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~ ~ MOTIVAÇAO E EMOÇAO
IUM C• A H-lflJ UA-
tn~po
Ect.10t;..I -------------
Nidun.>
O GEN J Grupo Editorial Nacional - n1aior plataforn1a editorial brasllelra no segn1ento
cientlfico, téalico e profissional - publica conteúdos nas áreas de ciências humanas, ex.atas.
jurldicas, da saúde e sociais aplicadas, além de prover serviços direcionados à educação
continuada e à preparação para concursos.
As editor-.is que integram o GEN, das mais respeitadas no 01ercado editaria~ conmuíram
catálogos inigualáveis. com obras decisivas para a formação acadêmica e o aperfeiçoamento
de várias gerações de profissionais e estudantes, tendo se tornado sinôn.in10 de qualidade
e seriedade.
A niissão do GEN e dos núcleos de conteúdo que o compõern é prover a 1nelhor informa-
ção cientllica e disrribuJ-la de maneira flexível e con\'l'Diente, a preços justos, gerando
beneficias e servindo a autores, docentes. livreiros, fundonârios. colaboradores e acionistas.
Nosso comportamento ético !ncondlcionaJ e nossa responsabilidade social e ambiental
são reforçados pela natureza educacional de nossa atividade e dão sustentabilidade ao
crescimento continuo e à rentabilidade do grupo.
QUARTA EDIÇÃO
,..., ,...,
MOTIVAÇAO E EMOÇAO
JOHNMARSHALL REEVE
u ,,iversity o/ Iowa
Tradução
Luís Antônio Fajardo Pontes
Mestre em Educ-.i~o pela Uni,-er..idade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
Stella Machado
Pós-graduação e Especialização cm lnglês-T raduç-jo
Universidade FcderJI de Juiz de Foru (UFJF)
Revisão Técnica
Maurício Canton Bastos
Doulor em Psicologia pela Uni ver~id.Jde Federal do Rio de Janeiro ( UFRJ)
Professor do Curso de Psicologia da Universidade Estácio de Sá (UNESA)
Professor do Curso de Psicologia d.! Universidade Veiga de Almeida (UVA)
Nei Gonçalves Calvano
Doulorem Psicologin pela Univcrsid.Jdc Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Anteriormente Professor Adjunto do Institulo de Psicologia d.! Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Coordenador do Curso de Psicologia da Universidade Estáeio de Sá (UNESA)
O autor e a editora eropenh3ram-se pál'II citar adeqwidúmente e dar o devido credito n todos
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de edições futuros. Os 001nent.1nos dos leitores podein ser encwninhado6 à LTC - Lin-os
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UNDERSTANDING MarJVATION ANO 8.1ITTION. Fourlb Edilion
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publi,hed by John Wiley & S011>, Joc.
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Editoruç3o Elell'Ônic~ UNtO~ TASK
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIO:--IAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.
R257m
Reeve, Johnmarshall
Motivaçoo e l!DIOÇilo / Johnman.hall Re<!ve : traduçllo Luís Antônio Faj:irdo Puntes. SteUa
Machado : revi,llo técnica Maurício Canton Bastos. Nei Gonçalves Calv311o. - [Reimpr.t .
• Rio de Jnneiro : LTC, 2019.
Traduç1io de: Underswnding ,110ti,1ation and e,notion. 4th ed
lndui bibliografia
ISBN 978-SS-216-149-1-4
1. ~1otiwção (Psicologia). 2. En10Çõe.. 3. Per..onalidade e emoçllo. • • Personalidade e
nlOlivaçllo. L Tflulo.
06-1701. CDD 153.8
CDU 159.947
PREFÁCIO
Bem-vindo à idade de ouro da moúvação e da emoção. Jamai,,
nos seus 100 anos de estudo fonnul, essa área foi mais interes-
sante do que boje. Todos os meses. aparecem novas e importantes
descobertas nos periódicos acadêmicos e muitas delas encontram
acolhida na imprensa popular. Todos os anos, novos acadêmicos
unem-se ao que já foi estudado em lermos de moúvaç-:io e emo-
ção. Assim sendo, há mais pessoas interessadas em compreender
a moúvação e a emoção, e o que elas estão descobrindo vem se
moslrJndo de interesse e importância na vida da.~ pc.-.soa.~.
Não era o que acontecia apenas vinte anos atrás. O campo
estava estagnado. Mas alguma coisa mudou nos anos 1990. Apa-
receram idéias criaúvas, surgiram novas teorias, as aplicações de
mudança de vida tomaram-se óbvias e proliferou o número de
pessoas intert.-ssndas cm compreender e aplicar a moti\,:ição e a
emoção. Toda essa atividade produziu uma quantid.1de enorme
de conhecimentos novos e esses avanços abrir.un novas áreas de
aplicnç-lo no lar, no trabalho. na práúca de esportes e exercícios
e na assi.~tência à saúde e ao bem-estar das pessoas. Lendo este
livro hoje. você está acompanhando a onda intelectual do que foi a
explosão do novo interesse pelo estudo da motivação. Isto significa
que este é o melhor momento possível p:ira se fat.er um curso de
mot:ivaçãoecmoç.lio. Se você tivesse feito esse mesmo curso há 10
ou J 5 anos, a área não lhe teria oferecido material tão interessante
e tão significativo como agora. Espero que e~te livro ajude você a
identificm:. nessa área, aquilo que tllllto nos entusiasma.
Neste livro você encontrará algumas das informações mais
úteis cm psicologia e na vida. A moúvação trata doi. esforçoi..
das vontades. dos desejos e das aspiraçõe., humanas - tanto as
buas como os esforços e a ,·ootade daqueles com quem você se
preocupa, como seus futuros alunos, empregados e seus próprios
filhos. O estudo da motivação diz respeito a todas as condições
que e:ú.~tcm dentro da pessoa e dentro do ambiente e da culturJ
que explicam "por que queremos o que queremos" e "por que
fazemos o que fazemos".
Até chegar ao fim do livro, espero que você se sinta à vontade
com o estudo da moti,,:ição cm dois níveis. Primeiro: na teoria.
a compreensão da moúv-Jçào e da emoção fornece respostas a
perguntas como: "Por que ela fez isso?", "Como isso funciona'?'"
e "De oade vem o sentido de 'querer'?". Segundo, na pr.ític-J,
a compreensão da motivação e da emoção fornece meios parJ
o desenvolvimento da nrte de motivar tanto a si mesmo como
aos outros. Cada capítulo procura fornecer respostas concrel::ts
a pergunta.s como: "Como motivar a mim mesmo?" e ·'Como
moúvar os outros?"
Supus no leit.or algum conhecimento básico. t.al como um
curso de introdução à psicologia. O público-alvo do li,·ro são
alunos dos últimos períodos dos cursos de graduação do depar•
lamento de psicologia. Escrevo também para alunos de outras
disciplinas, principalmente porque as pesquisas sobre a motiva•
ção cm si alcançam muitus áreas de estudo e aplicação. Entre
ela., esuio as :irens de educação, saúde. aconselhamcnlo. clínica.
espo.rtcs. industrial/organizacional cdc negócios. O livro conccn•
lrJ•se na motivação humana. e •ão na n1olivação não-humana.
Inclui alguma, experiências em rJtos. cães, e macacos scrvirJID
como participantes na pesquisa, mas as i nformaçôcs respigadas
desses estudos são sempre enquadradas na a• áJisc da moúvação
e da emoção humanas.
O QUE HÁ DE NOVO NA QUARTA EDIÇÃO
O que há de novo na quarta ediçãoé também o que há de novo
no campo da motivação. Desde a terceira ediç1ío, o estudo da
moúvaç-:io veio se c.,pandindo. se diversificando e atraindo mui-
tos novos aliados. Es..~ c rescimento tem trazido consigo muita.,
novas perspecti,,:is teóricas e áreas de aplicação. A terceira edi-
ção destacou-se pelo número enorme de novas idéias que apre-
sentava, inclusive metas de realizações, esforços pessoais. tipos
de motivação extrínseca. intenções de implementação. capacita-
ç.lio pessoal. o inconsciente não-freudiano, e assim por diante. A
novidade na quarta edição é um esforço conjugado parJ expandir
mais essas idéias teóricas cm aplicaçÕC.\ práticas, especialmente
nas áreas de educação, trabalho. terapia, espones e em casa,
incluindo a criação de filhos.
Cada capítulo apresenta um boxe que aborda um interesse
esi,ecífico. Por exemplo, o boxe do Capítulo 3 usa as infonna-
çôes sobre o cérebro motivado e emocional para se compreen-
der como os medicamentos antidepressivos atuam para aliviar a
depressão. O boxe do Capítulo 8 usa informações sobre rncrn.s
para apresentar um programa progressh'O de estabelecimento de
metas que possam ser aplicada., a muitos objeti,'Os diferentes.
No fim de cada capítulo, apresentamos várias leituras recomen•
dadas. São arúgos que representam sugestões para estudos pos-
teriores. Selecionamos essa.~ lciturJS a p:lrtir de quatro critérios:
( 1) enfoque representando o que 6 mais importante no capítulo;
(2) tópico que: apela para um público amplo: (3) tamanho curto:
e (4) metodologia e anáJise de dados fáceis de ler.
AGRADECIMENTOS
Há muitas pessoas que falam através das páginas deste lh•ro.
Muito do que escrevemos surgiu de conversas com colegas e da
leilurn que fizemos de seus trabalhos. Recebemos ajuda de tantos
colegas que parece impossível agradecer aqui a todos. Mesmo
assim. gostaríamos de tentar.
Nossa primeira expressão de gratidão é parJ com todos os
colegas que. formal ou casualmente, intencional ou inadvertida-
mente. sabedores ou não. partilharam suas idéia., cm nossa., con-
versas: Roy Baumcsitcr. Daniel Bcrlyne. Virginia Blankenship,
Jerry Burgcr. Ste,•cn G. Cole. Mihaly C,ikszcntmihaJyi. Richard
dcCharms, Ed Dcci, Andrew Elliot. Wendy Grolnick. Alice lscn,
vi Prefácio
Carroll lzard, Richard Koestner. Randy Larsen. \Vayne Ludvig-
son, David McClelJand. Henry Newell, Glen Nix, Brad Obon.
Dawn Robinson, Tom Rocldin. Richard Ryan, Carl Rogcrs, Lynn
Smilh-Lovin. Richard Solomon. Silv:m Tornkins. Roben Valle-
rand e: Dan Wcgncr. Consideramos cada um dc.,;sc.s colaboradores
um colega. comungando interesses e divertindo-se no esforço de
compreender as lutas bUlllllll:is.
Nossa segunda cxprossiío de gr.iLidiio 6 para com aqueles que
eitplicitamcnte doaram tempo e energia para a revisão dos pri-
meuos esboços des te livro. incluindo Sandor B. Brcnt. Gustavo
Cario. Robert Emmons. VaJcri Fanncr•Dougan. Ecldic Harmon•
Jones. Waync Harrison, Carol A. Hayes. John Hinson, Mark S.
HoycrL Wcslcy J. Ka~prow. Nonnan E. Kinncy. John Kounios.
Robert Madigan. RandaJI Mania, Michael f\1cCall, Jim ~1cMar-
tin, James J . Ryan. Peter Senko,vskL Michae l Sylvester, Ronald
R. Ulm e A. Bond Woodruff.
Nossa terceira expressão de gratidão 6 para com os colegas
que forneceram comentários e sugestões valiosas para esta edi-
ção: Dcbora R. Baldwin. University of Tcnncssec; Herbert L
Colston, Univcrsity of\Visconsin-Parkside: Richard Dienstbicr.
Univcrsityof Nebra.ska; Todd M. Frceberg. Univcrsity ofTennes-
sec; Teresa M. Heckcrt, Truman Statc Univcrsity; August Hoff-
man, Califomia State Univcrsity Northridge; Kr.Jig L. Schell,
Angelo State Univcrsity; Henry V. Soper. California State Univcr-
sity Nonhridgc; e \Vcslcy \Vhite, Morchead Statc Univcrsity.
Somos sinceramente gr.itos II todos os alunos com quem tive-
mos o pr.izer de trabalrutr durante anos. Foi lá no lthac-.i College
que nos convencemos de que nossos alunos queriam e necessi•
Lavam de um livro como este. Em sentido bem real. redigimos a
primeira edição para eles. Os alunos de que hoje nos ocup:J.mos
são os que estão conosco rui Iowa University. em Iowa City. P..ira
os leitores familiarizados com as primeiras edições, esta quana
edição apresenta um tom decididamente mais prático e aplicado.
Esse equili'brio vem em parte de nossas conversas diárias com
alunos. Cada capítulo agora apresenta tanto o que os pesquisa-
dores cm motivação sabem quanto o que os alunos consideram
ser o que mais \'llle a pena aprender.
Sem dúvida. lthaca é importante para nós porque foi nessa
bela cidade do norte do Estado de New York que ficamos conhe-
cendo Deborab Van Paten. da Wiley (então Harcoun College
Publishcrs). Debor.ih foi tão responsável quanto nós por fuz.cr
este livro se tomar realidade. Embora já se tenham passado
quinze anos. ainda desejamos expres.<;ar quanto lhe somos gra-
tos de coração. Débora .. Os profissionais da Wi ley foram mara-
vilhosos. Todo!> na Wiley têm sido um recurso v-.Jlioso e uma
fonte de satisfação, especialmente Annc Smith, Ryan Flahive.
Deepa Chungi. Christine Cordeie. Katc StewarL Lisa Gee. Karin
Kinchcloc e Trish McFaddcn.
Somos es pecialmente gratos , pelo conselho, pela paciência,
pela assistência e pela orientação fornecidas. a Lili DcGrasse.
minha cditor-.1 de psicologia. Obrigado.
- Johru11arshal/ Reere
Comentários e Sugestões
Apesar dos melhores esforços do autor. dos tradutores, do editor
e dos revisores. é inevitável que !>wjam erros ao tc:xto. Assim. são
bem•\'Índas as comunicações de usuários sobre correções ou suges-
tões refefl'Dtes ao oooteúdo ou ao nível pedagógico que auxiliem
o aprimoramento de edições futuras. Os comentários dos leitores
podem ser ene.aminhados à LTC - Livros Técnicos e Científi-
cos E.ditora Ltcla .. uma editora integrante do GEN I Grupo Edi-
torial Nac ional, no endereço: Travessa do Ou vi dor. 11 - Rio
de Janeiro, RJ - CEP 20040.0W ou ao endereço eletrônico
ltc@grupogen.com.br.
Para Richard Troelstmp, que,,,,. aprese,rcou à psicologia.
Para Edwi11 Gu1hrie, que 111e despertou i,11eresse pela psicologia.
Paro S1e,•e11 Cole. que foi 111eu 111e111or e 111e 111otii:011 a abraçar esta 11wravill1osa profissão.
Material
Suplementar
Este .livro conta com materiais suplen1entares, restritos a docentes.
O acesso ao material suplementar é gratuito . Basta que o professor se
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CEN-10 (GEN I Inforn,ação Online) é o an,biente virtual de aprendiiagen1 do
GEN I Grupo Editorial Nacional, maior conglomerado brasileiro de editoras do ran10
cientifico-técnico-pro~ional, composto por Guanabara Koogan, Santos, Roca,
AC Farmacêutica, Forense, Método. Atlas. LTC, E..P.U. e Forense Universitária.
Os materiais ~uple,nentares ficam disponíveis para acesso durante n vigêncio
das edições aluais dos liYros a que cks correspondem.
SUMÁRIO G ERAL
CAPÍTIJLO 1
CAPÍ111LO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPiTIJL05
CAPÍTIJLO 6
CAPÍTULO 7
CAPtruL08
CAPITUL09
CAPÍTIJLO 10
U\"TROOUÇÃO 1
A M OTIVAÇÃO SEGUNDO AS P ERSPECTIVAS
HlsrôRJCA E CONTOfPORÂNEA 14
O CÉREBRO EMOCIONAL E M 011VAOO 28
PARTE I N ECESSIDADES 4 3
NECESSIDADES FlSIOLÔG ICAS 45
N ECESSIDADES P SICOLÔGJCAS 64
M CJT'IVAÇÃO INTRÍNSECA E OS T IPOS DE
M CJT'IVAÇÃO ExrRINSECA 82
NECESSIDADES SOCJAJS 103
P ARTE II COGNIÇÕES 125
METAS 117
CRENÇAS PEssoAIS DE CONTROLE 145
0 SELF E SEUS E N!'RE}.,AMENTOS 166
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPiTULO 13
CAPfrULO 14
CAPÍTULO 15
CAPfrULO 16
PARTE ill EMOÇÕES 187
,mJR.E2A DA EMOÇÃO: CINCO QUES1ÕES
l'ER.\1AN€\'TES 189
AsPECTOS DA E MOÇÃO 208
PARTE IV D IFERENÇAS INDIVIDUAIS 231
CAitACTERisTICAS DE f'ERsONALIOADE 233
M <mVAÇÃO INCONSCIENTE 246
M OITVAÇÃOPARA O C RESCIMENTO E
PslCOLOGI,\ PoSITIVA 261
CONCUJSÃO 278
R EFERÊNCIAS B !BUOGRÃFICAS 288
LISTA DE CRÊOITOS 346 ,
L'IDICE 349
SUMÁRIO
PREFÁCIO V
CAPÍTULO I L,'TROOUÇÃO 1
Duas Permanentes Qucst5cs 2
O q11t' Causa o Co1npona1nt'11to? 2
Por qul! o Co111ponru11l!nto Varia dl!
/Jue11sidade? 3
Temas Essenciais 4
Motfros lnten1os 4
E1•e11tos Extenros 5
As Expressões da Motivação 5
O Co111pona111ento 5
A Fisiologia 6
O Aluo-Relato 6
Tema., para o Estudo da Motivação 7
A Morh'<lção Beneficia a Adaptação 7
Os !>101i1•0s Din!cio11a111 a Atenção 7
Os !>fo#l'os Varia111 "º Tt'111po e h,jlu,:nciam
o F/1Lr:o do Co,11portm11e11to 8
Existe111 1ipos d,: Motil'açôo 8
A Motivnção l11c/11i Ta,110 as Tf!1ulindas de
Aproxin10ção Quanto as de Afasta111ento 9
Os Esr11dos sobll Mo1ivação Rt've/0111
Aquilo que as Pessoas Q11ere111 10
É Preciso Haver Si111açôe.f Faroráveis para
que a Motivação Flollsço 10
Não Há Nada tão Prático co1110 1m1a Boa
Teoria l l
Juntando as Peças: Uma Estrutura para se
Entender o Estudo da Motivação 12
Resumo 13
CAPÍTULO 2 A MOTIVAÇÃO SEGUNDO AS PERSPECTIVAS
HlsTóRJCA E CONTEMPORÃXEA 14
As Origens Filosóficas dos Conceitos
Moti\-acionais 14
A Vontade: A Primeira Grande Teoria 15
Instinto: A Segunda Grande Teoria 16
lmpub;o: A Tcrcci.rn Grande Teoria 17
A Teon·a do ln1p11/so de Fre11d J 7
A Teoria do hnpulso Segundo Hui/ 18
O Declínio da Teoria do ltnpulso /9
Os Anos Posteriores à Teoria do /Jnpulso J 9
O Surgimento das Mini teorias 20
A Nat111rJJ Ativa da Pessoa 2 I
A Re1•0/11çiio Cog11iti1•a 21
A Pesquisa Aplicada e de Re/evd11cin Social 21
A Era Contemporânea das Míniteorias 23
O Re1on10 dos E!irudos da !11otivaçiio nos
Anos 199025
Conclusão 26
Resumo27
Leituras par.i Esrudos Adicionais 27
CA.PiTUI..O 3 0 CÉREBRO tl10CIONAL E Nl<:mVADO 28
O Cérebro Emocional e Motivado 29
Três Princípios 29
Olhando Dentro do Cérebro 31
A Aproximação \1-rsus a Evitação Geradas
no Cérebro 32
Hipotá/a,,,o 32
Ft'úe Prosencefálico MediJJi 33
A111ígdala 34
Circuito Sep10-Hipocan1pol 34
Fon11açtio Reticular 35
Cénex Pri-Frontal t' Afeto 35
As Vias dos Neurotransmissores no Cérebro 38
Dopa111úu.i 38
A Liberação de Dopa,11ina e a Antecipação
da Recompt'11sa 38
A Biologia da Reco111pe1isa 39
A Dop0111ina e a Ação !11oth·ada 39
O Mundo em que o Cérebro Vive 40
A Moti1•açtio Não Pode Ser Separada do
Con1exto Social em que Está Inserida 4()
Nn11 Se111pre Te111os Consciência da
Bast! J.fotivacio110l do No.rso
Con1pona111e1110 41
Conclusão 41
Rcsumo42
Leituras para Estudos Adicionais 42
PARTE J ECESSIDADES 4 3
CAPiTUl..04 NECESSIDADES FISIOI.ÓGICAS 45
Necessidade 4ó
Os Fundamentos da Regulação 47
Necessidade Fisiológica 47
h11puLço Psicológico 47
Homeostast! 47
·• Feedback" Negati1•0 48
.. l11p111.r" Mríltiplo.v .. 011tp111s" M1lltiplos 48
Meca11isJ11os J111ra-Orga11(s11iicos 49
!11eca11is111os Extra•Organlrmicos ./9
Scde49
Regulação Fisiológica 49
Fomc5 I
Apetite dt' Cuno Prazo 5/
Equilíbrio d,: Energia de L-011go Pnr._o 52
h,jl11ências A111b1e111ais 53
XÜ Swnário
Sexo 56
Regulação Fisiológ,ca 56
Métrica Facial 57
Roteiros Sex11ais 58
Orie,uação Sexual 60
Bast- El'oll1cionista da iWotivação Sexual 61
As Falhas de Auto-Regulação das Neces.'iidades
Fisiológicas 62
Resumo 62
Lei turas para Estudos Adicionais 63
CAPfTuw 5 NECESSIDADES PstCOLÓGICAS 64
Necessidades Psicológicas 65
A Estn(J11ra da Nt-cessidade 65
U111a Abordagen, Organís:n,ica do
1',fotil'ação 65
Autonomia 67
Apoiando o A11to11omia 68
Apoia11do a A11to110111ia Mon1t-11to a
Mo111e11to 70
Beneficiando 11111 Esrífo !,foti,•acional de
Apoio à A111011on1ia 7 J
Dois Exemplos 71
A Competência 73
E1n•o/1•e11do Con,pe1ê11cin 7 3
Apoiando a Con1petência 76
Relacionamento com os Outros 77
E1rvolve11do o &lacio11a111e11to: Interação
COIII os 01ll ros 77
Sa1isf~e11do os Relacio11m11e11tos: a
Percepção do Vínc11/o Social 77
huer11ali::nção 78
Juntando as Peças: Contextos Sociais que
Envolvem e Satisfazem as Necessidades
Psicológicas 78
Co111pro111isso 79
O que Dá Qualidade ao Nosso Dia? 79
Vitalidade 81
Resumo 81
Lei turas para Estudos Adicionais 81
CAPfTuw 6 M anvAÇÃO INTRINSECA E OS T IPOS DE
ManVAÇÃO ExTRÍNSECA 82
M ativações I nrrínsec-a e Ex trí nscca 84
Moti1•açiio h11rúiseca 84
!.101i1·ação Extrú1seca 85
Tipos de A101i1•ação Extrínseco 85
lnecali,•os e Conseqüências 85
!11ce11tivos 85
O que É unr Reforço? 86
Conseqiiências 87
Os Custos Ocultos da Recompensa 89
Reco111peri.ra Esperada e Reco111pe11sa
Tangí1•e/ 91
hnplicações 9 J
Benefícios do l11centi,·o e da Recompensa 92
Teoria da Avaliação Cogniúv-J 93
Dois Exe111plo.f de E1•e111os Co111roladores e
lnfon11ati,·os 96
Os Benejicios dos Facilitadores da
,\i/otii•ação ln1ri1iseca 96
Teoria da Autodctcnninução 97
7iJXJS de J\1oti1•ação Ex1rú1seca 98
Juntando as Peças: l\llotivando os Outros
a P-.uticiparem de Atividades
Desinteressantes 99
Resumo 102
LciturJS para Estudos Adicionais 102
CAPÍTIJLO 7 N ECESSIDADES SOCIAIS 103
Necessidades Adqu_iridas 104
Quase-/l.1ecessidades /().J
Necessidades Sociais /05
Co,110 as Necessidades Sociais ,Woti1•a111 o
Con1pona,ne1110 /06
Realização 106
Onge11s da Necessidade de Reali::t1ção 107
O Modelo de Atkinson 108
O Modelo das Di11t11nict1s de Ação 109
Comfições que E1rvoh·e111 e Satisf~n1 a
Necessidade de Reali;.ação / I I
Meros de Reali:ação J II
/111egrando as Abordagens Clássico e
Co11temporâ11ea da Moti1-ação para a
Reali:t1ção I 12
A1otii·ação de Eví1ação e Ben,-Eslar //4
Teorias Implícitas J 14
Afiliação e lntin1idade 117
As Condições que E,,voli•e111 as
Necessidades de Afiliação e de
/11ti111idade l I 8
Poder 120
Condições que E,n,ol1·e1n t' Satisfa:.e111 a
Necessidade de Poder 120
O Padrão de l'.1otil'o de Liderança 122
Resumo 123
LciturJs para Estudos Adicionais 124
P ARTE II COGNIÇÕES 125
CAPtrut.o 8 METAS 127
A PerEpcctiva Cognitiva na Moúv-Jção 128
Planos 12K
,~101ivação Correti~·a 129
Discr<'pâ11cia I 10
Dois Tipos de Discrepância J 30
l\1ctas 131
Dese111pe11ho I 3 I
Afetas Difíceis e Específicas Apri1nora111 o
Dese111pe11ho J 32
Feedback 133
/icei 1ação da !,,f eta 134
Críricas 134
O Estabelec-i111e1uo de Meias de Lo11go
Pra:o 135
E:rforço.r Pes.roais J 36
lnLcnçêics de lmplcmcnuição 137
Simulações Me111als: Co11ce111rw1do-se 11.a
Ação 137
Fonn11la11do as Intenções de
/J11ple111enração / 39
Busca de w11a Mera: Começ011do /40
Busca de 111110 Meta: Persisrindo e
Ter,11it1a11do 140
Auto-Regulação 140
Dese11vol1·endo "'"ª A1110-Reg11/ação Mais
Co111pete111e 142
Rc.~umo 143
LeiLuras para Estudos Adicionais 143
CAPlnrl.O 9 CRENÇAS PEssOAIS OE CONTROLE 145
l\'1olivação pill':l se Exercitar o Controle
Pessoal 146
Dois Tipos de Expectariva 146
Auto-Eficácia 147
As Fontes da A1110-Eficácia /4S
Efei1os do Auto-Eficácia sobn- o
Con1porra111e1110 149
Dotação de Poder 15 I
Dotando as Pessoas de Poder: Progra111a de
Modelage111 de Do111ú1io 152
Crenças Pessoais de Controle 152
Orientações Motil•acio11t1is de Domínio
i·ers11.r Ori1trrtações Mori1•t1cionais de
Desamparo J 52
Desamparo Aprendido 153
A Aprendi:age111 do Desan1poro J 54
Aplicação a Hr1111a11os 155
Co111po11e111es J 56
Efeiios do De:rC1n1paro 15 7
Desan1paro e Depn'ssâo 158
Esrilo E:rplicariro 159
Críticas e Explicações Altema1iras 160
Teoria da Reatância l 62
Rea1fJ11cia e Desanrparo 162
Juntando as Peças: A Esperança 163
Resumo 164
Leituras para Estudos Adicionais 165
O Sclf 167
O Proble111t1 co111 a A11to-Esrilna /68
AutoconcciLo 169
A11to-Esquen,as 169
Propriedades Mori,·acio11ais
dos A1110-Esque111as 169
Self Consis1e111e J 70
Sel1·es Possíi·eis 17 J
sumário xili
Dissonância Cognitiva 173
Sit11ações E.tci1m11es da Disso11â11cia 174
Processos Moti1·acio11ais S11bjace111e.r à
Disson.i11c-ia Cogniti1•a 175
Teoria da Auropercepção 176
Identidade176
!'Clpiis 177
Teoria do Controle do Afeto 177
Energia e Din-ção 178
Por q11e as Pessoas se Au1overijicm11 179
Agcnciamc.nto 180
O Sei[ co11w Ação e Desenvolvi111e1uo
Interno /81
A111oconcordâ11cia 182
Resumo 184
Leituras pard Estudos Adicionais 185
PARTE ili EMOÇÕES 187
CAPÍTULO 11 N ATUREZA DA EMOÇÃO:
CINCO Q UESTOES P ER.M.ANE.,'TES 189
O que É un1a Ernoçâo? 190
Relação entre E111oção e Motivação /9 1
O que Causa a Emoção? 192
B10/ogia e Cognição 193
Vísão do.r Dois Si.rte111as 194
O Problen,a da Gali11ht1 e do Ovo 195
Ai/odeio Abmnge111e da Biologia e da
Cog11ição 195
Quantas Emoções ExisLcm? 195
Perspec1i1·a Biológica /96
Perypectii•a Cognitiva 196
Co11ciliação da Questão dos Nú11wros 197
E,11oções Básicas 198
Qual a Utilidade das Emoções'? 201
F11nções de Enfre11ta1ne11to 201
Funções Sociais 202
Por q11e Te111os &noções 202
Que Diferença Há cnlre Emoção e Humor? 204
H1m1or Cotidia110 204
Afeto Positê1·0 205
Rcsumo206
Lciluras para Estudos Adicionais 207
CAPITULO 12 AsPECTOS DA EMOÇÃO 208
Aspectos Biológicos da Emoção 208
Teoria de James-w11ge 209
Perspec1i1·a Co11te111porá11ea 209
Teoria Difen!nciat das E,11oções 21 J
Hipótese do Feedback Facial 212
Teste da Hipótese do Feedback Facial 213
Aspectos Cognilivos da Emoção 216
Avatiação216
Avaliação Complexa 217
Processo de Avatiaçãn 2 /9
Conhecirne1110 das E1noçõe.r 221
xiv Su1nário
Atribuições 223
Aspectos Sociais e Culturai.~ das Emoçiies 124
l11teraçâo Sociaf 225
Socialimção E111ocio11al 226
!.1anejando as Emoções 227
Ded1dlldo lde111idades a Partir de
De11101utroções E111ocio11ais 227
Rcsumo228
Leituras para Estudos Adiciona.is 229
PARTE IV DIFERENÇAS lNDMDUAIS 231
CAPITUl.o 13 CARACTER[STICAS DE PERsONAUDADE 233
Felicidade 234
Extroi'ersão e Felicúlade 235
Neuro1icis1110 e Sofri111ento 235
Os Extro~·ertidos São Gera/J11e11te Feli:es.
os Ne11rórico.r São Geramrenre
lnfef~es 236
Ativação 236
Dese111penho e Emoção 236
Esti11utlação /11s11ficie111e I! S11bati1•ação 237
Estinutlação Excessiva e S11perativaçâo 238
Credibilidade da Hipótese do U /Jn•ertido 238
811:rca de Sensações 238
Intensidade do Afeto 240
Controle 241
Percepção de Controle 241
Ciclos de A111oco11ftm1ação de E11gajm11n1to
Alto e Baixo 242
Desejo de Controle 243
Resumo245
Leituras paru Estudos Adicionais 245
CAPÍTULO 14 McmvAÇÃO lNCONSaE.,i"E 246
Perspectiva Psicanalítica 246
O que É Psica11a/ítico Passa a Ser
Psrcodi11âI11ico 247
Teoria do ln.rtinto Dual 247
hrrp11lso 011 Desejo?
Teoria Ps1codi11â111ica Conte111porâ11ea 248
O Inconsciente 149
O l11co11scie11te Fre11dia110 249
O l11co11sciente Não-Freudia,10 250
Psicodinfunica 251
Repres.rõo 251
Supre.,são 252
O /d e o Ego Existem Real111e111e? 253
Psicologia do Ego 253
Dese11vol1•ir11e11to do Ego 253
Defesa do Ego 254
Efectfincia do Ego 256
Teoria das Relações Objetais 257
Críticas 259
Resumo 160
LciLur.is par.i Estudos Adicionais 260
CAPmJLO 15 ManvAÇÃO PARA O CRESCIMENTO E
PSICOLOGIA PoSITIVA 261
Holismo e Psicologia Positiva 26'>
Holis1110 262
Psicologia Positil'a 263
Auto-Atualiz.açiio 263
Hierarquia de Necessidades Huma11as 263
Necessidades por Defici€11cias 264
Necessidades de Cresci1ne11to 264
Pesquisas sobre a Hierarquia de
Necessidadex 264
Encorajando o Cresci111e11to 265
Tendência Atualiz.anlc 265
E,11ergê11cia do Self266
Colldições de Valor 267
Co11gnté11cia 268
O lndi,·íduo de Fu11cionan1ento l11tegral 268
OricnLações de Causalidade 268
Busca de Cresci mcnlo 1•ersus Busca de
Validação 270
Como os Relacionamentos Apóiam a Tendência
Atualizante 27 1
A11.xilia11do os 0111ros 272
Re1acio11w11e1110 co111 os Outros 272
Uberdade para Aprender 272
A11todefi11ição e Definição Social 273
O Problca1a do Mal 27 3
Psicologia Positiva e Saúde Mental 274
Oti111isn10 274
Significado 275
Críticas 27 5
Resumo276
Lcitur.is para Estudos Adicionais 277
CAPÍTIJLO 16 CONCLUSÃO 278
Compreendendo e Aplicando a Motivnçã.o 278
E:rplictu1do a i\,fotil•ação: Por qtll.' F~e111os
o que Fa~errros 279
Prt!l•endo a Moti,,ação: Jde11tificando
A111ecede1ues 279
Aplicando a Mori,.açâo: Resolrrção de
P roble111as 2 79
Motivando a Si Mesmo e nos Outros 280
A1otii•a11do a Si lt1es1110 280
A1oth·a11do aos 011tros '281
Feedback: O Esforço poro Motivar a Si
Mes1110 l' aos Outros Está Indo Be111 ou
Mal28J
Projetando lntcrvenções Moti\'acionais 283
Quat/'o Es111dos de Caso 283
Quatro Histórias de Êxito 284-
REFERÊNCIAS 81BLIOGRÁF1CAS 288
LISTA DE CRÉDITOS 346
ÍND1CE349
~ ~
MOTIVAÇAO E EMOÇAO
Capítulo 1
Introdução
DUAS PERc\.iANENTES QUESTÕES
O tiue Causa u Comporuuuento'!
Por que o Componamertto Varia de ltuen,id.ade?
TEMAS ESSE."'ICIAJS
Moth•os Internos
Evento, Externos
AS EXPRESSÕES DA MOTIVAÇÃO
O Componamento
A FtSiologia
o Auto-Relato
TEMAS PARA O ESTUDO DA MOTIVAÇÃO
A M01ivação Benelicia a Adap1açio
O que é motivação? O que é c moçiio? Um motivo para você
ler este livro é, oatur.tlmcntc, encontrar respostas para essas
perguntas. Porém, c.omcce essa jornada fazendo uma pequena
pausa para dar suas próprias respostas a essas duas questões.
ainda que cm uma forma preliminar c experimental. Uma boa
idéia talvez seja anotar suas definições em um caderno ou nas
margens deste livro.
PorJ definir motivação e emoção. observe que primeiro é
preciso c.,;colher um nome com o qual você deve começar sua
definição (algo como: ·'moti vação é um __:•). A motivação é
um desejo? um sentimento? um modo de pensar'? um sentimento
de esforço? uma necessidade. ou um conjunto de necessidades?
um processo. ou um conjunto de processos? Mais adiante. o te,~to
oferece urna definição quanto à qual quase todos os estudiosos
da motivação estão cm acordo (veja a seção Temas Es.scnciai.~)-
Pouoo depois. oferece-se uma definição definitiva de emoção
(veja a subseç-ão Motivos Internos). À medida que você for avan-
ç::mdo aa leitura deste livro. as sua.,; definiç&s irlio aumentar em
sofisticação até o ponto cm que você se tomará cada vez mais
apto a explicar todo o espectro de fenômeno!. motivacionais,
bem como de aplicar com succ.~~o os princípios da motivação
em sua própria vida
Entretanto. a jornada partt se compreender o que vem a ser a
motivação e a emoção pode ser longa. Por isso. faça de novo uma
pausa e. antes de Ludo, pergunte-se por que trilhar esse caminho.
Por que ler estas páginas? E o que leva você a fozer essas indaga-
ç&s em sala de aula? E por que J)lliS3.í noites cm claro. meditando
Os ~folivos Diteciorllllll u Aleoçilo
Os Motivos Variam no Tempo e Influenciam o Fluxo do
Compona,nenco
Existem Tipos de Moúvaçllo
A t.1otivaç-Jo Inclui IJllltO a. T end.!ocia. dt Aproximaçllo qlllllltO
a., de AfulllJllentO
O, Estudos sobre 11,foci vaçilo Re~·elao1 Aquilo que as Pes.,,oa~
Querem
É Preciso Haver Situaçõe. Favoro,eis paro que a Motivação Floresça
Não Há Nada tão Pr-.1tic-o como uma Boo Teoria
JUNTANDO AS PEÇAS: UMA ESTRUTURA PARA SE
ENTENDER O ESTUDO DA MOTIVAÇÃO
RES~IO
sobre as questões referentes à motivação human.n? Considere
dois motivos que justifiquem esta jornada.
Em primeiro lugar, aprender motivação é bastante interes-
sante. Poucos tópicos descpertam e envolvem nossa imaginação.
Qunlqucr coisa que no.~ diga quem somos, por que queremos o
qucqucrcmo..,;e de que modo podemos melhomrnos.,;as vidas, é
algo que se reveste de intew..se para nós. E igualmente nos inte-
ressa saber quem são as outras pc.=as, por que elas querem o
que querem e de que modo elas podem melhorar suas vidas. Ao
tenumnos explicar o porquê das atitudes das pessoas_ podemos
empregaras teorias da motivação para aprendermos sobre tópicos
UÚ!. como a natureza humana: os esforços para a realização de
conquistas e para a obtenção de poder. os desejos de sexo bioló-
gico e intin1idade psicológica: as emoções. oomo o medo e a
raiva; o cultivo do talento e a promoção da criatividade; o desen-
volvimentode interesses e o aperfeiçoamento de competências;
e o estabelecimento de planos e de metas.
Em segundo lugar. poucos tópicos têm tantn utilidade para
nossa vida como este. A motivação é importante por si só. e
toma-se ainda mais importante em função da sua capacidade
de prenunciar certas manifestações da vida com que nos preo•
cupamos ba~tante. como. por exemplo. a qualidade de nossos
desempenhos e o nosso bem-estar. Nesse sentido, aprender sobre
a motivação é algo extremamente prático e que vale a pena ser
feito. Também pode ser muito útil saber de onde vem a moti-
vação. por que às vezes ela se altera e outras vezes não, cm
que condições ela aumenta ou diJninui. quais de seus a~pectos
2 Capfrulo Um
podem ser mudados e quws não podem. e que tipos de moti vaçào
produzem en voh•imento e bem-estar. e que tipos nlio produzem.
Ficando a par desses assuntos. podemo.~ aplicar nossos conheci•
mentos a situações com que nos clepar.unos quando. por exemplo.
tentamos motivar empregados. treinar atletas. aconselhar clientes.
criar rtlhos. orientar alunos ou mudar nossas próprias maneiras
de pensar. de sentir e de n05 comportar. Na medida em que um
estudo como esse nos infonna sobre como melhorar nossa \'Ída
e também a vida de outras pcssoa.s. terá valido a pena empre-
endermos es.sa jornada para con1preender o que vem a ser a
motivação.
O estudo da motivação nos proporciona tanto a compreensão
teórica de como funcionam a motivação e a emoção quanto o
conhecimento prático que nos permite conquistar objetivos
considcr.idos importantes. Um exemplo dis.so são os exercícios
físicos.
Pense por um momento: por que uma pessoa quer fazer cxcr•
cícios fisicos? De onde lhe vem motivação para isso? Terão as
pessoa.~ mais motivação para se exerci lar cm certas condições do
que em outro.~? É possível fazer algo par.i aumentar a motivação
de l.llllft pessoa pCLra se exercitar? E no caso de um indivíduo
detestar atividade fis ica. poderá ou tru pessoa ser capaz de fazê.lo
mudar de idéia, convertendo-o cm um verdadeiro entusiasta do
exercício'I O próximo parágrafo trata de exercícios físicos, mas
também poderia se referir 11 motivação subjacente a quase qual-
quer outra atividade - estudar, aprimorar um talento. aprender
a ler. tocür piano, fonnar-se em uma faculdade. comer menos.
aprimorar um saque no ténis. e assim por diante.
Por que ficar dando voltas e mais voltas cm uma pista de
corrida. pular sem parar numa aula de aeróbica. Lentar se mover
sobre uma máquina que não leva a lugar algum. caminhar com
pressa por um parque ou dar várias voltas nadando cm uma
piscina? E o que leva você a correr quando você sabe que seus
pulmões correm o risco de sofrer um colapso por falta de ar?
Ou por que pular, se você sabe que seus múscul05 podem se
distender e romper-se? E por que tirar uma hora do dia para cami-
nhar quando você não está di5posto a fazer isso ou quando seus
compromissos não o permitem? Por que se exercitar. quando a
vida nos oferece tuntos outras coisas interessantes par.i fazer?
Na Tabela 1.1. mencionam-se treze diferentes razões baseada.~
no motivação para se exercitar. Quem poderá dizer quais dessas
razões são válidas e quais não o são? O objeúvo das pesquisas
sobre motivação é inv<:litigar um fenômeno (assim como os cxcr•
e leios físicos) e coCL-.lruir teorias e testar hipóteses que expliquem
como a motivação funciona de modo a produzir o fenômeno cm
questão. Por exemplo. se um pesquisador motivacional decide
concentrar sua atenção nas razões pelas quais as pessoas se excr•
citam fisicarnentc. ele bem poderia fazer algumas ou todas as
.seguintes perguntas: As pessoas se exercitarão mais quando esta•
bclecem uma meta? Será verdade que a aúvidade física alivia o
estresse. reduz a depressão, proporciona um sentido de rcal~çiio
ou dá uma certa "embriaguez"'? Caso qualquer um desses efeitos
seja verdade. então cm que condições isso acontece? Ao ser vali-
dada pela.~ pesquisas. uma hipótese possibilí ta tanto uma melhor
compreensão do fenômeno (isto é. um aumento do conhecimento
teórico) quanto in.siglrts sobre como obter soluções factíveis para
problemas que afetam nossa vida e a vida deoutr.is pessoas (isto
é. um ganho de conhecimento prático).
DUASPE~IANENTESQUESTÕES
O estudo da motivação procur.i fornecer as melhores respostas
po.~sJ veis para duas questões fundamentais:
1. O que causa o comportamento?
2. Por que o comportamento vario de intJ:nsidadc?
O que Causa o Comportamento?
A primcir.i questão fundamental da motivação é: "O que c~usa
o comportamento?" Ou. dito de outra maneira, "Por que essa
pessoa fez isso?"' Observamos o comportumcnto dos indivíduos.
mos não podemos enxergar a causa ou causa.~ subjacentes que
produziram tal comportamento. Às vezes vemos nas pessoas
um grande esforço e persistência (ou tnmbém o contrário disso).
mas as razões pelas quais e las agem assim continuam forn de
nossa observação. A motivação existe como campo cientifico
para rcspondCT a essa questão.
Para e,c,plicar realmente a questão "O que causa o compor-
truncnto?", precisamos expandir e...sa indagação geral cm uma
série de cinco perguntas específicas:
• Por que o comportamento se inicia?
• Uma vez começado. porque o comportamento se mantém
no tempo?
• Por que o comportamento se direciona para algumas metas.
ao mesmo tempo que se afasta de outras?
• Por que o comportamento muda de direção?
• Por que o comportamento e.essa?
No estudo sobre motivação, não basta perguntar por que uma
pessoa pratica um esporte, por que uma criança lê livros, ou por
que um adolescente se recusa a contar no coral. Paro chegarmos
a uma oomprcensão mais sofisticada de por que as pcS!.oos fazem
o que faz.cm. também é preciso nos perguntar. por exemplo.
sobre os fatores que levam os atletas a iniciar SUJlS ati\ridades.
O que os faz se esforçarem hora após hora, dia após dia, me.ses
após meses? E por que eles pnujcam um dctemlinado esporte
e não outro? E o que os faz treinar quando poderiam. digamos.
estar batendo papo com os amigos? E o que faz um atleta dei.xar
de praticar o esporte por um dia. ou pela vida toda? Podem-se
fazer essas mesmas perguntas sobre as crianças e seus hábitos
de leitura: por que elas começam esse hábito? Por que conti-
nuam a ler após a primeira página? E após o primeiro capi•
tolo? E por que escolheram um determinado livro e não outro
da me_~ma pr.itclcira? Por que pararam de ler'? Continuarão a ler
nos próximos anos? Para tomar um exemplo pessoal. façamos a
seguinte pergunta: o que fez você começar a ler este livro hoje?
Você continuará a kr até o frnal deste capítulo? E até o final do
livro? Se você parar antes do fim. em que ponto irá interromper
a leitur.i, e por que furií isso? Ou. após ler este livro. que outro
livro você lerá. e por quê'.'
A primeira questão pcnnanente da motivnção - "O que
causa o comporta.mentor' - pode. portanto, relacionar-se com
Tabela 1.1 Razões Motivacionais para se fazer Exercício físico
Por que se Exercitar?
Para nos divertirmos
Desafio pessoal
Para atender às expectativas que os
outros têm de nós
Para cumprirmos uma meta
Porque é algo que nos é de utilidade
Por ser algo que ficamos animados a fazer
Para satisfazer nossos próprios padrões de
excelência
Para obtermos a satisfação de ter um
trabalho bem-feito
Busca de sensaç.ões
Bom humor
Diminuir sensações de culpa
Atenuar o estresse e a depressão
Encontrar amigos
Fome de Motivação
Motivação intrínseca
Fluência
~totivação extrínseca
Meta
Valor
Possível existência de si
Esforço na realização
Conslatação da própria
competência
Processo oponente
Afeto positivo
lntrojeção
Controle pessoal
Socialização
a maneira como a motivação afeta o início, a pers istência, a
n1udança na direção de tneta e a eventual cessação do co1npor-
tamento. Pode-se tratar dessas perguntas como uma grande
questão, ou co1no cinco questões inter-relacionadas. Seja con10
for, o pri1neiroproblerna essencial e1n uma análise rnoLi vacional
do comporta1nento é compreender de que 111odo a motivação
participa, influencia e ajuda a explicar o fluxo co1npo1ta1nental
de un1a pessoa.
Por que o Comportatnento Varia de
Intensidade?
A segunda questão fundamental da motivação é: "Por que o
con1portamento varia de intensidade?" Uma outra maneira de
fazer essa mesma pergunta seria: "Por que às vezes a von tade é
forte e persistente, enquanto que, outras vezes, diminui paula-
tinainente até desaparecer por cotnpleto?" O con1po1ta1nento
varia de intensidade, alé1n de se alterar tanto e111 u111 1nes1no
indivíduo con10 entre diferentes indivíduos. A idéia de que a
motivação pode variar em um único indivíduo significa que,
e1n urn 1no1nento, tuna pessoa pode estar bastante engajada e1n
cerra atividade, enquant.o que, enl outro rno111ento, pode ficar
passiva e des interessada. A idéia de que a motivação pode variar
entre os indivíduos significa que, mesnio diante de situações
iguais, algun1as pessoas pode1n ativmnente se engajar na situação,
Inlrodução 3
Exemplo
As crianças se exercitam espontaneamente - correndo,
pulando, perseguindo umas às outras, e fazem isso pelo simples
prazer que essas atividades lhes dão.
Os atletas chegam "no limite" quando otimizan1 sua capacidade
de vencer desafios.
Atletas iniciam un1 programa de exercícios por detenninação do
técnico.
Corredores quereni saber se conseguem correr um quilômetro e
meio em 6 minutos ou menos.
As pessoas se exercitmn para perder peso ou fortalecer o coração.
Ao ver os outros se exercitarem, as pessoas têm vontade de fazer
o mesmo.
Esquiadores de.scem a momanha em alta velocidade, na tentativa
de superar seu melhor tempo.
' . -A 111ed1<la que os aLletas l'azem progressos, aumenla sua sensação
de competência e eficiência.
Uma corrida vigorosa dá ao atleta uma sensação de embriaguez
(que é um reflexo da dor que eles experimentam).
Um tempo bom pode animar os atletas, fazendo-os exercitar-se
espontaneamente com mais vigor, o que os mantém cm
incessame atividade sem que saibam exatamente por quê.
As pessoas se exercitam porque pensrun que é isso que elas
precisain1 de.ven1, ou são obrigadas a fazer piu-a se sentirem betn
consigo mesmas.
Após um dia estressante, as pessoas procuram uma academia,
que, parn elas. é um ambiente controlável e estruturado.
lvluitas vezes, os exercícios são um evento social, um tempo.
simplesmente dedicado a se divertir com os amigos.
enquanto outras pessoas podem se mostrar passiva~ e desinte-
ressadas .
E1n un1 n1esn10 indivíduo, a 1notivação varia co111 o tempo. E,
quando va1ia, o co1nportainento també1n se altera, pois a pessoa
pode fa7.er uni es rorço maior ou menor, e sua persistência pode
se n1ostrar 1nais forte ou 1nais frágil. Por exemplo, há dias en1
que u111 en1pregado trabalha co1n rapidez e eficiência, enquanto
que, e111 outros, 1nostra-se desanitnado. U111 dia, u111 estudante
den1onstra ter entusiasmo, esforça-se por conseguir excelência
nos resultados em direção a uma meta bem definida; entretanto,
no dia seguinte, o mesmo estudante pode parecer desatento,
fazendo apeuas o 1ní11Ílno de trabalho possível e evitando desafios
acadêmicos. Por que uma mesma pessoa, em u1n determinado
momento, aparenta uma motivação forte e persis1.enLe, enquanto
em ouu·o fica apática, é algo que necessita ser explicado. E por
que um trabalhador teve um born desempenho na segunda-feira,
mas não na terça? E por que as cri anças disseram não estar com
fo1ne de 1nanhã, n1as recla1nan1 por conúda à tarde? Sendo assim,
o segundo proble1na essencial e1n un1a análise motivacional de
comportamento é compreender por que o co1nportamento de
u1na pessoa varia de intensidade de acordo com a hora, o dia,
ou o ano.
A 1uotivação varia de fonna d iferente nas pessoas. Todos
nós compartilhan1os rnuitas das rnesrnas rr10Livações básicas (p.
ex., fome, nec-essidade de afiliação, raiva), porén1 é certo que as
4 Capfrulo Um
pessoas diferem quanto ao que as motiva. Alguns motivos podem
ser relntivamente fortes par.i uma pessoa e relativamente fracos
par.i outr.i. Por que certas pessoa_~ V1 vem à caça de emoções.
envolvidas em uma contínua busca por estímulos fortes. como
correr de motocicleta. enquanto outras procuram evitnr scasa-
çõcs. achando que os estímulos fortes siio mai.~ uma fonte de
irritação do que de prazer? Em um concurso. por que algumas
pesso:is cliligcntemcntc se esforçam para vencer. enquanto outr:is
pouca importiincia dão à vitória. estando mais interessadas em
fazer amigos? Hã pessoas que se irritrun com cxtrclllJl facilidade.
enquanto outras ro1ramente se penurbam. A rel>-peito dos motivos
pelo;, quais cx.istem grandes diferenças individuais, os e,tudo;,
de motivação investigam de que modo essas diferenças surgem e
que implicações elas têm. Dessa forma, um outro problema moti-
vncional a ser resolvida é reconhecer que os iadi,ríduos diferem
quanto ao que os motiva. e e,:plicar por que alguns indivíduos se
en,·olvem intensamente cm um tipo de componamcnLo, enquanto
outros, não.
TEMAS ESSE CIAIS
Para e,:plicar por que as pcssoos fazem o que fazc1n, necessi-
tamos de um;i teoria da motivação. O objetivo de uma teoria é
ex.plicar o que dá ao comportamento a sua energia e a sua direção.
A energia de um atleta vem de :ilgum tipo de moLi ,·o, e é também
algum motivo que faz um estudante ded icar-se a um objetivo
cm particular, e não a outro. O es1udo da ,nori\·ação refere-se
aos processos que fornecem ao comportan1e1110 sua energia e
direção. A energia implica que o co1nponamcnlo é dotado de
força - podendo ser relati,•amcntc forte, intenso e persistente. A
direção quer diz.er que o componamcnto tem um propósito - ou
seja. que é direcionado ou orientado p:tr3 alcançar um detcrmi-
nndo objetivo ou resultado. Cabe à teoria explicar quais são os
processos motivacionais e também como eles funcionam par.i
encrgizar e direcionar o comportamento do indivíduo.
Os processos que energizam e direcionam o comportamento
de um indivíduo emanam tanto da;, forças do indivíduo como
do seu ambiente. como mo~'tr:l a Figura 1. 1. Os motivo~ são as
e:1:periências internas - necessidades. cognições e emoções -
que cnergiuun as tendências de aproJtimação ou de afastamento
do indivíduo. Os eventos e,:tcmos são os incentivos ambientais
que atraem ou repelem o indivíduo em relação a um curso parti-
cular de ação.
lotivos Internos
Um motivo é um processo interno que energiza e direciona o
comportamento. Portanto, trata-se de um termo geral para se
identificar o campo comum compartilluido pelas necessidades.
cognições e emoçõc:s. A diferença entre um motivo e uma neces-
sidade. cognição ou emoção é simplesmente o nível de análise.
Necessidades, cognições e emoções são nada mais que tipos
específicos de motivos (veja a Figura 1. 1 ).
As necessidades são condições internas do indivíduo que são
essenciais e acces.~árias à manulcnçllo da sua vida e à promoção
de seu crescimento e de seu bem•cstar. A fome e a sede exem-
plificam duas ncocssidades biológicas que surgem das exigên-
Moth :açiio
1
1
~lol'.hos lnLccmos E,·cntns Extc:mos
1
1 1
N=icl3clcs Cogniçõces Emoções
Flguru l.J Hlernrqula das Quatro Fontes de Motl vaç3o
eia.~ que o corpo requer de comida e de água. ambas as quais
são essenciais e nccc.çSMias pam a manutenção da vida. para o
crescimento e o bem-estar do indivíduo. Já a competência e o
pcrtencimcnto c.,empli ficam duas necessidades psicológica~ que
surgem das wgências para que o próprio indivíduo se adapte
bem :io seu ambit:nle e estabeleça boas relações interpcs.~oais. A
competência e o pcnencimenlo são tanto essenciais como neces-
sários para a manutenção do bom c.,tado psicológico e para o
bem•e5tar e o crescimento do indivíduo. As neces.~idades servem
ao organismo. e o fazem gerando vontades. desejos e esforços
' . . . ;
que mouvam quwsquer componamentos que SCJam necessn•rios para a manutenção da vid:i e a promoção do bem-estar e
do crescimento do indivíduo. A Parte I discute os tipos espc•
cfficos de necessidades: as necess idades biológicas (Capítulo
4). as necessidades psicológieas (Capítulo 5) e as necessidades
soci:iis (Capítulo 7).
As cognições referem-se aos eventos mentais. tais como as
crenças. as e:1:pcct:itivas e o autoconccito. As fontes eognitivas
de motivação relacionam-se no modo de pensar do indivíduo. Por
exemplo. quando e.\1.Udantcs. atleta~ ou vendedores ocupam-se de
sua tarefa. eles têm cm mente algum plano ou objetivo, alimentam
cel'Uls crença_,; sobre suas próprias habilidades. alimentam e,:pec•
tativas de sucesso ou de fraca.,;so. possuem maneiras de c,:plicar
um bom ou um mau resultado e têm uma compreensão do que
eles são e qual é o seu papel nn sociedade como un1 todo. Na
Parte II discutiremos as fontes cognitiva_~ específicas da moti-
vação: planos e objetivos (Capítulo 8), Cltpcctaúvas (Capítulo
9) e o sclf1 (Capítulo I O).
As emoções são fenômenos subjetivos, fisiológicos. funcio•
n::ús. apressivos e de vida curta. que orqucslrnrn a maneiro como
re:igin1os adaptativamente aos eventos importantes de nossas
vidas. Ou seja. as cmoçõe.<; org-.inizam e orquestram quatro
aspectos inter-relacionados da e,:pcriência:
• Sentimentos - descrições subjeti,•a.~ e verbais da e,:pcri-
ência emocional.
