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Hermenêutica Ms. Flávio Henrique de Oliveira Silva Junho / 2014 Coordenação editorial: Depto. Desenvolvimento Institucional Professor autor: Flávio Henrique de Oliveira Silva Coordenadoria de Ensino à Distância: Gedeon J. Lidório Jr Projeto Gráfico e Capa: Mauro S. R. Teixeira Revisão: Éder Wilton Gustavo Felix Calado Designer Instrucional: Wilhan José Gomes Impressão: Artgraf Ind. Gráfica e editora Todos os direitos em língua portuguesa reservados por: Rua: Martinho Lutero, 277 - Gleba Palhano - Londrina - PR 86055-670 Tel.: (43) 3371.0200 03 SUMÁRIO Unid. - 01 Hermenêutica: Questões introdutórias - parte I................05 Unid. - 02 Hermenêutica: Questões introdutórias - parte II...........13 Unid. - 03 A necessidade de interpretação................................................19 Unid. - 04 História da Interpretação Bíblica - parte I..........................29 Unid. - 05 História da Interpretação Bíblica - parte II........................39 Unid. - 06 Algumas Leituras Bíblicas na Atualidade...........................47 Unid. - 07 Métodos de Interpretação Bíblica..........................................55 Unid. - 08 Recursos para uma Análise Contextual - parte I............63 Unid. - 09 Recursos para uma Análise Contextual - parte II...........71 Unid. - 10 Recursos Literários - parte I......................................................77 Unid. - 11 Recursos Literários - parte II....................................................87 Unid. - 12 Recursos Literários - parte III..................................................93 Unid. - 13 Interpretando Narrativas - parte I.......................................103 Unid. - 14 Interpretando Narrativas - parte II.....................................109 Unid. - 15 Interpretando Narrativas - parte III...................................115 Unid. - 16 Interpretando Narrativas de Milagres - parte I.............121 Unid. - 17 Interpretando Narrativas de Milagres - parte II...........127 Unid. - 18 Hermenêutica e Comunicação...............................................139 Hermenêutica04 05 Hermenêutica Unidade - 01 Hermenêutica: Questões introdutórias Parte I Introdução Olá, sejam bem vindos(as) à disciplina de hermenêutica bíblica. A hermenêutica é uma ciência de importância primária. No entanto, muitos pregadores e leitores da bíblia (e de outros textos) não a conhecem e outros a ignoram. Que é, pois, a hermenêutica? “A arte de interpretar textos”, responde o dicionário. O apóstolo Pedro admite, falando das Escrituras, que no Novo Testamento “há certas cousas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras (as do Antigo), para a própria destruição deles” (2 Pe 3.16). Vejamos este exemplo: “Entendes o que lês?” Texto: Atos 8:26-35. (próxima página) Hermenêutica06 Texto: Atos 8:26-35. E o anjo do Senhor falou a Felipe, dizendo: Levanta- te e vai para a banda do sul; ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, que está deserta. E levantou-se, e foi; e eis que um homem etíope, eunuco mordomo de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos, os seus tesouros, e tinha ido a Jerusalém para adoração, regressava, e assentado no seu carro, lia o profeta Isaías. E disse o Espírito a Felipe. Chega-te, e ajunta-te a esse carro. E, correndo Felipe, ouviu que lia o profeta lsaías, e disse; Entendes o que lês? E ele disse: Como poderei entender, se alguém não me ensinar? E rogou a Felipe que subisse e com ele se assentasse. E o lugar da Escritura que lia era este: “Foi levado como ovelha para o matadouro, e, como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, assim não abriu a sua boca. Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; e quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra.” E, respondendo o eunuco a Felipe, disse: rogo-te, de quem diz isto O profeta? De si mesmo, ou de algum outro? Observações sobre esse texto: 1. Um homem que estava lendo a Bíblia. Era culto e inteligente, assim requeria a posição de destaque que ocupava. 2. Sua confissão. “Como o poderei entender?” Até certo ponto ele entendia o que estava lendo. Compreendia evidentemente que o profeta falava de grandes padecimentos e extrema humilhação que um servo do Senhor teria sofrido ou iria sofrer. Faltava-lhe, porém entender o essencial para a clareza da profecia: quem era esse servo de que falava o profeta? 07 3. Outro homem lhe explica o texto, fazendo uso da mesma Bíblia e guiado pelo divino Espírito. “Começando nesta escritura”. Quer dizer que Felipe iniciou a explicação pelos demais versículos, do mesmo parágrafo que ia lendo o eunuco, ligando o sentido do texto aos versículos anteriores e posteriores (contexto). Ele continuou a esclarecer o assunto com o auxilio de outras partes do livro de Isaias e talvez, das demais Escrituras do Velho Testamento em que se tratava do mesmo assunto (passagens paralelas). Teria ele assim mostrado por esses outros textos, do mesmo Isaías, qual a significação que o escritor sagrado dava a suas próprias palavras; e, pelas outras escrituras, ter- lhe-ia indicado uma cadeia de profecias em plena harmonia com a passagem em apreço. 4. O viajante, apesar de não conhecer o evangelista, ouve atenciosamente a exposição, reconhecendo e aceitando a verdade, apesar dos preconceitos de raça e de religião e a desigualdade social da época. 5. Em sua exposição, o evangelista apresentou Jesus como o objeto das profecias e como o Salvador dos homens — objeto de nossa fé. Esse foi apenas um exemplo do trabalho que temos pela frente. Espero que de forma tranquila, com muita leitura e reflexão crítica, trilhemos um bom caminho rumo a essa importante tarefa: interpretar as sagradas escrituras. Vamos em frente! Objetivos 1. Apresentar uma noção básica do que significa hermenêutica; 2. Perceber a forma pela qual a Bíblia (nosso “objeto” de estudo) é a palavra de Deus; 3. Refletir nosso papel na tarefa de interpretação. Hermenêutica08 1. Definindo Hermenêutica Em seu significado técnico, hermenêutica refere-se à prática da interpretação definida como uma “ciência e arte”. Considera-se a hermenêutica como ciência porque ela tem normas, ou regras, e essas podem ser classificadas em um sistema ordenado. É considerada como arte, porque a comunicação é flexível. Portanto, uma aplicação mecânica e rígida das regras, às vezes, distorcerá o verdadeiro sentido de uma comunicação. Exige-se do bom intérprete que ele aprenda as regras da hermenêutica bem como a arte de aplicá-las. • Hermenêutica é ciência porque tem princípios seguros e imutáveis; e arte porque estabelece regras práticas. • Exigi-se do bom intérprete que ele aprenda bem as regras de interpretação, bem como a arte de aplicação (releitura) para sua própria realidade. O termo que dá origem a essa matéria vem do grego, hermeneutikós, que significa interpretação, ou arte de interpretar. O vocábulo grego hermenein, significa intérprete. Essa palavra deriva-se do nome de Hermes, que era tido como mensageiro divino e intérprete dos deuses, e que também era o deus da eloquência, que os romanos chamavam de Mercúrio. A teoria hermenêutica divide-se, às vezes, em duas subcategorias — a hermenêutica geral e a especial. • Hermenêutica geral é o estudo das regras que regem a interpretação do texto bíblico inteiro. Inclui os tópicos das análises histórico-cultural, léxico-sintática, contextual, e teológica. • Hermenêutica especial é o estudo das regras que se aplicam a gêneros específicos, como parábolas, alegorias, tipos, e profecia. 09 Segundo alguns estudiosos devemos separar a tarefa hermenêutica da exegese. Enquanto a hermenêutica se ocupa da interpretação como um todo, a exegese faz estudo pormenorizado de um texto buscando uma “aproximação” com o sentido pretendido. 2. A Bíblia como Palavra de Deus Um de nossos trabalhos consiste emaplicar as técnicas de hermenêutica ao texto bíblico. Dessa forma, sendo a Bíblia o objeto de nosso estudo, precisamos fazer, já nessa aula introdutória, algumas considerações. A primeira, e talvez mais importante, afirmação é que, de fato, a Bíblia é a palavra de Deus. Mas de que forma? O próprio Deus a ditou para os autores? Certamente que não: “...toda escritura é inspirada por Deus...” - 2 Tm 3:16. Existe uma grande diferença entre ditado (palavra que cai pronta do céu) e inspiração. A inspiração pressupõe a plena participação de seus autores e sujeitos (aqueles que estão diretamente envolvidos nos fatos narrados) no processo de construção de um texto. Esse processo acontece, sempre, a partir da realidade, tanto dos sujeitos como também do autor do texto. O ditado, por usa vez, os anula e tende a ignorar a realidade. O autor bíblico não repete o que Deus, em tese, ditou, antes, elabora a partir de sua vivencia o que Deus inspirou. Alguns podem se perguntar, mas e Moisés? Ele não recebeu uma espécie de palavra/lei ditada? Não! Deus se revela a Moisés a partir da realidade que o aflige e a partir da realidade de um povo que passa por um processo de formação social, política, econômica e religiosa. Deus e sua palavra (na Bíblia) não são coisas que se encontram fora da realidade das pessoas e os relatos que envolvem Moisés são a prova disso. Por isso, “entender a Bíblia como palavra de Deus é compreendê- la primeiro como palavra vivida e só depois como palavra escrita” (LARA, 2009, p.37). A Bíblia é a expressão de fé de um povo que conforme caminhava com seu Deus era inspirado por Ele a relatar suas experiências. Na Bíblia temos a história de fé do povo, o povo de Deus, e a revelação de Hermenêutica10 Deus na vida do povo. Portanto, desmaterializar a Bíblia das condições humanas é negar sua inspiração divina para a vida cotidiana. Essas narrativas de fé acontecem dentro da história de homens e mulheres, que no processo natural da vida vão “discernindo a identidade de Deus e sua vontade segundo as suas condições históricas e culturais” (LARA, 2009, p.37). Com isso, concluímos que a Bíblia é a palavra de Deus, mas simultaneamente um livro humano. Por ser humano, ainda que inspirado, tem seus limites, condicionamentos e seus distanciamentos (culturais, linguísticos, contextuais, etc.). Admitir a participação humana não significa, em hipótese alguma, eliminar seu caráter divino. Admitir que a Bíblia é um livro divino não significa negar as realidades concretas da vida em que ocorreram os fatos narrados e, no futuro, as realidades concretas na vida e contexto de quem relatou (autor do texto escrito) os fatos dados no passado. Negar esse processo comprometeria inclusive a aplicação dos textos para nossa realidade. Admitir a participação humana em um livro divinamente inspirado é estar convencido de que os textos bíblicos precisam ser interpretados. Eis então o trabalho da hermenêutica. Eis aqui o objetivo do nosso curso. 3. Leitura e Interpretação da Bíblia Por que lemos a Bíblia? Essa pergunta pode ser um norte interessante quando pensamos em nossa função de interpretes e no papel da hermenêutica bíblica. Não basta ler? Por que interpretar? Leitura e interpretação andam de mãos dadas: Ler é interpretar! A Bíblia não é mera história do passado, mas espelho para a nossa própria história no presente. Por isso, nossa leitura bíblica, além de um exercício de interpretação da Bíblia, é a interpretação da Vida com a ajuda da Bíblia. Além de tentar ver no texto a realidade que o gerou, “lemos a Bíblia para responder à ação de Deus através da nossa ação, como membros do povo de Deus, visando ao crescimento espiritual, à edificação da igreja, à realização da missão, à transformação das pessoas, grupos sociais e da própria sociedade” (ZABATIERO, 2007, p.23). 11 Conclusão Por hoje é só, pessoal! Não se preocupe, no início os assuntos em torno de nossa disciplina são um tanto quanto difíceis (especialmente para aqueles que nunca tiveram um contato como o tema) e precisamos de um tempo para reflexão e assimilação dos conteúdos. Por isso, a tarefa de hoje é repensar com calma cada questão aqui abordada. Bons estudos e até a próxima Unidade. Referências Bibliográficas LARA, Valter Luiz. A Bíblia e o desafio da interpretação sociológica. São Paulo: Paulus, 2009. OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009. ZABATIERO, Júlio. Manual de Exegese. São Paulo: Hagnos, 2007. Hermenêutica12 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 13 Hermenêutica Unidade - 02 Hermenêutica: Questões introdutórias Parte II Introdução Olá, pessoal! Na Unidade de hoje, ainda pensando em questões elementares (introdutórias) para nossa orientação quanto à hermenêutica, vamos abordar três pressupostos básicos que devem orientar o intérprete no processo de leitura e interpretação dos textos sagrados: O pré-texto do leitor, o contexto (do texto) e o texto. E ainda, tentar perceber a tarefa hermenêutica nesse processo. Vamos ao conteúdo! Objetivos 1. Apresentar os primeiros desafios do intérprete e da interpretação: pré-texto; contexto e texto; 2. Apresentar as duas tarefas fundamentais da hermenêutica. Hermenêutica14 1. Pré-Texto Toda tarefa de leitura pressupõe atribuição de sentido ao que se lê. Chamamos esse processo de interpretação. É inegável que toda interpretação é refém das condições do intérprete, sejam elas: existenciais, sociais, religiosas e até de interesses pessoais. Logo, concluímos que, levamos toda a nossa história, vivências e experiências aos textos que lemos. Nossa leitura está condicionada a nós mesmos. Nesse caso, o texto pode ser forçado a dizer coisas que nunca pretendeu dizer na sua origem. Alguns autores propõem um exercício de total esvaziamento a fim de que a leitura e interpretação do texto bíblico não corram qualquer risco de manipulação. Em parte isso está correto (embora devamos questionar a possibilidade concreta de esvaziamento), mas, por outro lado, a total anulação de nossas condições pode comprometer a releitura de um texto aplicado à realidade daqueles que se identificam com os primeiros leitores– aqueles a quem os textos foram, de fato, endereçados. Outras questões merecem atenção especial quando pensamos no pré-texto. Estou me referindo as nossas convicções teológicas, as nossas experiências de fé e as nossas doutrinas. Aproximamo-nos da Bíblia a partir daquilo que ela, de fato, nos revela ou condicionados: 1. por nossas teologias já sistematizadas/construídas:“eu creio assim e ponto final”. 2. por experiências religiosas do passado:“eu experimentei isso dessa forma e ponto final”. 3. pelas doutrinas que aprendemos desde sempre em nossas igrejas e comunidades:“eu aprendi assim, minha igreja prega assim e ponto final”. É óbvio que cabe na caminhada cristã boas construções teológicas, experiências de fé e uma boa doutrina. Mas até que ponto nossas leituras bíblicas são apenas reforço do que já está estabelecido e estão aprisionadas a tudo isso? 15 2. Contexto Em uma de nossas aulas gastaremos um bom tempo pensando nesse tema. Por enquanto, cabem aqui algumas considerações iniciais. Pensar no processo de produção de um texto bíblico exige de nós algumas observações. Quando estamos diante de uma narrativa (nem todos os textos bíblicos são classificados dessa forma), por exemplo, devemos pensar em dois momentos diferentes: (1) o fato em si; (2) o contexto em que o texto foi escrito, mencionando o fato. Sim, são dois momentos distintos. Por exemplo, as coisas que encontramos nos evangelhos, a respeito da vida e ministérios de Jesus, só foram escritas tempos depois (pelo menos vinte e cinco anos depois). Qual era o contexto que envolvia o fato? Ou seja, quais eram as condições sociais, políticas, religiosas e econômicas em torno do fato? As mesmas perguntas precisam ser feita em relação ao texto escrito. Qual a condição do autor, para quem escreveu, como viviam seus destinatários, de que forma o texto escrito responde as questões vividas pelos receptores do texto? Todas essas informações nos ajudarão no processo de compreensão do texto analisado. Sem esse tipo de análise, a compreensão de um texto e, consequentemente, sua aplicação e transmissão estará seriamente comprometida. 3. Texto Quando estamos diante de um texto precisamos ter em mente que o mesmo tem um significado. Ou seja, ao escrevê-lo, seu autor tinha uma intenção clara, atribuindo sentido ao que pretendia comunicar. Aqui cabe uma pergunta que deve nos acompanhar sempre: “o que o autor quis dizer com esse texto?”. Simples, pergunte a ele! Que bom se fosse assim, mas quase nunca isso é possível. Existe uma enorme distância entre autor (emissor) e o receptor (leitor). Essa distância do autor e, consequentemente, de seus escritos se torna ainda mais problemática em textos antigos (é o caso dos textos bíblicos). Além da distância temporal temos que lidar com distância cultural e linguística. As línguas em que a Bíblia foi escrita não existem Hermenêutica16 mais. Nos dias de hoje não se fala mais o hebraico, o grego e o aramaico na forma como foram utilizados nos textos bíblicos. Esse é um dos grandes desafios para o trabalho de interpretação de um texto, já que cada língua tem suas particularidades na maneira de expressar ideias, contar histórias, etc. Por conta dessa realidade, é comum que as pessoas tragam conteúdo próprio para suas leituras. Como isso, perspectivas diferentes aparecem: duas ou mais pessoas enxergam o texto, às vezes, de maneira bem diferente uma das outras. Diferente inclusive da proposta original de seu autor. Dentro dessa ideia, muitos advogam que um texto comporta percepções diferentes. Logo, não existe interpretação certa ou errada do ponto de vista do leitor. Até certo ponto isso está correto, entretanto é preciso fazer uma distinção entre significado/sentido original e aplicação. As aplicações são multiformes, mas o significado é único, embora o máximo que consigamos é nos aproximar dele. Portanto, a primeira tarefa da hermenêutica (em linhas gerais) é trabalhar na aproximação do sentido original do texto atribuído pelo seu autor. “Qual é a intenção do autor”? Com base nessa resposta, a aplicação, então, pode ganhar contornos multiperspectivos. Mas lembre-se: quanto mais perto chego do autor e do significado pretendido por ele, melhor e mais coerentes são minhas aplicações. Sem essa percepção, sem um bom trabalho hermenêutico – possibilidade de aproximação, ou seja, de extrair o significado original dado pelo autor – o sentido (e até mesmo a aplicação) de um texto ficará ameaçado. Além de achismos e risco de manipulação, “a leitura do texto pode cair no vazio da ausência de significado, pois o passado e o que nele foi escrito passam a não dizer mais nada que tenha valor e sentido ao presente, e muito menos ao futuro” (LARA, 2009, p.36). Durante o curso, veremos quais os processos que podemos utilizar 17 na tentativa de aproximação e extração do significado original dado pelo autor de um texto e alguns caminhos para uma boa aplicação (re- leitura) do texto. Vejamos abaixo um quadro que resume essas ideias. Tarefa Hermenêutica Caminho Resultado 1ª Aproximação do Significado/ Sentido do Texto Busca pela Intenção (aproximada) do Autor Único: porém, aproximado e não definitivo; 2ª Aplicação (releitura, atualização) do Texto Bíblia e Realidade Múltiplo: porém, embasado no resultado da aproximação de sentido; Conclusão Concluo esta unidade com o mesmo desafio lançado na anterior. Precisamos de um tempo para reflexão e assimilação dos conteúdos. Por isso, nossa tarefa é repensar com calma cada questão aqui abordada. Um caminho interessante seria tentar responder a seguinte pergunta: Até que ponto nossas leituras bíblicas são apenas reforço do que já está estabelecido (pelas nossas experiências, doutrinas, etc.) e estão aprisionadas a tudo isso? Até a próxima pessoal! Hermenêutica18 Referências Bibliográficas LARA, Valter Luiz. A Bíblia e o desafio da interpretação sociológica. São Paulo: Paulus, 2009. OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009. Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 19 Hermenêutica Unidade - 03 A necessidade de Interpretação Introdução Olá, pessoal. Na unidade de hoje refletiremos sobre a necessidade de interpretação das escrituras. Embora a resposta pareça óbvia, existem ainda muitas resistências a esse processo e muitos se perguntam: a hermenêutica é mesmo necessária? Espero que ao final dessa unidade cada um de vocês responda positivamente a essa questão. Objetivos 1. Analisar a necessidade da hermenêutica aplicada aos textos bíblicos; 2. Entender o principais pontos de distanciamento entre os leitores e os escritores do texto bíblico; 3. Entender duas, entre as principais, funçõesda hermenêutica ao lidar com os distanciamentos; 4. Fazer um breve (e simples) exercício de reflexão hermenêutica frente aos desafios do distanciamento. Hermenêutica20 1. A necessidade de interpretação É comum encontrarmos pessoas se perguntando se é, de fato, necessário que a Bíblia seja interpretada. Alguns responderiam de imediato que não. Para esse grupo, os argumentos, entre tantos outros, são: • A Bíblia já foi escrita em uma linguagem pura e simples de entender: Se é palavra de Deus para o povo, por que Deus dificultaria seu entendimento? • A Bíblia é clara e objetiva: Em outras palavras, devemos entendê-la de maneira literal. • Processos interpretativos, por envolver pensamentos e critérios humanos, podem contaminar a mensagem originalmente divina. • Processos interpretativos demandariam a criação de mediadores entre Deus (através das escrituras) e o povo. Uma espécie de interpretação oficial, inquestionável, nasceria. Outro grupo responderia que sim, as escrituras devem ser interpretadas. Vejamos, então, um contraponto muito utilizado pelos que entendem a necessidade de interpretação, levando em conta os argumentos do primeiro grupo: • Existe um distanciamento enorme entre os textos bíblicos e nós. Distanciamento cultural, linguístico, etc. É evidente que existem textos mais fáceis, cuja compreensão exige menos de seus leitores. Por outro lado, muitos textos são complexos e estão intimamente ligados ao seu contexto de origem. Vejamos a afirmação de Pedro em relação às cartas do apóstolo Paulo: “... como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas cousas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam...” (2 Pedro 3:15b - 16). 