemen- tares e alternantes no processo de formação do eu, [...] a imitação é a base dos jogos de faz-de-conta”, tão praticados na educação infantil. Encerramos esta parte de nossa análise, alertando que cabe a você conhecer de per- to suas crianças e traduzir o comportamento infantil. Se você estiver atento às manifes- tações emocionais e afetivas de seus alunos, poderá ajudar a fortalecer a personalidade infantil e a construção de novos conhecimentos, uma vez que afetividade e inteligência, apesar de naturezas distintas, complementam-se no desenvolvimento humano. Pratique e defenda o direito de autonomia na sua vida e, consequentemente, você estará desen- volvendo a autonomia emocional e intelectual das suas crianças. O Tempo da Criança na Educação Infantil Continuando as nossas reflexões, você já deve ter percebido que é imprescindível o planejamento do espaço e do tempo na educação infantil. De qual tempo estamos falando? O tempo que impacta diretamente nos processos emo cionais e subjetivos da criança. O planejamento deve contemplar a programação de rotinas equilibradas para um período parcial ou integral na unidade infantil. Como falamos anteriormente, o planejamento da organização do espaço e do tempo deve ser pensado de forma que a criança sinta-se cuidada, protegida e educada, impri- mindo um ritmo equilibrado e seguro às diversas atividades que acontecem no dia a dia de uma unidade infantil: a hora da chegada, o período das refeições, os processos de higienização (lavar as mãos, trocar faldas, escovar dentes etc.), descanso e sono, e todas as ações pedagógicas dentro e fora da sala de aula. Você sabia que é preciso organizar a rotina do tempo de forma que esse contemple um ritmo equilibrado às ações educativas? Sim, a rotina da educação infantil deve con templar vários ritmos, ou melhor, momentos de brincadeira, de prazer, de exploração, de trocas afetivas, de conhecer, de sonhar e imaginar. 14 15 Para isso, é necessário que a rotina da criança seja estabelecida de forma repetida e ritualística para que a criança vá se conscientizando dos tempos da unidade infantil, como por exemplo, no horário da chegada: acolhimento com cantinhos temáticos; de- pois o café da manhã e higienização, atividades no pátio ou sala de aula; higienização, hora do almoço, descanso e sono; e assim por diante. Esses “marcos” ou “rituais”, se bem planejados e ordenados, não de forma in- flexível e rígida,ao contrário, de maneira criativa e dinâmica, garantem segurança e proteção para as crianças e delimitam melhor as ações educativas e intencionais dos(as) educadores(as). Mas, existe um outro tempo, aquele subjetivo e emocional, que desejamos compartilhar com você. Assista os 20 primeiros minutos do vídeo Diálogos do Brincar #4 – O Tempo da Criança, com Luiza Lameirão (vale a pena assistilo integralmente). Disponível em: https://youtu.be/iFVBA7MCG0 Obs.: esse vídeo será utilizado para a atividade avaliativa de sistematização. Faz-se necessário compreender que a rotina deva ser construída de momentos tran- quilos e dinâmicos, acompanhada das inúmeras expressões espontâneas das crianças. O tempo integrado em momentos ou atividades individuais ou coletivos; os jogos, os brinquedos e as brincadeiras em espaços internos ou externos da sala de aula, as ações pedagógicas espontâneas ou intencionais dirigidas pelos(as) educadores(as). Figura 8 Fonte: Getty Images Quando o tempo da criança é respeitado, a voz da criança não é calada e nem si- lenciada. Sendo assim, a criança pode: falar de si e do outro, se movimentar em vários espaços da creche ou unidade infantil, desenhar, construir e contar histórias, falar de si mesma e dos outros, cantar, dançar e se expressar através do corpo e movimento. Mas, apesar dos avanços em relação aos direitos das crianças, infelizmente, algumas unida des infantis ainda “calam” a voz e o tempo da criança de forma violenta. É o caso do estudo realizado pelas pesquisadoras Cristiane Angst, Lisiane Machado de OliveiraMenegotto e Carmem Regina Giongo no artigo científico escrito em 2015 denominado Violência no contexto da educação infantil: um olhar da psicologia escolar, que está disponível em: http://bit.ly/2KCwMVi Obs.: esse artigo será utilizado para a atividade avaliativa de sistematização. 15 UNIDADE O Planejamento e a Organização do Tempo e Espaço na Educação Infantil Figura 9 Fonte: Getty Images As Múltiplas Linguagens na Infância Para finalizar o estudo empreendido até aqui, compreenderemos a relação do campo de experiência proposto na BNCC (2017), o eu, o outro e o nós, e as múltiplas lingua- gens das crianças nas unidades infantis. Conheça a síntese realizada no documento da BNCC (2017) em relação aos objetivos cen trais de aprendizagem e de desenvolvimento sobre o campo de experiência o eu, o outro e o nós: • Respeitar e expressar sentimentos e emoções; • Atuar em grupo e demonstrar interesse em construir novas relações, respeitando a diver sidade e solidarizandose com os outros; • Conhecer e respeitar regras de convívio social, manifestando