• Prontidão fisiológica - como nosso corpo fisicamente se
mobiliza para atender à~ demandas situ:icionai;,.
1 ~tlllll=llltl!< o l'.Cm10 ui/ lendo cm nslll que. n3 fuer31ara psicntóg1C1 llllduzula.
está nbsomdo pc,los profis.sl<l031< d~ Pstcolog1• e in:as afins. (N .R. T.)
• Função- o que especificamente queremos realizar neste
momento.
• Eitpressão - como comunicamos nossa experiência
emocional a outros.
Ao orqucstr.ir esses quatro aspectos da experiência em um
padrão coerente. as emoções nos permitem reagir adaptativa•
mente aos eventos importantes de nossas vidas . Por exemplo,
quando nos defrontamos com uma ameaça ao nosso bem-cslllT.
sentimo-nos amedrontado~. nosso batimento cardíaco aumenta.
temos vontade de fugir e os m(tsculos do canto dos lábios se
contraem., de uma maneira que os oulrOs indivíduos podem .reco-
nhecer e responder à nossa experiência. Outras emoções, tais
como a raiva e a alegria. também apresentam padrões coerentes
similares que organizam nossos sentimentos. nossa prontidão fi~;o.
lógica_ nossas funções e expressões de uma maneira que nos possi-
bilita enfrentar com sucesso as circunstáncias que se apresentarem..
A Parte W deste ljvro discute a natureza da emoção (Capítulo 11 ).
bem como os seus diferente.,~ aspectos (Cnpftulo 12).
Eventos Externos
Os eventos externos são incentivos ambientais que têm a capaci•
dade de cncrgizar e direcionar o comportamento. Por exemplo,
oferecer tlinbciro c-0mo incentivo à tomada de uma ação é algo
que freqUcn1erncntc cnergiza o comportamento de aproximação.
ao passo que um odor desag,adável costuma cnergizar um afn.~-
tamcoto de cviLação def-c:nsiva. O incentivo (dinheiro. odor)
adquire a capacidade de energizar e direcionar o co1nporta•
meato na medida cm que sjnal.iza que um determinado compor-
tamento poderá produzir conseqüências de recompensa ou de
punição. Dessa maneira, os incentivos precedem o compona-
mcnto e funcionalmente levam a pessoa para mais peno dos
eventos externos que lhe prometem cxpe.ri ências agradáveis. ou
funcionalmente afastam a pessoa de eventos externos que lhe
prometem experiências desagradáveis. A partir de uma perspec•
tiva mais ampla. o~ eventos c.1tcmo, incluem não só os estímulos
ambientais específicos. mas também situações mais gerais. tais
como aquelas que surgem na sala de aula. na família e no local de
trabalho. E, cm nível ainda mais amplo. também incluem forças
sociológicas. como a cultura. O Capítulo 6 ~cute o modo como
os incentivos e os contextos sociai~ mais !lrnplos se agregam à
análise do comportameruo moúvado.
AS EXPRESSÕES DA MOTIVAÇÃO
Além da identificação dos problemas permanentes da motivação
e de seus temas essenciais, resta-nos ainda uma outra taref!l
introdutória - a saber. c.s-pecificar de que modo a motivação se
ex.pressa. Em outras palavras, de que modo você consegue dizer
a alguém que está, não está ou está um pouco motivado? De certa
maneira. é possível dizer que todas as pessoas estão motivada.\.
de modo que essa quest;io poderia ser reformulada da seguirue
n1a.neira: como podemos informar a intensidade da motivação
de unu outra pessoa? É necessário também indagar: como é
possível informar a qualidade da motivação de uma outra pessoa?
Por exemplo, à medida que você observa o comportamento de
lnttoduçilo 5
duas pessoas - digamos . de dois adolescente.~ que jogam uma
partida de tênjs -, corno consegue saber que uma delas está mais
motivada que a outra? Como saber se o que um dos jogadores
demonstra é maior qualidade de motivação que o outro?
Emtcm duas llll1lleirns de inferir motivação cm outra pessoa.
A primeira delas é observar n.~ manifestações comportamentais da
motivaç".io. Por exemplo, para infcrirmosqueJoãoestácom fome.
observamos se ele está comendo mais depressa que de costume.
se está mastigando com m-Jis força. se está falando de iguarias
enquanto come. ou se está ll'OC'ando o respeito a certa.~ conven•
ções sociais pela possibilidade de se alimentar. O comportwncnto
mais r.í.pido, intenso C' determinado de João implica que algum:i
força o está encrgizando e d irecionando a se alimentar. A segunda
maneira de inferir a motivação é observar atentamente os note•
cedentes que. segundo se sabe. conduzem a estados motivacio•
nais. Por exemplo. depois de ficar 72 horas privada de alimento,
uma pessoa fica fruninta. Quando recebe uma ameaça, a pessoa
sente medo. Quando vence uma competição, o vencedor sente-se
competente. A privação de comida leva à fome. a percepção de
uma ameaça leva ao medo, e mcn.~agcns objetiva_~ de realização
IC\'am a uma scnsaç5o de competência. Quando conhecemos os
antecedente.~ da motivação de uma pessoa, aiio temos necessi-
dade de inferir a motivação a partir do seu componamento. Ou
seja. é possível dizer por antecipação qual é o estado motiva•
cional da pessoa, podendo-se fazer isso com uma boa dose de
confiança. pelo menos na medida em que perccbem05 que a
pessoa ficou !>CID comer, foi ameaçada ou acaba de ganhar um
campeonato. Entretanto, nern sempre é possível conhecer esses
antecedente.~. Às \?ezes, é necessário inferir a motivação a partir
das expressões do indivíduo - do seu compo.rtamcnto, da sua
fisiologia e do seu auto-relato.
O Comportamento
Há sete aspectos do comportamcato que citprcssam a presença,
a intensidade e a qualidade da motivação (Alkinson & Birch,
1970, 1978: BoUes. 1975; Ekmao & Fricsen. 1975): o esforço,
a latência. :i pcrsistênci~ a escolha. a probabilidade de resposta.,
as expressões faciais e os gestos corporais. Esses sete aspectos
do comportamento, mostrados na Tabela 1.2. fomeccm ao ob!>er-
"ªdor dados que lhe pernútem inferir a presença e a intensidade
da motivação do sujeito obser\'ado. Quando no compona1ncnto
se constata a presença de um intenso esforço, de mna pequena
latência, uma grande persistência. uma alta probabilidade de
ocorrência., urna gr-.mde expressividade facial ou gestual, ou
quando o indivíduo persegue uma meta ou objeto especifico ao
mesmo tempo que deixa de perseguir outros, tudo isso constitui
evidências que nos permitem inferir a presença de um motivo
relativamente intenso. Por outro lado. quando no comportan1enlo
se observa uma participação apática. uma longa Latência. UJllll
pequena persistência, ama baixa probabilidade de ocorrência.
um nível mínimo de expressões faciais e gesruais. ou o indi-
víduo persegue um objetivo ao mesmo tempo que também se
dedica a um outro. tudo isso são evidências que nos permitem
inferir que o moúvo está ausente ou, pelo menos, é relativamente
fraco. O termo "cngajaincnto"dá muito bem um senso geral de
quão inteo.~a é a motivação da pessoa. O engajamento refere-se
6 Capfrulo Um
Tnbela I .2 Expres.ões Comportrunentais. d:i Molivaçllo
E,forço
L:uência
Per..~tência
Escolha
Quantid:ide de energia empregadn na 1entativa de execução de uma tarefa
Tempo dur.ime o qual uma pessoa adia ,ua resposta apó> 1er sido inicialmente exposta a um esúmulo
Tempo deconido entre o ittício e o fim de um:i resposta
Qu:u1do ;;e está diante de dua, ou m:iis possibilidades de ação, mostra-se preferência por uma delas. em
detrimento dn.,; denws
Probabilidade de resposrn
Expressões faciais
Nllmero (ou porceruagemJ de oca,iões ein que se verifica uma resposrn orieiu:ada para u1n delerminado
objetivo. quando ocorrem diversas oponunidades diferentes para o componam.emo ocorre,
Movin-.entos faciais. como torcer o llllriz. le\!llnlOJ' o lábio superior e baixar u,n pooco ª--' sobrancelhas (p. ex ..
nunm express.~o fadai de desgosto)
Sinais corporoi s Sinais corpotni,. tal, como posmro, mudanças no apoio do ~ e movi meiuos de perna,,. braços e m1lo.,
(p. ex., fiCM com os punhos cerrados)
à intensidade e à qualidade emocional do envolvimento de uma
pessoa em uma atividade (ConneU & Wellborn, 1991; Slrinner
& Belmont 1993). referindo-se aos aspectos tanto do compor•
lamento quanto emocionais. tais como o fato de que em um
estudante engajado percebe-se não só ba.-rumtc esforço, persis-
tência. atenção. etc .. mas também um tom emocional positivo
(p. ex~ alto interesse. baixa an.~iedade). durante as atividades
que ele realiza.
A Fisiologia
Quando as pessoas e os animais se preparam para realizar
diversas atividades. os si~tcn1as nervoso e endócrino produzem
e )jberam diversas suh.~tâncias químicas (p. ex. , neurotransmis-
sores. hormônios). que fornecem sustenlllção biológica para os
estados moLivacionais e emocionais (Andrea.,;si, 1986: Coles.
Ponchin & Porges, 1986). Por exemplo. ao fa1.er um discurso, o
or"J.dor pode e,'l;perimentar diversos graus de estresse emocional,
e essa sensação manifesta-se fisiologicamente por meio de um
aumento das catccolaminas plasmática.~ (p. ex., da adrenalina;
Bolm-Avdorff et al .. 1989). Para mensur.ir essas altcrnçõcs
neurais e hormonais. os pesquisadores se valem de exames de
sangue. de saliva, de urina. bem como de uma grJnde quan-
tidade de medidas psicofisiológicru. que envolvem complexo~
equipamentos eletrônicos. com o propósito de observar a :1Livi-
dade neural do cérebro (p. ex .. EEG. ou eletroencefalograma).
Ut ilizanrlo essas medidas. os pesquisadores da motivação moni-
Tabela L3 Expre,:.õe Psi<:ofisiotógicns da Motivaç1!o
toram o batimento cardíaco, a pressão sanguínea, o taxa respirJ•
tória. o diàmelro da pupila. a condutância da pele, o conteúdo do
plasma sanguí nco, e outros índices do f uncionamcnto fisiológico
da pessoa. com o objetivo de inferir a presença ou intensidade de
estados emocionais e motivacionais subjacentes. Os seis sistemas
corporais de excitnção que expr=m a emoção e a motivação
são o sistema cardiovascular, o sistema plru.mático. o sistema
ocular. o sistema cletrodénnico. a atividade musculocsquclética
e a atividade ccrebr.it conforme listados na Tabela 1.3.
O Auto-Relato
Uma lcrccirn maneir.i de coletar dados paro inferir a presença.
a intensidade e a qualidade da motivação é simplesmente fazer
perguntas. Em uma entrevista ou questionário, é comum as
pessoas informarem sua motivação. Por exemplo, para avaliar a
ansiedade de seu entrevistado, o entrevistador pode lhe perguntar
quão ansioso ele fica c-m determinadas situnçõcs, ou então pedir-
lhe que relate sinlomas relacionados à ansiedade, t:ais como sentir
uma indisposição csto1nacal ou ter pensa.n1entos de fr.icasso.
Os questionários apresentam algumas vantagens. São fáceis de
aplicar. podem ser respondidos por várias pessoas 110 mesmo
tempo e têm a versatilidade de tratar de informações especí-
ficas (CarL~mith, Ellswonh & Aroru.on. 1976) . .Entretanto. os
questionários tnmbén1 apresentam certas armadilhas., que podem
levantar algumas suspeitas quanto à sua utilidade. Por exemplo.
muitos pesquisadores reclamam da fnJtn de correspondência entre
Auvidade cardiovascular A atividade do coraçllo e dos \'3.'iOS sangll(noos Olllnenta qunndo se está dianle de 1nreías diffcelç ou
de.afiadoras, ou de incentivos atraenh!:S.
Ali \'idade ptasmJltica
Ati\'id.lde ocular
Ali\•idade eletr0dér1niea
Ali\·idade esquelética
Atividade cerebral
Substãneiru. t'()ntida., rui corrente sanglllnea. parliculaunente ru. catecolamina.,, !ai... como epintltina e
norepinefrina. reguladoras da reoç"'.JO que preparo o i1l<li, fd110 para a llllll ou a fuir.1..
Co,nportame1110 oculJlr - tamanho Lia pupila. freqUé:ncia de piscndelà!> e do,, mo,•imento,. oculares.
O tam3nho da pupila ten.1 relaçllo oom o nfvel de ali vidade meu1nl: piSClldelas Ítl\ oi uni.ária., exprel.sam
alterações nos eMados cognitivo:.. além de pontos de u-an,,içll.o no nuxo de ptoeéssatuento da informação:
e os n\OVitnentos laterais dos oU>OS aumentam de rrequ~ncia durante o pensame1110 reflexivo.
Alterações elétricas na super1lcie da pele, como DO!. nio1oe11Los em que a pesi,oa sua. &lfnwlo, novo;,.,
emotivo,-. am~açadores e capazes de prender a atençllo evocam todos 111na atividade eletrodétt11ica para
exprimir runeoça, a\ersilo e significância dos estin1.ulos.
Atividade mu.cular. tal como ocorre com as expressões faciais e os gestos corpornis.
Atividade de \'árias panes do cerebro. tais como o córtex e o si~1ema Umbico.
o que as pessoas dizem que fazem e o que elas de fato fazem
(Quattronc. 1985: Wickcr, 1969). Além disso. também existe
uma falta de correspondência entre a maneira como as pessoa.~
dizem que se sentem e o que a atividade psicofisiológica delas
indica que elas podem estar sentindo (Hodgson & Rachman.
1974: Rachman & Hodgson. 1974). Em virtude disso. o que as
pessoas dizem sobre seus motivos às vezes não equivale ao que
suas expressões comport:uncntn.is e fisiológicas sugerem. Por
exemplo. que conclusão se pode tirar de alguém que verbaJ-
mcntc informa estar sentindo pouca raiva. quando essa pessoa
apresenta uma pronta latência para agredir, uma rápida acele-
ração no batimento cardíaco e tem o cenho franzido? Em virtude
dessas discrepâncias, quem pcsqui.~n n motivnção gemlmcntc
confia e se baseia nas medidas comportamentais e fisiológicas.
mas desconfia da..~ medida.~ de auto-relato. e só se baseia nelas
de modo conseivador. Ponanto, as medidas de auto-relato são
utilizadas principalmente para confirmar a validade das medidas
comportamentais e fisiológicas.
TEMAS PARA O ESTUDO DA MOTIVAÇÃO
O estudo da motivação abrange un1a ampla gama de suposições.
hipótese.~. teoria.<.. constatações e domínios de aplicação, como
será visto nos próximos capítulos. Mas o estudo da motivação
também tem alguns temas unificadores. que integram todos esses
elementos cm um campo de estudo coerente. o qual inclui os
seguintes pontos:
• A motivaç.'io beneficia a adaptação.
• Os motivos direcionam a atenção.
• Os motivos variam no tempo e influenciam o fluxo do
comportamento.
• Existem Lipos de motivaç-:io.
• A motivação inclui tanto as tendências de aproxin1ução
quanto as de afa.."1alneato.
• Os estudos sobre n motivação revelam aquilo que as
pessoas desejam. ,
• E preciso haver situações fa,•oráveis para que a moti\fação
floresça.
• Não há nada Lão prático como uma boa teoria.
A Motivação Beneficia a Adaptação
As pessoa.~ são complexos sistemas adaptativos. e isso é
importante. visto que os ambientes cm que vivemos estão em
contínua mudança. Por exemplo. as ofertas de emprego crescem
e decrescem. as oportunidades educ.acionais surgem e desapa-
recem. as relações melhoram e pioram, uma lcmporada espor-
tiva aumenta e diminui de intensidade. a saúde das pessoas sofre
crises e se rccuper.1. e assim por diante. A motivação beneficia a
adaptação paru essas circu.nstSncias de con.-.tante mudançaporque
o estado motivacional permite à., pessoa.~ serem sistemas adapta-
tivos complexos no sentido de que. sempre que ocorrem discre-
pâncias entre as demandas momcntti.• cus e o nosso bem-estar.
experimentamos estados motivacionais que prontamente nos
levam a tomar ações corretivas.
Se as pc.•,soas ficam hora.~ sem comer ou se o suprimento
de alimento é escasso, a fome aparece. Quando aumentam os
lnttoduçilo 7
pr.izos dos compromissos. o estresse aumenta. Quando uma
pessoa ganha o controle sobre um problema difícil. um sentido
de competência surge. Portanto, um tema que sempre aparecerá
neste Livro é o de que os estados moúvacionais (p. ex., fome.
estresse. co1npetcncia) fornecem meios-chave f)'dl1l os indivíduos
serem bem-sucedidos ao enfrentarem as incvitávci, exigências
da vida. Sem os estados motivacionai~. as pessoas rapidamente
perderiam un1 recurso vital no qual se baseiam para se adaptar e
manter o seu bem-estar. Qualquer pessoa que tente perder peso.
escrever um poema original ou aprender uma língua cstrnngcir.1.
sem primeiro estabelecer a motivaçiio. rapidamente perceberá
que a motivação beneficia a adaptação. A lição que aprendemos
disso é que a motivação nos preparo e nos permite perder peso,
atuar criativamente e aprender habilidades complexas.
Quando a motivação diminui, a adaptação pessoal fica
prejudicada. As pe.-.soas que se sentem impotentes ao tentarem
controlar seu próprio destino tendem a desistir rapidamente
quando desafiadas (Petcrson, Maicr & Scligman. 1993). A
sensação de desamparo destrói a capacidade que as pessoas tên1
de enfrentar os desafios da vida. Os indivíduos que costumam
ser espezinhados. c-0agidos e controlados pelos outros tendem a
se tomar emocionalmente pros trados e insensíveis às esperanças
e aspirações próprias de suas necessidades psicológicas internas
(Dcci. 1995). O fato de ser controlado por outros destrói o capa-
cidade do indivíduo de gerar motivação dentro de si mesmo. Por
outro lado, quando os estados motivacionais forem fortes e deter-
minados. a adaptação ~soai ílorcscc. Quando. por exemplo.
as crianças cslâo excitadas com a escola, quando os 1r.1balha•
dores tên1 confiança em sua própria capacidade e quando os
atleta..~ propõem a si mesmos desafios mais e mais runbiciosos.
seus respectivos professores, supervisores e rrcinadorcs podem
contar que havera sucesso na adaptação de seus subordinados ao
ambiente que lhc.s é único. Os indivíduos que têm alta qualidade
motivacional se adaptam bem e prosperam: e os indivíduos com
insuficiência rnoti vacional fracassam.
Os l\1otivos Direcionam a Atenção
Os ambientes exigen1 constantemente nossa atenção. e o fazem
cm uma profusão de maneiras. Por exemplo. o simples ato de
dirigir um carro por uma estrada obriga-nos a fazer diversas
coisas-encontrar nosso destino, cooperar com os outros moto-
ristas, evitar bater nos outros veículos. ouvir e responder ao que
nossos passageiros dizem. não derramar o café que porventura
estejamos bebendo, e nssim por diante. De modo semelhnnlc.
um universitário deve sin1ullaneamente obter boas notas, manter
suas velhas amizades, alimentar-se de forma saudável, adminis-
lrJr com eficiência seu tempo e seu dinheiro, fazer plano.~ para
o futuro. lavar suas roupas, desenvolver seus dotes artísticos.
manter-se informado sobre o que se pa~sa no mundo, e açsim
por diante. Quem nos pode dizer se nossa atenção c.~tá voltada
para uma direção ou para outra? Muito desse "dizer'· relaciona-
se com os nossos estados motivacioaai~. Os motivos chamam.
e às vezes exigem. a nossa atenç-ão. fazendo-nos ater a aspectos
específicos do ambiente em detrimento de outros.
Os motivos afetam nosso modo de agir porque dircc.ionam
nossa atenção com o propósito de selecionar detenni.nados
8 Capfrulo Um
Tnbela I.4 Co1no a., Mouvo, lnfluendam o Comportruneiuo de UJn Aluno Senllldo à Mesa de &rodo
E,..emo Mouvodo Ação Relacionada com Urgência do M 01.ivo
Ambiental Excitação o MOli\'o Relevante Conseguindo Swtus de Atenção
Livro lnteres.se Ler o capfwlo •
Refrigerante Sede Tomar a bebida •
Vozes conhecidas Afiliação Con,ersar com os amigos •••
Dor i.le cabeça Evitar a dor Tomar um analgéMCO ......
Falmde sono Descanso Deitar-se e cochilar *
Perspecti,'3 de competição Realizaç5o Esrudac ••
Obscn,çio: ru, qu:ut:1 colnn:,_ o n6mcro d< asteriscos n,pn:s,,nm • intcns.id!lldc do .-i,·o eh excitoçiio_ lJm l>Slmsco "'P"""Dlll o m::ús b,mm nfrcl d< mtros,d:ide.
cnquanio qoc Cl"'-"O lbl<'ri>cos rcprc.<cntam o nfrcl mais al10.
comportamentos e ações. e de relegar outros. Uma ilustração de
como os motivos prendem nossa atenção e determinam nosso
co,nportamcnto aparece na Tabela 1.4. As quatro colunas desta
1.abela listam. da e.~qucrdo para a direita. (a) os diversos aspectos
do ambiente. (b) um motivo que o evento ambiental costuma
suscitar. (c) uma direçõo da ação apropriada paro esse motivo e
(d) uma prioridade hipotética ou sentido de urgência para cada
direção da ação. conforme determinada pela inten.--.idade do
motivo subjacente. Embora sejam possíveis seis direções da ação.
a atenção do indivíduo niio está dividida igualmente entre cada
uma delas, porque a intensidade dos motivos que estão associados
a elas varia (como se nota pelo número de asteriscos na última
coluna à direita). Uma vez que o interesse, a sede e o dcsc-mso
não são premcnte.'I naquele instante em particular (um .L'lterisco).
sua inLensidade é fraca e insuficien Le para chamar a atenção do
indivíduo. Já o motivo para evitar uma dor de cabeça é altllmentc
premente (cinco asteriscos). sendo. ponanto. forte candidato a
ch:un:u- a atenção e direcionar o comportamento do indivíduo.
fazendo-o tomar um analgésico. A dor. a.'lsim como muitos outros
motivos, tem uma habilidade intrínseca para prender, manter e
direcionar nossa atenção (Bollcs & Fanselo\V, 1980; Eccleston &
Crombez, 1999). Portanto, os motivos influenciam o comporta-
mento prendendo nossa atenção, fazendo-nos interromper nossas
ocupações. distraindo-nos de fazer outra.'I coisas e impondo-nos
prioridades sobre o nosso comportame11to.
Os Motivos Variam no Tempo e Influenciam o
Fluxo do Comportamento
A motivação é um processo dinâmico - que está sempre
mudando. ora aumentando. ora dimintündo - e não um evento
discreto ou uma condição estática Não só a força da motivação
fica constantemente subindo e descendo. n1as também a cada
inst:mJe especifico a.~ pessoas nutrem uma profusão de diferentes
motivos. Nutrir uma profusão de motivos é importante paru a
adaptação porque as circunstâncias e as situ::ições silo complexas.
e as pessoas precisam ser motivacionalmcnte complcxa,o; par.i
se adaptarem. Geralmente. um moúvo se destaca como o mais
forte e apropriado para uma dctcrm.inada situ:içào. ao mesmo
tempo que os outros ficam relaúvamente subordinados (isto é.
um motivo domina nossa ::ucnç-lo, enquanto os outros ficam rela-
tivamente dormentes. como na Tabela 1.4). Em gcr.11, o motivo
mais forte exerce a maior influência sobre nosso componamento.
mas cada um dos motivos subordinados pode se tornar dominante
caso as circunstância~ ,e alterem, exercendo inces.s:mtemenlc sua
iníluência sobre o nuxo do comportruncnto.
Como ilustração disso. imagine uma típica taTefa de estudo.
em que um estud:mtc senta-se à mc_~a com um livro nas mãos. O
objetivo do estudante é ler o livro. um n1otivo relativamente forte
ne,sa ocasião, vi!>to que ele terú em breve que fazer uma prova.
Nosso estudante então estuda durante uma hora. mas du:r:mte
esse tempo pode ocorrer que sua curiosidade já esteja satisfeita.
que o cansaço se mani ÍC$LC e que diversos motivos subordinados
-tais como fome e desejo de se juntar aos colegas - comecem
a aumentar de intens idade. TaJvcz um cheiro da pipoca vindo
do cômodo vizinho tenha entrado em sua sala, ou talvez a visão
de um amigo próximo passando no corredor tenha aumentado
seu motivo de estar con1 amigos. Se este último motivo cresceraté assumir um nível dominante, enlào o estudante mudará seu
comportamento, largando o li vro e indo se cncontr.ir com os
amigos.
A Figura 1.1 mostra um fluxo contínuo de componamcnto em
que wna pessoa realiza um conjunto de tres procedimentos. X.
Y e Z (p. ex .. estudar. comer e socializar-se; Atkinson, Bongon
& Price. 1977). A figura representa graficamente as mudanças
de intensidade de cada um desses três motivos. que produzem o
fluxo observado de componamenlo. No instante 1. o motivo X
(estudar) é o dominante. enquanto que os motivos Y e Z encon-
tram-se relativamente s ubordinados. Já no instante 2. o motivo
Y {comer) suplantou cm intensidade o motivo X. enquanto o Z
permaneceu subordinado. E no instante 3. o motivo Z (estar com
amigos) tomou-se o dominante. passando a exercer sua inllu•
ê ncia no fluxo do comportamento. No geral. a Figura 1.2 ilustra
que (a) as intensidades dos motivos variam con1 o tempo; (b)
durante todo o tempo atuam nns pessoas diversos motivos de
diferentes intensidades, cada qual tendo a capacidade de chamar a
atenção e de participar do fluxo de comportamento, dependendo
das circunstância.~ apropriadas: e (e) o.~ motivos não são algo que
a pessoa tem ou não Lcm: na venlade eles crescem e decrescem.
à medida que mudam a.'I circunsrancias.
Existem Tipos de Motivação
Para aJgumas pessoas. a motivaç-:io é um conceito unitário. O
aspecto-chave da motivação é a sua quantidnde ou nível de inten-
sidade. Partindo--se desse ponto de vista popular, a única pergunta
lnttoduçilo 9
ComportaJ11t11lo
ObsttVlldo X Y ZX Y ZX Y X
- - --,1- - - r - 1- - r -- - - -,- -;t--1----r-•
Fone:
Força
do Motlwo
o l 2 3 ,( 6 7
Moe Ivo X
Motl•,oY ------- l l ot h-o 2
8 9
Ttmpo ----•
Figura 1.2 O FIUJto do Comportamento e w, Alterações na FOl'Ço de Seus Moti\'OS Subjacentes
Fontr. Adaptado de Co111utlv~ Control "Í Action. de O. Bin:h. J. \V. Atbnsoo e K. Bongort. em B. \Vcner led.). Co91Ji1i1•~ v;,.... of Human ~fotfrtJlion lpp. 7l-lW).
1974. Nova Yort: Ac:idemk Pr,,ss.
que se deve fazer sobre a motivação é "quanto?" Ou seja. consi-
derada como um constructo unitó.rio. a motivação varia desde
inexistente, passando por pouca. moderada. até alLa ou muito alta.
Ao me.~mo tempo. os profission:us envolvidos com problemas
de motivação (professores. gerentes. treinadores) seguem essa
mesma linha para tratar da permanente questão: "De que maneira
é possível aumentar a motivação de meus alunos. empregados
ou atletas?''
Por outro lado, diversos teóricos desse assunto sugerem a citis-
tência de importantes tipos de motivação (Ames. 1987: Ames &
Archcr. 1988: Atkinson. 1964: Condry & Stokkcr. 1992; Dcci.
199211). Por exemplo, a moth•aç.io intrínseca é diferente da
n1otivaçâo eitlrinseca (Ryan & Dcci. 2000a). A molivação para
aprender é diferente da motivação para fa7.cr (Amos & Archer.
1988). E a motivaçuo para se atingir sucesso é diferente da moti-
vação paro se e1<itaro fracasso (EJ]iot, 1997}. Em outras pal:ivrn.~.
os seres humanos são motivacionalmente complexos (ValJerand.
1997).
Observe um allcta treinando. um nlu:no estudando, um empre-
gado trabalhando e um médico cuidando de um paciente. e você
vera vwiaçõcs na intensidade da motivação de cada um. Mas uma
observaç.'io iguaime_nte imponante a ser feita é perguntar-se por
que eada um de..,;.,;e.s indivíduos executa essas rarefa.,; específicas.
Ater-se aos tipos de motivação é importante porque alguns desses
tipos proporeionam experiências m::tis elevadas. desempenhos
mais favorávci.~ ou resultados psicologicamente mais gralifi-
e.:intes do que outros. Por exemplo, os estudantes que aprendem
cm decorrência de uma motivação intrínseca (provocada pelo
seu próprio interesse ou curiosidade) demonstram mnis criati-
vidade e mais emoçuo positiva do que aqueles que aprendem
a partir de uma motivação extrínseca (provocada por ameaças
físicas ou pela imposição de pra7.0S a serem cumpridos: Deci &
Ry:in. 19&7 ) . Quando desejam alcançar um objetivo. os estu-
dantes cuja meta é obter o sucesso ( .. Meu propósito é conseguir
um A") apresentam um desempenho cnom1cmcntc superior ao
de estudantes igualmente capa.zes. mas cujo objetivo é evitar
o frac~so ("l\1cu propósito é não tir.u- um F'; Elliot.. 1999).
Frcqilcntcmcnle - numa escola cm que htí muitos alunos, em
um hospital em que há muitos médicos. ou em uma equipe de
allctas esforçados - as pessoas não diferem muito quanto a seu
níve l de motivação; em vez disso, podem variar quanto ao tipo
- ou qualidade - des.'1:1 motivação.
As emoções também mostram que os moti1•os variam não só
de intensidade. mas também de tipo. Por exemplo. uma pe.,;.,;oa
que está sentindo muita raiva campana-se de maneir:i bastante
diferen te de uma outra que sente muito medo. Ambas estão alta-
mente motivadas. e se a pergunlll ··quantor· é importante. •·que
tipo?" (de emoção) igualmente o é. Sendo a.,;.sim, uma análise
motivacional completa do comportamento responde a ambas as
perguntas: "quanto?" e "que tipo?" Provavelmente a experiência
já dc,•c ter ensinado a você a importlincia da pergunta "quanto?";
os próximos 15 capíLulos irlío ilustrar o fato de que a pergunta
"que tipo?" t:unbém é igualmente importante.
A Motivação Inclui tanto as Tendências de
Aproximação quanto as de Afastamento
Em gc.ral, as pessoas pressupõem que estar motivado é melhor
do que não estar. De fato, as duas perguntas que se fazem com
maior freqüência quanto à motivação são: "De que modo cu
consigo motivar a mim mesmo para fazer melhor (ou mais)?" e
"Como poderei motivar outra pessoa para que ela faça melhor
(ou mais)?" Em outras palavras., como é possível conseguir mais
motivação do que agora se tem. seja para si mesmo. :seja para
os outros? É claro que a motivação é um estado que as pes..<;0a.~
tentam obter tanto para si própria.~ quanto para outras.
O problema é que às vezes a moti vaçiio não é nada agradável.
Na realidade. vários sistemas motivacionais são aversivos por
natureza - a dor, a fome, o sofrimc.•10, o medo. desavença.~. a
ansiedade. a pressão. o desamparo. e a.,;.,im por diante. Os cstndos
emocion:us de fato nos fazem aproximar-nos das oportunidades
ambientais e melhorar nossas vidas, e temos muitos m• ti vos para
i.,so (p. eJt.. interesse. esperança. alegria. motivação p:ira re-.ui7.ar.
au10-ntuali.U!çào). Entretanto, outros estados emocionais f37.Cm•
nos evitar as .situações avcrsivas. de ameaça ou de ansiedade.
Há motivos que prendem nosso interesse. como a ansiedade e
a tensão. que essencialmente nos 1iraniZllm. a té que façamos
com eles o que lhes é devido. ajustando nosso compon:unento
10 Capíu1Jo Um
de acordo com as circunstiincins. E nesse caso. mais freqüente•
mente do que nunca. vale a observação de que "qu:into maior a
initação. maior a mudança" (Kimble, 1990. p. 36).
Os seres humanos são animais curiosos. intrinsecamente moLi•
vados e conlinuamcn1c em busca de sensações. sendo dotados de
objetivos e de planos que lhes permitem vencer desa.fios. dcscn•
volver relações de afeto com seus scmolhan1cs, serem incenti•
vados de maneira positiva. aprimorar-se e crescer psicologica•
mcnle. Entretanto, também é verdade que as pessoas são cstrcs•
sadas, frustradas, inseguras, coagidas, amedrontadas, magoadas,
deprimidas. além de cs1arcm sempre se deparando com situa•
ções que gostariam de evitar. Também é freqüente. e talvez até
normal, que as ~soas experimentem esses estados n1otivacio-
nnis e emocionais positivos e negativos ao mesmo tempo. Par.i
obter uma adaptação ótima. os seres humanos dispõem de um
repertório moti\'acional que inclui tanto os moth·os aversivos,
baseados na evitação. quanto os motivos positivos. baseados na
aproximação.
Os Estudos sobre Motivação Revelam
Aquilo que as Pessoas Querem
Além de revelar o motivo de as pessoa.~ quererem algo. o estudo
da motivação também revela qual é de fato o seu desejo -
mostr.indo literalmente o conteúdo da natureza hun1ana. Osfatos essenciais da motivação e da emoção dizem respeito às
nossas esperanças, nossos anseios, nossas vontades. nossas
necessidades e nossos te1nores. São questões como saber se a~
pcsso:.L~ são essencialmente boas ou más, mlturalmcntc nLi vas ou
passiva.\. cordiais ou agressivas. altruístas ou egocêntricas. se são
livres para escolher ou se agem sob a determinação de prc.,;sõcs
biológica.'!. e se traz.em ou não dentro de si tendências que lhes
pcrmi tem crescer e auto-realizar-se.
As teorias da motivação reve lam o que existe de igual entre
os esforços que todos os seres bunmaos fazemos, com vistas a
identificar os pontos em comum entre as pes.was de diferentes
cullUJ'llS. diferentes experiências de vida e diferentes dot:ições
genéticas. Todos nós expcrimentnmos necessidades fisiológic:is
tais como a fome. a sede. o sexo e a dor. Todos nós herdamos
condiçõc.'I biológicas. como o temperamento e os circuitos
neurJis no cérebro, para o prazer e a aversão. Todos nós com par•
tilhamos um pequeno número de emoções bá.~icas. e sentimos
essas emoções nas mesmas condições, tais como o medo diante
de uma ame.iça e o sofrimento diante da perda de algo ou alguém
que nos é caro. Todos nós interagimos com o que nos cerca
por meio de uma mesma plêiade de ncc~dadcs, à medida que
exploramos nosso ambiente, dcsenvoh·emos nossllS competên-
cias, aperfeiçoamos nossas habilidades e estreitamo;. vínculos
com quem amamos. Todos somos hedonistas (buscamos o prazer
e evitamos a dor). dando a impressão de estarmos sempre em
busca de diversão. bcm-estnr e crescimen!o pessoal (Seligman
& Csikszentmihalyi. 2000).
E,;sas teorias também revelam a.'I motiv.~s que siio apreen-
didas por meio da experiência- motivos que niúdamenteestão
for.ido domínio da natureza humana. Por exemplo, por meio de
nossa.~ experiências pessoais e únicas. adquirimos crenças de
habilidade. expectativas de desempenho. maneiras de explicar
nossos sucessos e nossos fracassos. valores. aspir.ições pessoais.
o sentido de self. e ass:i m por diante. E,;.sas manerra.'I de cncrgizar
e direcionar nosso comportamento provêm de forças ambientais.
dcscn,•olvimcntais, sociais e culturais (p. ex .. iaccntivos. reforça•
dores. modelos de papéis. possíveis s~lv~s de Ífill)ir.tção social.
papéis cultur:ú.'1) . Portanto, o estudo da motivação nos informa
qual parte da vontade e do desejo deriva da natureza humana. e
qual parte provém da aprendizagem pcssoaJ. socinl e cultural.
,
E Preciso Haver Situações Favoráveis para que a
Motivação Floresça
Não se pode separar a motivação de um indivíduo do contexto
social em que ele se situa. Ou seja. a motivação de uma criança
é fonemcntc aíctfilla pelo contexto social determinado por seus
pais, e a motiv-.içâo de um estudante é fortemente afetada pelo
contexto social oferecido pela escola. O mesmo se pode dizer da
motivação dos atletas. que são afetados por seus técnicos. dos
pacientes, afetados pelos médicos. e dos cidadão~. influenciados
pela sua cul tura. Em relação à motivação de crianças. estudantes.
atletas. e as!.im por diante. os ambientes podem ser vantajosos e
favoráveis, ou podem $Cí negligentes e prejudiciais. Os indivíduos
inseridos em contextos sociais que os apóiam e que favorecem
suas necessidades e seus esforços apn:senta1n m,úor vitalidade
e maior crescimento pessoal, prosperando mais que aqueles que
estão imersos cm um ambiente de desamparo social e frustr.ição
(Ryan & Deci. 2000a). Reconhecendo o papel que os contextos
sociais dc.~empenh:un na motivação e no bem-estar, os pesquisa•
dores motivaciomüs procuram aplicar os princípios da motivação
com vistas a fazer a motivação florescer nos indivíduos.
Este livro enfatiza quatro áreas de aplicação:
• Educação
• Trabalho
• Espones e Exercício físico
• Terapia
Em lermos educacionais. urna compreensão da motivação
pode ser aplicada para promover maior participação do aluno
em sala de :1ula. pa:ra estimular a motivação que faça o aluno
desenvolver seus talentos, como no música. e para informar aos
professores de que modo obter cm sala de aula um ambiente favo•
rável, que satisfaça às necessidades e aos interesses dos alunos.
No tn1balho. uma con1precnsão da motivação pode ser aplicada
à melhoria da produti ~idade e da satisfação dos trabalhadores,
a construir crenças confiantes e de recuperação rápida. a evitar
o estresse e a estruturar tarefáS que lhes ofereçam aí veis ótimos
de desafio, de variedade e de relacionamento com os compa•
nhciro.,;. Nos cspones. pode-se aplicar a compreensão da moLi•
vaçào ao problema de identificar as r.uões pela.~ quai.~ os jo,•cns
participam de ntividadcs físicas. a planejar programas de cxer•
cícios que promovam uma adesão a longo prazo dos atletas, e
a prediz.cr os efeito.,; sobre o desempenho exercidos por fatores
tais como a competição interpessoal. a avaliação do desempenho
e o estabelecimento de metns. Em terapia. uma compreensão da
motivação pode ser utilizada para melhorar o bem-estar mental
e enux:ional. para cultivar um senso de otimismo. favorecer o
amadurecimento dos mecanhmos de defesa, explicar o par.idoxo
de por que os esforços para se obter controle mental podem t:iío
freqüentemente sunir efeito contrário, e avaliar o papel que as
rclaçõc~ interpessoais de boa qualid:lde desempenham nn moli•
vaç-jo e na saúde mental.
À medida que obser.•a pais. professores. gerentes. técnicos e
terapeutas tentnndo motivar seus filhos. alunos. lrabalhudores.
atletas e pacientes. você notará que nem todas as tentativas de
motivação são bem-sucedidas, e que realn1ente existe uma arte
de motivar os outros. O mesmo pode ser dito das tentativas de
;.e moúvar a você mesmo. Por exemplo. dê-se o tr.1balho de
monitorar as emoções ex.pressas por crianças, c.-.tudantc. .. , traba•
lhadores. atletas e pacientes, à medida que são motivados por
outros. Quando as pessoa., se adaptam com sucesso e seus cstndos
motivacionais florescem, elas expressam emoções positivas. tais
como alegria, esperança. interesse e otimismo. Porém quando
são dominados por seu ambicnie e seus estados moti vacionais
se confundem. os indivíduos passam a expressar emoções nega•
tiva.~. tais como lristezn. dcscspcr.mça, fru.~tração e eslreSSC. Nos
próximos capítulos. uma boa pane do texto será dedicada às apli•
caçõcs práticas e à arte de motivar a si mesmo e aos outros.
N@@ Por que Fazen1os o que Fa=e,nos
Perg11n1a: Por que es;;o ,nrormnçào é impot1an1e?
Rnpc;sta. Eln no., toma aptos a realmente explicar por que as
p.!..OO.., Cazem o que fazem.
Ex plit'llr a moúva,;i!o - por qire lli, pei,soo,, flll<!m o que fàlem
- ~o é algo fádl. Há uma ,n,rfode de pos,frcís teorias rno1ivado-
n.ii, ('"Ele rez is~o porque __ ~). mm. o problema é que muitos dn.~
lt!Orii, propo,.ta, pelo, indivíduo\ par-a explicilr por que ru. pcs~ro,.
f:lh!m o que fazem potkin nilo .e mo,trur d<: muiw ulilidaili!.
Quando con, en_o com as pes,;oas no dia-a-dia. oo qW11tdo na
pl'Íml:'.ira .,enuna de aub p.;rgunto 30!. meus alunos sobte ~= teoria.,,
moúvaeionais. oo quando leio no, jatnaL, coluM:> de aconselhJl.
n:iento p,.ieoló!lico. as teoria., 4 ue áS pessoa.~ :ldown com inalor
freqOl!ncia sào:
• AUl~-Utllll
• lncencho.,
• Recompensa.,
• Elog1os
No Lopo dn li;,ta d4.,!>ll., rooría.~ poptlUll'C!, rui nlOll ,'l!Ç&> figura o
"aumento da au10-estuna ... A , 1soo da nuto-e~w1111 soo como algo do
úpo "Encorure Utna ru:tneit-.1 de a. pes.o:i,, õureru ~feitas con,ígo
mesmas. i.! tntllo bo:is coisas eo!lli.!Ç(ltllo a acoruecer·. ''Elogie ai.
pe,,oo,.. rcoompense-as. cu111prunente-a.,. ofereça-lho pequeno,
pn.'l.ente,, ou troféus: dê-Ih~, alguma L-erteia de que ela, .ão impor-
lJlllte.\ e que dia., ,uai, feli2el. ,irJo.'" O problentl dhS:t estroté~
é que el:i ~imple;,menie esul erruda. e tl3o há qua.lqtll!r e, ídência
emp!ricn que a sU>lente (Baume.is!J:r e1 ai .. 2003). Por exemplo. os
p,icólogo;. educacionah rotilleir-,unente <..-O!Wa1311'1 queo awne,uo
da auto-esú,na dos e,1udantes ni\o pro, oca aumento lle sua realí-
UIÇOO ac:itlêmica lMlltsh. 1990; Scl!cier & Krou.L, 1979: Sbaal\'Ü.
& Hagt\.el, 1990). Um ex-pre,iden1e da Associação Americana de
Psioolog,in ( A PA} chegou a concluir que "quase rulo há co11'1Jl1açôes
Não Há Nada tão Prático como uma Boa Teoria
ln1agine de que maneira você responderia a uma pergunta moti•
vacional como: '"O que faz João estudar tanto e por Unto tempo?'·
Para responder a isso. você precisaria começar com uma análise
de senso comum (p. ex .. "João estuda demais porque tem uma
altí:..~ma auto-estima.") Além disso. você poderia se lembrar de
uma situação similar a partir da sua própria experiência. quando
você umbém se esforçou muito. e poderia gcner.i.lizar essa expe•
riêncla para esta situação particular (p. ~ "A última vez que
estudei tanto assim foi porque eu tinha uma prova muito impor-
tante no dia seguinte.") Uma tcrccir.i estnttégia seria encontr.ir
uma especialista nesse assunto e inquiri-la (p. ex .• uMinha ,,jzinha
é uma professora experiente. de modo que vou lhe perguntar
por que ela acha que João esuí estudando tanto.") Todos esses
recursos são legítimos. informalivos e ajudam-nos a resolver
questões motivacionais: porém, outro importante recurso para
se responder a esse tipo de questão é uma boa teoria.
Uma teoria é um conjunto de v:uiávcis (p. ex .. auto•cficáci:i,
metas. esforço) e a.~ rclaçôe.~ que supomos existir entre elas (p.
ex .. uma fone crença na auto-eficácia incentiva as pessoas a esta·
beleccrem metas. e, feito isso, as metas incenlivam a promoção
de que n amo-e.,tinu <eJll c:ipaz de produzir o que quer que seJa"
(Selígman. citado em Azar. 1994, p. 4). ,
Obviruneiue, a au10-1.>s1Jlllll tem seu valor. E absurdodeseJar ulllll
b:ii.u rutto-e,úui-a a BlguénL Ma,. o problen1a é que a autô-ê,lim.1 n1io
é uma variá,-el musal lll3S s[U'l wn ef..-110 - um refie.to de coino e,lá
no;;sn vida. ou >eJa. um barlilnetro do na.so bem-estar. Quruido nossa
vid3 est.1 bein. a nuto-e,1Ín13 ~ e quándo est:1 oul. n nuto-estiJ.rui
cai. Enu-euuuo. i;,.,,o é muito Llifer.iote de ili2er qll<! n nutu-e,tima
cWJ/la melhora da nos.a ~ida. A falha lógica deM! eofilidemr a auto-
estitlu como utna f onie de moth ação :i.semclha-se ao dito popull1t Jt
"COIOCM o carro na fi'enle IIOl, bois~. A. llUIO-bÚOU é l1lllá ex~,oo.
não UJJl.1 cnu,a <la mou,·:iç-Jo. Ela é o carro. o.lo o, bois.
Se a n10úv:i,;ão não provém d" uin reservatóriovísí\'el de elevada
auto-estima. enlllo de onde elo \·em? De que ,naneira a., pessoa.,
conseguem .e sair bem em suas 1enrati\'as de esiudar mais. de come-
çarem a .e exercitar fisícameme, reverter maus hilbítos. resi,tir n
tem.içõe,, ou dominar unpubo, e .ipeti ies. Laí, oonio uso abusivo de
álcool ou de comida. de fulllllr.jog;u-. compr.irengredír'? Para melhor
compreendemlO', as fonces de moei vução que iníluenciiun nosso
componamen1od.i wn:11nancir-.icuusnl, de~víenlO> um pouco nossa
atenção da nuro-estima para a.~ teorias qu.e aparece,n na Tabelo 1.5.
H.ll nessa., 1e0< i~ e, íd!neíos emplri~ ~bre como nheror a ,nnneir.l
de as pe;.soàs pen.arem. senul'l!ln e se componttrelll. Algumas de$sa.,
1eorias g,r-.101 e111 torno das nere;.sidade, do!. 1ndi, filuo.: otllJ".l!. relà-
cion:lJll.,e no culú vo de mudo;. olimi,w e nni.mado, de pensrunento
(eogni~): 001ro> esuibelecem a., coniliçôe~ re\,po~\'eil. pe.lu.,
emoçõe.-. pchiti\'n.,: e ouu-"-, ainda referem-.e li udminls1r.1Çllo criie.
ciosa de incentivo,, e roru;equo'!nci:li. Portanto., oll.llldo oo pro,érbio.
recooiendàmo, ao leitor que leve a au1~tinui de volu paro seu
lug,ar ,ecundário. deix:mdo que a p:1.tte principnl seja ocupada pela.~
nova., toorias da moti\'llçilo (ba.~ada,, na,, nect'S,Jdndes. nns oogni-
çõel,. n.ii, e1noçôe!, e no, incentivos do,, indivíduo,,. que explicain a
causa de suas aurudes).
12 Capíu1Jo Um
Tnbela 1.5 Vln1e e Quatro Teooru. para o Esrudo da Mouvaçllo e da E,noçJo (com Suas Respectivas Referência., Bibliogr-.l!ica.)
Teoria da Motivoção
Moth•aç:lo por realiz.ação
Exciiação
Alribuiçilo
Oi,,.-onància cognitiva
Avaliaçito cognitiva
Emoções diferencia,,
lmpulso
Dinflinica da ação
Motivaçào e competência
Desenvolvimenio do ego
Expc,c1ativa x valor
Hipótese do feedback facial
Experiência rnáxima
E,1abeleci1ne1110 de ,netas
De.amparo aprendido
Processo opone n1e
Afeto positivo
Psicodinânúca
Rearância
A u10-r~allz~"ão
A Ulodetenninaçllo
Aulo-êficlcia
Busca de sen...ações
Es= e enfren1amen10
de grandes esforços). As teorias tnmbém fornecem uma estrutura
conceituai para a interpretação das observações comportamen-
tais, funcionando como pontes intelectuais que unem as questões
aos problemas motivacionais, fornecendo respostas e soluções
satisfatórias_ Com uma teoria molivacional cn1 mente, o pesqui-
sador aborda uma questlío ou problema do seguinte m.odo: uBcm.
segundo a teoria do estabelecimento de metas, a razão pela qual
João estucln tanto e por tanto tempo é porque ... ~ À medida que
voei avançar pelas páginas de cada capítulo e se familiarizar com
cada uma das teorias motivacionais. considere sua utilidade para
responder às questões que mais lhe interessam.
A Tabela 15 apresenta 24 teorias motivacionais que serão
mencionada.~ nos próximos capítulos. As teorias aqui figurnm
por dois motivos. Em primeiro lugar. a listn apresenta a idéia
de que o cerne de uma análisr molivacional de comportamento
são as sua~ teorias. Em vez de um :írido e abstraio domínio de
cientista..<;. uma boa teoria é a ferramenta mais pr".ú:ica e utilizável
para a resolução de problema.~ com que se dcfron1am estudantes,
professores. tr.ihalhadorcs. empregadores. gerentes. alletas, trei•
nadores. pais, tcrnpeutas e pacientes. Pamfrn..~cando Kun Lewin.
não há nada tão prático quanto uma boa teo.ria. que pode servi r
como um guia útil para a resolução de um problema_
Em segundo lagar. a lista das teorias pode servir como um
meio de monitorar a sua crescente familiaridade com o estudo
contcmporl neo da rnolivaçiio. É provável que agorJ você só
possa reconhecer algumas das teorias listadas na tabela. mas
você vcrú sua familiaridade com elru. aumentar a cada !>emana_ E
d:iqui a alguns meses. você se sentirá mais à vontade com todos
os 24 nomes que aparecem na Tabela J .5. quando experimen-
Refe,inc,as paro l nformnções Adiciono is
Elliot (1997)
Berlyne ( 196)
Weifler ( 1986)
1 Iarmon-Jones e Mills C 1999)
Deli e Ryan (1985a)
12.ard ( 1991)
Bolles (1975)
Alkínoon e Bireh ( l 978)
Haner ( 1981)
Loevinger ( 1976)
Vroom (1964)
Lnird (1974)
Csikszenm\ihalyi ( 1997)
Locke e L.11ha,n (2002)
Peterson. Mruere Sehgmnn (1993)
Solomon e 1980)
L-= (1987)
\Vcslin ( 1998)
\Vortman e Brehm (1975)
Rogers (1959)
Ryan e Deci (2000a)
Banduro (1997)
Zuckerruru1 (1994)
LazaruJ. (199 1 a)
tará a confiança de ter adquirido uma comprcensiio sofisticada
e complel:a de motivação e emoção. L~to porque compreende-
se o que seja motivação quando se compreendem as teorias da
motivação.
JUNTANDO AS PEÇAS: UMA ESTRlITURA
PARA SE ENTENDER O ESTUDO DA
l\10TIVAÇÃO
Uma maneira de integrar as questões permanentes. os fatos essen-
ciais e expressões da motivação está resumido na Figura 1.3. As
condições antecedentes afetam a condição do motivo subjacente
do indivíduo_ e os aumentos e diminuições dc.~sa condição do
motivo criam uma sensação de "'querer", que se expressa por
meio do comportumenlo ativo e direcionado para a meta. bem
como por meio da fisiologia e do auto-relato.
Tome cm COIL~idcração uns poucos cllcmplos ilustrJtivos.
Algumas horas de privação de alimento v:ondição antecedente)
provocam uma subseqüente queda no nÍ\•el ele glicose no plasma
{alteração da necessidade fisiológica). que na consciência será
representada como uma scnsaçiio de fome e um sentido de querer
comer. sensações cs.~as que energizam e direcionan1 o comporta•
mcnto prestes a aparecer, o fisiologia e o auto-relato. Da mesma
mnncira.receber um elogio por um trabalho bem-feito {condição
antecedente) fol1alccc uma pcrrcpção de competência que esLi -
mula um sentido de querer melhorar. que inten.sifica o compor•
lamento de persistência, acalma a fLsiologia e inspira auto-
relatos como .. Isso é bom". Assim também. uma ameaça pessoal
En"'8i:mçllo e Dil'f!Cfonanrt>nto:
• Compot'QJTICfllO
Condiçõc:s - U11,oênda - Sentido de ' Antt"CC'dcntcs ' do MoU\'D - 'Quatt" .
• Fislotogb
/ ·• ~
Ntt=ld:uks C..ognl\'ÕCS ~
Figuro 1.3 Esquetna para se Compreender o Estudo da Motivaçllo
(condição antecedente) pode fazer surgir o medo (emoção) e
daí uma sensação de querer fugir e de proteger a si mesmo. um
sentido que prenuncia o comportamento da pessoa (fazendo-a
correr), a fisiologia (aumentando seu batimento cardfuco) e o
auto-reluto (preocupação. nervosismo).
O resumo apresentado (Figura 1.3) ilustra o modo como os
psicólogos moLivaeioruús respondem a essas questões pcrma•
nentes. Ou seja, o modelo identifica as condições em que os
motivos aumcntrun c diminuem de intensidade (à medida que
são influenciados pelas condições antecedentes), iluslra o objeto
do estudo da motivação (necessidades. cognições. emoções) e
mostra de que maneira as mudanças na motivação se manifestam
(comportamento. fisiologia, auto-relato). A maneira como todos
esses processos trabalham juntos para explicar um fenômeno
motivacional específico é o dever de uma teoria. Por exemplo,
o propósito essencial de cada uma das teorias listadas na Tabela
1.5 é explicar como o modelo mostrado na Figura J .3 funciona
cm relação a um motivo particular (p. ex .. realização, excitação.
atribuição).
RESUMO
A jornndn para se compreender a motivação e a emoç-J.o começa pela
pennanent.e pergunt:i "0 que cousa o comportamento'!' Essa pergunlJI
geral coovida-nos a fazer indagações que constirue,n os problernas
essenciais a Sc."retn re..;olvidos pelos estudo,. motivaciona.is: o que dá
,nfcio ao componamento? O que ,nruttém o con1portanll!llto ao longo
do tempo? Por que o compottamen10 se orienlJI em direção o deter•
,ninados íln.~ enquanto se afasta de outros? Por que o comportamento
1nuda de direção? Por que o comportamento cesso? Quais são a.~ forças
que detenrunam a intensidade do componamenio? Por que. em de1er-
1ninado momento. uma pessoa tem um tipo de comportamento e,n uma
determinada s,ruação. ao passo que. em OUll'O momento, ela se compona
de ni:meira diferente? Quai• são as diferença., motivacionais entre o;,
indivíduos e de que ,nodo surgem essas d,ferença.fl
O objeto de e,wdo da moti voçào preocupa-se com os processos que
energium e direcionam o compona.menm. Os quatro processos capazes
• AUlo,Rcl.110
de dar força e propósito ao comportamento - ou seja. sua ene:rgio e
direçl!o - ,.;1o ru. neee,.,idade,,. ru. Cllgniçôe,. ru. emoçôe, e eventos
e:nemos. A., nece,..icwdes são as condições inú!rnas ao indivíduo que
,.;1o e;,senei:tis e neces.driàs para ã munutençílo da vida e p:;ro o ere,ci.
mento e o be1n-e,tar. A!. cognlções sllo o, el'ento, mentai--. tai, como
as crença.,. ru. expc!etath a.~ e o autoconceito, que repre...enUIJll maneira,
permanentes de pens:ir. A~ etnoções "110 fenõmenos;.ubjetivos, fisioló-
gico,. func:ionrus. expressivos e de vida curto que organi2am os senti-
nleiaos. a fisiologia. o propó,ito e a expressão. fazendo oom que o
iJldiv!duo l'espooda oouentemente 11:.. condições :unbienrais. tab. como
uma ameaça. Os eventos externos são os incentivos wnbientais que
e,ies-gizam e direcio,1aiu o comportrunento para aqueles eventos que
assinalam conseqOências ~itiva., e o afa,llll:n daqueles que assinalam
conseqoências a,ersiviL'>.