21 A respeito da afi rmação de Pedro, vale destacar que, diferente de nós, Pedro não enfrentava distanciamentos culturais, linguísticos e contextuais em relação a Paulo. A Bíblia é uma coleção de livros divinamente inspirados, mas com a participação efetiva de seres humanos. São exatamente os aspectos humanos, na produção dos textos sagrados, que devem ser investigados. • A Bíblia se torna clara na medida em que nos comprometemos em interpretá-la de maneira imparcial usando para isso todas as ferramentas disponíveis de aproximação com o autor e o texto produzido por ele (contexto sócio-histórico; contexto linguístico; etc). Interessante é que, quem defende a literalidade na leitura de textos bíblicos o faz parcialmente. Existe uma seleção entre textos que devem ser lidos de maneira literal e os que dependem de contexto. Ou seja, os textos que me “atendem” em sua literalidade não precisam ser interpretados. Já os que me complicam, recorro ao contexto tentando dar o famoso “jeitinho” para que minhas responsabilidades não sejam expostas. • Toda leitura é um ato interpretativo. Dessa forma, todas as vezes que me aproximo do texto bíblico permito que meus pensamentos participem desse processo. Nesse caso, uma possível contaminação independe de um “processo de interpretação” ou de uma leitura literal de um texto sagrado. Outro argumento que merece destaque nesse ponto é a tradução dos textos sagrados do grego/hebraico para as demais línguas. Toda tradução (falaremos sobre tradução em um tempo oportuno) passou por um processo de interpretação por parte dos tradutores, cujo objetivo é aproximação (contextual, linguística, etc) com a mensagem originalmente divina. A respeito da afi rmação de Pedro, vale destacar que, diferente de nós, Pedro não enfrentava distanciamentos culturais, linguísticos e contextuais em relação a Paulo. Hermenêutica22 Vejamos um pequeno exemplo: Heb 13:17 NVI Nova Versão Internacional “Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles” ARA Almeida Revista e Atualizada “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles” Qual é a diferença entre as duas versões/traduções? Acertou quem identificou que na ARA não aparece à palavra autoridade. Para a surpresa de alguns, a palavra “autoridade”, que aparece na NVI, não consta no original. • O argumento a respeito do perigo do nascimento de mediadores na leitura bíblica (por parte daqueles que julgam desnecessário o processo de interpretação) é extremamente válido – houve um tempo em que a Bíblia ficou na mão do Clero. Sem acesso às escrituras o povo foi manipulado (veremos esse assunto com mais detalhes no futuro). Entretanto, conforme vimos na primeira aula, à pergunta é: “Já não é dessa forma que lemos a Bíblia?” Influenciados por mediadores que advogam em causa própria e se autointitulam detentores da revelação definitiva através das escrituras? Não é o processo de interpretação (criterioso, honesto, feito com preparo) que cria mediadores e seus adeptos, mas, quem sabe, a falta dele. 2. Distanciamentos A Bíblia é um livro divino, mas também um livro humano. É exatamente por isso, por se tratar de um livro humano que não caiu pronto do céu, mas foi um trabalho de várias pessoas em momentos, línguas e lugares diferentes e bem específicos aos seus contextos que 23 precisamos interpretá-la. Esse aparente abismo entre os leitores/ interpretes, primeiros leitores, o autor e os fatos narrados por ele é chamado de distanciamento. São eles: (1) distanciamento temporal; (2) distanciamento contextual; (3) distanciamento cultural; (4) distanciamento linguístico; (5) distanciamento autorial. Para entendermos, de forma introdutória, cada um desses distanciamentos vamos recorrer, na integra, aos escritos de Augustus Nicodemus Lopes1 que trabalha o assunto de maneira objetiva e com uma didática precisa: Distanciamento Temporal: A Bíblia está séculos distante de nós. Seu último livro foi escrito pelo final do século I da Era Cristã, o que nos separa temporalmente em cerca de dois milênios. A distância temporal, num mundo em constantes mudanças, faz com que a maneira de encarar o mundo, os aspectos culturais e linguísticos dos escritores da Bíblia se percam no passado distante. Portanto, como qualquer documento antigo, a Bíblia precisa ser lida levando-se isto em conta. Os princípios de interpretação da Bíblia procuram condições de transpor este abismo temporal. Distanciamento Contextual: Os livros da Bíblia foram escritos para atender a determinadas situações, que já se perderam no passado distante. É verdade que ao serem incluídos no cânon bíblico, eles passaram a ser relevantes para a Igreja universal. Por outro lado, recuperar o contexto em que estes livros foram escritos é essencial para entendermos melhor a sua mensagem. As cartas de Paulo foram escritas visando atender às necessidades de igrejas locais. Ou ainda, que o livro de Habacuque foi escrito num contexto de iminente invasão por potências estrangeiras. A mensagem do evangelho de Marcos fica mais clara quando descobrimos que Marcos escreveu provavelmente para ajudar os crentes romanos a enfrentar as provações que sofriam por causa de Cristo. E o livro de Jonas – especialmente a atitude de Jonas contra os ninivitas – ganha maior clareza quando descubro que havia uma antipatia natural dos judeus contra os ninivitas. Os princípios de interpretação da Bíblia procuram transpor as dificuldades criadas pela distância contextual. 1Baseado em LOPES, Augustus Nicodemus. Apostila (não publicada): Princípios de Interpretação da Bíblia: Por que Precisamos Interpretar a Bíblia?. Hermenêutica24 Distanciamento Cultural: O mundo em que os escritores da Bíblia viveram já não existe. Está no passado distante, com suas características, costumes, tradições e crenças. Muito embora a inspiração das Escrituras garanta que sua mensagem seja relevante para todas as épocas, devemos lembrar que esta mensagem foi registrada numa determinada cultura, da qual traços foram preservados na Bíblia. Os princípios de interpretação da Bíbliadevem levar em conta o jeito de escrever daquela época, a maneira de expressar conceitos e ilustrar as verdades, para poder transpor a distância cultural. Distanciamento Linguístico: As línguas em que a Bíblia foi escrita também já não existem. Não se fala mais o hebraico, o grego e o aramaico bíblicos nos dias de hoje, mesmo nos países onde a Bíblia foi escrita. Como cada língua tem seu jeito próprio de comunicar conceitos (apesar de uma estrutura comum a todas), princípios de interpretação da Bíblia devem levar em conta estas peculiaridades. O conhecimento do paralelismo hebraico certamente nos ajuda a entender os Salmos melhor, bem como os profetas. Distanciamento Autorial: Devemos ainda reconhecer que teríamos uma compreensão mais exata da mensagem de alguns textos bíblicos reconhecidamente obscuros se os seus autores estivessem vivos. Poderíamos perguntar a eles acerca destas passagens complicadas que escreveram e que continuam até hoje dividindo os melhores intérpretes quanto ao seu significado. Por exemplo, Pedro poderia nos esclarecer o que ele quis dizer com “Cristo foi e pregou aos espíritos em prisão”. Ou ainda, Paulo poderia nos dizer o que ele quis dizer com “o que farão os que se batizam pelos mortos?”. Mateus poderia finalmente tirar a dúvida sobre o sentido da frase de Jesus “não terminarão de percorrer as cidades de Israel até que venha o Filho do Homem”. Daniel poderia nos esclarecer a quem ele se referia por Ciro (de quem não temos registro fora da Bíblia) e porque considerava Belsazar filho de Nabucodonosor, quando era filho de Nabonido. Não endossamos o que alguns estudiosos afirmam, que com a morte do autor perdeu-se a possibilidade de recuperar-se a intenção dos mesmos. A razão é que a intenção 25 deles sobrevive no que escreveram. Mas certamente a ausência do autor faz com que a interpretação de textos obscuros seja necessária. Princípios de interpretação devem levar em conta o distanciamento autorial, e buscar meios de recuperar a intenção deles nos próprios textos que escreveram. Por conta da participação humana e dos distanciamentos até aqui mencionados concluímos que, de fato, a interpretação dos textos bíblicos é uma necessidade inquestionável. Mas veja, o distanciamento pede pelo menos dois passos fundamentais, dos quais a hermenêutica se ocupa, conforme vimos na unidade 2: 1. Aproximação do texto original: Contexto do autor, contexto do fato descrito, língua utilizada e suas particularidades, elementos culturais, elementos sociais, destinatários (primeiros leitores) e suas demandas, gênero literário, entre outros. 2. Aplicação do texto para nossa realidade: Vencer o distanciamento não se trata apenas de aproximação do texto e contexto original. “Descobri várias coisas sobre um determinado texto, mas e agora, o que faço com isso tudo?”. Esse é também um trabalho da hermenêutica: Cuidar para que a aplicação seja coerente e honesta com as descobertas realizadas no processo de aproximação. Ou seja, de que forma o mesmo rompe com as barreiras do distanciamento e se torna tão real e preciso para nós como foi para os primeiros leitores, a quem os escritos foram destinados. 3. Lidando com os distanciamentos Façamos um pequeno exercício de reflexão, pensando nos dois desafios da hermenêutica descritos acima quanto ao problema dos distanciamentos. Vamos lá! Sabemos que, praticamente, todas as cartas paulinas foram escritas em resposta a “problemas específicos” enfrentados pela igreja a quem a carta foi encaminhada. Por isso, o primeiro passo no processo hermenêutico seria o de aproximação, tentando descobrir pelo menos (1) que problema era esse? (2) de que forma o texto se apresenta como Hermenêutica26 resposta a esse problema? O segundo passo seria a aplicação do texto para nossa realidade. Minha questão, para nossa reflexão, é: Posso tratar/aplicar a resposta de um problema especifico de forma universal? Ou seja, posso, isoladamente, pegar uma resposta de Paulo (sem saber qual era a pergunta/problema) em forma de carta e aplicar a todas as situações vividas pela igreja de hoje como se fosse uma doutrina fundamental e universal? Posso imaginar sua reação: “professor, nos dê um exemplo”. Vejamos algo bem simples (nem tanto para algumas pessoas e denominações): “A mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem. Esteja, porém, em silêncio” (1 Timóteo 2:11-12 – NVI). Vamos colocar a cabeça para funcionar. Lembre-se do que foi dito acima (vale repetir): 1. Sabemos que, praticamente, todas as cartas paulinas foram escritas em resposta a “problemas específicos” enfrentados pela igreja a quem a carta foi encaminhada2. 2. Que problema era esse? 3. De que forma o texto se apresenta como resposta a esse problema? 4. Posso tratar/aplicar a resposta de um problema especifico de forma universal? Ou seja, posso, isoladamente, pegar uma resposta de Paulo (sem saber qual era a pergunta/problema) em forma de carta e aplicar a todas as situações vividas pela igreja de hoje como se fosse uma doutrina fundamental e universal? Ao considerar esse pequeno método (quatro passos/perguntas) a que conclusão você chegou? É obvio que, por se tratar de um exercício de reflexão, não vou dar respostas ou opiniões prontas sem que você 2Em alguns casos o próprio apóstolo identificava o problema e, então, escrevia. Em alguns casos ficava sabendo do problema e escrevia. Em outros casos, recebia uma carta das comunidades pedindo sua opinião e direção para algum problema que estavam enfrentando. 27 avalie, com calma, tudo que aqui dissemos. Leia o texto, análise, reflita e aplique esse pequeno exercício a outros textos nas cartas paulinas. As respostas as suas dúvidas virão, naturalmente, no decorrer do curso. Conclusão Termino essa aula com ainda mais certeza: a interpretação dos textos bíblicos é uma necessidade. Aqueles que levam a revelação de Deus, através das escrituras, a sério devem percorrer esse caminho com dedicação, seriedade e honestidade. Que o mesmo Espírito que inspirou os autores bíblicos repouse sobre nós e nos inspire nessa tarefa. Até a próxima, pessoal! Referências Bibliográficas FEE, Gordon & Douglas Stuart. Entendes o Que Lês?, São Paulo: Edições Vida Nova, 1984. OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009. Hermenêutica28 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 29 Hermenêutica Unidade - 04 História da Interpretação Bíblica: parte I Introdução Na Unidade de hoje, e também na próxima, apresentaremos uma visão panorâmica geral a respeito da interpretação bíblica ao longo da história. Essa noção histórica nos será muito útil. Possivelmente encontraremos elementos (erros, acertos e dificuldades) de aproximação com a nossa realidade. No transcurso dos séculos, desde que Deus revelou as Escrituras, tem havido diversos métodos de estudar a Palavra de Deus. Uma visão geral histórica dessas práticas nos capacitará a vencer a tentação de crer que nosso sistema de interpretação é o único que já existiu. Um entendimento dos pressupostos de outros métodos proporciona uma perspectiva mais equilibrada e uma capacidade para um diálogo mais significativo com os que creem de modo diferente. Pela observação dos erros dos que nos precederam, podemos conscientizar-nos mais dos possíveis perigos quando somos tentados de maneira semelhante. Portanto, é de grande valia o estudo constante de fatos históricos e a história da interpretação, que servem para elucidar determinados fatos e nos levar a uma melhor compreensão do texto sagrado. Objetivos 1. Apresentar a história da interpretação bíblica desde a exegese judaica antiga até a idade média; 2. Perceber a forma pela qual a interpretação bíblica no decorrer da história pode nos auxiliar em nossa tarefa interpretativa. Hermenêutica30 1. Exegese Judaica Antiga Um estudo da história da interpretação Bíblica começa, em geral, com a obra de Esdras. Ao voltar do exílio na Babilônia, o povo de Israel solicitou a Esdras que lhe lesse o Pentateuco. Neemias 8:8 lembra: “Leram [Esdras e os levitas] no Livro, na Lei de Deus claramente, dando explicações, de maneira que entendesse o que se lia”. Visto que, durante o período do exílio, os israelitas provavelmente tenham perdido sua compreensão do hebraico, a maioria dos eruditos bíblicos supõe que Esdras e seus ajudantes traduziam o texto hebraico e o liam em voz alta em aramaico, acrescentando explicações para esclarecer o significado. Assim, pois, começou a ciência e arte da interpretação bíblica. Os escribas que vieram a seguir tiveram grande cuidado em copiar as Escrituras, crendo que cada letra do texto era a Palavra de Deus inspirada. Esta profunda reverência pelo texto escrito tinha as suas vantagens e desvantagens. Vantagem: os textos foram cuidadosamente preservados através dos séculos. Desvantagem: os rabinos logo começaram a interpretar a Escritura por outros métodos que não os meios pelos quais a comunicação é normalmente interpretada. No tempo de Cristo, a exegese judaica podia classificar-se em quatro tipos principais: literal, midráshica, pesher, e alegórica. O método literal de interpretação servia de base para outros tipos de interpretações. Isto resultou numa exegese (midráshica, por exemplo) que (1) dava significado a textos, frases e palavras sem levar em conta o contexto no qual se tencionava que fossem aplicados; (2) combinava textos que continham palavras ou frases semelhantes, sem considerar se tais textos referiam-se à mesma ideia. A interpretação pesher trabalhava com enfoques escatológicos. A comunidade acreditava que tudo quanto os antigos profetas escreveram tinha significado profético velado. Era comum a interpretação apocalíptica. Muitas vezes a interpretação pesher era denotada pela frase “este é aquela”, indicando que “este presente fenômeno é cumprimento daquela antiga profecia”. A exegese alegórica baseava-se na idéia de que o verdadeiro sentido jaz sob o significado literal da Escritura. Historicamente, 31 o alegorismo foi desenvolvido pelos gregos. No tempo de Cristo, os judeus desejavam permanecer fiéis à tradição mosaica, mas adotavam a filosofia grega. Filão acreditava que o significado literal da Escritura representava um nível imaturo de compreensão; o significado alegórico era para os maduros. 2. O uso do Antigo Testamento pelo Novo Existem muitos textos do Novo Testamento que se constituem de citações diretas, paráfrases ou de alusões ao Antigo Testamento. Como consequência, um significativo corpo de literatura exemplifica os métodos interpretativos de Jesus e dos escritores do Novo Testamento. • Uso Que Jesus Faz do Antigo Testamento: Podemos extrair diversas conclusões gerais de um exame do uso que Jesus faz do Antigo Testamento. 1. Ele foi uniforme no tratar as narrativas históricas como registros fiéis do fato. As alusões a Abel, Noé, Abraão, Isaque, Jacó, e Davi, por exemplo, parecem todas intencionais e foram entendidas como referências a pessoas de carne e osso e a eventos históricos. 2. Quando Jesus fazia aplicação do registro histórico, ele o extraía do significado normal do texto, contrário ao sentido alegórico. Ele não demonstrou tendência alguma para dividir a verdade escrita em níveis — um nível superficial baseado no significado literal do texto e uma verdade mais profunda baseada em algum nível místico. 3. Jesus denunciou o modo como os dirigentes religiosos haviam desenvolvido métodos casuísticos que punham à parte a própria Palavra de Deus que eles alegavam estar interpretando, e no lugar dela colocavam suas próprias tradições (Marcos 7:6-13; Mateus 15:1-9). 4. Os escribas e fariseus, por mais que quisessem acusar a Cristo de erro, nunca o acusaram de usar qualquer Escritura de modo antinatural ou ilegítimo. Mesmo quando Jesus repudiava diretamente os acréscimos e as interpretações errôneas dos fariseus com relação ao Antigo Testamento. Hermenêutica32 5. Quando Jesus, vez por outra, usou um texto de um modo que nos parece antinatural, geralmente se tratava de legítima expressão idiomática hebraica ou aramaica, ou padrão de pensamento que não se traduz diretamente para nossa cultura e nosso tempo. • O Uso Que os Apóstolos Fizeram do Antigo Testamento: Os apóstolos seguiram seu Senhor e consideraram o Antigo Testamento como a Palavra de Deus inspirada (2 Timóteo 3:16 / 2 Pedro 1:21). Em cinquenta e seis casos, pelo menos, há referência explícita a Deus como o autor do texto bíblico. A semelhança de Cristo, eles aceitaram a exatidão histórica do Antigo Testamento (Atos 7:9-50; 13:16-22; Hebreus 11). 3. Interpretação Bíblica nos primeiros séculos do cristianismo • Exegese Patrística (100-600 d.C): A despeito da prática dos apóstolos, uma escola de interpretação alegórica dominou a igreja nos séculos que se sucederam. Esta alegorização derivou-se de um propósito digno — o desejo de entender o Antigo Testamento como documento cristão. Contudo, o método alegórico segundo praticado pelos pais da igreja muitas vezes negligenciou por completo o entendimento de um texto e desenvolveu especulações que o próprio autor nunca teria reconhecido. Uma vez abandonado o sentido que o autor tinha em mente, conforme expresso por suas próprias palavras e sintaxe. • Clemente de Alexandria (150- 215 d.C): Exegeta patrístico de renome, Clemente acreditava que as Escrituras ocultavam seu verdadeiro significado a fim de que fôssemos inquiridores, e também porque não é bom que todos a entendam. Ele desenvolveu a teoria de que cinco sentidos estão ligados à Escritura (histórico, doutrinal, profético, filosófico, e místico), com as mais profundas riquezas disponíveis somente aos que entendem os sentidos mais profundos. 33 • Orígenes (185-254 d.C): Orígenes foi o notável sucessor de Clemente. Ele cria ser a Escritura uma vasta alegoria na qual cada detalhe é simbólico, e dava grande importância a 1 Coríntios 2:6-7 (“falamos a sabedoria de Deus em mistério”). Ele acreditava que assim como o homem se constitui de três partes —corpo, alma e espírito — da mesma forma a Escritura possui três sentidos. O corpo é o sentido literal, a alma o sentido moral, e o espírito o sentido alegórico ou místico. Na prática, Orígenes tipicamente menosprezou o sentido literal, raramente se referiu ao sentido moral, e empregou constantemente a alegoria, uma vez que só ela produzia o verdadeiro conhecimento. • Agostinho (354-430 d.C): Em termos de originalidade e gênero, Agostinho foi de longe o maior homem de sua época. Em seu livro sobre a doutrina cristã ele estabeleceu diversas regras para exposição da Escritura, algumas das quais estão em uso até hoje. Entre suas regras encontramos as seguintes: 1. O intérprete deve possuir fé cristã autêntica. 2. Deve-se ter em alta conta o significado literal e histórico da Escritura. 3. A Escritura tem mais que um significado e, portanto, o método alegórico é adequado. 4. Há significado nos números bíblicos. 5. O Antigo Testamento é documento cristão, porque Cristo está retratado nele do princípio ao fim. 6. Compete ao expositor entender o que o autor pretendia dizer, e não introduzir no texto o significado que ele, expositor, quer lhe dar. Hermenêutica34 7. O intérprete deve consultar o verdadeiro credo ortodoxo. 8. Um versículo deve ser estudado em seu contexto, e não isolado dos versículos que o cercam. 9. Se o significado de um texto é obscuro, nada na passagem pode constituir-se matéria de fé ortodoxa. 10. O Espírito Santo não toma o lugar do aprendizado necessário para se entender a Escritura. O intérprete deve conhecer hebraico, grego, geografia e outros assuntos. 11. A passagem obscura deve dar preferência à passagem clara. 12. O expositor deve levar em consideração que a revelação é progressiva. Na prática, Agostinho renunciou à maioria de seus princípios e inclinou-se para uma alegorização excessiva. Esta prática faz que seus comentários exegéticos sejam alguns dos menos valiosos de seus escritos. Ele justificou suas interpretações alegóricas em 2 Coríntios 3:6 (“porque a letra mata, mas o espírito vivifica”), querendo com isso dizer que uma interpretação literal da Bíblia mata, mas uma alegórica ou espiritual vivifica. Agostinho cria que a Escritura tinha um sentido quádruplo — histórico, etiológico, analógico, alegórico. Sua opinião foi a predominante na Idade Média. Na teoria, ele sistematizou muitos dos princípios de exegese sadia, mas na prática deixou de aplicar esses princípios em seu estudo bíblico. • A Escola de Antioquia da Síria: Um grupo de eruditos em Antioquia da Síria tentou evitar o “letrismo” dos judeus e o alegorismo dos alexandrinos. Eles, e especialmente um de seu grupo, Teodoro de Mopsuéstia (350— 428), defendiam o princípio da interpretação histórico-gramatical, isto é, que um texto deve ser interpretado segundo as regras da gramática e os fatos da história. Evitavam a exegese dogmática (lembram-se da Unidade 2: 35 pré-texto? Onde parte-se, às vezes, da doutrina estabelecida e não do texto propriamente dito), asseverando que uma interpretação deve ser justificada por um estudo de seu contexto gramático e histórico, e não por um apelo à autoridade. Criticavam os alegoristas por lançarem dúvida na historicidade de muita coisa do Antigo Testamento. A perspectiva que os antioquenses tinham da história diferia daquela que tinham os alexandrinos. Segundo os alegoristas, flutuando acima do significado dos acontecimentos do Antigo Testamento encontrava-se outro, mais espiritual. Os antioquenses, pelo contrário, criam que o significado espiritual de um acontecimento histórico estava implícito no próprio acontecimento. Vejamos um exemplo: Partida de Abraão de Harã Alegoristas Antioquenses Significava sua recusa em conhecer as coisas por meio dos sentidos Representava um ato de fé e confiança ao seguir o chamado de Deus para deixar a cidade histórica de Harã e dirigir-se à terra de Canaã. 