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Gestão Estratégica de Pessoas 4ª edição Rio de Janeiro UVA 2016 Márcio Santos Souza Gestão Estratégica de Pessoas 4ª edição Rio de Janeiro UVA 2016 Copyright © UVA 2014 Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição. Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. ISBN 978-85-65812-32-0 Autoria do Conteúdo Márcio Santos Souza Design Instrucional Angelica Maria da Silva Emanoelle Martins Guedes de Farias Projeto Gráfico UVA Diagramação Bruna Reis Muri Cristina Lima Revisão Débora Silvestre Costa Tássia Braga Ficha Catalográfica elaborada pelo Sistema de Bibliotecas da UVA. Biblioteca Maria Anunciação Almeida de Carvalho. S729g Souza, Márcio Santos. Gestão estratégica de pessoas [livro eletrônico] / Márcio Santos Souza. – 2. ed. – Rio de Janeiro : UVA, 2015 2 MB. ISBN 978-85-65812-32-0 Disponível também impresso. 1. Administração de pessoal. 2. Planejamento estratégico. 3. Recursos humanos. I. Universidade Veiga de Almeida. II. Título. CDD – 658.3 SUMÁRIO Apresentação...............................................................................................................7 Sobre o autor...................................................................................................................8 Capítulo 1 - A moderna Gestão de Pessoas................9 Conceitos de Gestão de Pessoas.............................................................11 As pessoas como parceiras da organização.......................................21 Aspectos essenciais da moderna Gestão de Pessoas.................28 Referências......................................................................................................33 Capítulo 2 - A Gestão de Pessoas em um ambiente instável e competitivo............................................................35 Mudanças e transformações no cenário mundial..........................37 Desafios do terceiro milênio para a Gestão de Pessoas..............44 Novos papéis da Gestão de Pessoas.....................................................52 Referências.....................................................................................................56 Capítulo 3 - Análise estratégica de Gestão de Pessoas....57 Estratégia de Gestão de Pessoas............................................................59 Diagnóstico e análise de melhorias......................................................67 Fatores de risco no planejamento..........................................................72 Referências......................................................................................................80 Capítulo 4 - Planejamento das ações em Gestão de Pessoas.............................................................................81 Modelos de planejamento.........................................................................83 Políticas e processos que envolvem a Gestão de Pessoas.........88 Mudança organizacional: um novo desafio da Gestão de Pessoas..............................................................................................................96 Referências....................................................................................................104 Considerações finais..........................................................105 7 APRESENTAÇÃO Este livro trata de Gestão Estratégica de Pessoas e foi escrito para que aqui você encontre informações importantes sobre o tema, que é essencial à sobrevivência de qualquer organização. Sendo assim, veremos muitos assuntos ligados ao trabalho em equi- pes, como comportamento, gestão e outros tópicos que serão tratados de maneira mais detalhada ao longo da obra. A Gestão Estratégica de Pessoas (GEP) é uma prática comum a todas as organizações — sejam elas públicas, privadas ou ONGs —, nos três principais modelos de gestão, desde uma empresa familiar em sua essência, familiar com administração profissional ou profissional plena. Uma organização totalmente familiar é aquela integralmente gerenciada com base em relações pessoais, com processos ocorrendo muito mais pelo grau de parentesco do que pela demanda do mercado. Uma organização fami- liar com administração profissional conta com executivos e pessoas à parte da família fundadora. Uma estrutura profissional plena tem todos os processos ocorrendo com base em uma estratégia em que as pessoas são colocadas em seus cargos por sua competência. George Bernard Shaw observou certa vez que todo progresso depende do homem não racional. Seu argumento: o homem racional se adap- ta ao mundo, enquanto o não racional tenta adaptar o mundo a si mesmo. Dessa forma, surgem com frequência novos debates sobre a valorização do fator humano nas organizações, pois aí reside a fonte de produção de novas ideias e de novo conhecimento, sendo estes as molas mestras para o pleno funcionamento das empresas. Desejamos que você aproveite ao máximo esta experiência e que a leitura desta obra promova uma oportunidade de reflexão sobre os conteúdos abordados, contribuindo efetivamente para o seu enrique- cimento cultural e acadêmico. ...................................................................................................................................................................................................................... 8 SOBRE O AUTOR Márcio Santos Souza é consultor de empresas nas áreas de Estrutura- ção Administrativa, Processos e Treinamento. Especialista em Gestão Empresarial e Pessoas pela Fundação Getulio Vargas - FGV, com for- mação em Gerenciamento de Projetos, atua nos setores público e pri- vado, no desenvolvimento e capacitação de equipes em todos os níveis hierárquicos nas áreas de vendas, marketing e liderança. Professor da Universidade Veiga de Almeida - UVA no MBA em Gestão de Recursos Humanos, nas disciplinas Endomarketing e Finanças aplicadas a RH. 9Conceitos de Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... Quando as organizações estão em ascensão, os recursos necessários à sua sobrevivência passam a ser mais com- plexos, sejam eles em termos de tecnologia, processos, treinamento ou pessoas, sendo o último o grande diferen- cial competitivo. CAPÍTULO 1 A MODERNA GESTÃO DE PESSOAS Lembro-me da história de Claúdio Alexandrino, ex-executivo do antigo BEMGE (Banco do Estado de Minas Gerais), que hoje é um empresário, dono de frotas de táxi. Ele foi desligado do ban- co em um PDV (Plano de Demissão Voluntária), e sem ter o que fazer da vida, aceitou a sugestão de um amigo e foi trabalhar em um táxi. Porém, a primeira coisa que ele fez, antes de começar, foi uma avaliação do mercado. Visitou o ponto de táxi, observou os motoristas e verificou o seguinte: todos os taxistas possuíam veículos bem velhos, embora conservados. Além disso, tinham péssima apresentação pessoal. Sua primeira iniciativa foi adquirir um veículo zero km. Era o ano de lançamento do primeiro modelo do Ômega, e foi esse o carro comprado. Além disso, adotou como padrão para si o uso de ter- no e gravata, pois seu objetivo era que as pessoas vissem um cho- fer, e não um taxista. Com isso, ele conseguiu um requisito de diferenciação, transportando maior número de pessoas e desta- cando-se de seus colegas. Esses, percebendo o sucesso do nosso amigo Cláudio, também fizeram investimentos em carros novos e melhoraram consideravelmente sua apresentação pessoal. Agora, o que era requisito de diferenciação passou a ser requi- sito de qualificação.Cláudio Alexandrino passou, então, a ofere- cer jornais e revistas para os passageiros, algo que seus colegas A moderna Gestão de Pessoas10 ...................................................................................................................................................................................................................... Por quê? Dos recursos a seguir, quais desses não poderão ser copiados por uma empresa concorrente: tecnologia, procedimentos, estrutura ou pessoas? também não faziam. Com isso, ele achou outro requisito de dife- renciação. Os outros taxistas, percebendo o sucesso da ação, fize- ram a mesma coisa. Assim, novamente, o que antes era um requi- sito de diferenciação passou a ser um requisito de qualificação. Cláudio percebeu que falar uma língua estrangeira seria um gran- de diferencial em sua profissão, visto que transportava muitos es- trangeiros dos aeroportos ao centro da cidade, mas com tempo e recursos escassos, como poderia fazer? Uma de suas passageiras mais assíduas era professora de inglês, assim, ele sugeriu uma permuta de serviços: levaria seus filhos sem custo para a escola e, em troca, ela lhe daria aulas particulares. Feito isso, Cláudio con- seguiu mais um requisito de diferenciação, o qual era, porém, extremamente complexo de ser acompanhado. Com isso, ele chegou a uma vantagem competitiva, que é aquele diferencial que somente você e sua empresa possuem, e que, dificilmente, os concorrentes terão as competências para superar. Para chegar a tal estágio, a Gestão de Pessoas é essencial. 11Conceitos de Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... CONCEITOS DE GESTÃO DE PESSOAS A partir deste tópico, esperamos que você aprenda a defi- nir as características indispensáveis à Gestão de Pessoas. Cenário atual O cenário corporativo atual é regido pela intensidade com a qual o mundo vem globalizando-se e pela velocidade nas inovações. Note que as palavras intensidade e veloci- dade estão destacadas, pois mudanças e inovações sem- pre ocorreram ao longo da história. Nessa corrida, não é a maior empresa que irá devorar a menor, mas, sim, a mais rápida que irá vencer a mais lenta. Lembro muito bem de uma história que ouvi de um pro- fessor tempos atrás, que era mais ou menos assim: Dois executivos, em viagem de negócios pela África, resolveram fa- zer um safári. Para isso, prepararam-se por meses. Durante a expe- dição, foram surpreendidos por um tigre que saiu da mata. Como não tinham prática naquela situação, assustaram-se e começaram a correr! Um deles começou a lamentar-se: — Não adianta! Eu vi na televisão que o tigre é mais veloz que os homens! Não vamos conseguir correr mais do que ele! A resposta do outro veio rápida: — E quem disse que quero correr mais do que o tigre? Tenho que correr mais do que você! Podemos chamar o feroz tigre de mercado ou concor- rência, e um dos executivos pode ser exatamente você, que está lendo este assunto agora. A moderna Gestão de Pessoas12 ...................................................................................................................................................................................................................... Então, a que conclusão você chegou? Eu concluo duas coisas: 1. Sempre alguém será devorado pelo tigre. 2. Quanto mais você deixar de aprender e mudar, mais perto você estará dele. Ao lermos a história podemos identificar claramente o que está ocorrendo na gestão moderna hoje, conforme ilustrado abaixo: • Desregulamentação: ocorre em ambientes onde há frequente ruptura de regras e padrões. • Obsolescência: vem de obsoleto, que significa ul- trapassado ou algo que não é mais utilizado. • Instabilidade: refere-se ao ambiente de incerteza em que vivemos. • Hipercompetição: é quando muitos mercados e empresas diferentes concorrem entre si. 13Conceitos de Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... A Oticon, líder mundial na fabricação de aparelhos auditivos, fun- dada em 1904, estava afundando. Seu Market Share havia caído pela metade na última década. Lars Kolind, seu fundador, derrubou paredes, eliminou secretárias e acabou com as descrições de car- gos e especializações, apenas para criar uma entidade totalmente dirigida por projetos, em que os funcionários desenvolveriam as ta- refas que precisavam ser feitas, depois se organizariam fisicamente como bem lhes parecia para realizá-las. Para consolidar a mudança, um mês depois, em 8 de setembro de 1993, a companhia leiloou seus velhos móveis de escritório entre os funcionários. Era um lance calculado para sublinhar o caráter ir- reversível da organização. A partir daquele momento, as pessoas acondicionariam seus pertences em carrinhos pessoais, que trans- portariam de um lado para outro, num espaço totalmente aberto, conforme a tarefa exigiria. Depois de sofrer um número surpreendentemente baixo de trans- tornos gerados pela inovação, a Oticon começou a ter lucros recor- des e a recuperar o mercado perdido. Confrontada por uma competição mais dura do que nunca por parte de empresas gigantes como a Philips, a Oticon introduziu um novo produto, cuja elaboração, planejamento, produção e lan- çamento demandaram a metade do tempo que levava antes das mudanças promovidas. Indagado se atribuía o “milagre” à sua nova configuração aparentemente desorganizada, Kolind respondeu: “nós apenas resolvemos nos desembaraçar da estrutura antiga. Acabamos com todos os departamentos. Eliminamos os títulos do pessoal administrativo e, com isso, pusemos abaixo aquele rígido procedimento oficial que sempre envolve atrasos e inação. Não havia mais secretárias para nos proteger. Nós acabamos completa- mente com a organização formal. Ganhamos uma tremenda van- tagem sobre a concorrência, porque não nos interessam as forma- lidades. Agora só estamos ligados em desempenho e resultados.” Market Share Significa “fatia de mercado”. Para entendermos melhor essas realidades, considere o caso da Oticon. A moderna Gestão de Pessoas14 ...................................................................................................................................................................................................................... Essa mudança de estado de coisas passa a exigir mais das empresas, e você deve ter notado que elas sempre estão inseridas em um determinado contexto. Assim, em fun- ção disso, sofrem alterações em métodos, produtos, pro- cessos e, como consequência, na forma como as pessoas são vistas e tratadas. Imagine o trabalho de motivação que deve ter sido realizado na Oticon! Sem dúvida, se não houvesse uma estratégia de Gestão de Pessoas, as mudan- ças não ocorreriam. Mas a grande pergunta é: Como chegamos a esse estágio? Como isso veio sendo desenhado ao longo do tempo? Veja o tópico a seguir. Objetivos da GEP Analisando a origem da palavra estratégia, observamos que vem do grego antigo, stratègós. Amplamente utiliza- da no meio empresarial, podemos defini-la como uma for- ma estruturada e racional de alcançar um objetivo futuro. Aplicando esse conceito a pessoas, notamos que os obje- tivos estão mais difíceis de serem atingidos. Por isso, os colaboradores precisam ser estimulados a pensar, inovar e experimentar. Os recursos tangíveis, tais como máquinas, veículos, equi- pamentos etc, passam a ter menos importância, visto que podem ser adquiridos com recursos financeiros, mas ape- nas com estratégias de Gestão de Pessoas pode-se inter- ferir no ambiente no qual está inserido e, consequente-stratègós De stratos, “exército”, e ago, “liderança” ou “comando”, tendo significado inicialmente “a arte do general”. 15Conceitos de Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... mente, ser estimulado por ele. Desse modo, concluímos que o ser humano tanto modifica como é modificado pelo ambiente onde trabalha. As organizações que priorizam políticas de Gestão de Pes- soas têm como premissa o desenvolvimento e a valoriza- ção do capital humano, o que cria um ambiente favorável ao desenvolvimento de produtos e serviços inovadores de alta qualidade, bem como um atendimento mais flexível e atencioso, porque um colaborador que se sente atendido, satisfeito e valorizado tende a realizar suas funções com maior motivação, envolvimento e comprometimento. Os gestores, então, devem adaptar-se a essa nova realida- de de “gestores de pessoas” e mudar sensivelmente suas rotinas de trabalho, dedicando mais tempo à melhoria de aspectos comportamentais, como: • Delegação. • Formação de equipes. • Comunicação. • Na sua relação com os colaboradores, conhecê- -los e fazer com que eles também conheçam melhor a organização. Avaliando essa evolução, percebemos que, no início, de fato era fácil realizar a tarefa no trabalho, já que era tão repetitivo, monótono e chato. Podemos imaginar, não é mesmo? Não é à toa que, com o tempo, ocorreu um aumento no absenteísmo e turnover. As pessoas eram separadas entre as que “pensavam” (supervisionavam os trabalhos) e as que executavam. Absenteísmo Termo usado para designar as ausências dos trabalhadores no local de trabalho, independente dos motivos. Turnover – Significa “rotatividade de pessoal”. Normalmente, é expresso em termos percentuais. Pode ser também um indicador de saúde organizacional. A moderna Gestão de Pessoas16 ...................................................................................................................................................................................................................... Você já imaginou como deve ser difícil realizar um trabalho sem pensar no que está fazendo? Há muito tempo se buscam explicações sobre quais as melhores maneiras de administrar pessoas no ambiente de trabalho. Em função do contexto econômico, político e social, esses modos de gerenciar caracterizaram-se de formas muito diferentes ao longo do tempo. Comparando os modelos Se observarmos os impactos sofridos pelas organizações em função de toda a instabilidade já mencionada, notare- mos que se trata de um legado que o Brasil carrega desde o início do processo de globalização e da política neolibe- ral acelerada no governo do presidente Fernando Henri- que Cardoso. Esses impactos são: a) Mudanças nos critérios de seleção exigi- dos pelas organizações: o perfil operacional e cartesiano dá lugar ao crítico e estratégico; a hierarquia agora convive com o espírito em- preendedor. b) O foco tende a ser mais na entrega do que no controle e na coordenação: surgem os pro- fissionais autogerenciáveis, com liberdade para decidir sobre os melhores métodos e processos. c) Independente de a organização atuar em produtos ou serviços, a estratégia passa a ser para aqueles que os produzem, vendem e en- tregam, ou seja, o colaborador. Neoliberalismo Conjunto de ideias capitalistas políticas e econômicas que defende a não participação do estado na economia. 