Tanto por meio de Sll(I presença quanto por sua intensidllde. a moti•
vaçJo pode se expressar de ttês m1111eiras: pelo c01nportamento. pela
li.siologia e pe lo :iuto-relato. Os sete aspectos do con1portwnento moti-
v:tdo incluem o esforço. a l:.ttência. a per&iscênetn. a escolha. a proba-
bilidade de re,;posta. a.~ expre.<iSões faciais e os sinais corporaL~. Os
e;1ndos psicof1.~iológioo, expres.-.am a atividade dos .sistenllb nervo,o
cenirol e hormonal. fornecendo dados que nos permitam inferir sobre
as bases biológica., da motlvaçflo e da einoção. A.~ avallaçõe.~ dos auto-
relatos men.,uram o, e~tados nlOlivacionais por meio deentrevb!Jl., ou
de questionirios. Todas essa.~ três expressões podem ser útei, p:;r:t se
inferir 11 motivaç-lo. ma,. os pesquisrulores baseirun-se mab o:i. medidas
compo<UUlentãls e fisiológica;.. e ltlCJlOS no;, auto-relatos..
O estudo da motivaç-lo inclui oito temns. que slio os ,eguintes: {I)
a moti\'aç-lo benef,cia a ndapiaç-Jo: (2) os motivos afetatn o compor-
làinento. direcionando a atenç-.Jo: (3) a inlen.\idade da mollvoçúo ,,:iria
com o 1e1npo e inllueocin o fluxo do componameruo: (4) e~istem dffe.
rente, tipos de rnotivaçoo: (5) a moti\'açllo inclui 1ru1to as tendêJJC:Ías
de: aproximação quanto a;, de afasta[llenlO; (6) os estudos tnociv:lcio-
na.is revelarn o <jUe as~ de:sej:un: (7) para llore.cer. a rnoti"aç-Jo
neces,ilu de condições favoráveis e (S) uão b1'i nada !Ao prático quanto
unia boa teoria. Esses princípios são intportantes porque fornecem uma
perspectiva geral que unifica os diversos pressuposcos, hipó<e.~s. pers-
pectivas. tllorias. achados e aplicações dos c:,çtudos moti,-aciona.is em um
campo de estudo prático. imeressruue e coerente. A FigW'll 1.3 apresenta
uma est.rutw-a gemi p:;ro a oornpreeMJo do fenômeno motivacional. que
será u-a1J1da nos próxitnos c:ipírulos.
Capítulo 2
A Motivação Segundo as Perspectivas Histórica
e Contemporânea
,
AS OR1GENS FILOSOFICAS DOS CONCEI I OS
MOTIV ACIONA IS
A VONTADE: A PRJMElRA GRANDE TEORIA
INSTINTO: A SEGUNDA GRANDE TEOR1A
IMPULSO: A TERCEIRA GR.Al'lDE TEORIA
A Teoria do Impulso de F.-eud
A Teoria do lmpul~o Segundo Hull
O Declf n,o da T eotia do I mpul~o
Os Anos Posteriores ~ Teoria do !Jnpulso
T alvcz você já tenha vi.~to o filme De Vo/UJ para o Fttturo. estre•
Indo por Michael J. Fox. O protagonista dessa história pilota um
c-arro que funciona como UJllll máquina do tempo capaz de u-am,.
portar se1L~ p;IS.'i3gciros de volta à década ele 1950. Se pegássemos
uma carona nesse carro. poderínmosdcixarMichacl J. Foxaodaodo
de skate nas ruas de sua c idade e vivendo sua aventura. enquanto
visitaríamos uma universidade local para ver como eram os cursos
sobre motivação dados no ensino superior daquela época.
Além das meias soquete e do.~ cortes de cabelo engraçados
das estudantes. o que aos ch::unaria a atenção cm 11m curso
11niversitário sobre esse assllnlO seria a falia de um livro-te:xto.
O primeiro livro-texto sobre motivação veio surgir npeallS cm
l 9ó4(Cofcr & Appley. 1964). Outro item o nos chamar a atenção
seria a ementa da disciplina. A folha mimeografada da ementa
mencionaria tópico.~ como a teoria do impulso, o incentivo e o
n:forço. impulsos adquiridos. conflito e emoção. Mas. por mais
que procurnssc1nos na cmenla., não encontraríamos nada de real-
mente interessante sobre como aplicar a motivação- não haveria
nada sobre motivação na.,; escolas. na psicologia c.~portiva. no
LrJbalho. no tratamento da obesidade e na aplicação de dietas,
nas crenças de controle pessoal, e assim por diante. Eatre1aa10, o
curso provavelmente incluiria conceitos psicanalíticos e de auto-
nttmlização - com llrnll semana de estudos dcdic-Jd:i a Freud e
outra a Maslow. Também haveria uma scrnuna dedicada a ativi•
dades de laboratório. Cnda altlao ficaril! com llm rJlO. no q ua1
c.studaria efeitos de manip11lações. como. por exemplo, a influ•
ência que um período de 24 horas de privação de alimento excr•
O SURGl1'1ENTO DAS MINITEOR.lAS
A Natureza Ativa dtJ P~,oa
A Revolução Cogni1iva
A i><.'!>qui;;a Aplicada e de Relevância Social
A ERA CONTEMPORÂNEA DAS Mli'llTEORlAS
O Reoorno do., Estudos da Moúvação nos anos 1990
CONCLUSÃO
RESUJ\10
LEITURAS PARA ESTUDOS ADICIONAIS
cerin sobre a velocidade da cobaia ao correrparJ uma caixa cheia
de sementes de girassol. E. após entrar novamente na máquina do
tempo de De Lorean e retornar ao presente, você provavelmente
concordaria cm que o estudo da motivação mudou e se aperfei-
çoou mais ainda do que os cortes de cabelo e a moela.
AS ORIGENS FILOSÓFICAS DOS
CONCEITOS MOTIV ACIONAIS
E se nossa 1ccnología de ficção científica fizesse você voltar 100
anos no tempo, você simplcsmcnlc não encontraria nenhum curso
de motivação. uma vez que esses cursos (e também o próprio
campo da motivação) têm uma história recente - de menos de
um século.
As r.tízcs do estudo da motivação devem suas origens aos
antigos gregos - Sócrnle..,;, Platão e Aristóteles. Platão (que foi
discípulo de Sócrnles) propôs que a motivação surgia de uma
alma (ou mente, ou psique) disposta segllndo uma hierarquia
tripartida. 'o nível mais primitivo. encontrava-se o aspecto do
apetite da alma.. que contribuía para os apetites corporai.~ e os
desejos. tais como a fome c o SCJ(O. 'o segundo nível, situava•
se o aspecto competiLivo, que contribuía para os padrões social-
mente referenciados. como a sensação de honrJ e de vergonha.
No nível mais elevado eslava o aspecto calculista. que contribuía
para llS capacidades de tomada de decisão. tais como a razão e
a escolha. Paro Platào. esses três aspectos diferentes da :i.lma
motivavam diferentes domínios de comportamento. Além disso.
cada aspecto superior tinha a capacidade de regular os motivos
dos aspectos inferiores (p. ex .. a r-.u:ão poderia controlar o apetite
corporal). É interessante notar que a descrição que Platiío fez da
motivação antecipou bastante bem a psicodinâmica de Sigmund
Freud (p. ex.. vcjn o Livro IX de Plllliío, pp. 280-281 ): de rnancim
simplificada. o aspecto apetitivo de Platão corresponde ao id de
Freud, o ~-pccto competitivo. ao superego. e o aspecto calculista.
ao ego (Erdclyi. 1985).
Aristóteles endossou a idéia da alma tripartida e hierarquica-
mente organizada de Platão (apctitiv:i._ competitiv:i e calculista).
embora preferisse utilizar uma tenninologia diferente (nutritiva.
~nsível e racional). O aspecto nutritivo era o mais impulsivo.
irracional e animalesco. que contribuía para n.~ ncccssid:idcs
corporais urgentes relacionadas à manutenção da vida. O aspecto
sensível tnm.bém se relacionava com o corpo. mas regulava o
prazer e a dor. Já o componente racional da alma era único aos
seres humanru.. uma vez que .'>e relacionava com as idéias e o
intelecto. caracterizando a vontade. A vontade funcionava como
o aivcl mais elevado da alma. que se valia da intenção. du escolha
e do que é divino e imonaL
Séculos depois,, a ps:ique tripartida dos gregos reduziu -se a um
dualliimo - as paixões do corpo e a rnz.'io da mente. Essa alma
de duas partes ooascrvou a natureza hierárq1üca dos gregos, já
que fazia a distinção principal entre o que cr-.i físico, irracional.
impulsivo e biológico (o corpo) e o que era imlltcrial.. raeionaL
inteligente e espiritual (a mente). O fmpcio por trás dessa rein•
terpretação deveu-se prinei palmente ao compromisso intelectual
da época com as dicotomias motivacionai~. wis como paixão
contra razão. o bem contra o mate natureza animal contra alma
humana. Por exemplo, Tomás de Aquino sugeriu que o corpo
fornecia os impulsos motivacionais irracionais e baseados no
pr-.izer. ao passo que a mente era a responsável pelas motivações
racionais e baseadas na vontade.
Na era pós-renascentista. o filósofo francês René Descartes
prestou uma nova contribuição a esse dualismo entre mente e
corpo, fazendo uma distinção entre os aspectos pas.<;ivo e ativo
da motivação. O corpo era um agente mecânico, semelhante a
uma máquina, e molivneionalmcntc passivo. enquanto a vontade
era um agente imaterial. espiritual e motivacionalmentc ali vo.
Como uma entidade física. o corpo possuía necessidades de
nutrição e respondia ao ambiente de maneira mecànica, através
de seus sentidos. seus reílcxos e sua fisiologia. Por outro lado,
a mente era uma entidade pensante e espiritual possuidora de
uma vontade dorada de um propósito. A mente controlaria o
corpo; o espírito governaria os desejos corporais. Essa distinção
er-.i muito importante. uma vez que ditou as regras para o estudo
da motivação durante os 300 anos seguintes: o que era preciso
para compreender os motivos passivos e reativos era uma análise
mecânica do corpo (p. ex •. o estudo da fisiologia); e o que era
preciso para entender os motivos ali vos e intencionais era uma
análise intelectual da vontade (p. ex., o estudo da filosofia).
A VO T ADE: A PRIMEIRA GRANDE
TEORIA
Para Descartes, a principal força moti vacional era a vontade.
Descartes pensava que. se houvesse condições de entender a
A l\1olh•:içilo Segundo as Pe,spectivas lü,16rica e Contemporânea 15
vontade. seria possível compreender u motivação. Segundo ele, a
vontade inicia e direciona a ação: cabe a ela decidir se e quando
agir. Já as necessidades oorpor.tis. as paixões. os prazeres e as
dores criam impulsos à ação. mas esses impulsos só excitam a
vonrn.de. A vontade é uma faculdade (ou poder) que a mente.
agindo no interesse da virtude e da salvação e exercendo seu
poder de escolha. tem par-.1 controlar os apetites corpor-ais e
as paixões. Ao atribuir os poderes exclusivos da motivação
à vontade. Descartes proporcionou à n1otivação sua primeira
grande teoria.
A expressão ··grande teoria" será utilizada aqui e ao longo de
todo e!>te capítulo com o propósito de conotar uma teoria que
tudo engloba, ou seja. um modelo geral que procurJ explicar
todo o e.çpcctro da ação motivada - por que nos alimentamos.
bebemos. trabalhamos. competimos, tememos certas coisas.
lemos. nos upci.xonamos, e assim por diante. A afirmativa de
que •·a vontade motiva todas as ações" é uma grande teoria da
motivação. du mesma maneira que "o amor ao dinheiro é a raiz de
todos os males" é uma grande teoria do mal. Ambas identificam
uma causa única. que tudo abrange e que explica plenamente um
fenômeno (toda a motivação, todos os males).
A esperança de Descartes erJ que. uma vez entendida a
vontade, inevitavelmente também se compreenderia a motivação.
Ponanto. u compreensão da motivação reduziu-se e tomou-se
sinônimo de compreensão da vontade. E cm decorrência disso.
os filósofos empenharam enorme energia no esforço de compre•
ender a vontade. Fizeram-se alguns progres.'iO<i, Lnis como II iden-
tificação dos n.tos de vontade como sendo escolha.~ (ou seja. a
decisão sobre se se deve agir ou não: Rnnd. 1964). esforços
(ou seja. a criação de impulsos para n.gir; Ruckmick. 1936) e
resistências (ou seja, a abnegação ou a resisiênciu à 1cn1açào).
Entretanto, no fim de tudo isso. dois séculos de análises filosó-
ficas produziram resull:idos dcsapontadores. A vontade mostrou-
se uma faculdade mental malcomprecndida, que de alguma
maneira surgia de um amoruoado de capacidades inatas. sensa-
ções ambientai~, experiências de vida e reflexões sobre si própria
e sua., idéias. Além disso, urna vez surgida a vontade, de alguma
maneira ela se contcmpl:iva de intcnQâcs e propósitos. E também
se constatava que algumas pessoas demonstravam Ler maior força
de vontade do que outras.
Para resumir essa longa história, os filósofos constataram que
a vontade é algo tão misterioso e dificil de explicar quanto a
motivação que supostamente ela gcru. Esses pensadores nada
descobriram da natureza da vontade. nem das leis pelas quais
ela operava. Essencialmente, foi como se os filósofos estivessem
fabricando mais obstlÍculos par-.i si próprios, multiplicando o
problema que eles estavam tentando resolver. Ao utilizar a
vontade. eles agora tinham que expli~r não só a motivação,
mas também o agente n1otivador - ou seja. a vontade. Como
se pode ver. o problema s.implesmenle duplicou. Por essa razão.
os pesquisadores envolvidos com a nova ciência da P."icologia,
que surgiu nos anos 1870 (Schultz. 1987). viram-se cm bu.~ca deum princípio motivacional menos n1istcrioso. E de fato cncon•
traram um. não dentro da filosofia. mas dentro da fisiologia - o
instinto.
Porém. antes de deixarmos a discussão histórica da vontade.
consideremos que os psic61ogos eontcmporJneos reconhecem
16 Capíu1Jo Dois
que a mente (a vontade) com efeito pensa. planeja e forma intcn•
çõcs que precedem a ação. Mas. se não é a vonLade que está
produzindo o pensamento e o planejamento. de onde então esses
dois provêm? Em outras palavras. como as pessoas resistem à
tenlllçiio (Mischcl, 1996), mantfm seu esforço (Lockc & KrL~tof.
1996), exercitam o autocontrole (Miscllcl & Mischcl. 1983).
controlam i,eu pcn.~amento (Wegner. 1994), formam inten•
çõcs de agir (Golhvitzer. 1993) e concentr.im sua atenção na
tarefa que têm à mão {Rand. 1964)? Considere duas explica-
ções. Primeiro, observe como as crianç:1..~ conseguem eonccn-
trar a força de vontade de que necessitam para retardar a grati•
ficação e resistir a uma tentação (Mischel. Sboda & Rodriguez.
1989: Pallerson & Mischel, 1976). Em um experimento, uma
criança da pré-escola está sozinha sentada a uma mesa sobre a
qual há um doce tcntndor. O pesquisador propõe então à criança
uma escolha - um doce agora ou d ois doces se ela conseguir
esperar 20 minlltOl>. Em vez de invocarem a força de vontade (ou
seja. a abnegação, a determinação severa de algo). os pesquisa•
dores constalllram que o meio pelo qual as crianças conseguiram
resistir à tcnt:içiio e retardaram sua gratiJic:içiio foi convertendo a
ci,-per.i frustrante em algo mais lolerável e divertido (p. ex., brin•
cando com um jogo, cantando ou mei,,no rir.indo um cochilo).
As crianças que usarnm css:J..~ estratégias resistiram à tentação.
enquanto as que não usaram cais estratégias agiram impulsiva-
mente (comeram logo o doce que estava disponível). Em outro
exemplo, wiiversitários fizeram um teste. enquanto pesquisadores
tentavam predizer quão b.!m ou mal elei. se sairiam (Locke &
Kristof, 1996). Os pc~uisadorcs registrn.ram o objetivo de c:ida
estudante (a nota que pretendiam tirar) e os métodos de estudo.
Os estudantes que tinham planos claros e métodos eficazes de
estudo tivcr.im bom desempenho. enquanto os estudantes que
não tinham objetivos e possuíam métodos de estudo superficiais
tiveram mau desempenho. Portanto. objetivos e estratégias. e não
a força de vontade pessoal. produziram um desempenho eficaz.
Logo, no estudo contemporâneo da motivação. os pesquisadores
deixaram de lado os modelos gerais da motivação como "força de
vontade", especificando. em vez disso, os processos psicológicos
que eles podem mais rapidamente relacionar ao comportamento
das pcs.soas. Ou seja, os pesquisadores estudam os processo.~
mentais mensuráveis, lJlis como planos, metas e estratégias.
cm vez dessa coisa misteriosa chamada vontade (Golhvitzcr &
Bargh, 1996).
INSTINTO: A SEGUNDA GRANDE TEORIA
O determinismo biológíco de Charles Darwin exerceu dois
principais efeitos no pensamento científico. Em primeiro lugar,
forneceu à biologia sua mais importante idéia (a evolução). E,
ao fazê-lo. o determinismo biológico fez com que os cientistas
se afasta.<;scm dos conceitos motivaciooais mentalísticos (p. ex ..
a vontade). passando a se aproximar dos conceitos mecanicistas
e genétic~. Em segundo. o determinismo biológico de Darwin
acabou com o dualismo homem-animal que dominava os estudos
motivacionais anteriores. Em vez disso. ele introduziu questões
tais como a maneira como os animail> lllilizam seu_~ recursos (ou
seja. a motivação) para se adaptnr às dcmand:J..~ mais importantes
de um dado ambiente. Para O<'l filósofos anteriores, a vontade
era um poder mental exclusivamente humano. e a quebra da
d&tinção entre motivação humana e motivação animal foi ainda
mais uma razão para que a vontade deixasse de constituir uma
grande explicação do comportamento motivado.
Para Darwin, muito do comportamento animal parecia ser
algo não-aprendido. automatizado e mec.anicista (Daf'vin. 1859.
1872). Com ou sem experiência. os anúnais se adaptam a seu.s
ambientes principais: os pássaros con.çtroem ninhos, as galinhas
chocam seus ovos. os cães caçam coelhos. e os coelhos fogem
dos cães. Para explicar e.'ISe comportamento adaptativo aparen-
temente predeterminado. Darwin propôs o ins1into.
O feito de Darwin foi que seu conceito motivacional Linha
condições de explicar o que a vontade dos filósofos não consc•
guia - ou seja. de onde a força motivaciooal provém em
primeiro lugar. Os instintos surgem de uma subsl.ância física.
de uma dotação genética. Os instintos são fisicamente reais: eles
e.ústem nos genes. Os animais têm dentro de si uma substância
material que os faz. agir segundo uma maneira específica. Com
isso. o estudo da motivação deixou o campo da filosofia e entrou
no campo da.~ ciências naturais.
Dada a presença do estímulo apropriado. os instintos
expressam-se por meio de rcílcxos corporais herdados - o
pássaro constrói o ninho. n galinha choca os ovo.ç e o ca.c.horro
caça. tudo isso porque cada um deles tem um impulso genc-
Licruncntc dotado e biologicamente exciLado para f:izcr isso.
Essencialmente, os pensadores motivacionnis do século XIX
retiraram a porção inanimada do dualismo filosófico ( ou seja.
a alma racional) e manlivcr.im o que restou - os únpctos, os
impulsos e os apetites biológicos.
O primeiro psicólogo a popularizar a teoria instintiva da moti-
vação foi \Villiam James { 1890). James baseou-se bastante no
clima intelectual criado por Darwin e seu.s contemporâneo.~ parJ
alribllir aos seres humanos :i dotnção de um grande número de
instintos rISicos (p. ex .. o ato de sugar. a loco1noção) e mentais
(p. ex .. a imitação. o brincar, t1 sociabilidade). Tudo o que era
preciso para tr.iduzir os instintos cm um oomponamcnto dire-
cionado para uma meta (ou seja. motivado) era a presença de
um csLímulo apropriado. Os gatos caçam r.llOS, fogem de cães e
evitam o fogo simplesmente porque biologicamente eles devem
fazer isso (ou seja. porque um rato traz ao gato o instinto de
caça. o cão lhe traz o instinto de fuga. e as chamas lhe trazem
o instinto de proteç.ão). Ou seja. a visão de um rato (ou de um
cachorro. ou da.,;; chamas) ativa no gato um oonjunto complexo
de reílexos herdados que gera impulsos par.i ações específicas
(p. e,c .. caçar. correr). Por meio do instinto. os animais herdam
uma natureza dotada de impulsos para agir e os rcílexos ncces•
sários para produzir essa ação i ntenciona.l.
A afeição, ou mesmo compromisso dos psicólogos por c.o;..,;a
grande teoria da n1oúvaçào cresceu r.ipidamente. Un1a gerJção
depois de James, \Vi.Iliam McDougall ( 1908. 1926) propôs uma
teoria do instinto que incluía os instintos de exploração, de lata.
de proteção materna das crias. e a.\sim por diante. McDougall
considcr.iva os instintos como sendo forças molivacion:ús
irracionais e impulsivas. que orientavam a pessoa em direção
' a uma determinada meta. E o instinto que " f:iz seu possuidor
perceber e atentar para os objclos de uma certa classe, expe-
rimentar uma excitação emocional de uma determinada qunli-
<
dade ao perceber esse objeto. e agir em relação ao objeto de
modo particular. ou, pelo menos. experimentar um impulso para
essa ação"' (McDougall, 1908, p. 30). Portanto, os instintos (e
as emoções a eles associadas) explicavam o atributo do dire-
cioruuncnto para uma meta, algo tão facilmente pc.rccptívcl no
comportamento humano. Em muitos aspectos. a doutrina instin-
tiva de McDougall foi paralela às idéias de James. Entretanto.
a g, ande diferença entre as duas cm o fato de que a doutrina de
McDougall sustentava de maneira um tanto extrema que. sem os
instintos, os seres humanos scri:un incapazes de inieiarqualqucr
ação. Sem esses "motores primários", os seres humanos seriam
como massa~ inertes. corpos sem quaisquer impulsos para a ação.
Em outras palavra~. toda a motivação humana deve sua origem
a um conjuntode instintos geneticamente dotados (ou seja. uma
grande teoria da motivação).
Após os pesquil,;ldores terem adotado o in..~tinto como uma
gr.inde teoria da motivação. a tarefa seguinte foi identificar
quantos instintos os seres humanos possuem. Porém. a partir
desse ponto. o processo rapidamente saiu de controle. A doulrina
do instinto tomou-se irremediavelmente especulativa, à medida
que diferentes listas de instintos foram aumentando até fornecer
6.000 tipos diferentes ( Bernard. 1924: Dunlap. 1919). Na pr:ítica
de compilar as listas de instintos, reinava a promiscuidade inte-
lectual: .. se o indivíduo sai com seus companheiros. então está
sendo ativado pelo 'instinto de m:madn': se sai sozinho, o que
está em ação é o 'instinto anti -social': se fica girando os pole-
gares. é o 'instinto de girar O!> polegares': e se não giraº" pole-
gares, é o 'instinto de não girar os polcg:u-cs'" (Holt. 1931 , p.
428). O problema aqui é a tendência a confundir a nomeação com
a explicação (p. ex .. dizer que as pessoas são agressivas porque
elas têm o instinto de serem agressivas). Confundir nomeação e
explicação é algo que nada acrescenta ao e.atendimento da moti-
·ação c da emoção.
Além disso. constatou-se que a lógica s ubjacente à teoria
instintiva era c.ircuJar ( Kuo, 1921; Tolman, 1923). Considere a
ex.plicaç:io de como o instinto de lutn motiva os atos de agressão.
A única evidência de que as pessoas possuem o instinto de luta
é o falo de elas às vezes se comportarem agressivamente. Para
o teórico. esse é o pior tipo de circularidade: a causa c.~plica o
comportamento (instinto .... comportamento), porém o con1por-
tamcnto é a evidência de sua própria causa {comportamento->
instinto). O que está faltando aqu_i é um modo independente
de determinar se o instinto rcaJmcnte existe. Un1a maneira de
detern1inar isso é criar dois animais muito semelhantes (p. ex ..
animais dot:idos de instintos similares) de modo a oferecer-lhes
diferentes experiências de vida, para e ntão esperar até que esses
animais atinjam a fosc adulta, e verificar se seus comportamentos
.são c.o;scnciaJmentc ~ mesmos. Se os instinios dirigem o compor•
lamento. então dois animais geneticamente equivalentes devem
se comportar essencialmente da m=:i maneira. a despeito
da.~ diferenças entre suas experiências e s uas circunstâncias de
\'ida Quandoº" pesquisadores realizaram experimentos desse
tipo sobre o instinto maternal cm r.itos (Bin:b, 1956) e sobre o
instinto de utilização das mãos (destros ou canhotos) cm seres
humanos (\Vt11.,;oo. 192-'), os r.uos e os humanos comportarnm-
sc de modos que rcíletiam suas diferentes experiências (cm vez
de seus instintos similares).
A l\1olh•:içilo Segundo as Pe,spectivas lü,16rica e Contemporânea 17
O conceito de instinto surgiu para preencher a lacuna do que
é a motivaç5o. e de onde ela provém (Beaeh, 1955). O romance
da psicologia com a teoria instintiva começou com uma aceitação
calorosa. mas acabou com uma negação categórica. 1 Da mesma
maneiro que antcriom,cnte abandonou a vontade, :i psicologia
também abandonou o instinto. e viu-se então cm busca de um
conceito molivacional subslitutoque explicasse a natureza inten-
cional do comportamento.
IMPULSO: A TERCEIRA GRANDE TEORIA
O conceito motivacional que surgiu para substituir o iru.tiruo foi
o impulso (introduzido por Woodworth, 1918). O impulso surge
da biologia funcional. segundo a qual a função do comporta•
' me.alo está a serviço das necessidades corporJ.is_ A medida que
ocorrem os desequilíbrios biológicos (p. ex., falta de alimento ou
de água), os animais experimentam esses déficits de neces.sidade
biológica psicologicamente como ''impulso". Portanto. o impulso
motiva qualquer comportamento que sirva às necessidades do
corpo (p. ex.. eon1er, beber. aproximar-se). As duas teorias do
impulso mais amplamente aceitas forJm propostas por Sigmund
Freud (1915) e Clark Hu_ll ( 1943).
A Teoria do Impulso de Freud
Freud. que estudou fisiologia. acreditav-.1 que todo comportamento
é motivado. e que o propósito do comportamento seria servir à
satisfação de necess idades. Sua visão do sistema nervoso cm de
que as exigências biológicas (p. ex., a fome) serian, constante e
inevitavelmente condições recorrentes que produziriam acúmulos
energéticos dentro de u n, sistema nervoso que funcionaria cn1 tomo
de uma tendência herdada de manter um nível baixo e constante
de energia (Freud. 1915). Ao mesmo tempo que tcnta,·a mantr )
baixo e constante o nível de energia. o si~tema nervoso seria pcrpc
tuamenle :tfastado desseobjeúvo pela emergência e recmcrgênci11
das exigências biol6gic.as. Cada acúmulo de energia pcnurbaria
a estabilidade do sistema nervoso e produziria um desconforto
1 A psicologia cootcmpomru:a rüo m.:us utdizn o insumo paro c-xplic.ar a com•
plcxidadc do c:omponmncnlo bum11110. Nilo obstanlc. a propo.<íçilo de que os
nn1nuis nlo,.hum3JllJS aprcseru:tm poo.rõc..~ de compontuncnto coruwcntcs. niio-
aptondidos e csu:ttolíptcm é u11111 obscrvaçao mcg.ã,-.1. As. abclh:is con,u-ocm
ci'lulas hcx,gnmns_ as mJ1Chos do cspna•11oto al>Cwn os poxcs do cotomç-:ia
,crmclha. e o,~....,,,. consuocm mnoo.- O• psicólogos roatcmporinc:os (mu
c.<p:.-llllmcnlC os ctolo~<las) admii, m que cs.<es atos cstcJ'COUpado< podem ser
ambufdo:, = fnsuntos OO<lanmwL Como J1UJ1CScscrc,-cu bâ mau de wt1séallo:
-o Cato de que os insumos L ... J c.,.-lCm cm umu coorme escala no remo anunal
f a lgo que nllo =s.<Jla de qualquer comprova.Jo- (181JO. p. 383}. Ao lllill=
o Lermo "lnsunr.o-, os etologtSla.s (Eibl-1:lbesfeld~ 1989; Lorenz, 1965; Molu.
J 965) fol2m agora dc csll'utlJmS ncuroruu. b=ladas quc nJo •ão modifit'lllbs
pdo ambt<!flte durante o desenvol,1mcnto do ser \<i-Yo_ Ewu cstrutcnu neuronais
hcrcL\das geram. não padrões gcrru.< dc componamrnro. ma,, ,,m frações paru·
cul3= de compon;tmentD< <.i111J>C1omlmcn1c cspcdficos. rt'fercntcs • -plldrocs
fixos dr oçfu>º'. A mudanç,I de foco do insuato dt, causa do compomancmo com•
plexo para 1::111,sa d3S fn,ç&:s de c,omponamcnto (padri:1es fixo. de ação) mosuou
ser um comprmnbSo tcónm confonávc.L POI" outro Lu:lo. mesmo sendo tcorie3 ..
mente vnntajo.o. esse romprom15so nitidamente e,idcnciou o dcclimo de m:ii•
uma gruade tcona. U= cxpllc3ção que se ,·ale de fraç&:s de romportanrnto
ou fniçõcs de motn-ação simplesmente mo é t<~pu de c,piic.,r plen:Lmcntc nem
o compon.uncnto nem • moll\'açlio.
18 Capíu1Jo Dois
psicológico (ou seja. ansiedade). Se o acúmulo de energia crcs•
cesse excessivamente. poderia mesmo ameaçar a saúde física e
psicológica. Portnnto. o impulso surgia como um tipo de sinaJ de
emergência para que se Loma.sse algwna providência. O comporta•
mcnLO continuaria até que o impulso ou a exigência que o motivou
fossem satisfeitos. Em outras palavras. o comport:unento scrária
às necessidades corpor.ús, e a ansiedade (impulso) aluaria como
um tipo de intermediário para assegur.ir que o componamcnto
ocorrcs...c no tempo certo e conforme o necessário.
Uma maneira de entender a visão freudiana da energia do
si.~Lemn nervoso (ou seja. a llõido) é por meio da analogia com
um sistema hidráulico no qual n energia (cm forma de um fluxo
de água consLantc) aumenta continuamente. À medida que os
impul~os corporais conúnuam a acumular energia. a exigência
ans iosn de descarregar essa energia vai se tomando cada vez maís
imperima e eficaz (caso contr.irio. a água ir:í tr.insbordar). Quanto
mais alia for a energia psíquica, maior será o impulso para agir.
O comportamento adaptativo acalma temporariamente o impulso.
ma~ o constante acúmulo da energia do sistema nervoso sempre
rctornu (ou seja a afluência de água no sistema nunca termina).
Freud (19 15) resumiu sua teoria do impulso como tendo
quatro componentes: fonte. ímpeto. propósito e objeto. A fonte
d o impulso é um déficit corporal (p. ex .. a falta de alimento). O
impulso é dotado de um ímpeto (força) que tem o propósito da
satisfação.a qual é a remoção (por meio da satisfação) do déficit
corporal ~ubjacenlc. Pnr.i alcançar esse propósito. o indivíduo
experimenta a ansiedade cm um nível psicológico. e é essa ansie-
dade que motiva a busca comportamental por um objeto capaz
de remover o déficit corpor.il. A sati.\fação do déficit corpor.il
acalma o impulso/ansiedade. Após essa introdução, pode-se
representar a teoria freudiana do impulso da seguinte maneira:
1-·onle do Ím peto do Objetivo do Propósl to do
Impulso - Impulso ... Impulso - Impulso -
Déficit 1111.in,idade do Objeto runbiental Sntisfaç.'lo pela
Corpornl desconforto cap:12 de sati;f::izer remoç11odo
p;ioológico o déficit oorpornl déficit corporal
(nn,,iecbde)
A despeito de sua criatividade, a teoria cio impulso de Freud
se ressentiu de pelo menos três críticas: (J ) uma relativa superes-
t.imação da contribuição das forças biológicas p-.ira a motivação
(e. com isso. uma relativa subestimação de fatores relacionados à
aprendizagem e à experiência); (2) um ex= de confiança nos
dados retirados dos estudos de casos de indivíduos portadores de
Lrnnstomos (e. com isso. urna falta de confiança nos dados prove•
nientes de pesquisas expe:rimcnlaiscom amostrJS representativas):
e (3) idéias que não são cientificamente (ou seja, experimental•
mcnle) testáveis (p. ex .. como é po~ível criar um teste empírico
sobre o fa10 de as pessoas possuírem ou não impulso para a agres•
sividadc"?). Por outro lado, nenhuma dessas três crítica.s se aplica à
segunda grande Lcoria do impulso. proposta por Clark HuU.
A Teoria do Impulso Segundo Hull
Para HuU ( 1943. 1952). o impulso é uma fonte de energia agru-
pada e composta de todos os déficit.s/distúrbios experimentados
momenLaneamcnLe pe lo corpo. Em outras palavras. as nccessi-
dades particulares de alimento. água, sexo. sono. e assim por
dia.nle. são concenLradas para constilufrem uma necessidade
corporal total. Pal"'.t Hull. assim como para Freud, a motivação (ou
seja. o impulso) tem uma base puramente fisiológica. e a neces•
s:idadc corporal constitui a fonte última da motivação (tendo-se
com isso uma oulra grande teoria da motivação).
A teoria do impulso de HuJJ tem um aspecto notável que
nenhuma outr.i teoria anterior da motivação apresentou - ou
seja. a de que a motivação pode ser prevista antes de ocorrer.
Tanto com o instinto quanto com a vontade, era impossível
dizer a priori quando e se uma pessoa c.~Lnri.a ou não motivada.
Porém. se um animal é privado de alimento. ágaa. seJ10 ou sono. o
impulso irá incvit.avelruCJlle crescer proporcionalmcnle à duração
dessa pri vaçiío. A motivação é rcsponsá~·el pelas condições :tnle•
cedentes do ambiente. O impulso é uma função monotonica-
mentc crescente da necessidade corporal total. e esta. por sua
vez. é uma função monotonicarnente crescente do número de
horas de privação. O falo de que o impulso pode ser conhecido
a partir das condições ambientais antecedentes marcou o início
de um estudo cie111íftco da motivação. isso foi assim porque. se
conhecermos a)> condições ambientais que criaram a motivaç.lio.
poderemos manipular (e predizer) os estados motivacionais no
laboratório. Também é poss! vel explorar os efcit05 do c.~Lado
moti vacionaJ manipulado sobre um grande número de ~'ulLados
(p. ex., desempenho, esforço. bem-estar).
O impulso surge de uma ampla faixa de distúrbios corporais.
que incluem a fome, a sede, o sexo. a dor, a respiração, a rcgu•
lação da temperaturn, a micção. o sono. a atividade corporal a
consLruçâo de ninhos e o cuidado com os filhotes (Hull. 1943. pp.
59-60). Uma vei; surgido. o impulso energiza o comportamento
( Bolles. 1975). Porém. embora enc,gize o comportamento. o
impulso ni'io o direciona. É o hábito, e não o impulso, que dire•
ciona o comportamento. Como um contemporâneo disse: ··o
impulso é um cnergiz.ador. não um guia" (Hebb, t955, p. 249). Os
hábitos que guiam o comportamenlo provêm da aprendizagem.
e a aprendizagem ocorre como conseqüência do reforço. As
pesquisas de Hull levaram-no a demonstrar que. se uma resposta
é seguida rapidan1entc de uma redução no in1pulso, ocorre uma
aprendizagem e, com isso. o hábito é reforçado. Qualquer resposta
que diminua o impulso (p. ex .. comer. beber. copular) produz um
reforço, e o animal aprende qual resposta produz a redução de um
impulso nes.~ situação particular. Para mostrar como o hábito e
o impulso (ou seja, a aprendizagem e a motivação) produzem o
comportamento. Hull ( 1943) elaborou a seguinte fórmula:
,E,= ,H,xD
A vari.á,•el ,E, é n intensidade do comportamento (E significa
"potencial excitatório") na presença de um determinado estímulo.
/ir é a íorça do hábito (ou seja. a probabilidade de ocorrência
de urna rcspo~111 redutora do impulso diante de um determinado
estímulo). D é o impulso (driv~).1 Os a.~pcctos observáveis do
'Os $Ub,;cntos ser sii;níficnm snnwlus e r,spmut l"<"Slimulo" e "rcspos1:11··1. e
informam que J{, rcf m:•sc a wna dctcmunod:I rcsp,:Ml~ IUI presença de um deter·
m1rodo estímulo. De modo scmclh.mtc. OS$llh!<.Tllos IISSOC1.100S • ,E, rcfcran-
á "cnc'SJ"" potcnc,.al da rcspo,ta o• prcscnço dc!isc estimulo c:s.podfico.
comportamento - correr, persistir etc. - são representados
por .Er As variáveis )I, e D referem-se às causas subjacente,
e inobscrváveis do com.portamento. O sinal de multiplicação é
irnportnnte no ,entido de que o comportnrncnto só ocorre quando
o hábito e o impulso estão em níveis não-nulos. Em outr.i.s pala-
vras. na ausência de impuL~o (D= O). ou na ausência de hábito
(H = 0). não h:í potencial excitatório (E= 0).
Posteriormente, HuU (1952) amp)jou seu sistema comporta•
mental par.i além de lf x D, a fim de incluir uma terceira causa de
comportamento: a motivação do incentivo. abreviada como K.3
Além das propriedades motivacionais de D, o valor do incentivo
exercido por um objeto-alvo (sua qualidade, sua quantidade, ou
ambas) também energiza o animal. Afinal de contas, as pessoas
cm ger.tl trabalham com mais empenho por US$50 do que por
USSJ. Ao reconhecer que a motivação pode provir tanto de fontes
interna.~ (D) quanto de fontes externa.~ (K), Hull ( 1952) propôs
a seguinte fórmula:
,,E,= )l,xD xK
Tanto D quanto K são termos motivacionais. A principal dife-
rença enLre eles está em que D origina-se de uma estimulação
interna ,<ia distúrbios corporais, enquanto K origina-se de uma
estimulação externa via qualidade do incentivo.
A teoria comportumental de Hull granjeou enorme popula•
ridadc. Em seu apogeu. sua teoria do impulso foi uma das mais
populares teorias da história da psicologia. Apesar de obviamente
essa afirmativa parecer exagerada. considere três ocorrência~
históricas que a jui,tificam. Em primeiro lugar. aproximadamente
metade de todos os artigos publicados nos principah periódicos
de psicologia do início dos anos 1950 {p. ex .. no Psyc:hological
Review e no Jour11al o/ Experi111e111al Psyd1o logy) fazia refe-
rência ao livro de Hull de 1943. Em segundo. enquanto livros
sobre motivação er.im praticamente inexistentes em rnc.-ido-'>
do século XX. dez anos depois eles se tomariam lugar-comum
(Atkinson, 1964; Bindra. 1959; Bro\vn. 1961: Hall, 1961;
Llndzey, 1958: ~4adsea, 1959: MeClellan<l 1955; Maslow.
l 954; Old~. 1956: Pcters, 1958: Staccy & DcMnrtino. 1958;
Toman, 1960: Young. 1961). Em terceiro lugar. nos anos 1950.
a Amcricnn Psychological Association (APA) solicitou a seus
membros que 6:zes.sem uma lista das personalidades mms impor-
tantes da história da psicologia (até meados do século XX). O
resultado da pesquisa está mostrado na Tabela 2. 1. Observe os
dois nomes no topo dn I istn .. 4
'Por acaso, ,e você se pc,rxuntarporquc • moovoçio de incentivo foi ~viam
cm inglfs por K cm vez dc/(dc illNnlrl'tl.omod,o cb550c: queK n,mdc Kcanclh
Spcncc (Wcu,e~. 1972). Spcncc convcnoo, Hull dll neccs.si<bdc de se incorponr
" .-i,·oção de lDC'CllUvo n SC'IJ siskma comportamcntul. Além daso, I c.-ru usado
paraoutra ,•mruivcl. inh1llwM l1n1btçiio). que llào >eni dJScull<la aq,,1.
4 No ah orttcr do têrolo XXL • tislll dos psicólogos cminen~ al1crau-sc b:acan11:
(H3ggbtoom ct nL :!002). Em 2002. S1gaumd Fn,ud tm,ia cnído para o 3° lugor.
c.-oqW111toCl.in: Hull c:al• pano 21•. Os de>. nomes mai, 1mponan10 segundo•
lislll. do pnmr1m para O drdma. <m uma rdaçio 'fllr aprcscnm vnno,s P"'JW•
sadon:, d;i motJvoçào. silo: B. F. Slaoncr. Jam Ptagc,L S1gmuod Freud. Albert
Bandur:i. Lcon Fes11ngcr. Cml Roger>. Stanley Sch!ldlter. Ncat Miller. Edward
Thoradik< < Abraham M•lilow.
A l\1olh•:içilo Segundo as Pe,spectivas lü,16rica e Contemporânea 19
Tabela 2.1 Os Dez Mrus lntportantes Nomes da PsicoJogla.
Segundo unta Classilicaçllo de Meado, do Século XX
1. Sigmund Freud
2. Clark Hull
3. \Vllhehn \Vundt
4 . l\•an Pavlov
5. John \\latson
6. Edward TilOl'lldike
7. William James
8. Max \Vertbei mcr
9. Edward Tolmru1
10. Kurt Lewin
O Declínio da Teoria do Impulso
A toorin do impulso - tanto nn vcrslio frcudiuna quanto na versão
huJliana - baseava-se em três pressupostos fundarnentai.s:
L O impulso emerge de necessidades corporais.
2. A redução do impulso é reforçada e produz a aprendi-
zagem.
3. O impulso cnergiza o comportamento.
Ao longo dos anos J 950, testes empíricos desse;, três pressu-
postos revelaram muitos pontos de apoio, mas também alguns
motivos de preocupação. Em primeiro lugar. alguns motivos
existem com ou sem necessidades biológicas correspondentes.
Por exc1nplo. as pessoas anoréxicas não comem (e não querem
comer). a despeito da exi~tência de uma forte necc...sidadc bioló-
gic:i de fazê-lo (Klicn. J 954 ). Portanto, é possível que a moti-
vação surja de outras fontes que não os distúrbios corporais. Em
segundo lugar. frcqficnlemcntc a aprendizagem ocorre sem n
correspondente experiência da redução do impulso. Por exemplo.
ratos famintos aprendem mesmo quando seu comportamento de
comcr é reforçado pela recompensa de sacarina não-nutritiva
(Shcffield & Roby. 1950). Uma vez que não representa qual-
quer benefício nutricional, a sacarina não pode reduzir o impulso
{ ou seja, não serve às necessidades do corpo). Outras pesquisas
mostr.ir.im que a aprendiz.agem ocorre apó~ a indução do impubo
(ou seja. ocorre um aumento do impul.so; Harlo,,v, 1953). No
final. ficou claro que. para a aprendizagem ocorrer. n redução do
impulço não era nem necessária nem suficjcnte (BoUcs, 1972).
Em terceiro lugar, as pesquisas reconheceram a imponâacia das
fontes externas (não-fisiológic-.is) de motivação. Por exemplo,
uma pessoa que não está neccssariamcnteoom sede podec~pe-
rimentur um motivo bastante forte par.i beber ap6s ter provado
(ou visto. ou cheirado) sua bebida favorita. Hall acrescentou a
motivaç.ão de incentivo (K), ma.~ a questão importante é que os
moti\•os surgem mais do que l>implesmentc a partir da fisiologia
corporal. Para e~plicar fenômenos motivacionais como comer,
beber e ter relações sexuais. tomou-se claro que os pesquisa-
dores ncccssiwvam concentrar ao menos parte de sua atenção
nas fontes externa.~ (ambientais) de motivação.
Os Anos Posteriores à Teoria do lmpuJso
Os anos 1950 e 1960 representaram uma tr.insição no c.~tudo da
motivação. No início dos anos 1950. as teorias moti vacionais
20 Capí1ulo Dois
donünantes eran1 consideradas grandes teorias, sendo historica-
mente fundainentadas e bem conhecidas. A teoria do unpulso era
a princ ipal perspectiva relati va à motivação (Bolles, 1975; Hull,
1952). Nesse 1neio de século, outras teorias 1notivacionais impor-
tantes incluíam a teoria do nível 61in10 de excitação (Hebb, l955;
Berlyne, 1967), a teoria dos centros de prazer no cérebro (Olds ,
1969), a teoria dos conflitos de aproxi111ação-cvitação (Miller,
1959), a teoria das necessidades universais (tvlurray, 1938), a
teoria dos 1notivos condicionados (Miller, 1948). e a teoria da
auto-atualização (Rogers, 1959). À medida que o estudo da moti-
vação progredia e novos achados apareciain, tornou-se claro que,
para haver progresso, era preciso que a área extrapolasse as fron-
teiras de suas grandes teorias. Nos anos que se seguiram à teoria
do unpulso, aparcceran1 de fato teorias alternativas, que tentaran1
se in1por como as novas grandes teorias do 1no1nento. Poré111,
os psicólogos n101ivacionais estavam simplesmente ganhando
inrorrnações demais para se restringirem a u1na grande teoria.
Para investigar seus novos achados, os psicólogos rnotivac io-
nais dos anos 1970 co1neçarain a adotar nliniteorias ela 1noti-
vação (Den1ber, 1965). A próxilna seção discutirá essas 111ilüte-
orias. Porém, será útil fazer aqui uma pausa para considerarmos
os dois princípios 1notivacionais que, nos anos 1960, surgiram
con10 possíveis substitutos teóricos cio i1npulso para co1npor wna
grande teoria da rnotivação: o incentivo e a e xcitação.
Considere1nos o incentivo, que é u111 evento externo (ou estf-
nndo) capaz de energizar ou dil"ecionar u111 con1portainento de
aproximação ou de evitação. Segundo a teoria de redução do
impulso, as pessoas são rr10Livadas por meio de seus in1pulsos,
que as "empurram" em direção a determinados objetivos (p. e x.,
a fon1e cinpurra a pessoa a explorar seu runbicnte c111 busca de
alilnento). Já as teorias n1otivacionais cio incentivo dize1n que
as pessoas são motivadas pelo valor mcentivador de diversos
objetos presentes en1 seu a111biente, que as "atrae111" e1n direção
a esses objetos (p. ex. , a visão de lnna torta de 1norangos faz a
pessoa se aproximar da n1esa). Observe que, nesse caso, a moti-
vação primária não é a redução do impulso, mas, ao contrário, o
au111ento e a 1nanutcnção do contato com os estfrnulos inccnti-
vadores. As teorias do incentivo surgidas nos anos 1960 funda-
ment.almente tentava111 explicar por que as pessoas buscavam
os incentivos positivos e evitavam os incentivos negativos .
Essenciahnente, o foco dessas teorias era o K, e não o D, de
Hull, e elas adotar:un o conceito de hedonisn10, que essencial-
mente postula que os organismos se aproximam de s inais de
prazer e evita111 s inais ele dor. Por rneio da aprcndizage111, as
pessoas fonnan1 associações (ou expectativas) de quais objetos
no ambiente são gratificantes - sendo, portanto, merecedores de
aproximação - e quais outros objetos infri ngem dor - sendo,
portanto, rnerecedores de evitação. As teorias do incentivo apre-
sentavain três novas características : (1) novos conceitos n1oti-
vacionais, tais c.01no os incentivos, (2) a idéia de que os estados
motivacionais poden, ser adquiridos por meio da experiêocia e
(3) tuna descrição ela 111otivação que salienta as alterações que
oco1Tem de momento a momento (unia vez que os mcentivos
a,nbientais pode,n variar de u,n rnon1en10 para outro).
Considere1nos agora a excitação. A crescente insatisfação
con1 a teoria do i.1npulso foi contrabalai1çada por un1 crescente
interesse pela teoria da excitação. O achado que assentou as
bases pru·a essa transição proveio da descoberta neurofisiológica
de um sistema ele exci tação no tronco cerebral (Linds ley. 1957;
Moruzzi & Magoun, 1949). As idéias centrais eram as de que
(!) os aspectos do an1biente (o grau a que eles são esti111ulantes,
novos, estressantes) afeta111 a 111aneira de o cérebro ser excitado
e (2) as variações no nível de excitação apresentam uma relação
curvilínea (que tên1 a fonna de uni U invertido) co1n o compor-
tamento. Ou seja, os ambientes não-estimulantes geram baixos
níveis de excitação e emoção, tais co1110 o tédio: j á a,nbientes
un1 pouco 1nais estinn1lantes geratn níveis ótiluos de excitação
e e1noções, ta is como o interesse; e ainbientes extremarnente
estimulantes gerarn excitações e emoções con10 o medo. O níve l
de excitação tenui11ou sendo entendido como algo "sinônilno de
urn estado geral de in1pulso'' (Hebb, 1955, p . 249): as pessoas
prefere1n u111 nível ótiluo de excitação, evitando seus níveis muito
baixos ou 1nuito a ltos. Observe então o que aconteceucom a
teo.ria do in1pulso - que íoi reinterpretada de un1a maneira que
a afastou de s uas raízes biológicas, levando-a para a época da
ncuropsic.ologia e da cognição. No fim dos anos 1960, os psicó-
logos motivacionais daquele período pode1iam se concentrar nas
necessidades biológicas (ilnpulso), nos mcentivos ambientais ou
nos estados cerebrais de excitação.
Co111 a crescente i11satisfação e1n relação à teoria do in1pulso,
tornou-se cada vez 1nais evidente que qualquer grai1de teoria
era simplesmente incapaz de arcar sozinha con1 todo o ônus
de explicar a motivação (Appley, 1991). E1n sua tentativa de
cobrir todo o espectro dos fenôtnenos 1notivacionais, o panonuna
conte1nporâneo dos esn1dos da rnotivação é agora caracterizado
por uma enorrne diversidade de teorias ("1niniteorias"), e não por
um consenso qualquer em torno de tuna única grande teoria.
O SURGIMENTO DAS MINITEORIAS
Diferente1uente das grandes teorias que explicam todo o espectro
da 1notivação, a~ miniteorias limitam sua atenção a 11111 fenõ1neno
1notivacionaJ específico. As nüniteorias busca111 co1npreender ou
investigar u1n(a) determinado(a):
• Fenõ1neno rnotivac ional (p. ex., o fluxo da experiência)
• Circunstância que afeLa a motivação (p. ex., a retroalimen-
tação ele u111 fracasso)
• Grupos de pessoas (p. ex., extrove1tidas, crianças, traba-
lhadores)
• Questão teórica (p . ex., "Qual é a relação entre cognição
e en1oção '1")
Uma miniteoria explica parte. porén1 não Lodo o comporta-
mento 1notivado. Sendo assiln. u111a teoria n1otivacional de reali-
zação (tuna rniniteoria) surgiu para explicar por que as pessoas
respondern a padrões de excelência, e por que algumas pessoas
den1onsLram ter entusiasmo e a pro xi mação e agern co111 método,
ao passo q ue outras de1nonstran1 ru1siedade e evitação diante
desses padrões. A teoria motivacional de realização não consegue
explicar unia grande p:ute da ação 111otivada, 1nas, por outro lado,
presta nina boa contribuição à exp licação de u1na interessante
fatia da ação 1notivacional. A lista a seguir identi lica algumas das
nüniteorias (con1 uma referência básica) surgidas nos anos 1960
e 1970 com o objetivo de .substituir as grandes teorias cnfr.ique•
cidas do impulso. do incenti vo e da excitação:
• Teoria moúvacional de real ização (Atkinson, 1964)
• Teoria atribucionru da motivação de rrolização (\\lciner.
1972)
• Teoria da dissonância cogniúva (Fcslinger, 1957)
• M otivação dos efeitos {\Vhitc. 1959: Hartcr. 197&a)
• Teoria da expectativa x valor (Vroom, 1964)
• Teoria do fluxo (C.sikszen1mibalyi, 1975)
• Motivação intrlnscca (Dcci. 1975)
• Teoria do estabelecimento de metas (Locke. 1968)
• Teoria do desamparo aprendido {Seligman. 1975)
• Teoria da reatância (Brehm. 1966)
• Teoria da auto-eficácia (Bandura, 1977}
• Auto-esquemas (Marlcus. 1977)
Três tendências históricas explicam por que o estudo da moti•
vação deixou paro trás a tradição das grandes teorias c m favor
da~ miniteorias. Em primeiro lugar. os pcsquisudores moti•
vacionais reavaliaram a propriedade da idéia de que os seres
humanos são inerentemcnle passivos. A próxima seção discutirá
essa tendência. Em segundo, a motivação. como lodo o campo da
psicologia, tomou-se acentuadamente cognitiva.. Essa tendência
veio a ser conbceida como a revolução cognitiva. E. cm terceiro
lugar. os pesquisadores motivacioaais tornaram-se cada vez mais
interessados nos problemas e nas questões aplicadas e social•
mente relevantes. Além dess~ tendênciru. bü,16ricas, o primeiro
jornal dedicado cxclll.'>ivamcnle ao tópico da molivução s urgiu
em 1977. M orivario11 and E1notio11. Esse jornal focnliwu quase
toda a sua atenção na explor.ição empírica das miniteorias moú-
. .
vac1on::us.
A Natureza Ativa da Pessoa
O propósito da teoria do impulso era explicar como um animal
passava de inativo a ativo (Wcincr. 1990). Em meados do século
XX. supunha-se que os animais (inclusive os seres humanos)
crMll natur.tlmcnte inaúvos, e que o papel da motivação seria
excitá-los. fazendo com que, de passh'os. eles passassem a ser
ativos. Com efeito. "moLi,•ar'' significa M1novcr". Dessa forma,
o impulso. como lodos os constructos motivacionais anteriores.
explicava o motor instigante do comportamento. A título de ilus-
tração. uma definição comum para motivação cm meados do
século XX er.i: "o processo de excitar a ação. sustentar a atividade
cm pmgres!,O e regular o padrão de alividadc" (Young. 1961. p.
24). A motivação er.i o estudo da energização dos pa~sivo.s.
Já os psicólogos da segunda metade do século XX pensavam
de maneira bastante diferente. Eles enfatizariam o fato de que as
pessoas estão sempre conseguindo e fazendo algo. A~ pessoas
são inerenlemenle :uivas. estando sempre motivadas. Segundo
um drn; proponentes da natureza ativa das pe-~soas, " uma teoria
motivacional bem fundada deve [ ... 1 supor que a motivação é
constant.c. incessante, flutu:1nte e complexa. e que é. uma carac•
tcrística quase universal de praticamente qualquer processo que
envolva interesse do organismo" (Maslow, 1954. p. 69). Talvez
nas c rianças, mais do que cm quaisquer outros seres. isso seja
mais evidente: •'elas pegam os objetos. sacodem-nos. cheiram-
A l\1olh•:içilo Segundo as Pe,spectivas lü,16rica e Contemporânea 21
nos. colocam-nos na boca. atir.un•nos para longe e estão sempre
perguntando ·o que é isso?' Sua curiosidade é infindáver· (Deci
& Ryan. 19&5:i, p. 11 ).
Na revisão das teorias motivacionais que fizeram em meados
dos anos 1960, Charles Coferc Mortimcr Applcy ( 1964) divi•
diram as teorias motivaciona.is da época entre aquelas que supu•
nham que ~ organismos eram passivos e conservadores de
energia e aquelas que supunham que os indivíduos eram ativos
e que buscavam o crescimenlo. O número das teorias de orien•
tação passiva era dez vezes superior ao das teorias de orientação
ativa. Entretanto. as teorias ativas começaram a se propagar. Nos
dias de boje. as idéias sobre 3 motivação e a emoção aceitam a
premissa da cxislência do organismo ativo, tratando bem pouco
das motivações ocorrida., por déficit (p. ex., redução na tensão.
homcostnse, equilibrio) e bem mais das moúvaçõcs por cresci•
meato (p. ex~ criatividade, competência. significados pessoais
possíveis. auto-alualização; Appley. 1991; Benjamin & Jones,
1978; Rapaport, 1960; \.\lhitc. 1960). O estudo da moúv3ção
é hoje o estudo do direcionamento do propósito nas pessoas
increntcmenlc ativas.
A Revolução Cognitiva
Os primeiros conceitos moLivacionais - impulso. exciLação.
homcostasc - fundamentavam-se na biologia e na fisiologia.
