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Eleonora Pinto de MOURA ATRATORES DE DIMENSÃO FINITA: estudo do comportamento assintótico de soluções de equações diferenciais parciais dissipativas Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Matemática Aplicada, Instituto de Matemática, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Matemática. Orientador: Prof. Marco Aurélio Palumbo Cabral Rio de Janeiro 2005 ii M929a Moura, Eleonora Pinto de. Atratores de dimensão finita: estudo do comportamento assintótico de soluções de equações diferenciais parciais dissipativas / Eleonora Pinto de Moura. – Rio de Janeiro: UFRJ/IM, 2005. vii, 60 f.; 29cm. Dissertação (Mestrado em Matemática Aplicada) – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Matemática, 2005. Orientador: Marco Aurélio Palumbo Cabral Inclui bibliografia 1. Equações Diferenciais Parciais. – Teses. I. Cabral, Marco Aurélio P. (Orient.). II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Matemática. III. Título. iii “Le regard est un choix. Celui qui regarde décide de se fixer sur telle chose et donc forcément d’exclure de son attention le reste de son champ de vision. C’est en quoi le regard, qui est l’essence de la vie, est d’abord un refus.“ 1 - Amélie Nothomb, Métaphysique des tubes, 2000. 1 “O olhar é uma escolha. Aquele que olha decide se fixar sobre tal coisa e portanto forçosamente excluir de sua atenção o resto de seu campo de visão. É nisto que o olhar, que é a essência da vida, é antes de tudo uma recusa.” (Nothomb, 2000) iv Eleonora Pinto de MOURA ATRATORES DE DIMENSÃO FINITA: estudo do comportamento assintótico de soluções de equações diferenciais parciais dissipativas Rio de Janeiro, 26 de setembro de 2005 ________________________ (Prof. Marco Aurélio Palumbo Cabral, PhD, Indiana, EUA) ________________________ (Prof. Rafael José Iório Junior, PhD, Berkeley, EUA) ________________________ (Prof. Rolci Cipolatti, PhD, Paris Sud, França) ________________________ (Prof. Ricardo Martins da Silva Rosa, PhD, Indiana, EUA) v RESUMO ATRATORES DE DIMENSÃO FINITA: ESTUDO DO COMPORTAMENTO ASSINTÓTICO DE SOLUÇÕES DE EQUAÇÕES DIFERENCIAIS PARCIAIS DISSIPATIVAS Eleonora Pinto de MOURA Orientador: Prof. Marco Aurélio Palumbo Cabral Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós- graduação em Matemática Aplicada, Instituto de Matemática, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Matemática. Estuda-se, neste trabalho, o comportamento assintótico de soluções de equações diferenciais parciais dissipativas com base em seus atratores. Demonstra-se a existência de atratores globais em alguns sistemas. Observa-se que a dinâmica do atrator permite determinar a dinâmica assintótica do sistema. São introduzidas as dimensões fractal e de Hausdorff, adequadas ao estudo das dimensões dos atratores. Prova-se que atratores globais de alguns sistemas têm dimensão finita, apesar de serem subconjuntos de um espaço de dimensão infinita. Pretende-se capturar a natureza assintótica do fluxo original resolvendo um sistema de dimensão finita. Em primeiro lugar, apresenta-se sumariamente a teoria de variedades inerciais. Em seguida, mostra-se que o atrator pode ser submergido em um espaço euclidiano de dimensão finita. Chega-se a uma submersão da dinâmica do atrator, mas as soluções das equações obtidas não são únicas. A construção de um sistema de equações diferenciais ordinárias que reproduza a dinâmica no atrator depende de suas propriedades topológicas. Diversos resultados de topologia são relacionados com a teoria dos atratores globais. Enfim, constrói-se um sistema dinâmico discreto que reproduz a aplicação de tempo T no atrator global. O atrator deste sistema se encontra em uma vizinhança arbitrariamente pequena do atrator original. O sistema discreto obtido reproduz o comportamento assintótico de uma equação diferencial parcial dissipativa de tal forma que suas complexidades são mantidas. Finalmente, apresentam-se resultados recentes que mostram a importância dos atratores para a compreensão do comportamento assintótico de alguns sistemas dinâmicos dissipativos. Palavras-chaves: atrator global, equações diferenciais parcias, sistemas dinâmicos em dimensão infinita. Rio de Janeiro 2005 vi ABSTRACT FINITE-DIMENSIONAL ATTRACTORS: STUDY OF THE ASYMPTOTIC BEHAVIOR OF SOLUTIONS OF DISSIPATIVE PARTIAL DIFFERENTIAL EQUATIONS Eleonora Pinto de MOURA Supervisor: Prof. Marco Aurélio Palumbo Cabral Abstract of the Dissertation presented to the Graduate Program in Applied Mathematics, Institute of Mathematics, of the Federal University of Rio de Janeiro – UFRJ, as part of the requirements for the concession of the title of Master in Mathematics. This text examines the asymptotic behavior of solutions of dissipative partial differential equations based on their attractors. The existence of global attractors is shown for some systems. It is observed that the dynamic of the attractor allows the determination of the asymptotic dynamics of the system. Fractal and Hausdorff dimensions, appropriate for the study of the dimension of the attractors, are introduced. It is proved that the global attractors of some systems have finite dimension, in spite of being subsets of an infinite-dimensional space. A finite-dimensional system is presented as a form of capturing the asymptotic nature of the original flow. Initially, the theory of inertial manifolds is exposed in its main lines. Next, it is shown that the attractor can be embedded in a finite-dimensional Euclidean space. The embedding of the dynamic of the attractor is arrived at, but the solutions of the equations obtained are not unique. The construction of a system of ordinary differential equations that reproduces the dynamics of the attractor depends on their topological properties. Several topological results are linked to the theory of global attractors. Then, a discrete dynamical system is built that reproduces the T map in the global attractor. The attractor of this system remains in an arbitrarily small neighborhood of the original attractor. The discrete system thus obtained reproduces the asymptotic behavior of a dissipative partial differential equation in such a way that its complexities are maintained. Finally, we present recent results that show the importance of attractors to understand the asymptotic behavior of some dissipative dynamical systems. Keywords: global attractor, partial diferencial equations, infinite-dimensional dynamical systems. Rio de Janeiro 2005 vii AGRADECIMENTOS Aos Professores Rolci Cipolatti, Gregório Malajovich, Felipe Acker, Ricardo Rosa, Cassio Neri e Flávio Dickstein, pela agradável e instrutiva convivência durante os cursos do Mestrado em Matemática Aplicada. Aos Professores Rafael Iório, Rolci Cipolatti, Ricardo Rosa e Marco Aurélio Cabral, pela participação na banca da defesa da dissertação. Aos Professores Ricardo Kubrusly e Antônio Roberto da Silva, pela influência que exerceram na minha busca pelo equilíbrio entre criatividade e rigor. Ao Professor Marco Aurélio Cabral, meu orientador, pelo estímulo e apoio durante todas as etapas deste trabalho com comentários proveitosos sempre transmitidos com sua tranquilidade característica.Aos meus colegas do mestrado, pelas divertidas conversas na sala de estudo que ajudaram a espairecer. Aos meus tios, tias e primos, pelos inspiradores encontros familiares. Aos meus avós, Heitor Pinto de Moura e Déa Pinto de Moura, pelo carinho e pelas lindas histórias de vida. Aos meus amigos Clara Porto, Clarisse Kubrusly, Elisa Herkenhoff, Rémy de Aratanha, Daniel Simão e Henrique Sá Earp, pela ajuda e compreensão em momentos cruciais. Ao meu pai, Heitor Pinto de Moura Filho, à Ângela Porto, ao Renato Flores e ao Fabiano Siqueira, pela leitura da dissertação e pelas diversas sugestões. Ao Fabiano Siqueira, pelo amor e companhia que me fortaleceram quando mais precisei. A minha mãe, Maria Bárbara Levy e a minha irmã, Djamila Levy, pela eterna presença. Ao meu pai, Heitor, pelo seu carinho e apoio incondicional com os quais me criou. Conteúdo 1 Introdução 2 2 Atrator Global 6 2.1 Semigrupos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6 2.2 Dissipação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 2.3 Conjuntos Limites e Atratores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 2.3.1 Conjuntos Limites . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 2.3.2 Atrator Global . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 2.4 Existência do Atrator Global . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 2.5 Estrutura do Atrator . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 2.6 Dinâmica Assintótica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 3 Atratores de Dimensão Finita 15 3.1 Medidas de Dimensão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15 3.1.1 Dimensão Fractal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15 3.1.2 Dimensão de Hausdor¤ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 3.1.3 Dimensão de Hausdor¤ e Fractal . . . . . . . . . . . . . . 18 3.2 Estimativa da Dimensão do Atrator . . . . . . . . . . . . . . . . 19 4 Variedades Inerciais 25 5 Submersão do Atrator em Rd 30 5.1 Parametrização do Atrator . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 5.2 Teorema de Extensão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36 5.3 Submersão da Dinâmica sem Unicidade . . . . . . . . . . . . . . 37 6 Propriedades Topológicas do Atrator Global 41 7 Sistema Dinâmico Discreto de Dimensão Finita 49 8 Conclusão 52 1 1 Introdução Modelos matemáticos são essenciais em diversas áreas do conhecimento. Dentre os modelos determinísticos, destacam-se as equações diferenciais or- dinárias e as equações diferenciais parciais. As soluções das equações diferenciais ordinárias são funções que dependem unicamente do tempo. Diferentemente, nas equações diferenciais parciais, as soluções dependem do tempo e do espaço. Em modelos de dispersão, cujo exemplo típico são as equações de reação-difusão, que modelam reações químicas e a difusão por membranas biológicas, as var- iáveis tanto temporais quanto espaciais devem ser consideradas. Outro exemplo interessante é a equação de Navier-Stokes, principal modelo da dinâmica de �uidos. Apesar da questão da análise numérica não ser abordada neste estudo, deve-se ter em mente sua importância, visto que os avanços computacionais signi�cativos também enriquecem as discussões sobre esses problemas físicos complexos. Na teoria clássica de sistemas dinâmicos, em dimensão �nita, é possível reconstruir a evolução passada do sistema dado seu estado atual. Para equações diferenciais parciais, tais como a equação do calor, isto nem sempre é possível. Nestas, busca-se determinar o comportamento futuro do sistema a partir do seu estado atual. Não existe, no entanto, uma teoria geral de equações diferenciais parciais. Em duas dimensões, a equação de Navier-Stokes, está bem compreen- dida, mas no caso tridimensional ainda estão abertas questões como a existência de solução para sempre e unicidade desta. O desejo de compreender melhor as dinâmicas não-lineares se associou, então, ao surgimento de novos conceitos matemáticos e, em alguns casos, de novas idéias sobre tais conceitos. Alguns métodos utilizados em sistemas dinâmicos clássicos foram adaptados e aplicados para estudar equações diferenciais parci- ais. Muitas questões interessantes surgiram dessa adaptação, estimulando novas abordagens. Raciocínios geométricos e conceitos usados no estudo de equações diferenciais ordinárias, em um espaço de fase de dimensão �nita, se aplicam ao �uxo gerado por uma equação diferencial parcial em um espaço de fase de dimensão in�nita adequado. Provou ser extremamente útil concentrar-se no comportamento assintótico das soluções e nas propriedades de conjuntos atratores no espaço de fase original, como é feito na análise de sistemas dinâmicos clássicos. Apropriadas para esse tipo de estudo, as equações diferenciais parciais dissipativas despertam muito interesse e suas aplicações se estendem desde modelos de turbulência em 2 �uidos e reações químicas à morfogênese em Biologia. Neste trabalho, estuda- se o comportamento assintótico de soluções de equações diferenciais parciais dissipativas com base nos seus atratores, que são muitas