17Conceitos de Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... Agora, cabe uma observação pertinente: por mais que este- jamos abordando o foco estratégico em pessoas, não que- ro dizer que os procedimentos e controles sejam desne- cessários, muito pelo contrário; eles conferem um padrão operacional imprescindível para a qualidade do produto ou do serviço exigido pelo mercado. Da mesma forma, sempre haverá atividades menos desafia- doras, enfadonhas e repetitivas e, nesse caso, é necessário que o executor delas as faça com o mesmo grau de motiva- ção que empreenderia a outras, e, quando isso não ocorrer, a Gestão de Pessoas cumpre seu papel. Os mecanismos de controle, nesse momento, auxiliam no melhor momento de intervir no processo, sendo então complementares. Compare os diferentes focos das empresas: Antigo Moderna Concentração na função de RH Especialização das funções Vários níveis hierárquicos Introversão e isolamento Rotina operacional e burocrática Preservação da cultura organizacional Ênfase nos meios e procedimentos Busca da eficiência interna Visão voltada para o presente e o passado Administrar recursos humanos Fazer tudo sozinha Ênfase nos controles operacionais Ênfase nos negócios de cada área Gerenciamento de processos Enxugamento Benchmarking Consultoria e visão estratégica Inovação e mudança cultural Ênfase em objetivos e resultados Busca da eficácia organizacional Visão voltada para o futuro e o destino Assessorar na gestão com pessoas Ajudar os Gerentes e Equipes Ênfase na liberdade e na participação Fonte: CHIAVENATO, 2008, p. 49. Benchmarking Processo contínuo de comparação de produtos, serviços e práticas empresariais, entre os mais fortes concorrentes ou empresas reconhecidas como líderes. É um processo de pesquisa que permite realizar comparações de processos e práticas “companhia- a-companhia” para identificar o melhor do melhor e alcançar um nível de superioridade ou vantagem competitiva. A moderna Gestão de Pessoas18 ...................................................................................................................................................................................................................... Na prática, observamos características de ambos os mo- delos em uma mesma empresa, e isso nos leva a outro tipo de comparação, que é a dos interesses da organiza- ção e do funcionário. Quando o colaborador percebe que no local de trabalho existe um potencial para a satisfação de suas necessida- des, ele envolve-se com mais entusiasmo e dedica mais tempo e esforço a ele. As pessoas passam grande parte do seu tempo nas or- ganizações, e nelas planejam suas vidas, satisfazem seus anseios e suas necessidades, o que permite alcançar seus objetivos pessoais. Isso faz com que haja uma grande re- lação de interdependência entre elas: as pessoas precisam tanto da empresa quanto a empresa delas. Caso haja di- vergências entre esses objetivos, o vínculo que une a orga- nização e o indivíduo começa a deteriorar-se. Observe as novas características da Gestão de Pessoas: Objetivos Organizacionais Objetivos Individuais Sobrevivência Crescimento sustentado Lucratividade Produtividade Qualidade nos produtos Redução de custos Participação de mercado Novos mercados Novos clientes Competitividade Imagem no mercado Melhores salários Melhores benefícios Estabilidade no emprego Segurança no trabalho Qualidade de vida no trabalho Satisfação no trabalho Respeito Oportunidade de crescimento Liberdade para trabalhar Orgulho da organização Liderança liberal Fonte: CHIAVENATO, 2008, p. 5. 19Conceitos de Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... Responsabilidades pela GEP “Eu gostaria que as pessoas fossem pra casa à noite e dissessem realmente: ‘Eu cons- truí aquele carro.’ Este é o meu sonho.” Pehr Gyllenhammar – Presidente da Volvo Você já observou que o senso comum diz que as ações de Gestão de Pessoas estão concentradas no Departamentode Recursos Humanos? Na verdade, os objetivos organizacionais vistos na tabe- la anterior são de responsabilidade de todo corpo gestor, pois todos os que influenciam outras pessoas devem co- nhecer e ter habilidade para aplicar estratégias direciona- das ao desenvolvimento de sua equipe, bem como possibi- litar a existência de um ambiente de trabalho favorável ao cumprimento das metas. Essas habilidades permitem iden- tificar as diferenças entre o indivíduo isolado e em grupo. Existem alguns mitos relacionados às pessoas que são bas- tante conhecidos; se você perguntar a um grupo delas quais as verdades mais fundamentais sobre o comportamento hu- mano, as respostas seriam da seguinte ordem: • “As pessoas são produto de seu meio.” • “As pessoas desejam segurança e estabilidade.” • “A maioria das pessoas é egoísta e preguiçosa.” • “As pessoas fazem apenas o que é necessário fa- zer.” ...................................................................................................................................................................................................................... A moderna Gestão de Pessoas20 ...................................................................................................................................................................................................................... Fazendo uma avaliação dessas colocações, vemos implici- tamente três ideias básicas: Uma das principais preocupações da GEP é a considera- ção das formas pelas quais os indivíduos podem afetar o comportamento de outros. Se for verdade que as pessoas comportam-se com base no que percebem ao seu redor, então, qualquer modificação de comportamento em uma determinada direção pode ser feita entendendo como o indivíduo enxerga o ambiente à sua volta. Veja, no tópico seguinte, como isso ocorre. 1. Ideia de causa: o comportamento humano é pro- vocado, sendo uma consequência dos fatores am- bientais; ou seja, o que está fora influencia o que está dentro. 2. Ideia de direção: o comportamento não é apenas causado, mas dirigido para um determinado ponto. 3. Ideia de motivação: o comportamento é determi- nado por um impulso, motivo ou vontade. 21As Pessoas como Parceiras da Organização ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ AS PESSOAS COMO PARCEIRAS DA ORGANIZAÇÃO Esperamos que você agora aprenda a descrever o ambiente onde as pessoas estão inseridas. Vimos na aula anterior que a GEP verifica como os indiví- duos afetam uns aos outros na organização, e agora fala- remos de um termo que é bem familiar a você: parceria. Mas o que, de fato, significa parceria? Parceria é a união de pessoas para um fim comum, e é por meio do entendimento e da aceitação que elas ajudam-se mutuamente, chegando ao sucesso almejado. As palavras-chave são: 1. Entendimento. 2. Aceitação. 3. Mutuamente. Na verdade, estamos falando em convergir os objetivos para que tenhamos resultados que sejam satisfatórios para todas as partes, pois: Você conhece algum gestor, seja ele coordenador, supervisor, gerente, diretor, que possa realizar esse objetivo sozinho? 22 ...................................................................................................................................................................................................................... A moderna Gestão de Pessoas Certa vez, um cliente para quem eu estava prestando uma consultoria na área de Treinamento e Desenvolvimento disse-me o seguinte: “mas, Márcio, aqui o funcionário não tem do que reclamar, pois os salários são justos e paga- mos em dia.” Não iremos entrar no mérito de que isso é obrigação da organização, pois a abordagem é outra. A remuneração conforme o mercado estabelece e na data acordada é a contrapartida mínima pelo trabalho entregue. A empresa que age dessa maneira tem apenas a preocupação de aten- der aos requisitos legais e trabalhistas. É necessário ter políticas não só de atração de talentos, mas também de re- tenção dos mesmos, e isso vai além do salário. Falamos de modelo de gestão, clima organizacional, benefícios, pro- gramas de reconhecimento etc. Tudo isso faz com que os trabalhadores sintam-se parte da empresa e não a vejam apenas como meio de quitar seus compromissos mensais. As pessoas, como recursos, precisam ser administradas, o que envolve planejamento, organização, direção e con- trole de suas atividades, já que passam a ser consideradas sujeitos passivos da ação organizacional, parte do patri- mônio físico na contabilidade da organização. As pessoas, como parceiras, são fornecedoras de conheci- mentos, habilidades, competências; e, sobretudo e o mais importante, de inteligência, a qual proporciona decisões racionais e dá significado e rumo aos objetivos globais da organização. É como se o colaborador realizasse um inves- timento na organização. Tudo isso fará com que o cola- borador tenha um sentimento de posse pela organização, cuidando dela como se fosse sua. 23As Pessoas como Parceiras da Organização ...................................................................................................................................................................................................................... Veja a tabela a seguir e perceba a diferença entre as duas visões de organização. Note que os métodos para gerar re- sultados em uma realidade são completamente diferentes da outra. Pessoas como Recursos Pessoas como Parceiras Empregados isolados nos cargos Colaboradores agrupados em equipes Horário rigidamente estabelecido Metas negociadas e compartilhadas Preocupação com normas e regras Preocupação com os resultados Subordinação ao chefe Atendimento e satisfação do cliente Fidelidade à organização Vinculação à missão e à visão Dependência da chefia Interdependência entre colegas e equipes Alienação em relação à organização Participação e comprometimento Ênfase na especialiazação Ênfase na ética e na responsabilidade Executoras de tarefas Fornecedoras de atividades Ênfase nas destrezas manuais Ênfase no conhecimento Mão de obra Inteligência e talento Fonte: CHIAVENATO, 2008, p. 9. 24 ...................................................................................................................................................................................................................... A moderna Gestão de Pessoas CASE WALT DISNEY: Encantando o cliente interno. A Walt Disney Company é mestre em prestação de serviços. Seu “produto” é entretenimento, e nenhuma outra empresa propor- ciona maior quantidade dele. De fato, no último ano, os estú- dios de cinema da Disney (inclusive a Touchstone) tomaram a liderança de todos os outros em receitas de bilheteria. Mas, em nenhum lugar a “magia da Disney” é mais visível do que no prin- cipal parque de diversões da empresa, o Disney World. Mais de 25 milhões de pessoas visitam o parque anualmente – dez vezes mais do que o número de visitantes do Yellostone National Park – fazendo dele a atração turística número um do mundo. Porém, o que traz tantas pessoas ao Disney World? Parte da res- posta está em suas muitas atrações, mas, na verdade, o que os visitantes gostam ainda mais, segundo eles próprios, é da bri- lhante limpeza do parque e da cordialidade dos colaboradores do Disney World. Em um mundo cada vez mais rude e mal ge- renciado, a Disney oferece carinho e organização. Como notou um observador: “no Reino Encantado, a América ainda funciona da maneira que deveria. Tudoé limpo e seguro. Qualidade e ser- viço ainda são importantes e o cliente está sempre certo.” Assim, a verdadeira “Magia da Disney” está na obsessiva dedi- cação da empresa ao atendimento de seus clientes. Ela define elevados padrões de excelência de serviços e toma extremo cuidado para tornar a visita do cliente memorável. De acordo com Michael Eisner, presidente da Disney: “estamos no negó- cio de exceder expectativas bastante elevadas das pessoas”. A Disney trabalha duro para levar cada colaborador, do executivo de um escritório menor até a pessoa que coleta os ingressos no portão, a abraçar a cultura centrada no cliente da empresa. E parece estar obtendo um esplêndido sucesso. À medida que as filas de espera crescem no Disney World, “o índice de satisfação” mensurado por pesquisas entre clientes, realizadas quando eles deixam o parque, cresce cada vez mais. Sessenta por cento de todos os visitantes do Disney World estão repetindo a visita. Quer saber mais? Veja o caso da Disney. 25As Pessoas como Parceiras da Organização ...................................................................................................................................................................................................................... Como a Disney consegue isso? Como ela inspira níveis tão ele- vados de serviço ao cliente? Além dos quatro Ps de Marketing, a Disney dominou o marketing interno — como motivar seus empregados a trabalharem como um time para proporcionar serviços do mais alto nível de qualidade — e o marketing inte- rativo – ensinando aos empregados como interagir com os con- sumidores para proporcionar satisfação. Em seu primeiro dia de trabalho, todos os novos colaboradores apresentam-se para um curso de motivação de três dias na Disney University, em Or- lando, onde aprendem como realizar a difícil tarefa de ajudar uma pessoa a divertir-se. Eles aprendem que estão no negócio de entretenimento, que são “membros do elenco”, cuja função é serem entusiásticos, conhecedores de seu trabalho e profis- sionais ao atender os “hóspedes” da Disney. Eles aprendem que cada membro do elenco tem um papel vital no show do Disney World, seja ele um “anfitrião de segurança” (polícia), um “anfi- trião de transportes” (motorista), um “anfitrião de manutenção” (varredor de rua), ou um “anfitrião de comidas e bebidas” (fun- cionário de restaurante). Antes de receberem suas “fantasias” e entrarem no “palco”, os membros do elenco devem aprender como lidar de forma efeti- va com os hóspedes. Em curso intitulado Tradições I e Tradições II, eles aprendem a linguagem, a história e a cultura da Disney. Eles aprendem a ser entusiásticos, prestativos e sempre amigá- veis. Eles aprendem a fazer boas ações, tais como se oferecer para fotografar os hóspedes para que toda a família possa es- tar na foto. Eles aprendem a nunca dizer “Não é minha função”. Quando um hóspede faz uma pergunta — seja ela “Onde é o restaurante mais próximo?” ou “Quais são os nomes dos anões de Branca de Neve?” — eles devem saber a resposta. Se virem lixo no chão, eles apanham. A Disney tem tanta confiança de que os membros de seu elenco vão agradar aos hóspedes que ela encontra meio de forçar o contato. Por exemplo, muitos itens nas lojas de lembranças do parque não têm etiqueta de preço, o que leva os clientes a perguntarem por ele. A Disney mantém seus gerentes próximos aos colaboradores e consumidores. Pelo menos uma vez na sua carreira, todo gerente do Disney World deve passar um dia passeando pelo parque usando uma fantasia de um dos personagens Disney, que pesa de 36 a 45 quilos. E todos os gerentes passam uma 26 ...................................................................................................................................................................................................................... A moderna Gestão de Pessoas Viram? Essa é a relação de parceria que citamos no início deste tópico. As pessoas não são apenas engrenagens no processo produ- tivo das organizações, mas também são a essência delas, de- positando nos produtos (que até podem ser concebidos em linha de montagem) criatividade, inovação, atendimento ex- celente e zelo pelo cliente. Tudo isso permite à empresa posi- cionar-se de maneira competitiva, cooperativa e diferenciada. semana por ano em “utilização cruzada”, deixando seus escritó- rios e passando para a linha de frente — recebendo bilhetes, vendendo pipoca ou controlando alguns dos brinquedos do parque. E a empresa trabalha para manter os empregados de todos os níveis motivados e sentindo-se parte importante do time. Todos os gerentes e colaboradores usam crachás com seus nomes e endereços e dirigem-se uns aos outros usando o primeiro nome, independente da posição que ocupam. Os co- laboradores recebem um jornal da Disney chamado Eyes and Ears (olhos e ouvidos), que traz notícias sobre novas atividades, oportunidades de emprego, benefícios especiais e ofertas edu- cacionais. Uma área recreativa — constituída por um lago, uma sala de recreação, uma área para piquenique, locais para remar e para pescar, e uma grande biblioteca — é reservada para uso exclusivo dos empregados. Todos os colaboradores que deixam a empresa respondem um questionário sobre como se sentiram trabalhando para a Disney. Dessa forma, a Disney mede seu su- cesso ao gerar satisfação entre seus funcionários. Assim, os em- pregados sentem-se importantes e pessoalmente responsáveis pelo show. A noção de “possuir a organização” reflete-se entre os milhões de visitantes. Em última instância, a satisfação do co- laborador gera a satisfação do cliente. A Disney descobriu que, cuidando de seus colaboradores, esta- ria proporcionando serviços de alto nível para seus clientes, e então, a si própria. Fonte: KOTLER, P.; ARMSTRONG, G. 1997, p. 453-455. 