Portanto, muito do pensamento sobre a motivação era moldado
em uma herança e uma perspectiva bio16gica!>. Os estudos
contemporâneos da motivação continuam a manter essa nliança
com a biologia. a fisiologia e a sociobiologia. EnLrctanto. no
início dos anos 1970. o Zi-irgeisr (uclirna intelectual") da psico•
logia pa.s.sou decisivamente a ser cognitivo (Gardncr, 1985; Segai
& Lnchman, 1972), e a revolução cognitiva tomou conta da área
da motivação da mesma maneira que fez com prJticamcntc todas
as outras áreas da psicologia (D' Amalo. 1974: Dembcr. 1974).
Os pesqui...adores da motivação comoçaram a complementar
seus conceitos biológicos com os conceitos que enfatizavam
os processos mentais internos. Alguns desses coni.truclos moti-
vacionais mcntalisúcos incluem os planos (Miller, G111:mtcr &
Pribram. 1960). as metas (Locke & Latham. 1990). as c,;pecla-
tivas (Seligman. 1975), a.s crenças (Bandura, 1977). as atribui•
ções (\Vciner. 1972) e o auloconoeito (Markus, 1977).
A revolução cognitiva exerceu dois outros efeilos sobre o
pcnsamenlo referente à moú,,aç5.o. Primeiro. as discussões intc•
lectuais sobre a moúvação enfatizaram os constructos cognitivos
{ou seja. as expectati vas. a.~ metas). deixando de cofntiznr os
construclos biológicos e ambientiis. Essa~ disCll.o;sõcs allernram
a imagem que a psicologia fazia dofuncionamento humano.
deixando-a " humana cm vez de mccilnica" (McKcacbic, 1976.
p. 831). Essa passagem ideológica dn mecânica para a dinâmica
(Cnrver & Schcier. 1981. 1990; Markus & Wwf. 1987) íoi muito
bem captada no título de um dos mais populares textos motiva-
cionais daquela época. Tf~ories of Morivario11: Fro111 i\!ecftOJUS111
to Cagnitio11 (\Vciner. 1972). Uma rcvi.'>ào dos estudai. moli•
vacionais realizados a partir dos anos 1960 e 1970 mostra um
acentuado declínio de experimentos q ue manipulam estados
de privação cm ratos, acompanhado por um igunlmcntc acen•
illado aumento nos experimentos que manipulam a retroalimen•
22 Capítulo Dois
taçâo que acon1panhava o sucesso ou o fracasso no desen1penho
humano (Weiner, 1990). O planejamento experimental não é
rnui to di ferente, mas é inegável o fato de seu foco ter passado a
se concentrar ern pessoas, em vez de animais.
a se concentrar etu problen1as e questões aplicadas e de relevância
social. Taiubém passaram a ter contato mais freqüente com os
psicólogos de outras áreas, tais como os da psicologia social, da
psicologia industrial/organizacional, da psicologia c línica e de
aconselha111ento, e assin1 por diante. No geral, a área tornou-se
menos interessada em estudar, por exemplo, a fome corno fonte
do impulso, e 111ais interessada e111 estudar as 1notivaçõcs que se
encontra111 por trás do con1er, da dieta, da obesidade e da bulinlia
(Rodin, 1981; Taubes, 1998).
Segundo, a revolução cognitiva veio co111ple111entar o en1er-
gente movimento do humanisrno. Os psicólogos humanistas cri ti -
cavaiu as teorias 1noti vacionais don1inantes nos anos 1960 con10
sendo decididaiuente não-hu n1ai1as. Os hun1anistas resistu:am a
utilizar a metáfora da 111áquina. que apresenta a 111otivação de
urna nianeira determinista, como sendo uma resposta a forças
biológica~ incômodas, a destinos desenvolv irnentais (p. ex.,
experiências trau1uáticas na infância), ou a conu·oles exercidos
pelo ambiente ou pela sociedade (Bugental, 1967; \.Verthein1er,
1978). As idéias de Abraham Maslow e Carl Rogers (Capítulo
15) expressam a nova compreensão que a psicologia tern dos
seres hurnanos con10 seres inerente rnente ativos, cognitiva-
mente flexíveis e 1uotivados para o crescüuento (Berlyne, 1975;
Maslow, 1987; Rogers, 1961).
A Pesquisa Aplicada e de Relevância Social
Uma terceira importante a lteração que aj udou a iniciar a era
das rn initeorias foi o fato de que os pesquisadores voltarain
sua atenção para questões relevaJ1tes à solução dos problemas
1uotivacionais enfrentados pelas pessoas e1n sua vida d iária
(McClellancL ·1978) - no trabalho (Locke & Latharn, 1984). na
escola (\Veiner, 1979), ao enfrentarem o estresse (Lazarus, 1966),
na solução de problen1as de saúde (Polivy, 1976), na luta conu·a
a depressão (Selig111an, 1975), e assüu por diante. À tnedida que
estudavam menos os animais não-humanos e mais as pessoas, os
pesquisadores descobri ram uma riqueza de exemplos de mo1.i-
vação que ocon-em naturalmente fora do laboratório. Em função
disso, os pesquisadores rnotivacionais começararn cada vez mais
A ênfase na pesquisa aplicada e socialmente relevante fez com
que os estudos 1notivacionais contemporâneos assu111issem tun
tipo de papel de "Johnny Appleseed"5, e1u que os pesquisadores
1uoti vacionais saíran1 ele seus laboratórios para fazer perguntas
do tipo "O que causa o con1por1an1ento?" nas mais diversas áreas
de especialização da psicologia. As novas alianças motivacionais
con1 outros ca1npos da psicologia podem ser ilustradas na Figura
2.1, que n1ostra explicita111ente co1110 a 111otivação se relaciona
co1u os outros cursos ele psicologia que o leitor possivelmente
j á fez ou fará. Ou seja, parte do conteúdo dos cursos de psico-
logia social, da psicologia da personalidade e da psicologia da
educação é certa1nente motivacional. En1 virtude dessa superpo-
sição, às vezes é difícil dizer onde o estudo da cognição acaba
e onde o estudo da 111otivação co111eça (Sorrentino & 1:-liggins,
1986), ou onde o estudo da percepção aca ba e onde o estudo da
motivação começa (Bindra, 1979). As tênues frontefras entre a
n10Livação e seus campos atins em ge.ral sugerem a existência
de tuna crise de identidade no estudo da ,notivação; por outro
5Lllcralmcntc. "Joãozinho Planlador de Maçãs". apelido de um sujeito chamado
John Chapman, que, nas primeiras décadas após a independência dos EUA.
perambulou pela costa leste do país plantando macieiras e estimulando os outros
a fa.1..erem e, mesmo. O nome pa.s-sou então a se apl icar a qualquer pessoa que se
loma adepla ou propagandisw entusiasta de uma causa. (N. T.)
,,,,,.-- ----..... /,----- ..........
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1 Soda] / Desenvolvimento / -----, ~ / -----,,,,,. ..... ,,,,-, ,,,,,,,,. .....
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/ 1 ndustriaJ/ \ ' .J 1 &lucadonal
1 Ocganizacional / 1 /
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_'_,__ _.,.,,, Motivação e Emoção ',_~ ----~ ✓
- ·- - - v-- -,,,,,. ..... , ~ ífi ....
✓ , Respostas Pro\'enienres de Areas Espec 1cas, ✓ ,
1 \ q ue R<:spon(lém a esrns Qu<:SlÕ<:S 1
1
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( Personalidade ) Fundamentais: 1 Cognitiva )
, 1 • O que causa o c:omport.amcnto? , /
' ....._ ., "( • Por que o comportamento ,~u•ia cm '·, ,.,,,,. /
...,_ I --- - -/ -- - - - - ~ , intensidade? ,,,,,. ~ --,
/ ' / '
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1 Clínica \... .,. / Fisiológica 1
\ l- :::.-- - - - -- \ I ' ,,,,,. -...... ,,,,,..- -..... /
' / "Ç"7" ' / .._ I \ '\.. _.,. -----~ \ ,--- -\ Aconselhamento I Saúde 1
\ I I
' ✓ , / ..... ,.,,. ..... ,.,,. ------ - -----
Figura 2.1 Relação entre o Estudo da l\llotivação e as Áreas de Especialização da Psicologia
lado. na prática. a ausência de fronrciras bem definida~ facilira
a troca de idéias e estimula uma exposição a diferentes perspec-
tivas e metodologias (Feshbach. 1984), incluindo aquelas vindas
de fora da psicologia (p. ex .. a sociologia: Turner, 1987). Como
conseqüência disso. os esludos contcmporàncos da motivação
ganharam uma riqueza. um inrercsse e uma viLalidadc especiais
(McNally. 1991).
A ERA CONTEMPORÂNEA DAS
MINITEORIAS
Thomas Kuhn ( 1962. 1970) descreveu a história da maioria da.~
ciências enfatizando o falo de que uma cena disciplina Lanto faz
progressos conlínuos quanlo desconlínuos. Quando ocorre um
progresso conlínuo, os panicipantes realizam progressos lenros.
incrementais e cumulativos. à medida que novos dados vão sendo
acrescentados e vão suplantando os velhos dados. e as novas
idéia.,; se somnm e suplantam :is idéias antigas. Por oulro lado.
quando ocorre um progresso desconlínuo. aparecem idéias radi-
cais que riv::tlizam (e não mais se somrun) com as idéia.ç antigas.
Se a.~ idéias r-.s.dicais ganharem aceitação, há uma rápida e drás-
tica alteração no modo de pensar dos pesquisadores. fazendo
com que os antigos modelos caiam cm desuso para dar lugar
aos novos modelos.
A Tabela 2.2 mostr.i u visão desenvolvi mental de Kuhn. Em
seu estágio pré-paradigmático. os estágios primitivos de uma
disciplina começam a se cnr:úz.ar à medida que os participanlcs
vão formulando diferentes questões. utilizam métodos diferentes,
tentam resolver problema..~ diferente.-., sugerem diferentes solu-
ções e , basicamente. discordam e discutem bastante entre sL Já
no estágio paradigmático, os ?articipantes da disciplina conse-
guem alcançar um consenso sobre o que constilui sua eslrUtura
teórica e metodológica comum. E...sa esirutura compartilhada
(um "paradigina") possibilita que cada conlribuinte compre-
enda os métodos e problemas da disciplina da mesma maneir-.1.
Com isso. os participantes têm condições de trabalhar colcti va-
mcntc, o que os faz ganhar cm uma compreeas5o cada vez ma.is
deLulhada e apurada da sua área de intcrc..,;sc. EntrcLanto. com
o tempo as limitações e as inadequações do paradigma aceito
tomam-se evidentes. à medida que vão surgindo anomalia.~ que
não podem ser explicadas com o paradigma então endossado.
A l\1olh•:içilo Segundoas Pe,spectivas lü,16rica e Contemporânea 23
bso faz com que toda a área experin1ente um dC5COnforto geral.
Em conseqüência. surgem novos i1r.sigl11s e novas descobcnas,
e esses rnsights e descobertas faz.cm surgir um novo modo de
pensar ("um paradigma"). Munidos desse novo modo de pensar.
os pesquisadores rcnninam por chegar a um acordo sobre um
novo e apcrfeiço-Jdo paradigma, cm um processo que geralmente
engloba várias gerações de cientistas. Por exemplo. dois casos
clássicos de mudança de paradigma ocorreram com a revolução
copcmicana. que sub~1:ituiu as antigas idéias do geocentrismo.
e com a teoria einsteiniana da relatividade geral. que substituiu
a gcomclria euclidiana. Com essas mudanças. a astronomia e a
física ficaram para sempre alteradas.
Como disciplina.. o c.~rudo d• motivação tem participado
da ascensão e da queda de Lrês principais modos de pensar: a
vontade. o instinto e o impulso. Cada um desses conceitos moti-
vacionais ganhou ampla aceitação. mas. à medida que novos
dados for.llD surgindo, constatou-se que cada um desses conceitos
era bastante limiLado para produzir mais progressos, e isso fez
com que, no final. cada um deles fosse substituído por uma
idéia mais nova. radical e aperfeiçoada. Atualmente. o estudo
da motivação encontra-se em meio 3 era das mini teorias, e os
três avanços recentes ( ou seja. a natureza ativo da pessoa. a revo-
lução cognitiva e a pcsqui.~a socialmente relcvanLC) que há pouco
reviswnos explicam por que a era das minitcorias acabou se
mostrando mais produtiva do que a era da teoria do impulso entre
nós. Outra tendência dos estudos motivucionais contemporâneos
é o afastamento que essa área vem experimentando das ciências
naturais e sua aproximação das ciências sociais. Enlretanto, essas
atuais e~pccializ.ações, debates e discordância.~ têm produzido
nos estudos motivacionais uma "crise de identidade".
Nessa "•crise de identidade" que acompanhou a Lran..~içlio da
teoria do impulso para a er.s. atual das minitoorias, houve conse-
qüência.~ boas e más. No lado ruim, a motivação perdeu o trono
que tinha como talvez a mais importante disciplina da psicologia
para ser relegada a um tipo de área de estudo de segunda classe.
E.'ISC dc.~lronamcato da motivação foi tão severo que. em certa
medida. a área sofreu um colapso que durou uma década e meia.
Entretanto, o c.~tudo da moti vaçào não dcsaparcccu. As ques-
tões que delínem a motivação. discutidas no Capítulo 1. perma-
necem. E. cm vez de desaparecer. os especialistas motivacio-
oais se dispersaram para praticamente todas as outras áre.ls da
Tabela 2.2 Esboço do D.!senvolvimen10 Típico de wna DL~pUna Científica
1. Pré-parndigrnitico
2. Pari:,digmálico
3. Cri~e e revoluç1lo
~- No, o paradigma
Floresce wua nova ciência. cujos participante, n~o compattilhwn UJna 1nes1nll linguage,n oo um m~10
conhecimento bá,,co. S11o Creqoentes o;. debates sobre quais de\'eriam ser os métockx, os problenias e
as soluções da dlsdplina.
~ C:ic,;ões pré-paracllgmálicas se fundem em um consenso ,obre o que oonstirul o, método,., o, problema,,
e ru. soluçõe1. da di!.clplina. E.-se com,enso é ch;lJll;lclo de parodlgma. O.. partidpant~ que con1partílbam
desse parndigma acumulam conhecimento e razern avanços c:on,idernveis.
Surge wnn nnoma.lJJI que nilo pode ,er explic-.ida pelo t.'Onsensofpar.:tdigma exh1eote. De,encudeia-se entilo
uin choque enrre a velha maneira de pen.1.ar (que nlio con.segue ~plicar a anomalia) e a nova maneira de
pensar (que consegue explicá-la).
A no,•a m:lllilira de pensar prt)duz um progresso que modifica a disdpUna. Ao chegar a u111 oovo consen.<,0.
o,, panic:iparues ,e 01abili2.am em un1 oovo paradi!_tma (oo novo estágio paradigm:\tico). O progre,.o retoaia.
e com ele são feitos novos O\'MÇO,, coosi<lenheh_
24 Capíu1Jo Dois
psicologia. Sem o uso de conoeitos motivacionais. os teóricos
da aprendiz.agem. os p~icólogos da personalidade, os psicólogo;,
sociais. os clínicos e outros eram incapazes de explicar todos os
tipos de comportamento que tentavam entender. Em outras pala-
vr:1s: os demais campos da psicologia precisavam de rc.<;postas
para suas questões motivacionais. E o que emergiu disso foram
as teorias da motivação social (Pittman & Heller. 1988). da moti-
vação fisiológica (Stellar & Stellar. 1985). da motivação cogni-
ti,•a (Sorrcntino & Higgins. 1986), da motivaçEo no desenvolvi-
mento (Kagan, 1972). e assim por diante. Além disso. também
surgiram teorias motivacionais ~-pccíficas a domínios particu-
lares de aplicação: teorias que c.~plicam a moti,•ação relacionada
ao ato de fazer dieta e, de se embebedar (Polivy & Herman. 1985).
ao trabalho (Lock.e & Lalham. 1984. 1990: Vroom. 1964). aos
esporte.~ (Robcrts. 1992: Straub & Williams. 1984), à educação
(Weiner, 1979). e assim por diante. Por volta de 1980, os psicó-
logos rnotivacionais estavam em liter.ümcnte toda., as áreas da
psicologia. enqWlnto investigavam as bases motivacionais da
cognição. da interação social, da saúde, da personalidade. da
educação, e daí por diante.
Nos anos 1960, o estudo da motivação basicamente entrou
em colapso. Os conceitos motivacionais foram postos de lado,
enquanto a disciplina era dominada pelos beba,~oristas, que viam
a motivação como algo que aconte,ce fora da pessoa (em fom1a de
incentivos e reforçadores). E quando as força.~ internas li pc;,soa
eram reconhecidas. elas eram tidas como forças fisiológicas,
inconscientes ou subconscientes. Em função disso. estudar nessa
época os aspectos conscientes da motivação era algo, por a'i.Sim
dizer, proibido (Lock.c & Lalham. 2002). O estudo da motivação
necessitava de teorias que cxplica<1scm como as pes.= inten•
cionalmente regulam seu próprio comportamento. Felizmente.
cm outra.~ área.,;, os psicólogos não-motivacionais desejavam
saber a mesma coisa. Ou seja. veio a se constatar que a.<; questões
sobre a motivação er-.im significantes e relevantes para pratica-
mente todas as áre~ da psicologia. Portanto. os pesquisadores
motivacionais estabeleceram uma série de alianças com outra.,;
áreas, formando assim uma rede dispersa de pesquisadores que
compartilhavam uma mesma preocupação e compromisso com
as questões e problemas relevantes do ponto de vista motiva-
cional Foi na<; especialidades da psicologia - ps icologia social.
psicologia educacional, psicologia industrial/organizacional, etc.
- que se criaram as teorias sobre como as pessoas iatcncional-
mente regulam seu compon amento.
Diante desse presente uestado de cri.,;e", h:í duas maneira.,;
de conceitualizar os estudos contemporâneos da motivação. A
prime.ira delas é basicamente admitir que a área da motivação é
jovem. imatura e basicamente arr.iigado a um estágio pré-para•
digmáticodc 100 anos de duração (veja a Tabela 2.2). Em vez de
existir em fonna de uma disciplina própria e bem-estabelecida, o
estudo contemporâneo da motivação depende das aJ innças desta
com outros campos da psicologia. como mostr.i a Figura 2.1. A
Figura 2.1 também aprese ata Wllll superposição intelectual entre
o núcleo dos estudos motivacionais e e.,;ses dez campos afins.
A título de ilustração, observa-se que a psicologia educacional
estuda como os estudantes aprendem e como os profc.,;sores os
ajudam a aprender (Renninge:r. 1996). Corno a motivação afeta
a maneira como os estudante.<; estudam. e como os professores
afetam a motivação dos estudantes para aprender. o campo
da motivação é relevante para a psicologia educacional. Esse
interesse mútuo é mostrado em fonna de círculos superpostos.
mostrados na Figura 2. 1. e manifcsm-se nas pesquisas reali-
zadas pelos psicólogos educacionais, que fazem perguntas como
"Qual é o papel do interesse na aprendizagem?" (Ainley, Hidi &
Bcmdorff, 2002) e "De que modo o elogio de um professor afeta
a motivação dos alunos?" (Hcnderlong & Lcpper, 2002).
Uma segunda maneira de concci tualiz.ar os estudos contempo-
râneos da motivação pode ser vistana Figura 1.1 (do Capítulo 1 ).
E.•,sa figura identificou o 355unto dos c.,;tudos motivacionais em
tomo de quatro constructos: necessidades, cognições. emoções
e eventos externos. Todos os pesquisadores da motivação cnfa-
tizan1 a contribuição de um ou mais de-Sses constructos para
explicar a energia e a direção do comportamento. Por exemplo.
no estudo das necessidades. alguns teóricos argumentam que
"o estudo da motivação bumana é o estudo das necessidades
humana.,; e dos processos dinâmicos relacionados a c_,;sas neces-
sidade.,;" (Dcci. 1980, p. 31). Já os teóricos motivacionais preo-
cupados com a emoção argumentam que " a.,; emoções constituem
o sistema motivacional primário" (Tomkins, 1970, p. 101). Eum
estudo cognitivo da motivação supõe que "a,; crenças[ ... ] das
pessoas determinam seu nível de motivação" (Bandura. 1989. p.
1176}. Outros teóricos concentram-se nas propriedades motiva-
cionais de eventos externos. enfatizando-se para uma análise de
como os eventos ambientais energizam e direcionam o compor•
lamento (Bnld\\~n & Baldwin. 1986: Skinner. 1953).
A organização dos capítulos deste livro reflete cs..\a última
conccitualização do estudo motivacional. Ou seja. um capítulo
cobre as maneiras como as necessidades motivam o compor-
tamento. outro capítulo trata de como as cognições motivam
o comportamento, e as.,;im por diante. Essa é uma observação
crítica a fazer. pois revela que quem es tuda a molivação e a
emoção reconhece que os fenômenos motivacionai<; incrente-
mente possuem vários níveis (Driver-Lino. 2003). Ou seja, é
possível entender um estado morivacional em nível neurológico.
cm nível cognitivo, em nível sociaL e assim por diante (veja o
Boxe 2). Reconhecer que a motivação e a emoção siio inercn-
temente fenômenos de vários níveis significa que essa árc:i de
estudo necessariamente inclui suposições contradit6rias, métodos
variados e diferentes formas de compreensão dos fenômenos.
Uma boa maneira de concluir essa análise da motivação como
sendo uma disciplina cm desenYolvimento é fazer uma revi~ão
das atuais definições de molÍ\'3Ção e emoção. Essas definições
estão aqui repetidas do Capftulo 1:
M otfração: ref tre-sc aos processos que dão no comportamento
sua energia e sua direção.
O tenno procusos íaz reconhecer que os pesquisa-
dores da motivação não chegaram a um acordo sobre se
os motivos são essencialmente necessidades. cognições.
emoções ou reações a eventos ambientais. Ponanto. o
uso desse termo é uma confissão involuntária de que o
estudo contemporâneo da motivação é multiparadigmá-
lico, encontr.lndo-se, por oonscqUéncia. cm um estágio
pré-paradigmático de desenvolvimento.
Enioção: fenômeno subjetivo. fisiológico. func ional. cxprcs•
sivoe de vida curta. que orquestra a maneira como reagimos
adaptaúvamente aos eventos importantes de nossa vida.
A exprllSsào subjerivo.fisiológico.funcio11al, eJ.Pressivo
roc.onhece que os pesquisadores da motivaçã.o compre-
endem as emoções observando-as a partir de diferentes
pontos de vista. Portanto, essa expressão é outrn confissã.o
involuntária de que os estudos contemporâneos da emoç-ão
apresentam vários níveis e. por conseqüência. também se
encontram cm um estágio pré-parJcligmático de desenvol-
vimento.
Admitir que os estudos motivacionais encontram-se em um
estágio pré-paradigmático de desenvolvimento poderia soar
como algo pejorativo. Afinal . qualquer disciplina gostaria de
ver a 5Í mesma como madura, avançada, paradigmática e coesa
(como a física). e não como imatura, lenta, pré•parndigmática e
B<>XE:? As Muitas Vo:es no Estudo da Mo1ivaçiío
Pegunta: Por qut e_,,'-ll infonnnçno é impoiunte?
Respn.ira. Par.- que i,e per~eb.1 Lodo o espectro de voze.. panic:i-
panies do esforço de compreender o mouvaçAo.
Os fenómeno,. moti \'acionai, l.ào evento. oomplexos que exhtem
eru divenos 11hci,, Cp. ex_ neurológico. cognitivo. ,ociül. :u11bienllll).
Enu-eu11110. ru prática. a maioria das tentali,•as de expli.:ar ulllJI
exp,e_riêncta moth ...cional b3l.eia-.e em UJllll única per.;pectiva. Por
exemplo. qWU1do wn adolescente pei ele interesse pelll escola. o pai
ou a mãe (ou 11tu pe,quisador) getalmerue ;..li à pnx.uJ a Mda .. expli-
caçilo paro a diminwçào do inieresse. As pessoa, tendem 3 ~o-
U1er a primeit3 idéill r.lZOável e s111hf:uória que lhe, \'CID à meote.
Elltremn10, uma outra maneiro de perL.;.'U' .obre a 1ll0llvaçãoc! tornar-
se consciente de wna an1pla gama de pos.,i\'ei, ídé,as. para entoo
seleciottar aquela, gue melhor i.e adeqUe:m a uma experiência em
p::.tticular.
l\1uitas ,ozes pott1c1pam dos discussões :.obre oses1Udos contem-
poruneos do mot1\'11Çâo. da., qurus. ,ele s3o paniculwmente ,mpor-
rante,,.
PetspeCtÍ\'O:
C1.11nponamem.al
F'Lçiológ.ica/
neurológica
Cognitiva
Cogni Ih o-,ocial
( COI nir.iJ)
Evolucionruia
llumani~to
Os n101i,os são de origem ...
locentivos e recomperuas :unbientais CP- ex..
dillbeiro)
Atividade eerebr:11 e bonnonal (p. eL, fome)
E\'eLH°' merua~ e modos de pensar (p. ex ..
metus)
Maneiras de pensar após uma uposiç;lo a
ouu-os indi, !duo.. uis como aquele, que
desempetth:im papéis modelares (p. ex ..
possí\ eh >1gnificado-. pes.<o:usJ
Dota~ gemfuca de cada indivíduo
(p. ex .. exu-oversào)
Encor.ijamenio do po1encíal humano
(p. e:1._ illllo-l11Uali2'lçllo)
Vilb mental ,nconsciente (p. ex .. ans,ooade)
A l\1olh•:içilo Segundo as Pe,spectivas lü,16rica e Contemporânea 25
dividida (como a motivação: Driver-Linn. 2003). Dessa forma.
os estudo.o. motivacionais exi"tem como um "trabalho intelectual
em progresso".
O Retorno dos Estudos da Motivação
nos Anos 1990
A partir de 1952. a Universidade de Nebra.'ika passou a convidar
os mais proeminentes teóricos molivacionais da época a se
reunirem :mualmcnte em um i.;mpósio sobre motivação. No
primeiro ano desse encontro. entre os participantes estavam
Harry Harlo,v. Juclson Bro,vn e Hobart Mowrer (nomes célc•
bres nos e!itudos da n1otivação). No ano seguinte. John Atlcinson
e Leon Festinger apresentaram artigos. o mcsm.o ocorrendo no
terceiro ano com Abraham Maslow. David McClelland. James
Olcls e Julian Rotter(de novo. Lodos eles pesquisadores famosos
no c.'>ludo da motivação). O simpósio logo se tomou um ~'"l.lces..w.
A liculo de ilustroção. considere como é ~(\·cl Ler a melhor
compreemilo e explic::içiio dJl ,notivnçilo ,exWll. Os h<lh:1v1orota.,
apontàln para :i p3fte do t!e,,ejo que depende do grau n que :i outra
pessoa é Cllr.lente e 1en1 a capacidade de reforçar 1?,,Sll lllr.lÇào lt,11:a
J~ os p,1cofi,1ologista., aponta111 pnra :l parte do deseJO que depende
dll líberoç.lo de dopaminu no sistema lfntbioo dO cérebro. O. cogni-
tivi,ta< tlCl'eSCenlllJn que o desejo provém de expectai"•~ ,nl!IA,,
\'alore;,. e,,quemns e crença, ,obre o que é e o que nllo é po,.,ível.
o., pe."'lui_~rei, cognitivo-sOl."ia4 ajuntam qut! nos= crença~ e
expectat1\as surgem das uueroçôes com 05,ootro,. l!U,como OOS.'>US
colega~ e :1., pe,.~oa,, que poro nós repre.,enlllm modelos de p:ipel
culrur-.tl$. Os evolucioru.<;tas diwn que os h01nens e n,, mulheres
têm diferen1c,;estra1ég1as de aca.wamento e que, portonto. dcseJrun
encontrar di.feren1es qualidade;. etn um parceiro. o~ humanisra.<
snlíentum a ~Jode;ejo q~deri,a d:t oponunitlnd.ede panicípar
de u.,na rela~o íntima e promotora de cresdmen10. E o~ ps-kruiah5to.s
ocrescenmm (lllê desejamos relnç&s com as pe~-oa., que <,e enqua-
drnm nos 1101,,o.s pnmeiros vínculos e do modelo meolal ei1raí~
na ,nrnnc,n a respeito de quão próx.,mo de uin ideal mmânuco o
parceiro de\'<? .e si1Uru-.
Quando ouvi mos 1 odn.ç essas ,·ozes que paniciprun da discussão
sobre lllOlivaçNo. re,1101, a impre,são de eswnno, diante tanlo de um
ponto íMe quanto de un, pomo fraco. Quanto ao ponto fraco. pode-
riamo.'l ter o impres-<:lo (correta) de que a motivaçào nGo parece ser
unt cainpo de estudo bo.l:ido- ou seja. ela eslá dividida em espe-
ciolídades. e ninguém parece chegar a um acordoque no, penn,1.i
compreender e explicar o que ,-ão a motivaç..o e a elll()Çâo. Quanto
oo pon10 rone. .entretwno. , t1noo que ,;e gw1ha a oponunidade de
juntar mais peças do quebrn-cabeça. Pesqui.s:tdores de diferen1es
pei-!.pectÍ\11.~ fazem diferentes'l pergunta, liObre a moth'l!Ção. rnu1ta:.
d!IS quais poderirun .er unpensá\ei, o nó,, c.bo noo tivessem ,ido
ronnulod,1s por mejo de perspecti,•:ti que no< s.ào pouco fan1iliares.
É prováYel que você noo ache t~ o.s respos1a:. ~a1i,fa16ria.,. n1a,;
uma compreens.lo profunda e .ofislicada d:t moti vaç.lo e da emoçlo
e<uneça primeiro colocando todo o conhecime,uo llisponível sobre
a llleSll. pru-a enulo .eledonar aquelJS idéia,, que i..10 mais empiri-
camente defensáveis e pessoalmenle utilizúYeis.
26 Capítulo Dois
passando a dese111penhar lllll papel de liderança na definição e na
reflexão sobre a área. Ao longo de 25 anos, o simpósio se realizou
ininterruptamente, até que uma mudança rundarnental ocorreu em
1978 (Benja1nin & Jones, 1978). Em 1979, o simpósio quebrou
a seqüência de seu ten,a motivacional, passando, e111 ve,. disso,
a considerar tópicos que variavam de ano para ano, sendo q ue
nenhun1 deles tinha 1nuito, ou 111cs1no nada a ver, con1 motivação.
O sünpósio de 1979 concentrou-se nas atitudes, e sünpósios
posteriores detiveram-se em tópicos como gênero, comporta-
mentos de adictos e envelhecin1en to. Lembre-se de que esses
anos corresponde1n à perda de posto que a 1noti vação sofreu, de
ser talvez o c,uupo n1ais i1uportante da psicologia para se ver rele-
gada a 1111111 área de segunda classe. Basica1uente, o Sin1pósio de
Nebraska, assi111 con10 a psicologia c1n geral, perdeu o interesse
pelo estudo da 1notivação (pelas razões descritas anterionuente).
Com o declínio de suas grandes teorias, os estudos da motivação
perderan1 seu foco e sua identidade.
Entretanto, a história não termina co1n a 1notivação vivendo
essa crise irre,uediável. Reconhecendo o renascin1ento dos estudos
da 1uotivação e de seus feitos conte111porâneos (ou seja, da era
das rninüeorias), os organiudores do Simpósio de Nebraska de
1990 mais uma vez convidaram os pesquisadores 1nais proemi-
nentes da n1otivação para se reunirc1n e,u u1u silnpósio dedicado
exclusivamente ao concei to de motivação (Dienstbier, 1991 ) .
Durante essa conferência, os organizadore,5 perguntara1n aos
pa11icipantes - Mo11imer Appley, Albe1t 13andura, Edward L.
Deci, Douglas Derryberry, Carol Dweck, Don Tucker, Richard
Ryan e Bernard Weiner (de novo, todos nomes famosos no estudo
da motivação) - se eles achavam que a motivação era nova-
mente u111 can1po forte e n1aduro o suficiente para 111erccer que
houvesse um retomo exclusivo aos tópicos sobre 111otivação. De
111aneira unânime e en tusiástica, os participantes dissera111 que
a 111otivação era de novo uni ca111po de estudo rico o suficiente
para justificar o encontro anual e111 Nebraska. Os organizadores
concordaram com essa decisão e, ao fa,:ere1n isso, deram ao
esn1do da motivação um voto de confiança e um senso de iden-
tidade pública. Desde então, a cada ano o suupósio voltou a ter
seu foco na n1otivação.
Nos anos 1970, os estudos da 1notivação enconln1va111-se à
beira da extinção, "com as costas achatadas", conforme disseram
dois pesquisadores (Sorrentino & Higgins, 1986, p. 8). O simples
fato de que os organizadores da conferência tiveram que perguntar
aos participantes do s impósio se a motivação, por si só, cons-
titui ou não uni ca1npo diz a lgo sobre sua crise de identidade. O
estudo da n1otivação sobreviveu aliando-se a outros can1pos de
estudo, e o Sin1pósio de Nebraska de 1990 si1nbolica1uente apre-
goou seu retorno ern direção a um campo integrado e coerente de
estudo. Com o novo ,nilênio, o esn1do da motivação mais uma
vez logrou atingir uma 111assa crítica de participantes Íllteres-
sados e proentinentes. Para docu1uentar essa conclusão olünista,
o leitor pode consultar os principais periódicos de psicologia (p.
ex., Psychological Review, PsychologicalBulletin, Psychologica/
Scie11ce) e esperar encontrar u1n artigo relacionado à motivação
ern prati camente todas as edições. O que parece é que as ques-
tões e problen1as motivacionais são simplesmente interessantes
e ünportantes den1ais para seren1 ignorados. E o 111es1110 se pode
dizer en1 relação aos periódicos de diversas outras áreas de espe-
cialidade (p. ex., Journal of Educational Psychology, Journal of
Personality and Social Psychology). No novo 1nilê1tio, o estudo
da rnoti vação está claran1ente de volla à fronteira da psicologia.
Nos 14 capítulos que se seguirão, o leitor pode esperar encontrar
u111 carnpo crescenle e ern estado de llorescirnento - um pouco
desorganizado, porém interessante, relevante e vital.
Con10 d isse u1n participante do sü11pósio, "se o que você tcn1
é u111a n1aneira de ajudar as pessoas a u·atar de questões signifi-
cantes em suas vidas, então você verá por todos os lugares avisos
do tipo 'Precisa-se de Aj uda"'.
CONCLlJSÃO
Muito se pode ganhar percorrendo os 24 séculos de pcnsa111ento
sobre a motivação. Considere as antigas questões: por que se
comportar? Por que fazer algo - por que se levantar de 111ailhã
cedo para fazer alguma coisa? Diante de questões como essas,
ao longo da história, os pesquisadores da 1notivação co1neçaran1
a buscar os agentes ü1stigadores do con1po1tan1ento - ou seja,
começaram a procurar identificar o que energiza ou inicia o
cornportarnento. Durante dois mi lênios (de Platão [c. 428-348
a.C.] a Descartes [c . 1596-'1650)), o esforço intelectual para se
compreender a motivação concentrava-se na vontade, que reside
na alma imaterial. Estudar essa substância imaterial e espiri-
tual foi algo que se mostrou muito difíci l para a nova ciência
da psicologia. A biologia (fisiologia) n1ostrou-se unia alterna-
tiva n1ais conveniente, unia vez que seu sujeito era 111aterial e
n1ensurável. Ao responder à pergunta "Por que se comportar'?'',
a resposta veio a ser que o comportamento serve às necessi-
dades do organisn10. O instinto, o i1upulso e a excitação, todos
esses 111otivos se tornara111 atraentes, visto que cada u111 deles
era nitidamente capaz de energizar os tipos de comportamento
que serven1 às necessidades do organis1110 (p. ex., as pessoas
levantaJn-se da cama porque tê111 fome e precisa111 con1er algo).
O incentivo tarnbén1 se sornou a esses constructos, uma ve,: que
o hedonismo (a busca do prazer e a evitação da dor) explica o
1uotivo pelo qual os eventos a111bientais truubé111 são capazes de
energizar o co111po1t a111ento (ou sej a, as pessoas se Jevantain da
cama para buscar o prazer e afastar a dor). Século após século, os
pensadores foram aperfe içoando suas respostas à questão sobre
o que instiga o comportamento, propondo a vontade, o instin to,
o impulso, o incentivo, a excitação.
Todo o processo estava indo relativamente be,n, até que uma
111assa crítica de pesquisadores da 1uotivação percebeu que se
estava fazendo e tratando da questão errada! A questão da insti-
gação do comportamento pressupõe um organis1110 passivo e
biologican1ente regulado; ou seja, alguérn que está adonnecido
e, ao acordar, precisa de algu1n motivo para agir de um n1odo
co111po11aiuental. E111 algu1n ponto , os pensadores 1uotivacio-
11ais percebera111 que dormir era t,unbén1 u111 co111porta111ento, e
que o donninhoco notório estava ativamente engajado en1 seu
ambiente. A percepção q ue se teve é de que estar vivo signi-
fica estar ativo: portanto, os organisn1os estão se111pre ativos,
sempre se comportando. Não existe t.ernpo em q ue um orga-
nisn10 vivo não esteja se co1nportando; e não existe tempo no
qual u,n orgai1isn10 não esteja apresentando tanto energia quanto
dü·eção de compo1ta111ento. Portanto, as questões funda111entais
da motivação pu.~sar.im a ser as do úpo: por que o com porta•
n1e:nto varia de intensidade'! E por que as pessoas fazem uma
coisa e não outra?
Essas duas questões aumentaram o poder doestudo da moti•
vação. Os estudos contcmporíincos da motiv:ição passaram 11 se
conccatr.ir não só na encrgi a do comportamento. mas também na
sua direção. E.,;se é o motivo pelo qual uis tendências históricas
- a do organismo ativo, a da revolução cognitiva e a da preocu-
pação com as pesquisas aplicadas e socialmente relevan tes-.
são tão importantes. uma vez que o campo passou a se: basear
menos nos agentes instigadores do comportamento, na biologia
e: nos experimentos labor.itoriais oom oobaias. e a se interess11r
cada vez mais pelos agentes diretores do comportamento. da
cognição e dos problemas motivacionaii. humanos.
Essa mudança de perspectiva abriu as comportas intelectuais
para a chegada ao campo das miniteorilll>. No lugar das grande~
teorias. o cenário contemporâneo agora oferece uma coleção de
minite:orias. como a motivação de realizaçiio, do estabelecimento
de metas e da auto-e ficácia. Essas minitcorias respondem a ques-
tões específicas e explicam a motivação cm situações particu•
lare;. de maneira um tanto eficiente, como veremos nas próxima:,
págiOJIS.
RESUMO
Uma vi.-llo hi$16rka do e.srudo da mOli vaç3o penn,te ao lei lor con ~denu-
como o conceito de motivação ve,o a ntinglr suo proe,uinência. como
o cainpo se modificou e se desenvolveu. co,no sua,, idéias forun1 ct.,sa.
fiac.13, e ,ubsÚlU{dilS e, finalmente. como o c::tmpo te...Ufll iU e pa,,,ou a
englobar diverSru.disc:iplinas na psicologia (Bollei, 1975). Os é-onceitos
motivnc:ionoh tbn origens filosófJL'aS. Désde a ,\lltiguidade gtega até a
Re!nasrença européia, a moúvnçilo era entendida dentro de dois te1uas.
seudo um deles o de que n lllOtivaçlk> era boa. racional. imaterial e ativa
(ou seja, a \-Ontade) e ouu-o de que a ruoúv-Jç-J.o era prilniti va. in1pul-
sivn, biológica e rentiva (ou seja. o, desejo,, corporais). Entretanto. o
estudo ftk>,ófico da vontllde \eio a se toniar um beeo-sem-safda. que
explicava muito pouco .obre a 01otiv:1Ç40. e que de fato fai.ia mui to
mah pergunta., do que podia responder.
Paro ellplicar a moli vaçào, o oovo ca,npo da psicologia passou a
buscru- un:\J análise mais fisiológica. concentr.mdo-se no coocei10 nieca-
nicista do in,timo gerado geneticamente. O aspecto :11raente da doutrina
do instinto era sua capacidade de explicar o compon;unento nllo-:ipren-
diilo dolado de energia e Je propósito (i,to é. os impul"os biológicos
direcionados para uma meta). Emrewno. o eswdo tis,ológ,ico do insimto
também provou ,cr um beco-sem-salda. pelo meno,, em temios da sua
capocidadede servir como uona grande teoria <Ili mocivoção. A terceira
grande teoria da o'H>Úvoçào l'oi o impulso. Na teoria do in1pulso. o
componamento é motivado à medida que serve às necessidades do
orgnnis1no e restaura a homeosta,;e biológica. A!>sirn como a vonrnde
e o mstimo. o impulso a princípio parereu algo bastan te promissor,
especialmente porque er.i cap3z de fazer o que nenhuma outr.i teOria
,notivacion:tl ha~ia cons,eguldo ante, - ou seja. p,-eclizer a motlvaç®
ante, que ela ooorresse, a partjr de sua.~ condições ruuecedentes (p. ex ..
pussar hora~ de privação). Em consequência, essa teoria conquistou
grande aceitação, e,pecialtncnte manife,lada nas teorias de Freud e ele
Hull_ Porem. também no final a looria do impulso se 11\ôl;lrOO eweina-
mente limitada em termos de e,copo. e com ess.a rejeiçilll ,obreveio a
desilusão do campo oo.tn ru, grande,. teoria. em geral. embora diver,,o;
princípios adiciollllis derivados das grandes tooria,, tenlulm aparecido
com :tlguo1 M11.-ei.,o. podendo-se n>encionar entre eles o incentho e a
eitc ilaÇão.
A l\1olh•:içilo Segundo as Pe,spectivas lü,16rica e Contemporânea 27
No final, tomou-se claro que. para se obter uru progresso oa compre•
ensão da niotí,'llçilo, ero preciso que ocnnipo safssc do;. limites de sua,
grandes teori:ts e nbraçasse o campo menos ainbicioso, poréu1 nws
promlssor. daJ> miniteonas. Três tendências lti.,t6'-icns exphca,n essa
u1u1s.ição. Em primeiro lugar. os estudos da motivnçi!o rcjeiumun ,eu
compromisso com urna ,•isllo pa.._.,iva da n:tturezn hu1nana_ pn,,ando a
adotar um retralo mai, ativo do, seres lllllnano:,. Em ,egundo. a ,noti-
vaçoo tornou-:,e rugo decididamente cognitivo. e truubé.on um tanto
hnmtlnista. Em terceiro. o campo concenlfou-se nos problemas apli-
cados e de relev!lncia social. O fato de o campo ter mudado o foco para
a. m.initeorllh foi em parte um de;;o,.tre e em parte um golpe de sorte.
No que diz respeito ao de:,a:,tre_ a motivação perdeu seu ,tatus confor-
táveJ de princip.tl disciplina elo psicologia. caindo rapidamente para um
sWlus de segund:i classe. Diante disso. os pe:.<.quisadores da mou,•açllo se
disper.wwn paro prnticameote todas a,. áreas d:1 psicologia (p_ ex_, para
n psicologia so..'iaL do desenvoh•ime,uo e clfnica) e forjaram alianças
com outro, ca111po,;. cotn ele., di vidinllo idéia:,, constructo,_ metodolo-
giru. e pei-,,pectivas_ Porém. i.so :1eabou :.endo o golpe de ,one da mOli-
\'açâo. uma vez que a dispe1'&00 do campo por uma ampla faixa de outros
campo,. de estudo provou ser um terreno fértil parn o desenvol\•imento
de um grande otlmero de 1nioi1eorias esclarecedoras.
O telll3 que perpossn todo este capítulo é que os estudos motivacio-
11ais têm sofrido uin const.a1ue processo de desenvoh imento, embora
continuem a perm:rnecer em uin estágio pré-parndigmático de desenvol-
,•imento. Em recro,,pecto. o;. estudos da motivação progredir-.un desde
con1:eitualizações relativan:iente simphst,1s paro uino ooleção cada vez
,nais crescente de i11sighrs sofisticados e einpiricamenie defensáveis
a respeito da;. forças que energizam e direcionam o comporta1nemo.
Com a ,~ mda do novo milênio. as grande~ teorias 3C3bnram. E o que
surgiu para subs111uir un1 cainpo outrora uniticado e dominado por u111
comprotnisso consensual a uma série de grandes teorias foi a adoçllo
de três pomos em comum por pane de un1 eclético grupo de pesqui-
sndoi·es: ( 1) questões fundamenrois (p. ex_ o que causa o compona.
niento ei1ergético e direcionndo?J: (2) con~tructo, runda111entois (ou
seja_ necessidades, cognições. ernoçõe.~ e eventos extemos) e (3) llJll3
história com p:trtilhnda.
LEITURAS PARA ESTUDOS ADICIO AIS
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Capítulo 3
O Cérebro Emocional e Motivado
O CÉREBRO EMOCJONAL E MOTIVADO
Três Pl'iocípios
1. Estruturas rerebmis especiJi~is gtrrun estados
moti 1• acionais e emocloruús especfficos.
2. Agentes bioquímicos esciinulllffi essas e,trurums oerebrais.3. Os eve1t10, do dia-a-dia füzeiu o,, agentes b1oquímlcos
entrarem em :içllo.
OLHANDO DENTRO 00 CÉREBRO
A APROXIMAÇÃO VERSUS A EVITAÇÃO GERADAS NO
CÉREBRO
tli poullamo
Feixe Prosencefilico Medial
Amígdala
Circuito Sept~H,pocrunpal
Form;içilo Reticular
Q uanto lllllÍs você fica sem comer, mais fome você sente. M as,
como o comediante Jerry Seinfeld costumava dizer: "E daí?" O
c ulpado pelo surgimento da sens:içüo de fome é provavelmente a
grclrna. um hormônio fabricado no estômago que e ntra na c ircu•
la1,-ão sangüínea e é detectado pelo cérebro. Quando uma pessoa
passa muito lcmpo consumindo pouco ou nenhum alimento (ou
seja. quando faz dieta). o estômago e os intestmos detectam a ínlta
de nutrientes e começain a liberar grelina na corrente sangüínea.
Existe uma estrutura cerebral (o hipotálamo) que constante•
mente monitora a quantidade de grclina no sangue. de modo que.
quando o nível dc.,;sc honnônio a umenta, o hipotálamo detecta a
mensagem enviada pelo estômago e pelos intestinos: "'estamos em
falta de nutrientes. mande-nos mais ... Essa men.sagemcstimulao
hipotálamo a criar a experiência psicológica da fome.
Veja como isso funciona. É meio-dia. e alguns psicólogos
seus amigos convidam ,·ocê a se juntar a um grupo de voluntários
que irlo participar de um a lmoço cm que se pode comer tudo o
que puder (Wrea ct aL. 2001 ). O almoço é gr:íti.~. e cada convi•
dado pode comer quanto quiser. Porém, h:í um dctaihc. Trinta
minutos antes do banquete. os pesquisadores aplicam em alguns
voluntários uma injeção intravenosa de grclina, enquanto que
os demais voluntários recebem uma injeção de plaC'ebo. Depois
de aplicar as injcçõe.~. o~ pesquisadores pegam suas cadeiras.
scntam•se e ficam observando o que acontece. E o que ele.~ vêem
é que os voluntários que receberam placcbo almoçam normal•
Córtex Pté-Fronllll e Afeto
AS VlAS DOS NEUROTRANSMISSORES NO CÉREBRO
Dopamina
A Libe~o de Dopamina e a Antecip:içilo da Recompensa
A Biologia da Recompen,;a
A Dopamina e a Ação l\1olivad:i
O MUNDO EJ.1 QUE O CÉREBRO VIVE
A l\1olivação Nilo Pode Ser Separada do Contexto Social em que
E.~~ inserida
Net11 Sempre Te1110,, Consciê11cia da Bru,e l\10livacional do
Nosso Comportamento
co:,iCLUSÃO
RESUl\10
LEITURAS PARA ESTUDOS ADICIONAIS
mente. enquanto os voluntários que rcccbcr.un uma do.\c extra
de grelinn se empanturram.
Con.~idcre um segundo caso. Pe5Guisadorcs monitor.iram o
nível natural de grclina e m adultos :10 longo de um período de
vários dias (Cunniogs ct ai~ 2002). Após medir os níveis natu•
mis diários de grclina nesses adultos. os pcsquis-.tdores pediram
a alguns deles que ioicia.~sem uma dieta de três meses. A dieta
foi cuidadosamente elabor.ida e incluía um programa de intensos
eJtcrcícios fisicos. Vcrificoa•se que a dieta funcionou. Em média,
os que fizeram dieta perderam cerca de 20% de seu peso corporal,
e mantivcr.un essa perda de peso por mais três meses. Ao longo
desse te1npo após o término da dieta, O.'> pesquisooores continu-
aram a monitorar os níveis de grclina nos indivíduos em questão.
E. sem que esses indi viduos soubessem, seus níveis de grel ina
continuaram elevados. Mesmo três meses após o fim da dielll,
quem a havia feito estava se sentindo '"famialD o tempo todo".
A Figura 3.1 mostra a quantidade de grelina no sangue de indi•
1·fduos que fizeram dieta ao longo de um dia normal. A figura
mostra os níveis diários de grclina verificados tanto na ocasião
em que essas pessoas iniciaram a dieta (linha tracejada) quanto
cm um período de três meses ap61; terem perdido peso ( linha
contínua).
A Figura 3.l salienta quatro pontos importantes. Primeiro.
vê-se que o nfvcl de grclina apresentou-se cronicamcntc elevado
após a conclusão da dieta (a linha contínua C!>tá ~mpre acima
600
300
}
I \
I \ ..-r-,
.. .\ r / : -,
, /\ \ I : '
I \ 1 I \ I ; ' J \ \ - \ ,, •
/ 1 / \ \ / , , .
\ I \! .
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Anu:.< d• ~ de Peso
200
6 9 12 l~ 18 2t 14
HorisdoOb
Flgurn 3.1 Ní1•eis de Grellnn na Corrente Sangillnea ao Longo de um
Periodo d~ 14 Hora,._ em llldivítluos que P-12:erom e que Não Rzer.ui1
Dietll
Ob,n•ação. A linha comínu.i rqll~nl'1 os níveis de grdiRO m cacb honi cm
indivíduos que tcmunamm uma dtrtm trcs meses IItnú.. perdendo 20'.I- do S<:U
p<so mrporol. A hoha 1111<'.cjada <qR!,Cnl.l 0> nh·d, horirio,, de gn,Un2 dc:s,,cs
mesmos 1nd1'iduos antes de começarem a dieta e. porumto~ ante.s de havacm
p<rdldo W'l- do seu peso corpornl.
Fnnre. cxtmído de Plasma Ghr,l,n Le,•tL, Afta Di,i-11rduc,d "'"'li'" Loss "'
GOJ,lrli: B_1pas1 SurgtF)·. D. E. C\t.mmings. D. S. Wc1slc. R. S. Fruyo. P. A.
Breco. M. K. ~la. E.. P. Dclltngcrc J. Q. Pumcll. '!fJJ2.N,..., EAglandlournal e,
/1! rdid1te. 346. 1623-1630. Copyrighl 10 2002 Massa<'busetis Medical Society.
Tod0« os drrctlO.'< rc<crVados.
da linha tr.icejada). Segundo. o nível de grclina se eleva e cai
ao longo de um dia nonnal (atingindo picos cm tomo das hor.is
correspondentes ao café da manhã. ao almoço e ao jantar).
Terceiro, quando se come. o nI,•cl de grelina sofre uma r:ípida
diminujção. Quarto, o menor nível de grelina (e. conscqüenLe-
mcnte. a menor seni.ação de fome) cxperimenl:ado após o término
da dieta igualou-se oo mais alto nível de grelina (logo. maís fome)
antes da dieta, o que significa que a menor fome experimentada
por quem havia passado pela dieta foi c:quivalenle à maior fome
ex.perimeatada por quem ainda não havia feito dicla.
A mensagem~ que 3 privação de nlimcnto por dieta induzida
faz o COTPO gerar uma intensa força contrária. que lenta inter-
romper a dieta e a pri\'ação de alimento (isto é, que produz um
pico de grelina). Como dis.'iC uma mulhcT que passou pela dieta
e experimentou um desses períodos de intensa fome correspon-
dentes aos picos de grclina: "'Quando olhei para aqueles biscoitos
amanteigados no freezer. foi como se na minha cabeça come-
çassem a repicar os sinos de uma catedral". De um ponto de vista
motivacioruil, o papel da gTelina é estimular o cérebro. dizendo-
lbe: ~coma. coma. coma!"
PoT oulTO lado, mais otimista. o corpo também é dotado de
hormônios supressores da fome. Da mesma maneir.i que o estô-
mago e os intestinos .secretam gTCl ina par-.i a corrente sangüínea
com o propósito de estimular o apetite (produzir a sensação de
fo,ne). o estômago e os intestinos também secretam lcptina ao
sangue. com o propósito de comunicar a saciedade (n sensação
de estar cheio). Só qae. durante a privação de alimento. o nível
O Cérebro Emocional e ~1otiv:ido 29
de lcprina cai (Cummings ct al.2001 ). Dessa foTma. ao f:u.erem
uma dieta, a.~ pe!>soas têm que suportaT um duplo golpe moti-
vacional - os elevados níveis de gTclina cstjmulam a fome.
ao mesmo tempo que os baixos níveis de lcptina suprimem a
sensação de saciedade. Se isso é ruim parn quem faz dieta. por
outro lado ajuda a explicar a fome e a saciedade. Ao produzir.
secretar e monitorar esses dois hormônios, nosso corpo regula os
estados motiv:1eionais tanto cm relação à escassez de alimento e à
perda de peso (quando ocorre um aumento de grelina e uma dimi•
nuição de kplina) quanto cm relação à abuncliincia de alimento
e ao ganho de peso (quando ocorre uma diminuição de grelina
e um aUJI1ento de leptina).
O CÉREBRO EMOCIONAL E l\<IOTIV ADO
Por que o cérebro é importante? A maioria das pessoas. ou mesmo
pr.1Licamen1c todo muado. diria que o cérebro é imponnnle
porque executa as funções cognitivas e intelectuais, incluindo o
pensamento. a aprendiz.agem. a memória. a tomada de decisões
e a !>Olução de problemas. Esses processos cerebrais são muito
importanles: porém o cérebro faz mais do que isso. O cérebro não
é somente algo pensante. mas é também o centro da motivação
e da emoção. gerando ânsias, ncccs.~idades. desejos. prnzcT e
mais todo o espectro de emoções. Em outras palavras: enquanto
ex.ccula suas funções_ o cérebro se encarrega não só da tarefa que
cst.á sendo executada (utilizandosuas funções cognitivo-inte-
lectuais). como também se envolve bastante com o fato de você
querer fazer essas tarefas (cérebro motivado) e também COIJl o
modo como você se sente enquanto as faz (cérebro crnocioaal)
(Gray. Braver & Raicble. 2002).
Todos os estados motivacionais e emocionais envolvem a
panicipação do cérebro. Para verificar essa afirmação, faça com
você mcSIJlO um experimento: tentccxpcrimentar raiva. fo1JJe ou
curiosidade sem primeiro recrutar a participação do cérebro. É
algo um tanto diffcil. E. ao tentar fazer isso. você acaba se dando
conla de que. quando se trata de compreender o que sejam moti -
vação e emoção. o cérebro é o astro do !>bO\V. Por outro lado. o
cérebro também dispõe de uma list::i de atores coadjuvanLes, que
inclui os principais órgãos do COTPO (p. ex .. o fígado e o estô-
mago). e toda a atividade bioquímica que se processa pelo corpo
(p. ex., os harmónios). Parn ilustrar como o cérebro cria, mantém
e regula os estados motivacionais e emocionais, coru.idcre os trê5
princípios que arrolamos a seguir. os quais oTganiz.am a maneira
como os pesquisadores motivacionais estudam o cérebro.