vezes de dimensão �nita. Em problemas físicos, é recorrente o conceito de dissipação de energia. Em �uidos, por exemplo, os efeitos dissipativos são observados em decorrência de difusão ou fricção. A equação diferencial parcial que modela estes �uxos re�ete esse fenômeno atráves do decaimento da norma da solução. Portanto, uma idéia natural de dissipação, que chamamos de dissipativo pontualmente, é a existência de um conjunto absorvente � conjunto limitado no espaço de fase para o qual, em tempo �nito, todas as órbitas eventualmente entram, mas nunca saem. Freqüentemente, restringe-se a classe de equações que possui a propriedade de dissipação para restringir o �uxo a um conjunto compacto. As equações diferenciais parciais são ditas dissipativas se de�nem um �uxo que se regulariza a longo prazo, em um espaço de fase adequado, contendo um conjunto absorvente. Pertencem a esta categoria restrita as equações de Navier-Stokes em duas dimensões, as equações de Kuramoto-Sivashinsky e algumas equações de reação-difusão. Dado um conjunto absorvente compacto , pode-se determinar o chamado conjunto ômega limite de , o único subconjunto compacto do espaço de fases que é ao mesmo tempo positiva e negativamente invariante e atrai todas as trajetórias. O conceito de atrator global de um sistema é introduzido, então, como sendo o maior conjunto que satisfaz as propriedades acima. Parte impor- tante do comportamento dinâmico do sistema é determinado pelo conjunto de soluções situado no atrator. Na Seção 2, apresenta-se um resultado geral que demonstra a existência de atratores globais em vários sistemas. Temam (1988) e Hale (1981) observaram que se pode garantir a existência de atratores globais sob condições mais fracas, mas este aspecto não será abordado. Os atratores são pequenos subconjuntos compactos do espaço de fase que não têm interior, uma conseqüência direta da não compacidade da bola unitária em um espaço de dimensão in�nita. Ainda na Seção 2, mostra-se que o atrator consiste de todas as órbitas limitadas completas e contém a variedade instável de todos os pontos �xos e órbitas periódicas. Finalmente, observa-se que a dinâmica no atrator permite determinar todas as possíveis dinâmicas, a longo prazo, das trajetórias individuais. Na Seção 3, prova-se que atratores globais de alguns sistemas têm dimensão �nita, apesar de serem subconjuntos de um espaço de dimensão in�nita. Não 3 se pode utilizar a dimensão usual topológica de uma variedade para limitar a dimensão do atrator pois este não é, de forma geral, uma variedade suave. É necessário, portanto, empregar medidas de dimensões com aplicações mais abrangentes. Dentre várias de�nições de dimensão, utilizam-se as dimensões fractal e de Hausdor¤, cujas de�nições e propriedades são introduzidas neste estudo. Um teorema importante, devido a Mallet-Parret(1976), a�rma que o atrator tem dimensão de Hausdor¤ �nita se o �uxo linearizado decai exponencialmente no atrator para os modos inferiores. Mañé (1981) generalizou este resultado para espaços de Banach e o aplicou na equação de reação-difusão e em outras equações diferenciais parciais dissipativas. Logo, observa-se que a dinâmica assintótica desses sistemas é determinada por um grau de liberdade �nito. Diversas equações diferenciais parciais dissipativas, dentre elas a equação de reação e difusão e a equação de Navier-Stokes em duas dimensões, possuem atratores globais de dimensão �nita, apesar do espaço de fase ser de dimensão in�nita. O método utilizado encontra condições que garantam que qualquer volume n-dimensional no espaço de fase é contraído pela evolução do �uxo, obtendo uma limitação na dimensão do atrator global. Depois de se obter atratores globais de dimensão �nita, cabe esperar que eles possam ser recuperados pela resolução de um sistema su�cientemente grande de equações diferenciais ordinárias. Em outras palavras, acredita-se que as soluções no atrator satisfaçam um sistema de equações diferenciais ordinárias e que, portanto, a dinâmica essencial da equação original seja de dimensão �nita. Um método indireto de encontrar tal sistema é submergir o atrator em uma variedade inercial, uma variedade suave de dimensão �nita. Esta abordagem re�nada produz resultados impressionantes para muitas equações de evolução, mas é apenas analisada super�cialmente na Seção 4. A variedade inercial foi introduzido por Foias et al (1988) como uma variedade Lipschitz de dimensão �nita que atrai exponencialmente as trajetórias e é positivamente invariante sob o �uxo. Neste caso, os modos superiores são expressos em função dos modos inferiores, reduzindo a equação diferencial parcial a um sistema �nito de equações diferenciais ordinárias na variedade inercial, chamado de forma inercial. Conseqüentemente, a dinâmica assintótica do sistema é determinada completamente por esse sistema. A variedade inercial compartilha muitas pro- priedades com o atrator e o contém, mas é suave ao invés de ser um fractal irregular. No entanto, sua existência não está garantida para diversos casos, inclusive para a equação de Navier-Stokes em duas dimensões. 4 A existência do atrator global enseja a construção de um sistema de dimensão �nita para capturar a natureza assintótica do �uxo original. Na Seção 5, assegura-se que o atrator, um subconjunto de um espaço de dimensão in�nita, pode ser submergido em um espaço Euclidiano de dimensão �nita su�ciente- mente grande. Hurewicz & Wallman (1941) provaram um teorema clássico, que garante que um conjunto compacto com dimensão topológica �nita d pode ser submergido em R2d+1. Uma generalização do teorema de Mañé (1981) a�rma que, se a dimensão fractal de é �nita, um conjunto denso de aplicações lineares limitadas de posto 2d+1 é injetivo em . Eden et al (1994) mostraram a existência de um sistema �nito de equações diferenciais ordinárias que reproduz a dinâmica no atrator global. No entanto, esta submersão do atrator em um espaço de dimensão �nita é feita sem unicidade. A construção de um sistema de equações diferenciais ordinárias que repro- duza a dinâmica no atrator depende de suas propriedades topológicas. Na Seção 6, diversos resultados de topologia são relacionados com a teoria dos atratores globais. En�m, observa-se que os atratores de dimensão �nita possuem todas as propriedades topológicas necessárias para produzir um sistema de equações diferenciais ordinárias. Finalmente, constrói-se, na Seção 7, um sistema dinâmico discreto que re- produz a aplicação de tempo T no atrator global. O atrator deste sistema se encontra em uma vizinhança arbitrariamente pequena do atrator original. Este sistema discreto obtido reproduz o comportamento assintótico de uma equação diferencial parcial dissipativa, de tal forma que suas complexidades são mantidas; ele é semelhante aos métodos usados para calcular numericamente suas soluções. Na Seção 8, apresentam-se resultados recentes motivados pelas discussões apresentadas neste trabalho. Os novos artigos a�rmam a importância dos atratores para a compreensão do comportamento assintótico de alguns sistemas dinâmicos dissipativos. Observa-se, portanto, o desenvolvimento necessário de instrumentos matemáticos apropriados para obter, com a ajuda de computa- dores poderosos, uma melhor descrição qualitativa destes sistemas. 5 2 Atrator Global 2.1 Semigrupos De�nição 1 (Robinson, 2001) Um semigrupo de classe C0 é uma família fS(t)gt�0 de operadores em um espaço de Hilbert H com as seguintes pro- priedades: (i) S(t) : H ! H é contínuo; (ii) Para todo u0 2 H, t! S(t)u0 é contínuo em R+; (iii) S(t)S(s) = S(s)S(t) = S(s+ t), t � 0, s � 0; (2:1) (iv) S(0) = Identidade em H. O sistema dinâmico (H; fS(t)gt�0) é o semigrupo fS(t)gt�0 no espaço de Hilbert H, cujos estados são descritos por elementos de H. Considera-se, então, uma equação diferencial parcial geral, escrita como uma equação diferencial ordinária em um espaço de Hilbert H, du=dt = F (u); (2.2) que gera um semigrupo fS(t)g de classe C0, de�nido apenas para t � 0, tal que existe uma única solução u(t;u0), associada a condição inicial u0 2 H, dada por u(t;u0) = S(t)u0: (2.3) Denota-se j�j a norma no espaço de Hilbert H. Investiga-se o comportamento a longo prazo das soluções u(t;u0) de (2.2) � tarefa equivalente a estudar o comportamento assintótico do semigrupo fS(t)gt�0. Proposição 2 (Robinson, 2001) Se f : H ! H é contínua e K é um con- junto compacto, então f é uniformemente contínua perto de K. Isto é, dado � > 0 existe �K(�) tal que u 2 K, v 2 H, e ju� vj � �K(�) implica que jf(u)� f(v)j � � As continuidades de S(t) em u0 e t a�rmam que as soluções variam continu- amente, de modo uniforme, com respeito às condições iniciais em um conjunto compacto. Para qualquer conjunto compacto K, tem-se que jS(t)u� S(t)vj � �K(T; ju� vj); para todo u 2 K; (2.4) 6 onde �K(t; d) satisfaz �K(t; 0) = 0, �K(0; d) = d, e é crescente em relação aos parâmetros t e d. Assim como algumas propriedades do semigrupo, o espaço de fase, onde este semigrupo atua, é muito importante, pois certas particularidades são necessárias para a construção de atratores para semigrupos. Desprovida de teoremas gerais de existência e unicidade de soluções, a teo- ria de sistemas dinâmicos em dimensão in�nita utiliza bastante o conceito de conjuntos invariantes para caracterizar o comportamento assintótico. De�nição 3 (Temam, 1997) Um conjunto X � H é invariante positiva- mente para o semigrupo fS(t)g se S(t)X � X; para todo t � 0: (2.5) De�nição 4 (Temam, 1997) Um conjunto X � H é invariante negativa- mente para o semigrupo fS(t)g se S(t)X � X; para todo t � 0: (2.6) De�nição 5 (Temam, 1997) Um conjunto X � H é invariante em relação ao semigrupo fS(t)g se S(t)X = X; para todo t � 0: (2.7) Observa-se que todo conjunto invariante é relevante para a dinâmica do sistema. Quando os operadores S(t) são injetivos, a relação (2.7) implica que S(�t) está de�nido em H, para todo t � 0 e S(t)X = X; para todo t 2 R: De�nição 6 Para u 2 H, a órbita ou trajetória positiva +(u), que passa por u, é o conjunto fS(t)u; t � 0g. A órbita negativa, que passa por u, é a função � : (�1; 0]! H, tal que �(0) = u e, para qualquer s � 0, S(t)�(s) = �(t+ s), para 0 � t � �s. A órbita completa, que passa por u, é a função � : R ! H, tal que �(0) = u e, para qualquer s 2 R, S(t)�(s) = �(t+ s), para t � 0. A existência de uma órbita negativa ou completa, que passa por u, impõem restrições sobre u, visto que a imagem do operador S não é, obrigatoriamente, todo H. Se existir, a órbita negativa não precisa ser única, já que o operador não necessita ser injetivo. De�nição 7 (Temam, 1997) Um ponto �xo do semigrupo fS(t)g é um ponto z 2 H, tal que S(t)z = z; para todo t � 0: 7 2.2 Dissipação De�nição 8 (Robinson, 2001) Um conjunto A � H é absorventese para todo u 2 H existe t0(u) 2 [0;1) tal que S(t)u 2 A; para todo t � t0(u): De�nição 9 (Robinson, 2001) Um conjunto A � H é X-absorvente se para cada conjunto limitado X existe t1(X) 2 [0;1) tal que S(t)X � A; para todo t � t1(X): Observa-se que nem todo conjunto absorvente é positivamente invariante, mas é possível obter um conjunto positivamente invariante a partir de um conjunto absorvente. De�nição 10 (Robinson, 2001) O operador S(t) é dissipativo pontualmente se existe um conjunto limitado B � H tal que para todo u0 2 H existe t0(u0) tal que S(t)u0 2 B; para todo t � t0(u0): (2.8) De�nição 11 (Robinson, 2001) O operador S(t) é X-dissipativo se existe um conjunto limitado B � H tal que para cada conjunto limitado X existe t1(X) tal que S(t)X � B; para todo t � t1(X): (2.9) A seguinte proposição mostra que estas duas propriedades são equivalentes no Rm. Proposição 12 (Robinson, 2001) Suponha-se que fS(t)g é um semigrupo dissipativo pontualmente em Rm. Então, S(t) também é um semigrupo X- dissipativo. De fato, para qualquer � � 0, o conjunto B� = [ 0�t<1 S(t)N(B; �); onde B é um conjunto da forma (2.8), é um conjunto invariante positivamente e limitado que absorve qualquer conjunto limitado X em um tempo t1(X). Proposição 13 (Robinson, 2001) Suponha que S(t) é um semigrupo dissi- pativo com um conjunto absorvente limitado B. Então,[ t�0 S(t)B 8 é um conjunto limitado, positivamente invariante que também é absorvente. Se B é compacto, então [ t�0 S(t)B também é compacto. De�nição 14 (Robinson, 2001) Um semigrupo fS(t)g é dissipativo se pos- sui um conjunto absorvente compacto B. Isto é, para qualquer conjunto limitado X � H, existe t1(X) tal que S(t)X � B; para todo t � t1(X): (2.10) Pertencem a categoria restrita de equações dissipativas as equações de Navier- Stokes em duas dimensões, a equação de Kuramoto-Sivashinsky, a equação de Ginzburg-Landau complexa e algumas equações de reação-difusão. 