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Contribuições do Treinamento Resistido na Redução de Sintomas de Depressão


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Contribuições do Treinamento Resistido na Redução de Sintomas de Depressão: Estudo de Caso 
Contribuições do treinamento resistido na redução de sintomas de depressão: estudo de caso
Ailton R. Cerqueira, Emilio C. Pinheiro, Ana Carolina Siqueira Zuntini
Contribuições do treinamento resistido na redução de sintomas de depressão: estudo de caso
CERQUEIRA, A.R.1; PINHEIRO, E.C.1; ZUNTINI, A.C.S2.
1 Discentes do Curso de Educação Física – UniÍtalo
2 Orientadora, Bacharel em Fisioterapia pelo UniÍtalo, Especialista em Anatomia Macroscópica pelo Centro Universitário São Camilo, Mestranda em Farmacologia e Fisiologia pela UNIFESP, Docente do Curso de Educação Física do UniÍtalo
RESUMO
Alguns estudos foram realizados, principalmente desde meados da década de 1980, com o objetivo de compreender e correlacionar possíveis impactos positivos da atividade física na melhora dos sintomas de pessoas com transtornos mentais. Após uma revisão bibliográfica aprofundada, optou-se por fazer um estudo para compreender as mudanças ocorridas em pacientes com possível diagnóstico de depressão. Ao longo de dois meses foi desenvolvido um projeto de intervenção com duas mulheres (55 e 35 anos), sem hábitos de prática de atividade física e que alcançaram escores significativos após a aplicação da Escala de Hamilton (HAM-D) para avaliar sintomas de depressão. A intenção do trabalho foi, através de uma escala de 6 dias com séries de exercícios e um de descanso por semana, por oito semanas, compreender as mudanças propiciadas pelo treino resistido na expressão de sintomas somáticos para depressão. Foram observadas mudanças significativas conforme demonstrado pelas pontuações obtidas nas duas aplicações posteriores da HAM-D. Os resultados alcançados corroboram com a hipótese de que uma rotina estruturada de atividades físicas pode contribuir positivamente para a melhora dos sintomas somáticos nos quadros depressivos.
Palavras-chave: Atividade Física, Depressão, Saúde, Bem-estar, Treino Resistido.
ABSTRACT
Some studies have been made, mainly since the 1980’s, aiming to comprehend and correlate possible positive impacts of the physical activity on the reduction of symptoms of people with mental health issues. After an in-depth bibliographic review, was decided to make a study to comprehend the changes in patients with the possible diagnostic of depression. Along two months was developed an intervention project with two women (35 and 55 years old), that had no structured physical activity habits and that reached significant scores after answering the Hamilton’s Scale for depressive symptoms (HAM-D). The aim of this study was, through an intervention based on 6 days of resisted training versus a resting day, along eight weeks, understand if there is significant changes on the expression of the somatic symptoms of the depression. The changes were observed due the scores obtained on the two latest applications of the HAM-D. The reached results corroborate with the hypothesis that a structured routine of physical activity may contribute positively to the reduction of somatic symptoms in depressive disorders.
Keywords: Physical Activity, Depression, Health, Well-being, Resisted Training.
INTRODUÇÃO
         A depressão é um transtorno psiquiátrico descrito no DSM-V (Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais) como uma doença de origem multifatorial e com diversos sintomas que eventualmente compartilham com outros quadros, e também pode apresentar-se em diversas formas clínicas (funcional, maior, melancolia ou pós-parto, por exemplo). Dentre os sintomas mais comuns estão a tristeza recorrente e persistente, apatia (indiferença afetiva; vazio), irritabilidade aumentada, angústia, ansiedade e desesperança (DALGALARRONDO, 2008).