Três Princípios
Como mostr.un os pares de exemplos listados na Tabela 3.1, os
pesquisaclore.~ motivucionais mapeiam quais eslrutur:1s cerebrais
estão associnda.s a quais estados motivacionais, além de eslU•
darem como essa.~ estruturas cerebrais são ativadas, e como os
eventos do dia-a-dia promovem esse processo de ativação. No
ca.~ da fome, por exemplo, fazer dieta é a lgo que le,•a o inlcs•
tino a produz.ir grelina: a grelina é então lançada na circulação
sangüínea. o que a faz estimular o bipotálamo lateral: por sua vez,
a estimulação hipotalfim.icn produz a sensação de fome. E quando
uma pessoa experimenta uma boa sensação em decoITência de
30 Capíu1Jo Três
Tnbela 3.l Dua.'i [lu,.troç&s do Cérebro MOl.ivado (Sen~o de Fome) e Ernocional (Sensaçilo de Praze;-)
Sit,tSQfãO til' Foml': a privação de alimento pro,oca a fome por meio de seu. .. afetos sobre o grelina e o tlip01álllf00:
A. 8. e. D.
E,·ento Ambiental - Agente Bioquímico - E.,1ru1ura Cerebral Auvada - E-udo Motivacional Exc11ndo
Privaçào de alimenlo
(iSIO é. dieta)
Grehna (honnônio)
produzida e em
círculaçào na
A grelina estimul3
o hip01álarno
O l\ip01álamo estimulado
cria o experiência de rome
corrente sMgtlínea
Princípio 1: O hipo1ólamo gero a serMÇoo de fo,ne (C .... D).
Princípio 2: O aumen10 da grelina estimula o hipo16.Jamo (B - C).
Principio 3: A privllÇlk> de alimento (dieta) awneJlla o nível de grelirul (A - B).
s~,craçáo di, Bt!m-Es1ar. um e,·en10 bom e inesperado gero sensações prozerosa., atra,é.s de ~eu., efeitos sobre n dop:un,na e as e,tru1ura,
límbica..
A. B. e. D.
Evento Alllbiental ..... Agente 8ioql1Íluico - Es1n11ura Cerebral Ativada_. Estado EnlOcional Eui trulo
Evento prazeroso e
inesperado
Doprunill.a
(neuro1.ran,nussor)
liberad:l no
A dopamina tilÍlnul.a as
esltUruras límbica.-. tais como
o feixe prosencefálico
Sen.'laÇão de betn-est.ar.
de prazer
cérebro medial (FPJ\1)
Princípio 1:
Pdncíp,o 2:
As esrnnuras límbicas (p. ex .. o FPJ\11} geram o prazer e a sensação de be,n-esw (C-+ D).
O oumen10 do nível de dopamino eStJmulo ~ estruturas límbicas (8 - C).
Pdncípio 3: E\entos agradáveis e inesperados estimulam a liberoç3o de dopamino (A - 8).
um evento inesperado e agradável (por exemplo, receber uma
e.arta de um amigo). essa experiência fuz a árc:i tegmcntal ventral
liberar dopamina; por sua ve-L. a liberação de dopamina estimula
as estruturas límbieãS. e a estimulação das estruturas límbicas.
a.~sim como do feixe prosencefál ico medial. acaba gerando uma
calorosa sensação de bem-estar.
1. EstrulurdS cerebrais específicas geram es tados
motivacionais e emocionais ~ pecíficos.
A estimulação de um ponto específico do cérebro gera a cxpc•
riência de um estado moli vacional específico. No exemplo
que acabamos de dar, a estimulação hipotalâmica faz surgir a
sen.~ação de fome. Outra manei.ru de dizer isso seria a de que, se
acontecer algo que danifique uma determinada estrutur.1 cerebral
(como ocorre em um acidente ou cm uma cirurgia), a capacidnde
da pessoa de experimentar um estado moli vacional específico
pode ficar comprometida. Em algun.~ casos.. não é a csti mulação
de uma determinada estrulura cerebral que faz surgír a experi•
ência motiv:icionnl; cm vez disso. é a estimulação de um c ircuito
neural - um grande número de estrutur.i.s cerebrais interconec-
1adas - que gera o estado motivacional. Como veremos. muitas
estruturas cerebr.tis do sistema límbico estão interconcctadas. e
u estimulação do circuito ger.1 um estado motivacional especí-
fico. Ainda em outrOli =~os. a estimulação de uma via neuro-
transmissora gera um estado motivacional e,pccífico. Ao longo
deste capítulo. vamos expiar.ir a maneiro como n estimulação
de estruturas cerebrais específicas. de circuitos neurais e de via. ..
neurotransmissor.is no cérebro íaz surgi r estados motivacionais
específicos.
2. Agentes bioqu(mkos estimulam ~
estruturas t~r~brais.
Se estruturas cerebrais específica.~ dão origem a estados moti•
vacionais específicos. enliio a próxima pergunta a ser feita é: de
que maneira essas estrutura.~ cerebraL~ são. cm primeiro lugar.
estimuladas? As estruturas cerebrais têm receptores localizados
que as dotam de potencial para serem estimuladas. Os agente.~
bioquímicos que estimulam esses locai.~ dos receptores são os
neurotransmissorc.~ e os honnôniOli. Os neurotransmissores são
os mensageiros de comunicação do sistema nervoso (que fazem
com que um neurônio possa se comunicar com outro), ao pnsso
que os hormônios são os mensageiros de comunicação do sistema
endócrino (que fazem as glândula.~ se comunit'llr com os órgãos
do corpo, tais como o coração e os pulmões). Portanto, para
compreender o sobe-e-desce dos estados motivacionais, preci-
samos atentar para a m:1ncira como os neurotrans missores e os
hormônios e~1:imulam e desestimulam os locais cerebrais espe-
cíficos.
3. Os eventos do dia-a-dia fazem os agentes bioquímicos
entrarem em ação.
Para rrali:wr esrudos relacionndos a esse tipo de pesquisa. os
c irurgiões cos pcsqaisadores motivacion11iscstimulnm artificial-
mente a~ estruturas cerebrais (veja a Figura 3.2). Assim agindo.
.. ,: '~ ':_ ~; - ...
··,' ·.,~,, -
..... . f/1' ' ·,·;· ~ • 11' • ~ • . ~• ·. . · . . • • •
• , .. ,, - "1>" . ,, .
' .. , ..
Figura 3.2 Fotogr.ifia de um Cónex l lumano Exposto
Fonr,: ilustração extraída de The Excuab/e Ctrta m CtmSnous .\fa,z. de \V.
Palicld. 1958. lngl:ucmi: Li•crpool Univcni1y Prcu.
eles conseguem de isolar uma função específica de uma ~1.rutura
cerebral. Porém, é for.ido laboratório, ou sej:i, em situações como
cm casa, na escola, no trabalho e na quadr.1 de esportes - em
suma. nos evenlos do dia-a-dia - . que o cérebro emocional e
motivado é estimulado para entrarem ação. No exemplo da fome,
foi o fato de se fazer d ieta. ou de se privar de alimento. que fez
com que o hormônio grelina enlnl.SSc cm ação. Já no exemplo
da sensação de bcm•estnr. um acon1ccimento trivial, inesperado
e positivo estimulou a liberação de dopamina, a qual fez ocorrer
no cérebro eventos que Lerminara111 pClf" produzir uma sc:osaçiío de
bem-es tar. Se. para eonb.eccr a motivação e a emoção. é preciso
compreender como o cérebro funciona. também é necessário
estabelecer um.a conexão entre os eventos diários da vida e a
ativação do cérebro. A última seção deste capítulo volta a e~sa
discussão sobre como os eventos do cotidiano ativam os neuro-
trJJtsmis.sorcs e os hormônios. colocando assin, as estrutura.~
ccrebr.i.is cm ação.
,
OLHANDODENTRODO CEREBRO
Os pesquisadores dispõem de diversas mancirus de olhar dentro do
cérebro com o objetivo de ver o que nele est:í se passando durante
os estados motivacionais e emocionais. A primeira maneira é
o velho recurso da cirurgia (que discuúremos a seguir). Uma
O CérebroEmocional e ~1oliv:ido 31
segunda maneira de observar o cérebro depende dos recursos da
alta tecnologia: a IMR1 (que também iremos comentar).
Imagine que você esteja sofrendo de uma dor crônic:i, e decide
consultar uma médica. a qual lhe diz que é preciso faur uma
cirurgia para aliviar a dor. Durante a cirurgia.. parte do seu córtex
cerebral - ou seja. as camadas exteriores do cérebro - ficará
exposta, como ilustra a Figura 32. Serrar o crânio para ter ac~so
ao cérebro (com o propósito de. por exemplo. remover um tumor
cerebral) ainda é. nos dias de hoje. um prooedimento basmnLe
utiliz.ado, embora estejam sendo desenvolvidos e testados proce•
dimcntos menos invasivos. Por exemplo. hoje cn1 dia há cirurgias
cm que se insere uma pequena c âmera por uma narina ou por uma
incisão atrás do ouvido. a qual envia imagens internas do corpo
a uma Leia de computador remoto. Vamos imaginar. porém. que
você será submetido a uma cirurgia mais Lradicional..
Enquanto se prepara para a cirurgia. vooê é informado de que
terá que ficar acordado durante a operação! Isso é necessário
porque a cirurgiã preci.sn coordenar a estimulação que ela fará
nos locais de seu cérebro oom n.~ percepções e respostas espccí•
ficas que vooê dará. Primeiro, a médica tocu a superfície do seu
córtex com uma pinça pequena e delgada. que emite uma corrente
elétrica elltremamente fraca. (Como o cérebro não tem recep-
tores da dor. a estimulação cerebral é indolor.) Quando cln toca a
primeira área. súbita e involuntariamente você n1exc um dedo da
mão: e depois que ela retira a pinça. você retrai a boca de um jeito
que lhe faz parecer imitar o Humphrey Bogart. V ooé não e ntcnde
o que está se passando, e os movimentos ocorrem for.i do seu
coatrole intencional. A cirurgiã vai estimulando seu cérebro. e seu
corpo vai se mexendo de maneira nutomática. Quando a cirurgiã
estimula eletricamente o seu tronco ccrcbrnl. a dor subitamente
desaparece. An1es que você pense que se IJ1Jlll de ficção cicnúfica,
devemos dizer que é uma história baseada em dois estudos reais
(Hosobuchi. Adams & Linchitt. 1977: Penficld. 1958).
O córtex cerebral mostrado na Figura 3.2 es tá cm grande parte
associado a íunções cognitivas como o pensamento, o planeja•
menta e a lcmbr-J.nça. Se a cirurgiã continua.\SC a 3plicar a pinça
tnais profundamente (algo que iretnos fazer em breve). acabaria
por entrar cm conllilo com o sistema límbico - a parte do cérebro
intricadamentc envolvida na motivação e na emoção.
Nos dias de hoje, o ,nétodo mais avaoçado de observar o
cérebro cm profundidade é o emprego do IRM funcional (JRM f).
O IRM (magnetic reso11ance ü11aging- mapeamento por resso-
nância magnética) produz uma imagem instantânea detalhada
- uma fotogr.ifia eletrônica - da estrutura cerebral do paciente
quando este se deita sob uma enorme máquina dotada de um
grande ímã e lig_adn n un1 computador. es tando a cabeça do
paciente conectada à máquina por meio de sensores. Enquanto
o pacicate c.~perimcata certos estados motivacionai.s e emocio-
nais. a máquina vai detectando alter.ições na oxigenação de seu
sangue. causadas pela atividade cerebral. Com o tempo. a lRMf
vai produzindo uma versão em fita de vídeo da ati vidade cerebral
da pessoa momento a momento. à medida que ela vai ellperimen•
tando esses diferentes estados motivacionais e emocionais.
10riginJlmcntc • ~ig)a é 0.IRI (/imrtimwl m11gM1ic rr so/flJJfer in11J11m11),
A~mos IRMf ( fflJlpcamen10 por rcssoninciu magnétiro func,oo:il ).
(N .R.T.)
32 Capíu1Jo Três
Hlpot>bmo
Arrugd>l3
Form:,çio
Rctlcul•r
Figuro 3.3 Seçllo Trnn~versal do Cérebro Mo,tr.Uldo a P~iç-Jo Anatômica da... Prindpab ~ll'Urura,, Cerebra~ Envolvidas na Motivação e na
Emoção
A Figur.i 3.3 mos1111 a localização anatômica de diversas
estrururas cerebrais relacionadas à moúvação e à emoção. E.~sa
imagem é o tipo de fotografia que se pode produzir por meio de
um lRM. Várias l:l>11'Uturas mo~1:radas na figura existem dentro
do sistema límbico. também chamado de lobo cerebral interno.
que encobre o tronco cerebral e encontr.i•sc situado abauo do
cónex (Nauta. 1986). As principais estruturas límbicas do cérebro
são o hipotálamo. a amígdala. o hipocampo. a área scptal. a área
lcgmcntal ventral e as fibras que conccram essas estruturas a uma
rede de comunicnções (Isaac.soo. 1982: veja a Figur.i 3.3 ).
Observando a IRMf, os pesquisadori:s podem associar deter-
minados estados motivacionais e emocionais a determinados
locais do cérebro. O indivíduo investigado pode estar privado
de alimento (isto é. faminto). contar um episódio cm que expe-
rimentou medo. ou relatar uma experiência positivo. como o
' recebimento de uma compensação financeira. A medida que a
motivação e a emoção da pessoa se modificam. também se modi-
fica sua atividade cerebral. E a IRMf é capaz de captar essa~
mudanças dos c.-.tados cerebrai~ para confirmar qual é o compor•
truncnto cerebral durante a fome. o medo. um evento positivo e
assim por diante. As principais estruturas cerebrais envolvidas
na motivação e na emoção aparecem listadas na Tabela 3.2.
A APROXIMAÇÃO VERSUS A EVITAÇÃO
GERADAS NO CÉREBRO
Quando imaginamos uma pessoa experimentando um estado de
motivação. provavelmente pensamos que a motivação se rela-
ciona com o falo de o indivíduo eslllr realizando um grande
esforço. Porém. uma outra dimensão fundamental relacionada
à motivação e à emoção é a aproximaç.'io vers11s a evitação. Boa
parte da ati vidadc cerebral c:slâ organizada em tomo da produção
de uma disposição manifes tada por uma mcn.~:igem excitatória
do tipo ~sim, quero isso". ou por uma mensagem inibidora do
tipo "l\!Jío, não quero isso".
Nesta seção. as principais estruturas moli vacionais e emocio-
nais do cérebro listadas na Tabela 3.2 foram organizadas em dois
grupos: a~ associadas à geração de aproxinmçâo e as associadas
à geração de c\'Ílaçâo. A seção que se segue salienta os princi•
pai, papéis motivacionai~ e emocionais desempenhados por: ( 1)
duas estruturas relacionada, à aproximação - o hipotálamo e
o feixe prosencefálíco medial. (2) dua., estruturas relacionada.,
à cvit.ação - a amígdala e o hipocampo. (3) o córtex cerebral
pré-frontal associado lllllto à abordagem quanto à e,'UaÇ5o. e (4 )
uma estrutura associada à excitação: a formação reticular.
Hipotálamo
O hipotálamo é urna pequena estrutura cerebral que corres-
ponde a menos de 1 % do ,·olume total do cérebro. A dc.,;pcito
do pequeno tamanho, é um gigante motivacional. O hipot.1.lamo
constitui-se de uma coleção de 20 núcleos vizinhos e interco-
neclados que servem a funções separadas e distinta.~. Através da
estimulação desses 20 núcleos separados. o hipotálamo regula
um grJOde c:o;poctro de importantes funções biológicas, incluindo
os atos de comer. beber e copular (por meio das motivações para
O Cérebro Emocional e ~1oliv:ido 33
T abela 3.2 E.-iados Motlvaciouai5 e EnJOCionais A.~oci:idos n EslJUtllt:lS Cerebrais. Específica.,
Esuuru.ra Cerebral Experiência ll1otivacional ou Emocional Associada
E.ill'llluras Orientadas para a Aproximação
Ili poral::uno
Feixe prosencefáHco medial
Área septal
Sensações prazerosa. as...ociadas ao ruo de comer. beber e copular
Pr:uer. ref on,-o
Centro de prazer associ:ido à sociabilidnde e à sexualidade
Cónex cerebral (lobo,. froru.ais)
Cónex cerebral pré-frontal esqueroo
Elaboração de planos. determin:ição <li! objetivo_~. formulação de intençllb
Tendêncilll> rnotivacionai, e emocionais de aproxinmção
E.<íl:ruturas Orientadas para a EYitaçiio
Cóne,~ cerebml pré-frontal direito
Amígdala
Tendências rn01ivacionai.ç e e1nocionai,- de afa_,tllmento
Derecç!'ío e resposta ils runeaças e oo perigo (p. ex~ por meio do 1nedo, da roi va e da
ansiedade)
Hipocan1po SL,1ema de inibição componrunenUI.I durante eventos inesperados
&"trulura Orientada paro a E.xciloçiio
Formação reticular
fome. saciedade. sede e sexo: Tabela 3.2). No Capítulo 4. vamos
detalharo papel do hipotálamo na regulação d= necessidades
fisiológicas. Como mostrtl.ci o Capítulo 4, a estimulação hipo•
talâ.mica gcm desejo por. e o prazer a.~socindo a água, alimento e
contato com parceiros sexuais. Porém. aqui nossa discussão está
centrada no papel do hipotálamo na regulação tanto do sistema
endócrino quanto do sislerna nervoso autônomo. Regulando
esses dois sistemas, o hipotálamo também é capaz de regular o
ambiente corporal interno (p. ex •. a ta.Q de batimenLos cardíacos
e a secreção hormonal), de modo a criar uma ad:'iptução ólirna
do indivíduo ao ambiente (p. ex., fazendo o indivíduo enfrenlar
um estrcssor).
O túpotálamo controla a glândula piluit.ária -conhecida corno
"glândula mestra" do sistema endócrino (Agnati, Bjclkc & Ful(e,
1992: Pen. 1986). Analomicamenle, o hipotálamo enoontr.i-se
imcdiat:imcnlc ac ima da piluit:iria e regula esta glândula sccrc-
1ando honnônios para pequenos vasos capilares a ela concclndos.
Por sua vez., a glãndula pituitária regula o ~istcma endócrino.
Assim. enquanto a glândula piruitária regula o sistema endó-
crino (hormonal). o hipotálamo regula a glândula pi1ui1ária. Por
Cl(cmplo. par.1 aumentar a exciLnçlio, o hipotá lamo estimuJa a
glândula pitui tária a liberar hormônios na corrente sangiiínea.
com o propósito de estimular as glândulas supra-renais. para
que estas. por sua vez. liberem hormônios ( cpincfrina, nore-
pincfrina) que irão desencadear a bem conhecida resposta de
ulular ou fugir".
O hipnuílamo tambén1 con1rolu o sistema nervoso :1u1õnomo.
O sistema nervoso autônomo (SNA) inclui todas as inervações
neuronais conectadas aos órgãos corporais que e;.1âo sob con1role
involuntário (p. ex .. o coração, os puJmõcs, o fígado, os intcs•
tinos, a musculatura). O SNA é dividido entre o si~1cma el(ci-
ta1ório simpático. que acelera as funçõc~ corporais e alerta o
corpo (como acontece no aumento dos baúmentos cardíacos),
e o sistema inibidor parassimpático. que facilita o repouso. a
recuperação e a digestão que se seguem a experiências corporais
de estresse e cmcrgéncia. Assim, o sistema nervoso autônomo
começa no hipotálamo {o b.ipotálan10 é o gânglio cefálico. ou
ponto de partida, do SNA) e estende seus nervos pelo corpo por
meio da inervação de seus diversos órgãos.
Quando cxpcricnciamos uma alteração i mportantc no ambiente
(p. el( •. o surgimento de uma ameaça ou de uma oportunidnde). o
b.ipolálruno tem duas maneiras principais de regular a reação do
corpo. fazendo-o enfrentar com eficácia essa alleraçào ambiental.
Por um ludo, o hipo1:Uamo pode gerar uma el(citação (ativação
simpática) ou um relaxamento (ali vação parn.'iSimpática) por meio
de uma estimulação do SNA. Por outro lado. o hipotálamo pode
estimular o sistema endócrino a, por sua vez., estimular a glândula
piluilária a liberar hormônios na corrente sangüínea.
Feixe Prosencefálico Medial
O feixe prosencefálico medial é uma coleção relativamente
grande de fibras semelhantes a vias que unem o b.ipouilamo a
outras e.,;truturas límbicas. incluindo a lírcn septal. os corpos
mamilares e a área tegrncntal ventral O fei.Jte proscncefálico
medial encontra-se Ião cstrcitumenlc conectado ao hipotálamo
que muitos dizem não ser possível di~sociar o hipotálamo lateral
das fibras do feixe proscnccfálico medial que o atravc.'iSUffi -
ou seja, tem-se com isso uma es1ru1ura única (lsaacson. 1982).
Em termos de molivação, o feixe proscnccfãlico medial é algo
pról(imo de um ·'centro do prazer'' em nosso cérebro. Se uma
cobaia for equipada com uma pequena mochila clctrõnica,
confonne mostr.i a Figura 3.4. e se os pesquisadores utilizarem
um computador portátil para C.'itimular o feixe prosenccfálico
medial do animal. este irá repetir sempre o mesmo comporta-
menlo que apresentava durante a eslimulação de seu fei.'lle prosen-
cefálico medial. Ou seja. a estimulação do feixe prosenccfál ico
medial cria uma sensação de prazer, que faz com que a cobaia
aja como se cstivcs.,c reccl>endo um reforço posilivo. de m.odo
bastante parecido com o que ocorreria se ela estivesse recebendo
um reforço real. tal como seu alimento favorito. Ao estimular
o fei.Jte prosencefálico medial no tempo certo. os pesquisadores
podem, por Cl(cmplo. motivar/reforçar um animal a aprender
como a1ravessar um labirinto (Talwar el ai., 2002).
34 Capítulo Três
-- -
Figura 3.4 Raro com uma " Mochila Eletrônica" Capa7. de Liherar
uma Pequena Estimulação ElétJica no Cérebro por Meio de Controle
Re1noto
Nos seres htnnanos, a estünulação do feixe prosencefálico
medial não produi sensações intensas de praier ou êxtase. roas
gera sensações positiva~ (Heath, 1964), co1no indica a seguinte
observação clínica de pacientes esquizofrênicos que receberrun
estimulação elétrica no cérebro:
Os pacientes adquiriam um sen1b/a11te brilhante, parecendo ficar
mais a/erras e atentos ao ambiente dura11te o período de estimu•
laçiio, ou pelo menos duran1e un., poucos millutos após. A.o expe·
rime11tar essa alteração afetiva básica. a maioria dos i11divíduos
falava mais rapidamente, e o conteúdo da/ala era mais produtivo;
as mudança., de pe11samento eramfreqüe111eme11te surpreende11res,
e as alterações mais drásticas ocorriam. q11a11do as associações da
pré-estimulação eram impregnadas de afeto depressivo. Expressões
de angústia, au1oco11dellaçiio e desespero mudarom dra.fticame111e
para expressões de otimismo e ela/>oraçáes de experif!ncias agra-
dáveis, passadas e a111ecipadas (Hea1h, 1964, p. 224).
Anúgdala
A amígdala (palavra que significa algo que tem forma de
an1êndoa) é uma coleção de núcleos irnerconectados e asso-
ciados a diferentes funções. E1n geral, a amígdala detecta e
responde a eventos ameaçadores, ernbora cada um de seus dife-
rentes núcleos tenha uma função distinta. A estimulação de uma
parte da aniígdala gera 111ua raiva en1ocional, enquanto a esti -
nnilação de outra parte gera a emoção do ,uedo e o con1porta-
mento de defesa (Blander, 1988). Ass i1n, a ainígdala regula as
e,noções que a autopreservação, o 111edo, a raiva e a ansiedade
envolve1n. Conseqüentemente, 111na lesão na amígdala pode
produ:ór allerações notáveis, inclusive urna subrr1issão geral,
neutralidade afetiva, falta de responsividade e1uocional, prefe-
rência por isola1nento social em detrin,ento de afiliação social,
desejo de se aproximar de estímulos anteriorrnen1e ameaçadores
e deficiência na capacidade de aprender que u1n estírnulo assinala
u1u reforço positivo ou tuna punição (Aggleton, 1992; Kling &
Brothers, 1992; Rolls, 1992). A a,nígdala estã 1a,nbé1n envolvida
na percepção das en1oções e das expressões faciais das outras
pessoas, e ta1ubém no nosso próprio con1porta1nento, especial-
1nente e1u relação às informações en1ocionais negativas (Adolphs
et ai. , 1994; LeDoux, Ron1anski & Xagoraris, 1989; Rolls, 1992).
Portanto, a amígdala processa a inl'orrnação emocional (Hamann
et ai., 2002).
A an1ígdala 1ambén1 desempenha papel-chave na aprendi-
zagem de novas a~sociações ernocionais (Gallagher & Chiha,
1996). Por exc,uplo, a anúgdala nos faz aprender a ten1er perigos
an1bientais (Davis, 1992). Experiencian1os o 1uedo por meio de
reações físicas como a aceleração dos batimentos cardíacos,
aurnento da tensão muscular, paralisação comportan1ental e
expressões faciais de pavor. Co1no mostra a Figura 3.6, quando
a pessoa encontra objetos potenciahnente ate1uorizantes no
an1biente, ocorre a estÍluulação da anúgdala, que ativa as estru•
turas cerebrais vizinhas (p. ex., o hipotála1no e a ãrea teg1ucntal
ventral), as quais pro1uove1n tuna resposta coordenada de 1nedo,
incluindo aume11to do ritmo da respiração (Hru-per et ai. , 1984),
aceleração dos batimentos cardíacos (Kapp et ai., 1982), elevação
da pressão arte rial (Morgenson & Calaresu, 1973), bem como
un1a descarga honuonal e o surgiiuento de expressões faciais
de emoção (Davis , Hitchcock & Rosen, 1987). A título de ilus-
tração. um rato que Len1 a amJgdala lesionada é capai de passearsobre um gato que estaja donnindo, chegando mesmo a brincar
eo1n a orelha do fel ino (Blanchard & Blanchai·d, 1972). O que
falta nesse rato destemido é a capacidade de. gerar uma resposta
física de medo coordenada pela amígdala, co1no 1nostra o lado
dÍl·eito da Figura 3.5. Se1n a a1nígdala, o rato fica privado de
1ueios de responder emocionalmente ao gato, perdendo tan1bém
a capacidade de aprender a temer o felino quando este se levan1a
e começa a agir de modo ameaçador. Quando a amígdala é remo-
vida de seres hu1nanos (por exe,nplo, para controlar ataques
epilépticos), estes se tornaiu cahnos, dóceis e e1nocionaln1ente
indiferentes, mes1no diante de provocações (Aggleton, 1992;
Rarnarnurthi, 1988).
A amígdala tem un1a relação anatônúca interessante com
outras áreas cerebrais . Ela envia projeções para quase todas as
partes do cérebro, embora somente um pequeno número dessas
projeções traga de volta infonuaçõcs para a anúgdala. Esse dese-
quilíbrio ajuda a explicar por que as e1noções, especialn1ente as
emoções negativas, geralmente têm uma capacidade de superar
a cognição mais do que a cognição tem capacidade de superar
as emoções. En1 função disso, a amígdala é capaz de produzir
un1a profusão de mensagens de 1nedo e raiva, ao passo que as
,nensagens racionais que lhe chegam para acahná- la são relati-
va,nentc poucas.
Circuito Septo-Hipocampal
O circuito septo-hipocampal envolve uma ação integrada de
diversas estruturas lúnbicas, incluindo a área septal, o hipo•
c,uupo, o giro cingulado, o fó1nix, o tálamo, o hipotála1no e os
corpos man,i lares (veja a Figura 3.3). Como é um circuito límbico,
o siste1ua septo-hipoeaiupal ta1ubé1u te1u interconexões eo1n o
córtex cerebral. E1n função disso, boa parte da atividade cognitiva
da memória e da imaginação é enviada corno entrada (i npuL) para
o circuito. Portanto, o circuito septo-hipocarnpal prevê a e,noção
associada a eventos futuros, tanto en1 tennos de prazer antecipado
quanto de ansiedade antecipada (Gray, 1982).
O Cérebro Emocional e ~1oliv:ido 35
fstlmul.Jçiio do Hlpot:abmo latc,nd:
Acclcr:tçio dos 13Jumcnm~ Canli:u:os, Aumcmo dJ Prc:ss;io Ancrul
por Meio d• Aú,-.ç'.10 do s,srcma Ncn'OSO Slmpallco
Esrimui.Jção do Núci<,o l'llr.tvmtricul;u:
Libcr:lç.io dr HOf111Ünlos dr Esuu..sc
Es1in1ul.Jçiio do P.or.lbr:iqulot
---• P:úplc,çiío e DC!<COIÚon o Rcsplratono Dc.-Tido •
Aumento do Rnmo Rcspinnóclo
Esrimul.Jçâo cb l,bs,;;i anzcnu Ccntr..t
c.ompon:amcnro Dcl'erun-o, 1.11 como l'aral15'1çiio e Suprcs."1io dJ Dor
f.stimui.JÇ30 do Nccn-o P.lt:'.i;aJTrigcmeo:
Expressão F:iciJli de ~ledo
Fi.gura 3.5 CooexÕb clll Amfgdllla que Expre.,soni Medo em Re>po,.m a um Everuo Atneaç:wor
O hipoc.arnpo opera como um "comparador", que c.onstanlc•
mente compara as informações sensoriais que chegam aos eventos
esperados (a partir da memória) (Smith. 1982; Vinogradova.
L 975). Se uma pessoa. enquanto dá conta de suas atividadcs
diária.~. encontra C\'Cntos e cirrunslâncias equivalentes àqueles
que são esperados pela memória, então o hipocampo funciona
cm um modo ··o .K." de checagem. Por exemplo, se você. Ioda
vez que chega a ca~a. cspcrn encontrar a porta trancada e do
outro lado da porta Re,'( o saudando e, em um determinado clia.
ao chegar. enc.ontr.i de falo a por1a trancada e Rex a saudá-lo.
enl.â.o os even1os q ue você esperava encontrar de fato aconte•
ccram. Ncs.~a situação de confirmação de expectativas. o circuito
seplo-bipocampal não provoca qualquer estado motivocional de
ansiedade (uma vez que os eventos estão acontecendo conforme
o esperado - tudo está bem). Por outro lado. se os cvcnlos não
ocorrem de acordo com o que esperamos - a porta está destran-
cada e Re:o. desapareceu-. o hipocan1po paSSll a funcionar cm
um modo "não-OJ(.". Quando funciona nesse modo oão-0.K .. o
hipocampo ativa o sistema scpto-hipocampal, gerando WTI estado
molivacional ansioso (aumento da atenção. excitação) que passa
a controlar o componamcnto.
Drogas ansioüticas (p. ex., o álcool c os barbitúricos} devem
.$CUS efeitos calmantes essencialmente ao f-.ito de aquietarem
(desligarem) o modo de checagem nào-0.K. do sistema scplo-
hipocampal (Gray. J 981}. As substílncias químicas ruisioüticas
naturais do cérebro são as cndorfinas, que desligam o modo
de controle •·não-0.K." do bipocampo. Decepção. fracasso.
punição e novidade são experiências que estimulam o hipo-
campo a instigar inibições comportamentais ansiosas (ou seja.
fazem o sistema scpto•hipcx:ampal atuar no modo "não-0.K. "}.
O en[re.otarocnto ativo dos estressares ambientais. quando é bem-
sucedido, gera a libe.raçüo de cndorfina. A cnforfina bloqueia o
sistema scpto-bipocaropal, promovendo assim o alívio da ansie-
dade e estimulando o surgimento de sentimentos positivos. que
contrnbalançam a situação negativa experimentada an1crionnen te
(Gold & Fox, 1982; Gold et al., J 980. Sw·eeney ct al~ 1980).
Essa ação complexa - pela qual a ansiedade e a expectativa de
punição são contrabalançadas com o prazer e a e:11pectativa de
recompensa - requer o funcionamento integrado de um circuito
ümbico. uma vez que algumas estruturas do circuito regulam
a ansiedade (o hipocampo). enquanto outras e.~truturas desse
mesmo circuito regulam o prazer e os afetos positivos associados
ao sexo e à sociabilidade (área septal; Macl.ean, 1990).
Formação Reticular
A formação reticular desempenha um papel-chave na excitação
e no despertar das preocupações motivaciona.is e emocionais do
cérebro. A fonnação reticular constitui-se de um aglomerado
de neurônios do tamnnho de um dedo mínimo, e5ta.• do situada
dentro do tronco ccrebr.tl (veja a Figura 3.6). Consiste em duas
partes: o sistema reticular ativador ascendente, que projera seus
nervos para cima no cérebro com o propósito de alertar e excitar
o córtex. e a formação reticular descendente. que projcra seus
nervos para baixo a fim de regular o tônus muscular. A Figura
3.6 mostra um gato respondendo a um ruído. com o propósito
de ilustrar que é o sislcma reticular ativador que desperta. alerta
e excita o córtex. para que este possa processar as informações
que chegam. Uma vez excitado, o cónex em estado de alena
processa as informações recebidas (p. ex .. toma uma decisão
sobre o que fazer) para. um ou dois segundos depois, responder
de mane ira apropriada.
Córtex Pré-Frontal e M eto
As estimulações sensoriais (visões. cheiros. gostos) que chegam
ao sistema límbico ativam as reações emocionais deste último de
maneira um tanto aulomática. Entretanto. além disso, também
chega ao sistema límbico uma quantidade considerável de infor-
mações provenientes do córtex cerebral. Di:mle disso, a estimu-
lação do cónc:11 Lcm a capacidade de indiretamente gerar es1ados
emocionais. Os lobos pré-frontais do córtex cerebral ~ituam-sc
imediatrunenle atrás da Lesta. Um lobo cncontra•se no lado direito
do ctrebro e, o outro, no lado esquerdo. Essa distinção direito-
esquerdo é importanlc porque a ativação de um lado e de outro
gera tonalidades emocionais qualitativamente diferentes.
36 Capíu1Jo Três
(a)
Formação
Rcllcubr
T""1mo
&
~bo Fron'.!, / .À
Hlpotilbmo <lfl
(b) DORMINDO DESPERTO
Figura 3.6 Arul1omia (n) e Fuoçilo (b) da Fom1aç!lo Reticular
Fonr,: nd!lptlldo de T/1, Rtrici,/ar F t>m111110•, dt: J. D. Frc,ncb. 1957. Sdninjic ÂlflmCtIJt. 196. $4.(i().
O cónex pré-frontal abriga as metas do indivíduo (Miller &
Cohen, 2001 ). Essas melas rotineiramente competem um:is com
as outras (p. ex., ao objetivo de comer se contrapõe o objetivo de
perder peso); enquanto isso, os dois lobos do cóncx pré-fronlal
imergem esses objetivos cm um banho de emoções (Davidson,
2003). Os pensamentos que estimulam o córtex pré-frontal direito
geram sentimentos negativos, enquanto os pensamentos que esti-
mulam o cóncx pré-frontal esquerdo geram sentimentos positivos
(Gnble, Rei s & EllioL 2000: Sac keimet aL, 1982). Por exemplo.
c m uma TEP (tomografia por cmis.~o de pósitrons}, nvisão
atemorizante de uma serpente íaz o cónex pré-frontal direito se
acender como uma án•ore de Natal (Fischer ct oi.. 2002: veja a
Figura 2 desse livro, à página 238). A emoção negativa experi-
mentada após essa visão tinge com core.~ bastante fortes as metas
que o indivíduo irá ou não adotarem relação ao que viu.
Além disso, existem diferença~ básicas de persom1Lidade entre
as pessoas. uma vez que algumns :iprcscntam o lobo pré-frontal
direito especialmente sensível. o que as deixa extremamente
vulneráveis o emoções negativas, ao p-..isso que outras pessoas
têm o lobo pré-frontal esquerdo especialmente sensível. o que as
deixa extremamente vulneráveis a emoções positivas (Gablc. Reis
& EllioL 2000). Em geral. os psicólogos que estudam a persona-
tidade estão de acordo em que existem duas omplos dimensões
de per!>onalidade. A primeira diz respeito a quão !>ensível ou
insensível uma pessoa é o incentivos e à experiência de emoções
positivas (ou seja. a extroversão); a segunda diz respeito a quão
sensível ou insensível unu pessoa é a ameaças, punições. e à
experiência de emoções ncgati,•a,; (ou seja. o ncuroticismo;
Eysenck, 1991 ). Os pesqui~adores do cérebro utiliz,!]m termos
diferentes daqueles c1npregados pelos psicólogos estudiosos do
personalidade, preferindo chamar essas dimensões da persona-
lidade rcspccti vruncntc de sistema de ativação comportamental
(SAC)1 e sistema de inibição comportamental (SIC:!. Carver &
White. 1994). Para se ter uma idéia dessas duas dimensões da
persorutliclade. considere as rcnções que você próprio experi-
menta em relação aos itens do questionário do Tabela 3.3. Os
quatro primeiros itens iruemigam você sobre seu grau de sensi-
bilidade em relação a motivações orientadas para a evitação (ou
.seja. quão sensível você é em termos do "si!>'tema de inibição
comportamental"). Os últimos seis itens o interrogam sobre
seu grau de sensibilidade cm relação a motivações, emoções e
comportamentos orientados para a aproximação. ela~sificados
segundo três diferentes subcscalas de resposta à recompensa.
i1npulso e busca de diversão (ou seja. quão sensível você é cm
termos do -sistema de aproximação comportamental").
Essas duas amplas dimensões da personalidade têm base
neurobiológica. Algumas pessoas apresentam maior atividade
no lobo pré-frontal esquerdo ( .. assimetria esquerdo"). ao passo
que outras apresentam maior atividade no lobo pré-fronLal direito
(üassimetria direita"). Pessoas que têm o lobo pré-frontal direito
relativamente sensível - ou seja. aquelas que têm maior assime-
tria direita - obLêm escores elevados nos itens SIC da Tabela
3.3, e apresentam maior sensibilidade a comportamentos voltados
tNo cmg1M~ Beh:Jvioml Acth-atioo System (BAS). (N.R.T.)
'BdlB,·ml lnbibítlon System (BIS) no ons.inal. (N.R. T.)
O Cérebro Emocional e ~1oliv:ido 37
paru a puniçtw e as emoções negativa.'I. As pessoas que têm o lobo
pre-fronlal esquerdo rclati,·amcnte sensível - ou seja. aquelas
que têm maior a.,;simctria esquerda - obtêm escores elevados
nos itens SAC da Tabela 3.3. e apresentom maior sensibilidade
a comportamentos voltados para a aproximação. como a reeom•
pensa e as emoções positivas.
A correlação entre os escores obtidos pelas pessoas nos ques-
tionários de itens SAC e SIC e a assimetria dos lobos pré-frontais
é importante porque o grau de assimetria corresponde à emocio-
nalidade típica da pessoa (SAC versus SIC; SuLlon & Davidson.
1997). Ou seja. mesmo quando não chegam a se CJtpor realmente
a um evento, as pessoas ap.rcscntam um certo estilo de personali-
dade. que a~ toma baslllnte sensíveis à emocionalidade negativa
ou positiva. Em virtude disso. o maior grau relativo de atividade
do lobo pré-frontal esquerdo de uma pessoa constitu i a base
biológica de uma personalidade orientada para a ambição e para
uma orientação de aproximação: por outro lodo. o maior gruu
relativo de atividade do lobo pré-frontal direito de uma pessoa
constitui a base biológica de uma personalidade voltado para a
ansiedade e par.i urna orientação de evitaçào.
Porém a pesquisa vai a lém disso. Também identifica a., fontes
da emocionalidade de uma pessoa segundo: ( 1) um tom hedonista
ditado pelo evento (un1a recompensa produz uma emocionalidade
posiú ,,n. ao passo que uma punição produz uma emocionalidade
negativa): (2) a sensibilidade da pessoa a.os sistemas SAC e SIC
(o SAC produz uma emocionalidade positiva, ao ~o que o
SIC produz uma emocionalidade negativa); e (3) uma interação
entre essas duas fontes. quando o SIC de algumas pessoas é
estimulado de modo mais intenso que o SIC de ouuus durante a
ocorrência de eventos nega.Li vos (ou seja, pessoas que Lêm mruor
assimetria direi ta). e quando o SAC de algumas pessoas é esti-
mulado de modo mais intenso que o SAC de outr.is durante a
ocorrência de eventos positivos (ou seja, pessoas que têm maior
assimetria direita).
TabeJa 3.3 ltens de Que;.tiooru-io Referente ao Sistema de lnibiçllo Comportamental (SIC) e ao Si,,1eroa de Ativação ComporwuenlJll (SAC)
Itens SIC
1. Se penso que algo desagradável ,•ai acontecer. ger,llmente fico "arrasado".
2. 0u,,1r críticas oo repreen;,ões é algo que me magoa muito.
3. Fico b3.Slrulte preocupado ou petturbado no imaginar ou saber que alguém está com r.uva de mim.
4. Fico preocupado quando pen.o que fiz algo mal feíto.
lt~ns$AC
5. Quando consigo algo que desejo. sinto-me exciuulo e cheio de energia.'
6. Quando coisas boa, me acontecem. is.so me afetn fortemente.•
7. Quando quero algo. teroltuente faço tudo o que po.,;,,o pati! con.ei;:ui-lo.h
S. Eu solo do meu caminho para conseguir a.~ coisas que quero.b
9. FreqUen1en1en1e faço co,,.ns pelo ,.unples fmo de serem diveJtidas:
1 O. Arl.eio experin-.eniar exci taçllo e no,·as sen.,;açõcs.'
Obsel""19io: SIC= Si.<1erna de lnibiçiio Comporu11ncn1al: SAC = Sist'""'1 de: Allva,iio Comporu,mcnllll. Ao complc1ar o qucnionáno. os respondcnle.< s3o solio•
IDdos a conrordnr ou d&ordar dc cada 11cm. utLl:izm,do para ,...., uma escalo de I a 7 { 1 = discordo toralmcntc. ale 7 = concordo IOO!lmcntc). A aca1'1 SAC C'Oll.mte
cm IJ'ê• subescalas: a rcsposlll A recompensa (denot3da pelo• 11t1ma). 1mpubo (denolado reto •1 e bu,ic:a de dlvel'llio (dcnowla pelo ' l. O Qucu,on.ino SICISAC
,-.:rdadc,ro contém 20 itens. sendo 7 do npo SIC e 13 do apo SAC. de modo que esta tabcl3 ma<1ro somente pane do qu,suon:ino compk10.
F1>11r,: adJapt.ldo de Bdia1•ioro.l lnllibilion, Btl1a,darol M1iw11imr, a11d Afftt:tfrt Rtspo,,sts to ltn~ndiJ1g R,..-ard ttlld Punis.kmmt n,, B/SIBAS Scalts. de C. L
Cnn-cr e T. L Wbiie. 1994. Journa/ oJ Pusnnaliry and Soaal PS)-dialo~•- 67. 319-333. Copynght C 1994 da Amcrlc:m Psychololl'C"I A.<liOCJt>tlon. Adaptado sob
pcnm,são.
38 Capín1Jo Três
AS VIAS DOS NEUROTRANSMISSORES
O CÉREBRO
Os aeurotransmissores atuam como mensageiros químicos dentro
do ~istcma aervoso central no cérebro. Os neurônios comunicam-
se uns com os outros por meio de neurotransmissores. pois o
neurônio que envia uma informação libera um neurotransmissor.
que é recolhido pelo neurôajo vizinho. ação esta que faz esse
neurônio vizinho receber a mensagem. "'Via ncurotmnsmi~sora•·
é uma expressão que se refere a um aglomerado de neurônios
que se comuaicam com outros utilizando um determinado aeuro-
transmissor. As quatro vias neurotrJnsmissora..~ relevantes do
ponto de vista da motivação são: a doprunina - que gera scn.~a-
çõcs agrJdáveis associadas à recompensa (Montaguc. Dayan
& Sejnowski. 1996); a scrotonina - que inílucncia o humor e
a emoção (Schild.kraut, 1965); a norcpinefrinn - que n:gu.la a
cxeitnção e o estado de alerta (Heimer. L 995; Robbins & Evcriu.
1996); e a endorfina - que inibe a dor, a ansiedade e o medo.
gerando scn..,açõe-, agradáveis para contrabalançar c..•;sns scnsa•
ções negativas (Wisc, 1989).
A ::in::itomia das vins da serotonin:i e da dopanúna é mostrnda na
Figura 3.7. A via dadopnn1ina é paniculanncntc importante para
se compreendera moú vação e a emoção. uma vez que sua f uaç-;io
motivacional primária é gcraT sensações positivas - uma experi-
ência de prazer ou recompensa (A.shby. lsen & Turken. 1999).
Dopamina
A liberação de dopnrnina gera sensações agrJdáveis. Enquanto
as pessoas vão vi veado os eventos do seu dia, um certo nível de
dopami na cncontrJ•SC sempre presente no cérebro. Entrctnnto,
ao longo do dia as pessoas se deparam com evca tos diferentes.
e aqueles eventos que assinalam o recebimento de wna recom•
pensa e a antecipação de um prJZer acionam os neurônios da via
dn doprunjna parn que liberem dopamina nas sinapses (Bozarth.
e 1991: Phillips. Pfaus & Blaha. 1991 ). Essa liberação de dopa-
mina descacadcin uma positividade en1ocional. e o afeto posi•
Li,•o resultante produz um funcionamento melhorado. tal como
aumento dn criatividade e insights paro a resolução de problemas
(Ashby. Isca & Turkcn., 1999).
Via., da do!""lllna
Figura 3.7 Duas Vins Neurounru.mi~=
O achado de que a liberJç5o de dopamina gera sensações
posilivas é um dado significante porque, à medida que vivem seu
dia. as pessoas têm que escolher o que fazer e o que não íazer.
Parte do uqueref' seguir um curso de ação em detrimcato de
outro é regulada pelas informações fornecidas pela produção de
dopamina da área tcgmeatn.l ventral (A TV). A A TV liberJ dopa•
mina em outros locais do cérebro (p. ex .• no córtex pré-frontal)
e o padrão de liberação é previsível em proporção à recompensa
que a pcs..'1-0a esperJ receber e à que de fato recebe por um deter-
minado curso de ação. Quando os eventos se sucedem de modo
melhor que o esperado. um aumento na liberação de dopamina
funciona como uma informaç-:io de que um determinado curso de
ação está produzindo mais rccompen.~a do que havia sido ante-
cipado. E quando os eventos se ~ucedem de maneira pior que
o esperado. um decréscimo na liberação de dopamina funciona
como unta irrfonnação de que um determinado curso de ação
está produzindo menos recompensa do que havia sido antecipado
(Montaguc. Dayan & Sejno,vski, 1996).
A Liberação de Dopamina e a Antecipação
da Recompensa
Os estímulos que prenunciam a chegada iminente de uma rccom-
pcasa provocam a liberação de dopamina no cérebro (Mircnowicz
& Schultz. 1994). O prazer resulta de um afluxo de dopamina no
sistema de roc<>mpensa. Quando você sente o cheiro de biscoitos
de chocolate sendo as.sados no forno, ocorre uma liberação de
dopamina. Não é o ato de comer os biscoitos que faz o cérebro
liberar a dopa.mina ma.s. em vez dis..w, é a antecipação da recom-
pensa da refeição que provoca a tiberJção de dopamina. Uma
vez que ocorre com a antecipação d.t recompensa. a liberação
de dopnmina. portanto. participa das foses preparatória.~ do
comportamento motivado, incluindo, por exemplo, uma ereção
que precede a atividade sexual ou um aumento da atcação à
cozinha, depois que você sente o cheiro do..~ biscoitos. Por esse
motivo, freqüentemente experimentamos mais prJZCr quando
pcn..,;amos cm fazer sexo ou comer biscoitos de chocolate do
que quando de falo rea.lizamos essas atividades. Entretanto. se
as coi.~a_~ se saem melhor do que o cspcrJdo durante o sexo ou :i
Vbs dt !\Cl'Otonln::o
F OIIJ~: cxiraido de Af apputf? IM Mi111L de R. Cattcr. 1998. Bcd:olcy: Unn crsuy of Calüonua Prcss. Pul>lu:ada mcdJaruc acordo com \\/ cidcnfcld & Nl<'<lhon.
refeição. a liberação de dopamina continua. dn mesma maneir.i
que a boa sensação correspondente.
À medida que a pessoa se movimcnl.:l cm seu ambiente.
diversos e:súmulos invariavelmente estimulam seus sentidos (p.
ex.. o indivíduo vê diferentes pcs.son.,. csrolll risadas. examina
diferentes frutas cm uma banai de feira). Alguns dc.,;scs eventos
!>ão biologicamente significantes para a pessoa (p. ex., aquele,
que se relacionam à fome. à sede e ao acasalamento), e quando
antccip:im a possibilidade de recompensa. ocorre a Liberação
de dopaminn. que motiva a pessoa a se preparar para entrar em
ação, a fim de aproveitar esse evento ambiental. Se a liberação
de dopamina não ocorre. não percebemos qualquer do!. eventos
que nos cercam como sendo atrativos. de modo que não nos
preparamos para abordá-los.
A Biologia da Recompensa
A liberação de dopa.mina não s6 assina.la a perspectiva de uma
recompensa iminente. mas também nos ensina quais eventos no
ambiente silo compensadores. Ou seja. a liberação de dopamina
explica II biologia da recompensa. Se um evento ambiental e a
contínua manutenção de propriedades motivacionais de incen-
tivo estão para ser alcançados. é preciso que ocorra a libcr.içào
de dopamina (Beningcr. 1983). A liberação de dopamina é maior
quando os eventos rccompcasatórios ocorrem de modo impre-
visto - por exemplo, alguém diz: uau, é incrível o perfume
dessa flor - ou ~e mostram melhores do que o e~perado- uau.
o perfume dessa flor é muito melhor do que cu poderia imaginllr
(Mirenowicz & Schultz. 1994). Em função disso. a geração de
sensações ngrndávcis ocorre não s6 cm decorrência de eventos
recompensadores, mas também devido a recompensas imprc•
vistas e inesperJdas. A liberação de dopamina após o recebimento
de uma recompensa inei.-pcr.ida é algo que permite às pessoas
aprenderem a significância motivacional desse evento. E. uma
vez que a libc ração de dopa.mina define um evento como recom•
pensador, a pessoa aprende que esse evento. quando encontrado
no futuro, provavelmente produzirá uma experiência recompen-
sadora. Portanto. a ativação da via da dopan1ina dei.empenha
papel significativo na biologia dn recompensa.
A e\•idência de que a estimulação da via da dopamina cria
uma e;itpcriência de recompensa provém de estudos sobre a auto•
estimulação intracrnniana e a nuto-aplicaçâo de drogas (Figura
3.8) (Boz.arth. 1991 ). Pesquisadores podem implantar no cérebro
de um animal um eletrodo que. quando estimulado. envia uma
pequena corrente elétrica capaz de estimular essa estrutura
cerebral (estimulação intracraniana) ou então administrar uma
pequena dose de uma determinada droga (aplicação de drogas).
Tanto cm um caso como no outro, as cobaias são colocadas em
uma gaio.la na qual podem pressionar uma barr.i com as patas
dianteiras. Quando a barra é pres.-.ionada.. :uiva-se um interruptor
que aplica no animal uma pcqucnll estimulação e létrica ou uma
pequena dosagem da droga. Uma vez que a cobaia controla
quando o cérebro é estimulado (porque depende da sua escolha
pressionar ou não a barra). o animal pode então produzir sua
própria estimulação intrncraniaM e/ou a auto-nplicação da droga.
As pesquisas sobre n estimulação intracraniana revclnm que os
animais pressionam a barra que estimula as estrut:unlS cerebrais
O Cérebro Emocional e ~1oliv:ido 39
•
Figura 3.8 Dustrnçllo de u,n Procedime111.o de Au10-Es11mulaçilõ
l.ntracmniana
Ohs,nYJçdo. Quando o raio pn:ssíona a nlavanca P""' bmxo. é abvado um
mia01ruem,ptll< que cn,u um pequeno impulso cletnco. que pa<sa pc:lo fio e
alcaoça o c<'n:.bro do rato illJll,•és de um clclrodo imptwilado. Com o,;c procedi-
mento. o r:110 consegue produzir uma cstimul•çiio auto-induzida em seu própno
ctrebrn.
Fontt. ciur.sído de Pfeas.u-, c,m~rs i• 1/t, Brain. ele J . Okb.. 19.56, Srit11rijic
Amu,oon, 195. 105-106.
associadas à liberação de dopamina. E as pesquisas com a auto•
aplicação de drogas mostram que os animnis pressionam a barra
que os faz. receber drogas p:,icocstimulanres, como a anfetamina
e a COCllÍnn (Robcrts. CorcorJn & Fibigcr, 1977). O falo de os
animais praticarem essa auto-estimulação intracrJni:ma e essa
auto-aplicação de dmga.s quando os implantes encontram-se loca-
lizados na via da dopamina, leva os pesquisadores n inferirem
que a liberação de dopamina é prazerosa e compensadora.
A Dopamina e a Ação Motivada
A Liberação de dopamina associa-se a dois eventos cercbrJis.
Primeiro, a liberação de dopaminn gera scnsaçõc.~ positivas,
como acabamos de discutir. Ma.~. além disso. a liberação de
dopamina também aúva asrespostas voluntárias de aprox.imação
direcionad3S par.i a meta. A via da dopamina inclui uma inter-
face com o sistema muscular/motor do corpo através do "nucleus
acc11mbens ... que é a estrutura cerebral envolvidn na liberação
da locomoção do comportn.mento direcionado a meta (Kcllcy
& Stinus, 1984). Portanto, a estimulação da via da dopamina
40 Capíu1Jo Três
B()XE .3 Co,no e por que as Drogas A,uidepressn-as Minormn a Depressão
Pt!rgu11ra: Poc que es.a informação é i1nponame?
Rt!SpoSta: Para compreendennos como as drógas antidepres,.iva,.
Fw,donam p11t.1 mino,-ar a depre ... -.1o.
Cad:i um de nó;; empre<!ode :,o longo de toda a vida uma eonlfnua
lum contra a depressllo. Evento, a, er,.ivos e estrêssruue, it1ê\' it:l\'cl-
mente ctu1..am noi.,o l"Auiinbo. wna va que experiêJlcias de perda.
n!Jêtç!o. -críuc-.i. apuros financeiros. f.rncasso. exces...o de obnga-
çôe>. abandono. falta de perspectivas. di\puw e desapontrunenr~
con1põe1t1 o HuJto d:t, experiência,. hu11W10.>. ª'-= êvenl05 aJeram
nossa hioquímUc'll corpornl, que e.sLi ..empre se mod1Jicondo. e quando
cx.iurem nosso, recurso,, bioqu!micos pod,em nos de1iuu· \·uJnenlveis
à depreMi!o. A nuuoria de nós enfrenm bem esses proble1n:is duram e
a lllll.ior pane do tempo, mas= ,e.mpre vulnerj ,·cí~ à -ensação
de e,t1m10, a U11l pa.~ de .enuo,, e,1na~ado,, pe lo e.cre!,..\ê e pela
decepç-lo.
A depre,.soo é um cou1plexo trarwomo p,ie:ológico a.s.sociado
a do1> tipo~ prindp:iis de n.'uçno ao arnbienli!. Por um ludo. expo-
~ções a .recepç&, e n ,ituaçlle~ incootrollh ei, de e~tresse razem
demandas ao si;;tema lín1biro que gradualJneme nos roub3m a seroro-
n,113 do cérebro. E o deficiência de serotonina deixa-nos \'Ulnetávei.s
à de:pres"10 (Kmmer. 1993: Weis, & Sm1-.on. 1985).
As d.rogas ant.idep,essivas populares (p. e"t., Prozac. Zolof1. Pa:xll)
são chamadas de ISRS. ou inibidores i.ele:ti11os de rec<1ptJlçilo de
sertllonina. Es.ses antidepressivos funcionam na suposiçll.o de que
a cau.a da depre,.ào silo o... baixos ní\"cis de serotoclioa oas vias Ili!
i.erotonína. Me,mo quando e.lá altamente estre>.ado. a .erolonina
contida no cérebro CC)nlinua 1!111 ,ua via. ma., n~o bili pn><ttaJncnte
di,ponfvel para uso. Duram e eveolill e.stre ... antes da , ida. a ><!ro-
tonill:l é libcmda nas ,in.1pse,. rna, t:unbérn r:tp1drunente h!toi-na
aumenta a probabilidade de ocorrência do comportamento de
aproximaç-Jo (M orgcason. Jone!> & Yim. 1980) - em parte
porque as sensações agradávei.s criam uma motivação para a
aproximação e. em pane. porque a ativação do sistema molar
libera o comport-amca to de aproximação direcionado para a me.ta.
Tendo a liberação de dopamina iniciado o componamcato de
upro1ti ma~o em direção ao evento recompensador. o compor•
lamento de aproximação da pessoa coatinua, e vai aumentando
cada vez mais de i ntensidadc até a meta ser alcançada. Voltando
ao exemplo dos biscoitos de chocolate. a liber.1.ção de dopamina
gera nõo só sensações positivas. mas também o comportamento
de busca moli vadll necessário par-.1 a pc.,;:S()a cncontrnr e conswnir
o alimen to desejado.