4. Interpretação Bíblica na idade média • Exegese Medieval (600-1500): A maior parte dos estudantes da Bíblia, nesse período, devotava- se a estudar e compilar as obras dos Pais primitivos. A interpretação foi amarrada pela tradição, e o que se destacava era o método alegórico. O sentido quádruplo da Escritura produzido por Agostinho era a norma para a interpretação bíblica. Esses quatro níveis de significação, expressos na seguinte quadra que circulou durante este período, eram tidos como existentes em toda passagem bíblica: - A Letra mostra-nos o que Deus e nossos pais fizeram; - A alegoria mostra-nos onde está oculta a nossa fé; - O significado moral dá-nos as regras da vida diária; - A analogia mostra-nos onde terminamos nossa luta; Hermenêutica36 Podemos usar a cidade de Jerusalém como exemplo: Literalmente Jerusalém refere-se à própria cidade histórica; Alegoricamente Refere-se à igreja de Cristo; Moralmente Indica a alma humana; Analogicamente (e escatologicamente) Aponta para a Jerusalém celestial; Durante esse período, aceitou-se geralmente o princípio de que qualquer interpretação de um texto bíblico devia adaptar-se à tradição e à doutrina da igreja. A fonte da teologia dogmática não era só a Bíblia, mas a Bíblia conforme a tradição que a igreja a interpretava. Embora predominasse o método quádruplo de interpretação, outros tipos de exegese ainda estavam sendo desenvolvidos. No decorrer do último período medieval, os cabalistas na Europa e na Palestina continuaram na tradição do primitivo misticismo judaico. Levaram a prática do “letrismo” ao extremo. Acreditavam que cada letra tinha significação sobrenatural. Na tentativa de desvendar mistérios divinos, recorreram aos seguintes métodos: substituir uma palavra bíblica por outra que tinha o mesmo valor numérico; acrescentar ao texto por considerar cada letra de uma palavra como a letra inicial de outras; substituir novas palavras em um texto por algumas letras das palavras primitivas. Entre alguns grupos, porém, estava em voga um método de interpretação mais científico. Os judeus espanhóis dos séculos doze a quinze incentivaram o retorno a um método de interpretação histórico-gramatical. Os vitorinos da Abadia de São Vítor, em Paris, defendiam a tese de que o significado da Escritura deve encontrar-se em sua exposição literal. Propunham que a exegese desse origem à doutrina ao invés de fazer o significado de um texto coincidir com 37 ensino eclesiástico anterior. Nicolau de Lyra (1270 — 1340) foi um homem que causou significativo impacto sobre o retorno à interpretação literal. Ele entendia que outros sentidos muitas vezes sufocavam o texto e que só o literal deveria ser usado como base para a doutrina. A obra de Nicolau de Lyra influenciou profundamente a Lutero, muitos acreditam que sem a sua influência, Lutero não teria dado início à Reforma. Conclusão Por hoje é isso, pessoal. A próxima Unidade será a continuação desta. Vamos percorrer desde a Reforma Protestante até o período moderno. Até breve! Referências Bibliográficas DREHER, Martin. Bíblia: suas Leituras e Interpretações na História do Cristianismo. São Leopoldo. RS: Sinodal, 2008. Hermenêutica38 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 39 Hermenêutica Unidade - 05 História da Interpretação Bíblica: parte II Introdução Olá, pessoal! Na Unidade de hoje daremos continuidade de onde começamos apresentar uma visão panorâmica a respeito da interpretação bíblica ao longo da história. Vamos percorrer desde a Reforma Protestante até o período moderno. Vamos ao conteúdo! Objetivos 1. Apresentar a história da interpretação bíblica desde a Reforma Protestante até a modernidade; 2. Perceber a forma pela qual a interpretação bíblica no decorrer da história pode nos auxiliar em nossa tarefa interpretativa. Hermenêutica40 1. Interpretação bíblica no período da reforma Nos séculos XIV e XV predominava profunda ignorância concernente ao conteúdo da Escritura: alguns doutores em teologia nunca haviam lido a Bíblia toda. A Renascença chamou a atenção para a necessidade de conhecer as línguas originais a fim de entender a Bíblia. Erasmo facilitou este estudo ao publicar a primeira edição de crítica ao Novo Testamento grego, e Reuchlin com sua tradução de uma gramática e léxico hebraicos. O sentido quádruplo da Escritura foi, aos poucos, sendo deixado de lado e substituído pelo princípio de que a Escritura tem apenas um único sentido. • Lutero (1483-1546): Lutero acreditava que a fé e a iluminação do Espírito eram requisitos indispensáveis ao intérprete da Bíblia. Afirmava que a Bíblia devia ser vista com olhos inteiramente distintos daqueles com os quais vemos outras produções literárias. Ele sustentava, também, que a igreja não deveria determinar o que as Escrituras ensinam; pelo contrário, as Escrituras é que deveriam determinar o que a igreja ensina. Rejeitou o método alegórico de interpretação da Escritura, chamando-o de sujeira, escória, e um monte de trapos obsoletos. De acordo com Lutero, uma interpretação adequada da Escritura deve proceder de uma compreensão literal do texto. O intérprete deve considerar em sua exegese as condições históricas, gramaticais e contextuais. Ele acreditava, também, que a Bíblia é um livro claro, contrariando o dogma católico romano de que as Escrituras são tão obscuras que somente a igreja pode revelar seu verdadeiro significado. Ao abandonar o método alegórico que por tanto tempo servira para fazer do Antigo Testamento um livro cristão, Lutero viu-se forçado a encontrar outro meio de explicar aos crentes como o Antigo se aplicava ao Novo. Em resposta a essa questão sustentava que o Antigo e o Novo Testamento apontam para Cristo. Este princípio de organização, que na realidade se tornou um princípio hermenêutico, levou Lutero a ver a Cristo em muitos lugares (como alguns dos Salmos que ele designou como messiânicos) em que mais tarde os intérpretes 41 deixaram de encontrar referências cristológicas. Quer concordemos, ou não, seu princípio cristológico capacitou-o a demonstrar a unidade da Escritura sem apelação para a interpretação mística do texto do Antigo Testamento. Um dos grandes princípios hermenêuticos de Lutero fazia cuidadosa distinção entre a Lei e o Evangelho. Para Lutero, a Lei refere- se a Deus em sua ira, seu juízo e sua aversão ao pecado; o Evangelho refere-se a Deus em sua graça, seu amor e sua salvação. O repúdio à Lei estava errado, segundo Lutero, porque conduz à ilegalidade. Fundir a Lei e o Evangelho também estava errado, porque conduz à heresia de acrescentar obras à fé. Lutero acreditava, pois, que o reconhecimento e a manutenção cuidadosa da distinção Lei-Evangelho eram decisivos ao entendimento adequado da Bíblia. • Calvino (1509-1564) O maior exegeta da Reforma foi, provavelmente, Calvino. Em geral, ele concordava com os princípios articulados por Lutero. Ele, também, acreditava que a iluminação espiritual é necessária, e considerava a interpretação alegórica como artimanha de Satanás para obscurecer o sentido da Escritura. “A Escritura interpreta a Escritura” era uma sentença predileta de Calvino, a qual aludia à importância que ele dava ao estudo do contexto, da gramática, das palavras, e de passagens paralelas, em lugar de trazer para o texto o significado do próprio intérprete. Em uma famosa sentença ele declarou que “a primeira tarefa de um intérprete é deixar que o autor diga o que ele de fato diz, em vez de atribuir-lhe o que pensa que ele deva dizer”. Calvino, provavelmente, superou Lutero ao harmonizar suas práticas exegéticas com sua teoria. Ele não partilhava da opinião de Lutero de que Cristo deve ser encontrado em toda a parte nas Escrituras. A despeito de algumas diferenças, os princípios hermenêuticos sistematizados por esses reformadores se tornariam os grandes princípios norteadores para a moderna interpretação protestante ortodoxa. Hermenêutica42 2. Interpretação bíblica no período da pós reforma (1550-1800) • Confessionalismo: O Concílio de Trento reuniu-se em várias ocasiões de 1545 a 1563 e elaborou uma lista de decretos expondo os dogmas da igreja católica romana e criticando o protestantismo. Os protestantes reagiram com o desenvolvimento de credos que defi niam sua posição. A certa altura, quase todas as cidades importantes tinham seu credo predileto, com a predominância de amargas controvérsias teológicas. Os métodos hermenêuticos durante este período, amiúde, eram defi cientes, porque a exegese se tornou uma criada da dogmática, e muitas vezes degenerou-se em mera escolha de texto para comprovação. • Pietismo: O pietismo surgiu como reação à exegese dogmática. Philipp Jakob Spener (1635-1705) é considerado o lider do reavivamento pietista. Em um folheto intitulado Anseios Piedosos ele pedia o fi m da controvérsia inútil, o retorno ao interesse cristão mútuo e às boas obras; melhor conhecimento da Bíblia por parte dos cristãos, e melhor preparo espiritual para os ministros. A. H. Francke tipifi cou muitas das características pedidas pelo folheto de Spener. Além de ser erudito, linguista e exegeta, ele foi ativo na formação de muitas instituições destinadas ao cuidado dos desamparados e dos enfermos. Além disso, envolveu-se na organização do trabalho missionário para a Índia. O pietismo fez signifi cativas contribuições para o estudo da Escritura, mas não fi cou imune às críticas. Nos seus mais sublimes momentos, os pietistas uniram um profundo desejo de entender a Palavra de Deus e apropriar-se dela para suas vidas com uma excelente apreciação da interpretação histórico-gramatical. Contudo, Philipp Jakob Spener Fonte: Wikimedia Commons 43 muitos pietistas mais recentes descartaram a base de interpretação histórico-gramatical, e passaram a depender de uma “luz interior”. Essas manifestações, baseadas em impressões subjetivas e reflexões piedosas, muitas vezes, resultaram em interpretações contraditórias e que poucas relações tinham com o significado do autor. • Racionalismo: O racionalismo, posição filosófica que aceita a razão como a única autoridade que determina as opções ou curso de ação de alguém, surgiu como importante modo de pensar durante este período e cedo causou profundoefeito sobre a teologia e a hermenêutica. Durante vários séculos, a igreja havia acentuado a racionalidade da fé. Considerava a revelação superior à razão como meio de entender a verdade, mas a verdade da revelação foi tida como inerentemente razoável. Lutero estabeleceu distinção entre o uso magisterial e o ministerial da razão. Por uso ministerial da razão ele se referia ao emprego da razão humana para ajudar-nos a compreender e a obedecer mais plenamente à Palavra de Deus. Por uso magisterial da razão ele se referia ao emprego da razão humana como juiz sobre a Palavra de Deus. Lutero afirmava claramente a primeira e rejeitava a segunda. 3. Interpretação bíblica na modernidade Hermenêutica Moderna (1800 até ao Presente) • Liberalismo: O racionalismo filosófico lançou a base do liberalismo teológico. Ao passo que nos séculos anteriores a revelação havia determinado o que a razão deveria pensar. No final do século XIX a razão determinava que partes da revelação (se houvesse alguma) deviam ser aceitas como verdadeiras. Onde nos séculos anteriores a autoria divina da Escritura fora acentuada, agora o foco era sua autoria humana. Alguns autores diziam que várias partes da Escritura possuíam diversos graus de inspiração, e podia ser que os graus inferiores (como detalhes Hermenêutica44 históricos) contivessem erros. Outros escritores, como Schleirmacher, foram além, negando totalmente o caráter sobrenatural da inspiração. Muitos já não mencionavam a inspiração como o processo pelo qual Deus guiou os autores humanos a um produto escriturístico que fosse a sua verdade. Pelo contrário, a inspiração referia-se à capacidade da Bíblia (produzida humanamente) de inspirar a experiência religiosa. Também aplicou-se à Bíblia um naturalismo consumado. Os racionalistas alegavam que tudo o que não estivesse conforme a mentalidade instruída devia ser rejeitado. Isto incluía doutrinas como a depravação humana, o inferno, o nascimento virginal, e, com frequência, até a expiação vicária de Cristo. Os milagres e outros exemplos de intervenção divina eram regularmente explicados de forma satisfatória como exemplos de pensamento pré-crítico. Sofrendo a influência do pensamento de Darwin e de Hegel, a Bíblia chegou a ser vista como um registro do desenvolvimento evolucionista da consciência religiosa de Israel (e mais tarde da igreja), e não como uma revelação do próprio Deus ao homem. Cada um desses pressupostos influenciou profundamente a credibilidade que os intérpretes davam ao texto bíblico, e, desse modo, teve importantes implicações para os métodos interpretativos. • Neo-ortodoxia: A neo-ortodoxia é um fenômeno do século XX. Ocupa, em alguns aspectos, uma posição intermediária entre os pontos de vista liberal e ortodoxo. Rompe com a opinião liberal de que a Escritura é só produto do aprofundamento da consciência religiosa do homem, mas detém-se antes de chegar à perspectiva ortodoxa da revelação. Os que se encontram dentro dos círculos neo-ortodoxos geralmente creem que a Escritura é o testemunho do homem à revelação que Deus faz de si próprio. Sustentam que Deus não se revela em palavras, mas apenas por sua presença. Quando alguém lê as palavras da Escritura e reage com fé à presença divina, ocorre a revelação. A revelação não é considerada como algo ocorrido em um ponto histórico, o qual agora nos é transmitido nos textos bíblicos, mas uma experiência presente que deve fazer-se acompanhar de uma reação existencial pessoal. 45 As posições neo-ortodoxas sobre diversos problemas diferem das ortodoxas tradicionais. A infalibilidade ou inerrância não tem lugar no vocabulário neo-ortodoxo. A Escritura é vista como um compêndio de sistemas teológicos, às vezes conflitantes, acompanhados por diversos erros fatuais. As histórias bíblicas da interação entre o sobrenatural e o natural são vistas como mitos — não no mesmo sentido dos mitos pagãos, mas no sentido de que não ensinam história literal. Os “mitos” bíblicos (como a criação, a queda, a ressurreição) visam a apresentar verdades teológicas na forma de incidentes históricos. Na interpretação neo-ortodoxa, a queda, por exemplo, “informa-nos que o homem, inevitavelmente, corrompe sua natureza moral”. A encarnação e a cruz mostram-nos que o homem não pode realizar sua própria salvação, mas que ela “deve vir do além como ato da graça de Deus”. A principal tarefa do intérprete é, pois, despir o mito de seus envoltórios históricos, a fim de descobrir a verdade existencial que ele contém. • A “Nova Hermenêutica”: A “nova hermenêutica” tem sido, antes de tudo, uma criação européia a partir da Segunda Guerra Mundial. Emergiu basicamente da obra de Bultmann e foi levada adiante por Emst Fuchs e Gerhard Ebeling. Muito do que foi dito com vistas à neo-ortodoxia aplica-se também a esta categoria de interpretação. Baseando-se na obra do filósofo Martin Heidegger, Fuchs e Ebeling afirmaram que Bultmann não foi longe o suficiente. A linguagem, dizem eles, não é realidade, mas apenas uma interpretação pessoal da realidade. O uso que fazemos da linguagem é, pois, uma hermenêutica — uma interpretação. A hermenêutica, para eles já não é a ciência que formula princípios pelos quais os textos podem ser compreendidos; é, antes, uma investigação da função hermenêutica da fala como tal, e assim tem um raio de ação muito mais amplo e mais profundo. • A Hermenêutica no Cristianismo Ortodoxo: Durante os últimos 200 anos continuou a existir intérpretes que criam que a Escritura representa a revelação que Deus faz de si próprio — de suas palavras e de suas ações — à humanidade. Hermenêutica46 A tarefa do intérprete, no entender deste grupo, tem sido procurar compreender mais plenamente o significado intencional do autor. Empreenderam-se estudos da história, da cultura, da língua e da compreensão teológica que cercam os primeiros leitores, a fim de que se entenda o que a revelação bíblica significava para esses beneficiários. Conclusão Por hoje é isso, pessoal. Seria interessante que, também nessa aula, apresentássemos, historicamente, o movimento hermenêutico contextual. Entretanto, optei por deixá-lo de fora, já que trabalharemos (de maneira detalhada e na prática) com essa corrente nas últimas unidades do curso. Até a próxima! Referências Bibliográficas DREHER, Martin. Bíblia: suas Leituras e Interpretações na História do Cristianismo. São Leopoldo. RS: Sinodal, 2008. 47 Hermenêutica Unidade - 06 Algumas Leituras Bíblicas na Atualidade Introdução Na unidade 3 (A Necessidade de Interpretação, mencionamos o fato de existirem algumas pessoas que desconsideram a necessidade de interpretar as escrituras. Pois bem, esse tipo de postura foi classificada pelos estudiosos como leitura ingênua, intuitiva, fundamentalista. Embora, no caso da leitura de corte fundamentalista, se considere a necessidade de interpretação e até usam métodos para isso. Esses tipos de leitura são muito comuns em nossas realidades eclesiásticas, por isso mesmo decidimos dedicar nossa unidade de hoje ao assunto. Objetivos 1. Conhecer alguns dos mais comuns tipos de leituras bíblicas no universo cristão: leitura ingênua, intuitiva e fundamentalista; 2. Apresentar um exemplo de leitura fundamentalista no texto bíblico de 1 Coríntios 11: 1-16. Hermenêutica48 1. Leitura Ingênua da Bíblia A leitura ingênua da Bíblia é um dos tipos mais comuns de leitura e interpretação dos textos bíblicos em nossos dias. Vejamos a definição de Lara (2009, p.42) a respeito desse tipo de leitura: “Leitura ingênua da bíblia pode ser definida como aquela que é feita sem a consciência de mediações e interesses. Faz-se a leitura de modo a impor a nossa realidade (nosso pré-texto), sem considerar o próprio contexto de quem escreve”. Segundo esse mesmo autor (Lara, p.42), esse tipo de leitura comete dois erros básicos: 1. Não admite que a realidade do leitor condicione a leitura e, consequentemente,a interpretação do texto; 2. Acredita que Deus mesmo ditou a Bíblia ou a escreveu de próprio punho. 2. Leitura Intuitiva Alguns autores preferem chamar esse tipo de leitura de hermenêutica intuitiva. Bem, independente disso, estamos diante de um dos tipos de leitura/interpretação mais praticados na atualidade. A comunicação nesse tipo de entendimento é direta. Deus fala e o leitor ouvinte, automaticamente, assimila a mensagem completa. Nesse caso, todos os elementos por trás do texto são ignorados. Esse tipo de leitura é muito comum em nossas leituras bíblicas devocionais. Entretanto, a meu ver, trata-se de um caminho um tanto quanto perigoso. Alguns estudiosos alertam para as divisões e crises causadas por esse tipo de leitura já que seus leitores dependem exclusivamente, conforme diz o termo, de sua intuição para chegarem a algumas conclusões sobre o texto lido. Existem aqueles que defendem a validade dessa leitura pelo argumento da ação e dependência do Espírito Santo para compreensão e aplicação de um texto. Embora não neguemos a iluminação do Espírito em qualquer instância do trabalho hermenêutico, consideramos esse argumento um tanto quanto questionável. 49 3. Leitura Fundamentalista Não se trata de um método, propriamente dito. Entretanto é interessante abordar aqui esse tipo de leitura, já que sua utilização é muito comum em vários ambientes e setores cristãos. Vamos contar mais uma vez com Lara (p. 43) que define a leitura fundamentalista da seguinte forma: “é a leitura presente em qualquer religião (e até mesmo denominações cristãs) que impõe a sua própria fé como verdade única e absoluta”. Na sua forma de leitura bíblica aparecem as seguintes características: 1. Leitura direta: sem considerar qualquer aspecto contextual; 2. Leitura literal: não leva em conta os aspectos literários na construção de um texto, utilizados pelo autor; 3. As escrituras são a palavra direta do próprio Deus; 4. As escrituras são normas de comportamento universal. Isso significa uma leitura moralista e legalista (leis absolutas acerca da conduta humana independente do contexto e condições que cada situação se aplica). Normalmente, nesse item (4), surgem dúvidas e a necessidade de exemplos. Vejamos, então, uma amostra simples, mas que pode nos alertar quanto à dificuldade nesse tipo de leitura. • Texto: 1 Coríntios 11: 1-16 (quadro de texto na próxima página1) 1Extraído da NVI: não é a melhor tradução, mas para o nosso exercício será útil. Hermenêutica50 1. Tornem-se meus imitadores, como eu o sou de Cristo. 2. Eu os elogio por se lembrarem de mim em tudo e por se apegarem às tradições, exatamente como eu as transmiti a vocês. 3-10. Quero, porém, que entendam que o cabeça de todo homem é Cristo, e o cabeça da mulher é o homem, e o cabeça de Cristo é Deus. Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça; e toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça; pois é como se a tivesse rapada. Se a mulher não cobre a cabeça, deve também cortar o cabelo; se, porém, é vergonhoso para a mulher ter o cabelo cortado ou rapado, ela deve cobrir a cabeça. O homem não deve cobrir a cabeça, visto que ele é imagem e glória de Deus; mas a mulher é glória do homem. Pois o homem não se originou da mulher, mas a mulher do homem; além disso, o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem. Por essa razão e por causa dos anjos, a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade. 11-16. No Senhor, todavia, a mulher não é independente do homem, nem o homem independente da mulher. Pois, assim como a mulher proveio do homem, também o homem nasce da mulher. Mas tudo provém de Deus. Julguem entre vocês mesmos: é apropriado a uma mulher orar a Deus com a cabeça descoberta? A própria natureza das coisas não lhes ensina que é uma desonra para o homem ter cabelo comprido, e que o cabelo comprido é uma glória para a mulher? Pois o cabelo comprido foi lhe dado como manto. Mas se alguém quiser fazer polêmica a esse respeito, nós não temos esse costume, nem as igrejas de Deus. • Observações Preliminares: Antes de qualquer coisa é necessário entender que estamos diante de uma carta (gênero literário). Isso significa que Paulo escreveu para um grupo específico, em um lugar específico, em um 51 momento específico, tratando de um problema particular daquele grupo. Sem falar que vários dos conteúdos de suas cartas são respostas (provavelmente recebeu uma carta primeiro) a respeito de situações isoladas, de conflito, que as igrejas estavam enfrentando. Só isso já seria suficiente para não transformarmos o tema abordado em um conteúdo universal. O problema da leitura fundamentalista é exatamente esse: transforma uma instrução especifica em conteúdo universal. Em alguns casos, pior ainda, seleciona, arbitrariamente, aquilo que considera um problema de ordem contextual – não aplicável aos nossos dias – e aquilo que deve ser lido de forma literal. • Assunto em Questão: as mulheres não cortem seus cabelos e usem um véu para segurá-lo. • Lendo contextualmente um Texto: Uma leitura e, consequentemente, uma aplicação fundamentalista tendem a aplicar o texto, em nossos dias, na forma que se apresenta. Entretanto, consideramos tal postura como um problema e um erro. Mas o que fazer com o texto então? Já que não se aplica a nossa realidade devemos ignorá-lo? Riscar de nossas bíblias? É certo que não! Precisamos nos lembrar (unidades anteriores) dos dois passos fundamentais que a hermenêutica se ocupa: 1. Aproximação do texto original: Contexto do autor, contexto do fato descrito, língua utilizada e suas particularidades, elementos culturais, elementos sociais, destinatários e suas demandas, gênero literário, etc. 2. Aplicação do texto para nossa realidade: Cuidar para que a aplicação seja coerente e honesta com as descobertas realizadas no processo de aproximação. Ou seja, de que forma o mesmo rompe com as barreiras do distanciamento e se torna tão real e preciso para nós como foi para os primeiros leitores, a quem os escritos foram destinados. Hermenêutica52 1. Aproximação do texto original: Contexto Histórico. Passo a apresentar algumas questões sócio-históricas a respeito de Corinto. Perceba que apenas esses elementos (nem entraremos em questões literárias) já seriam suficientes para olharmos para nosso texto-exemplo com outros olhos. Vejamos: Quando Paulo trata dos cabelos das mulheres, ele não está se posicionando contra as mulheres. Muito pelo contrário. Esse texto é um avanço em favor das mulheres. Nas sinagogas, por exemplo, as mulheres não podiam falar, dar opiniões, orar, estudar a Torah e muito menos ensinar. Vejamos no texto que nas igrejas nascentes, inclusive a de Corinto, elas podem orar e profetizar (anunciar a Palavra de Deus). A questão de Paulo é sobre o bom testemunho nas assembleias e no cotidiano. Corinto era uma cidade portuária, muitos viajantes passavam por lá. Era identificada pelos altos índices de prostituição. Havia a prostituição normal e a prostituição sagrada (culto a Afrodite). As mulheres que eram prostitutas na cidade (prostituição normal) raspavam o cabelo para serem identificadas como tais e se diferenciarem das mulheres casadas e donzelas. Já as prostitutas que serviam no alto da montanha (prostituição sagrada no templo de Afrodite) enquanto dançavam iam soltando os cabelos (que até então estavam trançados) para seduzir os homens. Nesse culto à deusa do sexo, soltar os cabelos era um ritual de sedução. Além disso, naturalmente, o cabelo solto era um elemento sedutor. Paulo enfrenta, então, esse conflito e precisa responder a essa questão específica. Qual deveria ser a postura das mulheres nas comunidades cristãs, principalmente das que pregam e oram nas assembleias? Veja que a resposta nasce de um problema. Portanto, universalizar esse ensino, sem saber o que está acontecendo, assimcomo fazem os leitores fundamentalistas, pode ser um erro grave de leitura e interpretação. 