2.3 Conjuntos Limites e Atratores 2.3.1 Conjuntos Limites De�nição 15 (Temam, 1997) O conjunto !-limite !(X) de um conjunto X � H é o conjunto dos pontos limites da órbita de X, !(X) = fy : existe tn !1; un 2 X; tal que S(tn)un ! y quando n!1g: (2.11) Lema 16 (Ladyzhenskaya, 1991) Uma descrição equivalente de conjuntos !-limites é dada por !(X) = \ t�0 [ s�t S(s)X; (2.12) com o fecho na topologia do espaço de Hilbert H. De certa forma, o conjunto !-limite de um conjunto X captura todas as dinâmicas recorrentes da órbita de X. Além disso, pela proposição abaixo, observa-se que os conjuntos !-limites das órbitas são uma classe importante de conjuntos invariantes. Proposição 17 (Hale, 1988) Seja X � H um conjunto não vazio. Se, para algum t0 � 0, o conjunto [ t�t0 S(t)X (2.13) é compacto, então !(X) é não vazio, compacto e invariante. 9 Em um espaço de dimensão in�nita, a hipótese pode ser veri�cada se [ S(t)X é limitado em um espaço imerso compactamente em H. A proposição acima fornece alguns exemplos interessantes de conjuntos invariantes. Proposição 18 (Robinson, 2001) Se X é um conjunto limitado e X � Y , então !(X) � !(Y ). Além do mais, se Y é um conjunto absorvente, então !(X) = !(Y ): De�nição 19 (Ladyzhenskaya, 1991) Sejam A e M subconjuntos do espaço de Hilbert H. Diz-se que A atrai M ou que M é atraído por A pelo semigrupo fS(t)g se dist(S(t)M; A)! 0; quando t! 1: Isto é, para cada � > 0, existe t1(�;M) 2 [0;+1), tal que S(t)M � N(�; A); para todo t � t1(�;M): De�ne-se N(�; A), a �-vizinhança de A, isto é, a união de todas as bolas de raio � centradas em pontos de A. Se A atrai todos os conjuntos limita- dos de H, então A é o atrator global para o semigrupo fS(t)g. Geralmente, um conjunto absorvente é um conjunto limitado no qual a órbita de qualquer conjunto limitado eventualmente entra, em tempo �nito, e ali permanece. A existência de um conjunto absorvente compacto A, tal que o conjunto !-limite de qualquer conjunto limitado pertence a A, pode ser tomada como uma de�nição de equações diferenciais parciais dissipativas. 2.3.2 Atrator Global Atratores globais exercem um papel fundamental no estudo do comporta- mento a longo prazo das soluções de equações diferenciais parciais. De�nição 20 (Robinson, 2001) O atrator global A � H de um semigrupo fS(t)g é o conjunto invariante compacto maximal S(t)A = A; para todo t � 0, (2.14) e o conjunto minimal que atrai as órbitas de todos os conjuntos limitados em H: dist(S(t)X; A)! 0; quando t!1; (2.15) para qualquer conjunto limitado X � H. 10 A distância em (2.15) é a semidistância entre dois conjuntos X e Y , dada por dist(X;Y ) = sup x2X inf y2Y jx� yj : Esta distância não determina uma métrica, pois dist(X;Y ) = 0 implica apenas que X está contido no fecho de Y . Para obter uma métrica, deve-se utilizar a distância de Hausdor¤ simétrica de�nida por distH(X;Y ) = max(dist(X;Y );dist(Y;X)): Nota-se que a unicidade do atrator global é facilmente veri�cada. O atrator global é maximal, pois inclui qualquer conjunto invariante limitado. Além disso, ele atrai as trajetórias u(t; u0) = S(t)u0; quando t!1; uniformemente com respeito ao valor inicial limitado u0. A propriedade (2.5) implica que os pontos em A representam todas as possíveis con�gurações a longo prazo do �uxo, tanto estáveis quanto instáveis. Observa-se que o atrator global contém toda informação relativa à instabilidade da equação (2.2) e do semigrupo associado. Esta importante característica do atrator global é descrita pelo teorema abaixo. Teorema 21 (Babin & Vishik, 1992) Sejam H um espaço de Hilbert e fS(t)g um semigrupo uniformemente contínuo. Suponha que fS(t)g possua um atrator global A. Então, para quaisquer conjuntos limitados X1 e X2 de H, sup distH(S(t)X1 \ A; S(t)X2 \ A))! 0; quando distH(X1; X2)! 0: 2.4 Existência do Atrator Global Estabelece-se a existência de atratores globais através do conceito de con- juntos absorventes, que estão relacionados a propriedades dissipativas do sistema dinâmico. Proposição 22 (Robinson, 2001) Se B é um conjunto absorvente compacto de um semigrupo dissipativo, então !(B) = \ t�0 S(t)B: (2.16) Além disso, se T > 0, !(B) = 1\ n=1 S(nT )B: (2.17) 11 Sabe-se que a existência de atrator global A, para um semigrupo fS(t)g, implica na existência de um conjunto absorvente. Para qualquer conjunto limitado X � H, dist(S(t)X; A)! 0; quando t!1: Logo, para todo � � 0, existe t(�) tal que se t � t(�), dist(S(t)X; A) � �=2 e S(t)X � N(�;A): Mostra-se, então, que N(�;A) é um conjunto absorvente. Por outro lado, um semigrupo que possui um conjunto absorvente terá um atrator global se satis�zer algumas propriedades básicas. Teorema 23 (Temam, 1988) Se fS(t)g é dissipativo e B é um conjunto ab- sorvente compacto, então existe um atrator global A = !(B). Se B é conexo, então A também é. A hipótese de dissipação é utilizada para garantir a aplicação da propriedade (2.14). Como fS(t)gt�0 é um semigrupo de classe C0 em um espaço de Hilbert H, que possui um atrator global, obtém-se um semigrupo restrito a A de�nido por SA(t) : A ! A; onde SA(t)u = S(t)u; u 2 A e t � 0: O semigrupo SA(t) tem propriedades interessantes que não compartilha com S(t) e são uma conseqüência da existência do atrator global. Para muitas equações dissipativas, é possível mostrar a existência de um atrator global compacto, para o qual todas as soluções tendem. A equação de reação-difusão é um exemplo clássico tratado por Marion (1987), Temam (1988), Babin & Vishik (1992) e Evans (1998). A existência de um atrator global para a equação de Navier-Stokes bidimensional foi provada por Ladyzhenskaya (1975), Foias & Temam (1979). Nicolaenko, Scheurer & Temam (1985) mostraram este fato para a equação de Kuramoto-Sivashinsky e para a equação de Cahn-Hilliard. Hale (1988) e Temam (1988) reuniram vários exemplos muito bem discutidos. Teorema 24 (Hale, 1981) Se o semigrupo fS(t)g é injetivo em A, então toda trajetória em A está de�nida para todo t 2 R, e (2.14) vale para todot 2 R. Em particular, (A ; fS(t)gt2R) é um sistema dinâmico. Neste caso, Hale (1981) mostrou que a aplicação de tempo T , S(T ), no atrator é um homeomor�smo para todo T 2 R. Este teorema manifesta a importância da discussão sobre a injetividade do semigrupo fS(t)g restrito a conjuntos compactos invariantes. 12 2.5 Estrutura do Atrator São apresentados agora alguns resultados sobre a estrutura de atratores globais de certa classe de semigrupos. Deseja-se, então, obter sua descrição detalhada. Teorema 25 (Stuart & Humphries, 1996) Todas as órbitas completas lim- itadas pertencem a A. Se fS(t)g é injetivo em A, então A é a união de todas as órbitas completas limitadas. A seguir, lembram-se algumas de�nições. Sejam H um espaço de Hilbert e fS(t)g um semigrupo de classe C0. Se z é um ponto �xo do semigrupo, de�nem-se as variedades instáveis e estáveis de z. De�nição 26 (Robinson, 2001) A variedade instável de z é o conjunto Wu(z) = fu0 2 H : S(t)u0 de�nido para todo t; S(�t)u0 ! z quando t!1g: De�nição 27 (Robinson, 2001) A variedade estável de z é o conjunto W s(z) = fu0 2 H : S(t)u0 ! z quando t!1g: Suponha-se que o semigrupo fS(t)g possui um atrator global A. Se N é o conjunto de pontos �xos do sistema, então N � A e Wu(z) � A, para qualquer z 2 N . Estudam-se as variedades instáveis de conjuntos invariantes compactos com o objetivo de caracterizar a estrutura do atrator global. Teorema 28 (Temam, 1988) Se X é um conjunto invariante compacto, en- tão Wu(X) � A: 2.6 Dinâmica Assintótica Considera-se uma equação de evolução dissipativa da forma du dt +Au+ f(u) = 0; u(0) = u0 (2.18) em um espaço de Hilbert H separável. O operador linear A é positivo, auto- adjunto, ilimitado com A�1 compacto. Assume-se que o termo não-linear f é localmente Lipschitz de D(A�) em D(A�), com 0 � � � � < 1. Neste caso, Henry (1981) a�rma que um semigrupo de operadores não-lineares fS(t)gt�0 , contínuo em D(A�) para t � 0, resolve o problema com valores iniciais (2.18). 13 Temam (1988) mostrou a existência de um conjunto absorvente compacto para (2.18), que implica, pelo Teorema 18, na existência de um atrator global de dimensão �nita. Sob essas condições, o lema a seguir sobre a continuidade das soluções em relação aos dados iniciais é um instrumento essencial deste trabalho. Lema 29 (Langa & Robinson, 1999) Sejam u1(t) e u2(t) duas soluções de (2.18) correspondendo, respectivamente, aos dados iniciais u1(0) e u2(0). En- tão, existe k > 0 (dependendo em �, � e na constante de Lipschitz de f em um conjunto absorvente B) tal que ju1(t)� u2(t)j� � ju1(0)� u2(0)j e kt; (2.19) para todo t � 0, com 0 = 1� (� � �). O comportamento assintótico das soluções deve ser analisado, visto que se quer submergir a dinâmica apenas no atrator A. Utilizando o resultado anterior, obtêm-se informações sobre a relação entre as trajetórias de (2.19) em H e no atrator global A, para um intervalo �nito de tempo. São os chamados shadowing lemmas. Proposição 30 (Langa & Robinson, 1999) Dados uma trajetória u(t) = S(t)u0 de (2.18), � > 0 e T > 0, existem � = �(�; T ) > 0 e v0 2 A tal que ju(� + t)� S(t)v0j � �; para todo 0 � t � T: Corolário 31 (Langa & Robinson, 1999) Dado uma solução u(t) = S(t)u0 de (2.18), existem uma seqüência de erros f�mg1m=1, �m > 0, com �m ! 0, uma seqüência de tempos ftmg1m=1, com tn+1 � tn !1; quando n!1; e uma seqüência de pontos fvmg1m=1, com vm 2 A , tal que ju(t)� S(t� tn)vnj � �n; para todo tn � t � tn+1: Além disso, os saltos jvm+1 � S(tm+1 � tm)vmj decrescem para zero. Veri�ca-se este corolário usando a continuidade das soluções da equação (2.18) em relação às condições iniciais e às propriedades de atração de A. Este resultado instrutivo mostra exatamente como a dinâmica no atrator global A pode determinar o comportamento assintótico das trajetórias em H. Justi�ca- se, assim, a tentativa de reproduzir a dinâmica da equação diferencial parcial concentrando-se na dinâmica do atrator. 14 3 Atratores de Dimensão Finita 3.1 Medidas de Dimensão A complexidade do �uxo no atrator global A, produzido pelas condições iniciais, depende da dimensão e da geometria de A. Existem medidas de dimensão adequadas a conjuntos cuja estrutura seja irregular, tais como os atratores globais. Consideram-se a dimensão fractal e a dimensão de Hausdor¤. 3.1.1 Dimensão Fractal Sejam H um espaço de Hilbert e X � H um subconjunto compacto de H. A dimensão fractal de um conjunto X decorre da contagem do número de bolas fechadas de raio � �xado necessárias para cobrir X. Dado � > 0, seja n(X; �) o número mínimo de bolas para tal cobertura. De�nição 32 (Falconer, 1990) Se X é compacto, a dimensão fractal de X, df (X), é dada por df (X) = lim sup �!0 log n(X; �) log (1=�) ; (3.1) onde o limite (3.1) pode valer +1. Segue da de�nição que, se d > df (X), então, para � su�cientemente pequeno, n(X; �) � ��d. Observa-se que a dimensão fractal satisfaz algumas noções intuitivas de �dimensão�: (i) df (X) � df (Y ), se X � Y ; (ii) df (X) = m, se X é um subconjunto aberto não-vazio de Rm. Além disso, a dimensão fractal possui as seguintes propriedades: Proposição 33 (Falconer, 1990) (i) A dimensão fractal é estável sob uniões �nitas: df N[ k=1 Xk ! � max k df (Xk): (3.2) (ii) Se f : H ! H é Hölder contínua com expoente �, tal que jf(x)� f(y)j � L jx� yj� ; com x; y 2 H; (3.3) então df (f(X)) � df (X)=�, 15 (iii) df (X � Y ) � df (X) + df (Y ). (iv) Se X é o fecho de X em H, então df (X) = df (X). Corolário 34 (Falconer, 1990) (i) Se f : H ! H é uma transformação Lipschitz, então df (f(X)) � df (X). (ii) Se f : H ! H é uma transformação bi-Lipschitz, i.e., L1 jx� yj � jf(x)� f(y)j � L2 jx� yj ; com x; y 2 H; onde 0 < L1 � L2 <1, então df (f(X)) = df (X). 