           Ao longo de três ou quatro décadas, estudos transversais e longitudinais têm comprovado a correlação entre a prática de atividade física e sua ligação com a modificação nos níveis de depressão percebidos e relatados por sujeitos (MERAKY et al., 2013; XUE, et al., 2012; STRAWBRIDGE et al., 2002). Essa melhora é claramente perceptível, quanto à redução da ansiedade e irritabilidade, e consequente às diversas repercussões bioquímicas que a atividade física pode desencadear no organismo, como, por exemplo, a secreção de dopamina, que é um hormônio relacionado às sensações de bem-estar (CHEIK et al, 2003). 
Entretanto, é importante destacar que o sujeito cuja funcionalidade já está comprometida devido ao transtorno, deverá, sobretudo, encontrar um tipo de atividade que se adeque às suas necessidades, bem como às suas preferências, a fim de incentivá-lo em sua empreitada e comprometimento com o tratamento.
Acerca deste tema, afirmam Moraes et al (2007, p71):
                                     ... a atividade física pode ser considerada eficaz no tratamento da depressão (...) é qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resulta em gasto energético maior do que o dos níveis de repouso. Já o exercício é uma atividade física planejada, estruturada e repetitiva, que tem como objetivo final ou intermediário aumentar ou manter a saúde/aptidão física. Tanto a atividade quanto o exercício podem propiciar benefícios agudos e crônicos. São eles: melhora no condicionamento físico; diminuição da perda de massa óssea e muscular; aumento da força, coordenação e equilíbrio; redução da incapacidade funcional, da intensidade dos pensamentos negativos e das doenças físicas; e promoção da melhoria do bem-estar e do humor.                                     
A partir desta premissa, pode-se supor que para a pessoa com depressão, um programa de exercícios físicos regulares se torna uma alternativa não farmacológica no auxílio do tratamento da depressão.
OBJETIVOS
O presente estudo teve por objetivo avaliar os benefícios do treinamento resistido na redução de sintomas de depressão em mulheres sedentárias.
METODOLOGIA 
A pesquisa desenvolvida tratou-se de um estudo de caso envolvendo duas mulheres sedentárias, com sintomas de depressão. As voluntárias foram convidadas a participar do estudo e, após aceite e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), foram submetidas a testes físicos e responderam uma escala que avaliou a presença de sintomas de depressão.
A avaliação física incluiu testes de flexibilidade (terceiro dedo ao chão) e de resistência muscular (abdominal). A escala de sintomas de depressão aplicada foi a Escala de Hamilton, desenvolvida há mais de 50 anos, com o objetivo de, por meio de critérios avaliativos e pontuações que variam de 0 a 2 ou 0 a 4 de acordo com a questão, identificar alterações psíquicas e somáticas que possivelmente relacionem-se à patologia depressiva. Dentre as questões utilizadas para a avaliação estão critérios que englobam alterações cognitivas (de pensamento, atenção, concentração), fadiga, irritabilidade, alterações de humor, ideação suicida e reflexo somático dos sintomas psicológicos sobre o corpo (HAMILTON, 1997). Hamilton, entretanto, não estabeleceu um ponto de corte para diferenciar a normalidade da morbidade; por consenso, porém, aceita-se atualmente que escores de 25(+) pontos indiquem pacientes gravemente deprimidos, enquanto 18-24 pontos seriam os moderadamente deprimidos, e com 17(-) estariam os levemente deprimidos (NETO et al., 2001).
Após a avaliação inicial, ambas as voluntárias participaram de um programa de treinamento resistido, elaborado especificamente para o estudo, durante um período de dois meses (entre março e maio de 2018). O treino era realizado seis vezes na semana, de segunda a sábado, estruturado por segmento, conforme quadro abaixo.
Quadro 1. Distribuição dos treinos ao longo da semana
	Segunda
	Terça
	Quarta
	Quinta
	Sexta
	Sábado
	Peitoral
	Costas
	Pernas
	Peitoral
	Costas
	Pernas
	Tríceps
	Bíceps
	Ombros
	Tríceps
	Bíceps
	Ombros
Cada sessão de treinamento era iniciada com aquecimento de 5 minutos, utilizando o aparelho Elíptico, carga leve a moderada, seguido por trabalho de Propriocepção, com duração de 10 minutos.Para estabelecimento da carga de treino, para cada exercício, as voluntárias executaram o teste de 1RM, cujos resultados estão apresentados no quadro 2.
Quadro 2. Volume e intensidade do treino resistido
	EXERCÍCIO
	REPETIÇÕES
	CARGA
	RECUPERAÇÃO
	 