2. Aplicação do texto para nossa realidade: Essa é uma tarefa que deixo para cada um de vocês. Aqueles que quiserem me enviar suas respostas e continuar o diálogo nessas questões me escrevam. 53 Conclusão Por hoje é isso, pessoal! Seria interessante que cada um de nós avaliássemos nossas práticas de leitura bíblica e o quanto estamos propensos a assumir um dos três tipos apresentados nessa unidade. Boa reflexão! Referências Bibliográficas FEE, Gordon & Douglas Stuart. Entendes o Que Lês?, São Paulo: Edições Vida Nova, 1984. LARA, Valter Luiz. A Bíblia e o desafio da interpretação sociológica. São Paulo: Paulus, 2009. OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009. Hermenêutica54 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 55 Hermenêutica Unidade - 07 Métodos de Interpretação Bíblica Introdução Na unidade de hoje, vamos apresentar alguns dos principais métodos de leitura e interpretação dos textos bíblicos utilizados por diferentes grupos e pessoas em nossos dias. Não é nosso objetivo propor que adotem esse ou aquele método – isso ficará a critério de cada um, em um momento oportuno. Antes, trata-se de um pequeno estudo panorâmico. Bons estudos ! Objetivos 1. Conhecer alguns dos diferentes métodos de interpretação bíblica; 2. Apresentar a forma pela qual esses métodos auxiliam no processo de leitura e interpretação dos textos bíblicos. Hermenêutica56 1. Métodos de interpretação bíblica É inevitável que, no processo de leitura, análise e interpretação do texto bíblico, ocorram intervenções/mediações humanas. É impossível ignorar o leitor e toda a sua formação (em todas as áreas possíveis), nesse transcurso – é o que chamamos de “pré-texto” em aulas anteriores. Ao longo dos séculos, essa intervenção humana ganhou forma e muitos métodos foram criados na tentativa de organizar e sistematizar essa tarefa (leitura, análise e interpretação do texto bíblico) sem que nossas influencias obrigassem o texto a dizer o que gostaríamos e não o que ele, de fato, diz. “Neste sentido, pode-se dizer que o método deve nos ajudar a ler a Bíblia contra nossas verdades mais acalentadas e hábitos mais empedernidos”. Partimos do principio de que todos nós usamos um método – ainda que, em muitos casos nem saibamos disso – ou até mesmo mais de um. Vale destacar que nenhum método é infalível e, portanto, nenhum deles deve ser tratado como palavra final na tarefa de interpretação bíblica. Nenhum método deve ter mais valor que o próprio objetivo que lhe cabe (a interpretação das escrituras) A escolha, consciente ou não, de um método está intimamente ligada com o contexto, interesses e influências que o leitor recebeu ao longo de sua jornada de fé e contato com os textos sagrados. Portanto, conforme Zabatiero: A eficácia de um método depende da pessoa que o utiliza. No caso da interpretação Bíblica, mais importante que o método que usamos são: os conhecimentos que temos da própria Bíblia e do mundo no qual foi escrita; os conhecimentos que temos da história da interpretação da Bíblia e seu uso nas igrejas e academias; os conhecimentos que temos de nosso mundo e de nós mesmos nesse mundo (ZABATIERO, 2007, p.27). 57 Mas o que é um método? Para Zabatiero método é: (1) Uma ferramenta: Seu valor depende da adequação ao propósito para que é usada e da habilidade de quem a usa. [...] (2) Um mapa: Seu valor está na ajuda que oferece à pessoa para chegar ao destino desejado. [...] (3) Um andaime: Enquanto construímos nosso edifício interpretativo, precisamos dos andaimes para fixar os tijolos. [...] (4) Uma técnica a serviço da arte: Ler a Bíblia é uma arte e, como toda arte, precisa de técnicas que facilitem a prática do talento e da criatividade. Abaixo selecionamos alguns métodos e algumas possibilidades de leitura bíblica muito utilizados em nossos dias. Existe uma quantidade considerável de outros métodos que não aparecerão em detalhes em nossa aula. Porém, deixo o nome de boa parte deles em um quadro no último tópico. Assim, aqueles que desejarem poderão pesquisar futuramente o método que lhe interessa. 2. Método Histórico-Crítico O método histórico-crítico surgiu a partir dos avanços e questionamentos da ciência moderna. Lara (2009, p.44) o define como “um processo de estudo bíblico incorporando os métodos de investigação científica na análise dos textos. A autonomia da atividade científica com relação à fé permitiu que se viabilizasse o estudo crítico da Bíblia”. Isso significa que a Bíblica se tornou objeto de análise através de critérios históricos e literários rígidos, tendo como referência os resultados disponibilizados pela ciência: Vejamos alguns exemplos: 1. Comparação com fontes documentais extrabíblicas; 2. Acesso a historiografia, arqueologia, antropologia, linguística, crítica literária, crítica das fontes, crítica das formas; 3. Percepção própria quanto às contradições encontradas no interior da própria Bíblia. Hermenêutica58 Dessa forma, o método histórico-crítico foi até as últimas consequências, isolando o caráter restritamente sagrado dos conteúdos que até então eram tidos, pela tradição, como verdades absolutas. O objetivo nisso tudo é tentar responder, através do resultado final de pesquisa, se os eventos narrados ocorreram, de fato, na forma em que foram narrados. 3. Método Histórico-gramatical Esse é o método mais utilizado entre os movimentos cristãos reformados. Segundo Kunz (p.23), “o método histórico gramatical tem por objetivo achar o significado de um texto sobre a base do que suas palavras expressam em seu sentido simples, à luz do contexto histórico em que foram escritas”.1 Em termos simples e objetivos, podemos afirmar que esse método propõe três estágios2: 1. Observação: o que diz o texto; 2. Interpretação: o que quer dizer o texto; 3. Aplicação: o que o texto quer dizer para nós; Além de um trabalho rigoroso quanto às questões literárias, esse método prioriza a leitura contextual de um texto. Para isso apresenta três aspectos distintos: o estudo do contexto histórico; do contexto literário;e do contexto cultural. 4. Método sociológico A leitura sociológica da Bíblia é recente e nasceu graças aos avanços das ciências sociais. Segundo Lara (p.57), “o método sociológico é complemento da análise histórico-crítica, pois quer perceber a sociedade como um todo”. Além disso, ter por objetivo encontrar 1KUNZ, Claiton André. Método histórico-gramatical. In: Via teológica. Curitiba: FTBP, 2008. Nº 16, vol. 2, p. 23-53. 2MÜLLER, E. In: FEE, G. Entendes o que lês?, p. 281-282 59 elementos do comportamento coletivo, das relações humanas e das estruturas estabelecidas em cada contexto. Vejamos outras frases importantes de Lara (p. 57) que definem melhor esse método: 1. “O texto é compreendido como produto de interesses que representam os grupos, as comunidades ou os setores da sociedade em que foi redigido originalmente”. 2. “Qualquer modelo de análise sociológica deverá buscar compreender o texto segundo as relações, instituições e conflitos sociais pressupostos no momento em que foi escrito”. 5. Hermenêutica contextual Esse método – e também o método sociológico – aparecerá em detalhes nas últimas unidades de nossa disciplina. Cabem aqui apenas algumas definições preliminares. Novas perspectivas de leitura e interpretação da Bíblia surgem de acordo com o constante surgimento de novos desafios à teologia e consequentemente à hermenêutica. Ou seja, para essa possibilidade de leitura bíblica é preciso considerar o contexto “do leitor” (veja bem, agora estamos falando do contexto do leitor). Aqui, entende-se como referência (condição do leitor) a concepção de gênero, a interpretação étnico-cultural, as classes sociais, os marginalizados, os excluídos, os pobres, e toda sorte de desigualdade contra pessoas e grupos. Na tentativa de abordar essas questões através da hermenêutica surgem, então: a hermenêutica da teologia da libertação; da teologia feminista; e da teologia afro-ameríndia. Todas elas produzem novas hermenêuticas com critérios metodológicos e abordagens interpretativas semelhantes. “Elas se fundamentaram na necessidade de situar os pobres, as mulheres, negros e índios e outras vitimas da realidade atual como interlocutores e intérpretes privilegiados da leitura bíblica” (Lara, 2009, p.50). Hermenêutica60 6. Outros métodos Vejamos agora um quadro com vários outros métodos utilizados para a tarefa hermenêutica. Caso se interesse por algum, me escreva. Além de indicar algumas bibliografias para o método desejado, podemos conversar sobre algumas características básicas, de acordo com seus interesses. Método Indutivo Sintético Analítico Crítico (vimos, em parte, na aula de hoje) Biográfico Histórico (vimos, em parte, na aula de hoje) Teológico Literário (Bíblia como Literatura) Retórico Geográfico Sociológico (vimos, em parte, na aula de hoje) Político Cultural Científico Filosófico Psicológico Devocional Alegórico Sêmio-Discursivo 61 Conclusão Mas e então, com qual método/leitura (entre aqueles que vimos no decorrer da aula) você mais se identificou? Lembre-se da introdução: (1) nenhum método é infalível; e (2) é possível usarmos mais de um método em nossa tarefa hermenêutica. É isso, por hoje é só. Até a próxima. Referências Bibliográficas FEE, Gordon & Douglas Stuart. Entendes o Que Lês?, São Paulo: Edições Vida Nova, 1984. LARA, Valter Luiz. A Bíblia e o desafio da interpretação sociológica. São Paulo: Paulus, 2009. ZABATIERO, Júlio. Manual de Exegese. São Paulo: Hagnos, 2007. Hermenêutica62 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 63 Hermenêutica Unidade - 08 Recursos para uma Análise Contextual - Parte I Introdução Na unidade de hoje, e na próxima, falaremos sobre a análise contextual de um texto e sua importância no processo de interpretação das escrituras. Um pressuposto básico para a utilização da análise contextual, no processo de interpretação, é de que os textos bíblicos não foram escritos alheios à vida real. Pelo contrário, toda produção de um texto – das escrituras sagradas – é produto de um ambiente concreto e seus desdobramentos. Ou seja, sofre influência cultural, social, política, econômica, religiosa, etc. E não apenas sofre influência, muitos textos são, exatamente, respostas de seu autor ao que ele percebe em seu ambiente. Se estivermos levando a sério a leitura e a interpretação das escrituras, é fundamental que investiguemos, ao máximo, todo o pano de fundo de um texto. Sem esse tipo de preocupação e análise estaremos mais distantes do sentido original de um texto. Osborne1 colabora com nosso argumento quando diz que: “o cristianismo é uma religião histórica, o intérprete deve reconhecer que uma compreensão da história e cultura dentro da qual a passagem foi produzida é um instrumento indispensável para descobrir o significado de tal passagem”. Ele vai além: “Fora do contexto, às declarações simplesmente não tem significado [...]. Os contextos fornecem o alicerce sobre o qual construímos o significado mais profundo da passagem. Sem um bom alicerce, o edifício 1OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009. Hermenêutica64 da interpretação está fadado a ruir” (Osborne, 2009, p.43). Um dos motivos pelos quais deveríamos ser rigorosos em considerar o contexto é o fato de que existem vários distanciamentos – conforme vimos em aulas anteriores – entre nós, leitores atuais, os autores e os leitores originais. Existem questões muito simples, facilmente compreendidas a partir da comunicação entre autor e leitores originais. Para nós, entretanto, se tornam complexas devido à falta de informações históricas, sociais, culturais, etc. Por todos esses motivos – e tantos outros –, estamos convencidos de que o trabalho de aproximação histórica é imprescindível, se quisermos, de fato, ler as escrituras com seriedade e interpretá-la com embasamento sólido. Objetivos 1. Reconhecer a importância da análise contextual de um texto ou livro bíblico; 2. Conhecer as fontes primárias de análise histórico- contextual; 3. Conhecer, ainda, outras fontes indispensáveis no trabalho de aproximação do texto original. 65 1. Contexto Histórico Nenhum texto bíblico caiupronto do céu. O conceito de inspiração divina de um livro não é sinônimo de espiritualização do mesmo. Houve um processo de produção no qual seus autores, inspirados pelo Espírito Santo, escreveram a partir de realidades concretas. Ou seja, o autor é um sujeito histórico que interpreta um fato em um momento histórico especifico, considerando as realidades históricas de seus leitores. As informações sobre o pano de fundo histórico de um texto estão disponíveis em diversas fontes bibliográficas. Precisamos, então, descobri-las e nos dedicarmos à pesquisa referente ao texto estudado. Mas que fontes bibliográficas são essas? Seguem algumas dicas: (1) Comentários bíblicos de um determinado livro bíblico; (2) Livros de introdução ao Antigo e Novo Testamento; (3) Dicionários bíblicos; (4) Livros específicos que abordam o contexto (cultural, social, político, econômico e religioso) geral de um determinado momento da historia bíblica. Bibliografias a respeito desses quatro itens são infindáveis. Deixo, no quadro abaixo, “como exemplo”, algumas bibliografias de minha preferência. Comentários Bíblicos Comentário Bíblico VOZES: A.T e N.T Introdução ao A.T Introdução ao A.T:José Luis Sicre Introdução ao N.T Introdução ao N.T:Raymond Brown Dicionário Bíblico Dicionário Internacional de Teologia do A.T e N.T: Colin Brown Livros sobre Análise Contextual Instituições de Israel no A.T: Roland de Vaux História Social do Protocristianismo: Stegemann Hermenêutica66 2. Fontes primárias Entre tantas informações disponíveis nesses materiais, um bom começo é a consideração de cinco aspectos básicos, os quais são de grande valia em nossa busca por informações históricas. Vejamos cada um deles. • Autoria: Em um processo de análise bíblica – levando em consideração a pesquisa histórico-contextual – buscar pelo autor é uma tarefa indispensável. Claro, não se trata apenas de mero dado informativo, mas, antes, a possibilidade de aproximação do significado respondendo questões do tipo: Quais são as características desse autor? Em que momento da história ele viveu? Qual é sua trajetória de vida e fé? Quais são as características de seu pensamento em relação à fé? De que forma tudo isso se materializa em seus textos? • Data: A data em que um texto foi escrito é, também, um dos aspectos fundamentais para a tarefa de interpretação bíblica. Ao descobrir a data de um texto abrem-se portas significativas e a nossa abordagem do mesmo certamente mudará. Com essa informação em mãos, seremos capazes de identificar vários outros aspectos relacionados ao momento histórico em questão. Vale destacar que, quando estamos pesquisando a data de um texto, devemos considerar o fato descrito e a produção do texto referente ao fato. Muito provavelmente são datas distintas e precisam ser analisadas, em um primeiro momento, de forma separada. Em que momento histórico o texto foi escrito? Qual é o momento histórico do fato narrado? Por exemplo, Marcos (o primeiro escrito entre os quatro) foi escrito entre 55 e 60 D.C. Entretanto, claro, narra alguns fatos da vida de Jesus de pelo menos 25 anos atrás. Já o evangelho de João (o último escrito entre os quatro) foi escrito por volta do anos 90 D.C. ou seja, narra fatos de 60 anos atrás. Nesse caso, estudar o contexto histórico implica um olhar para os dois momentos. Reforçando: precisamos investigar os detalhes em torno do fato, mas também os detalhes históricos em torno do autor. Aliás, no caso dos evangelhos, vale destacar que foram escritos (relatos selecionados 67 da vida de Jesus) exatamente como resposta ao que viviam seus autores e as comunidades a quem eles escreveram. • Local: Pesquisar informações sobre o local de produção de um texto é mais um dos elementos básicos e fundamentais para a tarefa de interpretação bíblica. Assim como no ponto anterior (data), devemos buscar informações sobre o local do autor, o local dos destinatários (em alguns casos não é o mesmo) e, quando for o caso, o local de um fato narrado. Essas questões, estudadas de forma isolada e depois em conjunto, serão de grande valia em nossa tarefa de aproximação do texto original. Para ilustrar a questão, e relaxarmos um pouco, vejamos um pequeno exemplo prático. Algo que aconteceu recentemente. Meses atrás estive fora de minha cidade, visitando uma igreja. O pregador da noite pediu que abríssemos nossas bíblias na carta de Paulo aos Efésios 4:1, que diz: “Como prisioneiro no Senhor, rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que receberam”. No primeiro ponto de sua mensagem ele lançou o seguinte desafio: Sejamos “PRISIONEIROS NO SENHOR”. Na essência de sua fala desafiou os presentes a prenderem suas vidas em Deus. Fiquei então me perguntando: Será que o pregador sabe onde estava Paulo quando escreveu sua carta para a igreja de Éfeso? Caberia então espiritualizar um simples jogo de palavras do apóstolo para informar sua situação e, por tabela, sua localização? Prefiro as perguntas ao invés das respostas! Deixo as duas acima para nossa reflexão. Deixo também uma tarefa (não vale nota e não é necessário que me enviem nada): (1) Onde estava Paulo quando escreveu esse texto? (2) De que forma sua localização interferiu naquilo que escreveu? (3) Que aplicação faríamos desse versículo (nesse ponto especifico) em nossas comunidades? Hermenêutica68 • Primeiros Leitores (destinatários a quem o texto é dirigido): As pessoas a quem um texto é escrito têm um papel muito importante na interpretação de uma passagem ou de um livro bíblico inteiro. Características a respeito de um grupo pode determinar o conteúdo de um texto. Vejamos um exemplo simples. Existem diferenças entre os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) em relação à referência que fazem ao assunto Reino de Deus. Mateus usa a expressão Reino dos Céus, enquanto Marcos e Lucas usam a expressão Reino de Deus. Para muitos, estamos diante de um tema distinto: Reino de Deus é uma coisa e Reino dos Céus é outra. E mais, conceitos teológicos são trabalhados a partir dessa distinção. Parece-me que, nesse caso, mais uma vez, somos levados a equívocos, graças à negligência quanto à busca por detalhes histórico- contextuais. Vamos novamente apelar às perguntas: Para quem escreveu Mateus? Por que essa diferenciação entre seus escritos e os escritos dos outros evangelistas? Dessa vez não vou deixá-los sem resposta. Mateus escreveu para uma comunidade judaico-cristã. Um grupo de judeus que, gradativamente, aderiam ao cristianismo entendendo que Jesus de Nazaré era, de fato, o Messias de Israel. Mateus, então, sabiamente, evita a expressão Reino de Deus substituindo-a por Reino dos Céus. De acordo com a tradição judaica, pronunciar o nome de Deus era um pecado grave e deveria ser evitado. Só isso! Simples assim! • Propósito e Temas Alguns autores apontam esses aspectos como sendo os mais importantes no auxilio à interpretação. Osborne (2009, p. 45) escreve: “Não devemos estudar passagem alguma sem um conhecimento básico dos problemas e da situação tratados no livro e dos temas com os quais o autor aborda esses problemas”. Quando conhecemos boa parte da ênfase temática de um livro – fruto de problemas particulares instalados no meio de um grupo/ povo/comunidade/pessoa – damos um passo significativo na busca pelo significado original de um texto. 69 Conclusão Você percebeu o quanto um detalhe histórico – por menor que possa parecer – pode fazer toda a diferença na hora de ler e interpretar um texto? Percebeu ainda o tamanho do trabalho que temos pela frente? Pois bem, não fique desanimado! Pelo contrário, é hora de colocarmos tudo isso em prática. Deixo para você esse desafio: LEIA a BÍBLIA CONTEXTUALMENTE. Quem sabe já na próxima oportunidade de compartilhar a palavra em sua comunidade? Comece usando as fontes primárias. Depois, aos poucos, inclua em sua pesquisa e exposição outros elementos (detalhes políticos, culturais,religiosos, sociais, econômicos, etc.). Que o próprio Deus nos capacite nessa tarefa! Referências Bibliográficas FEE, Gordon & Douglas Stuart. Entendes o Que Lês?, São Paulo: Edições Vida Nova, 1984. OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009. Hermenêutica70 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 71 Hermenêutica Unidade - 09 Recursos para uma Análise Contextual Parte II Introdução Na unidade de hoje daremos continuidade a anterior. Veremos alguns recursos (ferramentas) importantes no processo de interpretação das escrituras, levando em consideração a importância da análise contextual. Bons estudos! Objetivos 1. Reconhecer a importância da análise contextual de um texto ou livro bíblico; 2. Conhecer as fontes primárias de análise histórico- contextual; 3. Conhecer, ainda, outras fontes indispensáveis no trabalho de aproximação do texto original. Hermenêutica72 1. Fontes importantes de pesquisa Além das fontes primárias, vistas na unidade anterior, existem outras, que trabalharemos resumidamente a partir de agora.1 Nosso espaço não permite trabalhar com todas essas fontes, por isso, escolhi as que considero mais importantes nesse primeiro momento. Outras fontes, como a social e a econômica, por exemplo, aparecerão naturalmente em nossos estudos futuros. • Política Toda sociedade é organizada (pelo menos em tese) por um sistema político estabelecido pela forma de governo vigente e outras variáveis. Por isso, não é possível pensar em um contexto histórico sem levar em consideração as questões políticas de uma sociedade. Os textos bíblicos e seus autores foram diretamente influenciados por esse ambiente político e, em muitos casos, escreveram como forma de resposta a alguns desses sistemas, quando os mesmos funcionavam através da lógica da injustiça. Um dos maiores exemplos de interação entre os textos bíblicos e o universo político de uma sociedade é a literatura profética. Os profetas “escreveram dentro do contexto de uma arena política mais ampla, e muito do que eles disseram pode ser melhor compreendido quando se leva em consideração tais eventos” (Osborne, 2009, p. 203). Seguindo o que escreveu Osborne, a literatura profética pode ser mais bem compreendida se, antes, fizermos uma análise da situação política de Israel sob o regime monárquico. Sem a perspectiva política dos fatos, facilmente cairemos na tentação de espiritualizar questões concretas relativas aquele momento histórico. Isso implicará uma aplicação bíblica equivocada para a nossa realidade. • Cultura A cultura é, sem a menor dúvida, fator determinante na vida dos autores bíblicos e, claro, consequentemente influenciou diretamente 1Como forma de organização de conteúdo, usarei algumas fontes de análise contextual propostas pelo autor Grant Osborne, disponíveis em seu livro: A Espiral Hermenêutica (verificar no programa de curso) 73 seus escritos. Portanto, ignorar os aspectos culturais que envolvem um texto significa perder, totalmente, a possibilidade de aproximação com seu sentido e automaticamente comprometerá sua aplicação. Atento a essa necessidade, Osborne (2009, p.205-207) propõe cinco práticas – ligadas ao mundo antigo/bíblico – que devem ser observadas no processo de pesquisa cultural de um povo, especialmente nos relatos bíblicos. Vejamos, de forma resumida, cada um deles: 1. Costumes Familiares: casamento, criação de filhos, função da mulher, etc. 2. Costumes Materiais: bens materiais, utensílios em geral, pedaço de terra, casas, propriedades, etc. 3. Costumes do Cotidiano: higiene diária (ligada à religião), purificação, distinção entre classes, etc. Lazer e Esporte: festas religiosas (cheias de significado), jogos/ competições, lutas esportivas (Paulo observa, com sabedoria, essas duas situações para escrever alguns textos. Ele usa algumas palavras desse universo para dar maior sentido aos seus escritos: metas, prêmios, golpes, treinamento, ganhar a coroa, evitar a derrota, corrida). Música e Arte: poemas, canções