respeito pelo outro. Para conseguirmos atingir os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento nos cam- pos de experiência, faz-se necessário considerar dois eixos estruturantes: as interações e a brincadeira, assegurando-lhes também os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e se conhecer. Todos esses aspectos devem ser interligados ao conhecimento do patrimônio cultural e às experiências concretas das crianças. Segundo Márcia Gobby (2010), as creches e as unidades infantis devem proporcionar ricos ambientes pedagógicos para os educandos contendo materiais diversificados e pro- porcionar situações que visem a aproximá-los da arte em suas mais variadas formas de expressão: teatro, cinema, dança, exposições, literatura, música, poesia, artes plásticas e gráficas, fotografia, entre outros; ou melhor, transpor os muros do contexto educacio- nal e ir em direção das manifestações artísticos-culturais. Esse proposito está explícito nas Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Infantil, nos artigos 6° e 9° (Resolução n.º 5 de 17 de dezembro de 2009): [...] as propostas pedagógicas da educação infantil devem respeitar princípios estéticos, voltando-se para diferentes manifestações artísti- cas e culturais que considerem a diversidade cultural, religiosa, étnica, econômica e social do país. 16 17 Mergulhada no meio social, explica Rizzo (1996), a criança estabelece troca emocio- nal/afetiva com os que a cercam e vai absorvendo suas primeiras impressões psíquicas e o universo das coisas. É o adulto que apresenta os objetos e o mundo à criança. É de extrema relevância também que os(as) educadores(as) favoreçam e autorizem ex- periências sensoriais, chamadas por Wallon (1968) de inteligência prática ou das situações, que consiste no exercício das atividades sensório motoras: gestos, sons, aromas, formas, texturas, sabores, cores, entre outros. As interações sociais e as experiências sensoriais introduzem as crianças na experimentação do mundo natural e da cultura e dão início às atividades projetivas que são o primórdio das representações sobre a sociedade e a vida. É nessa fase que surge a função simbólica: a criança começa a elaborar sua capaci- dade de representar a realidade social que a circunda, o que dependerá da percepção que irá adquirindo das situações vivenciadas das experiências sensório-motoras e das práticas sociais. É também por meio da imitação que a criança abre espaço para a experimentação de novas situações, que poderão ajudá-la na adaptação ao mundo exterior (WALLON, 1968). A imitação lança a criança aos jogos de ficção, que lhe possibilitam o entendimento e a apropriação da cultura à qual pertence, por intermédio do seu potencial imaginativo. Segundo Rizzo (1996), o desejo de explorar e conhecer os objetos e a si mesma é inerente à criança. Ela é impulsionada a descobrir a constituição das coisas: o pequeno e o grande; o baixo e o alto; o quente e o frio, o doce e o amargo; o barulho e o silêncio; o macio e o áspero; o seu corpo e o do outro etc. Por isso, as múltiplas linguagens aliadas à expressão artística-cultural contribuirão significativamente para o processo de a criança ser capaz de estabelecer semelhanças ou diferenças entre as coisas, sua vida social e a cultura social do outro. Conforme de- fendido na BNCC (2017): Por sua vez, na Educação Infantil, é preciso criar oportunidades para que as crianças entrem em contato com outros grupos sociais e cul- turais, outros modos de vida, diferentes atitudes, técnicas e rituais de cuidados pessoais e do grupo, costumes, celebrações e narrativas. Nessas experiências, elas podem ampliar o modo de perceber a si mesmas e ao outro, valorizar sua identidade, respeitar os outros e reconhecer as diferenças que nos constituem como seres humanos. É de importância capital que as unidades infantis criem situações em que a criança possa expressar seus sentimentos, desejos, sugestões e pensamentos, sua pessoa, por meio de conversas, brinquedos e brincadeiras, conforme descrito na BNCC (2017), no campo de ex periência o eu, o outro e o nós: É na interação com os pares e com adultos que as crianças vão cons tituindo um modo próprio de agir, sentir e pensar e vão descobrindo que existem outros modos de vida, pessoas diferentes, com outros pontos de vista. Conforme vivem suas primeiras experiências sociais (na família, na instituição escolar, na coletividade), constroem per cepções e conhecimentos [sobre si e o outro]. 