27As Pessoas como Parceiras da Organização ...................................................................................................................................................................................................................... Em 2008, alguns executivos da Disney estiveram em Por- to Alegre para uma palestra direcionada a um grupo de empresários, e um dos vários aspectos abordados foi a criação de uma cadeia de excelência baseada numa fór- mula bem fácil: Liderança Excelente + Equipe Excelente + Cliente Satisfeito = Resultados Financeiros (Lealdade). O que as pessoas dizem não é mais importante do que seus comportamentos. Essa é um pouco da magia Disney. Mas você deve estar perguntando-se se existe alguma fórmula que possa ser replicada para outras empresas, não é mesmo? Como a Disney obteve a fórmula desse enorme sucesso? A resposta é simples: com atenção aos detalhes, às pe- quenas coisas e aos pormenores. Coisas para as quais boa parte das empresas não quer dedicar tempo, dinheiro nem mesmo esforço. Na visão da Disney, é essa a única forma de fazer a coisa certa, o que a transformou na maior organização de entretenimento do mundo. 28 ...................................................................................................................................................................................................................... A moderna Gestão de Pessoas ASPECTOS ESSENCIAIS DA MODERNA GESTÃO DE PESSOAS A partir de agora, esperamos que você aprenda a definir processos e práticas utilizadas na Gestão de Pessoas. Observe bem tudo o que vimos até o momento e perceba que administrar não é fácil. Administrar é uma atividade complexa. Nos modelos de gestão antigos, o binômio co- mando-controle era suficiente para alavancar uma orga- nização, mas como vimos até o presente momento, com a entrada da variável pessoas, os métodos e os processos mudam... e de maneira bastante radical. É natural que a nova geração de colaboradores não veja com bons olhos uma gestão baseada em medo e punições,ou aquela gestão que faz com que a qualidade de vida fi- que em segundo plano, favorecendo o trabalho. Hoje, temos maior acesso à informação. Sabemos o que acontece em outras realidades e estamos mais voláteis na relação com a organização. Além disso, quem detém poder não é quem emite o contracheque, mas, sim, quem o recebe. Assim, é obrigatório utilizar ferramentas e práticas para gerenciar e reter as pessoas na organização; pensando nisso, a administração faz uso de estruturas e processos organizacionais. Após o planejamento, a segunda função estratégica é a organização, a qual tem como foco a divi- são do trabalho e a atribuição de tarefas. 29Aspectos essenciais da moderna Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... A cultura do organograma O organograma representa a estrutura hierárquica de uma organização, possibilitando ver as linhas de comando existentes. Uma vez que bem definido, elimina problemas de dualidade de comando. Embora amplamente utilizado, ele vem sofrendo mudanças ao longo do tempo, pois, se observarmos bem, um organogra- ma tradicional repete o modelo militar e escravocrata. Veja: Existem seis processos na moderna Gestão de Pessoas que reescrevem a tradicional área de RH, tornando-a bem mais leve e atrativa para o colaborador. Processos utilizados 1. Processo de agregar pessoas Processos utilizados para incluir novas pessoas na empresa. Antes chamados de suprimento de pessoas, hoje estão in- cluídos o recrutamento, a seleção e a integração de pessoas. 2. Processo de aplicar pessoas Processos utilizados para desenhar as atividades que as pessoas irão realizar na empresa, além de orientar e acom- panhar seu desempenho. 30 ...................................................................................................................................................................................................................... A moderna Gestão de Pessoas Descrever um cargo consiste em relacionar todas as ta- refas e responsabilidades determinadas ao colaborador. Lembre que tal descrição é sempre do cargo, e não de seu ocupante, conforme os objetivos da organização, o pla- nejamento estratégico, metas etc. É fundamental também termos métodos e processos de avaliação de desempenho que consistam na identificação e na mensuração das ativi- dades e dos resultados gerados pelos colaboradores. 3. Processos de remunerar pessoas Processos utilizados para recompensar o trabalhador. In- cluem remuneração, benefícios sociais e incentivos salarias. 4. Processos de desenvolver pessoas Processos utilizados para capacitar e incrementar desen- volvimento profissional. Incluem treinamento e desenvol- vimento das pessoas, programas de mudanças e desenvol- vimento de carreiras e programas de comunicação. 5. Processos de manter pessoas Processos utilizados para criar condições ambientais e psicológicas satisfatórias para as atividades das pessoas. Incluem administração da disciplina, higiene, segurança e qualidade de vida e manutenção de relações sindicais. 6. Processos de monitorar pessoas Processos para acompanhar e controlar as atividades das pessoas e verificar resultados. Incluem banco de dados e sistemas de informações gerenciais. Todos esses processos, se utilizados de maneira coorde- nada, geram impacto positivo na performance da organi- 31Aspectos essenciais da moderna Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... zação, pois com as equipes motivadas e produtivas, cus- tos como rescisões, retrabalhos, processos trabalhistas, entre outros, reduzem sensivelmente. Como fechamento deste capítulo, quero lembrar a impor- tância do fator humano para o sucesso das organizações, pois o maior ativo que uma empresa possui não são os com- putadores, mesas, cadeiras etc. Lembro-me de uma entrevis- ta de Bill Gates, na qual ele afirmava o seguinte: “todos os dias fico milionário às 8:00 e pobre às 17:00.” Pois o maior ativo de uma empresa vai embora ao final do expediente, sem a garantia de volta no dia seguinte. Quem auxilia nessa volta é o Gestor de Pessoas, pois, ao movimentar e fomentar processos motivacionais, propicia o retorno do colaborador. Podemos, então, dizer que esse momento é único em ter- mos de mudança, porque gera uma nova postura em vários aspectos da gestão, e uma nova consciência deverá permear as relações entre as pessoas na empresa. Assim, algumas competências são indispensáveis para qualquer profissio- nal que pretenda desempenhar minimamente a função de Gestor de Pessoas. Por exemplo: foco e visão integrada, visão holística, comunicação clara e consciente, capacidade de estimular e trabalhar em equi- pe, sensibilidade para o relacionamento interpessoal, capacidade de criar e manter vínculos e foco no real valor das pessoas. Para tanto, o último requisito: a capacidade de desapegar do velho – das velhas formas de pensar, sentir e agir, dos antigos paradigmas e preconceitos que impedem a anco- ragem do novo. 32 ...................................................................................................................................................................................................................... A moderna Gestão de Pessoas Está de acordo? Começamos a agregar conhecimento, e, na próxima unida- de, veremos como todos esses conceitos e métodos ocor- rem em ambientes instáveis e em constante mudança. 33 ...................................................................................................................................................................................................................... REFERÊNCIAS BOHLANDER, George; SNELL, Scott; SHERMAN, Arthur. Ad- ministração de Recursos Humanos. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2005. CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de Pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008. KOTLER, P.; ARMSTRONG, G. Princípios de Marketing. 7. ed. Rio de Janeiro: Prentice Hall do Brasil, 1997. p. 453-455. MARCONDES, Reinaldo Cavalheiro. Gestão do fator huma- no. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2002. MARRAS, Jean Pierre. Gestão de Pessoas em empresas inovadoras. São Paulo: Futura, 2005. PORTER, Michael E. Vantagem competitiva: criando e sus- tentando um desempenho superior. Rio de Janeiro: Cam- pus, 1989. VERGARA, Sylvia Constant. Gestão de Pessoas. São Paulo: Editora Atlas, 2003. ...................................................................................................................................................................................................................... 34 35Mudanças e transformações no cenário mundial ...................................................................................................................................................................................................................... CAPÍTULO 2 A GESTÃO DE PESSOAS EM UM AMBIENTE INSTÁVEL E COMPETITIVO “A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presiden- ciais. Ela se desenrola também nos quintais, en- tre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colé- gios, nas usinas, nos namoros de esquinas...” Ferreira Gullar O termo globalização tomou mais força a partir dos anos 1990, mas, na verdade, é bem mais antigo. Podemos reme- ter-nos à descoberta da América, quando o mundo passou de grande a médio. Nesse período, o que determinava a for- ça de um país ou organização eram os músculos. Por volta de 1800, ouseja, pouco mais de 200 anos atrás, começou o processo de mecanização da lavoura, face ao surgimento da máquina a vapor que substituiu o trabalho humano e animal. Antes, bois ou cavalos eram usados para puxar os arados, e os homens faziam a colheita com as mãos. Era preciso ter braços fortes e boa saúde física. Hoje, um trator pode fazer o trabalho de 30 homens e com maior produtivi- dade. Aliás, segundo estudiosos, um cidadão da Grécia an- tiga precisaria de mais de 30 escravos para fazer o que uma dona de casa faz hoje sozinha, com seus eletrodomésticos. 36 ...................................................................................................................................................................................................................... A Gestão de Pessoas em um ambiente instável e competitivo Certa vez, li na revista The Economist o seguinte: “a maio- ria das atividades realizadas hoje não existia há 200 anos. De fato, desde o início dos tempos, as únicas profissões que se mantêm idênticas são a mendicância e a prostitui- ção.” Nesses 200 anos, alcançamos a eletricidade, os plás- ticos, a internet, a clonagem, a nanotecnologia e assim por diante. Mas, o que isso tem a ver com a Gestão Estratégica de Pessoas? Bom, em primeiro lugar, devemos analisar os impactos no trabalho, pois se olharmos ao nosso redor exata- mente agora, observaremos que praticamente tudo foi criado ou passou por alguma organização, mas certas mudanças ocorrem de maneira tão sutil que sequer per- cebemos. A cada dia mais e mais profissões estão sendo extintas, e é exatamente aí que temos um problema: a maioria dos desempregados dessas profissões continua por muito tempo procurando emprego nas mesmas. En- tão, qualificação e conhecimento fazem a diferença, e os profissionais que percebem isso se tornam disputa- dos pelas organizações. Gerenciar esse novo trabalha- dor tornou-se parte da estratégia da organização. Nesta unidade, veremos como a Gestão Estratégica de Pessoas ocorre nesse ambiente competitivo. Nanotecnologia Ciência que estuda o reino dos átomos e das estruturas um milhão de vezes menores que a cabeça de um alfinete. 37Mudanças e transformações no cenário mundial ...................................................................................................................................................................................................................... MUDANÇAS E TRANSFORMAÇÕES NO CENÁRIO MUNDIAL Neste tópico, esperamos que você aprenda a descrever as características do cenário de negócios da Gestão de Pessoas. Se nós observarmos bem o passado histórico das organi- zações, veremos que as mesmas passaram por fases bem distintas, não porque elas escolheram, mas porque o mer- cado assim as conduziu. Veja só: Fase 1 – Produção Antes, as empresas tinham como grande preocupação ge- rar o maior número possível de produtos, a fim de disponi- bilizá-los no mercado. Em ambientes de demanda reprimi- da, essa se mostrava como a única tática possível, pois uma vez que a concorrência era escassa e a distribuição feita por monopólios ou oligopólios, o consumidor ficava totalmen- te a mercê do oferecido pelas organizações, podendo estas manobrar o preço final com enorme facilidade, sem reduzir as margens de lucro, conforme a seguinte equação: PREÇO = CUSTO + MARGEM Nesse modelo, predominavam as seguintes características: • Gestão era ineficaz. • Ganhos em escala. 38 ...................................................................................................................................................................................................................... A Gestão de Pessoas em um ambiente instável e competitivo • Mão de obra barata/farta /não especializada. • Fragmentação do trabalho. • Processos intensivos em mão de obra, energia e matéria-prima. As margens eram altas e intocadas, ou seja, se em um de- terminado produto a margem para o empresário fosse de 20%, mesmo que ocorressem desperdícios, falhas geren- ciais, quebra de equipamentos etc, esse percentual não mudava, e, nesse cenário, a única alternativa era o repasse para o preço final. A preocupação das organizações era colocar o produto à venda e ponto final. Para melhor entendimento, era como se, para vender mais, bastasse aumentar a velocidade da esteira da linha de produção. Nessa visão, chamada de mecânica, a preocupação que se tinha com relação ao trabalhador não era com o treina- mento para o exercício das atividades diárias do trabalho, mas com o adestramento. O homem não era encarado com bons olhos, pois era visto como um irresponsável e negli- gente, o qual, portanto, deveria ser acompanhado bem de perto para que produzisse muito. Saiba mais: o filme Tempos modernos, de Chaplin, retrata mui- to bem essa realidade, mostrando o colaborador como um mero “apertador de parafusos”, em trabalho entediante e sem qualquer estímulo ao pensamento criativo. Veja um trecho do filme no link: <http://www.youtube.com/watch?v=XFXg7nEa7vQ>. 39Mudanças e transformações no cenário mundial ...................................................................................................................................................................................................................... Fase 2 – Produto Com o advento da concorrência e o fim das reservas de mercado, observamos que já não era suficiente apenas o volume produzido, pois as empresas entrantes já conhe- ciam as fórmulas de sucesso e usavam as mesmas para abocanhar uma fatia cada vez maior do mercado. A partir do momento em que novos concorrentes chega- vam, as empresas passavam a preocupar-se com a qualida- de de seus produtos. As organizações desenvolviam seus corpos gerenciais, os quais eram capacitados de maneira exaustiva para, na maioria das ocasiões, buscar valores que pudessem ser agregados ao produto e valores técnicos, tais como durabilidade, marca, garantia e assistência técnica. As certificações de qualidade e a luta por produtos cada vez mais duráveis surgiam como grandes fatores de atrati- vidade de novos consumidores. Fase 3 – Vendas Com o alto volume de concorrentes e produtos disponíveis (com preços e qualidade semelhante), fez-se necessário via- bilizar a chegada desses produtos ao cliente. Entrou-se na fase do PDV (ponto de vendas), que tinha como objetivo conferir maior capilaridade aos produtos e serviços. Não bastava o produto existir e ter boa qualidade, ele precisa- va ser acessível. Os programas de treinamento passaram a permear toda organização, mas com foco apenas motiva- cional, uma vez que o objetivo era apenas a venda. Fase 4 – Capital Humano Vamos a uma reflexão bem pertinente para o momento atual: em todas as fases citadas, em que momento o fator pessoas foi con- siderado? 40 ...................................................................................................................................................................................................................... A Gestão de Pessoas em um ambiente instável e competitivo Em um ambiente extremamente turbulento como o atual, o único diferencial que realmente agrega valor ao negó- cio é o fator humano com todo o seu potencial criativo e habilidade em lidar com ideias, conceitos, teorias e em relacioná-las à prática cotidiana. Uma vez que essas prá- ticas permeiam o DNA da organização, vemos produtos e serviços diferenciados, pois essa é a gênese do que os clientes compram hoje: o espírito da marca. A equação agora é diferente dos modelos anteriores: LUCRO = PREÇO - CUSTO O lucro é cada vez menor, o preço é praticamente uma commodity ditada pelo mercado e a principal variável de controle pelas empresas é o custo. A variável custo não é gerenciada apenas como mudança de processos, mas como mudança de cultura, e, nessepon- to, observamos o papel da Gestão Estratégica de Pessoas. Avaliação sob a ótica de Gestão Estratégica de Pessoas Em todos os cenários, as pessoas eram parte do contexto, sendo que a diferença estava no foco dado a elas. Nas duas primeiras fases, o ambiente era conservador e voltado à padronização de tarefas e do comportamento das pessoas. Embora as mudanças sempre ocorressem, as mesmas eram mais morosas e consequentemente mais previsíveis, não permitindo um clima de desafio, mas sim de busca de uma maior eficiência que significava: “fazer Era possível um profissional ficar toda a sua vida em uma mesma função, na mesma empresa e se aposentar nela, com pouca ou nenhuma especialização. Commodity Termo de língua inglesa que significa literalmente mercadoria, sendo utilizado para designar bens para os quais existe procura sem atender à diferenciação de qualidade do produto no conjunto dos mercados e entre vários fornecedores ou marcas. 