3.1.2 Dimensão de Hausdor¤ Sejam H um espaço de Hilbert e X � H um subconjunto compacto de H. Dado � > 0, consideram-se as bolas B(xi; ri) com raio ri � � centradas em xi, tal que [ i B(xi; ri) é uma cobertura de X. Dado d 2 R+, a construção da dimensão de Hausdor¤ se baseia em uma aproximação do volume d-dimensional do conjunto X, utilizando coberturas [ i B(xi; ri) de X. De�nição 35 (Falconer, 1990) O volume d-dimensional do conjunto X, �(X; d; �), é dada por �(X; d; �) = inf (X i rdi : ri � � e X � [ i B(xi; ri) ) ; (3.4) onde B(xi; ri) são bolas com raio ri centradas em xi: Observa-se que o ín�mo é tomado sobre todas as coberturas [ i B(xi; ri) de X. Pela de�nição, �(X; d; �) é claramente uma função não-crescente de �. Quando � decresce, a classe de coberturas [ i B(xi; ri) de X admissíveis em (3.4) se reduz. Logo, �(X; d; �) cresce quando � ! 0. De�nição 36 (Falconer, 1990) A medida exterior de Hausdor¤ d-dimensional do conjunto X, Hd(X), é de�nida por Hd(X) = lim �!0 �(X; d; �) = sup �>0 �(X; d; �): (3.5) 16 Utilizando as de�nições acima, nota-se que Hd(X) 2 [0;+1]. É possível provar que Hd(X) é uma medida exterior. Sabe-se que medidas exteriores são úteis, pois sempre existe uma �-álgebra de subconjuntos em que se comportam como medidas. Falconer (1985) a�rma que a restrição de Hd à �-álgebra dos conjuntos Hd-mensuráveis, que inclui os conjuntos de Borel, é chamada medida de Hausdor¤ d-dimensional. Em particular, Hd(;) = 0; se X � Y , então Hd(X) � Hd(Y ); e se fXig é uma coleção enumerável de conjuntos de Borel disjuntos, então Hd 1[ i=1 Xi ! = 1X i=1 Hd(Xi): A medida de Hausdor¤ é uma generalização natural da medida de Lebesgue. Aplica-se esta medida a variedades para valores não inteiros de d. Se t > s e fB(xi; ri)g é uma �-cobertura de X, entãoX i rti � �t�s X i rsi e, conseqüentemente, �(X; t; �) � �t�s�(X; s; �): Portanto, seHs(X) <1, então Ht(X) = 0, para t > s. Existe, então, o valor crítico d 2 [0;1] tal que Hs(X) = 0, para s > d e Hs(X) = +1, para s < d. De�nição 37 (Falconer, 1990) A dimensão de Hausdor¤ de um conjunto compacto X, dH(X), é dada por dH(X) = inf d>0 fd : Hd(X) = 0g = sup d>0 fd : Hd(X) =1g: Observa-se que se dH(X) = d, nada se pode a�rmarsobre a medida Hd(X), que pode assumir qualquer valor. Analisando exemplos, como o conjunto de Cantor, percebe-se que é mais fácil obter limites inferiores para a dimensão de Hausdor¤ do que limites superi- ores. A dimensão de Hausdor¤ satisfaz algumas noções razoáveis para qualquer de�nição de dimensão: (i) dH(X) � dH(Y ), se X � Y ; (ii) dH(X) = m, se X é um subconjunto aberto não-vazio de Rm. A seguir, apresentam-se algumas propriedades úteis da dimensão de Haus- dor¤. Proposição 38 (Falconer, 1990) 17 (i) A dimensão de Hausdor¤ é estável sob uniões enumeráveis: dH 1[ k=1 Xk ! � sup k dH(Xk): (3.7) (ii) Se f : H ! H é Hölder contínua com expoente �, satisfazendo (3.3), então dH(f(X)) � dH(X)=�. (iii) dH(X � Y ) � df (X) + dH(Y ). Nota-se que a propriedade (i) vale para uniões enumeráveis, em oposição à dimensão fractal que vale apenas para uniões �nitas. Conseqüentemente, qualquer conjunto enumerável X tem dH(X) = 0. A propriedade (iii) é mais fraca do que a da Proposição 33, visto que involve a dimensão fractal. Observa- se que não há uma propriedade semelhante ao item (iv) da Proposição 33. Corolário 39 (Falconer, 1990) (i) Se f : H ! H é uma transformação Lipschitz, então dH(f(X)) � dH(X). (ii) Se f : H ! H é uma transformação bi-Lipschitz, i.e., L1 jx� yj � jf(x)� f(y)j � L2 jx� yj ; com x; y 2 H; onde 0 < L1 < L2 <1, então dH(f(X)) = dH(X). Este corolário mostra que a dimensão de Hausdor¤, como a fractal, é invari- ante sob transformações bi-Lipschitz. 3.1.3 Dimensão de Hausdor¤ e Fractal Claramente, as duas de�nições de dimensões dadas acima não são equiva- lentes, mas a comparação entre elas é relevante. Lema 40 (Mandelbrot, 1977) De�ne-se a medida fractal aproximada como �f (X; d; �) = n(X; �)� d e a medida fractal d-dimensional por mf (X; d) = lim sup �!0 �f (X; d; �); então df (X) = inf d>0 fd : mf (X; d) = 0g: 18 Corolário 41 (Mandelbrot, 1977) A dimensão de Hausdor¤ de um conjunto é menor ou igual à sua dimensão fractal dH(X) � df (X). 3.2 Estimativa da Dimensão do Atrator Em um teorema fundamental, Mallet-Paret (1976) provou que se H é um espaço de Hilbert separável, então, sob certas condições, todo conjunto compacto A � H invariante negativamente possui dimensão topológica �nita. Mañé (1981) generalizou este resultado para espaços de Banach e adequou-o à dimensão fractal e de Hausdor¤. Douady & Oesterlé (1980) majoraram a dimensão de Hausdor¤do atrator de um sistema dinâmico suave gerado por um determinado semigrupo. Em seguida, Constantin et al (1985) discutiram resultados abstratos sobre as dimensões fractal e de Hausdor¤ de um atrator e desenvolveram um método de estimá- las para certas equações dissipativas. Constantin et al (1988) obtiveram uma melhor estimativa da dimensão fractal do atrator de equações de Navier-Stokes em duas e três dimensões. Nesta Seção, estima-se a dimensão fractal do atrator globalA por um método analítico, obtendo, pelo Corolário 34, uma cota superior para sua dimensão de Hausdor¤. Para isto, estuda-se a evolução de um volume n-dimensional in�nitesimal sob o �uxo, a �m de descobrir a menor dimensão para a qual esse n-volume se contrai. Seja H um espaço de Hilbert, cuja norma se denota j�j. Considera-se o seguinte problema abstrato, com valores iniciais, du dt = F (u(t)) , t > 0, (3.8) u(0) = u0; onde u0 2 H. Assume-se que esta equação tem solução única, expressa por u(t; u0) = S(t)u0, e que a família fS(t)g de operadores de�nidos em H, para todo t � 0, é um semigrupo de classe C0. Seja A o atrator global compacto do sistema dinâmico (H; fS(t)gt�0). Seja f�(j)g1�j�n um conjunto ortogonal de deslocamentos perto de um ponto inicial u0 2 A, onde n 2 N. Seja ^(n)H, n 2 N; o produto n-exterior do espaço H, cuja norma se denota j�j^(n) . Denota-se �(1) ^ ::: ^ �(n) 2 ^(n)H 19 o paralelepípedo gerado por esses n vetores, i.e., o conjunto de pontos f�(j)g1�j�n que satifazem �1� (1) + :::+ �n� (n), 0 � �i � 1, para todo 1 � i � n. Analisa-se a evolução de seu volume n-dimensional��� �(1) ^ ::: ^ �(n)��� ^(n) sob o �uxo descrito por (3.8). Se e(1); :::; e(n) é uma base ortonormal no espaço n-dimensional gerado por �(1); :::; �(n); tal que (�(1) ^ :::^ �(n)) 6= 0, então �(i) = nX j=1 aijeij ; 1 � i � n; e �(1) ^ ::: ^ �(n) = det(aij)1�i; j�n � e(1) ^ ::: ^ e(n) � : Logo, este volume é dado por��� �(1) ^ ::: ^ �(n)���2 = detM ��(1), . . . , �(n)� ; (3.9) onde M é uma matriz, cujos componentes obedecem a M � v(1); :::; v(n) � i j = � v(i), v(j) � : Seja L a matriz que leva os elementos básicos e(k) no novo conjunto dos v(k). A matriz M é, neste caso, LTL e, conseqüentemente, possui autovalores estri- tamente positivos. A partir do conjunto de deslocamentos in�nitesimais �x(i) sobre a trajetória u(t), estuda-se a evolução do elemento de volume in�nitesimal �x(1) ^ :::^ �x(n) sob o semigrupo fS(t)g. Para tal, algumas suposições técnicas são necessárias. De�nição 42 (Robinson, 2001) O operador S(t) é diferenciável uniforme- mente em A se, para cada u 2 A, existir um operador �(t; u), tal que, para todo t � 0, sup u; v 2 A; 0<ju�vj�� jS(t)v � S(t)u � �(t; u)(v � u)j jv � uj ! 0; quando �! 0 e sup u2A k�(t; u)kop <1; para cada t � 0: (3.10) No caso de equações diferenciais parciais, a veri�cação desta condição é trabalhosa, pois inclui algumas di�culdades técnicas. Portanto, supõe-se que 20 S(t) seja diferenciável uniformemente em A, para todo t � 0. O problema linear, com valores iniciais, dU dt = F 0(S(t)u0)U(t); U(0) = �; (3.11) onde F 0 é a derivada de Frechet de F , está bem posto para todo u0; � 2 A. A solução desta equação linearizada de�ne �(t; u)�, para todo � 2 A. A equação (3.11) é equivalente a dU dt = L(t; u0)U(t); U(0) = �: (3.12) Para u0 �xo em H, cada deslocamento �x(j) evolui segundo d �x(j) dt = L(t; u0)�x (j): (3.13) Deve-se investigar o comportamento do n-volume Vn(t) = ����x(1) ^ . . . ^ �x(n)��� : Com esse objetivo, considera-se d dt log Vn(t) = 1 2 d dt log V 2n = 1 2 d dt log [det M(t)] ; onde M(t) =M(�x(1)(t); :::; �x(n)(t)); utilizando (3.9). Decompõe-se a matriz M como M = X �jeje T j ; onde Mej = �jej com (ej ; ek) = �ij : Quando detA 6= 0, logA é a matriz B tal que eB = 1X j=0 (Bj) j! = A. Prova-se, então, que log [det M ] = Tr [log M ] e que d dt Tr [log M ] = Tr � M�1 d M dt � : Portanto, mostra-se que d dt log Vn(t) = 1 2 d dt Tr [log M ] = 1 2 Tr � M�1 d M dt � : (3.14) 21 Introduz-se o conjunto f�(j)(t)g de vetores, ortonormais e dependentes do tempo, que gera o mesmo espaço que f�x(j)(t)g, a �m de avaliar o traço da equação (3.14). A matriz m(t) é de�nida pelos componentes de �x(j) na direção de �(i), mij = � �(i)(t); �x(j)(t) � ; tal que M = mTm e M�1 = m�1(mT )�1: O operador L da equação linerizada (3.12) se associa a esta base ao se estabelecer aij = � �(i)(t); L�(j)(t) � : (3.15) Em seguida, dMdt é expresso em termos de m e a pela igualdade dMij dt = � d dt �x(i); �x(j) � + � �x(i); d dt �x(j) � = � L�x(i); �x(j) � + � �x(i); L�x(j) � ; utilizando (3.13). Se u é um elemento do espaço gerado por f�(j)g, tal que u = nX j=1 �(j) � �(j); u � ; (3.16) então dMij dt = nX k;l=1 � �x(i); �(k) � h� L�(i); �(l) � + � �(k); L�(l) �i� �(l); �x(j) � = nX k;l=1 mki(akl + akl)mlj ; tal que dM dt = mT (aT + a)m: Aplicando este resultado na equação (3.14), juntamente com a representação de M , obtém-se que 2 d dt log Vn(t) = Tr � m�1(mT )�1mT (aT + a)m � = Tr � m�1(aT + a)m � = Tr(aT + a) = 2Tr (a) ; pois Tr � AT � = Tr(A). Seja P (n) a projeção no espaço gerado por f�(i)g de�nida por P (n) = nX i=1 �(i) � �(i); � � : 22 O traço de a é, então, expresso em termos desta projeção, utilizando as equações (3.15) e (3.16). Conseqüentemente, Tr (a) = nX i=1 � �(i); L�(i) � = nX i;l=1 � �(j); L�(i) �� �(i); �(j) � = Tr h L P (n) i : Ao integrar a equação (3.14), veri�ca-se que o n-volume in�nitesimal Vn(t) = Vn(0) exp 24 tZ 0 Tr� L(s; u0) P (n)(s) � ds 35 : Portanto, a taxa de crescimento assintótica desse volume é lim t!1 exp 241 t tZ 0 Tr � L(s; u0) P (n)(s) � ds 35 : As condições iniciais do problema são o ponto inicial u0 2 H e o n-volume in�nitesimal inicial. A taxa de crescimento assintótica máxima deve ser tomada sobre todas as condições iniciais possíveis. De�ne-se T Rn(A) = sup x02A sup P (n)(0) lim sup t!1 1 t tZ 0 Tr � L(s; u0) P (n)(s) � ds: Se a média temporal h�i é de�nida por hf(t)i = lim sup t!1 1 t tZ 0 f(s)ds; então T Rn(A) = sup x02A sup P (n)(0) D Tr � L(s; u0) P (n)(s) �E : Busca-se sempre o menor n para o qual o sinal de T Rn(A) seja negativo, pois se T Rn(A) < 0, então os n-volumes in�nitesimais decaem exponencialmente. Teorema 43 (Hunt, 1996) Suponha que S(t) seja diferenciável uniformemente em A e que existe t0 tal que �(t; u) seja compacto, para todo t � t0. Se T Rn(A) < 0, então df (A) � n. 23 Por �m, observa-se que o fato de o atrator ter dimensão fractal �nita não é uma a�rmação sobre a dinâmica da equação. Esta propriedade se aplica ao atrator visto como um subconjunto do espaço de fase. Henry (1983), Hale et al (1984) e Hale (1988) observaram a conexão entre o comportamento a longo prazo de sistemas dinâmicos em dimensão �nita e equações diferenciais parciais dissipativas. Estimativas para a dimensão fractal e de Hausdor¤ do atrator, no caso de equações de Navier-Stokes em duas dimensões, foram obtidas por Foias & Temam (1979), Babin & Vishik (1983), Constantin et al (1985), entre outros. Marion (1987) provou o teorema sobre a diferenciabilidade uniforme no caso da equação de reação-difusão. Nicolaenko et al (1985) e Foias et al (1988) estimaram a dimensão do atrator para a equação de Kuramoto-Sivashinsky. Babin & Vishik (1992) encontraram um limite para a di- mensão de Hausdor¤ do atrator da equação de reação-difusão e observaram que os atratores das equações de Boussinesq e de magneto-hidrodinâmica também possuem dimensão �nita. Temam (1997) limitou explicitamente a dimensão de atratores de algumas equações, como as equações de reação-difusão, de Navier- Stokes em duas dimensões, de Cahn-Hilliard e de Ginzburg-Landau. 