temáticas, peças de teatro, obras arquitetônicas, etc. • Religião Seria um trabalho pela metade observarmos o contexto histórico de um texto sem levar em consideração os aspectos religiosos em torno dele. Em todas as épocas que perpassam os textos bíblicos, a vida cotidiana das pessoas era controlada pela religião. Todos os aspectos da vida estavam intimamente ligados à crença de cada grupo. “Cada atividade tinha implicações religiosas, e a dicotomia atual entre religioso e secular simplesmente não existia” (Osborne, 2009, p. 208). Vejamos mais uma interessante observação de Osborne a respeito da influencia religiosa no cotidiano das pessoas: “O que as pessoas vestiam, como passavam seu tempo livre e como se relacionavam umas com as outras, até mesmo o tipo de casa em que viviam, tudo tinha em essência uma dimensão espiritual” (Ibidem). Hermenêutica74 Isso não se aplicava apenas ao povo de Deus. Entre os povos vizinhos era a mesma coisa. Por isso, vários textos bíblicos são afirmações e confissões de fé em resposta a tantas outras religiões presentes nesse contexto. Além disso, vários textos questionam os próprios movimentos judaico-cristãos quando estes se distanciam da vontade de Deus. 2. Método Sociológico (Lara 69 – 72) Entre os métodos que apresentamos em unidades anteriores o sociológico, talvez, é o que melhor se aproprie dos elementos acima – e de outros, é claro. Esse método foi batizado de “método dos quatro lados”, são eles: 1. Lado Econômico 2. Lado Social 3. Lado Político 4. Lado Ideológico O leitor/intérprete procura, no contexto econômico, social, político e ideológico, elementos que porventura influenciaram a produção do texto. Em um segundo momento, procura relações relevantes para o seu próprio contexto para então, com base na análise sociológica, construir uma mensagem teológica. Façamos algumas considerações sobre cada lado conforme Lara (2009, p.70-71). • Lado Econômico “Refere-se à dimensão econômica produtiva dos bens, serviços e riqueza sociais. [...] Está associada à forma como organizam o trabalho e a apropriação dos meios de produção fundamentais da sobrevivênciae da reprodução da vida em sociedade”. “Pode-se perguntar ao texto bíblico lido: o que e como se produz? Quem produz? Quem são os donos dos meios de produção? Os recursos naturais são usados para a sobrevivência das pessoas ou servem apenas para o lucro”.2 2In: leitura-popular-da-biblia/a-leitura-dos-quatro-lados/ 75 • Lado Social O foco nesse lado recai sobre as relações sociais e tensão entre igualdade e discriminação. Enquanto a mensagem bíblica, a partir da vontade de Deus, defende a construção de sociedades igualitárias e justas, opositores se levantavam praticando gestos diametralmente contrários. “Na época dos escritos bíblicos não se falava em “classes”, porém percebemos claramente a distinção entre ricos e pobres. Também prestar atenção ao desemprego, violência, discriminação dos doentes, crianças, mulheres”.3 • Lado Político Para Lara, “O lado político é aquele que revela o modo como uma sociedade organiza suas estruturas de poder, impondo seu domínio através de instituições sociais mais influentes”. O autor afirma ainda, que nesse caso “O poder pode ser exercido pela persuasão e consentimento, pela força das leis e dos costumes, pela coação moral ou religiosa, mas de qualquer forma é sempre e em última instância garantido pela força militar”. Podemos perguntar ao texto: “quem exerce o poder? A serviço de quem ele é colocado? Devemos observar que religião e política eram praticamente a mesma coisa”.4 • Lado Ideológico Conforme Lara: “O Lado ideológico manifesta a dimensão das justificativas das estruturas sociais dominantes. Ideologia é todo um conjunto de ideias capazes de representar a realidade de tal forma que não deixe aparecerem as verdadeiras razões das desigualdades sociais”. O autor continua: “Ideologia é o lado da sociedade que manifesta valores, culturas, conhecimento, hábitos, filosofias e crenças religiosas dominantes”. Sobre os aspectos ideológicos ligados a religião, vejamos a interessante abordagem a seguir: 3Ibidem 4 Ibidem Hermenêutica76 Na Bíblia estão presentes muitas imagens de Deus. Desde o deus opressor, vingativo, castigador, até o Deus Pai/Mãe misericordioso e cheio de amor para com seus filhos. Pode- se perguntar: quem está apresentando este deus? Os reis apresentavam ao povo um deus que concordava com toda a corrupção e ganância dos poderosos da época. [Uma maneira de lidar com esse problema é:] Comparar a visão de Deus transmitida por Jesus com a do texto que estamos lendo. A Bíblia também traz textos que defendiam a posição da classe dominante e corrupta da época [Cabe aqui também uma série de perguntas interpretativas, cujo fio condutor deve ser Jesus: Ele é a imagem do Deus invisível].5 Conclusão Por hoje é só, pessoal! Espero que a partir de agora sua leitura bíblica seja mais criteriosa, e que você não deixe de considerar os aspectos contextuais – mostrados na unidade de hoje e na anterior – no momento de ler, estudar e explicar um texto bíblico. É assim que procedem os amantes das escrituras e aqueles que com paixão, zelo e honestidade dedicam suas vidas para essa tarefa. Até a próxima! Referências Bibliográficas LARA, Valter Luiz. A Bíblia e o desafio da interpretação sociológica. São Paulo: Paulus, 2009. OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009. 5 Ibidem (os textos em itálico são complementos que fiz para ajudá-los na reflexão com o tema abordado por seu autor). 77 Hermenêutica Unidade - 10 Recursos Literários – parte I Introdução Nas duas unidades anteriores refletimos a respeito da análise contextual e sua importância para o processo de interpretação bíblica. Hoje – e nas próximas unidades – apresentaremos outro artifício hermenêutico imprescindível: os recursos literários. Na unidade de hoje daremos atenção às línguas Bíblicas e, especialmente, às figuras de linguagem. Bons Estudos! Objetivos Apresentação de alguns recursos literários básicos para a tarefa de interpretação de um texto bíblico. Hermenêutica78 1. Línguas Bíblicas “Infelizmente prevalece nos meios evangélicos brasileiros um preconceito contra o estudo sério e acadêmico da Bíblia. Em muitos círculos acredita-se que basta ter comunhão com Deus e vida de oração, para que a leitura da Bíblia, mesmo em português, produza um conhecimento exato do seu sentido primário”. Augustus Nicodemos Lopes1 Pensar à interpretação bíblica a partir de aspectos gramaticais e literários é entrar no mundo das línguas bíblicas. Não estou falando de um conhecimento especializado, (embora tal conhecimento seja muito importante e, infelizmente, poucos estudantes, pastores e líderes os levem a sério), mas sim, de um contato mínimo capaz de traduzir algumas palavras chaves e entender seus desdobramentos semânticos ou ainda o conhecimento de alguns tempos verbais. Sobre os tempos verbais, por exemplo, LOPES2 destaca que “os “tempos” do verbo hebraico são mais relacionados com a qualidade da ação do que com temporalidade”. Perceba que apenas esse detalhe pode fazer toda a diferença. Outro exemplo interessante aparece se pensarmos em desdobramentos semânticos. Vejamos, como exemplo, a palavra “amor”. No novo testamento essa palavra aparece com quatro ou cinco significados diferentes. Em todas elas, nossas traduções usam “amor”. Isso nos leva, de imediato, a noção de que o amor está ligado a algo que sentimos ou qualquer outro pressuposto condicionado pela nossa língua. Sem um trabalho mínimo de tradução e estudo nos limitamos à língua portuguesa e perdemos muito do sentido de uma palavra. Muitas palavras que estão presentes na bíblia (escritas em hebraico, grego e aramaico) perdem força de significado em português (conforme vimos no parágrafo anterior com a palavra amor) e, consequentemente, podem comprometer a interpretação de um texto. 1LOPES, Augustus Nicodemus. Apostila: Princípios de Interpretação da Bíblia - Aspectos da Interpretação Bíblica. 2 Ibidem 79 O problema não está tanto nas traduções das bíblias que temos na língua portuguesa, a maioria delas são confiáveis. A grande dificuldade é o distanciamento gramatical e linguístico entre as línguas originais e a língua portuguesa (qualquer outra língua na verdade). Esse tipo de dificuldade aparece pela incapacidade da língua portuguesa de expressar algo que está fora do nosso cotidiano cujas traduções não conseguem alcançar. Esse tópico aparecerá em outras disciplinas com mais detalhes e possibilidades de aprofundamento. Por enquanto, basta-nos trabalhar com um mínimo de ferramentas possíveis. LOPES3 propõe quatro delas: 1 Usar uma Bíblia interlinear; 2 Usar comentários exegéticos, que tratem o texto no original; 3 Usar diferentes traduções; 4 Ter sempre à mão gramáticas e léxicos para serem consultados. Essas ferramentas são primárias e provisórias. Elas não podem substituir o conhecimento básico das línguas originais. Entretanto, podem ajudar a diminuir a lacuna entre os textos originais e a língua portuguesa no trabalho de interpretação de um texto. 2. Figuras de Linguagem Figuras de linguagem são recursos utilizados pelo autor de um texto no intuito de dar maior expressividade a seu texto. Nos escritos bíblicos não é diferente, seus autores usaram e abusaram desses recursos. Cabe a nós, na tarefa de interpretar um texto: (1) conhecer essas figuras (apresentaremos algumas); (2) perceber de que forma aparecem nos textos; (3) de que forma influenciam nossa leitura e interpretação de um texto. 3Ibidem Hermenêutica80 • Metáfora Esta figura tem por base alguma semelhança entre dois objetos ou fatos, caracterizando-se um com o que é próprio do outro. Exemplos: Ao dizer Jesus. “Eu sou a videira verdadeira”, Jesus se caracteriza com o que é próprio e essencial da videira; e ao dizer aos discípulos: ‘Vós sois as varas’, caracteriza-os com o que é próprio das varas. Para a boa interpretação desta figura, perguntamos,pois: que caracteriza a videira? Ou, para que serve principalmente? Na resposta a tais perguntas está a explicação da figura. Para que serve uma videira? Para transmitir seiva e vida às varas, a fim de produzirem uvas, pois isto é o que, em sentido espiritual, caracteriza a Cristo: qual vinha, videira ou tronco verdadeiro, comunica vida e força aos crentes, para que, como as varas produzem uvas, eles produzam os frutos do Cristianismo. Proceda-se do mesmo modo na interpretação de outras figuras do mesmo tipo, como por exemplo: “Eu sou a porta, eu sou o caminho, eu sou o pão vivo; vós sois a luz, o sal: edifício de Deus; ide, dizei àquela raposa; são os olhos a lâmpada do corpo; Judá é o leãozinho: tu és minha rocha e minha fortaleza; sol e escudo é o Senhor Deus; a casa de Jacó será fogo, e a casa de José chama e a casa de Esaú é restolho’, etc. (João 15:1; 10:9;14:6; 6:51; Mt. 5:13, 14; 1Cor. 3:9; Lc. 13:32 Gn. 49:9; Sl. 71:3; 84:11;) • Sinédoque Faz-se uso desta figura quando se toma a parte pelo todo ou o todo pela parte, o plural pelo singular, o gênero pela espécie, ou vice- versa. Exemplos: Toma a parte pelo todo o Salmista ao dizer: “Minha carne repousará segura” (versão revista e corrigida). Em lugar de dizer: meu corpo ou meu ser, que seria o todo, sendo a carne parte de seu ser (Salmo 16:9). Toma o todo pela parte o Apóstolo quando diz da ceia do Senhor: “todas as vezes que beberdes o cálice”, em lugar de dizer beberdes do cálice, isto é, parte do que há no cálice (1Cor. 11:26). Tomam também o todo pela parte os acusadores de Paulo ao dizerem: “Este homem é uma peste e promove sedições entre os judeus 81 esparsos por todo o mundo”; “todo o mundo” significa aquela parte do mundo ou do Império Romano que o Apóstolo havia alcançado com sua pregação (Atos 24:5). • Metonímia Usa-se esta figura quando se emprega a causa pelo efeito, ou o sinal ou símbolo pela realidade que indica o símbolo. Exemplos: Vale-se Jesus desta figura empregando a causa pelo efeito ao dizer: “Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos”, em lugar de dizer que têm os escritos de Moisés e dos profetas, ou seja, o Antigo Testamento. (Lc 16:29). Emprega também o sinal ou símbolo pela realidade que indica o sinal quando disse a Pedro: “Se eu não te lavar, não tens parte comigo”. Aqui Jesus utiliza o sinal de lavar os pés pela realidade de purificar a alma, porque faz saber ele mesmo que o ter parte com ele não depende da lavagem dos pés, mas da purificação da alma. (João 13:8). Do mesmo modo João faz uso desta figura pondo o sinal pela realidade que indica o sinal, ao dizer: “O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado’’, pois é evidente que aqui a palavra sangue indica toda a paixão e morte expiatória de Jesus, única cousa ética para satisfazer pelo pecado e dele purificar o homem (1 João 1:7). • Prosopopéia Usa-se esta figura quando se personificam as causas inanimadas, atribuindo-lhes os feitos e ações das pessoas. Exemplos: O apóstolo fala da morte como de pessoa que pode ganhar vitória ou sofrer derrota, ao perguntar: “Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Co 15:55). Emprega o apóstolo Pedro a mesma figura, falando do amor e referindo-se a pessoa que ama, quando diz: “o amor cobre multidão de pecados” (1Pedro. 4:8). Como é natural, ocorrem com frequência estas figuras na linguagem poética do Antigo Testamento, dando- lhe assim uma formosura, vivacidade e imaginação extraordinárias; como por exemplo ao prorromper o profeta: “Os montes e os outeiros romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores do campo baterão palmas”. Convirá observar que casos como estes não se trata Hermenêutica82 somente de uma mera personificação das cousas inanimadas, mas de uma simbolização pelas mesmas, representando nesta passagem os montes e outeiros pessoas eminentes, e árvores pessoas humildes; uns e outros de regozijo louvando ao Redentor ante seus mensageiros (lsaías 55:12.) Outro caso de personificação grandiosa ocorre no Salmo 85:10,11, onde se faz referência à abundância de bênçãos próprias do reinado do Messias nestes termos: “Reencontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram. Da terra brota a verdade, dos céus a justiça baixa o seu olhar.’’ • Ironia Faz-se uso desta figura quando se expressa o contrário do que se quer dizer, porém sempre de tal modo que se faz ressaltar o sentido verdadeiro. Exemplos: Paulo emprega esta figura quando chama aos falsos mestres de os tais apóstolos, dando a entender, ao mesmo tempo, que de nenhum modo são apóstolos (2Co 11:5; 12:11). Vale-se da mesma figura o profeta Elias quando no Carmelo disse aos sacerdotes do falso deus Baal: “Clamai em altas vozes... e despertará”, dando-lhes a compreender, por sua vez, que era de todo inútil gritarem. (1Reis, 10:27.) Também Jó faz uso desta figura ao dizer a seus amigos: “Vós sois o povo, e convosco morrerá a sabedoria”. Fazendo-se saber que estavam muito longe de serem tais sábios (Jó 12:2.) • Hipérbole É a figura pela qual se representa uma coisa como muito maior ou menor do que em realidade é, para apresentá-la viva à imaginação. Tanto a ironia como a hipérbole são pouco encontradas nas Escrituras, porém, alguma ou outra vez ocorrem. Exemplos: Fazem uso da hipérbole os exploradores da terra de Canaã quando voltam para contar o que ali haviam visto, dizendo: “Vimos ali gigantes... e éramos aos nossos próprios olhos como gafanhotos... as cidades silo grandes e fortificadas até aos céus” 83 (Números 13:33; Deuteronômio 1:28). Daí se vê que os exploradores falavam como se costuma entre nós ao dizer uma pessoa a outra, por exemplo: “Já lhe avisei mil vezes’’, querendo dizer tão somente: “Já lhe avisei muitas vezes”. Também João faz uso desta figura ao dizer: “Há, porém, ainda muitas outras cousas que Jesus fez, se todas elas fossem relatadas uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos”. • Alegoria A alegoria é uma figura retórica que geralmente consta de várias metáforas unidas, representando cada uma, realidades correspondentes. Costuma ser tão palpável a natureza figurativa da alegoria, que uma interpretação ao pé da letra quase que se faz impossível. Às vezes, a alegoria está acompanhada, como a parábola, da interpretação que exige. Exemplos: Tal exposição alegórica nos faz Jesus ao dizer: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo, é a minha carne... Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a “vida eterna”, etc. Esta alegoria tem sua interpretação na mesma passagem da Escritura (João 6:51-65). Outra alegoria apresenta o Salmista (Salmo 80:8-13) representando os israelitas, sua trasladação do Egito a Canaã e sua sucessiva história sob as figuras metafóricas de uma videira com suas raízes, ramos, etc., a qual, depois de trasladada, lança raízes e se estende, ficando, porém mais tarde estropiada pelo javali da selva e comida pelas bestas do campo (representando o javali e as bestas, poderes gentílicos). Ainda outra alegoria nos apresenta o povo israelita sob as figuras de uma vinha em lugar fértil, a qual, apesar dos melhores cuidados, não dá mais que uvas silvestres, etc. Também esta alegoria está acompanhada de sua explicação correspondente — “Porque, a vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta do Senhor” (Isaías, 5:1-7). Hermenêutica84 • Antropomorfismo Vem do grego antropomorfos, “de forma humana”. Atribuição de qualidades humanas ao ser divino ou a ideia de que Deus tem alguma espécie de formato, similar à anatomia humana. Expressar ideias sobre Deus, sob formas humanas, física, mental, moral ou espiritual, é tendência da maioria das religiões, sendo quase impossível de ser evitada, devido às restrições da linguagem humana. Não há entre os homens uma linguagem puramente divina, pelo que não há como falarsobre Deus sem usar termos que o antropomorfizem. Essa circunstância envolve uma severa limitação em nosso entendimento e em nossos discursos sobre Deus, refletindo nossas atuais limitações no campo do conhecimento e do entendimento espiritual. No Antigo Testamento – Ali Deus é apresentado sob forma humana (Ex 15.3; Nm 12.8), com pés (Gn 3.8; Ex 24.10), mãos (Ex 24.11; Js 4.24), boca (Nm 12.8; Jr 7.13), coração (Oséias 11.8). Além dessas formas, atribuímos a Deus qualidades e emoções humanas (Gn 2.2; 6.6; Ex 20.5; Oséias 11.8). O homem foi criado à imagem de Deus (Gn 1.27) e os teólogos usualmente são cuidadosos ao declarar que se trata de uma imagem “moral e espiritual” e não física. Mas mesmo assim, nossa compreensão de Deus fica severamente limitada, pois, no sentido estrito, quem pode comparar o homem a Deus? No Novo Testamento – Persistem ali expressões antropomórficas (Rm 1.18ss; 5.12; 1Co 1.25; Hb 3.15; 6.17; 10.31). Contudo as realidades espirituais não são vistas diretamente, mas imperfeitamente, no reflexo de algum antigo espelho fosco, de metal polido (I Co 13.2). Deus não habita em templos materiais (At 17.24), uma declaração que procura evitar o conceito antropomórfico. 85 Conclusão Por hoje é só, pessoal. Continuaremos falando sobre recursos literários na próxima unidade cujo tema será: Gêneros Literários. Até lá! Referências Bibliográficas FEE, Gordon & Douglas Stuart. Entendes o Que Lês?, São Paulo: Edições Vida Nova, 1984. OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009. Hermenêutica86 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 87 Hermenêutica Unidade - 11 Recursos Literários – parte II Introdução Na unidade anterior começamos nossa caminhada de apresentação de alguns recursos literários imprescindíveis para a tarefa hermenêutica. Hoje, daremos sequência ao assunto trabalhando agora a questão dos gêneros literários. Vamos ao conteúdo. Objetivos 1. Apresentação dos principais gêneros literários encontrados na bíblia e a sua importância no processo interpretativo de um texto. Hermenêutica88 1. Gênero Literário O termo gênero significa “tipo” e refere-se às diferentes formas de se escrever e classificar um texto. Poesia, reportagem, piada, um sermão, uma narrativa, estatísticas, novela, ficção, aventura, etc. Tudo isto são gêneros literários específicos e devem ser lidos de maneira diferente. Esse principio, básico, se aplica também as escrituras. A Bíblia é composta por diversos gêneros e cada um deles tem suas características. Portanto, cada tipo de texto deve ser encarado de maneira particular. Sobre a importância do estudo de gêneros Rodrigues afirma: Ler a Bíblia com competência é lê-la estando consciente dos gêneros nela presentes. Este é um aspecto fundamental da interpretação bíblica. Se não levarmos em conta a análise literária, podemos cair em erros graves de interpretação (RODRIGUES, 2004, p.54). Vale observar que Um texto (livro, capitulo, ou perícope) não contém um único gênero. Antes, pode ser formada por mais de um gênero. Além disso, existem textos que ainda carecem de uma melhor classificação quanto ao seu gênero. Em linhas gerais – e de forma resumida – podemos separar os gêneros da seguinte forma. 2. Narrativas Históricas Os textos históricos foram escritos para comunicar fatos e situações concretas. Para Rodrigues (2004, p.54): “Sua grande preocupação é recuperar o passado e torná-lo conhecido”, seu objetivo é “entender o presente e sonhar o futuro! Assim, a obra histórica não apenas satisfaz nossa curiosidade, mas nos desafia em nossas ações”. Na Bíblia, esse gênero se aplica, especialmente, (mas não exclusivamente), aos livros de: Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis. Esse conjunto de livros é chamado de Obra Histórica Deuteronomista graças à importância do livro de Deuteronômio como guia de leitura da história do povo, narrada nos livros que fazem parte desse conjunto. 89 Esses livros, claramente, estão preocupados com os fatos neles mencionados. São os fatos a prioridade e o ponto de partida para a reflexão de sua mensagem. Entretanto, “podemos encontrar livros que só aparentemente são históricos. Devemos tomar cuidado para não considerar históricos textos que não tem a finalidade maior de contar sobre o passado” (RODRIGUES, 2004, p.54). Cito como exemplo os evangelhos. Sue autores não estão preocupados em contar uma história exata a respeito da vida de Jesus. Antes, sua finalidade principal é uma reflexão sobre a pessoa de Jesus e suas ações. Calma! Isso não significa que a história mencionada seja uma invenção. Não é uma invenção, mas seus autores não estavam preocupados em contar uma história. Eles usaram os fatos para fazer teologia e não simplesmente narraram os mesmos. É por isso que encontramos detalhes diferentes sobre o mesmo fato. 3. Literatura Profética Os escritos dos profetas também se constituem como um gênero literário próprio. Existem os profetas anteriores que aparecem como personagens nos livros históricos (Natã, Elias, Eliseu, etc.) e fazem uma leitura profética da história de Israel em seus respectivos contextos. Existem também os profetas posteriores, ou profetas literários (de Isaias a Malaquias) que escreveram e trouxeram a memória da palavra profética, uma vez que esta era primeiramente oral. Entre as características principais desse gênero literário/tipo de texto estão: 1. A indicação de que se trata de uma palavra que simboliza a comunicação direta de Deus; 2. Oráculos de condenação contra uma pessoa ou um sistema; 3. Oráculos de salvação; 4. Denúncia de injustiças; 5. Anúncio de promessas ou castigos. Hermenêutica90 4. Lei Encontramos na Bíblia diversas leis, códigos e normas. Pois bem, elas fazem parte de um gênero literário particular conhecido como Lei. A lei não existe como regra externa, “mas sim como ensinamento que se guarda no coração”1. Seu intuito na palavra de Deus é ensinar e instruir a respeito da caminhada, nos ajudando, assim, a viver melhor. Esse gênero é organizado de forma variada e apresenta: 1. Leis para a vida intima; 2. Normas civis gerais (específicas para a nação de Israel); 3. Leiscerimoniais (ligadas ao culto no A.T); 4. Normas para a vida comunitária; 5. Outras tantas... Basicamente, as leis se apresentam de duas formas2. (1) Forma Condicional: “Se acontecer isso, então proceda assim”; (2) Forma Incondicional: “Faça aquilo, não faça isso”. A lei é um tema extremamente delicado em sua interpretação e exige mais do interprete do que qualquer outro gênero. RODRIGUES3 propõe três passos básicos para não cairmos nas armadilhas universalistas. Elas ainda nos ajudam em questão fundamental: “quais leis ainda continuam valendo para nós, hoje?” 1. – Procurar saber em qual contexto determinada lei – ou conjunto de leis – foi escrita; 2. – Perguntar-se: a quem tal lei interessava? 