41Mudanças e transformações no cenário mundial ...................................................................................................................................................................................................................... o mesmo, mas melhor”, com os treinamentos para funcio- nários semelhantes a “adestramentos”, por serem apenas voltados para a operação. Nessas organizações, chamadas de Funcionais, observa- mos a divisão por áreas de conhecimento similares e com hierarquias bem definidas, cada uma com um responsá- vel (supervisor, capataz, gerente etc.), e se subirmos na hierarquia, chegaremos ao presidente. A grande vantagem desse modelo é podermos concentrar especialistas em certas funções, com mesmo perfil e formação técnica. As desvantagens estão na pouca comunicação, na cria- ção de grupos rivais ou feudos, e na extrema fragmenta- ção da organização. Na terceira fase, que durou até o início dos anos 1990, o ritmo era mais acelerado, em função do grande número de concorrentes surgindo, e, aos poucos, uma cultura de inovação começava a ser desenvolvida, ainda que de for- ma muito insipiente. 42 ...................................................................................................................................................................................................................... A Gestão de Pessoas em um ambiente instável e competitivo Tentando minorar os problemas de uma organização fun- cional, surge a estrutura matricial, que tem como caracte- rística a elaboração de projetos. Mesmo que também seja dividida por departamentos, notamos que colaboradores de um setor podem desenvolver projetos em outro, caso sua competência seja necessária. A quarta fase, que estamos vivendo ainda hoje, é carac- terizada pela volatilidade. As relações de trabalho estão mais tênues e o conhecimento passa a ter papel impor- tantíssimo para as organizações, pelo fato de estar mais disseminado e popularizado. Thomas Friedman, em seu livro O mundo é plano, fala de três Eras de globalização: • 1ª Era: com a descoberta da América, o mundo passou de grande a médio, iniciando a globalização entre países. 43Mudanças e transformações no cenário mundial ...................................................................................................................................................................................................................... • 2ª Era: com as Grandes Guerras, o mundo ficou pequeno, iniciando a globalização entre empresas. • 3ª Era: com a internet e o comércio eletrônico, o mundo ficou minúsculo, caracterizado pela globali- zação entre pessoas. Nesse último cenário, surge uma nova categoria de profis- sionais: o trabalhador do conhecimento, que é alguém que tem introjetado em sua atividade o ato de pensar e agir. Nos anos 1990, ocorreram alguns processos empresariais inovadores: um deles foi a Reengenharia, que pregava uma reestruturação total nos processos em níveis de custo, re- dução de tempo e qualidade. O outro, o downsizing, que consistia em um realinhamento de tarefas para que um nú- mero menor de pessoas as fizesse, ou seja, traduzindo o termo, seria algo como “enxugamento” ou corte de pesso- as. Em ambos, os colaboradores que permanecessem par- ticipariam mais intensamente e incorporariam novas ativi- dades que demandavam conhecimentos mais abrangentes. A cada dia surgem mais ferramentas tecnológicas e com maior necessidade de pessoas qualificadas. Os esforços de recrutamen- to e seleção estão cada vez menos focados na mão de obra braçal e mais em trabalhadores do conhecimento, sendo este atualmen- te o maior patrimônio, o qual congrega conhecimento técnico, experimental, acadêmico e informal. Assim, hoje, as organizações percebem que seu maior ativo vai embora todos os dias quando acaba o expediente de trabalho. 44 ...................................................................................................................................................................................................................... A Gestão de Pessoas em um ambiente instável e competitivo DESAFIOS DO TERCEIRO MILÊNIO PARA A GESTÃO DE PESSOAS Agora, esperamos que você aprenda a analisar como a in- formação e a inovação interferem nas organizações. Inovação Quando falamos de inovação, é importante associarmos esse termo à “geração de dinheiro novo”. Quando estu- damos os entraves ao crescimento de uma organização, percebemos que a maioria deles está ligada à falta de es- tratégia e à insuficiente gestão de pessoas. Isso faz parte de um conjunto de possíveis crises que podem afetar a Gestão Estratégica de Pessoas; mas, por agora, vamos res- tringir-nos a quatro grandes fatores: • Idade da empresa. • Tamanho da empresa. • Modelo de governança. • Crescimento do setor. Idade da empresa: uma organização com muitos anos de mercado tende a possuir uma cultura mais rígida e inflexí- vel, pois foi exatamente isso que a permitiu sobreviver até o momento. Desafiar essa cultura é questionar todo um estado de coisas presente desde a sua criação, podendo ser um desafio grande demais para o gestor de pessoas. 45Desafios do Terceiro Milênio para a Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... Tamanho da empresa: uma das vantagens de uma organi- zação pequena é o fato de as informações chegarem mais rápido ao seu destino, pois a distância entre os gestores e a operação é muito pequena. Em uma empresa grande, normalmente, são muitas alçadas de decisão, o que faz com que o caminho decisório seja mais longo e, depen- dendo de sua velocidade, pode rapidamente se tornar ul- trapassado. Modelo de governança: refere-se à tomada de decisões, se é feita com base em consenso, imposição, colegiado etc. Na implantação de projetos com pessoas, o modelo de governança tem influência direta, pois interfere direto na adoção das novas ideias por parte dos colaboradores. Crescimento do setor: o que você acharia de elaborar um projeto de Gestão Estratégica de Pessoas fantástico e ino- vador em uma empresa que vende toca-fitas, vitrolas, dis- quetes ou máquinas de escrever? Afirmo que simplesmen- te não funcionaria, pois em mercados onde há declínio, decadência e elevada obsolescência, o clima da organiza- ção é rapidamente afetado. Ao observarmos esses fatores, vemos os tipos de inova- ção que podem ser implementados. Um deles é a inovação incremental, que corresponde à evolução ou melhoria de algo que já existe, aproveitando o conhecimento prévio da organização. O outro é a inovação radical, que abandona padrões antigos. Para melhor entendimento, vamos fazer a seguinte comparação: o sistema Windows, da Microsoft, mostra constantesinovações, mas todas incrementais, pois a essência do modelo é mantida. Se você trabalha, por exemplo, em uma organização que vende retroproje- 46 ...................................................................................................................................................................................................................... A Gestão de Pessoas em um ambiente instável e competitivo tores e muda o foco para datashows, ou em uma organiza- ção que antes trabalhava com CDs e migrou para arquivos em MP3, note que se trata de uma inovação radical, pois o modelo anterior terá de ser abandonado, havendo uma mudança no paradigma do negócio. Para ilustrar melhor essa história, vamos conhecer um caso de empreendedorismo que tem a ver com a história dos videoga- mes. No início dos anos 1970, chegou ao Brasil o Telejogo, da Phil- co, cujos jogos eram todos na memória do aparelho. Em meados da mesma década, surgiu o videogame Odyssey, da Philips, com uma grande revolução: os jogos passaram a ser comercializados de maneira avulsa, permitindo, assim, uma enorme variedade de títulos. Esse modelo fez tanto sucesso que todos os fabricantes seguintes o adotaram, passando a comercializar seus aparelhos com jogos à parte no formato de cartuchos e consolidando defi- nitivamente esse formato de jogos. No início dos anos 1990, um engenheiro da Nintendo, chamado Ken Kutaragi, desenvolveu um projeto inovador, no qual os jogos mudariam de plataforma, sendo comercializados em novo formato: em CDs. A diretoria da Nintendo reprovou o projeto, repreendendo vee- mentemente seu engenheiro. A maioria dos profissionais no lu- gar dele abandonaria a ideia, por receio de pôr seu emprego em risco, mas não foi o que aconteceu. Essa mesma ideia foi apre- sentada para Akio Morita, lendário presidente da Sony (falecido em 1999), cuja primeira iniciativa foi contratar Kutaragi para de- senvolver o projeto dentro da Sony. O restante, como se diz, é história. O PlayStation tornou-se o maior sucesso de vendas da história dos videogames e criou um mercado novo com uma pla- taforma de jogos totalmente inovadora. Ken Kutaragi foi levado a presidente da divisão de jogos da Sony. O mercado de jogos no formato de cartucho estava extinto. Essas rupturas são essenciais para permitir que as orga- nizações entrem em novos mercados antes inexplorados, façam novas alianças estratégicas e, consequentemente, faturem mais. Porém, o nível de ousadia é enorme, pois em realidades inexploradas não há parâmetros de sucesso, comparações ou histórico. No entanto, estamos falando de 47Desafios do Terceiro Milênio para a Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... estratégias com pessoas, e por isso temos de verificar como elas estão nesse contexto, temos de partir da premissa de que em uma inovação, a organização muda apenas a es- tratégia e o produto, mas continua com o mesmo capital humano. Se observarmos bem o perfil padrão dos colabora- dores, notaremos que existem grupos bem distintos: • Inovadores. • Reformadores. • Aspirantes a mudanças. • Retrógrados. • Inertes ou atrofiados. • Acomodados. Modelo de Anthony Phelps, ex-diretor de McCann-Erickson O grande desafio para o gestor é atuar nesse último gru- po, que corresponde à maioria dos colaboradores, e se isso ocorrer, praticamente toda organização caminha na mesma direção. A inovação invariavelmente fará com que as pesso- as saiam de suas zonas de conforto com a crença de que a 48 ...................................................................................................................................................................................................................... A Gestão de Pessoas em um ambiente instável e competitivo mudança existe para agregar valor ou com a certeza de que representa uma ameaça (principalmente para os retrógra- dos, inertes ou atrofiados). O papel do gestor estratégico de pessoas passa a ser o de mediador, conciliador e condutor do processo de mudança, pois certamente uma aura de ins- tabilidade e insegurança irá cobrir a organização. As organizações como centros de aprendizagem Imagine que você tenha de ir do Rio de Janeiro a São Paulo de carro e que gaste um tanque de gasolina nessa viagem. Em uma segunda viagem, é retirado ¼ do combustível logo no início, e isso fará como que você pare uma vez para abastecer. Em uma terceira viagem, é retirada metade do combustível, e então você precisa abastecer mais e assim sucessivamente. O combustível, nesse caso, representa o conhecimento, e a viagem, sua jornada profissional. Note que a cada ano você precisará abastecer-se cada vez mais de conhecimento, pois o que fora acumulado até então já não é mais suficiente. As organizações hoje estão exigindo uma qualificação cada vez maior sem terem a preocupação de saber se irão encontrá-la no mercado. Lembro-me de certa vez estar acompanhando um processo seletivo para chefe de cozi- nha de um restaurante internacional na zona sul do Rio de Janeiro, e cujo salário oferecido era de 12 mil reais. O processo demorou quase seis meses, pois o profissional não estava disponível no mercado. Mas o que há de tão único em um chefe de cozinha? Não basta ele dominar a profissão? Se a resposta fosse apenas essa, o problema estaria resolvido, mas quantos chefes de cozinha você conhece que falam três línguas estrangeiras, com curso superior em Gastronomia e conhecimento de culinária in- ternacional? Essas eram as exigências do cargo. Por isso, encontramos muitos profissionais desempregados e mui- 49Desafios do Terceiro Milênio para a Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... tas empresas contratando, pois, na verdade, toda essa qualificação não é uma exigência da empresa, mas sim, do mercado, e nenhuma organização irá oferecer menos do que o mercado pede, e os poucos profissionais dispo- níveis valem bastante. Mas o que fazer com o colaborador já residente, ou seja, que já está na organização? Torná-lo ainda mais qualificado? Uma alternativa seria exigir que ele próprio buscasse sua qualificação, mas isso entraria em choque com a questão do tempo livre, que é algo cada vez mais escasso, princi- palmente se estivermos falando de níveis de gestão, em que a necessidade de capacitação é bem maior, mas o tem- po dedicado à organização também. A alternativa é transformar o ambiente de trabalho tam- bém em ambiente de aprendizagem, com projetos inter- nos de capacitação que possam acrescentar ou potenciali- zar conhecimentos e habilidades da equipe interna. Nesse contexto, o ser humano ganha cada vez mais importância no cenário da organização, pois de mero cumpridor de tarefas, transforma-se em cliente interno, de descartável a essencial, pois, além de pensar, ele também pode produzir conhecimento. Uma vez que essa cultura esteja instaurada na organização, algumas mudanças poderão ser percebi- das, como: 1. Necessidade constante de informações sobre os planos e as metas da empresa. 2. Criação de uma “zona de desconforto” em relação aos modelos de gerenciamento existentes. 3. Participação nas decisões. 50 ...................................................................................................................................................................................................................... A Gestão de Pessoas em um ambiente instável e competitivo 4. Utilização das experiências anteriores como for- ma de conhecimento. 5. Cultura de empreendedorismo. 6. Tolerância a erros emcasos de ações inovadoras. 7. Inexistência de punição por assumirem riscos. 8. Conhecimento do por que estarem fazendo. 9. Inserção de modelos de planejamento (onde esta- mos, onde queremos chegar e o que fazer). Bob Guns (1998), autor do livro A organização que aprende rápido, tem uma ótima definição para o que é a Aprendizagem organizacional: “É a aquisição de conhecimentos, habilidades, va- lores, convicções e atitudes que acentuem a manutenção, o cres- cimento e o desenvolvimento da organização“ (p. 33). No clássico livro A quinta disciplina, Peter Senge (1990) enumera cinco elementos para a criação desse modelo: 51Desafios do Terceiro Milênio para a Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... Note que o primeiro grande passo para essa mudança é o comprometimento da alta direção para iniciar esse pro- cesso e um eficiente modelo de Gestão Estratégica de Pes- soas, para que haja a continuidade. Certa vez, conversei com Arthur Grynbaum, CEO do Boticário, e ele relatou-me que havia visto um modelo de varejo na Europa onde não havia balcões, e resolveu implementá-lo em suas lo- jas. Assim, em 1999 o Boticário aboliu os balcões, e os clientes passaram a ter mais espaço para circular. As vendedoras foram capacitadas e transformaram-se em consultoras; o modelo deu certo e hoje está em todas as lojas. Esse é um exemplo de uma organização que aprende consigo própria. 