Portanto. de modo geral. à medida q ue os eventos vão se
sucedendo ao longo do dia. o cérebro detecta alguns deles como
sendo "'biologicamente significantes'", e libera a dopamina que
gera sensações agrndiíveis e o comportnmcnto de aprox.imaçiio
direcionado para a meta. Além disso. a cxpcriênci!l prJ.ZCrosa da
dopamina faz a pessoa aprender quais eventos ambienuús estão
associados ao prazer e à nproiti.maçào. e quais eventos ambien•
tais estão associados ao estresse e ao afastamento. A liberação
de dopamina é. portanto. um me.e.unismo neural pelo qual n moti-
vação se traduz em ação (i:\llorgensoa. Joaes & Yim. 1980).
ao neurónio que :1 m>erou (eicperimemando unia recap1:i,;~o). Para
rei ener a depressão. :i droga antidcprew1·a precisa aumentar o fome,
cimento e a traru.missão de ~rotonina no cérebro, e faz isso impe-
dindo a reoip1açao. ou se,a. fazendo co1n que SCJll m:us utilizada a
serOU>nina di,ponlvel (em vei. de permitir que. ejo rearmazenada por
meio da recop1oçllo). O anltdepre,.si vo atua res1ourando a liberaçllo
de ~rotonino e faundo o auvid.1.de vol1J1r oo oormal.
O segundo tipo de Jepre.s~llo e<-14 associado a umri diminuição
da cap:,cidade de experi ,oentM prazer e ,en.,nçõe, positiva,. Bàixo,,
nívtirs de dop:iinina podem deíxur a pessoa 1•1.llnerável li upaLia. no
tédio. à dificuldade dê concenu-ação e à falta de ulicíat.iva par.to
enfret1LllJ1um10 da vida cout!iana. Por outro lado. o liberaçiiodedopa-
mloa e :1 ativid:lde que se processa em ,un respecth·o , ia cerebrul
geram senS1l\-õb bo.1.> e afelos po~'itivo,. e;.i.eftci:llmente deixando
a pe,,>0a em condiçõe!:> ótima., de ap~otru wn bruno, positivo
(Ashby. lsen & TUil:en. 1999). Alrum an1i<kpressi1·os atuam ruunen-
llllldo a l:lXJl de rt!:!.pu,tn c.lós recep!O~ lle doparnina. ni,w:urando
com i,w a c:ip!Cidade da po;,oa de expcrimen1ar prnzei e emoçck,,
posith·as (Willnere1111.. 1991). As drog3" de abuso (p. ex.. c0<.--aína,
anfeuuni11:1s) r.ambém ru.uam Dll b:l.Sc! de au.me:ntar a atividade de
dop:u11irta no cérebro. Por exemplo. a cocaíllá funciona uubindo a
recapl:lç.10 de dopaininu (Di Chiara. Acquas & Cartioni. 199:!).
De modo geral, a depressão ten1 duru. facei. - a deficiência de
sero10n,na.. que deixa a pessoa 1nenos capaz de enfrenw o esiresse
da lida. e a del'ic,ência úe dop:imína. que deixa a pes.çoa inapta a
pre, enir e upenmenrar o praze:t. S.i.bendo disso. o, pe...quisadore;,
fannncológico~ poden1 elaborar droga\ que ajudem as pe,,ons a
enfrentar e,;.,;a lu1n permnnente conl.nl o depressão. E, por sun ~ez.
o~ pesqu,sndore:. modvociona,s podem elaborar e impleinenrar
programas de inrervenção cujo objetivo é m:uirer e regular os níveis
na1urai, de SCf'Olonina e dop:inuna nos indivíduo....
O MUNDO EM QUE O CÉREBRO VIVE
As pesquisas SQbre o cérebro geralmente se baseiam em métodos
artificiais de estimulação dos estados motivacionais e emocio-
n:ús do cérebro (como mostram as Figuras 3.2. 3.4 e 3.8). Nessas
pesquisas. em geral se aplica uma pequena corrente elétrica ou
um agente químico (uma drog-.i., um ncurou-.insmissor ou um
hormônio) cm um local cspocffico do cérebro para se investigar
o papel que a estrutura cerebral dese mpenha na moúvação. Essas
pesquisas pcnnitcm-aoi; coletar o li.pode informações que estão
resumidas na Tabela 3.2. tais como o fato de sabermos que o feixe
prosenceíálico medial é um centro de prazer. a amígdala é um
centro de medo e assim por diante. para cuda estruturo cerebral
específica. Entretanto. o que esses Cl>IUdos não mostram é de que
m:lllcira os eventos do dia-a- dia. que ocorrem naturalmente em
nosso mundo social. estimulain essas estruturas cerebrais para
gerar a moúva~o e a emoção que ut iliuimos uo nos a&ptannos
ao mundo que nos cerca.
A Motivação ão Pode Ser Se.parada do
Contex'to Social em que Está Inserida
As pessoas Lém necessidades. tais como as de sobrevivência.
crescimento e bem-estar. E o mundo social oferece um ambienle
repleto de eventos que atendea1 e ameaçam essas necessidades.
Por exemplo, o tea1po pode estar an1e no e favorável ao seu bem-
estar, ou pode estar gelado ou tórrido e ameaçar seu bem-estar.
Uma relação enlre duas pessoas pode ser calorosa e proveitosa,
rnas 1ambé1n pode ser fria e crue l. O cérebro é o meio pelo
qual geramos os estados motivacionais e e mocionais de que
necessitamos para nos adaptannos de mane ira ótin1a ao mundo
físico e social que nos cerca. Dessa maneira, para respondermos
a perg untas do tipo "Corno posso motivar a ,nim rnesrno?" e
"Con10 posso rnotivar aos outros?", podemos uti.lizar o conhe-
cimento que temos do cérebro para criar a1nbientes sociais que
atuem con10 estimulantes naturais da n1otivação e da e moção
no cérebro.
Por exen1plo, considere os estimulantes naturais das estn1-
turas do cérebro moti vacional que ctiscuti mos ao longo deste
capítulo. A privação dealüne nto explicou a subida e descida
dos níveis dos bonnônios grelina e leptina. Os sinais de recom-
pensa e dos eventos inesperada1nente positivos - um odor agra-
dável. un1 presente, um fil!ne engraçado - explican1 a liberação
de dopamina. Relógios despertadores e passeios e111 montanha-
russa excitam a fonuação reticular. Alneaças como a presença de
predadores, de sujeitos brigões, de inimigos e oponentes hostis
estin1t1lan1 a amígdala. Decepção, fracasso, horríveis dores de
dente. novidades e a separação de pessoas an1adas estin1ulam o
bipocan1po a entrar e1n um modo "não-0.K.", da n1esn1a maneira
que o enfrentameoto bem-sucedido desses agentes aversivos esti-
mula a liberação de endorfina e o retomo prazeroso ao modo
"O.K.". E drogas como a cocaína e as anfe taminas estimulam os
centros de prazer do sisten1a I úubico. O que todos esses exen1-
plos ilustram é que os eventos ambientais no inundo social atuam
como estimulantes natu rais dos processos motivacionais básicos
do cérebro (p. e x. , prazer, ansiedade, excitação e humor).
Sendo assim, enquanto os pesquisadores do cérebro realizam
estudos ern que estimularn artificialmente e alterarn os estados
motivacionais dos animais, os pesquisadores que atua1n nas
escolas, nos locais de trabalho, e m clínicas e estádios sabem
que o estado moli vacio nal de um indivíduo não pode ser d isso-
ciado do contexto social e1n que e le está inserido. Ernbora conhe-
çamos a maneira como o cérebro gera seus estados motivacionais,
tarnbé1n sabemos que a motivação experimentada pelos estu-
dantes, atletas, pacientes, crianças e trabalhadores está inerente-
u1ente interligada ao contexto social fornecido por seus profes-
sores, técnicos, rnédicos, pais e supervisores. Dessa maneira,
este capítulo apresentou as bases em que se assentam a rnoti-
vação e a ernoção no cérebro. Os próximos capítulos mostrarão
como o contexto social fornece estimulações naturais que fazeu1
o cérebro motivado e emocional entrar e111 ação.
Nem Sempre Temos Consciência da Base
Motivacional do Nosso Comportamento
O estudo do cére bro motivado ressa lta um último ponto impor-
tante sobre a ,notivação humana, o u seja, o fato de que nem
sempre estamos conscientes da base rnoti vac ional do nosso
comportan1ento. Os motivos variam e m tennos de sua acessibi-
lidade à consciência e ao relato verbal. Alguns 1notivos originan1-
se nas estruturas da linguagem e no córtex cerebral (p. ex., as
O Cérebro Emodonal e MoLivado 41
metas) e, portanto, encontram-se facilmente disponíveis à atenção
consciente do indivíduo (p. ex., "minha ,neta é vender essas
apólices de seguro hoje"). Para esses motivos, se você perguntar
a uma pessoa por que ela selecionou essa rnela e rn parlicular,
com bastan te freqüência a pessoa lhe apresentará uma lista de
razões racionais e lógicas que a fizeram agi r assim. A despeito do
fato de que as pessoas podem freqüentemente fornecer motivos
ünediatos e satisfatórios que expliquem seu coniportmnento,
alguns atos 1noti vados são impulsivos, e as razões pelas quais
os fazemos não são c laras, mesn10 para nós que os praticanlos.
Alguns motivos tê1n suas origens em estruturas não-lingüísticas,
e estão, portanto, muito menos disponíveis à nossa atenção cons-
ciente e ao relato verbal. Esses são os 1notivos originados nas
estruturas en1ocionais lúnbicas, e não nas esu·uturas do córtex
cerebral , sede da linguagen1. Tais niotivos 111anifestam-se em
nossa atenção so1neate em forn1a de impulsos e apetites.
Existem muitas evidências experimentais de que há ruotivos
que podem ter origeu1, e de fato tê1n, nas estruturas lúnbicas
ü1conscientes, en1 vez de se originare1n do có1iex cerebral cons-
ciente. Considere o fato de que as pessoas que se sentem be111
após terem recebido um presente inesperado têm 111aior proba-
bi lidade de ajudar um es1ranho e m apuros do que as pessoas que
estão com um humor neutro (Tsen, 1987). As pessoas 1a mbé1n
ficam mais sociáveis ern urn dia ensolarado do que em um dia
nublado (Kraut & .lohnston, 1979). E as pessoas cometem mais
atos de violência nos n1eses de verão do que e1n outras é pocas
do ano (Anderson, 1989). Os an-emessadores da liga principal
de beisebol norte-americana têm maior probabilidade de inlen-
cionalrnente atingir os rebatedores adversários quando atempe-
ratura está alta do que quando está baixa ou amena (Reifman,
Larrick & Fein, 199 l ). E1n cada um desses exemplos, a pessoa
não está consciente do motivo pe lo qual cometeu o ato social ou
anti-social. Por exemplo, poucas pessoas diriain que ajudaran1 o
eslranho porque estavarn se sentindo bern, e poucas ctiriam que
cometeram urn assassinato ou arrernessarain a bola na cabeça
do adversário porque estava fazendo n1uito calor. Ainda assim,
essas são condições que causam as motivações. A breve lição
que se pode tirar desses exemplos empíricos é que os 1notivos,
as ânsias, os apetites, os desejos, os hu1nores, as necessidades e
as en1oçôes que regulam o co1nportarnento hu111ano nen1 senipre
são imediatan1ente óbvios.
CONCLUSÃO
Meio século atrás, urnjoven1 neurocientista chan1ado Jrunes Olds
eslava fazendo seu trabalho rotineiro de laboratório, implantando
um ele trodo no e.ronco ce rebral de um rato . Em um dia em que
as coisas não deram muito certo, o eletrodo implantado por Olds
acidenta.lmente c urvou-se e acabou por atingir outra parte do
cére bro ele um rato. Não sabendo que o eletrodo se curvara, Olds
estimulou o rato e observou com surpresa que o animal de repente
passara a repetir seu comportamento e a continuar e nt.usiasl.ica-
mente a voltar para a parte da gaiola ern que a primeira estimu-
lação e létri ca do cérebro havia ocorrido. O rato gostou da esli-
1nulação. Na verdade, gostou de mais. Estudos que se seguiram
rnostrararn que animais que têm a oportunidade de estimular a
si próprios de fato faze1n isso (por exe111plo, pressionando uma
42 Capíu1Jo Três
barra que envia uma corrente e létrica a seu próprio cérebro: veja
a Figura 3.8). A pesquisa de Olds logo iria confirmar que ele
havia acidentalmente descoberto um centro de pruzer no cérebro
do rato (Olds & Milner. 1954 ).
Os pesquisadoras logo comcç-.unm a intencionalmente entortar
suas pinças elétricas. levando com isso o campo da neuroci -
ê.ncia rumo à compreensão da base neural do prazer e da aver.;ão
(Hocbcl. 1976: Olds & Fobcs. 198 1: Wise & Bozarth. 1984).
Primeiro. estrutur.is cerebrais específicas oomo a área septal. o
hipotálamo. os corpos mamilares e o feixe proscnccfálico medial
for.iro identificados como sendo importantes para os processos
motivacionais (Olds & Olds. 1963). Depois. o consenso con-
vergiu para a idéia de que as experiências morivacionais (p.
ex.. o prazer e a aversão) não estão localiz.ad:is cm qualquer
estrutura ccrcbr.il específica, mns, cm vez disso. aprcscnt:im-
se coordenadas entro di vcr..as áreas cerebrais conhecidas co1no
circuitos neurai~. tais con10 :.L~ encontradas no sis1en1a límbico
(lsaacson, 1982). Pesquisas posteriores estenderam o estudo dos
circuitos cerebrais para incluir o estudo dos circuitos químicos
ou vias pelas quais ruversos locais do cérebro se intercomu-
nieam por meio de um ncurotr.ins1nissor específico. tal como
a dopamina. Esses esforços para mapear as estruturas ccrcbrai.~
~pecífica.~ de significado motivacionaL dos circuitos neurais e
das vias químicas possíbilitaram aos pesquisadores compreender
como o cérebro cria. mantém e regula o moti vaçâo, a emoção e o
humor. Nos próximos capítulos. mudaremos nossa ênfase para os
eventos externos de significado motivacional. das relações e dos
ambientes complexos oom que os indivíduos se deparam, como.
por exemplo. uma sala de aula. Por isso. os conteúdos deste capí-
tulo irjo nos permitir entender a biologia e a neurociência subja-
centes nos estados motivncionais a serem cli<ieulidos.
RESUMO
Quando ,e di.,cu1e o cérebro. n maioru da.~ pessoa;. focaliza a :uençllo
nas funções cognitiva.\ e imelecruai.~.incluindo o pens:imento. n nprendi-
1.agem e a comnda de dec:i.o;õcs. Porém o cérebro n:lo é somen1e um agenie
de pensrunemo. mas tainbém um agente de motivação e de emoção. É
o cérebro que gera as lin,iru.. apetites. necessidades. desejos, prazeres e
iodo o espectro de e111oçõe,. P3rn ilu,tr-.tr como o cérebro cria. mrut1é1n
e regula o, estado, motivacionai, e emocionais. cou,idere os trê, prin-
cf piOJ. que orgrutizam a tn:llleim como os pi!Squisadores moti,:iciO!l3i~
C!>Wdrun o cérebro. Primeiro. e,trutlll".JS cerebruis e!>pecffica~ ( p. ex .•
o hipot.11:uno e a a,nígdafa) gerrun estado,, moti vacionai., e.specíf,cos.
Segu11do. age,ues bioqufnúcos (p. ex., oeuro1r.uismi.-sores e hcm1ô11ios)
~limulam essas e~trutur-.is cerebroL~. Terceiro, ooon1ecimen10, do dla-
11-d;a (p. ex.. rerebcr uma carro de un1 amigo. ou pas..<i:1r por um ll11fego
perigú,O) sào os even10. de nos....a,, vidas que fottm entrar etn nçllo o,,
agen1es bioquímico; õtimuJadQrej, do cérebro.
Olhar dentro do céJ"ebro com 1écnie-.is como a cirurgia e a fRMf
(inlll1,-em por resso11fincia 1nagnético funcional) pennite.nos ob1er wn
nlllpa ela localizoçllo ana1õm,ca de diversas esll'lltums-cluve do cérebro
relacionadas à moti vaçao e 11 emoçno. As es~ cerebmi .. associada,
à., sensações positiva;, e 11 moth ação de apro.timaçllo incluem o hi po-
ttllamo. o feixe prosenceídlico medial a área central o córtex cerebrul
e o córtex pré-fronw esquerdo. A;. estrurums cerebrois ~ às
,en,ações negati,•as e à mollvnçào de evitaçllo incluem a amfgdllla. o
hipoc-.i.mpo e o córtex pn.<,.frontal direito. Por e.templo. a estimulação
do feixe prosencefâlioo medi:11 leva a, pes.03S a relatnrem sensaçile,
positi vru. e oi. anl mais 11 .e comportarem de lllll:I n\aneirJ que s.usere que
eles receberan1 um reforço pcl6itivo. Já n esti1nulnç-Jo da amígdala le\' 3 as
pe:s.soas a relauire,n sensnções neg:itivas e a apresenw-em wna :itivação
romponrunental a;,,oci:wla a uma rc:spost.a coordenada de medo.
Os neuro1rnnsmissores atuam como mensageiros químicos denlt'O
do ~rebro, e uma .. ,ia neurotransmissora~ refere.se a um aglomerado
de neurônios que s.e comunicam com outros neurônios utilizando u1n
de1enninado neut'O{ransmi...sor. As qu:uro vias new-otmnsmissora.~ motJ.
vacionalmeme relevan1es silo: a dopan1ina. a sero1011ina. a norepine•
frina e a endocíinn. A via da dopamina é panicularmente ünpor1~n1e.
um.~ vez que sua principal funçào motivncional é gerar sensações posi•
tivas, o que explicn a blologia da compen...açào. À medida que eventos
motivocionahnente sign,fic::uues ,,3o acontecendo oo longo do d,a. o
cérebro detocto alguns des= eventos como sendo "biologicnmeme
significantes'". o que provoca a liberoçllo de dopamina. gera sensações
azract:1veis e ~limula o comportamento de :iproximaçilo orientado p=
uma mi!rn. Além dísso. n ~xperiéncia pr.lZeroso do dopamina pennite
à pes,oo aprender quais e~entos ambientais assoclllln•se ao prazer e 11
aproximaçÍIO e quais eventos ambient.ais associmn-se oo estresse e à
e"iiaç:lo. A liberaç-;10 de dopamina é. portan10. um mecanismo ueuml
pelo qual o moti\'llçl!o se trad112 em ação.
O prop6si10 deste copf1ulo não foi sobrecruregar o lei1or com teimo,
extrovaga,ues de 11eurofisiologin. como leplina e si.,tema s.epto•hlpo.
campal mas ;.im erguer o \ éu ele mislério dos motivos pelos quais o
cérebro gero e mantém o,, e,wto. moti vocionaí. e e1no.:ionais.
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Parte Um
Necessidades
Capftulo 4
Necessidades Fisiológicas
NECESSIDADE
OS FUNDAl\1ENTOS DA REGULAÇÃO
Nece,sidade Fisiológica
Impu lso Psicológico
Homcostasc
Feedback Nega li vo
Inputs MCíltiplos/Outputs M61tiplos
Mecanismos lntra-Organísnúcos
Mecanismos Extra-Organísmicos
SEDE
Regulação Fisiológica
Ativação da sede
Saciedade da sede
O bipOt,Uamo e o fígado
1J1fluências ambientais
FOME
Apetite de Curto Prazo
C onsidere a seguinte proposta: você é convidado a participar
de um experimento por u111a pesquisadora que lhe promete
recompensar muito hen1 pelo seu esforço. Tudo o que você te,n
que fazer é tentar ganhar 10% do seu atual peso corporal. fsso
parece ser bastante lacil e cornpensador, de rnaneira que você
aceita a oferta. No início, tudo vai he1n, e você ganha 2 kg na
pri1neira se1nana e 1nais I kg na segunda. Enu·etanto, na terceira
sen1ana, seu apetite din1inui, a co111ida vai perdendo o poder de
lhe apetecer, e você ten1 a i1npressão de que seu corpo con1eça
a erguer defesas para conter seu aun1ento de peso. E, ao ingerir
co1nida extra, você fica surpreso co1n a enonne sensação de
desconforto que experimenta. Além disso, o seu antigo estilo de
vida ativo transfonnou-se em um rit1no sedentário, à 1nedida que
você passou a se exercitar rr1enos e a usar mais os elevadores. V ai
se tomando cada vez ,nais difícil ganhar mais meio quilo, e muito
roais difícil ainda alcançar os 10% de peso a mais ern relação ao
que você tinha antes. São necessários dois meses de esforços, ao
fi 1n dos quais você acaba ganhando os 10% de peso extra.
Con1 o te1npo, seu peso corporal, seu apetite e seu estilo de
vida se recnperan1. Poré1n, infeliztnente, a pesquisadora ve1n
co1n outra oferta. Dessa vez, ela quer ver se você é capaz de
perder 10% do seu peso corporal. Confiante no sucesso que já
&1uilíbrio de Energia de Longo Prazo
Influências Ambientais
SEXO
Situações de restrição-liberação
Estilo de comer regulado cognitivamente
Ganho de peso e obesidade
Regulação Fisiológica
Métrica Facial
Roteiros Sexuais
Orientação Sexual
Base Evolucionista da Motivação Sexual
AS FALHAS DE AUTO-REGULAÇÃO DAS NECESSIDADES
FISIOLÓGICAS
RESUtv10
LEITURAS PARA ESTUDOS ADICIONAIS
teve, você aceita a proposta e inicia uma dieta rigorosa. Se antes
o excesso de comida U,e tirava o apelite, a privação de alimento
que você experimenta agora é algo simplesmente horrível. Se
antes as defesas do seu corpo eram brandas e pacíficas, agora
tudo tnudou. Seu corpo não mais quer brincar. Você passa a se
sentir carrancudo e in·itadiço, cotn a atenção totalmente centrada
no apetite. Depois de dois n1eses de esforços contínuos, você
começa a pensar ern chutar tudo para o alto. Quanto mais você
tenta segurar seu apetite e 1nais ignora seu i1npulso corporal para
co1ner, tnais obcecado con1 co111ida você fica, e os alünentos de
alto teor calórico mais atração exerce1n sobre você. A irritação
constante que você sente també111 con1eça a afetar sua vida coti-
diana. Você então telefona para a pesquisadora e decide cancelar
essa experiência fútil que lhe custou um mês de sofritnento. E
depois, enquanto retorna ao seu peso nonnal, você vê acabar sua
tristeza e suas fantasias noturnascom pizzas e bolos.
Após o térrnino dos experimentos, duas coisa~ mudaram. Por
um lado, você ganhou bastante dinheiro. E, por outro, você agora
pensa de 1uodo diferente sobre a fome, o co1ner e o controle de
peso. A experiência pela qual você pa~sou lhe mostra que o corpo
dispõe de utna predisposição e algu111 guia auto1natizado, que
lhe permite controlar quanto você deve pesar. De fato, o corpo
46 Capíu1Jo Quatro
possui diversos guias de auto-rcgulaçiio. e quando esses guias
são perturbados. ignorados ou simplesmente rejeitodos_. ocorre
uma elevação dos estados motivacion:iis. Esses estados motivn•
cionais (p. ex_ a fome. a tristez.a} irão continuar e intensificar até
que o indivíduo aja de modo a corrigir os guias rcguJadores que
foram penurbados. Portanto. a tese do presente capítulo é que
~ necessidades fisiológicas. os sistemas biológicos, o~ estados
mot:ivacionais e o comportamento atuam cm comum aconlo com
os outros. de modo a fui.er com que o indivíduo alcance uma
regulação fisiológica estável.
Um estudo similar foi realizado com animais. e os resuJtados
aparecem na Figura 4.1. Durante os primeiro~ 30 dias. todos
os animais receberam uma dieta norm:tl. Comcç:llldo no 3CJQ
dia (ponto #1). alguns animais passaram a ser forçadamente
aliment:idos (linha a), outros animais foram colocados cm unia
dieta rigorosa (linha e), e outros ainda continuaram a receber
sua dieta normal (linha b). Três semanas depois (480 dia: ponto
1#2). todos os animais retomaram à dieta normal. Como era de se
esperar, os animais que passaram por uma alimcnlllção forç:ida
ganharJ.Jll bastante peso entre o 3()11 e o 4811 dias. ao passo que
os animais que fizcrJm a dieta rigorosa perderam bastante peso.
Com o retorno à dieta normal (no 4811dia). os animais que haviam
pnssado pelo alimentação forçada manife.slllr:Un pouca fome, e
oomiarn a intervalos bem espaçados. ao passo que os animais
que haviam saído da dieta apresentavam 1nuita fome e comiam
vorazmente. Entretanto, por volta do 75!idia. todos os três grupos
de animais estavam aproximadamente com o mesmo peso. Ou
seja. indcpcndcntcmcntc de alimentação forçada ou de fome, os
animais motivacionalmentc se adaptaram à sua nova situação.
e esses estados molivaciona.is fizeram com que, nn final, rlcs
retomassem a seu peso corpor.il normal.
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30 ,10 50 60 ~o
Tcmpo{dl::as)
Figuro 4.1 Fluruações do Pe,-o Corporal ao Longo do Tempo p:ira
Animais Superalimentados (a), Normal1nen1e Alimenllldos (b) e
Subalimenwdos (e).
Fo11,, : e..-tmido de Thr lra le<>ft~ Lat,ral H~po,Ju,/tm111s i• Dtufflfining rl~Bod)
Wt1glll Sr, Pmnt. ele R. E. Kttsey. P. C. Boy le. J. W. Kemrutz & J. S . !liltchd.
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NECESSIDADE
Uma necessidade é uma condição qualquer que ocorre na pessoa
e que é essencial ou necessária à sua vida. a seu crescimento
e a seu bem-estar. Quando as necessidades são alimentadas e
satisfeitas. nos.~o bem-estar é conservado e acentuado. Porém.
se negligenciada ou frustrada, a necessidade não-atendida irá
produzir danos que desequilibram nosso bem-estar biológico
ou psicológico. Portanto. os estados molivacioaais fomcccm o
ímpeto para agirmos antes de ocorrerem danos ao nosso bem•
estar psicológico e corporal.
Os danos podem afetar o corpo. de maneira que os motivos
para a ação surgem das necessidades fisiológicas cujo propósito
é evitar a danificação dos tecidos e promover a manutenção dos
recursos corporais (p. ex .. sede. fome e sexo). Os danos podem
também afetar o "scU:". de modo que os mot.ivos para a ação
também surgem das necessidades psicológicas dos indivíduos
com o propósito de orientar seu desenvolvimento para o crcs•
cimento e a adaptação (p. ex .. uu1odetcrminação, competência
e relacionamento). Também ocorrem danos ao que diz respeito
à nossa relação com o mundo social, e nesse caso os motivos
s-urgem das necessidades social, de preservação das identidades.
das crenças. dos vnlores e das relações interpessoais (p. ex .. reali-
zação, afiJiação. intimidade e poder). Juntas, as necessidades
fisiológicas. psicológicas c sociais fornecem urna diversidade
de motivos que servem de modo geral à nossa vida, ao nosso
crescimento e ao nosso bem-estar.
As nocessidades fisiológicas envolvem sistemas biológicos.
tais como os circuitos neurais cerebrais, os hormônios e os órgãos
do corpo. Quando insalis.fcitas durante um pcrfodo prolongado,
as necessidades fisiológica., pas.~am a constituir emergências
que põem cn1 risco a vidn e, portanto, geram estados motiva•
cionnis capazes de dominar a consciência. Quando gratificadas.
as neocssidades deixam de se.r prementes e são esquecidas, pelo
menos durante um certo tempo. Por sua vez, as necessidades
psicológicas envolvem os prooessos do sistema nervoso central.
Entretanto, cm vez de obedecerem n períodos temporai, cíclicos
(ascensão. queda. e nova a.,;censiio). como fau:m as uece..-.;.,idadcs
fisiológicas. as necessidades psicológicas estão o tempo todo
presentes em nossa consciência, pelo menos cm certo gran. E
elas ganham ênfase na consciEncia principalmente na presença de
condições nmbicntai, que os indivíduos acreditam serem capazc.,
de compreender e satisfaz.er essas necessidades. Por exemplo.
encontrJr amigos é algo que evidencia nossa necessidade de
afiliação. ao passo que ser controlado é algo que frustra nossa
necessidade de autonomia. Existem dua., categorias de necessi-
dades psicológicas. e a distinção entre a.s necessidades psicoló-
gicas e as necessidades social, é que as primeiras são inatas e
inerente.~ a Lodos os indivíduos. ao passo que ns últimas rcíletem
a história pccuJiar de socia lização de cada indivíduo.
Todas as necessidades gerJm energia. O que difere uma ncccs•
s:idadc da outra slio seus efeitos direciona.is sobre o comporta•
meato (l\llurrJy. 1937). Por exemplo, uma necessidade de fome
é diferente de uma necessidade de sede, não c m termos da quan•
tidade de energia que gera. mas sim em sua capacidade de dire-
c ionar a atenção e a ação para a busca de alimento, cm vez da
busca de água. De modo semelhante. uma necessidade de compe•
tência é diferente de umo necessidade de ter relações. não em
termo~ da quantidade de motivação despertada. mas sim quanto
ao consequente desejo de bu.<;car desafios em um nível ótimo,
em vez de relações íntimas.
Outro maneira pela qual ns necessidades diferem entre si é que
algumas gerwn uma motivação de deficiência, ao passo que outr.i.~
geram uma motivação de crescimento (Maslow, J 987). Com 33
neces~idades de deficiéncia, n vida vai bem até que algum estado
de privação ( p. ex.. faz l O hor.is que a pessoa comeu pela úl úma
vez) ativa t.uru'.I necessidade de interagir c.om o mundo de uma
maneira que aquiete o déficit (ou seja. o consumo de alimento).
Já com as necessidades de crescimento. os e~tados moli vacionais
cncrgiz.am e direcionam o componamento de modo a desenvolver
avanços (buscar desafios. melhorar as relações interpessoais).
O indício que nos faz distinguir uma necessidade baseada em
deficiência de uma necessidade baseada no crescimento são as
emoções que cada tipo de necessidade gera. As necessidades de
deficiência geralmente geram emoções tensas e prementes. tais
como ansiedade. frustração. dor. estresse e aüvio. Já as necessi-
dades de crescimento costumam gerar emoções posit.ivas. como
intere.">se, diversão e ,<italidadc.
OS FUNDAMENTOS DA REGULAÇÃO
Meio século atr.1s, Clark Hull ( 1943) criou uma teoria da moti-
vação de base biológica, que foi chamadn de teoria do impulso
(veja o Capítulo 2). Segundo a teoria do impulso, as privações
e os déficits fisiológicos (p. ex., falta de água, de alimen10 e
de sono) criam neces.çidades biológicas. Caso a necessidade
permaneçainsatisfeit:l, a pri vaçào biológica toma-se potente
o suficiente para dominar a atenção do indivíduo e ger.ir um
impulso psicológico. " Impulso" é um termo teórico uúlizado
para se referir ao desconforto psicológico (sensação de tensão e
inquietaçf10) derivado de um déficit biológico persistente e subja-
cente. O impulso energiza o animal para a ação e direciona !.1.la
atividade para comportamentos específicos que são capazes de
servir (satisfazer) às necessidades corporais.
A Figur-.i 4.1 ilustra a ncc=,idadc fisiológica- impulso psico-
lógico-. processo de ação comportamental. Após beber um copo
d'água e comer, o indivíduo experimenta uma condição biológica
de saciedade. na qual nem a sede nem a fome apresentam conse•
qüências molivacionais. como c~tá mostrado em ( l ). Entretanto. à
medida que o tempo passa, a :ígua do oorpo evapora e o indi,1duo
C01L'i01ne calorias. Com a ocorrência natural dessa perda de água e
de nutrientes. os desequilíbrios ou déficits fL'>iológicos começam a
.se acumular (2). Caso os desequilíbrios fisiológicos ))CTI!ÍStam ou
se intensifiquem. n conlinuidade da privação produzirá uma neces-
sidade corpor.il de :ígua ou calorias (3). Com o tempo. a accessi-
dade fisiológiCll awneata o suficiente para produzir uma sensação
de tensão e de inquietação, que corresponde ao impulso psicoló-
gico (4). Umo vez motivado pelo impulso. o indivíduo passa a
agir dirocionado para uma meta (5). Quando o indivíduo sedento
encontra :ígua potávcl. ou quando o indivíduo faminto encontro
comida. ocorre o comportamento comrnm:nório (6). A ingestão
de água ou alimento satisfaz e remove a occcssidade corporal
subjacente. o que aquieta o impul~o psicológico, por meio de um
proces.so chamado redução do impulso (7). Após essa redução. o
Necessidades Fisiológieti 47
(1) Esl3do s.u:bdo
/ ~
('I) Rrouçlio do lmpui.o
!
(6) OcorTC o
compommcnlo
con..-wm:uono
\
(5) Ocorre, o comporumcnto
moth'lldo e dln:doctado p;ia
unu meu., como tcnt:nh1:1
de gnuflcar o lmpul<O
(2) A pn,,,.çio fl>iolog;ic,a
ckscrwoh·cndo-,,c, gr>dwlmcn1c
(3) A prh'UÇio fi_slológk:•
pmloogub produx um:i
l'ICCCS5lwdc corpor>I
' (4)A n~c se lnu.-oslJla e, <li
0111,'ffll oo impulso psJcologlco
Figura 4.2 Modelo da Sequência Necessidllde-Jrupulso-Compor-
t.amcnto
indivíduo retoma a um c.,;tado saciado (isto é. não mais motivado)
( 1 ), e todo esse processo cíclico inicia de novo um ciclo.
O padrão cíclico que mostra o aumen10 e a diminuição do
impulso psico lógico (Figura 4.2) envolve sete processos funda-
mentais: necessidade, impulso. homcoslase. "fccdbuck nega•
tivo", inputs múltiplos/outputs múltiplos. mecanismos intra-orga-
nísmicos e m.ccanismos extra•organismicos.
Necessidade Fisiológica
A necessidade fuiológica descreve uma condição de deficiência
biológic.a. As necessidades fisiológicas ocorrem a partir dos défi-
cits nos tecidos do corpo e pela corrente sangüínea, tais como a
perda de água. a privação de nutrientes ou injúria física. Se não
atendidas. as necessidades fisiol6g.ic-.is se fazem acompanhar de
lesões corporais 011 putologias. Em função disso, qunndo insatis-
feitas e intensas. as necessidades fisiológicas representam emer-
gência. .. capazes de pôr cm risco a nossa vida.
Impulso Psicológico
O impulso é um termo psicológico. e não biológico. Trata-se da
1nanifestação consciente de uma necesi.idade biológica subja•
cente e inconsciente. É o impulso, e não as necessidades f1Sio-
lógica.,; subjacentes por si mesmas, que tc.m propriedades moti-
vacionais. Por exemplo. é o apetite (impulso psicológico). e não
a bailt!I t:LJta do açúcnr ou o esvaziamento das célul:is adiposas
(necessidade fisiológica). que energizn e direciona o compor-
tamento. Quando é evidente o suficiente pur-.i chamar nossa
atenção. o impulso nos prepara motivacionalmente par.i iniciar
componamentos orientados pam uma meta. capazes de produzir
a reduç.ão desse impulso.
Homeostase
Os sistemas corpor.iis apresentam uma notável capacidade de
manter um estado estável de equilíbrio. L..so é verdadeiro mesmo
48 Capíu1Jo Quatro
quando esses sistemas cxccuw.m suas funções e se expõem a
condições ambientais extremamente diferentes e estressan1cs. O
tenno que descreve a tendência do corpo de manler um estado
cst:í vel é homC06tasc. Por exemplo, a corrente sangüínw apre•
senLa uma nolável conslância quanto a seus níveis de água, sal.
açúcar. cálcio. oxigênio. tcmper-.11:ura. acidez, proteína., e gordur-.is
(Cannon, 1932. Dempsey. 1951). Por outro lado. as pessoas cons-
tantemente estilo se deparando com a lterações nos ambiente.,
e.demos e internos. e apenas o tempo já é suficiente pnm produzir
condições de privação. Ou então as pessoas comem, bebem e
dormem em excesso. Em função disso. os sislemas corporais
e ncontram-se inevitável e continuamente sendo deslocados de
sua homea,tasc. ou por meio de aheraçõcs na., condições ambicn•
tais. ou atr.ivés de seus próprios comportamentos de consumo. A
homeostasc é essencialmente a capacidade que o corpo tem de
fazer com que um determinado sistema (por exemplo. a corrente
soogüínea) vohc a seu eslado basal. Para fazer isso, os sistemas
corporais geram estados morivacionais. Portanto. o corpo lem
tanto uma tendência a manter um estado estável quanto os meios
que gcmm a rnoti vaçào necessária para cocrgizar e direcionar os
comportnmcntos relacionados à restauração e à hon1costll.'>c.
''Feedback" Negativo
O feedb11ck negativo refere-se ao sistema de brcc:igem fisiológic:i
da homeostase (Mook. 1988). As pessoas comem e donnem, mas
até o ponto cm que não mais têm fome ou sono. O in1pulso ativa
o comportan1ento; o fcedback negativo o interrompe.
Sem o feedback e sem um modo de inibir o comportamento
motivado pelo impulso. uma vez satisfeita a necessidade subja•
ccntc. as pessoas se comportariam como na história "O Aprendiz
de FciLiceiro" (do poema de Dukaç, que serviu de tema do
desenho animado Fantasia. de Wal1 Disney; Cofcr & Appley.
l 964 ). No início da história. o aprendiz, imitando o fei ricciro,
aprende a dar ordens a uma vas.çoura. mandando-a trazer um
bnldc de água. A vassoura obedece e traz ao aprendiz um balde
d'água. Depois de ter feito isso urnas duas vezes, a água já é
suficiente. mas a vassoura continua a trazer mais e mais baldes. ,
E então que o aprendiz. para seu desespero. se dá conta de que
não aprendeu a fazer a vassoura parar de trazer água. Se o corpo
fosse incapaz de inibir um impulso. ocorreria um desastre. Caso
as pessoas não tivessem condição de interromper a sensação de
fome. elas lilemlmcntc morreriam de comer.
Na verdade. os sistemas de fccdback negativo assinalam a
saciedade bastante antes que a necessidade fisiológica esteja
completamente satisfeita (Adolph. 1980). Primeiro. a pessoa
come e bebe rapidamente, mas a taxa à qual ela faz isso diminui
rapidamente ao longo da refeição (Spitzer & Rodin, 198 1 ). À
medida que vamo.~ digerindo a comida e a água. nosso corpo
nprcscata I.Ullá notável aptidão para estimar a quantidade certa
de alimento ou de água que, quando transformados e absorvidos.
serão neces-sários para satisfazer às necessidades fisiológicas
subjacentes. Por exemplo, enquanto bebemos, nosso corpo conti-
nuamente monitor-.i o volume de líquido ingerido a cada gole. e
utiliz.a essa informação para predizer a quantidade de água que
no final entrará na corrente sangüínea e nas ce1ulas corporais.
A compreensão precisa de como o corpo assinala a sacieda.de
constitui o e.,,tudo dos sistemas de íeedback negativo.
''Inputs" Múltiplosf'Outputs" Múltiplos
O impulso apresenta diversos inpuLo;, ou meios de ativação. Po.r
exemplo. é possíYcl experimcnlar a sede depois de suar. ingerir
alimentos salgados ou doar sangue. em resposta à estimulação
e létrica de uma estrutura cerebral específica ou dur-JJ1tc uma hora
específica do dia. De maneira basLante análoga. o impulso também
tem diversas formos de saídas, ou respostas comportruncniais.que
o satisfazem. Ao sentir frio. podemos vestir uma jaquetn. acender
o :iqucccdor, fazer exercícios físicos ou tremer. Cada um desses
comportamentos consegue o me.,;-mo resultado final - produzir
umn elevação da temperatura corporal. A idéia b:ísica é que o
impuL~o surge de fontes (inputs) diferente.~ e motiva diferentes
comportamentos direcionados para uma meta (outputs).
A convergência de múltiplos inputs com múltiplos outputs.
mostrada na Figura4.3. é aa verdade o que faz o impulso ser um
construclo motivacional bastante atraente. Em termos teóricos.
o impulso é uma variável interveniente.~. que integra as relações
entre vários inputs e outputs. os quais, de outra maneiro, diver-
giriam entre si. Por exemplo, n dor. como variável intervcnienle.
ajuda a cxplicll' o que é comam entre os process05 motivaciomris
que ocorrem imediatamente depois que. por exemplo. levamos
uma ma.rtclada no dedo (Antc«dentc I no figUJ11), encostamos
a mão na chapa quente do fogão (Antecedente 2). ou pisamos
cm um prego com o pé descalço (Antecedente 3), eventos que
aos fazem sacudir o dedo freneticamente (Conseqüência J ).
meter a mão na água fria (Conscqüêncin 2) ou pular cm wna
perna só enquanto seguramos o pé machucado (Conseqüência
3). Portanlo, o impulso intervém entre os estados de privação
(estúnulos de input) e ações restauradoras direcionadas para uma
meta (respostas de output).
Considere a vanlllgem teórica de se utilizar o impulso como
uma variável intcrvcnieale para conectar os múltiplos inputs
aos múltiplos output.,, 1 Imagine que os três inputs da Figura 4.3
foram muitas hor-.is de privação de alimento, o aroma tentador
de pipoca sendo prcparnda e a presença em uma festa cm que há
com.ida cm cada mesa. Imagine agora que os tres outputs sejam
a quantidade de calorias consu:midas, o tempo decorrido para
começarmos a comer (latência) e a probabilidade de se alimcnw
t•ersus a de jejuar. O cheiro de pipoca e a presença cm uma festa
não causam o comportamento de comer cm cxces.,;o ( quantidade
de calorias consumidas). Somente às vezes comemos cm excesso
ou muito depressa. Nos.<,0 comportamento motivado depende da
intensidade da fome que sentimos (impulso), e não do atração
exercida pela pipoca ou da fácil disponibilidade dn comida. Por
esse motivo, os psicólogos que estudam a moti,,ação concentram•
se nas propriedades motivacionais das variáveis motivacionais
e de centenas de inputs individuais para o impulso (horas de
privação de alimento, cheiro da pipoca, abundância de alimentos
e assim por di:llltc.)
1 A pcrspectiv-.1 de \'anâvd mtcrvcnn,ale mostrada ,u f'1gur., 4.3 aplica-se a todo.,
o.s mau,..,.._ e não só ao impulso. Por exemplo,°' input> e os outputs p:in • nc:cc,,.
sid:>dc de n,nlmiçlo podem ser os d=bm cm afvc,s órimos. o ímdbacl: nip1do
• J rcspoosabtlicbdc pcs.oat por um ddcnn11Udo ~ullJIJo (inpt& mliltipk») e
o persistência dUl!llc do m,ca.sso. a c,colha de empn:cndimcWO$ de d1ficuldadc
mocJcrnda e o cspinto empreendedor (oot,pUJ.s ml1lbplos).
Conchção
AilLeceddl Le 1
Coodiçdo
An1ec..-eden1e 2
Condição
An1cceden1c 3
Con.seqilênda
/ Cóu1porcunental 1
'---•~ Impulso --t- Conscqllê:ncia
Compor1:unencal 2
~ COOS<!(jüênda
Comportamental 3
Figura 4.3 O lmpul~ como Vari~,·el lruen.eniente
Mecanismos Intra-Organísmicos
Os mecanismos intra-organfsmicos incluem LOdos os sistemas
reguladores biológicos da pessoa que atuam em comum acordo
p:ira ativa,-, manter e cessar as necess idades fisiológicas subja•
ceoLes ao impulso. As estruturas cerebrais. o sistema endócrino
e os órgãos do corpo constituem as três principais categorias
de mecanismos intrn-organísmico.~. Pa,-n a fome. os principais
mecanismos intra-organísmicos são o hipotálamo (estrutura cere-
brnl), os hormônios glicose e insulina (sistema endócrino) e o
estômago e o fígado (órgãos do corpo). Juntos. esses mcc-.mismos
corporais 3fetam uns aos outros de modo a explicar os eventos
fisiológicos responsáveis pela criação. pela manutenção e pela
cessação da experiência psicológica do impulso. O estudo dos
mecanismos intra-organísmicos é o estudo do papel desempc•
nhado pelas estruturas ccrcbr.iis, pelos hormônios e pelos órgãos
corporais durante o aumento e a diminuição das necessidades
fisiológicas.
Mecanismos Extra-Organísmicos
Os mccanismose;tttra-organísmicos incluem todas n.<; influências
ambientais que atuam na ativação. na manutenção e na cessação
do impulso psicológico. A.~ principais categorias de mecani~mos
extrn-<>rgaoísmicos s.'io as influências cognitivas, ambientais.
sociais e culturai.i.. Quanto à fome. as influências cxtra-organís•
micas incluem as crenças sobre as calorias e a meta de perder
peso (influências cognitivas}, o aroo1a da comida a UIDJI dada
hora do dia (influência.~ ambientai~). a presença de outras pessoas
e a pressão dos amigos para que comamos ou não (influências
sociais), e os papéis sexuais e ideais cullur.üs relativos aos tipos
desejáveis e indesejáveis de forma física ( iníluêocias culturais).
O estudo dos mccaoi.\.mos extro-organísmicos é o estudo do.~
papéis que as influências cognitivas. ambientais. sociais e cultu-
rais desempenham no aumento e na diminuição das necessidades
fisiológica.~.
SEDE
Nosso corpo é constituído princip-.tlmente -cerca de dois terços
- de água. Quando nosso \'OILUnc de água diminui cerca de 2%.
começamos a sentir seclc. A desidratação ocorre somente depois
Necessidades Fisiológieti 49
que perdemos ccn:a de 3% do nosso volume de água (\Veinbcrg
& Minaker, 1995). A sede é o estado motivacional expcrimen•
tado conscientemente que prepara nosso corpo para executar
comportamentos necessários para reabastecer o déficit de água.
,
E a perda de água, abaixo de um nível homcostático ótimo, que
cria a necessidade fisiológica ~ubjarentc à sede.
A sede surge como uma necessidade fisiológica porque nosso
corpo está continuamente perdendo água por meio da transpi-
ração, da urina. da expiração. e até mesmo do snngramcoto. do
vômito e do espirro (ou seja. inputs múltiplos). Sem a reposição
de /igua, podemos morrer dentro de aproximadamente dois dias.
Se você já passou pela e;ttpcriência de ficar mais de 24 horas sem
beber um gole de água, sabe que o corpo tem mecanismos intra•
organísmicos eficazes para prender completamente sua atenção
e motivar compon.ameotos orientados para a meta de encontrar e
consumir á..,"lla.
Regulação Fisiológica
Dentro do corpo humano. a água é encontrada tanto nos nuidos
intracelularc., quanto nos íluidos extracelularcs. Os íluidos intrn-
cclularc~ consistem cm toda a água contida no interior da.~ células
(aproximadamente 40% do peso corporal). E o Ouido extrnce•
lular consiste em toda a água fora das células. que se encooJ.ra
no plasma sangüíneo e no íluido intersticial (cerca de 20% do
peso corporal).
Se, por um lado. a água continua sendo água independente•
1:ne_ote do local cm que se encootr.i no corpo, essa diferenciação
é importante porque n sede provém dessas duas footcs distintas.
Uma vez que a sede surge tanto a panir dos déficits intracelu-
lares quanto dos déficits extracelulares. os fisiologistas adotam
para a ativação da sede o "modelo da dupla exaustão" (Epstcin.
1973 ). Quando o fluido intracelular necessita de aba.~tecimento
de água. surge a sede os111on1éfrica. E enquaoto a desidratação
celular é a causa da !>ede osmométrica, a hidratação celular faz
essa sede cessar. Por outro lado. quando o fluido cxtrncclular
necessita de abastecimento de água (p. ex .. após sangrameoto
ou vômito) . surge a sede ,,olJ1nrérrica. A hipovolemin (redução
do volume de plasma sangüíneo) provoca a sede volumétrica. e
a bipcrvolcmia a faz cessar.
Ativaç-lo da Sede
Coo.gdcre o estudo padrão da privação de água. Em laboratório.
animais ficam sem receber água. porém não ali mcnto, durante
cen:a de 24 boms (Rolls. \Vood & RoUs. 1980). Após privar
os animais de água. os pesquisadores repõem seletivamenteou
a quantidade de água intracelular ou 11 quantidade extraceJular
(util izando técnicas especiais de infusão). Os procedimentos
adotam três situações: ( 1) privação de água durante 24 hor.is.
seguida de reposição intracelular; (2) privação de água durdllte
24 hor.is, seguida de reposiç..'io extracclular. e (3} privação de
água durante 24 borJS sem reposição (grupo de controle}. A
quantidade de água ingerida pelo.~ animais no terceiro grupo (de
cooirole) serve como uo1 padrão para a sede normal (cuja refe-
réncia é a quantidade de água ingc.rida). Os ratos que receberam
reposição completa de fluidos extracelulares ingeriram apenas
50 Capítulo Quatro
111n pouco n1enos que os ratos que ficaram sen1 reposição. Ou
seja, beberarn corno se ainda estivessern co1n bast:ulle sede . .lá
os ratos que recebenun reposição de fluido intracelul:u- ingerinun
be111 nienos. Ou seja, beberam con10 se já estivessern basica,nente
satisfeitos. Esses resultados sugerem que a sede osrnométrica é
a principal causa da ativação da sede. A sede provém principal-
mente da desidratação das células.
Saciedade da Sede
Quando bebe1nos, não o faze1uos pm·a se1npre. Existe algo que
alerta nosso corpo a parar de beber. O sistema de feedback nega-
tivo é importante porque nosso corpo não só precisa acabm·
com seus déficits de água, mas também impedir que bebamos
água em excesso, o que poderia causar uma disfunção celular
captu.: de pôr em risco a nossa vida. Nesse sentido, animais que
não estão sentindo falta de água não irão querer beber, e, caso
scjan1 forçados a fazê-lo, apenas rnolharão o canto da boca, sen1
engolir o liquido (\Villianis & Teitelbaun1, 1956). Naturahnente,
os seres lnunaoos costu ruam con1eter excessos de bebida, ,nas
esse co1nport:unento é regulado por fatores outros que não a água,
tais co1110 o sabor ou o teor alcoólico do líquido.
Quando bebemos, a água passa da boca para o esôfago, indo
em seguida para o estômago e depois para os intestinos. sendo
então absorv ida na corrente sangüú1ea. Por n,eio do processo de
os1nose, a água tennina por passar dos fluidos extracelulares para
os fluidos intracelulares, para hidratar as células. O n1ecanismo
de feedback negativo para a associação deve, portanto, estar
situado en1 um (ou 1nais) dos seguintes locais do corpo: boca,
estômago, intestinos, corrente sangüínea e células.
Para localizar o mecanismo de feedhack negativo da sede. os
fisiologistas concebera1n uni grande n(unero de cxperi1nentos.
Em um deles, os animais bebiam água, mas os pesquisadores
faziam a água passar pela boca 1nas não alcançar o estômago
(nem os intestinos, nern a corrente sangüínea, nem as células;
Blass & Hall, 1976). En11nédia, os animais bebiain quatro vezes
mais água do que o normal, rnas acabavam parando de beber.
Portanto, o fato de a água passar pela boca fornece um n1eio,
c1nbora fraco, de inibição da sede. Pesquisas feitas posterior-
mente identificaran1 que o sistema específico de cessação da
sede na boca está relacionado corn a quantidade de goles que se
dá durante o ato de beber (Mook & Wagner, "1989). Após um
grande número de goles (mas não necessariainente um grande
volume de água), para-se de beber.
Em estudos subsequentes, houve arranjos em que a água
bebida pelos aniu1ais passava pela boca e ia até o estô1nago.
111as não alcançava os intestinos, nen1 a corrente sangüínea,
nem as células (Hall, 1973). Os animais que receberam água
na boca e no estôn1ago beberrun duas vezes n1ais que o normal.
Portanto, o estômago, assim como a hoca, também é dotado
de u1n n1ccanisn10 de inibição da sede, c1nbora esse 1ncca-
nismo tarnbém seja fraco. Outros estudos ti7.erarn com que a
água bebida pelos animais passasse pefa boca, pelo estômago,
pelos intestinos e para os lluidos ex trace i ui ares (Mook & Ko7.ub,
1968). Entretanto, a água bebida pelos animais era soro fisio-
16gico. A ingestão desse soro lisiol6gico ra:,.;ia com que muita
água se actunulasse nos fluidos extracelulares 1nas pouca água
passase para os fluidos intracelulares. (Segundo o princípio da
os1nose, a água salgada não se difunde para áreas intracelulares.)
Esses anünais bebera1n 1nais que o nonnal. Po1tanto, as próprias
células devem tambén1 abrigar dentro de si um n1ecanismo de
feedback negativo. Po1tanto, o simples consu1no de água não é
suficiente p,u-a aliviar con1pletainente a sede, e o animal só pára
de beber quando finahnentc ocorre u1na hidratação das células
do corpo (Mook, 1996). Vistos como u1n todo, existe1n 111últi-
plos sistemas de feedback negativo para a sede - na boca, no
estôn1ago e nas células.
O Hipotálamo e o Fígado
A boca, o estôn1ago e as células coordena1n a ativação da sede e
a saciedade, poré1n essas atividades são t:unbén1 executadas pelo
fígado, pelo hípotálan10 e pelos honnônios específicos. O cérebro
(através do hipotálaino) 1nonitora o encolhimento intracelular
(causado pelos baixos 1úveis de água) e libera u1n honnônio no
plasma sru1gliíneo que envia tuna n1ensage1n ao fígado, para que
este conserve suas reservas de água (produzindo urna urina 1nais
concentrada, en1 vez de diluída). Ta1nbén1 os rins liber:un água
caso nosso nível de fluidos esteja baixo. Enqu:u1to o hipotá.la1no
administra o con1po1ta1nento involuntário do fígado, ele tainbé1n
cria o estado psicológico consciente de sensação de sede, que
direciona a atenção e o con1po1tau1ento para a realização de ações
que façain o corpo se abastecer de água. É no hipotálaino que a
experiência psicológica da sede se origina, entra na consciência
(ao enviar uma 1nensage1n de alerta para os lobos frontais do
neocórtex) e gera a urgência moti vacional de beber.
Influências Ambientais
Três influências extra-organísmicas no cornportm11ento de beber
são a percepção da disponibilidade de água, a adesão do indi-
víduo a esquemas de consurno ele bebida e o sabor. Ani1nais
que vive111 e1n 11111 a1nbiente en1 que há abundância de água
bebe,n menos ao longo do dia do que ani1nais que vivem e,n
a1nbientes e1n que a água é escassa (Toates, 1979). Assiin, se
você quiser reduzir sua sede, encha a geladeira de bebida; e se
quiser au1nentar sua sede, deixe apenas u1n vidro na geladeira.
Os ruü111ais ta111bém adquire111 e aderen1 firn1e111ente a esquen1as
de consumo de bebida, independentemente de sua necessidade
fisiológica por água (Toates, 1979). Entretanto, a influência
an1biental n1ais ü11po1tante para a bebida é o sabor (Pfaffmann,
1960, 1961, 1982).
E1n estado puro, a água é insípida e, portanto, não oferece
qualquer valor de incentivo que vá alé1n do reabastecimento.
Poré1n, quai1do a água é dotada de sabor, o co1nportan1ento asso-
ciado ao ato de beber 1nuda de acordo co111 o valor de incentivo
da bebida. A Figura 4.4 apresenta os valores de incentivo para
quatro sabores: doce, azedo, salgado e an1argo, representados
para diversas intensidades de estí1nulo. Utilizando a água insí-
pida (en1 estado puro) como lü1ha básica (ausência de au·ativo) ,
qualquer sabor é ligeiran,ente agradável quando apresentado a
tuna intensidade bastante baixa (algo que acontece 111es1110 co1u
o amargo). A intensidades 1nais substanciais, a água co111 sabor
de sacarose (adocicada) é acentuadan1ente 111ais agradável do que
a água se1n sabor. Já a água com ácido tartárico (azeda), a água
+100 Doce
+50 - ....
/ '
I '
I ,,,-, '
I '
I '
/1------.. ' \
() ~'+----l'l---ll""""-""""----------i
I \
I ' ' ' ' ..... .....
",~~º
..... .....