3. – Dar o devido peso a cada uma das leis e procurar entender o sentido que está por trás delas. 1Ibidem, p. 66. 2Ibidem 3Ibidem, p.69 91 5. Sabedoria Os textos de sabedoria (Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cantares) aparecem nas escrituras como forma de orientação e conselhos para vida cotidiana. Além disso, servem de ajuda para a análise da realidade do povo e para gerar ânimo frente a tantos desafios da vida aos quais o povo de Deus estava exposto. Entres suas características e formas literárias aparecem: 1. Constante repetição de palavras e frases; 2. Conselhos (“Filho meu...”), advertências e exortações; 3. Comparações; 4. Perguntas didáticas para levar o leitor a pensar; 5. Canções e poesias. 6. Salmos Os salmos, conforme define RODRIGUES4: “São orações acompanhadas de melodia. São poemas para orar, não só com palavras, mas também com música e dança”. Esse conjunto de orações cantadas é também classificada como um gênero literário. Suas principais características literárias são: 1. Reconhecimento do próprio ser diante da vida e seus dilemas; 2. Um caminho de intimidade e experiência profunda com Deus; 3. Levar outros a abrirem suas vidas para Deus; 4. Revelar o caráter de Deus; 5. Expressão de momentos concretos da vida e da fé do povo de Deus. 4Ibidem, p. 70 Hermenêutica92 Conclusão Por hoje é só, pessoal! Na próxima unidade apresentaremos outros gêneros literários importantes. Até a próxima! Referências Bibliográficas FEE, Gordon & Douglas Stuart. Entendes o Que Lês?, São Paulo: Edições Vida Nova, 1984. OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009. RODRIGUES, Maria Paula. Palavra de Deus, palavra da gente: as formas literárias na Bíblia. São Paulo: Paulus, 2004. Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 93 Hermenêutica Unidade - 12 Recursos Literários – parte III Introdução Na unidade daremos sequência ao estudo de alguns dos principais gêneros literários encontrados na bíblia. Objetivo 1. Apresentação dos principais gêneros literários encontrados na Bíblia e a sua importância no processo interpretativo de um texto. Hermenêutica94 1. Evangelho Os quatro primeiros escritos do Novo Testamento recebem o nome de evangelho e formam um gênero literário próprio. Os três primeiros – Mateus, Marcos e Lucas – são conhecidos como sinóticos e são muito parecidos em seus escritos – basicamente, relatam a vida de Jesus e sua atuação nos últimos três anos de sua vida. Cada um dos sinóticos tem suas particularidades, o mesmo relato apresenta uma estrutura diferente, com detalhes e, até mesmo, ênfases diferentes. Isso varia de acordo com o contexto do autor de cada evangelho e com o momento histórico de cada comunidade a quem o texto foi destinado – conhecidos como “os primeiros leitores”. Isso mesmo, cada autor selecionou e organizou alguns fatos da vida e ministério de Jesus e construiu seu texto (Leia: Lc 1: 1-4) de acordo com as demandas (sociais, religiosas, políticas, econômicas, existenciais, etc.) de um determinado povo/comunidade. O autor Gordon Fee (1984, p.113) trabalha com essa perspectiva e afirma que “Havia dois princípios operantes na composição dos Evangelhos: a seletividade e a adaptação. De um lado, os evangelistas como autores divinamente inspirados selecionaram e adaptaram aquelas narrativas e ensinos que eram apropriadas para seus propósitos”. Sendo assim, os relatos da vida de Jesus possuíam um significado profundo e se aplicavam de forma concreta ao que estavam vivenciando essas comunidades. Quando lemos uma passagem dos evangelhos seria bom considerar não apenas a memória da palavra e da ação de Jesus ali presente, mas também o esforço das comunidades que o seguiram em aplicar esses ensinamentos e atitudes na própria vida. É esse empenho que acaba tornando um evangelho diferente do outro: cada um reflete os desafios de uma comunidade em atualizar a prática de Jesus e de seus primeiros discípulos e discípulas (RODRIGUES, 2004, p.82). Portanto, escrever um texto sobre a vida de Jesus não significava apenas relatar aquilo que Ele fez e falou, mas também estimular as comunidades a construírem sua própria caminhada de fé a partir do exemplo do mestre e, além disso, ter nele uma esperança capaz de dar real sentido à vida. 95 No evangelho de João (20: 31), por exemplo, encontramos a seguinte frase: Esses sinais foram escritos para que vocês acreditem. Isso significa que quando os evangelhos foram escritos pensou-se primeiramente no “vocês”, nas comunidades! Vejamos outros comentários dessa mesmas autora: Foram os problemas e desafios do cotidiano da comunidade que conduziram o processo de escrita do evangelho, e inclusive da escolha do que teria que fazer parte da narração. Para atender às necessidades da comunidade, foram inseridos alguns textos e deixados de fora tantos outros. (RODRIGUES, 2004, p. 83 Por tudo isso, concluímos então que os evangelhos não devem ser abordados, do ponto de vista hermenêutico, como um escrito biográfico e até mesmo histórico. O interesse primário do autor ao narrar alguns acontecimentos sobre Jesus é levar as pessoas – os primeiros leitores e agora todos nós – a se comprometerem com Jesus e com as causas que ele se comprometeu e as estimularem a trilhar com perseverança e esperança os caminhos da fé. Normalmente, aqui temos uma pedra no sapato já que “temos o hábito de ler os Evangelhos somente como meios de se alcançar os acontecimentos históricos para os quais eles apontam. Todavia, esses escritos são muito mais que isso”1. Mais do que contar um história cada evangelista é um interprete dos fatos. Eles apresentaram seus escritos de uma forma que refletisse sua própria interpretação e aplicação dos fatos. 1CARVALHO, Tarcízio. Apostila (não publicada): Princípios de Interpretação da Bíblia – interpretando evangelhos e cartas. “No caso da comunidade de João o ambiente era de perseguição, de ameaças, inclusive de morte. Resultado: vamos encontrar em João 9, 1-41 e 10,19-21 um longo relato sobre alguém que enfrentou as autoridades com coragem, mesmo tendo sido expulso da sinagoga: o cego de nascença. Uma postura bem diferente da de seus pais (9,21-22)! E ainda, o Evangelho segundo João é diferente dos demais porque sua comunidade vive uma situação específica, que o evangelho quer encarar de frente” (RODRIGUES, 2004, p. 83). Hermenêutica96 Essa perspectiva, porém, não é uma unanimidade. É comum, encontrarmosalgumas afirmações de que minimizar a base histórica dos evangelhos compromete a mensagem dos mesmos. Entretanto, precisamos lembrar que “os Evangelhos foram escritos não apenas para comunicar informação factual, e nem foram compostos de acordo com os métodos e expectativas do jeito moderno de escrever história”2. Ainda sobre o mesmo tema, Kaiser (2003, p.102) afirma que: “a fidedignidade dos Evangelhos não deve ser posta em termos da historiografia moderna, que dá ênfase à sequência cronológica rígida e clara”. Já os autores dos Evangelhos, segundo o mesmo autor, “são pregadores [...] Eles organizam o material nem sempre com base na ordem sequencial, mas com a perspectiva de imprimir sobre os leitores certas verdades”. A partir de tudo que vimos, na hora de interpretar um texto contido nos Evangelhos, devemos ter em mente algumas perguntas cruciais: 1. quem é o autor do texto? 2. onde estava quando escreveu? 3. quais eram suas condições? 4. para quem escreveu? 5. como viviam essas pessoas? Depois de feitas essas descobertas, é hora de interpretarmos e aplicarmos os textos para a nossa realidade. Afinal, a vida de Jesus tem muito a nos dizer a partir de nossas realidades, especialmente na América Latina. Conforme Fee (1984, p.100,101): “Num certo sentido, portanto, os Evangelhos já estão funcionando como modelos hermenêuticos para nós, insistindo por sua própria natureza que nós, também, narremos de novo a mesma história em nossos próprios contextos”. 2Ibidem 97 2. Parábolas A Parábola não é um gênero literário exclusivo do Novo Testamento. Ela também aparece no Antigo Testamento, priciplamente em textos de sabedoria (Salmos, Provérbios, Eclesiastes). Como qualquer outra forma literária, tem suas características próprias. Rodrigues destaca as seguintes regras, entre outras: • Reflete uma situação que poderia ter acontecido: Ou seja, fala de algo que “poderia realmente ter acontecido; não contém elementos explícitos do mundo da fantasia”; • Refere-se a uma realidade em si mesma: Ou seja, “deve ser interpretada a partir da lógica dos próprios fatos que narra. Não é um texto que tenta explicar outros textos ou fatos externos, como a alegoria”. Possivelmente estamos diante do tipo de texto mais abusado quando o assunto é interpretação, especialmente com o uso de alegorias. Para Rodrigues (2004, p.112) “isso faz perder a mensagem que a história queria transmitir originalmente. A alegoria, muitas vezes, torna-se camisa de força que tira a riqueza de sentidos possíveis da parábola”. Vejamos um exemplo do uso inadequado do método alegórico na interpretação de uma parábola feito por Agostinho. Parábola do Bom-Samaritano Cena Representa Judeu que desce de Jerusalém para Samaria Adão Ele é assaltado Queda Humana Sacerdote e Levita Lei e Sacrifício que não podem ajudar o homem caído Hermenêutica98 Bom Samaritano Jesus Vinho nas feridas Sangue pelos nossos pecados Levanta o homem Novo nascimento Leva até a estalagem Igreja Estalageiro Pastor Pede que cuide do homem até que ele volte Segunda vinda de Jesus Para Fee (1984, p.112): “Por mais novo e interessante que tudo isto possa ser, podemos ter a certeza de que não é isso que Jesus queria dizer. Afinal de contas, o contexto claramente exige uma compreensão de relacionamentos humanos (‘Quem é o meu próximo?’), e não os relacionamentos divinos e humanos”. • Atenção Especial com os Detalhes Os detalhes, às vezes, estão cheios de significado (a partir do contexto geral) para ajudar na construção da mensagem. Mas os detalhes não são/contém a mensagem central em si, são partes que dependem de outras partes para a construção do todo. São apenas elementos para dar colorido à história criada. A mensagem da parábola está no todo. Para tarefa hermenêutica, portanto, é importante destacar que: - É no todo (construído pelas partes) que se encontra o significado do texto; - É do todo que se extrai o conteúdo para aplicação; 99 • Cabe aqui um pequeno Exercício de Fixação: Lc 15: 11-32: Parábola do Filho Pródigo Depois de ler a parábola, cuidadosamente, reflita: Qual é a Mensagem Principal? Encontre alguns detalhes que contribuem para a construção da mensagem principal. Até que ponto esses detalhes podem ser confundidos com a mensagem principal? O que mudaria [na aplicação] se os detalhes assumissem o papel da mensagem principal na parábola ? 3. Cartas O maior (em quantidade de material escrito) gênero literário do Novo Testamento são as cartas. Em resposta a uma carta recebida sobre um problema especifico, ou em resposta a algum problema que alguma comunidade nascente estava enfrentando, nascem às cartas. Com o passar do tempo, achou-se necessário classificá-las como um gênero literário próprio. Esse tipo de abordagem foi fundamental para o processo de interpretação do conteúdo das mesmas. Infelizmente, até hoje, existe a insistência em desconsiderar a carta como um tipo de texto que deve ser lido a partir de suas categorias históricas e literárias. Dessa forma, continuamos convivendo com interpretações questionáveis, fundamentalistas e universalistas frente a problemas específicos. Suas principais características literárias, entre tantas, são: Hermenêutica100 1. linguagem que reproduz um discurso oral, isso se deve ao fato de que essas cartas eram lidas nas assembleias litúrgicas; 2. o conteúdo é uma resposta a algum problema vigente na comunidade que recebeu a carta; 3. reforçando: toda carta é circunstancial; 4. por se tratar de uma carta aparecem: saudações e identificação do autor, destinatário, etc.; 5. quanto ao conteúdo, não se tratam de verdades universais, antes, de palavras de orientação, conselhos, exortações e encorajamento; 6. caminhos que apontam à superação de conflitos instalados, conflitos que geraram a necessidade da carta. 4. Apocalíptica O gênero literário “apocalipse” não é uma referência exclusiva ao livro do apocalipse de João. Este pertence, também, ao gênero apocalipse, mas não é o único. Joel, Daniel e outros pequenos textos fazem parte desse gênero. Suas características principais são: 1. remete a acontecimentos do passado para falar do presente; 2. linguagem em forma de protesto e resistência ao poder estabelecido; 3. surgem em períodos de perseguição com o intuito de gerar esperança no coração dos leitores; 4. Usam linguagem simbólica e usam a imaginação para criar suas cenas; 101 Conclusão A falta de noção quanto ao tipo (gênero) de texto que estamos trabalhando (lendo) pode comprometer nosso trabalho de interpretação. Nas próximas unidades vamos trabalhar com alguns critérios e métodos importantes aplicados a alguns gêneros selecionados. Até breve! Referências Bibliográficas FEE, Gordon & Douglas Stuart. Entendes o Que Lês?, São Paulo: Edições Vida Nova, 1984. KAISER, Walter C. Jr. e Moisés Silva. Introdução À Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003. OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009. RODRIGUES, Maria Paula. Palavra de Deus, palavra da gente: as formas literárias na Bíblia. São Paulo: Paulus, 2004. Hermenêutica102 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 103 Hermenêutica Unidade - 13 Interpretando Narrativas – parte I Introdução As narrativas são um dos meios privilegiados pelos quais podemos penetrar nos contextos, bíblico e do leitor/ intérprete, a fim de realizar a fusão de horizontes, isto é, perceber o significado do texto bíblico para o aqui e agora, quando ele se torna a Palavra de Deus para nosso tempo. Esta se realiza no encontro e confronto de narrativas, as do texto bíblico e as nossas e nos leva a refazer o nosso presente e redirecionar nosso futuro, pela nossa ação neste mundo. Por tudo isso (e considerando ainda que boa parte dos textos bíblicos são de gênero narrativo), entendemos a importância e necessidade de estudá-las com dedicação. Na unidade de hoje (e nas duas próximas), estudaremos o gênero narrativo. Aprenderemos ler o contexto bíblico e o contexto latino-americano, ou brasileiro, a partir da análise das narrativas, presentes em ambos os contextos, com ênfase no Novo Testamento. Depois, será mostrado um exemplo a partir de uma narrativa do Evangelho. E, por fim, será indicado como relacionar esta narrativa com o contexto do intérprete. Objetivos 1. Conhecer acerca do gênero literário narrativo e sua função na Hermenêutica contextual latino-americana; 2. Ser capacitado à análise de narrativas; 3. Ser capaz de exercitar alguma atividade básica de leitura contextual a partir da análise de narrativas. Hermenêutica104 Um pouco de História O Novo Testamento se tornou um conjunto de obras literárias quando a proclamação oral do Evangelho passou a ser acompanhada pelo anúncio escrito do Evangelho. E isto tem muito a ver com o processo de canonização destas obras. Daí em diante, só era possível estudá-las com a ajuda, por vezes excessiva... Das ciências históricas Das ciências teológicas O que aconteceu? Qual é a verdade? Ambas as maneiras se tornaram o modelo dominante de interpretar o Novo Testamento até a primeira metade do século 20. Este consistia em reconstruir a vida e o pensamento por trás das obras através de um estudo objetivo das circunstâncias históricas que cercavam o período de transmissão do texto bíblico, também chamado da tradição oral, até os primeiros registros desta tradição, chamado período de composição. Para isso, se formaram três conjuntos de estudos: 1. O estudo das fontes: que pessoas e grupos produziram e se utilizaram destas obras? 2. O estudo das formas: onde viviam essas pessoas e grupos (sitz in leben)? 3. O estudo da redação: com quais propósitos e intenções elas produziram e utilizaram estas obras? Esses três conjuntos de estudos eram antecedidos pelo estudo literário que se desdobrava em duas partes: 1. Análise filológica: a constituição linguística da escrita. 2. Análise histórica: a autenticidade, integridade da escrita; data e lugar; conteúdo; ocasião ou propósito da escrita; pano de fundo (fontes primárias, conforme vimos em unidades anteriores). 105 Novo Testamento e os Novos Estudos Literários1 Na segunda metade do século 20, recentes desenvolvimentos nas ciências literárias contribuíram para a constituição de uma nova maneira de estudar as obras literárias do Novo Testamento. Entende- se, por exemplo, que as narrativas do Novo Testamento são, em muitos aspectos, semelhantes a uma história atual. Elas possuem: enredo, personagem, cenário e um ponto de vista. Porém, não se pode perder de vista a natureza teológica destas histórias. O interesse da parte de quem estuda o contexto bíblico deve ir além do gênero literário narrativo, para se estender à relação entre a narrativa e a teologia. Por um lado, se trata de distinguir a narrativa bíblica da simples literatura. Por outro lado, se trata de reconhecer a narrativa bíblica como um discurso complexo. O Estudo do gênero literário narrativo2 O estudo do gênero literário narrativo, ou a crítica narrativa, ou a análise narrativa, constitui um conjunto de procedimentos que procura demonstrar o caminho pelo qual o leitor de uma narrativa é conduzido ao seu entendimento por determinada organização presente na própria história. A abordagem fundamental à forma de organização da narrativa. Desse modo, a narrativa pode ser estudada como uma sequência de quatro etapas:3 Primeira A personagem passa a ter um querer ou um dever, um desejo ou uma necessidade de fazer algo; Segunda A personagem adquire um saber e um poder, isto é, a competência necessária para fazer algo; Terceira A personagem realiza aquilo que quer ou deve fazer; Quarta A personagem tem a recompensa daquilo que realizou; 1REYES, 1999, pp. 39-59. Usaremos esse texto de Reyes para início de nossa apresentação do assunto. 2PORTER, 2007, pp. 202-204; POWELL, 1990, pp. 19-21. 3FIORIN, SAVIOLI, 2006, p. 228. Hermenêutica106 Ou pode ser estudada como uma ação-problema que se desenrola ao longo de cinco elementos macroestruturais básicos:4 1. Situação Inicial 2. Ação-Problema (nó) 3. Ação Transformadora 4. Desenlace 5. Situação Final Considerando os diversos pontos acima, entendemos que um modo prático de efetuar a análise do gênero literário narrativo é:5 1. Delimitar a Narrativa; 2. A Intriga; 3. Os personagens; 4. Cenário ou Quadro; 5. O Tempo; 6. Voz Narrativa; Vejamos algumas características de cada um dos passos: A DELIMITAÇÃO DA NARRATIVA: Trata-se de determinar o início e o fim da história, com o objetivo de estabelecer seus limites como uma unidade produtora de sentido, abrindo-a para a leitura e análise. A INTRIGA: Trata-se de descobrir o percurso da história, desde a situação inicial ao clímax e até o desenlace. OS PERSONAGENS: Trata-se de apresentar os personagens, a partir de todas as informações disponíveis sobre eles na história: descrição física, social, cultural, étnica, familiar etc, e as ações, a linguagem, os pensamentos, as crenças e valores de cada um. 4MARGUERAT, BOURQUIN, 2009, pp. 75ss. 5MARGUERAT, BOURQUIN. 2009. 107 O CENÁRIO OU QUADRO: Trata-se de descrever o lugar ou lugares localizáveis no tempo e no espaço, bem como o ambiente social, onde os eventos da história ocorrem e são representados. O TEMPO: Trata-se de indicar o tempo da história. Este pode ser cronológico, por exemplo: o encontro de dois amigos, realizado em questão de minutos. Ou pode ser narrativo: como a história prolonga esses poucos minutos indefinidamente. A VOZ NARRATIVA (focalização e ponto de vista): Trata-se de apontar os procedimentos do Autor Implícito que, à semelhança de uma Voz presente na história, guia o Leitor Implícito, ao lhe fornecer todo tipo de esclarecimentos que ele necessita para que ele compreenda a história como o Autor Implícito deseja. Conclusão Por hoje é só pessoal. Na próxima unidade daremos continuidade ao assunto. Vamos aplicar os passos que aqui apresentamos na história da cura do escravo do centurião romano, registrada em Mateus 8:5-13. Até a próxima! Referências Bibliográficas FIORIN José Luiz, SAVIOLI Francisco Platão. ParaEntender o Texto. São Paulo: Ática, 2006 MARGUERAT Daniel, BOURQUIN Yvan. Para ler as narrativas bíblicas. São Paulo: Loyola, 2009 POWELL Mark Allan. What is Narrative Criticism? Minneapolis: Fortress Press, 1990 REYES George. Esbozo historico de los acercamientos literários al texto bíblico. In: Kairos 24 (1999) 39-59 Hermenêutica108 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 109 Hermenêutica Unidade - 14 Interpretando Narrativas – parte II Introdução Dando continuidade ao estudo de textos narrativos, hoje, veremos um exemplo dos passos apresentados na última unidade. Para tanto, utilizaremos a história da cura do escravo do centurião romano, registrada em Mateus 8:5- 13. Vamos lá! Objetivos 1. Conhecer acerca do gênero literário narrativo e sua função na Hermenêutica contextual latino-americana; 2. Ser capacitado à análise de narrativas; 3. Ser capaz de exercitar alguma atividade básica de leitura contextual a partir da análise de narrativas. Hermenêutica110 A análise das narrativas no contexto do Novo Testamento Conforme vimos na unidade anterior, uma maneira prática de analisar um texto narrativo do Novo Testamento é a utilização dos passos abaixo: 1. Delimitar a Narrativa; 2. A Intriga; 3. Os personagens; 4. O Cenário ou Quadro; 5. O Tempo; 6. Voz Narrativa; Vejamos agora cada um dos passos aplicados à história da cura do escravo do centurião romano, registrada em Mateus 8:5-13. • TEXTO 8.5 Tendo Jesus entrado em Cafarnaum, apresentou-se-lhe um centurião, implorando: 8.6 Senhor, o meu criado jaz em casa, de cama, paralítico, sofrendo horrivelmente. 