	 
	V1
	V2
	 
	Supino Reto
	3x10
	10 kg
	15 kg
	1 min
	Supino Inclinado
	3x10
	8 kg
	10 kg
	1 min
	Peck Deck (Crucifixo)
	3x10
	12kg
	12 kg
	1 min
	Tríceps barra reta
	3x10
	15kg
	15 kg
	1 min
	Tríceps Francês
	3x10
	4kg
	4 kg
	1 min
	Tríceps Press 
	3x10
	15kg
	15 kg
	1 min
	Pulley costas
	3x10
	15kg
	20 kg
	1 min
	Remada baixa
	3x10
	10kg
	15 kg
	1 min
	Crucifixo Inverso
	3x10
	6kg
	10 kg
	1 min
	Rosca direta (barra reta)
	3x10
	6kg
	6 kg
	1 min
	Rosca alternada (halter)
	3x10
	6kg
	6 kg
	1 min
	Rosca Concentrada
	3x10
	 3kg
	5 kg
	1 min
	Agachamento Máquina
	3x10
	10kg
	20 kg
	1 min
	Leg Press 45
	3x10
	20kg
	50 kg
	1 min
	Mesa Flexora 
	3x10
	27kg
	50 kg
	1 min
	Cadeira Extensora
	3x10
	27kg
	50 kg
	1 min
	Adutora
	3x10
	20kg
	25 kg
	1 min
	Abdutora
	3x10
	20kg
	25 kg
	1 min
	Panturrilhas       
	3x10
	20kg
	20 kg
	1 min
	Desenvolvimento
	3x10
	6kg
	6 kg
	1 min
	Elevação Lateral 
	3x10
	3kg
	4 kg
	1 min
	Elevação Frontal
	3x10
	3kg
	4 kg
	1 min
	V1 = voluntária caso 1; V2 = voluntária caso 2
	 
APRESENTAÇÃO DOS CASOS
Caso clínico 1: Mulher, 55 anos, diagnosticada há 26 anos com depressão, sem histórico prévio de prática de exercícios físicos.
Caso clínico 2: Mulher, 35 anos, com suspeita de depressão, porém ainda sem diagnóstico, com histórico prévio de prática de exercícios físicos.
            As tabelas 1 e 2 mostram os resultados das avaliações pré e pós treinamento resistido. A observação dos dados mostra que houve melhora de flexibilidade, visto que a distância do terceiro dedo ao chão ao final do período de treino foi 0. Também ocorreu ganho de resistência abdominal já que ambas conseguiram executar mais repetições em um minuto.
            Em relação aos sintomas de depressão, a redução dos escores na escala de Hamilton indica que o treinamento resistido contribuiu para a redução dos sintomas.
	Tabela 1. Resultados pré e pós treino resistido - voluntária 1
	 
	 
	INICIAL
	FINAL
	Altura (m)
	1,63
	1,63
	Massa (kg)
	60
	62
	IMC (kg/m2)
	22,58
	23,34
	Teste do 3˚ dedo ao chão (cm)
	18
	0
	Resistência abdominal (repetições em 1 minuto)
	18
	34
	Escala de Hamilton
	37
	32
	 
	 
	 
	Tabela 2. Resultados pré e pós treino resistido - voluntária 2
	 
	 
	INICIAL
	FINAL
	Altura (m)
	1,69
	1,69
	Massa (kg)
	69
	69
	IMC (kg/m2)
	24,16
	24,16
	Teste do 3˚ dedo ao chão (cm)
	20
	0
	Resistência abdominal (repetições em 1 minuto)
	24
	39
	Escala de Hamilton
	15
	13
CONCLUSÃO
         Os resultados mostraram que, para as voluntárias do presente estudo, o treinamento resistido teve impacto positivo na redução dos sintomas de depressão e nos ganhos de flexibilidade da cadeia posterior e resistência muscular abdominal.
REFERÊNCIAS
CHEIK, N. C. et al. Efeitos do exercício físico e da atividade física na depressão e ansiedade em indivíduos idosos. Revista Brasileira de Ciência e Movimento. Brasília, 3(11):45-52. Jul./set. 2003
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.
MORAES, H. et al. O exercício físico no tratamento da depressão em idosos: revisão sistemática. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. Rio Grande do Sul; 29(1):70-79. 2007.
GORENSTEIN, C.; MORENO, R. A. Escala de Avaliação para Depressão. Rio de Janeiro: Pfizer, 2011.
HAMILTON M. Frequency of symptons in melancholia - depressive ilness. Br. Journal Psychiatic, 42:904-913. 1997.
MEKARY, R. A. et al. Isotemporal Substitution Analysis for Physical Activity, Television Watching, and Risk of Depression. American Journal of Epidemiology, Volume 178, 3(1): 474–483. Aug. 2013.
NETO, J.G. et al. Escala de Depressão de Hamilton (HAM-D): Revisão dos 40 anos de sua utilização. Revista da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba, 3(1):10-14. 2001.
STRAWBRIDGE, W. J. et al,. Physical Activity Reduces the Risk of Subsequent Depression for Older Adults. American Journal of Epidemiology, Volume 156, 4(15):328–334. Aug. 2012. 
XUE, Qian-L. et al. Patterns of 12-Year Change in Physical Activity Levels in Community-Dwelling Older Women: Can Modest Levels of Physical Activity Help Older Women Live Longer?. American Journal of Epidemiology, Volume 176(6): 534-543. Set. 2012.
24/05/2018

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