24 4 Variedades Inerciais Na década de oitenta, procurava-se compreender a dinâmica de dimensão �nita observada em algumas equações diferenciais parciais dissipativas, quando o conceito de variedade inercial foi desenvolvido por Foias et al (1985), Foias, Sell e Temam (1988) e Constantin et al (1989). Seja H um espaço de Hilbert. Considere a equação dissipativa da forma du dt +Au+ f(u) = 0; (4.1) onde u 2H e o operador A é linear auto-adjunto positivo, com inversa compacta. Logo, a aplicação u! Au é um isomor�smo de D(A) em H. Sob essas hipótese, D(A�) é um espaço de Hilbert para o produto escalar (u; v)D(A�) = (A �u;A�v) ; onde u; v 2 D(A�) e � 2 R. Para u 2 D(A�), de�ne-se jujD(A�) = (u; u) 1=2 D(A�) : A aplicação f é Lipschitz contínua em conjuntos limitados de D(A�) em D(A�), com 0 � � � � � 12 . Isto é, para todo u1; u2 2 X, um conjunto limitado em D(A�), existe uma constante C1, tal que��A� (f(u1)� f(u2))�� � C1 jA� (u1 � u2)j . Henry (1981) mostrou que a equação dissipativa (4.1) possui solução única, de�nida para todo t > 0, e gera um semigrupo fS(t)g fortemente contínuo em D(A�). Para qualquer condição inicial u0 2 D(A�), existe uma solução u(t; u0) = S(t)u0; para todo t > 0. A solução u(t) é mais regular, para todo t > 0, que a condição inicial, com u(t) 2 D(A1+�) e dudt 2 D(A �). Finalmente, observa-se que é natural medir distâncias com respeito à norma em D(A�), assim como considerar condições iniciais u0 2 D(A�). Se existir em D(A�) um conjunto B absorvente limitado, o termo não-linear pode ser anulado em uma região exterior a B, cuja dinâmica é transiente. Supõe- se que B esteja contido na bola � = fu 2 D(A�) : jA�uj � �g 25 em D(A�). Para truncar a função f , escolhe-se um função � : R ! [0; 1] de classe C1, que satisfaça �(r) = 1; 0 � r < 1; �� �0(r)�� � 2; �(r) = 0; r � 2: O novo termo R é igual a f em B, mas é nulo para jA�uj > 2� e de�nido por R(u) = � � jA�uj � � f(u): A equação modi�cada du dt +Au+R(u) = 0 (4.2) possui a mesma dinâmica assintótica que (4.1), porém é linear para jA�uj grandes. Logo, supp(R) � � e o termo R é limitado globalmente, sup u2 � ��A�R(u)�� � C0; para todo u 2 D(A�) e Lipschitz contínuo globalmente,��A� (R(u1)�R(u2))�� � C1 jA� (u1 � u2)j ; para todo u1; u2 2 D(A�): A equação (4.2) é dissipativa, com um conjunto absorvente compacto. Logo, é possível compreender melhor a evolução assintótica da solução de (4.2) devido à existência de um atrator global de dimensão �nita. No entanto, a estrutura do atrator A pode ser complicada e sua taxa de atração pode ser arbitrariamente lenta. Conseqüentemente, busca-se submergir o atrator global de uma equação diferencial parcial em uma variedade suave de dimensão �nita M, que atrai exponencialmente, a �m de trazer uma estrutura adicional para o comporta- mento assintótico. A descrição da dinâmica na variedade M torna-se, assim, mais relevante para o �uxo transiente. De�nição 44 (Foias, Sell e Temam (1988)) Uma variedade inercial M é uma variedade Lipschitz de dimensão �nita, que é positivamente invariante, S(t)M�M; para todo t � 0; e atrai todas as trajetórias exponencialmente, i.e., dado uma constante �, existe t0 � 0 e uma constante C(X) > 0 tal que, para t � t0, dist(S(t)u0; M) � C(X)e��t; para todo u0 2 X; onde X é um conjunto limitado em D(A�) e a distância é medida em D(A�). 26 Vários métodos diferentes, tanto analíticos quanto geométricos, surgiram para provar a existência dessas variedades. O operador A tem inversa compacta e auto-adjunta, por conseguinte, pos- sui uma base ortonormal de autovetores fwig1i=1, com respectivos autovalores f�ig1i=1 ordenados de maneira não decrescente e contados com suas multiplici- dades, tal que Awi = �iwi; �i+1 � �i: Escolhe-se i > 0 tal que �i+1 6= �i. As projeções ortogonais Pn, sobre o espaço de dimensão �nita gerado pelos autovetores fwi : 1 � i � ng, são de�nidas por Pnu = nX i=1 (u;wi)wi; onde (�; �) é o produto interno em H, e seus complementos ortogonais Qn por Qn = I � Pn; Qnu = 1X i=n+1 (u;wi)wi: Todas as variedades inerciais obtidas, nas diversas aplicações, são grá�cos de funções sobre subespaços PnH de H de dimensão �nita. Isto é, existe uma função Lipschitz contínua � : PnH ! QnH \D(A�); tal que na variedade q = Qnu = �(p); onde p = Pnu: A variedadeM é, então, expressa por M = G[�] = fp+ �(p) : p 2 PnHg; com jA� (�(p1)� �(p2))j � l jA� (p1 � p2)j ; para todo p1; p2 2 PnH: Como q = �(p) na variedade inercial, a equação (4.2) restrita aM se torna uma equação diferencial ordinária dp dt +Ap+ PR(p+ �(p)) = 0, (4.3) 27 chamada forma inercial. Sabe-se que p 2 PnH e � é Lipschitz contínua, logo a equação (4.3) tem solução única. As soluções de (4.3) em PnH são exatamente aquelas projetadas do atrator A, de�nidas por p(t) = PnS(t)[p(0) + �(p(0))]: O atrator global de (4.3) é PnA, poisM é uma variedade inercial em H. A dinâmica na variedade inercial é de dimensão �nita, pois qualquer tra- jetória emM é dada por u(t) = p(t) + �(p(t)), onde p(t) é a solução da forma inercial (4.3). Espera-se que a dinâmica em M determine toda a dinâmica assintótica da equação diferencial parcial. Este fato se veri�ca quando M é assintoticamente completa, i.e., qualquer trajetória u(t) de (4.2) se aproxima de uma trajetória u(t) emM, tal que jA� (u(t) � u(t))j ! 0 quando t!1: A condição necessária, na maioria dos teoremas atuais, que garantem a ex- istência de uma variedade inercial, é a existência de um intervalo su�cientemente grande no espectro do operador A, conforme enunciado no próximo teorema. Teorema 45 (Robinson, 1995b) Considere a equação dudt + Au+ R(u) = 0, onde A é um operador autoadjunto positivo com inversa compacta e autovalores �i, e uma função não-linear R, com R(u) = 0, para jA�uj > 2�, está de�nidade D(A�) em D(A�), com 0 � �� � � 12 , e satisfaz��A�R(u)�� � C0; u 2 D(A�) e��A� (R(u1)�R(u2))�� � C1 jA� (u1 � u2)j ; para todo u1; u2 2 D(A�): Então, se a condição �i+1 � �i > 2C1(����i + � ��� i+1 ) se veri�ca, existe uma variedade inercial dada pelo grá�co de uma função Lip- chitz contínua � : PnH ! QnH \D(A�); com �(p) = 0 para jA�uj > 2� e a constante de Lipschitz menor ou igual a um. Além disso, para todas as condições iniciais u0 2 X, limitado em D(A�), existe uma trajetória u(t) em M , tal que jA� (S(t)u0 � u(t))j � C(X)e��t; onde � � �i+1 � 2C1����i+1 . 28 Esta condição no espectro, referida na literatura como spectral gap condition, surgiu em Mañé (1981). A existência de uma variedade inercial prova que há um sistema de dimensão �nita que reproduz a dinâmica assintótica. Este fato foi veri�cado para a equação de Kuramoto-Sivashinsky por Temam (1988), Fois, Nicolaenko, Sell e Temam (1988) e Robinson (1994). Temam (1988) mostrou a existência de uma variedade inercial para a equação de Ginzburg-Landau e de reação-difusão, em um dimensão espacial. Para alguns domínios especiais, Mallet-Paret & Sell (1988) provaram que existe esta variedade para a equação de reação-difusão, em duas e três dimensões. Usando um método geométrico bastante �exível, Constantin et al (1989) constroem variedades inerciais para uma classe de sistemas dissipativos, que inclui a equação de Cahn-Hilliard, a equação de reação-difusão em uma e duas dimensões e a equação de Kuramoto- Sivashinky uni-dimensional. Os exemplos apresentados por Eden et al (1994) sugerem que a teoria de atratores exponenciais se aplica a várias equações. Entretanto, a abordagem usando variedade inercial apresenta alguns proble- mas. A existência dessas variedades presupõe uma condição su�ciente bastante restritiva. Apesar dos exemplos acima, há diversos casos em que ainda não é possível mostrar a existência de variedades inerciais. A equação de Navier- Stokes em duas dimensões, por exemplo, possui um atrator global de dimensão �nita, mas não há indícios da existência de uma variedade inercial. Além disso, para certas equações, como a equação de Kuramoto-Sivashinsky, a dimensão do sistema (4.3), a forma inercial, é muito maior que a dimensão do atrator. Por conseguinte, a criação de um sistema de equações diferenciais ordinárias, baseado diretamente no atrator global, convém mesmo para sistemas dinâmicos com variedade inercial. A técnica, apresentada na Seção 5, se concentra no estudo da dinâmica no atrator global, submergindo-a em um sistema discreto de dimensão �nita, na Seção 7. 29 5 Submersão do Atrator em Rd 5.1 Parametrização do Atrator Diversas equações dissipativas possuem atratores globais que, apesar de pertencerem a um espaço de Hilbert de dimensão in�nita, são de dimensão fractal �nita. Esta a�rmativa não trata da dinâmica da equação, mas apenas das propriedades do atrator como um subconjunto do espaço de fase. Deseja-se construir um sistema de dimensão �nita que reproduza a dinâmica no atrator global. Para isto, deve-se submergir o atrator global em um espaço de dimensão �nita apropriado. Denota-se dimX a dimensão topológica do conjunto X. Teorema 46 (Hurewicz & Wallman,1941) Suponha que X seja um espaço arbitrário e dimX � n, com n inteiro e �nito. Então, X é homeomorfo a um subconjunto de R2n+1. Além disso, o conjunto de homeomor�smos de X em R2n+1 contém um conjunto denso G� no conjunto de todas as transformações contínuas de X em R2n+1. Entretanto, desconhecem-se a forma dessa submersão e as propriedades de sua inversa. Hurewicz & Wallman (1941) também provaram que se X é um espaço métrico arbitrário com dimensão de Hausdor¤ dH(X), então dimX � dH(X). Logo, qualquer conjunto com dimensão de Hausdor¤ �nita pode ser submerso em R[2dH(X)+1] por uma transformação contínua ', onde [k] denota o menor inteiro maior ou igual a k. Eden et al (1994) e Kan, em Sauer et al (1991) mostraram que, apesar da dimensão de Hausdor¤possuir propriedades interessantes, existem subconjuntos de um espaço de Hilbert de dimensão in�nita, com dimensão de Hausdor¤�nita, que não podem ser submersos por projeções ortogonais em RN , para qualquer N . Mañé (1981) demonstrou a existência de um conjunto denso de projeções injetivas de um conjunto compacto de dimensão fractal d em um subconjunto de dimensão [2dH(X)+1]. Para compreender o quanto projeções, mesmo injetivas, podem distorcer um conjunto compacto X, observa-se a regularidade da inversa de tais projeções. A dimensão da imagem do atrator será menor que a do atrator, muito mais porque a inversa da projeção P�1 deixou de ser Lipschitz contínua do que porque a projeção P não é injetiva. Eden et al (1994) contribuiram fornecendo uma prova construtiva para um espaço de Hilbert separável, com inversa P�1 Hölder contínua, se X � Rk. 30 Ben-Artzi et al (1993) encontraram limites para o expoente Hölder de P�1, se X � Rk. Sauer et al (1991) introduziram a idéia de prevalência, quando X � Rk, para mostrar que existe um conjunto denso, no sentido de prevalência, de aplicações de classe C1 injetivas em A . Sejam Q um subconjunto do espaço de todas as aplicações lineares limitadas de H em Rk e � uma medida de probabilidade com suporte compacto. Um conjunto � de aplicações lineares limitadas é prevalente se, para qualquer aplicação linear limitada L0, L0 + L 2 �; para �-quase todo L 2 Q: Logo, um subconjunto prevalente de um espaço vetorial de dimensão �nita é simplesmente um conjunto cujo complemento tem medida zero. Observa-se apenas que qualquer conjunto prevalente é denso e que a interseção enumerável de conjuntos prevalentes é prevalente. Hunt et al (1992) a�rmam que há boas razões para considerar prevalência a noção apropriada para "quase sempre"em espaços de dimensão in�nita. Se H é um espaço de Hilbert de dimensão in�nita e X � H tem dimensão fractal �nita, Foias & Olson (1996) provaram que existe uma projeção restrita a X, cuja inversa é Hölder contínua. Historicamente, as projeções ortogonais se apresentaram mais convenientes e foram o foco de pesquisa em todos os artigos acima citados, exceto em Sauer et al (1991). Teorema 47 (Mañé, 1981; Foias & Olson, 1996) Sejam H um espaço de Hilbert, A um subconjunto compacto de H com df (A) �nita e P0 uma projeção de posto [2dH(X)+1]. Então, para cada � > 0, existem uma projeção ortogonal P = P (�) (também de posto [2dH(X) + 1]) e � = �(�) tal que P é injetiva em A, kP � P0kop � � e ��P�1x� P�1y�� � C jx� yj� ; para todo x; y 2 PA: No teorema abaixo, a aplicação linear L retira o atrator global A, de dimen- são �nita, do espaço H de dimensão in�nita e o submerge em um espaço Euclid- eano Rk, de dimensão su�cientemente grande. A inversa de L, L�1, fornece uma parametrização do atrator utilizando um conjunto �nito de coordenadas. Teorema 48 (Robinson, 2001) Seja X um subconjunto compacto de H, com df (X) < d, d um inteiro, e seja k � 2d+1. Então, se L0 é uma aplicação linear 31 limitada em Rk, para qualquer � > 0, existe uma outra aplicação linear