52 ...................................................................................................................................................................................................................... A Gestão de Pessoas em um ambiente instável e competitivo NOVOS PAPÉIS DA GESTÃO DE PESSOAS Agora, esperamos que você aprenda a identificar os focos exigidos do gestor de pessoas. Vimos anteriormente que o gestor de pessoas precisa me- diar, conciliar e conduzir o processo de mudança, mas, para isso, será preciso um método, que é a Gestão do Co- nhecimento. Vamos começar este tema identificando a base de um processo decisório. Durante as primeiras décadas da informática, a prioridade sempre foi o gerenciamento de dados, mas para transfor- mar dados em informações, precisa-se de ferramentas, e, para transformar informação em conhecimento, precisa-se de tempo. O desenvolvimento e a implantação de metodologias que criem e armazenem o conhecimento é o mais novo desafio a ser enfrentado pelos gestores de RH. Cadeia do valor dado até o resultado 53Novos papéis da Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... O termo Gestão do Conhecimento pode ser encontrado em outras formas, tais como: capital intelectual, capital huma- no, inteligência competitiva, entre outros. Esse tema pas- sou a ser mais observado quando se constatou que o valor de mercado de diversas organizações era muito maior que seu patrimônio físico. Hoje, o valor de uma empresa englo- ba marca, capacidade de inovação e talento de sua equipe. Agora, torna-se urgente a necessidade de conter e reter o conhecimento que passou a ser um fator de produção na Era do Conhecimento, pois ele é compartilhado com a organização, e agregado ao seu produto final. Existe um conceito central que muitos autores usam do livro Criação do conhecimento na empresa, de Nonaka e Take- uchi, que é o do conhecimento tácito e explícito. O conhe- cimento tácito é aquele que as pessoas possuem, mas não está descrito em lugar algum. Está presente na cabeça delas, correspondendo às suas experiências. O conhecimento ex- plícito é aquele que está, de alguma forma, registrado, seja em meio físico ou virtual, podendo assim ser acessado em qualquer tempo por outras pessoas. As constantes transfor- mações do conhecimento tácito para explícito e vice-versa são chamadas de Espiral do Conhecimento. Para exemplificar, imagine que uma determinada empresa pague um curso de negociação em uma renomada institui- ção para um de seus colaboradores. Sem dúvida alguma, para ele seria fantástico, pois iria adquirir novos conhe- cimentos e melhorar seu currículo, mas e para empresa? Seria tão bom assim? Bom, a princípio, podemos inferir que esses novos conhecimentos seriam utilizados nas 54 ...................................................................................................................................................................................................................... A Gestão de Pessoas em um ambiente instável e competitivo suas atividades, mas de fato não é o que ocorre, e imagine que esse colaborador receba uma proposta de trabalho e simplesmente aceite e saia da empresa? Evidentemente, essa é uma circunstância normal de merca- do, mas, como citamos anteriormente, o maior ativo de uma empresa é o conhecimento acumulado por sua equipe. Se- guindo essa ótica, com a evasão de pessoas, também temos evasão de conhecimento. Uma alternativa para solucionar esse caso é criar algum processo no qual esse conhecimen- to seja compartilhado com a organização, que pode ser: • Passagem de conhecimento tácito para explícito: o colaborador que fez o curso irá replicar para ou- tras pessoas por meio de uma palestra. • Passagem de conhecimento explícito para explí- cito: repassar o material didático para o restante da equipe. • Combinação de ambos. O desenvolvimento do capital de conhecimento tem gera- do uma grande mudança no papel da Gestão de Recursos Humanos, que agora tem a preocupação de controlar e ade- quar o processo inteiro, desde o recrutamento à seleção, pois agora esse perfil precisa ser identificado na origem. Internamente, as organizações mostram-se cada vez mais conscientes quanto à necessidade de uma cultura voltada para a disseminação de seus valores por meio de pales- tras, projetos de capacitação, reuniões para discussão de temas, seminários etc. Então, um dos principais focos do Gerenciamento Estratégico de Pessoas é transcender os 55Novos papéis da Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... conhecimentos tácito e explícito e ampliar a capacidade de geração e compartilhamento de conhecimento para a orga- nização, até chegar aos seus produtos e, consequentemen- te, sendo percebidos pelo cliente externo. O interessante é que nem sempre as soluções para os pro- blemas internos são encontradas com consultorias exter- nas ou com contratação de gurus. Segundo uma pesquisa feita pela revista HSM sobre fontes de conhecimento para as organizações, mais de 80% dos problemas podem ser resolvidos com o conhecimento residente. Como o cenário acima, a Gestão Estratégica de RH passa a ter focos bastante definidos: • Apoio nas unidades de negócio na conquista de co- nhecimento novo, tanto interna quanto externamente. • Criação das políticas de comunicação. • Estruturação da memória organizacional. • Promover sinergia entre os departamentos. O salário do trabalhador sempre foi a contrapartida por seu trabalho realizado, cumprimento de horários e nenhuma falta. Hoje, o contrato é diferente: se o profissional melho- rar seguidamente suas habilidades e utilizá-las na organi- zação, melhorando seus processos e produtos, terá a ajuda necessária para se desenvolver e será reconhecido por isso. Sabe de onde vem o termo mão de obra? De um tipo de trabalho em que só se precisa da mão, e não da cabeça. Observe que quanto mais o trabalho sair dos músculos e passar parao cérebro, mais ele vale. ...................................................................................................................................................................................................................... 56 ...................................................................................................................................................................................................................... A Gestão de Pessoas em um ambiente instável e competitivo REFERÊNCIAS CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de Pessoas: o novo papel dos recursos humanos: Rio de Janeiro: Campus, 2009. FRIEDMAN, Thomas. O mundo é plano, uma breve histó- ria do século XXI. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. GUNS, Bob. A organização que aprende rápido. São Paulo: Futura, 1998. SENGE, Peter. A quinta disciplina, arte e prática da orga- nização que aprende. São Paulo: Best Seller, 2006. RIFKIN, Jeremy. O fim dos empregos. São Paulo: Makron Books, 1994. 57Estratégia em Gestão de Pessoas ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ CAPÍTULO 3 ANÁLISE ESTRATÉGICA DA GESTÃO DE PESSOAS “Quem planeja em curto prazo deve cultivar cereais; em médio prazo, deve plantar árvores; em longo prazo, educar homens.” Kwantsu - Século 3 a.C. De todas as mudanças ocorridas no papel desempenhado pelo RH, a mais intensa foi o seu envolvimento com a estra- tégia do negócio. Antes, tais ações eram de incumbência da alta gestão, que definia os rumos da organização, cabendo ao Departamento de RH apenas a reposição de pessoas. Em função da situação mostrada nos capítulos 1 e 2, per- cebemos hoje que, cada vez mais, a gestão estratégica de pessoas necessita estabelecer uma direção a ser seguida pela equipe. Nenhuma organização tem sucesso garantido no atual am- biente de negócios, e, para muitas, fazer negócios tornou-se um jogo novo e com novas regras. Para outras, se tornou uma luta pela sobrevivência. Dessa forma, toda organiza- ção precisa de modelos de planejamento para garantir a prosperidade de forma perene e sustentável, e, para o RH, esse é o grande desafio: saber gerir pessoas sem deixar de lado a mensuração estratégica dos resultados. 58 ...................................................................................................................................................................................................................... Análise estratégica da Gestão de Pessoas A área de RH tem passado por diversas fases. No início do século XX, ela controlava as admissões e demissões, gerenciava os pagamentos e benefícios. Em 1930, com a evolução da legislação dos sindicatos, o RH passou a ter um papel de integração entre a organização e esses sin- dicatos. Em 1970, as práticas tornaram-se mais efetivas, principalmente por causa dos prejuízos causados pelas ações judiciais. Ter os sindicatos próximos conferia gran- de vantagem competitiva para a empresa. Hoje, seu papel é de protetor e planejador de mudanças. Além de pensar de forma sistêmica, é preciso saber onde a organização quer chegar e traçar objetivos e ações para esse fim, pois é seu papel escolher o melhor caminho a ser seguido. Contudo, para que isso seja factível, é preciso conhecer o negócio e o segmento onde atua, pois somente assim ela poderá alcançar suas metas. Mas lembre-se: antes de saber para onde a organização vai, é necessário saber onde ela está. 59Estratégia em Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... ESTRATÉGIA EM GESTÃO DE PESSOAS A partir deste capítulo, esperamos que você aprenda a examinar a relação existente entre a estratégia em gestão de pessoas e a organização. Falando sobre estratégias A estratégia de qualquer negócio precisa levar em conta as suas alçadas, as quais precisam estar bem definidas. Normalmente, falamos de três níveis em uma organização. Veja a seguir quais são: 1. O nível estratégico define os objetivos e as me- tas a serem alcançados. Devido ao seu grau de im- portância para a organização, ele é executado em longo prazo, com resultados mais profundos e du- radouros. Essa função está concentrada na cúpula da empresa. 2. O nível tático verifica a viabilidade da implan- tação das ações, ou seja, os projetos. Esses são re- presentados pelos níveis gerenciais, e o tempo das 60 ...................................................................................................................................................................................................................... Análise estratégica da Gestão de Pessoas ações situa-se no médio prazo, com mais facilidade para as revisões e ajustes de rota. 3. No nível operacional, os esforços são focados de maneira mais direta na execução, com tempo de planejamento em curto prazo e acompanhamento mais fácil de ser realizado. São representados pelos níveis de execução da organização (chão de fábrica). Em resumo, podemos dar o seguinte exemplo: o nível es- tratégico diz: “vamos aumentar nossa receita em 30% e conquistar mais 10% do mercado.” O nível tático verifica a viabilidade desse resultado, ou seja, elabora o projeto (investir em tecnologia, treinamento, contratações etc.) e o nível operacional executa as ações. Mas a reflexão que devemos fazer é a seguinte: qual a base utilizada pelo nível estratégico para determinar os rumos da organização? A estratégia é determinada pela reunião da missão, da visão e dos objetivos, e a única parte racional e lógica da estratégia organizacional é o elemento humano. O RH, nesse contexto, incorpora uma responsabilidade nunca vista antes, pois precisa lidar com desafios, tais como: globalização, pressão por resultados, controle de custos, tecnologia, gestão do capital intelectual etc. Dessa maneira, ocorre a resposta do potencial do ser humano e, como bem sabemos, são as pessoas que trazem o conheci- mento e promovem as mudanças. A gestão estratégica de pessoas tem como desafio tangi- bilizar os objetivos da organização de modo que sejam os mesmos para todos os colaboradores. 61Estratégia em Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... Veja, no quadro abaixo, as relações existentes entre a es- tratégia da organização e a estratégia da gestão estratégi- ca de pessoas: Estratégia da organização Estratégia de RH Definir missão e visão do negócio Definir missão e visão do RH Análise de ambientes Análise de ambientes de RH Análise das capacidades Análise dos recursos humanos Definição de objetivos e políticas Definição de objetivos e políticas de RH Elementos críticos Elementos críticos de RH Desenvolvimento da estratégia Desenvolvimento da estratégia de RH Fonte: ALBUQUERQUE, 2002. Note que a criação de um modelo de gestão estratégica de pessoas segue praticamente todas as etapas de elaboração de uma estratégia organizacional. Quando o RH é alçado a esse nível, seus objetivos ficam nitidamente inseridos nas estratégias globais, impactam e são impactados por elas. Estamos falando principalmente dos conceitos de missão, visão e valores. Missão Toda organização tem um objetivo e não existe sem uma cau- sa que irá orientá-la em direção ao seu propósito.A missão de uma empresa deve responder a três perguntas básicas: 1. Quem somos? 2. O que fazemos? 3. Por que fazemos o que fazemos? 62 ...................................................................................................................................................................................................................... Análise estratégica da Gestão de Pessoas Como uma organização pode sobreviver se não sabe para onde vai nem o que quer? A missão define o único propó- sito a ser seguido para identificar seus produtos, serviços e clientes. A missão precisa estar clara para os produtores dos pro- dutos e serviços em questão, que é o capital humano da empresa, para depois ser percebida pelo cliente externo. A missão deve traduzir a filosofia da organização, que é normalmente elaborada pelos fundadores, pois envolve crenças e valores que retratam os princípios básicos da empresa, que devem apontar para todas as partes interes- sadas: clientes, acionistas, colaboradores, sociedade, go- verno, fornecedores etc. Concluímos, então, que é da mis- são que surgem a estratégia e o caminho a serem seguidos. Vamos analisar alguns exemplos práticos: “Ser reconhecida como a melhor empresa hoteleira comercial do mundo, de primeira classe; lutar cons- tantemente para melhorar, para prosperar como ne- gócio para o benefício de nossos acionistas, nossos hóspedes e nossos empregados.” A missão da Levi Strauss & Co. é manter seu suces- so comercial confiável e lucrativo, comercializando Jeans e roupas descontraídas sob a marca Levi’s. 63Estratégia em Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... Note que, em ambos os casos, o texto está escrito em lingua- gem financeira, sem nada exclusivo ou envolvente, dando a entender que o fator humano não faz parte da estratégia dessas empresas. Sendo assim, a área de RH dificilmente terá como foco a valorização do colaborador, simplesmente porque isso não faz parte da essência da organização. Agora, veja o caso da Natura: Criar e comercializar produtos e serviços que pro- movam o bem-estar/estar bem. Bem-estar é a relação harmoniosa, agradável do indivíduo consigo mesmo, com seu corpo. Estar bem é a relação empática, bem- -sucedida, prazerosa do indivíduo com o outro, com a natureza da qual faz parte e com o todo. Esse perfil de empresa, que todos nós conhecemos, en- xerga as pessoas de outra forma, seguindo bem de perto o que abordamos na unidade anterior, quando estudamos as organizações de aprendizagem. Muito mais do que uma frase ou um texto de impacto, a missão precisa ser perce- bida por todos, e um belo exemplo é o da Natura. Note que a missão da empresa não cita o colaborador, mas todos conseguem enxergar os valores dessa organização. Normalmente, a missão tem lugar de destaque na empre- sa, ficando em local visível aos colaboradores, pois todos precisam trabalhar orientados para ela. 64 ...................................................................................................................................................................................................................... Análise estratégica da Gestão de Pessoas Certa ocasião, prestando consultoria para uma rede de confec- ções no bairro de Alcântara, em São Gonçalo, vi a declaração de missão dessa empresa grudada na vitrine de uma das lojas. Ao perguntar ao gerente da loja como ela fora elaborada, ele me respondeu: “o nosso diretor viu esse texto em uma loja do Bob´s, gostou e mandou copiar e colar na parede de todas as lojas.” Visão A visão é aquilo que a empresa aspira ou espera que se torne. É como olhar para o futuro para termos a clara noção de onde a organização estará, e, dessa forma, idea- lizar os recursos necessários para levá-la do estágio atual ao desejado. Existem três elementos que auxiliam a transformar a visão em algo palpável para os colaboradores: 1. Um conceito claro. 2. Uma noção de propósito nobre. 3. A perspectiva de sucesso. E por que a visão é tão fundamental para as organizações atuais? A resposta é que, hoje, apenas regras e procedimentos não são suficientes para fazer com que as pessoas comprome- tam-se com os objetivos organizacionais. Ao compromete- rem as equipes com essas metas, as pessoas sabem exata- mente para onde ir, refletindo o estágio de crescimento e amadurecimento da organização. 65Estratégia em Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... Muitas organizações no Brasil estão mudando seus concei- tos para se adequarem às necessidades do mercado. Veja o exemplo do Banco Itaú, com o slogan “Feito pra você”. Como sabemos, os bancos são todos iguais. Oferecem os mesmos serviços e têm os mesmos problemas. Esse ban- co, então, criou uma campanha institucional que falasse diretamente com cada perfil de cliente, ressaltando que o Banco Itaú, apesar de ter sido feito para todos, respeita culturas e perfis diferentes. Agora, eu pergunto-lhe: se você faz parte de alguma empresa, qual a visão que ela tem de futuro? Para entendermos o quanto essa pergunta é importante, imagine que você, que está lendo este texto, não tenha a menor ideia do que estará fazendo, onde estará trabalhan- do, morando etc. ao término deste curso. Se você acabou de sentir uma sensação de desconforto, imagine isso em larga escala dentro de uma organização. Objetivos Objetivos são determinados, são resultados a serem atin- gidos dentro de um período específico e devem ser per- seguidos por todos: diretores, gerentes e colaboradores. Um dos grandes pensadores da administração moderna, Peter Drucker, diz que os objetivos são as entregas reali- zadas pelos colaboradores, e que precisam ser smart: ...................................................................................................................................................................................................................... 