S:tlgado ',
\
\
-100 L ___ ...J~=..:....:~:===:r:::::;;;::~J'
Intensidade do Estím,tlo
Figura 4.4 A Agradabilidade Relativa de Quatro Soluções de Sabores
Fome: extraído de The Pleasures of Se11satio11, de C. Pfoffmann. 1960.
P.,ycho/ogical Review, 67, pr. 253-268. Copyright 1 %0 hy J\merican
Psyrhologic::.aJ Association. R('produ,Gido sub permissão.
salgada e a água cou1 sabor de quinino (a1uarga) são acentuada-
mente mais desagradáveis do que a água sern sabor. Assim, uma
vez que a águacon1 sabor te1n uin valor de incentivo, as pessoas
1cndc1n 11 beber mai, ;1gun adocíc:idn. a beber a 1íg11u insípida com
o propósito de suprir ~uas nccl!l>s idudcs ho1ncosulllca~ eu beber
menos ógtm de ~bor azedo. snlgndo ou nmnrgo.1
Ou111J inlluencia exlrJ-orgm1/.s1nica sobre o con1por1ame1110
de beber i! a pn:i.crí~'Íio oul1uraJ de tomar oi to copos de tlyuu por
dia. Entretanto. nüo cm~tcm evidêndn.~ cient(ficas que apóiem
e.~sa sugcsüío (Vnllin, 2(l02). cm grnndc parte porque u tfpicn
dieta de 2.000 CllloritlS j11 con1é1n o equivul.:nu: u nuv.: cupo~ de
tlgun ,,voods, Bell & Thorwnn, 1999).
Quando fu1on:s cou,o o subor adocícadtl dn águu repl'e-
.~enuun utn in.:entlvo i.igniftcativo pürJ beber. os ~.:re~ lnununus
cosru,nnm f:1zõ-lo em e,:c~. 11s v.ezes con~urnindo qunnticbdcs
pcrigosm.tJeole ele,•11dus (em termos biológicos) de líquido 1Rolls,
Wood & Rolh, 1980). FrcqOc11t0mentil "-~ p.:.'ISou:, c1Jnsgmem
rcfrigcn111tt:'i e chá~ :1pc1111s pelo go-.10 dc'!Sa-. bcbidn~. E qunnto
fls bobidri.s cuju base é u ág_uu e <JUC co11tf:n1 ilcool ou cafe(na.
podem su11,,-ir complic11çõe5 n:lncignndru. 11 ndicçiio. Por1un10.
L,11110 o álcool quunto n cnfcín:1 ín1rodu1.c1n diversos prncr:s.'iO.s
fi.síulóglco.s udiciunnl.\ ,1uc rnotlvum ns pcsso:LS a bcberc.m cm
exccw,. ,\ lém disso, exíSlcm cm torno dns bebidas nlcoólicns
:A rclação entro ![(l'lto o comporu,mmtlo do bebt-r é C'ómplleatb pelo titio de que
• prh,içlio de dJ:llll OÍCID ~ ~pçúo d~ s,ibt:,r, A ~j!IUI vai <é lc,rollll® hedool-
CIUUCOI~ lrnlll' J}P~lll\'ll ,m~ls ""31Ulp<'O<lló!wu) ~t)IQ O u11mcmo du pn,açiio, C
1amlx!a1 ,,,,i ""utt11:111dn hc:dl1tuC!llt1<11tc m;ils 5-.:«lva com ft 1i,c:lcd;.1Llc (llecL.
11171); \\'ilhmn< &. Tc,U!ib.:ouu,, 11150)
Necessidades Fisiológicas 51
e cafeinadas algun1as influências sociais e culturais que tornain
o comportamento de beber mais co1nplexo do que o simples
consumo de água para regular a sede. Por exemplo. há estudantes
universitários que costuinarn consumir bebidas alcoólicas e,n
uma quan tidade i1npressionanterr1ente elevada. E certas drogas
(p. ex., o ecstasy) tambétn podem fazer as pessoas experimen-
tarc1n unia sede intensa, levando-as a beber 1uuito alén1 de suas
necessidades fisiológicas, podendo 111es1no chegar a intoxicação
por água e morte (Vallio. 2002). Portanto, o alo de beber ocorre
por três motivos: a reposição de água, que satisfaz às necessi-
dades fis iológicas, o gosto adocicado; e adicção a utna substância
contida na água (a não à água e1u si).
FOME
A fome é u1n motivo mais co1nplexo do que a sede. A perda de
água instiga a sede, e a reposição de água a sacia. Por essa linba,
poderíamos pensar que a fome simplesmente envolveria o ciclo
de falta e reposição de ali1uento. Entretanto, apenas de n1aneira
aproxünada o 1n odelo "falta-reposição" é aplicável quando
lratarnos da fome. Co1n efeito, a privação de al imentos ativa a
forne e o alo de comer (ou seja, as pessoas comem três vezes por
dia para evitar a privação de alimento). No entanto, a regulação
da fome envolve 1.anto processos diários a curto prazo que operam
sob a regulação horneostática (p. ex., a privação e a reposição de
calorias e de glicose no sangue) quanto processos a longo prazo
que opera1n obedecendo à regulação n1etabólica e às condições de
armaienamento de energia (p. ex., as células adiposas). A rorr1e
e o ato de corner são também afetados, e de maneira substancial,
por influências cognitivas, sociais e :uubientais, de n1odo que,
p:ira se compreender o fome e o nto de comer, é preciso que se
ttdolt!m'. t l ) tnodolo~ fisiológicos de curto prnzo: (2) rnodcl0s
lí~ólóg:ico~ de lon11u pmm: e f]) modelo ... qtic lc\'cm em conu1
nspcclo~ cnrnitlvos, sociais e nmbicntals (Wci:ng:nr1 cn. 19851,
1-lá dois n1odelo$ de grande impol'IJlncin pnm os pcsquisn-
dorc:b dn fornc. O primeiro~ urn 1nudclo do curto pn1w, no qu:il
a energia irncdintamenlc disponível (glirosc no Sllllguc) está
sendo c;on!>1t1J11.emc:1uc 1no-oltor.1du. Estu é a hi p6ti:i.c: gli1;:0stnúc<1,
b:tsll!nte cflcicnlc pura dctcm1lnuro inicio e o lénnlno da íotné e
do :uu de comer. O segundo n-1odelu i: de longo pra7.o., no qual a
energia t11Tl1i11~nad11 (gntndc quuntícllldc de gordUm} cs1n di~po-
nh,cl e é urilízndo como um rccuri;o para suplcmcntnr n rcj!lll:l{ilo
d:1 cncrgin nw11iton1drt pelo nível de gl i,'liso. l'i~lc é o 1nodclo
lipo!iu'trico. b:i.'ilamc cficíenlc 0 111 n10.~llnr corno os acúinulos de
gorduca co 1.1uibuem com um segundo n(vel de co111plexld1tdc
paru a co111prccnsilo da íomu u do uto de con1or.
Apetite de Cnrto Prazo
As pis1ns de rome de cuno prnio rcgulnm o início do mo de
con1cr, a quantidndc que se come nas lllfoiçõcs e 1tm1bém o seu
término. Segundo 11 hipót.cse ,;tl.lt.:0:,túllc11. o?> ni,·cis de uçucar
no i,angue silo de i1nporulnci:1 fu ndamcnwl pura u ocorrência du
fume-quandu D n.ível deglicu~ecru, ns pesi.oru; !loe11t.:~1n l'orne
e <1uc:rcm comer (C'llmpficld ct til., 19%: r.1,1yer, 19.52.19531,
A~ células requerem glicose para pnxluz:ir energia. de 11JJ1I1cirn
que.depois de u~ilizá-ln para cxccuU1r\11nB funçõe,,. experlmcmom
52 Capítulo Quatro
u111 au1nento de necessidade fisiológica por 1nais glicose. 3 O
órgão do corpo que monitora o ai vel de glicose 110 sangue é o
fígado, e quando o nível de glicose sangüínea está baixo. o fígado
envia um sinal excitatório para o hipotálarno lateral (HL), que
é o centro no cérebro responsável pela geração da experiência
psicológica da fome (Anand, Chhina & Singh, 1962; Wyrwicka,
1988). A esti1nulação do HL é i1nportantc, porque leva os anitnais
a co111er en1 excesso e, caso a estünulação seja contínua, leva-os
à obesidade (Elmquist, Elias & Saper, 1999).
A estruLura do cérebro envolvida no término da refeição é o
hipotálamo ventro1nedial (HVM). Quando esti1nulado, o HV M
atua co1no o centro de saciedade do cérebro - ou seja, o HVM é
o sisten1a de feedback negativo do apetite de curto praro (Miller.
1960). Sen1 o HVM. o~ nní,nnis se 1omnri111n comilõe$ crê>nico.r;.
c,tp;w:b de duplicur .~cu peso corpor.il (Slcvcnson. 1969). A
1naneirn pela qual o H Vl\11 fica eslimuludo en1 prirneiro lugar é
pela det(l('.çl\o por 1>1U1e do fi~11do de níveis elev11doi; de glicose
(Russek, 1971: Schmitt, 1973), r.U~tcttSõcs t:stonmcais (e!>lÔ•
nmgo ln1un-1escido) durttnle u uto de corn.:r (fvlortm, 2000). e u
lfbcmçõo ele oolecÍ!\locininn. um peptfdeo no !\istcma cligc!\lr\'O
(CCK: \Vood.~. Sccley. Porte & Schwnnz. 191JS).
Segundou hlpótc.'iC glic051titicn. o 111,clitc :mmcnlu e diminui
cm resposta tL'i alll!rttçõe.~ na glicose do plt1Sma. que esün1ulam
o HL a aumentar 1tfome e ~ÚJ1tt1lil1ll o U\tM o dlm.inuí-la.
Portanto, bLtixo~ nlvcis de glicose uth·wn o HL com um sinal de
fom.:, 110 passo que alto~ níveis de glico1;e ativa111 o HVl\.1 curn
um ~inul de r~-.idbad, negativo. OUtrt)!; mcc11nismO!i in1rn-argnnfi,-
111icos também regulam o numlllllO e n di111inuiçful dn fome. Por
exemplo, o 11 L contéln nenrõnl aR c~pecin li1.11cloi- que rei,pondem
à visão e ao gosto d11 cornida, e esses ncun.inirn; cspcci11li1.ndos
tornmn-se n1h•ados somente quundo o :mimai já se cncomra com
certu fome (RoUs. Snnyhcru & Ropcr-Hull. l 97~). Os hormô-
nio~ também csumulrun o HL e o HVt-1. con10 di~cuúinos 1lll
históri.1 d,;: ab<:r1um do Capítulo 3. qllllndo di~-...:n11>,, que li grclinn
do plasmo ei,timuln o HL (e o íome). no passo que n leptinn do
pln.<,mn c.~1imul11 o 11 V~1I (e n saciedndel. Por exemplo, o lop1ina é
o honnónio sccn:tado p;1rn o 1mnguc pclus célula.,; adi1>0sns. com
o propósho de produ1jr a !illdcdnde (Cmnpfield. S1nilh & Bum.
19%. 1997b: Spicgd111a11 & Flícr.2001 ). O I IL 1a111bérn produz
peplltfeos capuzes tfe aumcaw.r o apetite. chumados oreitlnns
(1cnuo derivado du paluv,rJ grega que significa n~tite: Sakur.1i
et oi., 1998). As orcxinn.\ silo poderosoi, ,1g.:n1c~ c~timuludon:~
do npclile. e quando injelndn.~ no cárcbro de rntoi; íazcm C$SC.~
nnl1nais comcren1 lrés a S-Oili vezes mais quoos ratos do gnipo
de contrtJlc.
Achndos con10 cssos. fcitos corri n grelinu e 11.~ ore.~inas.
.wo bnstrune exciUJn1.c.:s p1tr"J os pcsqu1sado.r~ fnnn11c€uticos
que tl!ntarn encunu-.ir rntu1eirt1.~ dc c!ttil)IUlilr u Up,!ti te ern ~ere,
JQ nf\el d< l)fll!...e no~ª"!!"" nl'lol uplii-:i •'C•lljllé!~llll!l1te ll iltfi::i-o d~ fome.. ron-
Ítumc ;,e ,,e ooo dwbc!t1có>, <111• f.miU<ttit.m,cote têm um lilto nfV\!l de Jtll<O>c: oo
-sal!Jl!J'I! IIQ> toonbo!n, ""'1lem multa fome. PoMii. erobor:i"" dillbah,;:,,. a~•.,,~
um clo,,100 ní, oi de ;111."0.K' no sartf!OO. o que eles pn-cis.,m lc nAo tém 1 ~ de um
alto ~í,cl de gllc<'l$C ec,lolor. O,. diobé1ic,~ ,ieees,Ji,µn de in•ulfM (l,onnón"' que
ck:• lém cm l""lc• q11A11lidlldc) p(lflli.< 11 iawliM aurn<:tml a pcrtrn:~b,hd:l!k li•
meml-tWU1 atul11r, de 111.1ocm1 qu,: a ~Jim-;o pn;k h•rcnic;ue Ouh· du cont:111~
••11~uí11e1 fl""' clc111ru dis, cêlul;i, iSc:llwi1r11 ti ui, 2(Kl()J. l't111llnl<•, 101 ~""11;•
d;i lrmthna. a j!.llc<M "1TIErlínL'l1 p,_,clc ~ 1nmar iih1.,»<: wlul~r.
htunanos, co1no ocorre co1n os pacientes de quinúoterapia
(vVoods et ai., 1998). E os achados co1n a leptina são ainda 1nais
estitnulantes para a pesquisa far111acológica, en1 sua tentativa de
encontrar rneios de dirninuir o apetite ern hun1anos, tal como
ocorre corri indivíduos que lutam contra a obesidade (Carnpíield,
Smith & Bum, 1998).
O apetite tan1bém aumenta e diminui em resposta a sugestões
não-baseadas no cérebro, tuna vez que a fo1ne surge tanto de
pistas corporais cerebrais quanto de pistas periféricas (não-cere-
brais). Essas pistas corporais periféricas incluen1 a boca (Cabanac
& Duclaux, 1970), as distensões estornacais (Deut~ch, Young
& Kalogeris, 1978; McHugh & rvioran, 1985), e a ternperatura
co~rol (Broheck. 1060). (U1110 vez que boi~os rcmperatums
e:.1imulu1n u íome, I! cosnunc no~ l'Clilllurnme, o~ nP3rolhos de ar-
1;ondicion11do cstnretn ligados no 11uíxi1110.) O princip11l rcguladur
ulio-ce rebra.l du fome é o e1n611111go. fuu: St! ei. \'112.i.l u uma UtXtl
con.<;tante de culorius (cerc,t de 21 O rulori,l~ por ht>rn), d.: modo
que o apetite rctun1t1 n111i~ nípiclo 11pó.~ 1111lll rcíciçílo com pouc11s
cnlorins do que npós umo rcJciçllo com mnitns calorin~ (Mel lugh
& M orun , 1985). Estando de cst.õmago cheio, 11.~ pessoa~ rela1an1
não :.entir íc,111e. Com o ~1õ1nugo 60%, \'u:tio. n:la111m ~cntlr u111u
ligdr-.t ft>me; e COTll ll est6nll1go 90% va1.iu, relt1lllill é.<tltlr Ctllll
fome mú..,ima. embora 11indo hojn algum alimenlo no c~õmngo
tScpple & Reacl, 1989).~
Et1uilibrio de Encrgiu de. Longo Prazo
1-\ Jí3in1 corno II glíro~c. n gordun1 (1ccido ndip<l\OI também proclut.
c.nergin. e do lllClilTIII mnncim que monitora sim.~ nfvds de glicose
de modo preciso. o corpo tnmbérn rnoni10111 con1 bastante pn:cis.io
)Uru. células adipo~us (Fau:,1. Johwon & Hirsch, 1977u, 1977b).
Segundo tl hipótc.c lipostática (lípo = gorcluru~o:csuiúcu = equi-
líbrio), qunndo n q1tnntidildl: de gôrdunr 11rm.n;-.cm1d11 li~ rtbaixo
de1,e11 equilíbrio homcostátlco, o recido adípom ~cci-em hom1õ-
nios (p. ex .. gn:li1111) pnn1 n con,:nu: -.nngilínca a li1n de prnnKH't:r
1uotiv11çllo pura ga11ho de p~o. o (jue au1.nr:nu1 o consurr10 de
alir11.:1110 (Boreckí et ai., 1995; Curnminits et ai., 2002; \Vre11 eL
u.l .. 2001). AllcmutiV1.11ncnlc, quando n quuntidudc de gonlurn
annn1.cnad11 n11me.n111 ncln1n de seu equilíbrio ho1neos1r'.i1ico. ()
tecido ndipos.o secrctn honnõnios (p. a .. leptina) p:1ra a corrente
JilUll!ilfnea a üm de reduár o consumo l.le alluk!nLo e promovc:r
rnotlv11.çuo ele perdu da ~,o I Hurvey & A)hford, 1003: Schwnro.
&.Seclcy. J 997), Umn vez que ns rci.crvn.~ de gordtrrn são fontes
de energia rclativruncnre estilvol~ e ch1radoura,. a hipótese lifl():r
11i1ic11 ilusLnl o sis1!!1n11 nt"uro-hor11101111I nec~sstirio pan1 ncutr.1-
llzar, ctnn buse no~ 11.ívcls sru1gOC11.cos de glico~e, o ttue scri:un
nuwuçõe!I dc cuno priuo riu equilíbrio de energia,
Uma. derivação da hipótese liposlárica é a 1corlo cio sct•poinl
(KC'---sey. 19110: Kccscy ct :1I .. 1976: Kccsr.:y & Powloy. 1975:
'llrots:b,: C"'°t ttlkt 1 1980) L'tllt.12l::U'i211l fldildilv111111llC que C> d.lllill:tgu .<Ín»Üh1
11no"6 lnfctrn111~õc. n:ífflll'lh.~ "'' -.,1 umo 11c ahmc,uu, m:i, 101111,ê,n 111, «rnl~'lld,,,
Es5õ dt,i.< pcsquliadore:s romo>wam nottienrtt c.pccJ.fico. da dle10 de flllimm~
e cOA>UJmra,m que,, onim,il íl.'<põndlo lngcdndo nli01t111os qw C<lnrinfi:u.u ei...e.
IIUl,,.,nl~ CllpclâÍr.:tl~ e C«.-"\IWndo ~1 i lll<'IIW\ qur noo m ""llli nh,,m. Pl.'llllmu. n
c.~ulftlll!lO munÍl(lf'J Jlllllll o Vülum~ 11ua1110 n c:ua1i:lldn da< alt111~nio,, r volumo
e et!Cllct'l~n n,;ul~m • fome e "'" ,:oc, .. l.,de.
Powlcy & Kcescy. 1970). A teoria do sct-poinl sustenta que cada
indivíduo tem um peso corporal biologicamente determinado,
algo como um utcrmostnto de gordura" geneticamente cstnbe-
lecido ao nascimento ou pouco depois. A genética cria as dife-
renças individuai~ nos números de célula~ adi posas que cada
pessoa tem. Na teoria do sct-poinL a ativação da fome e a sacie-
dade dependem do tamanho (e não do número) da.~ nossas célul~
adiposas, que podem v-.uiar com o tempo. Q uando o tamanho das
células adiposa~ é reduzido (p. ex~ por meio de dieta) . a fome
.surge e persiste até que o comportamento de alimcnlJ!Çiio possibi-
lita que as células adiposas retornem a seu tamanho natural (sei•
poinl). Portanto. a fome é o meio pelo qual o corpo defende ~eu
sc1-point genético (BcnncU. 1995: Roscnbnum ct ai .. 1997).
A hipótese liposlátic-a exprime os fatores pennanenles e de
longo prazo (p. ex._. a genética e as l3Jta.s metabólicas) que regulam
o equilíbrio entre ingestão de alimento, ga~to de encrgi11 e peso
corporal Quanto à genética, as pessoas herdam taxas metabólicas
(processos bioquímicos que convertem a energia arm37.cnad a
cm energ ia con~1Jmível) re lativamente consistentes. As pessoas
também herdam células adiposas e um sct-poinl homeosliLico
que determinam quanto de extensão (preenchimento) apropriada
terão essas c€lula~. Apesar de serem relati vamcnlc conslllntcs ao
longo do tempo, esses processos reguladores podem mudar. e de
fato mudam. O set-point aumenta com a idade, o metabolismo
diminui após uma restrição calórica prolong:ida (por exemplo,
durante uma dieta) e um consumo excessivo de alimentos pode
levar a um aumento tanto do tamanllo cl3!> cclul11S adiposas (lipo,
gênese) quanto do número dessas células (adipogêncsc) (Kn...sircr
& Angcll. 1998: Keesey. 1989: Manclrup & Lane. 1997).
Um modelo abrangente que combina influências de curto e
de longo prazos sobre o apetite aparece na Figura 4.5. As dua~
linhas verticais contínuas representam a hlpótcse glicostática
do :ipctitc de c urto prazo. cm que :i fome moti va a ingestão de
Necessidades Fisiológieti 53
alimentos. ao passo que a ingestão de alimentos s acia a fo me. O
retângulo irnediarnme.nte :icima do consumo de energia ilustra
que, além da fome, influências ambientais c~timulam a ingestão
de alimento. Uma vez ingerido. o alimento é usado ou como
energia a ser gasta durante a a tividade fL~ica (Fome-> Gm.to de
Energia) ou armazenado no tecido adiposo como gordura (Fome
-> Depósitos de Gordura). A linll:i pontilhada representa a llipó-
tcsc lipostátic:i do apetite a longo prazo. cm que a existência
de grandes reservas de gordura sacia a fome e a exis tência de
pequenas reservas de gordura e xcita a fome .
Influências Ambientais
A.s influências ambientais que afetam o comportamento de comer
incluem a hora do dia, o estresse. e a visão. o cheiro. a :ip:iréncia
e o sabor da comida. Por exemplo. o componumento de comer
aumenta s ignificativamente quando um indivíduo se depara com
uma grande v:iriedadc de alimentos. de nutrientes e de sabores
(Rolls. 1979: Rolls. Ro\\'e & Rolls. 1982). A simples disponibi -
lidade de alimentos variados estimula o apetite mlli..~ do que f:lria
uma dieta monótona (Sclafani & Springer, 1976). Quando o indi•víduo dispõe apenas de um único tipo de comida (p. ex_, sorve te),
a existência de diversos sabores disponíveis aumenta a in gcslâo de
alimento (Bcauy. 1982). A disponibilidade de :ilimcntos (p. ex __
cm lllllll festa, cm que há grande v:lricdadc de comida sobre as
mesas) e sua abundância também são fatores que levam as pessoas
a comerem cm e.'lccsso (Hill & Peters. 1998). Por c.'lcmplo. quanto
à di~ponibi lidadc de alimento. as pesso:l.~ fic3111 mordiscando aqui
e ali. quando uma quantidade de dierentcs aJimentos está à mesa
em uma festa. Cada novo alimento trJZ um novo sabor, e pode
iniciar o alo de comer de uma maneiro que independe da fome. E,
quanto à abundância. as pessoa~ comem mais quando as porções
são enormes do que qu:rndo não são.
lnfluências Ambienuis
• Prh-;içl'>o de 111,mm,o (dlcll)
• Aprcsc:ouçio do lllln1cn10
• \'arlcd;idc d o aUmcnto
• Prcssõcs .'iltuaclon:ilii
Alll<Hlé-gubçâo • Consumo de Energia Mocnsiçio (calorias)
"
M otJ,11çào par., o Excrcic10
t ,,
Gasto de Fome Rue.v.as d e Energia , • Gordura ' (Apc,litr) •
(Ati,idack f'15ica) (Peso Corpornl)
+
1 _ - - - - - - - - - - - - _ _ ,
Flgura 4.5 Modelo Geral da Regulação da Fome
54 Capíu1Jo Quatro
Tnbela -tl lngest11o de Son·ete (em Grania~). para Estudantes
Sozinho, 1•-,n'u.r Estudantes em Grupo, e para Um SJlbor
,-,,nus Tres Sabol'l!s
Siruação social
Homen.~
Mulh=,
Sozinho
Nl1mero de .abw'IIS
1
113,8
76.9
3
211.1
137,7
Grupo de três pessoas
N únllltO de sabores
1
245.6
128.5
3
215.6
170.8
F Ollll': cxlBldo de Souory and Social lt,jlUhlttS on rc, e,,,,,., e OM1J111pti1N1 l1y
Ma/-, and Ftmalts in 11 L.ab,,ro1ory S,,uing. de S. L. Bcny. \V. W. Bcatty e R.
e. Klcsgcs., 1985. Af'P6U<'. 6. PP· 41-15.
Comer é. com freqüência. uma ocasião social. As pessoas
comem mais quando estão na presença de outras (que lambém
estão comendo) do que quando cstlio sozinha.~ (Bcny, BC:lll)' &
Klesgcs. 1985: deCaslrO & Bre\vcr. 1991 ). Pessoas que estão
lenl.3ndo fazer die ta lêm maior probabilidade de abandonar o
regime quando estão na presença de outras pessoas que estão
co1ncndo (Grilo. Shiffman & Wing, 1989). Uma demonstração
desse efeito de facilitação soe-ia! envolveu um experimento de
deguslllç-:io de sorvc1es por univcr.;itários. Metade dos csludantcs
comeu sozinha, enquanto a outro metade comeu cm grupos de
três. Aos estudantes eram oferecidos sorvetes de apenas um
sabor. ou então lhes era dada a possibilidade de escolher entre
três sabores (ou seja, eles podiam manipular a variedade). A
Tabela 4.1 apresenta os resultados: tanto os homens quanto as
mulheres comeram llllÚS na pR-scnça de outr.i.s pessoas do que
quando lhes cr.i oferecida a variedade de sabores.
Outra influência ambiental sobre o 001nporlllmcnto alimcnmr
é a pressão situa:cional para comer ou fazer d ieta. Por exemplo.
comer em excesso é um padrJo comportamental adquirido sob
um subsl.3ncial controle soc-ial (Crandal 1. 1988). Freqüentemente
esse tipo de comportamenlo ocorre cm pequenos grupos. tal como
em equipes de atletas (Crago ct ai.. 1985) e de chefe.~ de to rcida
(Squire. 1983), em pane porque os pequenos grupos criam e
impõem normas sobre o que é um comportamento adequado.
O desvio dessas normas geralmente resulta em algum tipo de
rejeição interpessoal e cm diminuição de popularidade. Se comer
é um comportamento importante para o grupo. então a pressão
do grupo pode se tornar um motivo para comer ainda mais pode-
roso do que a própria fisiologia da pessoa. Comer lllmbém é um
comportamento importanLC na vida das crianças, e as crianças
preferem os mesmos alimentos consumidos pelas pessoas que
ela.~ admiram (Bireli & Fisher. 1996).
Situações d e Rl.'!.1.rição-Llberaçilo
De maneira bastante semclhaole ao fato de que as pressões .sociais
podem interferir na regulação fisiológica e mesmo anulá-la.
também a dieta é capaz de interferir nos guias fisiológicos e
anulá-los. Ao fazer dieta. a pe.'i.SOa tenta trazer o comportamento
alimentar para o controle cognitivo. tirando-o do coa t.role fisioló-
gico (dizendo. p. ex., "'dessa vez vou comer somente esta quan-
tidade", em vez de dizer "vou comer !sempre que tiver fome").
Entretanto. paradoulmcnte. e com um:i boa freqüência, a dieta
acaba fazendo com que a pessoa cometa excessos alimentares
s ubseqüentes. Quem faz dieta toma•se cada vez mais SU5CCtÍvcl
à desiníbição (ou "liberação da restrição"). especialmenle em
condições de ansiedade. estresse. consumo alco61ico. depressão
ou exposição a alimentos de al to teor calórico (Grecno & \.Ving.
199-1: Polivy & Herman. 1983. 1985). Por exemplo. um estudo
constatou que, como seria de se esperar. pessoas que faziam dieta
tomavam rneno.~ sorvete do que a., pessoas que não estavam de
dieta: porém. se antes fosse dado a todos um 111ilbhake de quase
meio litro, aqueles que estavam de díela acabavam totnando mili
sorvete do que os que não estavam. As pessoas que fazem dieta,
depois de ingerirem um alimento com alto teor calórico. lornam-
se progressivamente mnis vulneráveis a cometer CJtccssos alimen-
tares (Herman, Polivy & Esses, 1987). Esse fenômeno, conhe-
cido como liberação drt restrição. corresponde a um padrão de
cometimento de excessos denominado contra- regulação (Polivy
& Herman. 1985). Par.i quem faz dieta, é verdadeiro o lema de
cautela: "É impossÍ\'el comer um só".
A cont.m-regulaçiio descreve o padrão paradollnl apresen-
tado pelas pessoas que fazem dielll e que comem pouquíssimo
quando beliscam, mas que se empanturram depois de consumir
uma grande quantidade de "aperitivos" de alto teor calórico
(Herman & Mack. 1975: Polivy. 1976; Rudennan & Wilson.
1979; Spencer & Frcmouw. 1979: Woody ct ai., 1981 ). Porém,
consumir alimentos de alto teor calórico é apc.llllS uma das
diversas condições que podem desencadear excessos alimen-
tares cometidos por quem faz dieta. A depressão rambém pode
desencadear a liberação da restrição. Por exemplo, pessoas em
dieta que estão deprimidas geralmente engordam. ao passo que
pessoa., que não estão cm dieta ma.~ que também estão deprimidas
costumam emagrecer (Polivy & Herman. 1976a). O mesmo
padrão se observa em relação à ansiedade. na mcclida em que os
indivíduos que fazem dicla e que estão ansiosos comem mais
do que aqueles que também estão ansiosos mas não fazem dielll
(Baucom & Aikcn, 1981 ). As condições que ameaçam o ego da
pessoa (p. ex .. fracassar em lllDll tarefa fácil ou falar diante de
uma banca examinador.i) produzem esse mesmo efeito paradoltal
de fazer as pessoas sob restrição alimentar comerem mais do que
aquelas que não estão sob essa restrição (Hcathcrton, Herman
& Polivy, 1991 ). O álcool tem o mesmo efeito de liberação da
restrição sobre as pessoas que fazem dieta (Polivy & Herman.
1976b). Vistas como um todo. us pesquisas sobre a facilitação,
a pressão social e a liberação da m.trição documentam que o
comportamento alimentar pode se afa.~tar da regulação fisioló-
gica rumo a algum tipo de regulação não-fisiológica eontrapro-
duliva. tal como regulação social, cognitiva ou emocional (Polivy
& Herman, 1985).
Estilo de Comer Regulado Cognitivamente
Como foi ilustrado pelas hipóteses glicosuíticas e lipostáticas, o
corpo de.fende o peso que tem. Entretanto. às ve.ze~. as pessoas
chegam à conclusão de que seu peso corporal fisiologicamente
regulado não está bem de acordo com suas aspiraçôes peMoais
ou culturais. Como se íossc um tipo de guerra civil. a.~ pessoas
decidem que é horJ de sua mente. ou sua vontade. começar
uma rc\'olução que a.-.suma e institua uma nova regulação parn
o peso corporal. A revolta começa quando os controles cogni-
li vo.~ tentam anular os conlroks fL~iológicos. O sucesso de uma
dieta (cm termos de alcançar a meta de penlcr peso) requer que
o inclivíduo que está c:m dieta primeiro consiga cnfr.iqueccr seu
modo de responder a pistas internas (p. ex .. as sens.açõcs de fome
e de satisfação alimentar) e.cm segundo lugar. consiga substituir
os controles fisiológicos inconscientes pelos controles cognitivos
consciente.\ (Heathcrton. Polivy & Herman. 1989). EntreLnnto,
o grande problema é que os controles cognitivos não têm um
sistema de fecdback ncga1h•o. Em função disso. quem faz dieta
encontra-se altamente vulnerável a cometer excessos alimentares
quando eventos sit!lllcionais interferem nas inibições cognitivas
(p. ex.. a presença de outrJS pes.soos. depre.'iSào. ansiedade. álcool
e ingestão de aperitivos cnlóricos).
Ganho de Peso e Obesidade
Obesidade é um Lermo médico que descreve um estado de :iumenlo
do peso corporal ( de tecido adiposo), que adquire uma magnitude
suficiente par.1 produzir conseqüências adversas para a saúde.
incluindo um aumento do risco de doença.~ cardíacas. diabetes,
problemas respiratórios. alguns tipos de c".incer e morte prcma-
rura (Stevens et al, 1998). Nos Est:idos Unidos. nada menos que
65% dos adultos encontram-se acima do peso. e 35% de todos os
adultos podem ser cla.~sificados como obesos ou morbidarneatc
obesos (Ynnovsky & Ynnovsk-y. 2002). Infelizmente, há pouca
ou nenhuma pesquisa SU!ltcntando a afirmativa de que a perda de
peso tr.iz benefícios 1'l saúde (Blnckbum. 1995). ao passo que a
cura da obesidade (ou seja, a perda de peso) pode muitas vezes ser
pior que o problema original (Kassircr & Angcll. 1998). Portanto.
em vez de se concentrar em incentivar à perda de peso, a maioria
dos pesquisadores da obesidade enfatiza a prevenção (freqüen-
Necessidades Fisiológieti 55
temente os adultos nn faixa dos 20 e 30 anos experimentam um
acentuado ganho de peso) e o cultivo de um estilo de vida mais
saudá\·cl. centrado no exercício físico (veja o Boxe 4).
A Figura 4.5 apresentou um modelo bem abrangente de
consumo e gasto de cne,giu. Es.<>a figura também pode ser usada
para mostrar que o controle do ~o é uma função do cquihôrio
(ou do dcscquil.Jôrio) da razão entre "consumo de alimento" e
"gasto de energia" . Se as pessoas ingerem mais energia (comem
mais) do que gas1nm por meio de atividades física .. , elas irão
engordar. e se as pessoas gastam mais calorias (pralican, mais
atividade ffsicn) do que consomem (ingestão de alimento). elas
irão emagrecer. Além da cirurgia (veja Cummings et aL. 2001).
as duas únicas maneiras pelas quais as pessoas podem prevenir ou
inverter o g-,mho de peso e a obesidade são diminuir a alimentação
até se chegar ao ponto de consumir menos caloria.~ do que se gasta
durante a atividade ffsica (p. ex., a motivação de auto-regulação
na Figura 4.5) ou aumentar a atividade física até chegar a um
ponto de gastar mais calorias do que se consome (p. ex .• a moti•
vação de exercício na Figura 4.5) . E.,;sas duas motivações estão
discutidas no Boxe 4. e também cm capítulos posteriores deste
livro. Ambas essas motivações - auto-regulação da ingestão
de alimento e motivação para se exercitar- são importantes de
serem mencionadas aqui , porque comer e cxercilllr-se envolvem
comportamentos voluntários, cm vez de processos reguladores
fisiológicos. Os processos regulatórios f1Siológicos (como já
descrevemos) afetam a motiv:içào da fome. e a moti\'ação da fome
é notoriamente difícil de ser controlada conscicnlcmcntc ( veja a
seção sobre a Liberação da Rcstriç,~o ). A nbscrvaç-Jo otimi.'>tn a ser
feita aqui é que os comportamentos voluntários, como a prática de
exercício ff.'>iCO, não são difíceis de serem controlad05 conscien-
temente. Assim. motivar a si mesmo para regular o peso corporal
pode ser uma ação eficaz na medida cm que a pcs.~ coacentr,1
sua motivação para energizar e direcionar seus comportamentos
voluntários. como a prátic-,1 de exercício físico.
B<>XE ..i Terapia da Obesidade: Rever1e1uio o Fracasso da Awo-Regulação
Perg11111a. Por que es.~a mfocmaçào é impor1ante?
R..sprura: Porque-0 írnca~o da amo-regulaçàoé responsá~el por
uu\3 epjden1ia nacional tle obesidade.
O p<.'SO corporol e a obesltlade 11!,sen-.elham-,e b:i!.1:u11e ao cluna:
todo n1wtdo o co,nenm. einbora mlo pareça haver ,uu,to o que ;,e
possa fazer sobre ele.11as unia rnz/lo pela qual as pesso3s 1an10 falam
~ obesidade é slmple>.11ien1e o f:uo de que e,,ta ~ tomou nada
menos que uma epidemia no,; E,1~ Urudo.. ame:içondo tornar-
.e uuubém uma epidemia gJoba.l (OMS. 1998). Entre os adultos
aorte,americanos. dois terços estão .1t.'i1na do pe,o noanal (Hill &
Pecer,, 1998). Portamo. a mworla tlo~ norte-(UJlerit3JlOS étJCÚIIIJ'3•.e
ad,ua do pe.-.o - e. ainda que nJlo sejam nece,!>arlrunente obesos.
e,tao chegando peno db..~. Essa tendência parece vir se ncelerando
a c:kb ano q1.1e pa..,.a. Alllo.lrnente. 35% da populoçiro norte-ameri-
cana silo obesos. em comp;u,iç-Jocom 33c:l em 1997. 23<{ em 1995.
l5'l em 1980.14% en1 1974 e L3'! em 1962 (Taubes. J 998). Como
pod.,,nOl. \'Cr. as uxa, de obesidude vêm cre,-~ rapidamente
(Fl.!gel et ai.. 1998).
Esses nllmeros baseiam-se na medida do índice de ma,.sa corporal
(IMC). qu.= é calculado dividindo-se o peso da pes.~oa e,n quilos por
sua altura medida em metros e elevada ao quadrlldo. Um CMC entre
18 e 25 é nonual: >I'! forsuper,or o 25. u1dica que a pesSCJG enconua-~e
:u,,"Jma tlo peSó. e ~e licãrncima dê 30 -.ignificuque u pcs.on é obesa
(Y!UIOviki & Y11110v,t.;í. 2002). o...,~ modo. umn pesso:i que tem
l.7ll m de al11.1ru será con.,idernda ocuna do peso se estJver pesando
80 kg. e obe..a .e estiver pesando 95 lg.
P-.1ru pte\en1r o ganho de pesti e a obestdade, é preci,-o conhe,c,ir
as Ol'lseos dessei. fenO.neno. (Jeffrey & Kuaus:!>. 1981: Rod.tn.
1982). A obesitlàde. que basica=nte nJlda llllÚ.\ é que um exce.....o
de gordur.i corpotal, é um fenômeno nwllifàeetn<ló que iniegra
aiusa., e influl!ncias mnto genéticas (Foch & Mc-Cleam. 1980; Prke.
1987; Stunlrnrd. 1988) tJWlnto nmbienUlb (Grilo & Pogue.Oeile,
1991: Jeffre) & Knausi.. 1981). Porc.ten1plo. algu,ua~ influência.,
ambientais associadas i\ obesidade incluem o modo de criaç:lo d.L\
criruiças (Birei!., Zünoierman & Hind, l 980). a práliro di! alimen-
iaçào dw. crÍáJtça,, (Kle,,ge,, et tl. 1983), baiu condição .ocioeco-
nOmica (Soba.l & Stunk:ltd. 1989). un1:1 dieta oom wu elevac:Jo teor
56 Capíu1Jo Quatro
de goroura (Sclafoni. 1980). falia de exercícios fi,icos (Stem &
Lowney. 1986) e estresse (Greeno & \Ving. 1994). Nitidamente. os
íalOl-es genétiCO!>. tais como a elicil!:ncia mel3bólica. o qu.'lntidade de
células adiposas. di,;rúrbios bepáucos e i;ensíbilidade hipoUl.lfunica
O{íU. P-aglins.,oui &. Peum,. 1994) tnmbém s5o ÍtllOrei< ,mponantes,
na medida em q~ nlgun, corpo,. têm maior prcdi.po,.içllo genéliCll
s acunrulai ,em rocur.,,o.-; de gordura do que outros.
:-lo"'°" genes eolctt~os não .e nllerornm muno no llldmo ql131'1o
de século. durante o qual ns taxas de obesidade ntingiram níve15
est..rtosféricos. o, principai, culpado, dil.,o ,-ão. por um lado. wn
runbientl! culrutnl que deh~rnililmeote incentiva o exces,o nlimenw
e, por outro. a ln;uivic.Ltde fuic-.i (Hill & P.iten., 1998J. No,EUA. Lili
uma fádl dbponibílitladi! de comida (con,itlerando-se ~,-e a.pecto
em um l'Olltllxto hi,,tól'ioo). e a.,, refeiçDó são ..en itlal. em grandes
porçllb. além de contercm um oito IOOr ele gordura (1 lill & Pl!t.er..,
l 998). O. arob,eme, lnreruh nm à inatividade fi,Jco ao reduzire,n
a neces,Jdllde de as pessoa.\ i;e exereimrem. en1 dec(Mcríillci:I do,
avai,ço; experimenl.ldo, pelo;, meio, de ltllmpo1te e pela IJ!Cnologia
(inclusive a tele~ is1lo. os oompulildores e os jogo, elelrt'inkos). E.
mfelizmemc. o aumento do consumo aumentar e o decréset1110 da
aó, ic:laík ffsíca estào ine1tric-4Yelmente Ligados. uma vez que, quanto
m:us gordos ficamos. mais o exercício f'is,co. mesmo a canúnhada.
pa.~ .i nos inco1nodar.
A ir1dl15lria farmacêutica (medican1entos) eslá ttnbalbando
ath•amente tentando cnar drogas que esúmulem a perda de peso.
bem como outro., que oombatam o aumento de pes.o e a obesidade
(Y:1110, .ti & Yano~ ,1::.i, 2002). Porém. a críaçàode~~ drogas 1em -e
mostrado diflcil. Coosidere. por exemplo, a remp,a IIU'llvés da leptino.
SEXO
Nos animais inferiores. a motivação e o comportwncnto sexuais
ocorrem somente durante o periodo de ovulação das fêmeas
(Parkcs & Bruce. 1961 ). Durante a ovulação, n fcmca secreta
um feronnôaio cujo odor estimula a aproiumaçiio sexual dos
machos. Quanto aos machos, injeções de testosterona (outro
honnônio) podem aumentar ainda mais .seu comportamento
sexual. Em função disso. nos animais inferiores, o sexo apre•
senta-se em conformidade com o processo de neces.,;idade fisio-
lógica cíclica-- impul~o psicológico. conforme mostra a Figura
<+.2 - à medida que o tempo passa, a necessidade surge e esti•
mula o impulso psicológico. e o comportamento eoasumatório
que se segue sacia tanto o impulso psicológico quanto a neces•
sidade biológica.
Regulação Fisiológica
O componamento sexual humano é influenciado. porém não
determinado. pelos hormônio!>. Os hormônios sexuais são os
androgêoios (p. ex. , a testosterona) e os estrogênios. e a sua libe-
ração na corrente sangüínea (a partir da glândula supra-renal)
é controlada pelo hipotálamo. Esses hormônios aumentam em
períodos como a ovulação da mulher e diminuem à medida que
a pessoa passa da juventude para a meia-idade e a velhice (Guay.
2001 ), Aos40 anos de idade. porc:xe1nplo, os níveis de testoste•
rona nos homens pnsswn a diminuir cerca de 1 % por ano. Tanto
nos homens quanto nas mulheres. o desejo sexual e os hormônios
Lembre-se de que a leptina (que vem do 1enno grego para "lll3gro~)
é um hormônio que estimula a ~aciedade e a moLivaç.30 para terminar
WllA reftiç-Jo. Dessa maneira, a ter.ipia aLta,é,, de leptina faz sentido.
mas nllo funciona porque as pessoas rapidamente desenvolvem uma
resistfficia à leptina (El -11:i.-chimi et ol~ 2000).
M ~. se não tettlO!. remédio,, para nos ajudar a combater esso
epidelllill nndonal de obesitbde. podemo,, ao ll\eOO!> tenlllf regular o
eqIBlfbnode longo prozo eiure a uigesuo de energia (comendol e o
gasto de energ,a (praticondo exettfc,o). Poténi, gru1h:ir conlf'Ole sobt'e
es.ses comporuunentos nilo é fácil. e freqUenlc!n:iente é uma meia
malsucedid11 poi l'llZõeil surpree.odenies. Por exemplo. o jejum rara-
mente funcioná, poi~ est~ as,ociado a ulllll gr,u,de reduç;lo da energia
ga.,ui pelo corpo. o que diminui o mernbolismo e contribui para unia
libetnçllo da re,triçllo. Jejuar é 1311lbém problenlJ1tico porque é 111go
que,., blbeia l!Jll ,uge,tõe!. oogniti,•a.,.. e não nas ,ugc,tõe!. fL,i0-
16giCllS relnl"ionad.h à fome e à saciedade. alétu do fato de o jejum
levar o ,ndivíduo para abruxo de seu set-point relac,on:Jdo ao pe,o
(Lowe, 1993).
Um achatlo oomi,,1a é que a :ni~idade ílsic-.i intcilsa podê 1niJigar
os efeitos detrimema,~ dos excessos al.unentares e pro1eger contra o
ganho ele pe•o (Birch et ai., 1991 ). Logo. a 111otivaçào para o exer-
cício p:irece es,-encia1111tnte ,mporwue no e,forço de re,enec es,a
epidemia de obesidade. Pw.i i;e alcançar um equillbtio contínuo entre
a ingõtoo e o g~to d.: enctgia.. é a atividade íhica que .e apieenw
como o componente da equ3ção que pode ,er rnpidaniente oltemdo
e submetido ao, progr= de in1ervençllo oferecid&.. pelo, guru.,
da b,oa fonna e pelos p,ic:ólogo,. mou,ac,on:w..
que lhe estão subjaccn1cs sofrem um acenLuado declínio a prutir
de meados da faL,a dos 20 anos ( Laumann, Pai k & Roscn, 1999).
de modo que os hormônios e o desejo sexual de uma pessoa de
40 anos correspondem a cerca da metade do que são para urna
pessoa de 20 (Zumoíf et ai .. 1995). Apesar de estarem presentes
cm ambos os sexos. os androgêoios contnõucm parJ a moú,0.ição
sexual masculina, ao pasw que os estrogênios contribuem para
a motivação sexual feminina (Money et al., 1976). Entretanto,
mesmo para as fêmeas. os androgênios desempenham papel•
chave na regulação dn motivação sei1ual. uma vez que decn~s-
cimosde testosterona (como o.~ decorrentes do envelhecimento)
prenunciam decréscimo do desejo sexual e acré.~cimo de te.,;tos•
terona (como ocorre em terapias de reposição de androgêoios )
reativando o desejo sexual (Apperloo et ai~ 2003; Davis. 2000:
Guay. 2001 ; Munarriz et ai ., 2000: Tuiten ct a i .. 2000).
Homens e mulheres experimentam e reagem ao desejo sexual
de manciras bastante diferentes (Bnsson, 2001 ). Nos homens,
a correlação entre excitação fisio lógica e desejo psicológico é
ba.,;tantc elevada. Por exemplo, a correlação entre a resposta erétil
do homem e o desejo que e le próprio relata sentir é bastante
e levada (Me~ton. 2000) . Desse modo. o desejo sexual do homem
pcxlc ser predito e explicado no contexto de sua excitação sexual.
Na presença de um elemento desencadeador de excitação sexual
(p. ex .• a csúmulação feita por um parceiro sexual), O!> homcas
apresentam um cic lo trifásico de resposta sexual: desejo. exci -
tação e orgasmo (Masters & Johnson. 1966; Segrnves. 2001 ). O
c iclo trifásico de resposta sexual que tão bem descreve a moti•
vação sexual masculina - o ciclo tradicional de resposta se.,ual
Necessidades Fisiológieti 57
Ciclo Tradicional de Resposta Sexual
Orgasn10
E.mtaçllo
--l•• Tempo
Ciclo Alterna-tiwo de Resposta Sexual
1 NF.CESSIDA.DES 1
DE INTDDDADE
Busarcow
r«cpth-o:i
1=~1
M:d5 cxcitaçiio, pnzcr \
e rcsutt>dos pa.,imos.
l.2n(O cmoci.Ol12L~
1~~s1
F:uon:s biolôgkos e
pslcologlcos :úc:tun
o proccs..~m.cmo
dos i,aunulos como Íl5icos ~
~ ,~~ºI
PA.RA ~'f---,:_-,----'
CONTINUAR
Figura ~.6 Dois Modelo,. do Ciclo da R.:spos1a Sexulll. Trodicioool (Superior) e AJLerruiti~o (Inferior)
Fam,: extraido de UsinR o DIJfer,,u !,fodtlfor F l!/ffOI, Saual R,upoos, rn Addnss WOl'llt'n • s Problnnanc LDM• S#.1:uoi D,n,,. ele R. 8:isson. :1001. JOJU11al Df~x
ond Morilal 11,~rup)'. ]7. 395-403.
- aparece nn metade superior da Figura 4.6. Nesse modelo. o
desejo sexual surge de maneirn um tanto espontânea a pnrtir da
presença de um elemento desencadeador da excitação. e esse
desejo sexual crescente gera lll11ll excitação fisiológica e psico•
lógica (cm forma dl.' pensamentos e fantasias sexuais. e também
de uma sensação consciente de urgência sexual). Essa e1,ciraçào
scxwtl toma possível o orgasmo, e com o orgasmo o tradicional
cic lo de resposra termina. sendo seguido de um pcriodo de reso-
lução rclath·amenle breve. que leva a pessoa de volta a um estado
basal ..
Nas mulheres, a correlação entre excitação fisiológica e desejo
psicológico é bastante b:úxa. Por exemplo, a correlaçüo entre a
lubrificação vaginal e o desejo que elas próprias relatam é baixa
ou inexistente (MesLon. 2000).Assim, não se pode predizer ou
explicar o desejo sexual da~ mulheres no conlexto da sua neces-
sidade fisiológica (p. ex., estrogênio. testosterona) ou da exci-
tação (p. cJL, intumcscin1cn10 genital). Em vez di.<;so. o desejo
sc1,uaJ feminino é altamcnLe sen.tj'vel a fatores relacionais. tais
como a inúmidade emocional (Basson, 2001 . 2002). O modelo
de desejo sexual baseado na intimidade. que Lào bcn1 descreve a
motivaç.ão sexwtl feminina. aparece na metade inferior da Figura
4.6. Nesse modelo ahcmativo. um nível elevado de intimidade ,
emocional antecipa o desejo se1,ual. E a intimidade emocional (e
não o intumescimento genital) que leva a mulher de um cstnclo
de neutralidade sexual a um estado de abertura e sensibilidade
aos estímulos sexuais. Nesse contellLO. a motivação e o compor•
lamento sexuais rcíletcm a proximidade e o desejo de comparti•
lh:unento com um parceiro. mais do que uma necessidade fisio-
lógica (Basson. 2003). Nesse modelo altcrnntivo. o sexo oomcça
com as necessidades de intimidade (e não com o desejo sc1,ual).
Além disso. o desejo promove e n1elhora uma relação de intimi-
dade a longo prazo (em vez de conduzir a uma resolução, como
no ciclo tradicional de re~posta sexual).
Métrica Facial
Muitos estímulos originam-se no parceiro sexual - podendo
ser químicos (cheiro), táctcis (Loque), auditivos (voz)e visuais
{visão. aparência). A atração física exercida por um parceiro
polencial é talvez o e.'>tímulo externo mais polente que afeta
a motivação sexual. As cuhuras ocidentais gernlmcnte consi-
deram atruentes (L~ mulheres de corpo esbelto (Singh. 1993a.
58 Capíu1Jo Quatro
1993b). Entretanto, padrões dc.s.sc tipo variam de uma cultur.i
para outra. em grande parte em virtude do fato de eles serem
adquiridos pela experiência. pela socialização e pelo consenso
cultural (Mahoney. l 983). Dito isso. também é preciso observar
que algumas características ffsicns são universalmente considc•
radas atrativas. incluindo a saúde (p. ex .. uma pele sem manchas;
Symons. J 992), a juventude (Cunningham. l 986) e a capacidade
reprodutora (Singh. 1993a).
As mulheres esbeltas são consideradas atraentes tanto pelos
homens quanto por outras mulheres. Por Ollt.ro lado. a percepção
feminina da atratividade exen;ida pelos homen.~ apresenta pouco
consenso sobre quais formas ou partes do co.rpo masculino são
atraentes (Bcck. \Vard-Hull & McClcar. l 976; Horvath. 1979.
1981: Lavraka.,;. 1975). O principal preditor da classificação dada
pelas mulheres em relação ao corpo masculino é a proporção
cintura-quadris (PCQ, llffia medida que geralmente vwia de 0,7
a 1.0; é calculada tomando-se a menor circunferência da cintura
e di vidindo-a pela maior circunferência dos quadris/nádegas).
Segundo as mulheres. valores moder.idamentc esbeltos de PCQ
nos homens correspondem a uma maior atratividade (Singh.
l 995).
O estudo dos julgamentos que as pessoas fazem da atrati-
vidndc da5 características faciais denomina-se n,irrica facial
(Cunningham. 1986: Cunningham, Barbcc & Pike, 1990;
Cunninghrun et ai .• 1995). Considere a facc - cscusrcspectivos
parâmetros métricos - mostrada na Figura 4. 7. As questões que
relacionam a métrica facial ao estudo da motivação sexual são:
''Em que dimensões as face.,; variam entre si. e quais climensões
fazem uma face ser atrnenle?" Curiosmnente. diferentes culturas
apresentam uma notável oonvcrgl:ncia 11 respeito das carnclcris-
ticas faciais que são consideradas atraentes, e também a respeito
de quais não são.
As faces variam bastante. e a Figura 4. 7 iluslnl 24 clifcrcntcs
características estruturais (p. ex .. tamanho dos olhos. largw.i
dn boca. proeminência do qt1cixo). Três categorias explicam os
tipos de foce considcr.idos atraentes; as caraclcristicas neona-
tai.,. as C'.11".lcteríslicas de maturidade sexual e as características
expressivas. As características nconatais correspondem àq uelas
associadas aos recém-nascidos. ta.is como olhos grandes e nariz
pequeno, estando relacionadas a mensagens não-verbais atra-
tiva., de juventude e agradabilidade (Bcrry & McArthur. 1985,
1986). As características de maturidade sexual correspondem
àquelas :l.'>Sociadas ao status pós-pubescente, tais como maçãs
do rosto salientes e. para os homens. espessa pelagem no rosto
e sobr.incclha, fartas. aspectos associados a mensagens não-
verbais atraentes de vigor. status e competência (Keating,
Mazur & Segall. 198 l). Já as características expressivas. como
boca/soniso abertos e sobrancelhas arqueada., são maneiras d e
expressar emoções positivas. tais como felicidade e receptividade
(McGinley. McGinley & Nicholas, 1978).
Portanto, uma si mplcs olhada nas características faciais de
uma pessoa já nos dá pistas para fazcnnos um julgamento sobre
suajuvcntudo/agrndabiJjdade. vigor/status e fclicidaddrcceplivi-
dade. É com base nessas pereepçõcs. fundamentadas em classi-
ficações implícita~ da métrica facial. que tomamos um:i decisão
sobre qufio atraente é o rosto de uma pessoa. Essa conclusão
associa-se de modo intere.,;sarue à questão de a beleza C!>lar nos
olhos de quem a vê. De certa mancir.i. pode•sc discordar dessa
afinnativ:i. um:i vez que a.\ cla.\sificaçôe-'> faciais métricas são
características f::iciais objetiva~. que fornecem um consenso
panculturnl sobre o que é um rosto bonito. Entretanto. em outro
sentido. pode-se concordar com ela, uma vez que uma face se
torna bonita na medida cm que o observador percebe (e subjcúva-
mente av:ilia) a juventude, o slalus e a felicidade/recepti vidadc da
oul!".i pessoa. Na vcrclndc, a beleza está na juventude, no status e
na felicidade/receptividade, e a race é simplesmente um conduto
que eomllnica essa.,; informações referentes à pessoa.
As pesquisas sobre métrica facial são feitas mostrando-se (em
um projetor de slides) dezenas de faces diferentes de homens e
de mulheres a um grupo de indivíduos heLCTossexuais do sexo
oposto (ou a um grupo de indivíduos homossexuais do mesmo
sexo; Donovnn. Hill & Janltowink, J 989). Os inclivíduos julgam
cada face segundo uma variedade de dimensões (p. ex .• Quão
atraente é esse rosto? Quão desejável é essa pessoa em tcnnos de
parceria sexual?). enquanto os pesquisadores meticulosamente
medem cada face segundo todas as dimensões métrico-faciais
listadas rui Figura 4.7. Dispondo então desses dados, os pesqui•
sadorcs inves tigam as correlações que surgem entre as class ifi-
cações de atratividade e as diversas características faciais. Para
você pessoalmente ter uma idéia de como é um experimento
desse tipo. observe as sele diferentes faces mostrad:is na Figura
4.8: cm questão de milissegundos você provavelmente perce-
berá que algumas dessas faces são mais atraentes do que outras.