limitada em Rk, L = L(�), tal que L é injetiva em X e kL� L0kop � �: Prova. Seja Y = fv � w : v; w 2 Xg: Como Y é a imagem de X � X sob a aplicação Lipschitz contínua (v; w) 7�! v � w, segue da Proposição 33 que df (Y ) � 2df (X) < 2d. De�ne-se Ar = � v � w : v; w 2 X; com jv � wj � 1 r � e Ar;j;n = � u 2 Ar : j(ej ; u)j � 1 n � : Observa-se que Ar;j;n é compacto. Como 0 =2 Ar, Ar = 1[ j=1 1[ n=1 Ar;j;n: Denota-se Lr;j;n = fL 2 L(H;Rk) : L�1(0) \Ar;j;n = ;g: Primeiramente, observa-se que 1\ j=1 1\ n=1 Lr;j;n consiste das aplicações lineares para as quais L�1(0) \Ar = ;, isto é, diam(L�1(x) \X) < 1 r ; para todo x 2 Rk: Então, 1\ r=1 1\ j=1 1\ n=1 Lr;j;n (5.1) é conjunto de aplicações lineares injetivas em X. Caso Lr;j;n seja aberto e denso em L(H;Rk); pode se aplicar o teorema de Baire. Para provar que Lr;j;n é aberto, mostra-se que se L 2 Lr;j;n, então existe um �, tal que ~L� L � � implicaque ~L 2 Lr;j;n. Este fato é equivalente a mostrar que, se Lx 6= 0 para todo x 2 Ar;j;n, então ~Lx 6= 0 também. Como Ar;j;n é compacto, segue que min x2Ar;j;n jLxj = � > 0 e max x2Ar;j;n jxj � R; 32 para algum 0 < � � R. Escreve-se que���~Lx��� = ���Lx� (L� ~L)x��� � jLxj � ���(L� ~L)x��� � � � L� ~L op R: Logo, escolhe-se � < �2R para que ���~Lx��� 6= 0, como necessário. Para mostrar que Lr;j;n é denso, utiliza-se a dimensão de Hausdor¤. Escolhe- se L0 2 L(H;Rk) e algum � > 0. Seja � a aplicação de Rk na esfera unitária S(0; 1) de�nida por �(x) = ( x jxj ; x 6= 0; p; x = 0; onde p é um ponto em S(0; 1). A aplicação � é Lipschitz contínua em Op � fx : jxj � �g para qualquer � > 0. Para qualquer conjunto W , escreve-se que �(W ) = ( 1[ k=1 � � W \ O 1 k �)[ p: A união com p é feita se 0 2 W . Como dH(p) = 0, pela propriedade de aditividade enumerável da dimensão de Hausdor¤, dH (�(W )) � sup k dH � � � W \ O 1 k �� : Como � é Lipschitz contínua em O1=k, dH (�(W )) � dH (W ) : Em particular, dH (�(L0Ar)) � dH (L0Ar) � dH (Ar) � df (Ar) < 2d: Como a dimensão de S(0; 1) é k�1 = 2d, existe z 2 S(0; 1) tal que z =2 �(L0Ar). Seja L = L0 + �ze � j ; onde e�j é o funcional linear que leva u 7�! (u; ej). Claramente, L 2 L(H;Rk) e kL� L0k � �: Falta mostrar que L 2 Lr;j;n. Se este fato não é válido, existe u 2 Ar;j;n com Lu = 0, i.e. L0u = � (ej ; u) �z: 33 Como u 2 Ar;j;n implica que j(ej ; u)j � 1r > 0, z é expresso em termos de u: z = � ((ej ; u) �)�1 L0u: Usando a de�nição de �, obtém-se z = �(z) = �(L0u) 2 �(L0Ar); o que é uma contradição. Conseqüentemente, Lr;j;n é denso. Para cada r; j e n, se mostrou que Lr;j;n é aberto e denso em L(H;Rk). Segue do teorema de Baire que sua interseção enumerável (5.1) é aberta e densa em L(H;Rk) também. O resultado é, então, obtido, pois essa interseção consiste das aplicações lineares em X. A inversa de L�1 é contínua quando restrita a LX; pois X é compacto e L é injetiva. Então, parametriza-se continuamente um conjunto de dimensão �nita por um número �nito de coordenadas. No entanto, desconhecem-se algumas propriedades essenciais dessa representação do atrator, como a linearidade e a injetividade. Corolário 49 (Robinson, 2001) Seja X um subconjunto compacto de H, com df (X) < d, d um inteiro, e seja k � 2d+ 1. Então, existe uma parametrização contínua de X usando k coordenadas. Hunt e Kaloshin (1999) introduziram uma noção relacionada à dimensão fractal: a espessura � de um conjunto é essencialmente a medida de quão bem um conjunto pode ser aproximado por subespaços lineares de dimensão �nita. De�nição 50 (Hunt & Kaloshin, 1999) Seja X um conjunto compacto con- tido em H. Seja d(X; �) a dimensão mínima de qualquer subespaço de dimensão �nita V � H, tal que todo ponto de X está a � de V ; se tal V não existe, então d(X; �) =1. A espessura �(X) é de�nida por �(X) = lim sup �!0 log d(X; �) log (1=�) : Lema 51 (Hunt & Kaloshin, 1999) Seja X � H um conjunto compacto com dimensão fractal df (X) e espessura �(X). Então, �(X) � df (X). Assim como qualquer subconjunto de um espaço de dimensão �nita tem � = 0, Friz & Robinson (1999) observaram que df (X) pode ser arbritrariamente grande enquanto � = 0. 34 Finalmente, Hunt e Kaloshin (1999) provaram um teorema poderoso, ex- presso em termos de prevalência, que evidencia a importância da dimensão fractal �nita. Teorema 52 (Hunt & Kaloshin, 1999) Seja X � H um conjunto compacto com dimensão fractal df (X) e espessura � . Seja k > 2df (X) um inteiro e seja � um número real com 0 < � < k � 2df (X) k(1 + �(X)2 ) : (5.2) Então, para quase toda (no sentido de prevalência) aplicação linear limitada L de H em Rk, existe C > 0, ju� vj � C jLu� Lvj� ; para todo u; v 2 X: (5.3) Em particular, quase toda L é injetiva em X e L�1, restrita a L(X), é Hölder contínua com expoente �. Este resultado mostra que aplicações lineares, cuja inversa satisfaz��L�1x� L�1y�� � C jx� yj� ; para todo x; y 2 LX; forma um conjunto denso em L(H;Rk) para qualquer � no intervalo (5.2). Isto é, grande parte das aplicações lineares proporcionam um parametrização k- dimensional do atrator de dimensão fractal �nita. Observa-se, no entanto, que estas parametrizações são abstratas, pois não têm conexão alguma com o domínio físico. Friz & Robinson (1999) aplicaram a idéia de decomposição de Hunt & Kaloshin (1997) para o caso de dimensão in�nita. Corolário 53 (Friz & Robinson, 1999) Seja X um conjunto compacto con- tido no espaço de Hilbert H com dimensão fractal df (X) e espessura � . Se k > 2df (X) e � satisfaz 0 < � < k � 2df (X) k(1 + �2 ) ; então dada qualquer projeção ortogonal P0 de posto k, e � > 0, existe uma projeção ortogonal injetiva P, tal que ju� vj � C jPu� Pvj� ; para todo u; v 2 X; para algum C que depende de P e �, satisfazendo kP � P0k � �: 35 Apesar de todas as projeções serem Lipschitz contínuas, a continuidade da inversa dessa projeção é uma questão delicada. O expoente Hölder de P�1 depende de k e de �(A), o expoente de espessura de A. Friz & Robinson (1999) obtiveram um limite, para a constante de Hölder da inversa da projeção, que depende da suavidade das soluções no atrator. Um atrator é suave se for uniformente limitado em Hs, para todo s. Corolário 54 (Friz & Robinson, 1999) Se o atrator global for suave, então � = 0. Neste caso, a constante Hölder de P�1 em (8.1) simpli�ca, tal que para submersões em Rk consegue-se qualquer constante Hölder � satisfazendo � < 1� 2df (A)k . Obtêm-se, portanto, submersões interessantes quando o atrator consiste de funções suaves. Há, portanto, um progresso signi�cativo na tentativa de repro- duzir a dinâmica no atrator em um espaço de dimensão �nita. 5.2 Teorema de Extensão Considera-se o problema de determinar condições sob as quais uma função Lipschitz-Hölder contínua de um subconjunto de Rm em Rk pode ser estendida para uma função de Rm em Rk, com a mesma propriedade, preservando a constante de Lipschitz-Hölder. Seja X um subconjunto compacto Rm. Se existir um operador que estende funções de�nidas em X para funções de�nidas em Rm, deseja-se expressar suas propriedades de continuidade em termos de espaços de função. Os espaços de função mais apropriados para tal são aqueles envolvendo o módulo de continuidade, em particular os espaços Lipschitz. Um módulo de continuidade !(r) é uma função positivamente crescente de r, onde 0 < r <1. A função ! é regular, i.e., !(r)=r é crescente quando r tende a zero e !(2r) � c!(r), onde c é uma constante. O teorema a seguir garante que uma função contínua de�nida em um subespaço de Rm tem uma extensão contínua para todo Rm, com essencialmente o mesmo módulo de continuidade. Teorema 55 (Stein, 1970) Seja X um subconjunto compacto de Rm, e seja f uma função contínua de X em Rk tal que jf(x)� f(y)j � ! (jx� yj) ; (5.4) onde j:j é a norma euclidiana e ! é convexo: !(r + s) � !(r) + !(s): (5.5) 36 Então, f tem uma extensão contínua F : Rm ! Rk que satisfaz jF (x)� F (y)j � p k! (jx� yj) : (5.6) Prova. Seja !(r) = sup fx;y2X:jx�yj�rg jf(x)� f(y)j : Veri�ca-se que ! está bem de�nido para uma função contínua em um conjunto compacto. A propriedade de convexidade necessária é satisfeita. Segue de (5.4) que jfj(x)� fj(y)j � ! (jx� yj) ; (5.7) para cada componente de f . Estende-se cada componente preservando essa propriedade. Então, os combinando, obtém-se a extensão de f . Determina-se Fj(y) = sup x2X [fj(x)� ! (jx� yj)] : Primeiro, nota-se que, se x; y 2 X, então Fj(x)� Fj(y) + ! (jx� yj) � jfj(x)� fj(y)j � ! (jx� yj) � 0; e logo Fj(y) = fj(y). Para mostrar (5.6), usa-se (5.5), Fj(y)� Fj(z) = sup x2X [fj(x)� ! (jx� yj)]� sup w2X [fj(w)� ! (jw � zj)] � sup x2X [fj(x)� ! (jx� yj)]� fj(x) + ! (jx� zj) � sup x2X [! (jx� zj)� ! (jx� zj)] � ! (jz � yj) : Portanto, (5.7) vale para cada Fj . Combinando essas desigualdades, se obtém (5.6) para F . 5.3 Submersão da Dinâmica sem Unicidade Um conjunto �nito de equações diferenciais ordinárias,com dimensão com- parável à do atrator global, reproduz a dinâmica no atrator global. No entanto, essas equações diferenciais ordinárias não têm solução única e, conseqüente- mente, não geram um sistema dinâmico nem possuem um atrator correspon- dente. 37 Teorema 56 (Robinson, 2001) Seja S(t) um semigrupo gerado pela equação diferencial parcial du dt = F (u); (5.8) onde F (u) é (Hölder) contínua de A em H (com expoente Hölder �). Suponha que S(t) tem um atrator global A, com df (A) < d. Então, para qualquer k � 2d+ 1, existem um sistema de equações diferenciais ordinárias em Rk, dx dt = f(x); (5.9) onde f : Rk ! Rk é (Hölder) contínua, e uma aplicação linear limitada L : H ! Rk; que é injetiva em A, tal que para cada solução u(t) de (5.8) com u(t) 2 A, existe uma solução x(t) de (5.9), tal que u(t) = L�1[x(t)]: (5.10) Prova. O Teorema 48 de parametrização do atrator garante que existe uma aplicação linear limitada L de H em Rk, que seja injetiva em A e possua inversa contínua em LA. Considera-se a equação diferencial ordinária para x 2 LA obtida da equação em A, _x = LF (L�1x); x 2 LA: A função ~f : L A ! Rk de�nida por ~f(x) = LF (L�1x) é contínua. Se F é Hölder contínua, então ~f também o é. Utiliza-se (5.3),��� ~f(x)� ~f(y)��� = ��LF (L�1x)� LF (L�1y)�� (5.11) � kLkop ��F (L�1x)� F (L�1y)�� � K kLkop ��L�1x� L�1y��� � CK kLkop jx� yj �� . O Teorema 53 é usado para estender ~f para uma função f : Rk ! Rk que é Hölder contínua e limitada. Logo, é obtido um sistema de equações diferenciais ordinárias _x = f(x); x 2 Rk; (5.12) onde f é uma função Hölder contínua. As soluções desse sistema existem para todo tempo, pois f(x) é limitado globalmente. 38 Entretanto, as soluções de (5.12) podem não ser únicas, visto que f é apenas Hölder contínua e não Lipschitz. No entanto, pela construção, uma das soluções de (5.9) passando por x0 = Luo, com u0 2 A, é x(t) = Lu(t). Este fato garante (5.10). Como freqüentemente F (u) contém um termo Au, não limitado em H, não é razoável esperar que F seja contínua de H em H. Observa-se que LA é "fracamente invariante", no sentido de que, para qualquer condição inicial x0 2 LA, não é garantido que x(t) permaneça em LA, mas pelo menos uma solução x(t; x0) permanece em LA. Portanto, trabalha-se obrigatoriamente com o �uxo em LA, cujo campo vetorial não é Lipschitz contínuo. Tenta-se estender ~f para um campo vetorial em RD de tal forma que as soluções sejam únicas, logo as propriedades ruins de ~f em LA são um problema constante. Uma elaborada construção permite projetar a equação de evolução (5.8) em X em um sistema de equações diferenciais ordinárias em um espaço euclideano. A �m de analisar a dinâmica induzida em LA, deseja-se substituir o operador não-linear F (u) por outro operador não-linear de�nido em LA. Eden et al (1994) obtêm um sistema diferencial _x = F(x) = ��(x� �(x)) + ~f(�(x)); (5.13) para o qual X = LA é o atrator exponencial, com taxa de atração �, e no qual as dinâmicas estão de acordo com aquelas projetadas de A. A função ~f : X! Rk é de�nida por ~f(y) = LF (L�1y). A função � leva qualquer ponto x 2 Rk em um dos pontos y 2 X tal que jx� yj = dist(x;X): Observa-se que os pontos de continuidade de � formam um subconjunto de Rk que consiste de todos os pontos cuja distância a X seja alcançada por um único y em Rk: Conclui-se que o primeiro termo de (5.13) obriga X a ser atrator e o segundo termo reproduz a dinâmica em A. No entanto, a função F não necessita ser contínua, logo (5.13) não gera um sistema dinâmico no sentido clássico. Portanto, as soluções do sistema de equações diferenciais ordinárias (5.13) são obtidas resolvendo a equação integral correspondente: x(t) = x0 + Z t 0 F(x(s))ds: As soluções são apenas Lipschitz contínuas e satisfazem as equações diferenciais ordinárias para quase todo tempo. É possível provar que as soluções existem 39 globalmente no tempo e que são atraídas exponencialmente para X. Logo, a informação sobre a equação diferencial em Rk não garante a unicidade das soluções diferenciáveis, nem em X. Nota-se, �nalmente, que a situação não é ideal, pois a falta de unicidade propicia todo tipo de patologia. 