66 ...................................................................................................................................................................................................................... Análise estratégica da Gestão de Pessoas Exemplos de objetivos da gestão estratégica de pessoas: • Reduzir o índice de faltas em 50%. • Aumentar em 50% as horas de treinamento. • Aumentar de 120 para 300 o número de funcionários. Para que haja implementação plena desse modelo, tudo o que foi visto neste tópico precisa ser assimilado pelos membros da organização. Quando, anteriormente, falamos em “tangi- bilizar” os objetivos, queríamos dizer que todos dentro da empresa, desde o presidente até o porteiro, cada um em seu nível, têm o mesmo tipo de comprometimento. 67Diagnóstico e análise de melhorias ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ DIAGNÓSTICO E ANÁLISE DE MELHORIAS Agora, esperamos que você aprenda a dimensionar a abrangência das ações estratégicas em gestão de pessoas. Diagnóstico sistêmico de RH Se o gestor de RH pudesse ler as mentes de todos os co- laboradores, seu trabalho seria muito mais fácil, evitaria conflitos, e ele desenvolveria metodologias totalmente adaptadas tanto às necessidades da organizaçãoquanto às das pessoas. Porém, isso não passa de utopia, e faz-se necessário recorrer a um grupo de ferramentas próprias para esse fim. O diagnóstico segue o seguinte fluxograma: Na análise de ambientes, observamos claramente a exis- tência de dois tipos de variáveis: 68 ...................................................................................................................................................................................................................... Análise estratégica da Gestão de Pessoas Os fatores externos são aqueles que vêm de fora e afetam a organização, cabendo a ela reagir e minimizar os impac- tos. Tais fatores são: 1. Ambiente econômico. 2. Ambiente demográfico. 3. Ambiente natural. 4. Ambiente tecnológico. 5. Ambiente legal. Esses fatores não serão alvo de estudo neste momento, pois se referem aos níveis puramente estratégicos da or- ganização e carecem de um aprofundamento maior. Vamos dar foco, neste primeiro momento, apenas aos fa- tores internos da organização, pois esses podem ser mo- nitorados por meio da identificação das principais áreas de atuação do RH. Note que, neste momento, não cabe criticar o processo nem fazer juízos de valor, mas apenas identificar o que ocorre. 1. Recrutamento e seleção: de- verão ser identificadas as prin- cipais fontes de captação de profissionais (currículos, indi- cações, divulgação em redes so- ciais etc.) e de que forma esses candidatos serão avaliados (apenas entrevista, testes psicológicos etc.). Outro fator im- portante é saber o custo desses processos, pois não haverá resultados se, por exemplo, uma determinada vaga for 69Diagnóstico e análise de melhorias ...................................................................................................................................................................................................................... anunciada em um jornal de grande circulação e o público esperado estiver em uma rede social como o LinkedIn, na qual o candidato poderá ser encontrado a um custo mínimo. 2.Treinamento, desenvolvi- mento e educação: neste ponto, são identificadas as práticas de capacitação que ocorrem e averiguadas se re- almente ocorrem. Pode ser verificado, por exemplo, se a organização faz investimentos na capacitação de seus co- laboradores e quais os critérios. Muitas empresas utilizam o método do “treinamento por osmose”, que é manter o recém-contratado perto de um mais antigo, a fim de que os procedimentos sejam transmitidos de um para o outro. É interessante identificar de que maneira esse processo é visto pela alta direção: como custo ou como investimento? Como custo, significará que a área de RH será uma das primeiras a sofrer cortes quando houver algum problema financeiro. Como investimento, a área de RH continuará fazendo parte da estratégia da empresa, mesmo em tem- pos de crise. 3. Cargos e salários: a relação de tarefas e atribuições de um cargo precisa estar em algu- ma fonte de consulta (real ou virtual), pois, caso impere o ambiente de informalidade, será comum identificarmos problemas como dupla gerência e o não atingimento de metas. Na questão salarial, é necessário saber se as políti- 70 ...................................................................................................................................................................................................................... Análise estratégica da Gestão de Pessoas cas de remuneração vigentes estão de acordo com o mer- cado, ou se a organização pratica a mais-valia. 4. Avaliação de desempe- nho: sempre que um cola- borador inicia uma nova atividade na empresa, ele precisa ser informado dos resultados esperados dele e como eles serão avaliados, pois, caso contrário, ele ficará totalmente no escuro e de- pendendo da gerência. Nessa situação, somente haverá alguma intervenção em caso de erros ou falhas cometidas. Devemos sempre lembrar de que ninguém é um mero cumpridor de procedimentos e, se existem objetivos, eles precisam ser atingidos por todos os níveis. 5. Benefícios e serviços: como vimos, a empresa é uma organização social, portanto, deve atender aos anseios e às necessidades de seus colaboradores. Alguns desses be- nefícios são: 71Diagnóstico e análise de melhorias ...................................................................................................................................................................................................................... Antes, benefícios como esses eram concedidos com cunho paternalista, mas hoje são utilizados como forma de atrair e reter talentos. 6. Reconhecimento e celebração: muitas organizações acreditam que apenas os benefícios não são suficientes para manter os seus profissionais motivados. Desenvol- ver mecanismos de reconhecimento e incentivo também se torna importantíssimo para a retenção de talentos e não gera nenhum tipo de ônus adicional. Contudo, nor- malmente, essa prática não é utilizada, pois depende do desenvolvimento das lideranças. 7. Banco de dados e sistemas de informações: partindo da premissa de que só podemos ge- renciar aquilo que podemos me- dir, todas as ações precisam ser monitoradas com um conjunto de índices e indicadores de per- formance. 72 ...................................................................................................................................................................................................................... Análise estratégica da Gestão de Pessoas FATORES DE RISCO NO PLANEJAMENTO Agora, esperamos que você aprenda a relacionar os principais problemas e entraves ao diagnóstico de gestão de pessoas. Relacionando as barreiras Dependendo do estágio em que se encontra a organização, o trabalho a ser realizado será bastante árduo. Para cada tipo de negócio, encontramos dificuldades distintas, sejam empresas pequenas, médias, grandes ou ONGs. Em muitos casos, as dificuldades são basicamente as mesmas, pois em todos esses cenários distintos encontramos os mesmos fatores: as pessoas. Risco número 1: problemas de comunicação Uma das maiores dificuldades na implantação de um mo- delo de gestão de pessoas está ligada à forma como as informações fluem pela organização, seja no sentido ver- tical (entre líderes e liderados), seja no horizontal (entre pares). Esse problema pode ter duas causas: técnica ou comportamental. A causa técnica deve-se à falta de governança, ou seja, definição de mecanismos para que a comunicação flua de maneira mais livre, que pode ser uma política de reuniões, divulgação de resultados esperados e alcançados, utiliza- ção de tecnologia (e-mail, intranet etc). Em uma recente matéria publicada na revista Pequenas Em- presas Grandes Negócios, o PMI (Project Management Insti- tute) fez uma pesquisa com 300 empresas de grande porte 73Fatores de risco no planejamento ...................................................................................................................................................................................................................... e constatou que, para 76% das empresas, o principal moti- vo para seus projetos fracassarem são as falhas na comu- nicação. O diretor do instituto, Walther Krause, verificou que a maioria dos colaboradores não sabe escrever bem, não sabem expressar o que querem e não se relacionam bem com todos os perfis existentes na organização. O Project Management Institute (PMI®) é uma instituição inter- nacional sem fins lucrativos, que associa profissionais da área de gestão de projetos. A causa comportamental ocorre por problemas do pró- prio perfil dos colaboradores, que deliberadamente fo- mentam conflitos e divergências, devendo o gestor de RH interferir imediatamente, pois todo processo de mudan- ças pode ser ameaçado.Risco número 2: resistência à mudança Todos os processos de mu- dança que ocorrem nas or- ganizações geram certo grau de desconforto e insta- bilidade, mesmo que, no discurso, todos entendam que é um processo natural. Essa resistência está intima- mente ligada a traços de personalidade que nem sempre podem ser mudados pelos gestores. É a barreira mais presente quando se trata de processos de planejamento na organização, pois entra em choque direto com as formas e os métodos como as coisas sempre foram feitas. 74 ...................................................................................................................................................................................................................... Análise estratégica da Gestão de Pessoas Nessa vertente, o melhor caminho a ser seguido é procurar deixar bem explícitos não somente os objetivos, mas o que os colaboradores ganham com as mudanças. Porém, como nem tudo são flores na organização, a não aceitação das mudanças dará a entender que o colaborador não está inse- rido nos planos da empresa. Infelizmente, a mudança não é algo negociável: ou o colaborador encara como ideia pró- pria e compromete-se com as ações, ou o próprio se exclui. Risco número 3: limitação de recursos Certa vez, conheci um grande plano de saúde da região de Ni- terói que possuía uma das maiores carteiras de clientes do seg- mento. A empresa ocupava um andar inteiro do centro da cidade e tinha uma estrutura bastante luxuosa, com móveis de primeira linha, lindas recepcionistas e colaboradores uniformizados e mui- to bem apresentados. Porém, os equipamentos de informática eram totalmente obsoletos: utilizavam Windows 98, quando a última versão já era a XP. Uma das grandes barreiras que podem surgir é a limitação da organização, seja por ordem financeira ou técnica, em conseguir ajustar sua tecnologia à orientação estratégi- ca. Neste cenário, não existe um ERP (Enterprise Resource Planning), que controle toda a empresa. Os ERPs, em termos gerais, são uma plataforma de software de- senvolvida para integrar os diversos departamentos de uma em- presa, possibilitando a automação e o armazenamento de todas as informações de negócios. Muitas vezes, há um sistema para o setor comercial, outro para o financeiro, outro para produção, e assim por diante, o que aumenta absurdamente a margem de erros, pois aqui- lo que é feito no sistema de um setor não vai gerar impacto imediato em outro. A quantidade de erros nas informações 75Fatores de risco no planejamento ...................................................................................................................................................................................................................... gera custos diretos para a empresa, que muitas vezes pre- cisa destacar outros funcionários específicos para realizar a correção (que, ainda assim, podem cometer outros erros). Na implementação de um processo estratégico, é con- dição fundamental a integra- ção dos diversos sistemas presentes, com equipamen- tos compatíveis com o mer- cado, para que as informações possam ser analisadas mais rapidamente e os erros de dados diminuídos. Em um pro- cesso de alinhamento estratégico, a necessidade de inte- grar os sistemas, seja pela velocidade com que a informa- ção pode ser analisada, seja pela diminuição do volume de erros, passa a ser parte essencial da implementação de um planejamento estratégico, que compreende mudanças em toda a organização. Risco número 4: falta de comprometimento da gestão Limitações técnicas ou de recursos podem ser resolvidas ou diminuídas com aporte financeiro, o que é diferente da questão comportamental. Neste caso, se não houver su- porte político e moral dos gestores da organização, sim- plesmente não ocorrerá nenhuma implementação. Isso ocorre quando as pessoas sentem-se ameaçadas de algu- ma maneira com o novo modelo. Não que os seus cargos estejam em risco, mas invariavelmente haverá maiores responsabilidades e nem todos estarão dispostos a assu- mir mais atribuições do que já possuem. 76 ...................................................................................................................................................................................................................... Análise estratégica da Gestão de Pessoas Veja abaixo os resultados de uma pesquisa realizada pela IBM, o Global Making Change Work Study – 2008. Trata- -se de uma pesquisa global realizada com cerca de 1500 gestores de projetos, patrocinadores de projetos e gesto- res de mudanças, entre outros profissionais, que respon- deram à seguinte pergunta: o que facilita a mudança? Os dados falam por si mesmos: Risco número 5: falta de capacitação gerencial É importante ressaltar que a capacitação técnica normal- mente já existe, pois corresponde ao mínimo que uma or- ganização precisa possuir, em termos de conhecimento, 77Fatores de risco no planejamento ...................................................................................................................................................................................................................... para alavancar sua operação. Por exemplo, uma padaria tem excelentes padeiros, uma empresa de instalação de computadores conta com ótimos programadores, uma es- cola conta com excelentes professores e um hospital tem ótimos médicos. As escolas e universidades normalmente já preparam os profissionais tecnicamente para o mercado, mas a grande lacuna de capacitação não está objetivamente relacionada ao conhecimento técnico específico de alguma função, mas, sim, em relação à capacitação em termos de gerenciamento. Quando fazemos parte de uma organização, percebemos que a atividade gerencial permeia as quatro principais áre- as funcionais: operações, recursos humanos, marketing e finanças, e que não necessariamente os melhores técnicos possuem competências gerenciais equivalentes. Leia este relato de um consultor: Certo gerente de certa empresa, um belo dia, foi visitar outra empresa. Lá, encontrou um líder que o deixou maravilhado: o sujeito era excelente, de- monstrava capacidade, tranquilidade e conheci- mento do trabalho. “Preciso de um profissional as- sim lá na minha empresa”, pensou ele. E tanto fez, tanto conversou, que acabou convencendo o rapaz a largar o emprego onde estava e indicou-o como líder de produção na fábrica onde trabalhava. Seria responsável por comandar um setor importante, su- bordinado diretamente a ele. Os funcionários do setor, no começo, olharam des- confiados. Afinal, quem era aquele sujeito que já chegava numa posição de líder, indicado pelo pró- prio gerente da produção? Aos poucos, foram acos- tumando-se e até mesmo gostando dele! Ao con- trário do gerente, ele falava pausado, pedia “com 78 ...................................................................................................................................................................................................................... Análise estratégica da Gestão de Pessoas licença” e “por favor”. Até ouvia as queixas dos fun- cionários e levava os assuntos ao gerente, sugerin- do soluções e melhorias. Era firme e exigente, mas reconhecia o esforço do pessoal. Em vez de punir erros, procurava ajudar a entender o que estava mal feito e corrigir; às vezes treinava pessoalmente quem precisava. Não demorou para que o sujeito fosse elogiado por outros gerentes e líderes, o que despertou a preocu- pação do gerente de produção. Afinal, ele trouxera o rapaz e agora via que estava sendo ofuscado por sua presença… Em poucos meses ele se arrependeu de tê-lo trazido e acabou entrando em atrito com o rapaz, tomando decisões opostas às sugeridas por ele apenas para demonstrar força. Afinal, quem mandava ali era ele! Seus sentimentos de inveja e ciúme eramtão fortes que, um dia, ele destratou o subordinado na frente de todos os funcionários do setor e demitiu-o! Não muito tempo depois, ele próprio foi demitido tam- bém, pois a empresa percebeu que seus métodos tra- ziam desperdício, má qualidade e desorganização. (<http://gerentebeminformado.wordpress.com>) Em muitos dos casos, conforme citado acima, a falta do conhecimento gerencial acaba por levar excelentes técni- cos a não atingir seus objetivos. Risco número 6: expectativas pouco realistas O fato de elaborar um planejamento não significa ne- cessariamente que tudo sairá como previsto. Aliás, obri- gatoriamente, ele nunca sai como previsto, pois como o mercado e as regras mudam a todo o momento, o plane- jamento também sofre ajustes, afinal, o futuro não é cer- to. Com base nos cenários já previstos, os objetivos e as metas que citamos anteriormente precisam ser traçados, 79Fatores de risco no planejamento ...................................................................................................................................................................................................................... e um dos grandes erros está no mau dimensionamento desses números, deixando-os inatingíveis. Ao analisar todos esses riscos, chegamos à conclusão de que todas as organizações possuem uma ou várias bar- reiras como as que vimos neste capítulo, e isso torna o trabalho da gestão estratégica de pessoas muito mais in- tenso, pois a ausência desses riscos pode ser momentânea e surgir a qualquer momento, fazendo com que o gestor de pessoas fique sempre vigilante. Quando realizamos um diagnóstico, é como se tirássemos uma foto do momento e, em cima dessa foto, são realiza- das as devidas análises. Por isso deve ocorrer o menor nú- mero possível de intervenções nesse momento. Na etapa de planejamento, normalmente, são traçados cenários dos tipos otimista, provável e pessimista a fim de que qual- quer resultado alcançado já esteja previsto. Mas isso é as- sunto para a próxima unidade. ...................................................................................................................................................................................................................... 