8.7 Jesus lhe disse: Eu irei curá-lo. 8.8 Mas o centurião respondeu: Senhor, não sou digno de que entres em minha casa; mas apenas manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado. 8.9 Pois também eu sou homem sujeito à autoridade, tenho soldados às minhas ordens e digo a este: vai, e ele vai; e a outro: vem, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz. 8.10 Ouvindo isto, admirou-se Jesus e disse aos que o seguiam: Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei fé como esta. 8.11 Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus. 111 8.12 Ao passo que os filhos do reino serão lançados para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes. 8.13 Então, disse Jesus ao centurião: Vai-te, e seja feito conforme a tua fé. E, naquela mesma hora, o servo foi curado. • A DELIMITAÇÃO DA NARRATIVA: Não há indício cronológico da entrada de Jesus em Cafarnaum (8:5), mas há referência de uma sequência temporal na casa de Pedro (8:14), e, depois, ao anoitecer (8:16). O episódio acontece na cidade de Cafarnaum (8:5), sem indicação de qual espaço foi ocupado dentro da cidade. A seguir, Jesus entra na casa de Pedro (8:14) e, à noite, não há indicação de local onde esteja (8:16). Os personagens mencionados são: Jesus, aqueles que o seguem, o centurião e o seu escravo adoecido. A história é acerca de como a fé do centurião contribuiu para a cura do seu escravo. • A INTRIGA: A história está organizada do seguinte modo esquemático: Passos Texto: versículos 1. Situação Inicial 5,6 2. Ação-Problema (nó) 7,9 3. Ação Transformadora 10-12 / 13a 4. Desenlace 13b 5. Situação Final xxxx A história possui duas intrigas: a cura do servo do centurião e a fé do centurião. Trata-se de uma intriga dentro da intriga. Na primeira, o escravo está muito doente, o centurião vai até Jesus e pede que o cure, Jesus diz a sua palavra, e ele é curado. Na segunda, o centurião se recusa a receber Jesus em casa e explica a razão contando uma breve história. Jesus elogia a fé do centurião Hermenêutica112 e diz a sua palavra em resposta a esta fé. A verdadeira lição não se trata da cura do enfermo, mas da aprovação da fé do centurião, por meio da qual o enfermo foi curado. Ela se torna modelo de qualquer fé verdadeira, na apreciação de Jesus, conforme a breve história do Reino dos Céus que ele narra. • OS PERSONAGENS: São três os personagens individualizados: Jesus, o centurião e o escravo doente. Eles são os protagonistas da história. Há um personagem coletivo: os que seguiam a Jesus. Estes atuam como testemunhas do diálogo entre Jesus e o centurião, bem como das declarações de Jesus. Jesus é construído como o personagem central da história: ele é seguido por todos; é procurado pelo centurião, que concentra nele a esperança de cura de seu escravo; faz comentários nos quais julga a fé do povo de Israel e do centurião, anuncia o banquete escatológico do Reino dos Céus. Também é sensibilizado pelo apelo do centurião e manifesta profundo espanto e admiração pessoal por ele. O centurião é identificado com a força de ocupação romana na Galiléia, o que lhe dá um status diferenciado dentre todos. Sua compaixão pelo escravo adoecido e apelo a Jesus desfaz o pré- juízo inicial, dispondo-o à aceitação por Jesus e pelos ouvintes/leitores. Seu discurso sobre a autoridade é fundamental para a sua identificação. O escravo é identificado com o serviçal, o que já determina de antemão o seu status. Adoecido, vítima de uma enfermidade torturante, torna- se passivo e dependente da ação do centurião e da resposta de Jesus. Os seguidores de Jesus são espectadores e testemunhas do acontecimento, lugar sempre reservado a eles. Cabe a eles confirmar o testemunho e glorificar a Deus. • O CENÁRIO OU QUADRO: A descrição do ambiente físico é pobre, apontando para um local público ignorado, em Cafarnaum. O ambiente social pode ser explorado a partir: do discurso de Jesus, no qual relaciona o povo de Israel a si mesmo – a palavra que realiza a cura – e ao banquete no Reino dos Céus; das relações entre judeus e a força de ocupação 113 romana representada no centurião; das relações entre o centurião como senhor do escravo adoecido. • O TEMPO: O tempo se desenvolve na medida em que as ações se sucedem umas às outras. A certa altura, o tempo das ações é suspenso, para que se dê o comentário de Jesus acerca da fé do centurião e do banquete do Reino dos céus, e retorna para a sua palavra de cura, criando um clímax, cujo desenlace se dá quando o tempoda cura do escravo adoecido é vinculado à hora que Jesus falou a palavra de cura. • A VOZ NARRATIVA (focalização e ponto de vista): É evidente a intenção do Autor Implícito em despertar a simpatia do Leitor Implícito pelo centurião romano, solícito e compassivo por seu escravo adoecido. O comentário de Jesus, no qual elogia a fé do centurião, somente afirma o centurião como modelo a ser imitado. Em contrapartida, o juízo negativo que Jesus emite acerca da fé do povo de Israel, coloca os seus contemporâneos na situação oposta à vista do Leitor. No comentário adicional, o Autor Implícito mostra Jesus, à maneira de um profeta, estabelecendo a fé do centurião como condição para participar no banquete do Reino dos Céus, igualando-a aos patriarcas: Abraão, Isaque e Jacó. É possível identificar aqui o fenômeno da intertextualidade. O símbolo do Reino dos Céus substitui a terra prometida, alvo da fé dos patriarcas. Um veredito é, finalmente, lançado: por isso, os que vêm do “Oriente e do Ocidente” terão entrada no Reino, enquanto os seus súditos serão lançados fora dele, em um espaço que é oposto à alegria do Reino: choro e ranger de dentes. O Autor Implícito manipula o Narrador, que está por trás e totalmente onisciente de todas as ações da história, dando pleno domínio ao Leitor acerca dela, inclusive antecipando-lhe a cura do escravo adoecido, quando o centurião ainda nem havia chegado à sua casa. Hermenêutica114 Conclusão Por hoje é só pessoal! Na próxima unidade continuaremos no assunto. O foco recairá sobre a análise das narrativas no contexto do interprete. Até breve! Referências Bibliográfica BERGER Klaus. As Formas Literárias do Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1998 EGGER Wilhelm. Metodologia do Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1994 FIORIN José Luiz, SAVIOLI Francisco Platão. Para Entender o Texto. São Paulo: Ática, 2006 MARGUERAT Daniel, BOURQUIN Yvan. Para ler as narrativas bíblicas. São Paulo: Loyola, 2009 OSBORNE Grant R. A Espiral Hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 254-283 POWELL Mark Allan. What is Narrative Criticism? Minneapolis: Fortress Press, 1990 REYES George. Esbozo historico de los acercamientos literários al texto bíblico. In: Kairos 24 (1999) 39-59 115 Hermenêutica Unidade - 15 Interpretando Narrativas – parte III Introdução Na unidade de hoje continuaremos pensando a interpretação de narrativas. Nosso foco recairá sobre a relação entre narrativa e o contexto do intérprete. Bons estudos! Objetivos 1. Conhecer acerca do gênero literário narrativo e sua função na Hermenêutica contextual latino-americana; 2. Ser capacitado à análise de narrativas; 3. Ser capaz de exercitar alguma atividade básica de leitura contextual a partir da análise de narrativas. Hermenêutica116 A análise narrativa no contexto do intérprete Na unidade anterior trabalhamos a leitura da narrativa de Mateus 8:5-13. Precisamos agora compreender que esse exercício não pode ser feito de modo objetivo sem conexão com a realidade do leitor/intérprete. Quer dizer, o leitor atual se coloca no contexto, ambiente e mundo dos autores e leitores antigos, vendo as coisas de sua perspectiva original e eliminando qualquer opinião moderna que afete sua interpretação. Aliás, qualquer leitura objetiva de um texto literário do Novo Testamento é impossível, pois aqueles que poderiam dar significado a ela, o autor e o leitor originais, não existem mais. E, também, é desnecessária, pois, se fosse possível acesso a eles, o significado que eles dariam para a história não faria o menor sentido para nós, hoje. Acentua-se, então, a subjetividade, isto é, a maneira pessoal como cada leitor faz a leitura do texto literário do Novo Testamento (embora tenhamos apontado em unidades anteriores os problemas como pré- texto, chegou a hora de considerá-los e assumi-los de forma honesta e em função de uma análise e interpretação bíblica coerente). Neste caso, a subjetividade é assumida nas tradições que o leitor possui e pelas quais aprendeu a ler o texto bíblico. Estas foram, normalmente, aprendidas em uma comunidade cristã. Estas tradições funcionam como: orientação principal para a vida; legitimação de uma forma de vida cristã, do próprio leitor, de um grupo, de uma família, de uma comunidade, de uma igreja; como parte das condições de mundo no qual se vive. Isto leva diretamente à questão mais controversa na análise do gênero literário narrativo, no Novo Testamento: o lugar da Teologia. Especificamente acerca do caráter descritivo (não-confessional), ou prescritivo (confessional) desta leitura teológica. • Para o tipo prescritivo, o texto literário é um texto sagrado, é a Palavra de Deus, que implica em: • Ele registra as palavras de Deus; • É a melhor apresentação da realidade; • Sua autoridade ultrapassa a de qualquer outro texto literário; 117 • Ele tem um papel central em guiar a fé e a prática de indivíduos e comunidades. Para os teólogos que trabalham com esses pressupostos, a interpretação só pode ser feita desde dentro e para uma comunidade de fé, e ao resultado da exegese o indivíduo e a comunidade devem se submeter. • Para o tipo descritivo, o que importa é o lugar e papel histórico do texto literário na época de sua composição e na forma como se encontra escrito. Isso implica em: • Valorizar o significado passado do texto; • Tratar o texto bíblico como uma literatura antiga; • Em formas históricas mais radicais, reduzir referências sobrenaturais a uma determinada época histórica; O problema aqui é que o conceito de história do exegeta, de antemão, já determina os resultados da exegese. Contudo, os textos narrativos do Novo Testamento são tanto um registro do que criam as antigas comunidades cristãs, no sentido histórico, como também o meio pelo qual creem as comunidades cristãs atuais, no sentido teológico. A questão mais profunda, então, é: como vincular o sentido histórico com o sentido teológico através da mediação hermenêutica da narrativa praticada em ambas as comunidades de fé? A reflexão acima foi necessária para que você percebesse que a análise das narrativas do Novo Testamento se faz em conversação com as narrativas das pessoas e das comunidades cristãs de hoje, e de todos os tempos, em seus diversos contextos, nos quais as narrativas se tornam espaços de aprendizagem. Vejamos como isso acontece.1 Quando alguém conta uma história, a sua ou a de outrem, inclusive um personagem bíblico, está dando ênfase, não às ideias, mas à vida, da maneira como ela acontece, na medida em que uma pessoa ou uma coletividade humana vai experimentando tais eventos. Daí, que o conjunto ou contexto da vida é que se faz presente em cada narrativa. É a vida que se narra. 1BRAVO, 1986, pp. 73-83. Hermenêutica118 Quando alguém conta uma história, o faz para que outra pessoa ou comunidade a ouça. Quem conta é o narrador, e quem ouve é o leitor/ ouvinte. O narrador usa a memória que tem dos acontecimentos para dar vida, novamente, a eles, enfatizando certos aspectos, obscurecendo ou omitindo outros, organizando os eventos, contextualizando-os de modo que possa surgir um significado para a vida. Por meio da história, o leitor/ouvinte se relaciona com o narrador, porém, principalmente, ele penetra na vida que está configurada na história. Ele pode concordar ou discordar, isto é, aceitar o convite para fazer ou não parte dos acontecimentos que são narrados. Ele pode assumir uma atitude: Idealista Como era bom aquele modo de viver Resignada Se foi assim, não há o que podemos fazer de diferente. De esperança e transformação Esta história nos permite ver nossa vida de outra maneira, e podemos mudar as coisas. Por causa desta última atitude perante a narrativa ouvida, é preciso dizer que a narrativa jamais é apenas uma apropriação individual cujo impacto se restringe à vida particular do ouvinte. Ela possui um caráter e um impacto social, atinge a coletividade,seja a igreja, seja a comunidade que circunda a igreja, transformando o contexto, modificando os acontecimentos futuros. Como toda história parte e é reflexo de um contexto, não há como narrar e ouvir uma história sem abrir-se e apegar-se ao contexto. Isto quer dizer que é preciso tomar partido, situar-se ao lado, e deixar que as pessoas contem suas histórias a partir e da maneira como elas as entendem e como sabem fazê-lo. Ajudar as pessoas a contar suas histórias, e de suas comunidades, é permitir que seu contexto se manifeste, a fim de que elas mesmas tomem nas mãos os acontecimentos narrados e deem continuidade às suas histórias. A este evento final, chamamos a fusão de horizontes, quando a narrativa bíblica se torna parte da narrativa do leitor de hoje, seja ele uma pessoa ou uma comunidade cristã. 119 Reflexões a partir do texto de Mateus 8:5-13 No caso específico da narrativa do centurião, ficam óbvias algumas conclusões, resultantes do diálogo entre o contexto da narrativa e o do leitor/intérprete: • PRIMEIRO, as narrativas de doenças, fé em Jesus e a cura consequente são mais comuns do que se imagina, seja nos dias de Jesus, seja em nossos dias. • SEGUNDO, os papéis sociais pouco têm valor, em tais narrativas, visto que a doença e a necessidade da cura nivelam a todos, e coloca a todos sob a dependência da vontade exclusiva de Deus, o que é chamado de fé. • TERCEIRO, o lugar de Jesus Cristo como Agente da cura divina, plenamente consciente de que ele realiza o papel de Deus, fazendo que a sua boa vontade se cumpra em meio aos seus semelhantes. • QUARTO, a narrativa promove a superação de todas as barreiras, colocando novos critérios para o relacionamento com Deus, baseado na fé e livre recepção da sua boa vontade. Conclusão É evidente que você poderá chegar a muitas outras conclusões. Porém, lembre-se que isto é provisório, e que é preciso continuar o diálogo, enquanto houver histórias, isto é, enquanto houver vida. Até a próxima, pessoal! Hermenêutica120 Referências Bibliográficas BRAVO Carlos G. Narración: El Espiritu toma la Palabra. In: Christus 51 (1986) 73-83 FIORIN José Luiz, SAVIOLI Francisco Platão. Para Entender o Texto. São Paulo: Ática, 2006 MARGUERAT Daniel, BOURQUIN Yvan. Para ler as narrativas bíblicas. São Paulo: Loyola, 2009 POWELL Mark Allan. What is Narrative Criticism? Minneapolis: Fortress Press, 1990 REYES George. Esbozo historico de los acercamientos literários al texto bíblico. In: Kairos 24 (1999) 39-59 121 Hermenêutica Unidade - 16 Interpretando Narrativas de Milagres parte I Introdução Com base no conteúdo de nossas últimas três unidades, alguns estudiosos foram além e fizeram algumas junções de métodos ou acrescentaram alguns elementos aos métodos estabelecidos. Fruto desse trabalho apresento na unidade de hoje uma interessante metodologia de interpretação de narrativas de milagres, aplicada especialmente nos relatos de cura. Além disso, pretendo mostrar alguns pressupostos importantes para o estudo desse tipo de texto e a forma como algumas metodologias, já consagradas, encaram tais materiais. Objetivos 1. Apresentar alguns caminhos metodológicos para a interpretação de relatos de milagres no Novo Testamento. Hermenêutica122 Milagres1 A característica fundamental de uma narrativa de milagre é revelar um sinal da presença atuante de Deus em favor da vida. Este sinal supõe, no ser humano, um olhar de fé para captar o significado daquilo que Deus está realizando. Por isso, diferente do que se imagina, um milagre não era escrito para produzir admiração com o sobrenatural nem ensinar que a ação sobrenatural do milagre é um fim em si mesma. A intenção do autor ao descrever um milagre na Bíblia não é provar a verdade da ação (é possível?), antes, pergunta: “O que Deus quer dizer com isso? Qual é a mensagem?” • Como ler os milagres? A resposta a essa pergunta exige de nós algumas considerações teológicas. Por exemplo, precisamos ter em mente que o inicio do ministério de Jesus marca um período especial da ação de Deus no mundo em pelo menos três perspectivas (entre tantas outras): 1. - Suas palavras e suas ações re-orientam a vida; 2. - Uma nova humanidade e um mundo novo estão sendo criados/re-criados/inaugurados; 3. - Ele está antecipando na terra o que é realidade no céu: “se estabeleça na terra a tua vontade, assim como ela é no céu” (Mt 6, 10). A partir dessas perspectivas podemos, então, perceber que: • Os milagres são sinais de uma realidade em construção. Lembram a ação criadora de Deus e apontam para a nova criação que Deus está formando na história e que se consumará na eternidade; • Os milagres são uma amostra da realidade futura, onde não haverá: doenças, fome, cegueira, natureza, morte, pecado, demônios, escravidão, desigualdade, discriminação, etc. Portanto, são sinais de esperança; • A ação milagrosa de Jesus atinge o ser-humano integralmente. É um ataque direto a tudo que aflige a vida; 1 Este tópico está baseado, principalmente, nos escritos de Carlos Mesters (ver Bibliografia). 123 Alguns Métodos de Interpretação Entre os métodos apresentados (ou pelo menos citados) no decorrer da disciplina, dois deles nos chamam a atenção – Método Sociológico e Método Psicológico – quanto a sua aplicação nas narrativas de milagres, especialmente nos casos de possessão demoníaca: Sobre o Método Sociológico (ou interpretação sócio-literária) Vicente Artuso escreve2: O milagre mostra a rejeição da dominação política. A simbologia das correntes, grilhões, algemas sugere o contexto de escravidão. A narração indica a luta de Jesus, “o mais forte para amarrar o homem forte” (Mc 3,27). Em Mc 1,23-28 o forte era os escribas com o peso da lei que escravizava, em Mc 5,1-20 o forte se identifica com os exércitos de César. Gerd Theissen adota também essa posição “a opressão por um povo dirigente estrangeiro, às vezes aparece em código, como possessão por um espírito estrangeiro”. Artuso resume ainda a percepção adotada pelo Método Psicológico (ou interpretação psicológica). Para esse método as questões sociais também estão em jogo: Segundo Franz Fanon (In Ched Myers: O Evangelho de São Marcos) a possessão dos demônios em sociedades tradicionais muitas vezes é reflexo de antagonismos de classe enraizados na exploração econômica. A possessão pode ser também uma forma socialmente aceitável de protesto indireto contra a opressão, ou mesmo fuga desta. A tensão entre seu ódio aos opressores e a necessidade de reprimir este ódio a fim de evitar recriminações dos opressores, leva o indivíduo a ficar louco. Ele se retirava a um mundo interior onde pudesse resistir à dominação romana. Nesse sentido o endemoninhado representa a ansiedade coletiva diante do imperialismo. Trata- se segundo Franz Fanon de colonização da mente, em que a angústia da comunidade diante de sua subjugação é reprimida 2Apostila não publicada (2009). Todas as considerações do autor estão baseadas em seus estudos aplicados ao texto de Marcos 5,1-21. Hermenêutica124 e depois se volta contra si mesma. Isso parece ser suposto no relato de Marcos quando diz que o homem emprega violência contra si mesmo. Uma terceira perspectiva apresentada por Vicente Artuso é aquela adotada por René Girard que defende a ideia do endemoninhado como uma espécie de bode expiatório. Vejamos os argumentos: Segundo René Girard o endemoninhado faz o papel de bode expiatório. A sociedade estabelecida precisa de vítimas e se justifica projetando sobre o endemoninhado todo o mal que faz. Portanto o exorcismo tem uma dimensão individual e alcance social. A libertação denuncia a sociedade que provoca a exclusão, e reintegra a pessoa que recupera a comunicação falando com clareza e testemunhando com coragem a libertação ao povo de sua terra (Gerasa). Relatos de Cura Além dos métodos já consagrados, com vastos recursos bibliográficos – quando o assunto sãomilagres – alguns exegetas propõem algumas metodologias interessantes fruto da fusão entre suas próprias pesquisas e experimentos e os métodos normalmente utilizados. Entre eles, apresentamos um método simples3, mas muito eficiente para quem está começando a desenvolver análises bíblicas. Perceba que boa parte das respostas, propostas por esse método, estão no próprio texto Bíblico e na análise de nossa própria realidade. Este método se divide em quatro passos e é muito utilizado nos relatos de cura, realizados por Jesus. 3 Método utilizado, entre outros, entre pelo biblista Vicente Artuso. 125 (1) Análise Literária 1-Cenas (divisão do texto); 2-Limitação da Perícope; 3-Verificar os personagens, o que dizem e o que fazem; 4-Ver os verbos, as ações; 5-Observar as palavras chaves: que mais se repetem; que são principais no enredo; 6-Temática (2) Análise Histórico- Contextual 1-De que forma a temática se desenvolve no contexto onde o texto foi produzido; 2-Quais os conflitos que aparecem no texto? 3-Qual a situação das pessoas, como se relacionam? Há exclusão social? 4-Qual é a situação dos enfermos nos dias de Jesus; (3) Análise Teológica 1-Qual é a imagem de Deus que aparece no texto? 2-Como aparece a dimensão da fé no texto? 3-Ao lado de quem Jesus se coloca? 4-Como as pessoas reagem à prática de Jesus? 5-O que o autor quis transmitir com o relato? (4) Releitura 1-Quem são os excluídos de hoje? 2-Estão buscando ajuda? 3-Nota-se compaixão, solidariedade e aproximação para com os excluídos, doentes, “leprosos” da atualidade? 4- Como atualizar a prática de Jesus? Hermenêutica126 Conclusão Por hoje é só pessoal! Na próxima unidade, daremos sequencia ao tema e apresentarei esse pequeno método aplicado ao texto bíblico de Marcos 3,1-6. Até Breve! Referências Bibliográficas MESTERS, Carlos. Deus, onde estás? Uma introdução prática à Bíblia. Petrópolis: Vozes, 2003. Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 127 Hermenêutica Unidade - 17 Interpretando Narrativas de Milagres parte II Introdução Na unidade de hoje, vamos tentar aplicar os passos do método apresentado na última unidade para narrativas de milagres (curas) no texto do Evangelho segundo Marcos 3,1-6. Ainda que nem sempre seja possível, vou tentar ser o mais fiel aos passos do método para, assim, ajudá- los na compreensão do mesmo. Acompanhe cada passo atentamente. Objetivos 1. Obsevar a análise feita no texto bíblico do Evangelho segundo Marcos, 3,1-6 a partir do método sugerido na unidade anterior. Hermenêutica128 Análise de Marcos 3: 1-6 Segundo o método apresentado na unidade anterior, devemos dividir nosso trabalho de análise em quatro partes. São elas: (1) Análise Literária; (2) Análise Histórico-Contextual; (3) Análise Teológica; (4) Releitura. Vejamos cada passo no texto bíblico sugerido. 1. Análise Literária • O Texto1 1. De novo, entrou Jesus na sinagoga e estava ali um homem que tinha ressequida uma das mãos. 2. E estavam observando a Jesus para ver se o curaria no sábado, a fim de o acusarem. 3. E disse Jesus ao homem da mão ressequida: Vem para o meio! 4. Então, lhes perguntou: É lícito nos sábados fazer o bem ou fazer mal? Salvar a vida ou tirá-la? Mas eles ficaram em silêncio. 5. Olhando-os ao redor, indignado e condoído com a dureza do seu coração, disse ao homem: Estende a mão. Estendeu-a, e a mão lhe foi restaurada. 6. Retirando-se os fariseus, conspiravam logo com os herodianos, contra ele, em como lhe tirarem a vida. • Cenas (divisão do texto) VERSÍCULO CENAS 1 Jesus entra em uma sinagoga e encontra um homem com a mão atrofiada; 2 Fariseus observam Jesus para ver se curaria no sábado, a fim de o acusarem; 1Bíblia Almeida: revista e atualizada. 129 3 Jesus convida o homem que tinha a mão atrofiada a levantar-se e ir em direção ao centro; 4 Jesus questiona aos presentes a respeito do sábado se é permitido: Fazer o bem ou fazer o mal; Salvar a vida ou matar; Todos se calam diante de seus questionamentos; 5 Atitudes de Jesus diante da reação dos fariseus: Um olhar de indignação; Triste com a dureza de coração; Atitudes de Jesus em direção ao enfermo: Convida-o a entender a sua mão; Atitude do homem enfermo: Estende a mão; Homem tem sua mão restaurada; 6 Fariseus se retiram, juntam-se aos herodianos para conspirar sobre como tirar a vida de Jesus. • Delimitação da Perícope O inicio e fim da perícope pode ser identificado e determinado por pelo menos dois critérios básicos, são eles: Local da Cena: O texto se inicia (v.1) com Jesus entrando na sinagoga e termina (v.6) com os fariseus se retirando da sinagoga. Conteúdo/Assunto/Fato: O assunto em foco no texto está claramente delimitado entre os versículos propostos. Marcos narra no inicio do episódio o encontro de Jesus com um homem com a mão ressequida, o qual seria em seguida curado por Jesus, e termina com a indignação e acusação dos religiosos contra Jesus por fazer isso em um sábado. Embora em perícopes anteriores o sábado seja também o assunto em questão, depois desse fato nosso autor muda totalmente de assunto. Hermenêutica130 • Personagens e suas Ações Jesus Descrição Ações Nesse ponto da narrativa de Marcos Jesus já havia iniciado seu ministério com a proclamação e promoção do Reino de Deus, começando pela Galiléia. Seu discurso e prática traziam esperança para os que sofriam. Mas por outro lado, incômodo aos religiosos e poderosos que viam nele uma ameaça. Entra na sinagoga (encontra um homem enfermo); Convida o homem enfermo a se levantar2 e ir ao centro; Questiona os fariseus sobre fazer o bem e cuidar da vida no sábado; Olha para os fariseus com indignação; Entristece-se com a dureza de coração dos fariseus; Diz ao homem enfermo para estender sua mão (cura-o de sua enfermidade). Homem Enfermo De acordo com o testemunho de Jerônimo, o Evangelho dos Hebreus descreve esse homem como pedreiro3. Aproxima-se de Jesus e lhe diz: “Eu era pedreiro e ganhava meu pão com as minhas próprias mãos. Peço-te, Jesus, que me devolvas a saúde para que não seja obrigado a viver nesta vergonhosa situação de mendigo” Estendeu a mão atendendo ao pedido de Jesus (v.5) _______________________________________________ 2Não aparece na versão utilizada (ARA), porém, consideramos importante esse detalhe o qual aparece em outras versões, como por exemplo, na bíblia de Jerusalém. 