40 6 Propriedades Topológicas do Atrator Global A construção de um sistema suave de equações diferenciais ordinárias, que possua um conjunto arbitário como atrator, apresenta problemas topológicos. Um conjunto homeomorfo à n-esfera, por exemplo, não pode ser o atrator de um �uxo suave. Nesta Seção, caracteriza-se os atratores globais topologicamente. De�nição 57 (Garay, 1991) Um subconjunto A de H se assemelha a um ponto se H n A é homeomorfo a H n f0g. Teorema 58 (Klee, 1956) Suponha que H seja um espaço de Hilbert de di- mensão in�nita e A é um subconjunto compacto de H. Então, existe um homeomor�smo de H n A em H. Com efeito, Klee (1956) provou que, para espaços de Hilbert H de dimensão in�nita, H n f0g é homemorfo a H e que qualquer conjunto compacto A se assemelha a um ponto. De�nição 59 (Mc Coy, 1973) Um subconjunto A de H é negligenciável, se H n A é homeomorfo a H. Logo, em dimensão in�nita, a propriedade de se assemelhar a um ponto em H é equivalente à propriedade de ser negligenciável em H. Observa-se que o resultado de Klee (1956) é valido mesmo se A não for conexo. Se A é um atrator global, ele é conexo pela teoria clássica já discutida. Além disso, Mc Coy (1973) provou que qualquer conjunto que se assemelha a um ponto é conexo. O próximo teorema prova que, em sistemas de equações diferenciais or- dinárias de dimensão �nita, o atrator global X se assemelha a um ponto, isto é, existe um homeomor�smo de RN nX em RN n f0g. Teorema 60 (Bhatia & Szegö, 1967) Seja X � RN um atrator de um sis- tema dinâmico em RN . Então, X é conexo e se assemelha a um ponto, isto é, existe um homeomor�smo de RN nX em RN n f0g. A caracterização do atrator global é mais delicada em um espaço de Hilbert de dimensão de in�nita. Várias noções topológicas são utilizadas para encontrar um resultado semelhante ao teorema de Bhatia e Szegö (1967) para sistemas com dimensão in�nita. Algumas técnicas da teoria da forma, shape theory, são empregadas. Destaca-se, portanto, algumas relações entre a teoria da forma e a 41 estrutura dos atratores, sugerindo uma interessante relação entre esta teoria e sistemas dinâmicos. Borsuk (1968) introduziu a teoria da forma quando buscava compreender os espaços métricos compactos de dimensão �nita, i.e., os compacta, e classi�car algumas propriedades da homotopia global de compacta arbitrários. Borsuk (1970) relaciona a noção de forma de um compactum com outras propriedades topológicas. Chapman (1972a) descreveu a noção de forma de um conjunto como equiva- lente ao estudo do complemento do conjunto. Se Q é o cubo de Hilbert [0; 1]1 e ! é o seu pseudo-interior (0; 1)1, dois espaços métricos compactos de dimensão �nita X e Y têm a mesma forma, Sh(X) =Sh(Y ) se, e somente se, existir um homeomor�smo de Q n bX em Q n bY , onde bX e bY são imagens homeomorfas de X e Y em !. Conseqüentemente, espaços com formas equivalentes apresentam semelhanças topológicas globais. Chapman (1972b) caracterizou a forma de espaços métricos compactos de dimensão �nita em termos de submersões no espaço euclideano RN . A teoria da forma complementa a topologia algébrica para espaços métricos compactos. Utilizam-se algumas técnicas da teoria da forma para obter resul- tados interessantes em sistemas dinâmicos. O seu objetivo é o mesmo da teoria de homotopia, o estudo de propriedades topológicas globais dos espaços. No entanto, a teoria de homotopia não é apropriada para o estudo de atratores, pois estes podem ter um comportamento topológico local complicado. Hastings (1978) foi o primeiro a notar as vantagens de utilizar a teoria da forma para estudar sistemas dinâmicos. Esta teoria suaviza patologias locais enquanto preserva propriedades de submersão globais. Hastings (1979) desen- volveu um teorema análogo ao de Poincaré-Bendixsonno espaço euclideano n- dimensional, usando a teoria da forma. O potencial desta teoria foi aproveitado por Garay (1991), que caracterizou as formas dos espaços métricos compactos em termos de submersões no espaço euclideano n-dimensional. Teorema 61 (Garay, 1991) Em dimensão in�nita, (i) Um atrator global tem a forma de um ponto. (ii) Qualquer conjunto com a forma de um ponto é o atrator global de algum sistema dinâmico de dimensão in�nita. Günther & Segal (1993) mostraram que qualquer conjunto que se assemelha a um ponto é atrator de algum sistema dinâmico em RN , mas não necessariamente 42 de um sistema de equações diferenciais ordinárias. À primeira vista, imaginar- se-ía que todo atrator global A seria um retraimento. De�nição 62 (Dold, 1972) Seja A � H. Então, A é um retraimento de H se existir uma função contínua r : H ! A, tal que r (a) = a, para cada a 2 A. Qualquer função r com esta propriedade é chamada de uma retração de H em A. No entanto, existem atratores globais que não são retraimentos do espaço de fase. Günther & Segal (1993) ressaltaram que existem espaços métricos compactos A de forma trivial, tal que qualquer componente do caminho de A consiste de um só ponto. Um exemplo é o pseudoarco, estudado por Moïse (1948). Hocking & Young (1961) descreveram bem este célebre continum in- decomponível. Tal espaço métrico compacto pode ser um atrator global, mas todo �uxo em A é necessariamente estacionário. Finalmente, observa-se que o pseudoarco não é um retraimento de H. O estudo de sistemas (semi)dinâmicos com conjuntos compactos, não-vazios, invariantes e globalmente assintoticamente estáveis é um dos principais assuntos de dinâmicas topológicas em dimensão in�nita. Neste Seção, desenvolve-se uma caracterização topológica dos atratores globais para sistemas semidinâmicos em espaços de Hilbert. Seja H um espaço de Hilbert. Denotam-se B(0; r) e @B(0; r) a bola fechada e a esfera de raio r centrada na origem. De�nição 63 (Mc Coy, 1973) Um subconjunto fechado C de um espaço de Hilbert H é chamado de célula se existir um homeomor�smo de B(0; 1) em C, tal que @B(0; 1) seja levado em @C. Teorema 64 (Mc Coy, 1973) Seja C uma célula em H, e seja f um home- omor�smo de B(0; 1) em C, tal que @B(0; 1) é levado em @C. Então, existe um homeomor�smo h de H nele mesmo, tal que h jB(0;1=2)= f jB(0;1=2) : De�nição 65 (Mc Coy, 1973) Um subconjunto A de H é chamado celular se existe uma seqüência celular para A, i.e., uma seqüência decrescente fCng1n=1 de células em H tal que 1[ n=1 Cn = A e Cn+1 � int(Cn), para cada n 2 N. 43 Em espaços de dimensão �nita, Brown (1960) mostrou que conjuntos celu- lares são equivalentes a conjuntos conexos, que se assemelham a pontos. No entanto, este fato não ocorre em dimensão in�nita. Teorema 66 (Mc Coy, 1973) Se H é um espaço de Hilbert de dimensão in- �nita, então um subconjunto A de H é celular se e somente se A é fechado e se assemelha a um ponto em H. De�nição 67 (Mc Coy, 1973) Um subconjunto A de H é chamado forte- mente celular se existe uma seqüência celular fCng1n=1, com a propriedade adicional de, para cada conjunto aberto U em H contendo A, existe um inteiro n tal que Cn � U . A celularidade é equivalente à celularidade forte, em espaços de dimensão �nita. Entretanto, essas propriedades não são, em geral, equivalentes. De fato, subconjuntos fortemente celular são compactos e conexos. Teorema 68 (Mc Coy, 1973) Todo conjunto fortemente celular em H é um compactum que se assemelha a um ponto, no sentido de Borsuk (1970). Por outro lado, sabe-se que subconjuntos compactos do espaço de Hilbert H de dimensão in�nita se assemelham a um ponto e são conexos. A estrutura topológica do atrator global pode, em alguns casos, ser deduzida da construção feita na Seção 2. Em (2.17), obtém-se que A = 1\ n=1 S(nT )B; para qualquer conjunto absorvente B e qualquer T > 0. Como A é limitado, B(0; R) é um conjunto absorvente para algum R. Se T é o tempo necessário para B(0; R) absorver B(0; 2R), então A = 1\ n=1 Cn; (6.1) com Cn = S(nT )B(0; R) uma seqüência de conjuntos satisfazendo Cn+1 � int(Cn): (6.2) Para cada � > 0, existe um n0 tal que C0 � N(A; �): (6.3) 44 Se, além disso, o �uxo tem a propriedade de injetividade, então para cada n, existe um homeomor�smo hn que leva (Cn; @Cn) em (B(0; 1); @B(0; 1)): (6.4) Como A satisfaz (6.1)�(6.4), A é fortemente celular. Alguns resultados da topologia em dimensão in�nita são, então, utilizados. Em dimensão in�nita, atratores globais de semi�uxos são fortemente celu- lares, mesmo se a propriedade de injetividade não se veri�car. As propriedades da submersão de A no espaço euclideano de dimensão �nita são essenciais, se A tem dimensão �nita. Prova-se, então, que a propriedade topológica de ser fortemente celular é invariante sob submersões lineares em espaços de dimensão �nita. Teorema 69 (Robinson, 2001) Suponha que A é fortemente celular e que L : H ! Rké linear e injetiva de A na sua imagem X = LA . Então, X é um subconjunto fortemente celular de Rk. Em particular, existe um homeomor�smo h : Rk n f0g ! Rk nX tal que, para cada n 2 N, h leva Rk n B(0; 2�n) em Rk n Cn (6.5) e @B(0; 2�n) em @Cn: Este teorema prova que a celularidade forte caracteriza completamente a topologia dos atratores globais de semi�uxos em espaços de dimensão in�nita e de �uxos em espaços de dimensão �nita. Conseqüentemente, demonstra-se a existência de um sistema dinâmico cujo atrator é um conjunto fortemente celular. Teorema 70 (Garay, 1991) Se X � Rk é fortemente celular, então existe um sistema dinâmico '(t;x) em Rk para o qual X é um atrator consistindo inteiramente de pontos �xos. Prova. Por hipótese, X é fortemente celular em Rk, logo existe um homeomor- �smo como em (6.5). De�ne-se an = 2�n, n 2 N e S = @B(0; 1). O homeomor�smo h é uniformemente contínuo no conjunto fechado [an+3; an]� S. Logo, para todo n 2 N, existe bn tal que jh(�s)� h(�s)j � an (6.6) quando �, � 2 [an+3; an], j�� �j < bn e s 2 S. Sem perda de generalidade, assume-se que bn+1 � bn e que bn � an. 45 De�ne-se T0 = 0 e Tn = nX j=1 1 bj�1 : Como fbng é decrescente, tem-se que Tn ! 1 quando n ! 