80 ...................................................................................................................................................................................................................... Análise estratégica da Gestão de Pessoas REFERÊNCIAS ALBRECHT, Karl. Programando o futuro, o trem da linha norte. São Paulo: Makron Books, 1994. ALMEIDA, Martinho Isnard Ribeiro de. Manual de Planeja- mento Estratégico. São Paulo: Atlas, 2009. CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de pessoas – O novo pa- pel dos recursos humanos. Rio de Janeiro: Campus, 2009. OLIVEIRA, Djalma Pinho Rebouças de. Manual de consul- toria empresarial. São Paulo: Atlas, 2009. 81Modelos de planejamento ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ CAPÍTULO 4 PLANEJAMENTO DAS AÇÕES EM GESTÃO DE PESSOAS “– Gatinho de Cheshire [...], poderia me dizer, por fa- vor, que caminho devo tomar para ir embora daqui? – Isso depende muito de para onde quer ir – respondeu o Gato. – Por mim, acho que tanto faz... – disse a menina. – Neste caso, qualquer caminho serve – afirmou o Gato.” Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll Agora que conhecemos o ambiente empresarial, onde ocorrem as ações de gestão de pessoas, precisamos defi- nir essas ações e prever seus impactos. Ao planejar as ações, estamos assegurando minimamente uma mudança de comportamento e garantindo contingên- cias, pois a diferença entre o planejamento e o resultado almejado sofre grande influência do ambiente dinâmico e instável, no qual as organizações estão inseridas. Lembre sempre: todo diagnóstico precisa levar a uma ação; caso contrário, é meramente um levantamento de dados. Com essa máxima, concluímos que é preciso que haja planos para que a or- ganização tenha seus objetivos e para que se crie a melhor forma de alcançá-los. 82 ...................................................................................................................................................................................................................... Planejamento das ações em Gestão de Pessoas Tais planos possibilitam: 1. Que a organização obtenha e utilize os recursos ne- cessários para a consecução de seus objetivos. 2. Que os membros da organização executem ativida- des condizentes e alinhadas aos objetivos. 3. Que a evolução em direção aos objetivos seja acom- panhada e medida, para que se possam realizar ações de contingência, caso o progresso seja insatisfatório. O fato de os funcionários serem hoje fundamentais na bus- ca da vantagem competitiva levou o RH a trabalhar com a implementação de estratégias. A GEP reflete a parceria do RH no processo de criação das estratégias, levando a cur- sos de ação específicos para que a organização atinja seus objetivos. Michael Porter tem uma visão muito interessante desse processo: A essência do posicionamento estratégico consiste em escolher atividades diferentes daquelas dos rivais. Se os mesmos conjuntos de atividades fossem os me- lhores para produzir todas as variedades de produ- tos, para satisfazer a todas as necessidades e para ter acesso a totalidade dos clientes, as empresas simples- mente se alternariam entre elas e a eficácia operacio- nal determinaria o desempenho. (1999, p. 63) Em estratégia, é necessário considerar ser diferente, focali- zar uma escolha e demarcar uma posição única no mercado, lembrando que o “possível” provavelmente já foi realizado, bastando apenas um passo adiante para sair do lugar. Tudo isso faz parte da excelência empresarial. Michael Eugene Porter (Ann Arbor, Michigan, 1947) Professor da Harvard Business School, com interesse nas áreas de Administração e Economia. É autor de diversos livros sobre estratégias de competitividade. 83Modelos de planejamento ...................................................................................................................................................................................................................... MODELOS DE PLANEJAMENTO A partir deste tópico, esperamos que você aprenda a dife- renciar as várias formas de planejamento em RH. Para Ackoff, existem três tipos de orientação do planeja- mento estratégico: • Planejamento conservador: é o planejamento que tem como objetivo a estabilidade e a manutenção do status quo vigente. Sua meta é identificar e elimi- nar problemas internos, mas sem preocupação em promover mudanças na organização. • Planejamento otimizante: tem preocupação com a inovação em termos de melhoria do que já existe, prevendo adaptações (melhorias incrementais). • Planejamento prospectivo: é o planejamento volta- do para o futuro da organização. Sua preocupação é orientar-se em direção às novas demandas do merca- do, com previsão de rupturas de padrões existentes. O RH estratégico pode realizar seu planejamento de duas maneiras. A primeira delas é chamada de adaptativa, pois considera que a organização já possui um planeja- mento estruturado, bastando apenas realizar adequações em relação aos objetivos e metas. A segunda maneira é a autônoma, ou seja, de maneira independente do planeja- mento da organização. Ocorrem, inclusive, casos em que a organização não possui nenhum tipo de planejamento, mas o RH, sim. Russell Lincoln Ackoff (12 de fevereirode 1919 – 29 de outubro 2009). Consultor americano e estudioso do comportamento organizacional. 84 ...................................................................................................................................................................................................................... Planejamento das ações em Gestão de Pessoas Na verdade, nenhum dos modelos acima funciona correta- mente, pois o ideal é que o planejamento de RH já esteja contemplado no nascimento da estratégia da organização. Veja a seguir os modelos possíveis de planejamento: 1. Modelo baseado na procura estimada do produ- to ou serviço Esse modelo baseia-se na ideia de que há uma ne- cessidade pontual, que pode ser influenciada por tecnologia, produtividade, disponibilidade interna ou recursos financeiros. Imagine que, por exemplo, todos os vendedores ex- ternos de sua empresa comecem a emitir seus pe- didos via PDA (Personal Digital Assistence). Não é evidente que eles vão precisar de treinamento? O que ocorre é que esse modelo é extremamente frágil, pois não contempla variáveis externas, tais como novos concorrentes ou obsolescência. 2. Modelo baseado em adequação da mão de obra Também tem foco na operação e contempla a esco- lha de algum indicador estratégico de performance para o desenvolvimento. Veja o exemplo a seguir. Passo 1 – Escolha do indicador: a empresa XPTO quer atuar no indicador de “Número de negócios realizados”. Passo 2 – Coleta de dados: secundários – deverá ser feito um levantamento de, pelo menos, dois anos 85Modelos de planejamento ...................................................................................................................................................................................................................... em relação a esse número, mensalmente. Passo 3 – Levantar a quantidade de pessoas que fo- ram necessárias para alcançar tais números. Passo 4 – Projetar uma meta a ser atingida e prever o volume de mão de obra necessária. Na última etapa, a GEP tem atuação bem intensa, no âmbito dos critérios de contratação e compe- tências necessárias. 3. Modelo baseado em avaliações de desempenho Este modelo tem como base as avaliações e as alte- rações nas relações hierárquicas da organização, ou seja, uma mudança no organograma da estrutura. Cada caixa do organograma possui um ocupante e informações sobre sua função. Dessa forma, é bem mais fácil vislumbrar iminentes substituições ou ocupações de cargos. Em geral, três cenários podem ser observados: Em seguida, é necessário definir níveis de avaliação, com pesos distintos, que podem ser de forma numérica (1, 2, 3, 4) ou por intensidade (ótimo, bom, regular, fraco). 86 ...................................................................................................................................................................................................................... Planejamento das ações em Gestão de Pessoas No organograma, a representação seria esta: Esse é apenas um exemplo de uma das funções do organo- grama que deve ser estendida a todos os cargos. A constatação do desempenho pode ser obtida por ava- liações de desempenho, entrevistas com colaboradores e observação. 4. Modelo baseado em turnover Este modelo contempla uma análise da rotatividade do quadro funcional (turnover), que permite ter uma previsão dos períodos de sazonalidade do negócio. Veja o gráfico de rotatividade abaixo, que foi cons- truído com base em uma empresa de varejo de moda: Note que os picos de rotatividade coincidem com os me- ses fortes do calendário comercial, tais como: o Dia das Mães, Dia dos Pais, Natal e outras datas. Isso faz com que a rotatividade aumente nesses períodos. 87Modelos de planejamento ...................................................................................................................................................................................................................... 5. Modelo sistêmico ou integrado É o modelo mais amplo, pois abrange os fatores an- teriores juntamente às influências de variáveis ex- ternas, como tecnologia, concorrência e mudanças de cenário. Lembra-se do diagnóstico sistêmico de RH visto na uni- dade anterior? Este modelo é o que mais se aproxima do ideal, por considerar as interfaces entre diversas áreas da organização. 88 ...................................................................................................................................................................................................................... Planejamento das ações em Gestão de Pessoas POLÍTICAS E PROCESSOS QUE ENVOLVEM A GESTÃO DE PESSOAS Esperamos que você aprenda a reconhecer a identidade organizacional e sua influência na Gestão de Pessoas. . Se analisarmos tudo o que estudamos até o momento, vamos perceber claramente as diferenças entre as organizações atuais. Conseguimos, dessa forma, enxergar o modelo que é chamado de “visão espiritual da empresa”. 89Políticas e processos que envolvem a Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... Ao analisar a empresa excelente, verifica-se que há uma grande relação entre as ações planejadas em gestão de pessoas e o resultado financeiro de uma organização, pois a ideia agora é fazer com que as pessoas trabalhem com muito foco, por um menor período de tempo, gerando mais resultados. Podemos observar que as organizações, hoje, têm se pre- ocupado, por exemplo, em liberar seus funcionários para assistir aos jogos da Copa do Mundo, uma vez que per- cebem que traz um ótimo retorno em produtividade e satisfação, em vez de ter de lidar com a queda em pro- dutividade durante os jogos da seleção do Brasil, o que, inevitavelmente, aconteceria. Caso a organização tenha como premissa o modelo clássi- co, todos os processos referentes ao incremento de conhe- cimento serão orientados para atribuições específicas, ou seja, para a tarefa. Isso agrega um valor muito baixo para a organização. Analisando a identidade dessa estrutura, podemos observar que os treinamentos são reativos, ou seja, iniciam depois de ocorrida alguma falha grave nos processos internos. Para deixar esse quadro mais claro, imagine uma estrutura de vendas com telemarketing, cujos índices de reclamação com prazo de entrega de mercadorias aumentam a cada mês. Após o cancelamento de 20% dos pedidos, a empresa decide identificar o problema, e descobre falhas de aten- dimento da equipe externa de vendas e, com isso, contrata uma empresa de consultoria para criar um projeto de de- senvolvimento profissional. 90 ...................................................................................................................................................................................................................... Planejamento das ações em Gestão de Pessoas Se a atividade de vendas é a mola mestra do negócio, essas ações de capacitação profissional já deveriam fazer parte da estratégia do negócio, e não serem realizadas por es- pasmos. Isso denota um amadorismo atroz por parte da gestão do negócio. Que políticas merecem especial atenção do gestor de pessoas? Quais as que agregam valor? Vejamos os processos envolvidos: Onde recrutar? Ao avaliar o início do processo em RH, que é recrutamento e seleção, observa-se que a origem está no mercado de tra- balho, onde está a oferta de profissionais, estejam esses disponíveis ou ocupando alguma posição em suas organi- zações, pois não esqueça que o mercado de hunting está bem aquecido. 91Políticas e processos que envolvem a Gestão de Pessoas ......................................................................................................................................................................................................................Existem basicamente dois tipos de recrutamento: o inter- no e o externo, e veremos agora as vantagens e desvanta- gens de cada um. Recrutamento interno: envolve as movimentações dentro da organização, sendo, geralmente, relacionados os pla- nos de carreira e sucessão. O recrutamento interno é, em muitos casos, preterido pelas organizações, pelo fato delas não observarem os colaboradores e acharem que os talen- tos estão sempre do lado de fora. Recrutamento externo: ocorre quando profissionais do mercado são atraídos pela organização para completar seus quadros. Esse contexto é bastante afetado pelas vari- áveis incontroláveis, como legislação, tecnologia, mudan- ça de governo e ambiente econômico. Isso é bastante ob- servado quando as empresas adotam canais de divulgação e convocação de candidatos em redes sociais e realizam entrevistas com candidatos, por exemplo, via Skype. 92 ...................................................................................................................................................................................................................... Planejamento das ações em Gestão de Pessoas Há outras fontes de recrutamento, como indicações, anún- cios em jornais e revistas especializadas, universidades, sin- dicatos e associações, mas sempre levando em conta a ade- quação do perfil do candidato à vaga, com o menor custo. Após o recrutamento, temos o processo de seleção, que é quando escolhemos um candidato diferenciado no meio de tantos que parecem iguais, por meio de triagem de currícu- los, aplicação de testes específicos e dinâmicas de grupo. Um fator interessante a ser observado é como os resul- tados são medidos e avaliados pelos gestores. Essas ava- liações são análises sistemáticas do desempenho de um profissional, de acordo com as suas atribuições; mas a falta de um método pode prejudicar esse processo. Vejam quais são as questões a serem levantadas: 93Políticas e processos que envolvem a Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... • Quais os critérios de avaliação? • Quais os prazos? • O formulário é adequado? • O avaliador é capacitado para isso? Vale ressaltar que, dentro de uma organização moderna, uma avaliação de desempenho precisa ter caráter educa- tivo e não punitivo, e para tal, as lideranças precisam de treinamento, uma vez que, se esse processo for mal condu- zido, pode provocar desmotivação no colaborador. Se o fator remuneração for avaliado será percebido que uma organização que prioriza o fator humano remunera- -o, pelo menos, com o valor praticado no mercado, e não com o uso da mais-valia. Quando se fala de remuneração, deve-se sempre ter em mente que há uma composição de fatores que congrega salários e benefícios. Vejamos um exemplo: a política de remuneração da empresa Unilever. Visão geral A estratégia de remuneração da em- presa Unilever está em linha com a cultura de performance adotada pela companhia, reconhecendo, assim, as pessoas que têm se dedicado e traba- lhado fortemente para alavancar os resultados da empresa. Essa estratégia tem como objetivo atrair e reter os me- lhores talentos, dar suporte à cultura de performance e prover um pacote competitivo de remuneração total. Ela está baseada em responsabilidade, desempenho, resulta- dos, competitividade e potencial. Mais-valia Termo usado para designar a disparidade entre o salário pago e o valor do trabalho produzido. Quem empregou este termo foi Karl Marx. 94 ...................................................................................................................................................................................................................... Planejamento das ações em Gestão de Pessoas A remuneração é composta pelos seguintes elementos: sa- lário-base, remuneração variável e benefícios. Veja quais são eles a seguir. Remuneração Salário-base: é a remuneração fixa recebida mensalmen- te. Todo ano, é praticada a revisão salarial para todos os funcionários. Remuneração variável: é mensurada anualmente de acor- do com o resultado do negócio, desempenho do time e performance individual. Benefícios Os benefícios oferecidos aos trainees são: • Assistência médica. • Assistência odontológica. • Seguro de vida em grupo. • Previdência privada. • Convênio farmacêutico. • Estacionamento. • Estação Unilever (compra de produtos Unilever na lojinha para funcionários com desconto na folha de pagamento). • Entre outros. (Fonte: <http://www.unilever.com.br>) 95Políticas e processos que envolvem a Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... É claro que chegar nesse estágio de desenvolvimento re- quer uma enorme maturidade por parte da organização, pois os fatores mostrados acima representam custos para a empresa, que, ao mesmo tempo, geram enormes resulta- dos, pois têm grande influência na motivação da equipe. 