17 UNIDADE O Planejamento e a Organização do Tempo e Espaço na Educação Infantil Nossa prática indica que a educação infantil é a etapa onde a criança pode se conduzir e desenvolver como pessoa no meio de outras. Para que isso ocorra, é preciso mobilizar todo o pessoal administrativooperacional e pedagógico, assim como conhecer o processo de desenvolvimento da criança para não exigir dela o que não pode atender e/ou entender. Horários, brincadeiras, atividades, posturas dos profissionais, explica Rizzo (1996), tudo deve se revestir do tom educativo para que a criança aprenda, se exercite, se desenvolva, viva o seu sercriança. No exercício do campo de experiência o eu, o outro e o nós, é importante ressaltar que a construção de regras na unidade infantil envolve processos cognitivos e afetivos, muito diálogo para levar a criançaa entender o que é viver e trabalhar em grupo. Na educação infantil, a criança é iniciada nas práticas sociais, já segue algumas regras e começa a ter noção de certo ou errado e de valores diferentes dos adultos. Faz-se neces- sário que os educadores(as) procurem compreender que a criança dos 0 aos 5 anos está iniciando sua trajetória social e tem muito a aprender. O momento do pátio, os cantos temáticos ou outros espaços coletivos possibilitam ao educador(a) conhecer a criança de perto, em suas vontades e necessidades, na inte- ração com outras crianças e adultos. Infelizmente, presencia-se muitos educadores(as), em momentos coletivos como esses, assumindo posturas de guardas, mais do que de facilitadores(as) das atividades e do relacionamento entre as crianças: em geral, preocu- pam-se mais com a supervisão e observação para evitar que as crianças se machuquem ou briguem; costumam permanecerem sentados(as), conversando com outro colega, ao invés de interagirem com as crianças, o que é uma pena! Convidamos você a assistir o vídeo Desenvolvimento Social. Disponível em: https://youtu.be/54iLobwwiSE Obs.: esse vídeo será utilizado na avaliação da atividade de sistematização Por fim, apresentamos a seguinte pergunta para reflexão: você consegue perceber como as práticas relacionais construídas entre as crianças, seus pares e adultos, na educação infan til e no seu meio familiar, terão forte impacto no desenvolvimento social dessas crianças quando atingirem a fase adulta? 18 19 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeos D-13 – Conhecendo Reggio Emilia https://youtu.be/vEnTD8wOZz4 Tempo e espaço de ser criança https://youtu.be/X4bxaSD4s_8 Perfil do Educador Infantil https://youtu.be/o4WcvH2IbI Leitura Tecendo os fios da infância Lucimary Bernabé Pedrosa Andrade. http://bit.ly/2MaJ7TP 19 UNIDADE O Planejamento e a Organização do Tempo e Espaço na Educação Infantil Referências ANDRADE, L. B. P. Educação infantil: discurso, legislação e práticas institucionais [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010. Disponível em: . ANGST, C.; OLIVEIRA-MENEGOTTO, L. M. de; GIONGO, C. R. Violência no contexto da educação infantil: um olhar da psicologia escolar. Aletheia, Canoas , n. 46, p. 174-186, abr. 2015. Disponível em: . Acesso em: 8 ago. 2019. BRASIL. Fundo Nacional de desenvolvimento a Educação. Manual de Orientações Técnicas v. 2: Elaboração de Projetos e Edificações Escolares: Educação Infantil. Brasí- lia, DF: MEC, 2017. Disponível em: . Acesso em: 8 ago. 2019. ________. Fundo Nacional de desenvolvimento a Educação. Manual de Orientações Técnicas v. 7: Mobiliário e Equipamento Escolar Educação Infantil. Brasília, DF: MEC, 2017. Disponível em: . Acesso em: 8 ago. 2019. ________. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: educação é a base. Terceira versão. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: . Acesso em: 8 ago. 2019. FORTUNATI, A. A educação infantil como projeto da comunidade: crianças, edu- cadores e pais novos serviços para a infância e a família: a experiência de San Miniato. Porto Alegre: Artmed, 2009. GOBBI, M. Múltiplas linguagens de meninos meninas no cotidiano da educação infantil. [Online]. Consulta pública. Brasília, DF: MEC, 2010. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2019. GOLDSHMIED, E.; JACKSON, S. Educação de 0 a 3 anos: o atendimento em creche. Porto Alegre: Artmed, 2006. MOSTRA LUTZ. Mostra 2018: Brincar Heurístico, o que é isso? – CEI Encantada. 2018. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2019. PAIOLFILMES. Caramba, Carambola: o Brincar tá na Escola. 2014. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2019. 20 21 RIZZO, C. Maternal: uma brincadeira que é séria... é séria? 171f. 1996. Dissertação (Mes- trado em Educação) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. 1996. UNIVERSIDADE VIRTUAL DO ESTADO DE SÃO PAULO. Desenvolvimento Social. 2010. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2019. ________. Identidade e Autonomia. 2011. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2019. WALLON, H. A evolução psicológica da criança. Lisboa: Edições 70, Persona, 1968. ________. Psicologia e Educação da criança. Lisboa: Editorial Vega, 1979. ________. Psicologia e Educação na Infância. Lisboa: Estampa, 1975. Sites visitados . Acesso em: 29 jul. 2019. Diálogos do Brincar #4 – “O Tempo da Criança”, com Luiza Lameirão (vale a pena assis- ti-lo integralmente). Disponível em: , acesso em vinte e dois de julho, 2019. Vídeo: D-13 – Conhecendo Reggio Emilia. Disponível em: . Acesso em vinte e nove de julho, 2019. Tempo e espaço de ser criança. Disponível em: . Acesso em vinte e nove, 2019. Perfil do Educador Infantil. Disponível em: . Acesso em vinte e nove de julho, 2019. 21