3SOARES, Sebastião A. G. Evangelho de Marcos: Vol. I: 1 a 8 - Refazer a Casa. Petrópolis: Vozes, 2002 131 Fariseus Responsáveis diretos pela interpretação da lei e fiscalização rigorosa quanto ao seu cumprimento. Observam Jesus para ver se curaria no sábado, para o acusarem (v.2); Calam-se diante do questionamento de Jesus (v.4); Demonstram dureza de coração (v.5); Retiram-se da sinagoga e juntam-se aos herodianos para conspirar sobre como tirar a vida de Jesus (v.6). Herodianos Judeus políticos, zelosos pela causa de Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia,e com influência junto a ele4. Juntam-se aos fariseus para conspirar sobre como tirar a vida de Jesus (v.6 • Palavras Chaves Versículo 1: • “mão ressequida” = χείρα ξηραίνω Termo popular usado na época para indicar deficiência: Mencionar a mão ressequida é indicar uma pessoa incapaz para o trabalho e naturalmente sem sustento e dignidade, considerando que o trabalho além de prover recursos para a sobrevivência é fonte de autonomia humana. Versículo 2: • “observar” para “acusar” = παρατηρέω - κατηγορέω Os fariseus esperam que Jesus viole a lei para o acusarem e condená-lo. Em nossa perícope estão espionando-o para ver se curaria o homem enfermo no sábado, o que seria para eles o descumprimento da lei encontrada no código da aliança, onde curar era um dos trabalhos médicos proibidos no sábado. _______________________________________________ 4Bíblia de Jerusalém. Notas de rodapé, pg. 1763. Hermenêutica132 Versículo 3: • Vem para o “meio” = μέσος O homem que até então é deixado de lado por conta de sua enfermidade, e o que isso significava para os religiosos, agora é convidado a ser o centro das atenções. “Que todos vejam seu sofrimento, mas também vejam o bem que Deus tem pronto para os seus seres humanos, especificamente levando o sábado em consideração”.5 Versículo 4: • “é permitido” = ἔξεστι Jesus levanta uma questão jurídica na tentativa de trazer luz ao coração dos fariseus quanto ao verdadeiro significado da lei. Seus argumentos giram em torno de um vocabulário bem próprio ao tema da Aliança6: fazer o bem ou fazer o mal, salvar a vida ou matar. • Ficaram em “silêncio” = εσιωπων A palavra silêncio nesse caso indica falta de argumento. Porém, indica também falta de reação e resposta positiva ao que se está ouvindo. Nesse caso, podemos entender como sinônimo de “dureza de coração” (πωρωσει) que aparece no versículo seguinte (v.5). Versículo 5: • “indignação” e “tristeza” = οργης - συλλυπουμενος Jesus reage ao silêncio/dureza de coração com indignação e tristeza. Nesse caso vale perceber que entre outras possibilidades, Marcos está destacando os sentimentos humanos de Jesus. • Indignação: “é palavra típica para falar de julgamento de Deus diante do pecado humano, atitude que motiva o julgamento e o castigo escatológico”.7 • Tristeza: Deve nos trazer a idéia de alguém profundamente condoído (mesmo termo usado na narrativa do Getsêmani). Provavelmente com a dureza de coração dos fariseus, mas também com a dor do homem enfermo e sem socorro de seus semelhantes, algo que fere o projeto original de Yahweh. _______________ 5ADOLF, Pohl. Evangelho de Marcos: comentário esperança. Curitiba: Esperança, 1997 (p.80) 6Deuteronômio: 5,33|6,24|8,1. 19|10,13|11,8-9.17.26-28|30,15-20. 7SOARES, Sebastião A. G. Evangelho de Marcos: Vol. I: 1 a 8 - Refazer a Casa. Petrópolis: Vozes, 2002 (p. 153). 133 • Mão foi “restaurada” = απεκατεσταθη A palavra “restaurada”, nesse contexto, indica o poder recriador de Cristo. “A mão seca restaurada é assim, sinal eloquente de que a missão de Jesus é restaurar todas as coisas, tarefa escatológica de refazer a obra de Deus”.8 Temática A palavra que mais aparece no texto, determinando a temática principal da trama narrada por Marcos é o “sábado” – σάββατον. O sábado é considerado sagrado para os fariseus que baseiam sua crença a partir daquilo que interpretam do código da aliança que, segundo eles, prevê abstenção de qualquer atividade. No texto encontramos Jesus, não se rebelando contra a lei, mas tentando lhes ensinar a verdadeira função do sábado para as práticas da vida. 2. Análise Histórico-Contextual O Sábado Nossa perícope apresenta um grupo de fariseus tentando acusar Jesus. Para isso, estão usando de um artifício jurídico: lei judaica a respeito do sábado. Segundo essa lei, o shabbat é dom de Deus e distingue Israel dos outros povos. É um dia de repouso completo, celebração e deve ser santificado, conforme apresenta o decálogo e o código da aliança. O problema não estava na lei, mas em sua interpretação equivocada, abusiva e escravizante. Por tudo isso, incompatível com sua função e razão de ser. “O sábado foi instituído por causa do ser humano e não o ser humano por causa do sábado” – Mc 2, 27. Além disso, baseavam-se na tradição oral, mais precisamente na halakhah (conjunto de leis da religião judaica, incluindo os 613 mandamentos que constam na Torá e os posteriores mandamentos rabínicos e talmúdicos relacionados aos costumes e tradições, servindo como guia do modo de viver judaico9) que apresentava um sistema minucioso sobre as ações proibidas no sábado. Existia uma única _______________ 8Ibidem (p. 154) 9http://pt.wikipedia.org/wiki/Halakhah Hermenêutica134 exceção que dispensava o dever de se observar a halakhah sabática: o perigo de vida. Jesus entra em conflito contra os fariseus e abertamente se posiciona contra os equívocos interpretativos e principalmente contra os acréscimos posteriores da halakhah rabínica a cerca do shabbat a qual rejeita veementemente. Ele discursou a esse respeito, mas também agiu na tentativa de ensinar as pessoas sobre o verdadeiro sentido da lei. Em nossa perícope, por exemplo, fez ambas as coisas. Primeiro faz um discurso e depois age curando o homem enfermo. Sua posição não é de rebeldia ou por uma causa barata, o sábado é projeto amoroso de Deus para o beneficio da vida e restauração da integralidade da vida humana. “O motivo decisivo e cabal para Jesus rejeitar a halakhah sabática está em Mc 3.4: ela é um empecilho ao cumprimento do mandamento do amor”.10 Os Enfermos O Reino de Deus se manifesta por meio do ministério terreno de Jesus e pode ser visto quando Ele toca os enfermos devolvendo-lhes a saúde, a dignidade e os reintegrando a sociedade, já que essa, através de suas estruturas, os exclui-a. Ou seja, além de conviver com suas dores, os enfermos tinham de suportar o sofrimento da discriminação social e religiosa. Pensando em discriminação social para com os enfermos, destacamos que, um de seus fatores chave se encontra nas questões econômicas. Muitos desses enfermos estavam incapacitados de trabalhar e, consequentemente, sem sustento, experimentavam também a dor da miséria. Pela falta de recursos financeiros, não tinham assistência médica e condições para um tratamento: “Infelizmente para os enfermos da Galiléia, os médicos não estavam ao alcance de suas possibilidades: viviam longe das aldeias e seus honorários eram demasiado elevados”.112 No âmbito religioso, os enfermos além de enfrentarem discriminação carregavam em seus ombros o peso da culpa devido à 10 JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008 (p. 308). 11PAGOLA, José Antonio. Jesus: Aproximação História. Petrópolis: Vozes, 2010. (p. 197). 135 mentalidade da época, como nos explica Pagola: “Deus está na origem da saúde e da enfermidade. Ele dispõe de tudo como senhor da vida e da morte. Por isso os israelitas entendem que uma vida sadia e vigorosa é uma vida abençoada; uma vida enferma, aleijada ou mutilada é uma maldição”.123 Como vimos, a enfermidade trazia em si a conotação de castigo divino. Logo, o doente trazia, além das dores físicas, da vergonha, da humilhação e da miséria, a dor de uma consciência perturbada. Eles também não eram bem vindos no templo, onde mais uma vez o fator econômico entra em cena. Já que não trabalhavam não possuíam recursos financeiros para os sacrifícios. Como a mentalidade da época enxergava o templo como lugar da morada divina, o enfermo se sentia longe de Deus. 3. Análise Teológica Conforme observamos no decorrer de nossa análise contextual, estamos diante de estruturas configuradas de forma a comprometer o projeto de Deus para a vida dos seres humanos. 1. Estrutura da Lei: se coloca acima da necessidade humana (enfermidade, por exemplo) e não a favor dela, escraviza, oprime e o sábado se torna empecilho à manifestação do amor, davida e da salvação. 2. Estrutura Religiosa: exclui e discrimina o enfermo trazendo culpa em vez de libertação e alivio. 3. Estrutura Social: rouba a dignidade de quem está enfermo, classifica-os a partir de suas capacidades e posses e não cria subsídios para atendê-los, deixando-os a margem. As respostas de Jesus frente a essas estruturas denunciam o desencontro entre o que está em vigor e o projeto de Deus. Jesus se posiciona ao lado da lei enquanto ela se presta em favor do ser- humano, do bem e da vida. A sua leitura da lei é de algo que trabalha em favor da necessidade humana, como era o caso do enfermo curado no sábado. Cristo entende e ensina que o sábado foi feito para o ser 12Ibidem. (p. 194). Hermenêutica136 humano e não o ser humano para o sábado (Mc 2,27). Ou seja, O sábado deveria ser justamente a celebração e o momento da prática do cuidado com aqueles que estão à margem, vitimas de estruturas pecaminosas. Deveria ser o momento de proclamar e promover o bem e a vida em contextos de maldade e morte. A cura é o gesto da vida. O sábado – dia do senhor – é o palco da manifestação da criação de uma nova humanidade que recupera seu estado físico, mas também a possibilidade de re-integração. A lei existe para a defesa do bem e da vida e não para constrangê-la. Para Cristo, as leis e instituições sociais, por mais sagradas, têm de estar a serviço das necessidades reais dos mais precisados. (...) E se na verdade o sistema já não se sente mais interpelado pelas exigências dos homens reais, torna-se sistema de morte e a lei se degrada à função de aparelho ideológico de legitimação da injustiça.134 Essa é a face de Deus que Marcos deseja revelar. Um Deus que se encarna, toma forma humana se sensibiliza e solidariza-se com aquele que sofre demonstrando opção preferencial por eles. Um Deus que não compactua com a injustiça e com estruturas que aprisionam e contribuem para o surgimento de classes menos favorecidas e muito menos com a forma como essas classes sofrem discriminação, exclusão e são colocadas à margem sem oportunidade e acesso aos meios comuns de assistência. Um Deus que propõe leis que sirvam de auxilio ao bem, a vida como prioridade e a necessidade humana de encontro com a possibilidade de uma caminhada digna. Marcos não narra à reação do homem curado, nem menciona a atitude dos outros presentes diante do discurso e cura de Jesus. Mas faz questão de mencionar a reação dos fariseus. Dispostos a espionar e incriminar Jesus, se calam diante de seu discurso e planejam sua morte em respostas a atitude de Jesus em favor da vida. Ironicamente transgredindo suas próprias leis a respeito do sábado. 13SOARES, Sebastião A. G. Evangelho de Marcos: Vol. I: 1 a 8 - Refazer a Casa. Petrópolis: Vozes, 2002 (p.150). 137 Releitura Um olhar para nossa pericope rapidamente nos leva a repensar nossas próprias estruturas, na América Latina, no século 21. A maneira de atuação do sistema sócio-político tende a fazer vitimas e depois descartá-las deixando-as à margem, sem oportunidades e acesso a condições mínimas para uma vida digna. Nossas igrejas e suas estruturas institucionalizadas criam suas próprias leis e interpretações, as dogmatizam e as colocam acima da lei do amor, comprometendo a vida e deixando marcas negativas na vida das pessoas. Nesse contexto, o evangelho fica sufocado e sua leitura valoriza apenas as experiências místicas da fé desconectadas da história e da realidade que clama por cura e restauração. Assumir esse tipo de postura é compactuar com a lei pela lei, é se tornar legalista. É conformar-se com esse século de maldade onde as estruturas são mais importantes do que as pessoas. É correr o risco de assumir uma espiritualidade ritualista, alienada e descomprometida com a sociedade e suas disfunções. Olhar honestamente para a abrangência e integralidade da mensagem de Jesus no texto é encontrar fundamento sólido para a construção de relações humanas sadias e para a construção de estruturas que, livres do pecado, celebram a igualdade a justiça, o amor e a vida. Hermenêutica138 Conclusão Por hoje é só pessoal! Espero que esse pequeno exercício estimule cada um de vocês e os auxilie em suas pesquisas bíblicas futuras. Na próxima unidade, a última do curso, vamos falar sobre releitura e pregação. Até Breve! Referências Bibliográficas ADOLF, Pohl. Evangelho de Marcos: comentário esperança. Curitiba: Esperança, 1997. BÍBLIA Almeida: revista e atualizada 2 ed. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008. PAGOLA, José Antonio. Jesus: Aproximação História. Petrópolis: Vozes, 2010. SOARES, Sebastião A. G. Evangelho de Marcos: Vol. I: 1 a 8 - Refazer a Casa. Petrópolis: Vozes, 2002. 139 Hermenêutica Unidade - 18 Hermenêutica e Comunicação William Lacy Lane / Flávio Henrique Introdução Na unidade de hoje, a última da disciplina, vamos pensar um pouco na aplicação de um texto bíblico analisado e alguns conceitos fundamentais para a comunicação do mesmo aos seus ouvintes. É bom lembrar que um dos objetivos de um estudioso/intéprete da Bíblia é expô-la de um modo claro e organizado para que o ouvinte possa compreender com certa facilidade. Portanto, a exposição bíblica requer um estudo cuidadoso do texto e, ao mesmo tempo, uma boa habilidade na hora de comunicar os resultados de seus estudos. É possível que algumas ideias reapareçam ao longo da unidade. Isso é importante, e nos servirá para a retomada de alguns conceitos, exatamente como uma espécie de revisão e maior assimilação dos mesmos. Bons estudos! Objetivos 1. Propor algumas considerações a respeito da relação entre interpretação e comunicação das escrituras. Hermenêutica140 Interpretação e comunicação Um dos alvos principais da hermenêutica é a exposição bíblica diante da comunidade. A comunidade contemporânea do povo de Deus se interessa no que o texto bíblico significa hoje. O pregador não pode perder de vista que o texto bíblico precisa fazer sentido para seus ouvintes. Isto não significa, contudo, que a hermenêutica está sujeita ao sentido que a comunidade queira dar. Essa, aliás, é uma grande discussão e tem profundas implicações para a hermenêutica bíblica.1 Entretanto, desde que a exposição bíblica esteja controlada por uma boa análise, as chances de lermos o que queremos que o texto nos diga é minimizada.2 A exposição, então, será a apresentação e principalmente a atualização (releitura) dos resultados do estudo do texto bíblico de uma maneira compreensível à realidade do ouvinte de modo também a contribuir para o seu fortalecimento e crescimento. 1. Alguns cuidados com o Texto Sermões temáticos tem sido maioria na igreja brasileira. O pregador escolhe um tema que considera importante para sua comunidade de fé e resolve trabalhar com ele. Ótimo! Mas aqui cabem alguns cuidados, principalmente no que diz respeito ao texto bíblico. Não é difícil encontrar pregadores forçando o texto a dizer o que ele não se propõe a dizer. No anseio por dar sentido ao tema escolhido, abusos bíblicos são comumente cometidos. Isso não significa que um tema não possa orientar o estudo do texto bíblico de modo a chegar-se a uma exposição sobre o assunto, mas forçar o texto e tentar adaptá-lo ao tema não é o caminho. Para ilustrar esta questão, digamos que queiramos falar sobre o tema: “santidade” na Bíblia. Para tanto, não basta pegarmos uma concordância e tomar todos os textos onde a palavra santidade ocorre. Naturalmente, essa palavra ocorrerá em situações em que o tema não aponta para a temática em si. 1Kaiser, 1981, p.17. 2Fee & Stuart, 1984, p.25. 141 Alguns estudiosos entendem que todo tema, ainda que contemporâneo, encontra sua resposta no texto, sem, é claro, desconsiderar seus contextos. Outros entendem que alguns temas não estão claramente na Bíblia, mas que, ao tratá-los, devemos estar sensíveis ao espíritodas escrituras. Dessa forma, encontraremos subsídios suficientes para que o texto lance luz ao tema. Enfim, trata- se de uma discussão longa e outras possibilidades de pensamento existem nessa relação tema x texto. Quando o assunto é a estrutura de uma comunicação bíblica, alguns estudiosos, como John Stott, por exemplo – em um de seus livros sobre pregação (Between Two Worlds) – entendem que a primeira regra para se obter um esboço de sermão é deixar que o texto mesmo forneça um esboço (1982, p.229). Ideia bem interessante. 2. O Sentido do Texto Um dos trabalhos fundamentais da hermenêutico/exegese é falar de significados. A tarefa da exegese é resgatar significados originais do texto para se extrair sua mensagem. Em outras palavras, para que saibamos o que o texto significa, é preciso (primeiro) perguntar o que o texto significou para o autor. Estas são duas perguntas básicas, mas necessárias no estudo de qualquer texto. Há um princípio hermenêutico que afirma que o texto não significa aquilo que nunca significou. Seu significado para hoje precisa refletir o que significou para o leitor original. Cada vez que o leitor da Bíblia faz uma pergunta do tipo, o que significa essa palavra? Ou qual o sentido de tal costume para a época do autor? Está fazendo perguntas exegéticas. A exegese pretende, então, resgatar o significado do texto a partir de seu autor e transpô-lo para os dias de hoje. Nesse aspecto, a pregação/comunicação assume esses conteúdos e tenta construir seu significado para a comunidade do povo de Deus, hoje. Esse trabalho é conhecido como releitura ou atualização da mensagem. A partir disso, quando estamos diante de um texto bíblico, podemos fazer várias perguntas ao mesmo. Sejam quais forem as perguntas, a preocupação principal é extrair sentido daquelas palavras. Hermenêutica142 De modo mais específico, podemos dizer que o leitor da Bíblia tem uma preocupação mais direta que é a compreensão daquilo que Deus está falando. Para respondermos essa pergunta, podemos e devemos fazer outras. Contudo, devemos nos lembrar de que a resposta estará de acordo com a pergunta que fizermos. Portanto, costumo dizer que a hermenêutica é a arte de saber fazer as perguntas certas ao texto bíblico.3 3. Trabalhando com o Texto • Aspectos Literários Deve-se ter em mente que o texto tem um sentido no seu todo e precisa ser respeitado como tal. Por mais que queiramos expor um versículo apenas, precisamos estar cientes do contexto literário em que se situa. O ponto de partida é reconhecer que a Bíblia não foi escrita em versículos e capítulos. Temos a tendência de lembrar e memorizar versículos, que tem sua grande utilidade, contudo, no preparo e exposição de sermões não podemos nos esquecer de que o versículo pertence a um parágrafo e uma unidade literária maior. Cartas foram escritas como cartas, com saudações iniciais, conteúdo e saudações finais. Salmos são coleções de hinos que tem um sentido em seu todo. Profecias contêm oráculos que vão além dos limites de um versículo. Um passo inicial é termos em mente que o texto com o qual estamos trabalhando tem sua unidade e estrutura. A própria palavra texto vem do latim textus que significa “tecido, textura”. Todo texto, portanto, é um tecido de ideia que fazem sentido no seu todo. Não podemos perder isso de vista. O texto em si já é uma costura cujas ideias e palavras não podem ser simplesmente cortadas de seu contexto. É comum ouvirmos exposições sobre o significado de uma palavra no grego ou no hebraico em que se explora sua etimologia e semântica, deixando de lado seu significado dentro do texto em estudo. Em termos práticos, quando procuramos um texto para reflexão precisamos analisar qual é o seu começo e o seu fim. As edições da 3G. Fee e D. Stuart de modo semelhante diz que a chave para uma boa exegese é uma leitura cuidadosa do texto e fazer as perguntas certas ao texto (1984, p.22). 143 Bíblia, frequentemente dividem grupos de versículos sob temas. Embora os editores tenham sido criteriosos na divisão dessas seções e tais divisões ajudem o leitor, é importante lembrar que elas não são divisões absolutas. Ou seja, às vezes, o editor dividiu o texto onde não deveria e propôs um tema questionável para aquela passagem bíblica (perícope). • Aspectos Semânticos O estudo semântico trata do significado das palavras. Para isso, é sempre importante recorrer aos originais. Muitos pregadores, infelizmente, já abandonaram o costume de consultar o hebraico e o grego, entretanto, há de se reconhecer os benefícios de se familiarizar mais com os originais. Hoje, maior número de ferramentas tem sido disponibilizadas para o pregador especializado e leigo de modo a facilitar a consulta aos originais. Mas independentemente do acesso aos originais, o pregador deve estar pronto para explicar termos não muito claros. Podemos falar do estudo semântico em dois níveis. Um nível é o estudo de palavras em si, tecnicamente chamado de lexicografia. O outro é o nível do significado da palavra em seu contexto, daí, se discute o campo semântico. Em outras palavras, um trata do significado conforme dicionários e léxicos, o outro, conforme o texto apresenta. • Aspectos Históricos A análise histórica envolve percorrer o mundo “por trás” do texto. Frequentemente, para entendermos a mensagem do texto, precisamos conhecer o contexto histórico-social em que foi escrito. A organização dos livros bíblicos nos dá a falsa impressão de que estejam em uma ordem cronológica dos acontecimentos bíblicos. Existem de fato alguns livros que descrevem eventos sequenciais como, por exemplo, o Pentateuco, os livros históricos. Mas, naturalmente, o contexto histórico do livro não é o evento à que se reporta. Os livros foram escritos depois dos acontecimentos narrados neles. A análise histórica pretende situar o autor e sua obra no eixo da história bíblica. Hermenêutica144 Conclusão Pois bem, chegamos ao final de nossa disciplina. Veja bem, ao final da disciplina e não ao esgotamento do tema – estamos longe disso. O estudo hermenêutico exige tempo e dedicação. Portanto, o objetivo central de nossos estudos foi apenas introduzi-los a esse fascinante universo e principalmente desafiá-los a refletir sobres suas práticas interpretativas da Bíblia. Espero que você se aprofunde nos temas aqui desenvolvidos, veja outros que não conseguimos abordar, e principalmente reconsidere o uso que fará das escrituras em seus estudos e também na forma de comunicá-la. Até a próxima! Referências Bibligráficas FEE, G. & STUART, D. Entendes o que Lês?. Trad. Gordon Chown. S. Paulo: Edições Vida Nova, 1984. KAISER, W. C., Jr. Toward an Exegetical Theology. Grand Rapids: Baker Book House, 1981. STOTT, J. R. W. Between Two Worlds. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1982.