1. De�ne-se uma função escalar m : R! (0; 1] por m(t) = ( 1� t; t � 0; an � 1� 12 (t� Tn) bn � ; Tn < t � Tn+1: Observa-se que m(0) = 1 e m(Tn) = an. Obtém-se que m(t) converge para 0, quando t!1, de tal forma que diminui o su�ciente para compensar as grandes mudanças em h(s), quando s! 0. Utiliza-se m(t) para de�nir um sistema dinâmico �(t;x) em Rk n f0g, �(t;x) = m(t+ s)x quando y = m(s)x; para algum x 2 S: Usando �, de�ne-se o sistema dinâmico '(t;x) em Rk por '(t;x) = ( h � � � t;h�1 (x) � ; x 2 Rk nX x; x 2 X: A função ' é contínua longe de X. Como � é um sistema dinâmico, ' satisfaz a propriedade de unicidade. '(t;'(s;x)) = h � � � t;h�1 � h � � � s;h�1 (x) ��� = h � � � t;� � s;h�1 (x) �� = h � � � t+ s;h�1 (x) � = '(t+ s;x). Falta mostrar que '(t;x) é contínua para todo (t; z) com z 2 X. Assume-se que x 2 Cn+1 n Cn+2. Então, h�1(x) = m(s)�, para algum � 2 S, e m(s) 2 [an+2; an+1] : Se jtj < 1an , então jtj < 1 bn , logo m(t+ s) 2 [an+3; an] : (6.7) Como jtj < 1an , usando a de�nição de m(t), tem-se que jm(t+ s)�m(t)j < bn: (6.8) 46 Sabe-se que � � t;h�1 (x) � = � (t;m(s)�) = m(t+ s)�: Graças a (6.7), (6.8) e (6.6), j'(t;x)� xj = ��h � � �t;h�1 (x)�� h �h�1 (x)��� � jh (m (t+ s) �)j � an; quando x 2 Cn+1 n Cn+2 e jtj < 1an . Como fang é decrescente, obtém-se que j'(t;x)� zj � j'(t;x)� xj+ jx� zj � ak + jx� zj ; quando z 2 X, x 2 Ck+1 e jtj < 1ak . Observa-se que conjunto X é um atrator por construção. Corolário 71 (Robinson, 2001) Se X é um subconjunto fortemente celular de Rk, então existe uma aplicação �: Rk ! Rk para o qual X é um atrator, e �(x) = x para todos x 2 X. Prova. Basta de�nir �(x) = '(1;x) no teorema acima para provar este corolário. Para garantir que a submersão '(A) de A em RN é um atrator de um sistema de equações diferenciais ordináriasde dimensão �nita, são necessárias outras condições além deX = '(A) ser conexo, tal que RN nX seja homeomorfo a RN nf0g. Chapman (1972b) foi o primeiro a analisar a submersão do atrator de dimensão �nita em um espaço euclideano de dimensão �nita, grande o su�ciente. Seu resultado, no entanto, não é su�cientemente geral. Deseja-se obter para qualquer conjunto que é submergido em RN por uma projeção ortogonal, por exemplo, um homeomor�smo interessante envolvendo o complementar da submersão. Utilizando resultados de Borsuk (1969, 1970), Geoghegan & Summerhill (1973) deram condições explícitas para a submersão de um conjunto em RN para que exista tal homeomor�smo. Busca-se, então, produzir um conjunto de equações diferenciais ordinárias, com X = '(A) como atrator. Considera-se para tal a submersão ', dada pelo teorema de Geoghegan & Summerhill (1973), de um atrator global de dimensão �nita em RN , com N � [2d+ 2]. A partir dos estudos de Bogatyj & Gutsu (1989) e Garay (1991), Günther & Segal (1993) construiram um �uxo, não necessariamente diferenciável, em 47 um espaço euclideano com um atrator homeomorfo ao atrator A de um sistema dinâmico. Finalmente, Günther (1995) mostrou que esse �uxo pode ser diferenciável de classe Cr, com r arbitrariamente grande. Produz-se, portanto, um sistema de equações diferenciais ordinárias _x = �r�(x); x 2 RN ; (6.9) onde � = 0; r� = 0; em X e � > 0; r� 6= 0; em RNnX; cujo atrator global é X = '(A). Observa-se, no entanto, que as dinâmicas em X são triviais. Denota-se o operador de solução deste sistema �, tal que x(t;x0) = �(x0): Corolário 72 (Robinson, 1999) Se A é o atrator global de um sistema dinâmico no espaço de Hilbert H, com dH(A) <1, então existe uma equação diferencial ordinária de dimensão �nita com o atrator global X homeomorfo a A. Por outro lado, se X é um atrator global de um sistema �nito de equações diferenciais ordinárias, então existe um sistema dinâmico de dimensão in�nita em H com o atrator global A homeomorfo a X : Prova. Se A tem dH(A) � d, então existe uma submersão ' em R[2d+1], descrita por Geoghegan & Summerhill (1973), tal que X = '(A) seja o atrator global em R[2d+2] para o sistema de equações diferenciais ordinárias (6.9). Por outro lado, se X é um atrator global em RN , então X tem a forma de um ponto. Graças a Mc Coy (1973), qualquer imagem (X) em H, A, tem a forma de um ponto. O resultado de Garay (1991) garante, portanto, a existência de um sistema dinâmico de dimensão in�nita em H cujo atrator global é A. Se é Lipschitz contínua, então dH(A) � N . Portanto, a topologia dos atratores globais e os teoremas de submersão topológicos mostram que toda a informação topológica dos atratores globais pode ser obtida a partir de um sistema �nito de equações diferenciais ordinárias. 48 7 Sistema Dinâmico Discreto de Dimensão Finita A construção de um sistema de equações diferenciais ordinárias em Rk, cujo atrator global seja X = LA, onde L é uma aplicação linear limitada de�nida em A, se depara com algumas di�culdades. O fato de a função ~f : X!Rk, de�nida por ~f(y) = LF (L�1y), ser apenas Hölder contínua di�culta a tentativa de estender ~f para um campo vetorial em todo Rk com solução única. Portanto, apresenta-se um teorema que garante a existência de um sistema dinâmico discreto em Rk que reproduz a aplicação de tempo T , S(T ), em A e possui um atrator global arbitrariamente perto de X. Teorema 73 (Robinson, 2001) Suponha que A tem dimensão fractal, df (A), menor que um inteiro d. Então, dados T > 0 e � > 0, para qualquer k � 2d+1, existem uma aplicação linear limitada L : A ! Rk, injetiva em A, e uma aplicação contínua f de Rk nele mesmo, tal que se X = L A, então (i) a dinâmica em A e em X são conjugadas sob L : f jX= L � S(T ) � L�1; e (ii) o sistema dinâmico discreto gerado por f , ffng, possui um atrator global Xf que satisfaz Xf � N(X; �); e tem X como um conjunto invariante. Prova. Primeiro, utiliza-se o Teorema 48 para encontrar uma aplicação linear L : H ! Rk tal que L seja injetiva em A. Seja X = LA. Seja � a aplicação em Rk do Corolário 71. Sabe-se que X é o atrator global do sistema dinâmico em Rk, gerado por iterações de �. Logo, dado � > 0 existe � > 0, tal que se x 2 N(X; �); então �j(x) 2 N(X; �); para todo j � 0: (7.1) Usando a continuidade uniforme de L em um conjunto compactoA, encontra- se � > 0 tal que se ju� vj � �; u; v 2 A; então jL(u)� L(v)j � � 2 : 49 A seguir, um inteiro M é escolhido tal que����S � TM � u� u ���� � �; u 2 A: Considera-se aplicação ~g : X ! X de�nida por ~g = L � S � T M � � L�1. Como M foi escolhido de tal forma que����S � TM �� L�1(x) � � L�1(x) ���� � �; x 2 X; a continuidade uniforme de L implica que����L � S � TM � � L�1(x)� x ���� � �2 ; x 2 X: Logo, o homeomor�smo ~g satisfaz j~g(x)� xj � � 2 ; para todo x 2 X. De�ne-se a função p1(x) = ( ~g(x)� x; x 2 X 0; x =2 N � X; �2 � : Como esta função está de�nida em um conjunto não compacto, estabelece-se a função ~p1(x) = ( ~g(x)� x; x 2 X 0; x 2 @N � X; �2 � : Usando o Teorema 55, encontra-se a extensão ~p2 da função ~p1. Então, de�ne-se p2(x) = ( ~p2(x); x 2 N � X; �2 � 0; x =2 N � X; �2 � : Seja � : [0;1)! [0; 1] uma função contínua que satisfaz �(r) = ( 1; 0 � r � 1 0; r � 2 : Finalmente, de�ne-se uma extensão p(x) = p2(x)� jp2(x)j � 4 ! 50 da função p1(x), com jp(x)j � �2 , para todo x 2 X. Conseqüentemente, estende-se a função ~g para um homeomor�smo g(x) = x + p(x), que é igual a ~g em X, e é a identidade fora de N � X; �2 � . A função g tem a propriedade se x 2 N � X; �2 � , então g(x) 2 N (X; �). Considera-se h(x) = gM (x), tal que h(x) = ( L � S (T ) � L�1(x); x 2 X x; x =2 N � X; �2 � : A função h tem propriedades similares a g, tal que se x 2 N � X; �2 � , então h(x) 2 N (X; �). A seguir, de�ne-se o homeomor�smo f de Rk nele mesmo, como a composição de h com �, f = � � h: Como � é a identidade em X, então f jX= L � S(T ) � L�1: Além disso, h é a identidade em Rk nN � X; �2 � , logo f jRknN(X; �2 )= �: Este fato garante que N (X; �) seja um conjunto absorvente para o sistema dinâmico discreto ffng, pois f = � até a trajetória entrar em N � X; �2 � . A partir daí, as iterações sob f 6= � ou permanecem em N � X; �2 � ou vazam para N (X; �). Como f = � neste domínio, as iterações sob f permanecem em N (X; �) devido a (7.1). Portanto, o atrator global Xf desse sistema dinâmico pertence a N(X; �). Finalmente, observa-se que X é invariante e que X � Xf . Nota-se que o teorema acima pode ser generalizado para projeções ortogo- nais, utilizando o teorema de Mañé (1981), Foias e Olson (1996) e o teorema de Geoghegan e Summerhill (1973). Este último garante que a projeção ortogonal P é uma submersão pseudo-poliedral. Usando o mesmo argumento, é construído um sistema dinâmico discreto em Rk, onde k � [2df (A) + 1]. A dinâmica no atrator global pode ser submersa em um sistema dinâmico discreto, cujo atrator global seja arbitrariamente perto do atrator original. Este resultado promove importantes avanços no estudo computacional de equações diferenciais parciais. 51 8 Conclusão O comportamento a longo prazo de equações diferenciais parciais dissipa- tivas é caracterizado pela presença de um atrator global para o qual todas as trajetórias convergem. Estes atratores têm dimensão fractal �nita apesar do espaço de fase ser um espaço de Hilbert de dimensão in�nita. Para reproduzir a dinâmica no atrator em um sistema de dimensão �nita, busca-se submergí-lo adequadamente em um espaço de dimensão �nita. A teoria de variedades inerciais, desenvolvida por Foias et al (1988) e Temam (1988), reduz a dinâmica assintótica para um sistema de dimensão �nita de equações diferenciais ordinárias, a chamada forma inercial. No entanto, as condições necessárias para aplicar esta teoria são muito restritivas, excluindo até o momento, por exemplo, a equação de Navier Stokes bidimensional. A utilização da variedade inercial forneceuma solução indireta, que depende essen- cialmente da existência de uma projeção com inversa Lipschitz contínua, quando restrita à imagem do atrator. Atualmente há duas abordagens mais diretas que usam o atrator global. A primeira busca construir um sistema de dimensão �nita que reproduz a dinâmica no atrator, aplicando a forma inercial sem utilizar a variedade inercial. Esta abordagem, no entanto, possui alguns problemas, como no trabalho de Eden et al (1994), onde a unicidade das soluções não é garantida, ou como no de Robinson (1999), que se restringe ao caso de tempo discreto. Ambos os artigos rea�rmam a necessidade de projetar o atrator em algum espaço de dimensão �nita com inversa suave. A segunda abordagem não fornece informações sobre a dinâmica em si, mas sugere a existência de um sistema de dimensão �nita, tal que o atrator seja parametrizado por um conjunto �nito de coordenadas. Desde o trabalho de Mañé (1981), esta teoria foi desenvolvida por Eden et al (1994), Foias & Olson (1996) e Hunt & Kaloshin (1999), fazendo uso de parametrizações abstratas cujos parâmetros não correspondem a nenhuma quantidade física. Portanto, a existência de atratores em espaços de fase abstratos não esclarece muito as situações físicas originais que os modelos supostamente representam. É necessária uma maneira de deduzir conseqüências físicas de suas existências, para que tais atratores não permaneçam meras curiosidades matemáticas. Ao analisar dados experimentais, busca-se um sistema modelo com o grau de liberdade mínimo necessário para que represente a dinâmica no atrator. Sob certas condições, Takens (1981) mostrou que, repetindo a mesma observação 52 em uma série com os tempos espaçados igualmente, a dinâmica de um sistema de dimensão �nita se reconstrói. No caso de dimensão in�nita, Titi provou que é impossível obter o mesmo resultado. Entretanto, Robinson (2001a) deduziu uma versão parecida com o teorema de Takens (1981) e provou, para a equação de Navier-Stokes em duas dimensões, que um conjunto �nito de observações pontuais determina completamente a dinâmica. Este resultado, sem dúvida, é signi�cativo para a análise numérica de sistemas modelados por equações dissipativas. A partir da existência de um atrator global de dimensão �nita, consistindo inteiramente de funções analíticas, Friz & Robinson (2001) mostraram que, para a equação de Navier-Stokes, um número �nito de observações pontuais determinam completamente o �uxo não-autônomo de um �uido. Kukavica & Robinson (2004) mostraram que um número �nito de medições em um número pequeno de pontos são su�cientes para distinguir diferentes elementos do atrator. Finalmente, provaram uma versão em dimensão in�nita do teorema de submer- são com time-delay de Takens (1981) tanto para a equação de Ginzburg-Landau complexa unidimensional quanto para a equação de Kuramoto-Sivashinsky. Há, portanto, um desenvolvimento de novos instrumentos matemáticos, ad- equados ao estudo do comportamento assintótico de soluções de equações difer- enciais parciais dissipativas. A existência, sob certas restrições, de uma parame- trização baseada no domínio físico, ao invés do espaço de fase, faz-se necessária, para que se possa deduzir do sistema dinâmico abstrato conseqüências válidas no domínio físico original. Questiona-se, desta forma, se o estado de um sistema pode ser determinado completamente a partir de observações experimentais. Por conseguinte, é indispensável se concentrar nas implicações físicas diretas da existência de atrator global de dimensão �nita, a �m de aproveitar ao máximo a abordagem qualitativa de sistemas dinâmicos em problemas de dimensão in�nita. 53 Referências R. A. Adams (1975) Sobolev Spaces (Academic Press, New York). A. V. Babin & M. I. Vishik (1983) Attractors of partial di¤erential equations and estimates of their dimension, Russ. Math. Surv. 38, 151-213. A. V. Babin & M. I. Vishik (1992) Attractors of Evolution Equations (North- Holland, Amsterdam). A. Ben-Artzi, A. Eden, C.Foias & B. Nicolaenko (1993) Hölder continuity for the inverse of Mañé�s projection, J. Math. Anal. Appl. 178, 22-29. N. P. Bhatia & G. P.Szegö (1967) Dynamical Systems: Stability Theory and Applications, Springer Lecture Notes in Mathematics Volume 35 (Springer- Verlag, Berlin). S. A. Bogatji & V. L. Gutsu (1989) On the structure of attracting compacta, Di¤. Urar. 25, 907-909. K. 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