D:idas essas diferentes pcrcepções de :urntividadc, a quc-'>lào é ;
por que isso acontccc7 Por que uma face da Figur.i 4.8 é mais
atraente do que outra? Para responder a essas questões. é preciso
analisar cada face segttndo os 24 par!lmctros de métrica facial
apresentados na Figura 4.7.
A métrica facial prediz a classificação de atratividade para a
face de mulheres (Cllnnjngham 1986). de homea.s (Cunninghnm.
Barbcc & Pike. 1990). de diferentes culturas (Cunningham. et
aJ_, 1995) e de diferentes idades (Symons. 1992}. Quanto às
faces femininas. a métrica facial mais associada à atratividade
físiC'.i corresponde às car.icterbticas nconatais ( 01h05 grandes.
nariz e quci:<.o pcquca.os). A matllíidadc sexual (maçãs do rosto
salientes e magreza) e as car.icterísticas expressivas (altura das
sobrancelhas e altura e largura do sorriso) também contribuem
positivamente par.i a atratividade das faces femininas. Quanto
às faces masculinas, a métrica facial mai., associada à atrativi-
dade ffsica são as características de maturidade sexual (sobrance-
lhas espessas e queixo proeminente). Também as características
expressivas (altura e l.argtt!"d do sorriso) contribuem positiva-
mente para a atratividade das íaces ma.'iCulinas.
Roteiros Sexuais
Um roteiro sexual é lllD3 representação mental. passo n passo. da
seqüência de eventos oconidos durante um episódio sexual típico
(Gagnon. 1974. 1977: Simon & G-.ignon. 1986). De maneira não
muito diferente do roteiro de um filme. um roteiro sexual inclui
ntores específicos, com seus respectivos motivos e sentimentos.
além de um conjunto de comportamentos verbais e não-verbais
a propriados. que dc,·cm ser bem-sucedidos na conclusão de um
comportamento seJUJal. Em sua essência. o roteiro sexual é a
1
16
16
22
21
2-1
8
9
10
--.. ...._
12
2
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3
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23
Necessidades Fisiológieti 59
-
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18
1. Compnmcnlo da fac,:, dhuinc10 da lmba do cabelo atê a b;,sc do quc,xo: 2, l.aq;lllll da Coce na o.lturu do osso m:ilar, d1Suinaa rntn, as bonlas ate-dores dos
!l1lllllrcs cm seu ponto !l1lllS pmenuncnte: 3, Lar~un, du (o,;,, n.1 boca. ctL,tinc,~ cnin, us bordas cxtcnon:s cbs bochceh:ls n:, al1111t1 médio do somso: -1. Altura d•
ICS!ll. dlstlnda da Mlbnncclb• até a l,oba do cabelo: 5. Altura d:I parte superior da cabeça. mc{l1da do centro das pupll~ 111<! o topo da cabcçn. esumodo sem o
cnbclo: 6. Altura das sobrancelb:,s. medula do CC'lltro da< pupibs até a c-xtrcmidode in(C'rior das sobr.rnccllw: 7. Altura dos olhos. di<tânc1a cmn, os cxtn,011dodcssupc:norcs e inferiores do olho , i<i>d com os pálpebras no ccruro pupil..r. &. urgura dos olho.!. medula cntn, m c,aruos interno e externo do olho: 9. LArgun, d•
(ns, châmcuo modulo do olho; 10.1..urgura cb pupila, d1:imetro m<d1do do ttnlrn do olho; 11, Lru-gam pndromzada da pupila calcubda como sendo a rnzõo entre
a lllf&llru da puplb e • do lru (ruo mos1rJda ); 12. S..-par.içio c,ntrc os olhos. dis1lioclll entre os c<:ntmi dos pupd"': 13. 1..Arguro do osso malJir. u,·alloç3o d.l pro<:tm-
nênda rclativ• do os..<0 !l1lllar calcul"'1• como uma d ,fere~ entre • largu:r:s da face na ahlllll do osso m1l.u- e • wgurn da face na ahum oo compnmcnto facial d•
boca (olo mmtnlLla); 1-1. Lorturo das nanna.<, ou sqa. largw-• do naru. medida oascxt.rcmidadc. <11<:ma> da; naollllS 1111 ponto""'"' bJ:so: l5. Lluplra da ponlll do
n>nz. ou SCJa. o luguru da pn:lffllDO do n:inz na ponlll. cm gemi a.<.«lCl:ida iis prcg;11 d:ls Mri=: 16. Compnmcruo do n:ui,. medido a pnrti:rda ponte d:t ICSlll n•
1Lil1u-a dá bortb supc-dor do olho vlslvcl até a pon1ll do nam: 17. Área do n:=. caloulJod• como o prodllto do comprimento pela lug:ura do nam no cocnpnmcnto
da pont• da face (nlo mo51rnda): 18. Altura do meio dá face. disliindn do ttntro pup1l:u nié a extrcntidadc de ciOlll do l.ib,o superior. calculado subtnundo-sc do
tamanho da face • altura da lcSI.L • alluru dos sobranoclha,,. a l"'l,Wl> do lábio supenor. a lllwrm do sorriso. a laq;um do lábto inferior e o rompnmcnlO do quclxo:
1 li. l..-1rgura dai< bochechas. calculad:i como uma avrui:içio dos,.. de arrcdoodamc,uo fnc&:11. com b.1.<e na largura medida da face na bclcJ,.: 20. Espcs,ima do lábio
supc:n«. mc:<t,d.l Ycl'UC3lmcntc oo cc:nuo: 11. Espessur• do lólno mfccior. mcchda vcrtJC1lmcnlC no ttntro: ll. Alrur• do somso. disuincto Vl:rtJCal catre os lábios
no centro do mrnso: 23. L:uxun do sorriso. disLirlc13 c,ntrc o• ca.nu,s int<rnOs d:I boca: 2-1. Compnm,ruo do queixo. distãllcia do cxm,midadc de baixo do lâbto
infcnor até a b:,.,,c do quc,xo.
Figura -1. 7 Parllm~tros Masculinos e F~minino, de Métrico Facial
Fo111r. c•inldo de M,aswif1R 1h, Ph~ca/ Atrrricri,•~n,~.r: Quasi-F..xp,ro,wms on ,~ SociobioJo,o af F,mak Facial &aury. de l',1. R. CuM1nghwn. 19116. Jmunol
of P,rsonalil)· a,rd Social P S)Y:kolozy. 50. pp. 925-935. CopynS,hl 1986 da Amcncan P,-ycbolopcal Assocuwoo. Rc.prodU2Jdo sob permissão_
história que um típico encontro sexual eavolve, e que deve ser
seguida pelo indivíduo. Os jovens do sexo mascul ino aprendem
a coordenar seu roteiro sexual de maneira a coincidir com os
três estágios lineares do ciclo de resposta sexual composto do
desejo {estímulo}. cxcitaç-ào e o rgru..no (veja. na Figura 4.6. o
Ciclo Tradicional de Resposta Sexual). As faniasias masturbat6-
rias ajudam a con1binar o roteiro sexual (cognitivo) com o ciclo
desejo-excitação-orgasmo.
Entre a.s mulheres. a coordenação entre o roteiro sexual e a
atividade física é mais fraca. cm parte porque um número menor
de mulheres se masturba nos primeiros anos d.1 adolc.sc-éncia.,
mas principalmente porque a excitação sexual feminina é mais
calcada cm fatores relacionais do que na atividade física. Além
disso, para as mulheres. o conteúdo dos roteiros sexuais que
lhes ocorrem contém pouco material considerado propriamente
sexual (do ponto de visla masculino). O conteúdo sexual para as
60 Capíu1Jo Quatro
Figuro -l.8 Sere Faces que Varillm em Sua Métrica Facial (e. Pon.anro. em Sua Arracividade). (FolO de oa,·id Young-\Volíf/Photo Edu.)
mulheres 1cm maior probabilidade de incluir eventos tais como
o ato de se apaixonar (em vez da participação no sexo).
Quando experimentam um namoro. tanto homens quanto
muJheres ganham a oportunidade de deixarem de ler roteiros
independentes e baseados em fantasia..'\ para adquirirem roteiros
interpessoais e conjuntos. Quando o casal não consegue coor-
denar seus roteiros scxunis. provavelmente suas expc1iências
sexuais estarão repleta.~ de sofrimento. conflitos e ansiedade. e
o desempenho sexual incômodo e m:tlsuccdido. Porém, quando
as seqüências manipuláveis do comportamcnro sexual tomam•
se coordenadas. adquirindo uma convenção e um foco não só
cm si próprio como também no parceiro. os roteiros sexuais do
casal começam a assumir um caráter adaptativo. cumulativo e
rccducativo. promovendo assim a satisfação SC.'tual e relac ional
(Simon & Gagnon. 1986).
Além de portarem roteiros que guiam seus episódios se.'<Uai.'\,
as pessoa~ também portam esquemas, ou representações cogni-
tivas. de seus selves sexuais (Anderson & Cyrnnowski, 1994).
Os esquemas sexuais são crenças sobre o self sexual que derivam
de experiências passadas que englobam tanto pensamentos e
comportamentos positivos e orientados para a aproximação
quanto pen..~amentos e componamentos negativos orientados
para a evitação. Logo. o sclf sexual de uma pessoa inclui unia
inclinação n experimentar desejo e participação sexuais (aspectos
positivos de aproximação) e também uma inclinação a experi•
mentar ansiedade, medo. conservadorismo e inibição sexuais
(aspectos negativos de e,•itação). Os e lementos positivos dos
esquemas sexuais promovem o desejo e a excitação sexuais: e
os elementos negativos dos csquemns sexuais inibem o desejo
e a excitação sexuais (Anderson & Cyrano\\•ski. 1994). Esses
elementos que correspondem a um sinal verde (aspecto~ posi-
tivos de aproximação) e a um ~;naJ vermelho (ru.-pcctos negativos
de evitação) no esquema sexual de uma pessoa são imponantes
porque a excitaçf10 sexual é sempre produto da competição de
tendêncins excitatórins (desejo) e inibidoras (ansiedade) (Janssen.
Vona. Finn & Bancroft. 2002).
Orientação Sexual
Um componente-chave dos roteiw.. sexuais pós, pubcsccntes é
o estabelecimento da orientação sexual. ou seja. a preferência
por parceiros sexuais do mesmo sexo ou de outro. A orientação
sexual existe ao longo de um conrinurrm, e cerca de um terço de
todos os adolescentes já experimentou pelo menos um ato homos-
sexual (sendo essa ocorrência mais comum entre os rapazes do
que entre as garotas; Money. 1988). Portanto, o co11tinu1011 de
orien tação scxu:tl i:stcnde-se desde uma orientação exclusiva-
mente heterossexual, passando por uma o rientação bissexual e
indo até uma orientação cxclusi,•amente homossexual A maioria
dos adolescentes adota de maneira rotineira uma orientação hcte•
rossexual, mas cerra de 4% dos adolescentes do sexo masculino
e 2% dos do sexo fen1inino não o fazem. e esses percentuais são
maiores quando se inclui a orientação bissexual.
Embora ainda estejam longe de ser conclusivas, as pesquisas
sugerem que a orientação se:1:ual não é uma escolha; trata-se de
algo que acontece no adolescente, c não de algo dcliberJdo. ou
de resultados de uma busca interior (1,,toney. 1988). Parte da
explicação de por que ns pessoas desenvolvem uma orientação
homossexual ou heterossexual é genética (veja os estudos de
gêmeos feitos por Bailcy & Pillard_ 1991: Bailcy et ai., 1993) e
parte é ambiental. infelizmente, a literatura sobre esse assunto
cnrncteriza-s,c mais pela rejeição do que pela confirmação de
hipóteses. Por exemplo. há poucas evidências em fa,·o r da idéia
de que a homossexu:tlidadc emana de uma mãe dominante e um
pai fraco (Bell. \Veinbcrg & Harnmersmilh. 1981) ou da cxpo•
sjção a um sedutor mais velho e do mesmo sexo (Money. 1988).
As fronteira.~ de pesquisa mais promissoras p;trJ se compreender
a a rientaçfLO sexual siio as relacionadas à genética (Bailcy &
Pillard. 199 l ; Hamcr el al.. 1993) e ao ambiente honnonal pré•
natal (Bcrcnbaum & Snydcr, 1995; Kclly. 1991: Paul. 1993).
Quanto ao ambiente honnonal pré-natal. a exposição hormonal
prematura (:10drogênios. esLrOgênios) afeta a orientação e o
componamento sexuais subseqüentes.
Uma maneira pela qual as pessoas aprendem sobre sua orien•
tação sexual (em vez de intencionalmente escolhê-la) ocorre. por
exemplo, por meio da excitação gen ital que o indivíduo observaem si próprio como resposta a homens ou mulheres atraentes.
Entn: os indivíduos do sexo masculino. os hcterosscxuai.~ apre-
.sentam uma resposta erétil di:10te de mulheres atraentes. mas não
diante de homens atraentes. ao passo que os homens gay.~ apre•
sentam uma resposta eretil diante de bon1ens atraentes. porém
não diante de mulheres atraentes. A resposta genital masculina
a indivíduos do sexo oposto ou do mesmo sexo é. pananto. uma
maneira confiável de o próprio indivíduo aprender sobre sua oricn•
taç-jo sc.itual. Entn: as pessoas do sexo ft'minino. porém, as hctc•
ros."l<:xuais. as bissexuais e as lésbica~ não apre.'>Clltam esse tipo de
padrlío discriminatório de associação entre uma excitação genital
e subjetiva quando observam homens e mulhe_res atraentes.
Base E,•olucionista da Motivação Sexual
A motivação sexual tem uma óbvia função e base evolucionistas
(a reprodução e a sobrevivência da espécie). Em uma análise
evolucionista. especulou-se que homens e mulheres desenvol-
veram mecanismos psicológicos distintos e subjacentes a su.1.>
respectivas motivações sexuais e cstrJlégia.,; de acasaJamenlo
(Buss & Schmiu. 1993). Comparados à.s mulheres. os homens
têm motivações sexuais de curto prazo. impõem padrões menos
rigorosos. valorizam o acesso a pista., sexuais tal como a juven-
tude e valorizam a castidade das parccir.i.\. Comparadas aos
homens. as mulheres valorizam os sinais de riqueza (os ga.~tos,
Tabela -'-2 Diferença.~ dt! Gênero n:1.> Prefeti!ncin.,, por P..irceiros
Variá,el
Apan,ncia F/sica
É bonito(a)
Idade .
E 1nah no~o que eu 5 anos
É 1uah ,elho(a) que eu 5 anos
Potencial Econômico
Tem um emprego estável
Ganrui mai;, do que eu
Tem mll.Ís escolaridade do que eu
Oullll., vw,·,!is
Jll foi casndo
Tem filhos
• E de relígillo diferente da minha
É de uma raça diferente do minrui
liome.n.,
3.59
4.54
4, 15
4.27
5, l9
• 21 :,. -
3.35
2.84
4.24
3,08
Necessidades Fisiológieti 61
os presentes e a adoção d e um estilo de vida extravagante). o
status social, a ambição e o pocencial de crescimento pmfi,;sional
do parceiro (Buss & SchrnitL, 1993).
Os psicólogos evolucionista~ partem dos pressupostos de que
o comportamento sexual é fortemente re.~lringido pelos genes,
e que os genes determinam as estratégias de acasalamento pelo
menos tanto quanto (e frcqücnlcmcnlc mais) o pensamento
racional. Além disso, os genes deixam uma mcn.~gcm evolu-
cionii.ln simples: os homens querem p:ircciras jo\'cns e atraentes:
as mulheres querem parceiros poderosos e de status clcvado.s
A Tabela 4.2 apresenta ns diferenç-JS de preferências na se leção
de p;irceiros cnlro homens e mulheres (Sprccher. Sullivan &
Haú:ield, 199+ ). Os dados confinnam que. essencialmente, os
homens acham importante a atraç-jo ffsic:a e a juventude ao sele•
cionar suas parceiras, ao pa.,;.~o que àS mulheres acham impor•
tantc o potencial ccon8mico ao selecionar seus parceiros. Esses
dados provêm de questionários aplicados a milhare.,; de homens
e mulheres de 19 a 35 anos. solteiros, de a'!Celldência afro-ameri-
cana (36%) e branca (64%), aos quais se fez a seguinte pergunta:
"Com que intensidade você gostaria de se casar com alguém
que .. :•, após o que se pedia a cada participante para responder
segundo wna escala que variava de 1 (simplesmente não gostmia)
a 7 (gostaria muito). A coluna da direiln da tnbcla resume de
forma verbal cm quais variáveis as diferença.~ de gênero existem
e cm quais variá,•eis as diferenças não existem.
Para apreciannos as diferentes estratégia.~ de acasalamento
de homens e mulheres. basta abrinnos o jornal local (ou um
,vcbsitc de encontros amorosos) e vcnnos os anúncios pessoais
que lá estão (Baize & Schroeder. 1995; Harrison & Saeed,
5Algulll35 diferença. s1U1;cm qu:indo "" clWlUoa a pn,ícrênd• do• bomossc-
xu;w; (B:riky et aL 1994). Os bomc.as hamossc:xu.us (<b mesma DUlDCJill que
os he1cms,-cxua .. ) classificam • atr.içio ffs101 de SC"5 pGrotlro• como muí10
1mportwtlr. mas. chfcrcntrmcnic dos bomras hcu:rossexurus. aão dcmC111Stmm
1cr um• prclê:rénc,a mu110 fone por pare<Ll'O$ mai,: jovem.. nem uma 1ncl1n.,,..ao
accntu3d..a parn o cLúmc: sc.xual.
Mulheres
2.58
2.80
• -,9 :>-
S.38
S.93
- 81 :>. -
3.+I
3.I J
4.3'1
2.84
DiferenÇ&de Gênero?
Sim. ,naior preferencia entre os homens
Sim. maior preferência entre os homens
Sim. maior preferencia entre a.- mulheres
Sim, 1uaior prefefência entre as mulheres
Sim. maior preferência emre ru, mulheres
Si111. maior preferência entre as mulh.eres
.Nenhwnu diferença de gênero signific:iJJ,•a
Si1n. maior prefet'êncio entre as mulheres
.Nenhuma cliíerença de gênero signilicnúva
Si1n, maior preferencio entre o, homens
Ob.r,,n't4,<ih: O.. CSCOJCS padium van;irdc 1 (n3o go,lllna) • 7 (goslllriJI mudo de me casar com alguém que.._)_
Fome: cxtraiclo de -Mulc Seltt11on Prcfm:nccs: Gcndcr Diffcrcnccs Exwruncd in • Nllllon•I S!unplc-. de S. Sprocllcr. Q. Sulh..-llft e E. Hatficld. 1994./ourMI of
Pmanaüty and S«wl P,)Y:IIIJl010•- 66. PI'· 1074-1080. CopynghL 1119-1 da Amcncan Psyc:bologlCal As<oc1a1100. Adlipt;Jdo sob pcnnlssão.
62 Capíu1Jo Quatro
1997; Wicdcnnan. 1993). Constatamos que os homens estão à
procura de algo parecido com uma esposa/parceirJ-troféu. Por
outro lado. quanto mais atraentes são as mulheres. maiores são
as suas exigências em relação a um parceiro potencinl no que diz
respeito a starus e riqueza. Os homens. por sua vez, quanto mais
elevado o status social e a riqueza. mais cspcrnm das mulheres
cm termos de aparência.
Embora sejam grilJlllte e inegavelmente sexistas. essas
conclusões rcprc.<;cntam as preferências que homens e mulheres
expressam. Essas preferências podem niío ser consistentes com
aspirações culturais, mas são consistentes com as aspirnçõc;,
e\'olueioni~tas. Entretanto, pode ser que essa hipótese se.:cista
para a estratégia de acasalamento seja ).imitada a algumas pessoas
apenas. Parece que -os opostos se atraem··. umn vez que as
mulheres que se preocupam demais com a aparência preferem
fortemente homens de status elcv-Jdo, da mesma maneira que
os homens que pensam demais em dinheiro e status também
se preocupam demais com a juventude e a aparência da mulher
(Buston & Emlcn, 2003). Entretanto, quando homens e mulheres
valorizam em si mesmos fatores outros que não o status e poder
de atrnção (p. ex., o comprometimento com a família e a fide-
lidade sexual). passam a preferir parceiros que tenham essa.,;
características., mais do que parceiros dotados de um e levado
status ou poder de atração.
As pessoas também têm múltiplas estratégias de acasalamento.
e consideran1 primciran1ente em suas preferências por parceiro
ns .. necessidades" e depois os "hL'l:os" (Li_ Ba.ilcy, Kcnrick &
Linsenmeicr, 2002). No nível das necessidades "obrigatórias", os
homens valorizam a atratividade físicn e as mulheres valorizam
o status e os recursos. Ao considerarem as possívei~ parceiras.
os homens realmente desejam saber primeiro se a mulher é pelo
menos mediana cm termos de atratividade física. e as mulheres
desejam saber primeiro se o homem é pelo menos mediano em
termos de status social. Ambos os sexos também clas.,;ifican1 a
inteligência e a gentileza como car.icterísticas necessárias em
seus eventuais parceiros. Se o parceiro potencial passar ne~se
tipo de teste ao nível das necessidades. então homens e mulheres
c-01neçam a considerar os luxos, oomo senso de humor. vivaci-
dade. criatividade e persoaalidadc excitante. A conclusào que
disso se tira é que tanto homens quanto mulheres dispõem de um
tipo de orçamento para gastar com o acasalamento (os homens
dispõem de um certo nível de status. ao passo que as mulheres
dispõem de um ccno nfvel de atratividade ffsica), e o gasto dc.~cs
orÇillJlcntos destina-se primeiramente a assegurar as n1X:CSsidadcs
mínimas (o parceiro deve ter pelo menos um nível médio de
inteligência. gentileza e. depcadcado do sexo, status ou atração);cm seguida. o orçamento é gasto na aquisição de um nível sufi-
ciente dessas necessidades, e finalmente é utilizado parJ adquirir
os luxos. que podem prodU2ir interações interes..,;antes. embora
pouco representem c m tcnnos de valor reprodutivo (Kcnriek.
Grolh. Trost & Sadalla. 1993).
AS FALHAS DE AUTO-REGULAÇÃO DAS
NECESSIDADES FISIOLÓGICAS
Tentar exercer um controle mental consciente sobre nossas necc. ...
sidades fisiológicas freqüentemente acaba nos fazendo mais mal
do que bem. Mesmo assim. tentamos fazê-lo.
As pessoas estão sempre tentando contro lar seus apetites -
fome. peso. consumo de ãlcool e café. impulsos sexuais. dor
crônica nas costas, e assim por diante. Esses apetites podem às
vezes nos esmagar e. ao passarmos por esse sofrimento. muitas
vezes buscamos maneiras de anular as nossas necessidades
fisiológicas a favor de um controle mental. Quando os estados
mentais regulam as ncccs.tjdades fL~iológicas. ocorre a auto-regu-
lação. Por outro lado, quando as urgências biológicas es1nagam
o controle mental, ocorre falha de auto-regulação (Baumcistcr.
Heatherton & Tice, 1994 ).
As pessoas falham ao tentarem se auto-regular devido a três
razões principais (Baumeister. Hcalhenon & Tice. 1994). Em
primeiro lugar. ela.o, rotineiramente subestimam o poder da força
motivacional relacionada às suas urgências biológicas quando
não as estiio experimentando (Loewenstein. 1996). Ou seja.
quando não estamos com fome. tendemos a esquecer o grau de
motivação que sentimos parJ comer quando estamos famintos.
Em segundo. as pessoas podem não ter padrões. ou então
têm padrões incon.-.istcntes. contlilantcs, irreais ou inadequados
(Karoly, 1993). Por cxe1nplo. muitas pessoa~ têm padrões
extremos (irreais) de magreza ou padrões conflitantes entre o
tipo de corpo que têm de nascença vusru o tipo de corpo que
gostariam de ter (Bro'l''nell, 1991 ). Controles mcnlllis frágeis
(i!.to é. irre-Jis) são facilmente esmagados pelas forças bioló-
gicas naturais.
Finalmente. as pessoas falham na sua auto-regulaç.'io porque
não conseguem monitor.ir o que estão fazendo 11 medida que
vão ficando distraídas. preocupadas, sobrecarregadas ou intoxi-
cadas (Kirschcnbaum. 1987). Por exemplo, o álcool diminui a
autoconsciência e a automonitoração do indivíduo. e as pessoas
intoxicadas por álcool têm maior prob-Jbilidade de cometer atos
que fujam 30 seu controle mental aonnal (HuU, 1981 ). Assim.
mesmo quando têm padrões realistas e adequados parJ cogniti•
va.mentc regular suas necessidades fisiológicas_ as pessoas ainda
assim são altamente suscetíveis a sc.r esmagadas, caso desviem
de seus padrões. pelas forças biológicas represadas.
Em todos esses reveses há dois pontos em comum: (1) o
indivíduo subestima o quanto é forte a capacidade de prcodcr
a atenção que os motivos de base biológica e fisiológica têm,
e (2) o indivíduo perde o controle sobre sua própria atcoçiio.
A auto-regulação é frcqOentcmentc uma competição entre as
forças biológicas e os controles cognitivos. Um controle mental
focalizado cm padrões TC3listas. cm metas de longo prazo e na
monitoração do que se está fazendo em geral conduz a uma
a uto-regulação bem-sucedida (Baumeistcr, Hcalherton & Tice.
199-l). Todavia. a auto-regulação via controle mentnl requer um
esforço diligente, sendo. portanto. uma estratégia vulnerável e
não-confiável.
RESUMO
A sede. a fome e o sexo são necessidades üsiológicas. O pomo bá>ieo
de:,ie capítulo é a 1ooôa do in1pu1:,0 de Hull de base biológica (Figura
4.2). Segundo a teoria do impulso. a.~ prh·açõel. e os déficit,, fisiológico,
fazem surgir os estado:. de necesxidade corporal. que fazem surgir um
impulso p,iL"ológ.ico. o qual motiva o componrunento L'Onsumatório. e
este, por sua vez.. provoc.a uma redur'..o do imp~. Poct0.n10. li medida
que o iempo pa<,.~a., a, privações fi,iológiea, voltllm a se ,nanife...iar, e
o procesro cfclic-o se rept1e. Ao , '1lien1:tr o, proce;.so, reguladores da
'iõde. da fome e do ,exo. e..te capflulo apresentou sele processos fuocJa.
1nema1s: a nece.<;sidade fisiológica. o Impulso psu~ológico. a homeostasc.
o Feedbael. negativo. os input,,e outputs múltiplos. o íeedback positi,o.
a. inllu&leia. intm-organwnicas e a, inlluéncia. elll.nl-011:,1.nlsmicru..
A sedé é o e,IJJdo motivacional e:1.peri1nenlado con:.cien1e1ncn1e
que prep:lta o indivíduo pllt:l reali1.ar compon.runentos neces.~os JXln1
,uprir seu déficit de água.. Em termos biológico,. sua aúvaç-.lo e ,acie-
dade ocon-em de ,naneira wn tanto direta. A falta de água dentro dai.
célullls (sede intracelular) e fora delas (sede extracelular) aü,a a sede.
A reposiçilo de água i.acia a .ede, t,,pecialmente quando a água consu-
mida hidnlm as células. O componamen10 de beber (qae não necessa-
riamenre está relacionado à sede) é influenciado t:uubém por ,ariáve~
extra-organfSJu[ca,, tai., como a disponibilidade de água, o go~to adoci-
cado. ooicções ao (ilcool e a cafeína e prescrições culturais. tais como
a r«omendaçllo de ~beber oito copos de 4gua po1 dia-.
A fome e o ato de comer envolvem um cnmplexo sisiema de regu-
lnçio l:lllto de cU:l'lo prazo (hipótese glicostáüca) quanto de longo prazo
(hipócese lipostática. incluindo a teoria do set-poim). De acordo co,n a
hipócese glioostática, o defic:ii!ncia de g_licose estimula o ato de c01ner
ao ruivarohipooilamo l:ncml, oo passo que o excesso de g_licose inibe o
ato de comer ao ativar o hipotálwno \en1tomedial. Segundo a hipótese
hpostática quando as célolas adiposas ficwn reduzidaç. inicia-se a fome.
ao passo que, quando a.ç célulos adiposn.ç encontram-..e em estado nonnal
ou awnentado. elas inibem a fome. O comportrunemo de comer (que n!lo
necessariruuente e,t:! relocionado à fome) é iníluenciodc, também por
incentivos ambicniais., lll.Íl> como a, isoo. o cheiro e o gosto da comidli.
a pn.-~a de outroS ~çoas. e também pressõe,, situncionnis, tah como
a oom1a do grupo. Es~ fatores ambienta.is às vezes interferem nos
fatores fisiológicos e competem com eles. Fuer dieta. por exemplo.
representa uma tentativa Lhl pessoa de sub,Jituir seus co111J'Oles fi,ioló-
gícos paro comer por controles cognitivo, e voluntário,. ~e e,lilo de
co1n<!r regulado cogruti vmue,ue tem i.Jnplicaç-õb assoeiadas a prálico de
e.tce!,l,OS. liber.içat> da re..,triçilo. ganho de peso e obe,idade.
A DJOlivaçuo sexu:1.1 awnentll e diminui em re,~ta a uma plêiade
de fatores. incluindo honnõnios., esúnrnlaçào elltema. pistaS ellterruJS
(métrica facial). roteiroscognil.Jvo;. esquema, se:wai.~ e~ evolu-
cioni,tas. A de,.peito dessa grande quantidade de fluores. a molivação
.se.um! DO macho bwna110 é relativamente direta. Da medida em que
o desejo reílete forças fisiológica~ tais como um ciclo de tfifá.sico e
lin=resposmsexual (desej~citação-orgasmo). unia relaçl'to bas131l.te
próxima entre a respoSta erétil e o desejo experimentado psicologi-
camente. roteiros ,exunis relaúvaniente hnmogêneos e preferência, e
estratégias estereodpicos de acasalamenlO. J:l nas mulheres. a moti\'nçào
Necessidades Fisiológieti 63
sexual é mais complexa., na medida em que o c[clo de ,-esposta se.,ual
feminino f reqaentemente nJlo é linear, gj.mndo em tonto de necessidade,
de intimidade emocional n con-elaçllo entre n resposw genital eo desejo
psicológ,lco é baixa, e os rOlcu·os e esquemas sexun.is sllo heterog2neos.
A.~ pesqui,:t!,, sobre os determillllntil'!. da orienlJlçllo sexu:1.1 apontrun para
a ,mponôncin dn genética, dai. iníluênci3' dcsenvol\'illlelllllÍ• pré-n,uais
e da idéin de que as p....~a. d..-scobre1n e tomnm-se conscientes da sua
orienlllÇ:!O sexual. em ,ez de deliberadrunente escolhê-la.
Tentar exercer conll'Ole ,nental coJtscieme sobre as necessidades
fislológicns é nlgo que freqUenrementc faz ,nai.s mal do que bem. As
pessoas não conseguem auto-regular seus apetites corpor-.iis por três
1notlvos principais - ou seja. elas ( 1) subestimam o poder da força
nlOlh•acional das exigências biológicas quando n3o a.~estão experi men-
tando, (2) faltam padroe.. ou 1êm padrõe, inconsiS1en1e;., e (3) folham
em mo,1i1orar o que est:lo fazendo, 11 medida que se distraem de suo
regulaçõ.o cognitiva e con.\l.lruem presos de suas próprias necessidades
li~lológicas represadas.
LEITURAS PARA ESTUDOS ADICIOr AJS
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uons ood ,upubuons m loacly bca.n "'1vauscmc01S. Ja,irnal of Ptnonality
and SociJJI Pry:.l1ólogy • .JS. 257-~6-I.
Capítulo 5
Necessidades Psicológicas
NECESSIDADES PSICOLÓGICAS
A EMrutura da Neces,idade
Uma Abonlagem Organfsmica da 111oúvoção
A diall!lica pe,,oa-ambiente
A, nece..~dades psicológ,iai5 Ot'gllllfsmicas
AlITONOMI.A
Apoiando a Autooomia
Promo, endo os recursos ir,oci,·llCionais imenMX
Contando com uma lingoogem inf01 macionaJ
Promovendo a vllloriztlçllo
Reconhecendo e aceilllndo o afeto oega1ivo
Apoi:indo a Autonomia 111omento o Momento
Beneficinndo um B.tilo !llolivnc,onal de Apoio~ Autonomia
Doí, Exemplos
A COMPETÊ.'l'CIA
Etwolvendo Competi!Jicia
De,.aJio.ç e fluxo ótünos
Interdependência en1re desafio ef,:~dhoC'k
I magine que você está passando a lllrde em uma área de
ca111ping ou cm um parque Jlorcst:il, passeando à beira de um
lago. Enquanto se deita e lOma sol , você observa urna garotinha
brincar de atirar pedras na superfície da água. Paro conseguir
um melhor arremesso. a menina antes escolhe uma pedra em
uma pilha delas. E uma vez com n pedra na mão. ela se esforça
para conseguir um bom arremesso. Cada vez. que uma pedra é
lançada conforme o desejado, a menina sorri e seu entusiasmo
aumenta. Porem. quando o lançamento sai errado. sua expressão
fica sombria. mas lnmbém se percebe um aumento na sua deter•
mina\-ãO. No começo. ela tentava fazer com que a pedra ricoche-
teasse somente uma vez. na superfície da água. Porém, após algum
treino e muitos sorrisos. a menina aprimorou seus lançamento.,.
dominando três ou quatro técnicas mais apuradas - por exemplo.
faz.endo a pedra cobrir uma longa distáncin cm um único salto.
obtendo vários ricochetes em dislâocios mais curtas ele. Ela então
passa a atirar outras pedras, pesadas como granadas de mão. que.
ao baterem na água. soam como ex.plosões em sua imaginação.
E as~im ela prossegue entretida com as pedras. sem se lembrar
da família. que se ocupa de uma fritada de peixes.
A tolctrllncia ao fr.i,:;a,._,;o
Es1rururo1
Apo,Mdo o Competência
F e,uJbacJ: pos,livo
O prazer do cle~a.lJo e,n oI,el ótimo eft:t:dback po.11ivo
RELA• ONA111ENTOC011J OS OUTROS
Envolvendo o Relacio11:unen10: Interação com os Ou=
Stu.i.,f:12et1do os Rel:!L"io,1:unento,: a Percepç:lo do Vinculo Social
Relações de ComunMo e de Troc-J
lntemalizaçlo
JUNTANDO AS PEÇAS: CONTEXTOS SOCIAJS QUE
ENVOLVE.."1 E SATISFAZEM AS NECESSIDADES
PSICOLÓOICAS
Compromisso
O que dã qualidade ao nosso dia?
Viulicbcle
RESUMO
LEITURAS PARA ESTUDOS ADICIONAIS
A garota está brincando. Para ela, ama criança urbana, o lago
é um ambiente relativamente novo. que lhe permite usar a iniagi•
nação de uma maneira diferente do aormaJ. Ao brinc.rr, ela se
sente excitada e entretida Cada pedra e cada lançamento lhe
ofürecem um resaJtado diferente e surpreendente. Cada Lentali va
desafia suas hllbilidadcs, fornecendo-lhe umn experiência que. de
certo modo. lhe causa uma enorme satisfação. Ao atirar as pedras
e vàlcr-se de sua imaginação, a mc.n i na se sente con1pctcntc.
livre. e também aprende algo e desenvolve suas habilidades. Tal
comportamento. cm vez de ser somente uma brincadeira frívola.
é algo que lhe proporciona um desenvolvimento ~aud:ível. O lago
é parda criança um ambiente que lhe fomcoc a oportunidade de
aprender a gostar de uma atividade simplesmente pela experi-
ência e diversão a ela associadas.
Assim como a.\ brincadeiras de crianças. atividades como a
prática de esportes, o cultivo de lrobbies. o estudo. o trabalho e
viagens também oferecem oportunidndcs para as pcs.~oas partici-
pare1n de atividades capazes de envolver e satisfazer suas neces-
sidades psicológicas. Este cnpítuJo examina o significado moti-
vacional de três necessidades psicológicas: autonomia. compe-
tência e relacionamento. O terna que perpa.,sa todo o capítulo
é que. qumdo .1,e encontram cm ambientes que apóiam e satis-
fa1.em suas necessidades psicológicas, as pessoas, em decorrência
disso. experimentam um desenvolvimento saudável e emoções
positivas.
NECESSIDADES PSICOLÓGICAS
Pessoa. .. e animais são inerentcmente ativos. Quando crianças.
puxamos e empurramos as coisas; sacudimos, atiramos, carre-
gamos e exploramos os objetos que nos cercam, e oiío cessamos
de indagar sobre eles. Tampouco quando adultos paramos de
explorar e de brincar. Divenimo-nos com jogos. resolvcmo.1,
mistérios, lemos livros. visitamos amigos. aceitamos desafios,
dedicamo-nos a hobbies. navegamos na Internet. construímos
coisas novas, e exercemos um grande número de outras ati\'Í•
dades, pelo fato de que são inercntemcnle interessantes e agra•
dáveis de fazer.
Quando uma atividade diz respeito a nossas necessidades
psicológicas, el:i nos dc.1,-pcrta interesse. E qu:indo a ativid:ide
satisfaz nossas necessidades psicológicas. sentimos prazer nela
(por exemplo. dizendo algo como "jogo tênis porque é diver-
tido''): porém. as causas motivacionais subjacente de nosso
engajamento ao ambiente são o envolvimento c a satisfação de
nossas necessidades psicológicas. Divertir-se com jogos, resolver
n1istérios e aceitar desafios são atividades interessante., e praze•
rosa.~ precisamente porque representam para nós uma a.rena em
que som.os c3pazcs de envolver e satisfazer nossas necessidades
psicológicas.
As. necessidades psicológicas constituem uma parte impor-
tante de nossa análise sobre a motivação do comportamento.
Como discutimos ao capítulo anterior. as necessidades fisioló-
gicas de água, alimento. etc., provêm de nossos déficilS bioló-
gicos. Este tipo de comportamento motivado é cssencialmc.nte
reativo, no sentido de que seu propósito é aliviar e reagir n Ulllll
condição corpornl de deficiência. Já as aecess.idades psicológicas
.são de natureza qualitalivamcnle diferente. A energia ger.ida
pelas necessidades psicológicas é proativa. As necessidades
psicológicas causam cm nós uma dispos.ição de cxplornção e de
Neces.~idades Psicológíeti 65
cavo) vimcnto con1 um ambiente que. conforme csper.imos. seja
capaz de satisfazer essa.~ necessidades.
A &trutura da Necessidade
Existem diferentes tipos de necessidade. que podem ser organi-
zados dentro de uma cstrutur.i da necessidade. conforme ilustra
a Figura 5.1 . As. necessidades fisiológicas (sede, fome. sexo) são
inerentes ao funcionamento dos sistemas biológicos (Capítulo
4). Já as necessidades psicológic.ss (autonomia, competência,
rclacion:imento) são increntes aos esforços próprios d:i aalll•reza e do desenvoh'imento da saúde dos seres humanos (assunto
deste capítulo). E as necessidades sociais (realização. intimidade.
poder) s.'io internalizadas ou aprendidas a pan iT de nossas histó•
rias relacionadas ã emoçlo e à socialização {Capítulo 7).
A distinção entre aoccs.'>idadcs fisiológic.ss e aeces..~idadcs
psicológicas é relativamente fácil de fazer: porém. a distinção
catre necessidades psicológicas e necessidades sociais é mais
sutil. As. necessidades psicológicas (autonomia. competência.
relacionamento) existem na nalurcza humana e. portanto, são
inerentes a todas as pessoas. Três dessas necessidades orgaoís-
micas são a autonomia. a competência e o relacionamento. Já
as necessidades sociais surgem a partir de nossas experiências
pessoais úrúca.s e. portanto. variam consideravelmente de um
indivíduo para outro. As necessidades sociais (de realização.
afiliação. inúmidadc e poder) que adquirimos dependem do tipo
de ambiente social em que fomos criados. no qual estamos atual·
mente vivendo ou que t.-stamo~ tentando criar futuramente para
o nosso self.
Uma Abordagem Organísmica da Motivação
As três nc:ce.,;sidadcs psicológicas que abordaremos neste capí•
tulo são às vezes chamadas de necessidades psicológicas orga-
nísmicas (Deci & Ry:m. 1991 ). As teorias organísmicas têm seu
nome proveniente do tenno organis,no, ou seja. uma entidade
viva e que se encontra em wna troca. aliva com seu ambiente
(Blasi, 1976). A sobrevivência de qualquer organismo depende
do ambiente cm que ele se encontra. uma vez que o ambiente
Necessidades
Nec:eN"idades Nec:eN"idades Necessidades
Fisiológicas Psicológicas Sociais
(C.pn:ulo 4} (C.pitulo 5) (capi,ulo 7)
• Sede, • AUIOMml• • RollzoçliO
• Fome • Compe1rod• • AfiU:,çio. tnclmidJde
• Sexo • Reladorwnc-010 • Poder
Flgura 5.1 Tipo, de Neres~Jdades
66 Capíu1Jo Cinco
lhe oferece recursos como alimento. água. apoio social e esti•
mulaçào intelectual. E todos os organismos são equipados para
iniciar e engajar-se cm trocas com seu ambiente. uma vez que
todos os organismos dispõem de habilidades e de motivação
para exercitarem e de!.Cnvolvcrem essas habilidades. As teoria~
organísmic:.is da motivação reconhecem que os nrnbien tes estão
continuamente mudando e. em função disso, os organismos
necessitam de ílexibilidade para se ajlllltar e se acomodar a essas
mudanças. Os organismos também precisam de recursos ambien-
tais para crescerem e para utilizarem seus potenciais latentes.
Para se adaptar, os organismos devem aprender a substituir uma
resposta anteriormente bem-sucedida mas agora ultrapassada ( em
função da ahcraçiio do ambiente). por uma resposta nova. e os
organismos precisam também crescer e se desenvolver de modo
que neles surjam novas habilidades, no,·os interesses e novas
maneiras de se ajustar. Todo o foco aqui se concentra em como
os organi~mos iniciru:n su:1s interações com o ambiente e como
os organi.=s se adaptam. se modificam e crescem em função
dessas transações ambientais.
O oposto de um::i abord::igem organí.~mic::i é Ll.lil3 abordagem
mecanicista. Nas teorias mecanicistas. o ambiente atua sobre o
indivíduo. e o indivíduo reage. Por exemplo. o ambiente produz
calor, e o indivíduo responde a L~o de uma maneira previsível e
automática - suando. O suor leva à perda de líquido, e quando
os sistemas biológicos detectam essa penl.i. a sede surge de modo
automático (ou seja, mecanicamente). O Capítulo 4 discutiu
essas ncccssid::ides de raízes biológicas. Capítulos subseqüentes
irão discutir outros moúvos relativamente mecanicistas (p. ex ..
o reforço no C::ipítulo 6: a unidade TOTE no Capítulo 8). Em
cada uma dessas abordagens. você verá que o indivíduo e seu
ambiente relacionam-se segundo uma única direção, de modo
que o ::unbiealc atua e o indivfduo rc::ige.
INDIVÍDUO,____,
A Dialétíca Pessoa-Ambiente
As teorias organísmicas rejeitam cs..~ repruscnt·açiio que leva
cm conta essa direção única (ambiente-'> pessoa), enfatizando.
em vez disso. a dialética pessoa-ambiente (Deci & Ry.in. 1991:
Rccve, Dcci & Ryan, 2003). Na dialética. o ambiente atua sobre
a pessoa e a pessoa atua sobre o ambiente. T.into a pessoa quanto
o ambiente estão continuamente pas.~do por mudanças.
As pessoas atuam sobre o ambiente cm funçiio da motivaçiio
intrínseca que elas têm por buscar e promover aJter.ições no
ambiente e, por outro lado. o ambiente aprcscnw demandas às
pc.~soas para que elas se ajlL~lem e se acomodem ::i e le (Dcci &
Ryan. 1985a). O resullado dessa dialética pessoa-ambiente é
uma síntese continuan1ente mutáve l. na qual as necessidades
da pessoo são satisfeitas pelo ambiente, e o ambiente produz na
pessoa novas fonna., de motivação. A dialética pessoa-ambiente
está representada na Figura 5.2.
A abordagem org:mísmica da motiv::ição parte da suposição
de que o organismo é inerentemenle ruivo. As necessidades
psicológica~. os interesses e os valores integrados constituem a
fonte dessa ruividade inerente (Deci & Rian. 1985a). Essa ativi•
dade incrente está representada pcl:l sct::i superior na Fígum 5.2.
A dialética pessoa-ambiente supõe que os eventos ambientais
afclllm o indivíduo. oferecendo- lhe dcs::ifios, [eedback. oportu•
nidades de escolha, atividades interessantes e relações de apoio,
que às vezes cnvoh•cm e satisfazem o indivíduo mas que. outras
vezes. ignor,un e frustram suas necessidades psicológicas. seus
interesses e sun.~ preferências. Os ambientes também oferecem
prescrições (do tipo ·'faça isso"). proscrições ("'não faça aquilo").
aspirações ao bem-estar ( como a idéia do "sonho americano .. ).
bem como objetivos e prioridades ("você deve querer í.sso; você
precisa valorizar aquilo"). e diversos p::ipéis que o indivíduo
O andh·ídoo con1promc1c-sc no :unhiemc peb
cxpn:ssiio de SC'\I sdf.ou müo pelo dc,;tjo ck
lnccnglr cítdcnlc111CDlc com scu mdo
N ccessidades
Psicológkas
• Autonomb
Interesses e
V.t.lores
Ofertas do
Ambtent<'
Rela~. Influência~
Sodocultwais
• lntcttsscs
• Com~êncb • l'rclerêncbs
• Rd:J.doo;imcnw • Valora
O amblc:-n1c, is ,c,u,s. cn,-olvc e b.ltisf:n
os rccllTS05 internos 00 UldivJduo, nu.-.
ouu2s vezes tgnora. C' frustr:3 uis intcn:sscs_
• Ali..-i<bdcs Interessante,,
• Ocsllfim
• Fttdbadl
• EscoDus
• tncc:-nti,-os. Ra:ampcos:,s
Figura 5.2 futrutura Dialética Pe • .oa-Ambiente oo Estudo da J\.10liva.,Jo
• Prcscrk;õc,•
• Proscrlçõcs
• A,,plr.oçõcs oo Bcm-c:<W-
• Priori<bdcs. ~lcu.,.Papcls
• Oum.s lntccrpcsso;tls
aceita como parte de seu self socializado (por exemplo. como
professor. c6njuge. recepcionista) e q ue afetam os recursos moti-
vacionais internos do indivíduo, tanto parn melhor quanto para
.
pior.
A s ecessidades Psicológicas O rgan ismicas
Considere por que as pessoas q uercm se exercitar e dcscnvo I ver
suas habilidades para, por exemplo, raminhar, ler. nadar. dirigir,
fazer amigos e centenas de outrJS competências. Em parte. essas
competências surgem da maturidade. mas elas surgem principal-
mente por meio das oportunidades e das manifestações propí•
cias vindas do ambiente (Gibson, 1988: \Vhite. 1959). As ncces-
sidad~ psicológicas organísmicas fornecem a n10úvaçâo que
apóia cs.,;a iniciati v-.i e a aprendizagem (Dcci & Ryan. 1985a:
White. 1959). Conforme iJustramos na abenura deste ca:pítuJo
com a história da garotinha atirando pedras. as crianças são o
n1elhor exemplo de como as necessidades psicológicas orga-
nísmica.~ motivam o exercício e o desenvolvimento de habili-
dades. Incessantemente. as crianças mudam de um lugar par.i
outro aparentemente sem qualquer motivação para isso, a não
ser o fato de desejarem fazer aJgo melhor do que fizeram antes
(ou seja. em função da sua necessidade de competência). Além
disso. as crianças têm o desejo de experimentar o mundo 11 sua
própria maneira, decidindo elas mesma., o que fazer. como fazer.
quando fazer e mesmo se vão ou não fazer (cm decorrência da
sua necessidade de autonomia).E quais ati"idade.,, h:ibilidadcs
e valores as criançus consideram serem importantes é algo que
depende das atitudes. dos valores e dos climas emocionais que
lhe são oferecidos pelas pessoas importantes cm sua vida (o que
decorre da sua necessidade de relacionamento).
Coletivamcate, as necessidades psicológicas organísmicas
de autonomia. competência e de relaciona.mcnto fornecem às
pessoas uma motivação natur:iJ para uprcadcr, crescer e desen-
volver-se. E o sucesso o u frucasso na obtenção dessa aprendi-
zagem. desse crescimento e desse desenvolvimento saudável é
rugo que depende do fato de os ambientes apoiarem ou frustrarem
a expressão de suas necessidades de autonomia. oompctênci:i e
de relacionamento.
AUTONOMIA
Ao decidirmos o que fazer, queremos que haj:i opções e flexibi-
lidade cm nossa tomada de decisão. Desejamos ser pessoas que
decidem o que fazer. quando fazer. como fazer. quando par.i.r
de fazer e mesmo que possam escolher se rugo irá ser fe ito ou
não. Queremos decidir nós mesmos como gastar nosso tempo.
Queremos ser quem determina suas própria~ ações. em vez de
haver ourrn pessoa ou alguma limitação ambiental que nos force
a seguir um determinado curso de ação. Desejamos que nosso
comportamento não esteja divorciado, mas sim conectado ao!>
nossos interesses, nos=~ preferências. nossas vontades e nossos
desejos. Querc010s que nosso com.portamento surja e expresse
nossa.~ prcferéncias e nossos desejos. E que.remos ter a liberdade.
de construir nossos próprios objetivos. bem como a liberdade
de decidir o que é irnponante. e o que vale e o que não vale o
emprego do nosso tempo. Em outras pal:ivras: temos necessi-
dade de autonomia.
Neces.~idades Psicológíeti 67
Nosso comportamento é autônomo (ou autodetcrminado)
quruido nossos interesses. aossas preferência.~ e nossa.~ vontades
guiwn nosso processo de tomada de decisões sobre participannos
ou não de uma atividade em particular. Essa autodeterminação
nos falta (ou seja. nossos comportamentos passam a ser deter•
minados por outros) no momento em que certas forças cxle•
ri ores nos pressionam a pensar. a sentir e a nos comportarmos de
maneiras determinadas (DecL 1980). FormaJmcntc, a autonomia
(3utodctcrn1inação) é a necessidade dccxpcrimcnt:ir Ul1UI escolha
na iniciação e na regulação do comportamento, o que reflete o
desejo de fazer suns própria~ csc0Jh:1s. em vez de deixar q ue
os eventos wnbientais determinem as ações que se deve tomar
{Deci & Ryan, 1985a).
Como mostra a Figura 5.3. três qualidades cxpcrienciais
operam juntas para definir a experiência subjetiva de auto-
nomia: o lócus de causalidade percebido, a escolha percebida
e a volição.
O lócus de causalidade percebido (LCP) refere-se 11 compre-
ensão que o indivíduo tem da fonte causaJ de suas :içõcs moti-
vadas (Heidcr. 195&). O LCP existe dentro de um conti11u11111
bipolar que varia de interno para externo. Esse contin1111111 reflete
a percepção do indivíduo de que seu comportamcato é iniciado
a partir de uma fonte pessoal (LCP interno) ou de uma fonte
ambiental (LCP externo). Poreltemplo, porque você lê um livro?
Se a r.izão para lcré algum agente interno do seu sclf (interesse.
valor). então o motivo de você ler provém de um LCP interno.
Entretanto. se a raz5o para você ler for a lgum agente moliva-
cional do ambiente (um teste que vooê far:i. ou o fato de seu chefe
obrigá-lo a isso).cntàoo motivo de você ler provém de um LCP
externo. Alguns preferem dizer que a pessoa é uma uorigem .. ou
um "peão" para distinguir alguém cujo comporlllmento emana de
um LCP interno de alguém cujo comportamento emana de um
LCP externo (dcChanru, J 976. 198-1: Ryan & Grolnick.. 1986).
Origem "origina•· seu próprio comportamento intencional Já um
"peão". uma metáfora in.~pirada no jogo de xadrez. capta a expe-
riência que sentimos quando pessoas poderosas nos conduzem
de m3IlCir3 semelhante àquela como os patrões chefiam seus
empregados. os sargentos coma:ndam seus subordinados ou os
pais mruidam cm seus filhos.
A volição é uma vontade que o indivíduo tem de se engajarem
uma certa atividade. poré1n sem serpressioaado a fazê-lo {Deci,
Ry:in & \Villiams, 1995). A volição está centrada no quanto de
liberdade Vt!rsus coação a pessoa sente enqu:into está fazendo
Locus lnicrno
de- Causilld:u:lc
Pcen:cbódo
i\UIODOml>
Percebida
\ 'ollçio
(Sc:nnmento
de Ubcnbdc)
Pcn:cpçiio de
HiYcr E.scolhlclo
Sws Próprb.s i\ç~
Figura 5.3 Tres QuaHdadei. Subjelíva, oa E.l.periência ili! Auto1101nia
68 Capíu1Jo Cinco
algo que ela quer fazer (p. ex .. brincar. estudar. falar). e também
no quanto de liberdade 1•ersus coação a pessoa sente enquanto
est5 evitando fazer algo que não quer fnzer (p. ex .. não fumar,
não comer, não pedir desculpas). A volição é elevada quando
a pes.,;oa se engaja cm uma atividade ao mesmo tempo cm que
se sente livre e que suas ações são plenamente endossadas pelo
seu self - dizendo essencialmente: "'Quero fazer isso por minba
própria vontade" (Dcci & Ryan. 1987; Ryan. Kocstncr & Dcci.
l 991 ). O oposto da volição e da sensação de liberdade é sentir-
se pressionado ou coagido a pratic:ir uma ação. Além de serem
pressionadas pelo ambiente, as pessoas às vezes crian1 dentro
de !>i uma motivação derivada da pressão. capaz de forçá-las a
executar uma dclenninada ação - dizendo essencial mente: " Eu
tenho que fazer isto" (Ryan. 1982: Ryan. Mims & Koestner.
1983; Ryan. Kocsmcr & Dcci, 1991).
A escolha percebida refere-se àquele sentido de escolha que
experimentamos quando nos encontramos cm ambientes que nos
fornecem uma flexibilidade na tomada de decisão. e que nos apre•
sentam diferentes oportunidades a escolher. O oposto da escolha
percebida é aquela sensação de obrigação que experimentamos
quando nos encontramos em ambientes que. de maneira rígida e
inflexível, nos obrigam a tomar um determinado curso de ação.
Por exemplo. quando as crianças podem fazer escolhas referentes
o seu trnbalho escolar (Cordova & Lepper. 1996). quando os resi-
dentes de um lar de idosos têm o pode de decidir a maneira como
agendar suas atividades diárias (Langcr & Rodin. 1976). e quando
os paciente.- se comunicam com médicos ílexíveis (não-autoritá-
rios) (Williams & Deei. 1996). então a.~ crianças, os idosos e os
pacientes sentem que seu comportamento ílui de um certo senti -
mento de escolha. Entretanto. nem todas as escolhas são iguais e
tampouco todas elas são capazes de promover autonomia (Rccve
Nix & Hamm. 2003). Uma escolha entre opções oferecidas por
outros não consegue se referir nem envolver a necessidade de
autonomia (p. ex .. quando alguém lhe pergunta: "você quer ouvir
música scrtruJeja ou música clássica? .. : Overskeid & Svartdal.
1996: Schra,v. Flowerday & Reisettcr. 1998). Em vez disso.
somente quando as pessoas podem escolher suas próprias ações
(p. e.'< •• '"para começo de conve_rs::i, você quer escut:ir músicaT1
é que elas experimentam um sentimento de autonomia (Cordova
& Lepper, 1996; Reeve ct ai 2003).
Apoiando a Autonomia
Os ambientes. os eventos externos. os contextos sociais e as rela-
ções variam quanto à intensidade de apoiarem ou não a aece..,;-
sidade que o indivíduo tem de autonomia. Alguns ambientes
envolvem e satisfazem nossa necessidade de autonomia. ao passo
que outros ignoram e fru..~tram essa necessidade (lembre-se da
Figura 5.2). Por exemplo. quando o wnbi.ente impõe uma data-
limite par.i o indivíduo fazer algo. ele interfere na autonomia
dessa pc.~soa; mas. quando lhe oferece oportunidades de auto-
dirccionamento. o ambiente apóia a autonomia desse indivíduo.
Tambén1 as relações podem às vezes apoiar e outras contra-
riar nossa necessidade de autonomia, algo que ocorre quando.
por exemplo. um treinador ralha com seus atletas (o que solapa
sua autonomia) ou. ao contrário, quando uma professora escuta
atentamente seus alunos e utilaa essas infonnaçõcs para lhes
dar a oportunidade de trJbalharem do jeito que quiserem