96 ...................................................................................................................................................................................................................... Planejamento das ações em Gestão de Pessoas MUDANÇA ORGANIZACIONAL: UM NOVO DESAFIO DA GESTÃO DE PESSOAS Esperamos agora que você aprenda a criar uma solução para as formas de mudança organizacional por meio da Gestão de Pessoas. As mudanças fazem parte de nosso cotidiano em todos os campos: artes, ciência, esportes, tecnologia, religião, traba- lho e estrutura empresarial. Todas essas turbulências obri- gam-nos a alterar formas, métodos e costumes, em uma velocidade cada vez maior e em um tempo cada vez menor. Com esse cenário, as organizações passam a ter cada vez mais pessoas especializadas e aprendendo continuamente. Essas organizações estão observando as mudanças (e agindo) em diferentes áreas (adaptado de VILAS BOAS, 2009), que são: • Capital humano: onde aplicamos todos os con- ceitos vistos nessa disciplina. • Consumidores: buscar, conquistar e reter. • Produtos e serviços: precisam ter valor agregado de modo a sustentar uma vantagem competitiva. • Conhecimento: os ativos tangíveis perderam lu- gar para o capital intelectual. • Abrangência: é necessária a visão global com vis- tas ao crescimento, mas com ação local. 97Mudança organizacional: um novo desafio da Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... Todo esse cenário provoca extrema incerteza no quadro funcional, e se observar com um foco estratégico, verá que, como a organização é um sistema aberto, as mudan- ças ocorrerão somente com a comunicação interna e exter- na bem gerenciadas. As mudanças fazem com que as orga- nizações sejam mais competitivas no mercado, cumpram normas, adiram às novas tecnologias ou simplesmente se adequem ao consumidor. Planejando a mudança Case real O Filme Kinky boots (Fábrica de so- nhos),lançado em 2005, conta uma história fantástica ocorrida na Ingla- terra nos anos 1980, onde uma fá- brica artesanal de sapatos requinta- dos e tradicionais, localizada em Northampton e chamada Price & Sons, está à beira da falência. Obso- leta no mercado, seus produtos são sapatos masculinos clássicos que sofrem a concorrência dos importados de menor qualidade, mas de maior giro para as lojas. Por um acaso da vida, Charlie acaba indo parar em uma boate onde uma drag queen realiza uma apresentação, e aonotar o desconforto da apresentadora com seus sapatos, tem um insight: fabricar sapatos de mulher para homens, algo que não existia no mercado. Para isso, contrata a drag queen Lola para ser sua principal estilista. Porém, para dar vida ao projeto, há um problema a ser resolvido: o salto, que não era adequado a características masculinas. A equipe de produção soluciona o problema com uma nova tecnolo- 98 ...................................................................................................................................................................................................................... Planejamento das ações em Gestão de Pessoas gia, e, a partir da parceria entre todos os gestores, Charlie começa a produzir modelos de botas para drags queens que serão levadas à feira de Milão. Na feira, em vez de uti- lizar modelos do sexo feminino, ele apresentou um show de drags queens que inovou e fez o diferencial na apresen- tação do produto, resultando em um sucesso de vendas. Consegue imaginar uma mudança dessas em uma organi- zação tradicional, criada quatro gerações antes? Além da própria revolução na linha de produção, há as mudanças de conceito, resistência ao novo e o preconceito, mas vamos resumir as possíveis forças de mudança no quadro abaixo: TIPO DE MUDANÇA EXEMPLOS força de trabalho diversidade cultural, população mais velha tecnologia automação, mídias sociais choques econômicos juros, recessão competição produtos mais baratos, concorrência global, fusões tendências sociais sustentabilidade, tolerância com funcionários gays Adaptado de: ROBBINS, 1999. Quase todas as estruturas empresariais precisam ade- quar-se a um ambiente instável, além de perceberem que a concorrência pode estar em qualquer lugar do mundo. As forças acima estão presentes, e cada vez mais intensas, na maioria das organizações, deixando-as sem opção. O livro Mude ou morra (DEUTSCHMAN, 2006) aborda mui- to bem esse dilema empresarial, que normalmente ocorre (infelizmente) em momentos em que a mudança é questão de sobrevivência. 99Mudança organizacional: um novo desafio da Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... Resistência à mudança Os gestores da organização precisam identificar os mo- tivos que levam a equipe a resistir às mudanças antes de mobilizá-los para determinado projeto ou impacto. O argumento mais comum é que o resultado com o novo método ou cultura ser-lhe-á desfavorável e, normalmente, envolve os seguintes aspectos: • Possibilidade de aumento na carga de trabalho. • Inexistência de compensação financeira. • Prejuízo para os relacionamentos sociais. • Convivência com pessoas de pouca afinidade. • Medo. A resistência é fácil de ser identificada quando é aberta e imediata, a qual o gestor pode observar impactos de curto prazo, como diminuição da produção, reclamações, conflitos ou até mesmo greves. Quando a resistência é velada, os im- pactos ocorrem da maneira sutil e a médio prazo, tais como perda de motivação, aumento no desperdício, aumento nas reclamações dos clientes e até mesmo perda de contratos. Receptividade para mudanças em culturas estáveis Aceitam de imediato. 10% Aceitam com um pouco de convencimento. 20% Aceitam com muito convencimento. 40% Só aceitam depois que a mudança foi bem sucedida. 30% Fonte: CONNER, 1992. 100 ...................................................................................................................................................................................................................... Planejamento das ações em Gestão de Pessoas Táticas a serem usadas pelo gestor de pessoas Mostrar à equipe que ela é parceira no negócio, conforme vimos, é meio caminho andado para o sucesso de um pro- cesso de mudança e o gestor pode utilizar algumas técni- cas para isso. 1. Evitar usar o argumento de baixo desempenho para justificar a mudança: tal argumento pode cau- sar baixa na moral da equipe. Sendo assim, é melhor argumentar sobre os desafios do mercado, entrada de novos concorrentes e as vantagens competitivas que esses concorrentes possuem. 2. Educação corporativa: em muitos casos, a resistên- cia ocorre por falta de informação e, consequentemen- te, inferências sobre algo desconhecido. A contratação de uma empresa de consultoria em gestão, a implanta- ção de um software de gerenciamento ou a inclusão das equipes em programas de treinamento, muitas vezes, são associadas às demissões, ou punições, e não aos benefícios que podem ser gerados. 3. Comprometimento e apoio: o processo de adoção das mudanças é de responsabilidade dos gestores, pois a equipe precisa “comprar” o projeto e aceitá-lo como ideia própria. 4. Promover as mudanças de maneira gradual: mui- tas mudanças ao mesmo tempo provocam perda do senso de direção e estresse negativo, pois os benefícios precisam ser primeiramente percebidos para, então, gerar a motivação suficiente para as próximas ações. 5. Manipulação e cooptação: os gestores podem dis- torcer fatos, utilizar funcionários e plantar informações para obter apoios da equipe e induzir funcionários a aceitar as mudanças. O ponto negativo é a possível per- da de credibilidade, caso tal prática venha à tona. 101Mudança organizacional: um novo desafio da Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... 6. Coerção: são ameaças diretas à equipe caso as mu- danças não sejam aceitas. Por exemplo, uma iminente venda da empresa ou política de demissões. Fonte: SCHLESINGER, L.; KOTTER, J.; 1979. Planejando a mudança Kurt Lewin, psicólogo alemão, desenvolveu estudos sobre mudança organizacional, concluindo que tais transforma- ções ocorrem em três etapas: Fase 1: descongelamento Papel do gestor de RH: motivar, na equipe, um sen- timento e uma necessidade de mudança. O descongelamento é a fase em que o ambiente está sendo preparado para a mudança enquanto as pes- soas estão sendo conscientizadas para essa neces- sidade. As resistências são quebradas, havendo o surgimento de conflitos, que, se bem gerenciados, podem impulsionar o processo de descongelamento. Fase 2: mudança Papel do gestor de RH: implementação. Nessa fase, após uma reunião de Kick Off (início de projeto), as mudanças são implementadas e a equi- pe já realiza algo diferente em sua rotina, ou perce- be que ela está acontecendo. Fase 3: recongelamento Papel do Gestor de RH: estabilização. Esse é o momento de aceitação e continuidade dos novos modelos para que continuem em longo pra- zo. É importante o monitoramento contínuo do pro- cesso para eventuais intervenções, caso necessárias. 102 ...................................................................................................................................................................................................................... Planejamento das ações em Gestão de Pessoas Já John Kotter, a partir dessas três fases de Lewin, criou um modelo de oito fases para implementação das mudanças: Mesmo ciente de todas essas etapas, o gestor de pesso- as deve verificar o método a ser utilizado, ou seja, muito mais do que “o que fazer”, é o “como fazer”. Em termos de estratégia, podemos utilizar a força, a per- suasão racional ou o poder compartilhado. As mudanças pela força são realizadas pelo poder for- mal do organograma (quem manda), onde há a visão de que as pessoas somente mudam mediante recompensas financeiras. Nesse modelo, as fraquezas das pessoas são identificadas e pressionadas, gerando um tom de descon- forto e ameaça; contudo,sem dúvida, os resultados apa- recem imediatamente. Há exemplos em que esse método realmente funciona. Veja o caso de uma organização que implemente educação corporativa em seus processos. Ou seja, historicamente, nunca houvera investimento em treinamento, mas a gerência deseja mudar esse quadro, capacitando todos os vendedores nas mais modernas téc- 103Mudança organizacional: um novo desafio da Gestão de Pessoas ...................................................................................................................................................................................................................... nicas de vendas. Caso a presença seja espontânea, prova- velmente, o quórum será extremamente baixo (menor que 50%), mas, em caso de pressão da gerência, o número de participantes tende a aumentar. Na persuasão racional, há o comprometimento das pesso- as (lembrando-se de mobilizar, primeiro, os níveis geren- ciais), em que prevalecem o bom senso e principalmente a aderência da cultura da empresa a esse modelo. Havendo uma relação de parceria entre funcionários e organização, sem dúvida, essa estratégia é a mais indicada. Quando usamos o poder compartilhado, os gerentes são desenvolvidos de modo a conduzir essas mudanças em todos os processos, pois possuem autonomia para avaliar e decidir (claro que com uma coordenação da área de RH). Você deve ter percebido o quanto é complexo manter uma organização em alta performance no mercado atual, no qual temos mudanças em todas as áreas. Logo, podemos considerar que a gestão das mudanças organizacionais cor- responde ao seu maior desafio. Sendo essa uma obrigação necessária, cabe a você avaliar e estudar qual o método mais adequado (contudo, nunca será perfeito) para utilizar em sua realidade, tendo sempre em mente que a essência de qualquer estrutura empresarial e a mais valiosa está tanto no CEO da organização quanto no funcionário da limpeza. Mas e o cliente? Esse vem em seguida, e não o contrário. 104 ...................................................................................................................................................................................................................... Planejamento das ações em Gestão de Pessoas DARYL, Conner R. Managing at the speed of change. Ran- dom House, 1992. DEUTSCHMAN, Alan. Mude ou morra. Rio de Janeiro: Best- Seller, 2006. HITT, Michael. Comportamento organizacional. 3. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2013. KOTTER, John P. Liderando mudança. Rio de Janeiro: El- sevier-Campus, 1997. KOTTER, John P.; SCHLESINGER, Leonard. Choo- sing strategies for change. HBR, 1979. LEWIN, Kurt. Teoria de campo em ciência social. Porto Alegre: Bookman, 2000. ROBBINS, Stephen P. Comportamento organizacional. 14. ed. São Paulo: Pearson, 2011. SCHERMERHORN, John R. Fundamentos de comportamen- to organizacional. 2. ed. Porto Alegre: Bookman, 1999. VILAS BOAS, Ana Alice. Gestão estratégica de pessoas. Rio de Janeiro: editora Campus, 2009. REFERÊNCIAS 105 ...................................................................................................................................................................................................................... CONSIDERAÇÕES FINAIS Por muitos anos as pessoas foram vistas como meras en- grenagens nas operações das organizações, e isso se mos- tra mais visivelmente quando observamos a atuação dos tradicionais modelos de departamento pessoal, nos quais as preocupações são apenas as transações burocráticas e processuais de entrada e saída. Esse cenário, que, infeliz- mente, ainda existe hoje em boa parte das empresas no Brasil, tem contribuído fortemente para a degradação da imagem das empresas e também para os custos, visto que, em maior ou menor escala, os resultados passam a sofrer influência direta do capital humano existente. O aumento da competitividade força as empresas a adota- rem novas estratégias, não apenas de redução de custos, mas também de criação de vantagens competitivas que sejam mais duradouras. Nesse âmbito, a organização pas- sa a atuar diretamente no comportamento das pessoas e equipes para essas tenham ação direta nos resultados. Por isso, atualmente não podemos mais dissociar a gestão de pessoas da agregação de valor ao negócio e ao consu- midor final. A gestão estratégica de pessoas abrange processos per- manentes, envolvendo a identidade empresarial, e tempo- rários, como o atingimento de metas e objetivos. Assim, são as pessoas que, com seu conhecimento, habilidades e atitudes, tomam decisões e realizam escolhas, engendran- do direcionamento aos objetivos da organização. O capital 106 intelectual está presente em todos os níveis, desde o presi- dente até o auxiliar de serviços gerais, nos relacionamentos internos, clientes e fornecedores, por isso os subsistemas de RH precisam estar ativos para criar e dinamizar os ta- lentos internos, para que a velocidade de implantação de mudanças seja cada vez maior, permitindo, assim, maior competitividade. Lembrem-se de que hoje não são mais as empresas grandes que irão devorar as pequenas, mas sim as mais rápidas que irão devorar as mais lentas. Ao observarmos o cenário em que as empresas estão inse- ridas, notamos que as pessoas não querem apenas perten- cer a uma estrutura por uma simples relação contratual, mas sim fazer parte de um projeto que lhes permita reali- zar seus sonhos. Por isso, ter uma estratégia de negócios e um modelo de governança, desenvolvendo áreas como pla- nos de carreira, cargos, salários e benefícios, treinamento e desenvolvimento, avaliações de desempenho, passa a ser condição sine qua non para o alinhamento entre expectati- vas organizacionais e pessoais, criando algo que todos nós buscamos: sentido. Esperamos que este livro possa ter lhe ajudado a com- preender mais os conceitos da Gestão Estratégica de Pes- soas e sua importância para as organizações. Forma bem teus colaboradores para que possam partir, trata-os bem para que não o queiram fazer. Ricard Banson – Presidente do Grupo Virgin