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Hermenêutica
Ms. Flávio Henrique de Oliveira Silva
Junho / 2014
Coordenação editorial: Depto. Desenvolvimento Institucional
Professor autor: Flávio Henrique de Oliveira Silva
Coordenadoria de Ensino à Distância: Gedeon J. Lidório Jr
Projeto Gráfico e Capa: Mauro S. R. Teixeira
Revisão: Éder Wilton Gustavo Felix Calado
Designer Instrucional: Wilhan José Gomes
Impressão: Artgraf Ind. Gráfica e editora
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por:
Rua: Martinho Lutero, 277 - Gleba Palhano - Londrina - PR
86055-670 Tel.: (43) 3371.0200
03
SUMÁRIO
Unid. - 01 Hermenêutica: Questões introdutórias - parte I................05
Unid. - 02 Hermenêutica: Questões introdutórias - parte II...........13
Unid. - 03 A necessidade de interpretação................................................19
Unid. - 04 História da Interpretação Bíblica - parte I..........................29
Unid. - 05 História da Interpretação Bíblica - parte II........................39
Unid. - 06 Algumas Leituras Bíblicas na Atualidade...........................47
Unid. - 07 Métodos de Interpretação Bíblica..........................................55
Unid. - 08 Recursos para uma Análise Contextual - parte I............63
Unid. - 09 Recursos para uma Análise Contextual - parte II...........71
Unid. - 10 Recursos Literários - parte I......................................................77
Unid. - 11 Recursos Literários - parte II....................................................87
Unid. - 12 Recursos Literários - parte III..................................................93
Unid. - 13 Interpretando Narrativas - parte I.......................................103
Unid. - 14 Interpretando Narrativas - parte II.....................................109
Unid. - 15 Interpretando Narrativas - parte III...................................115
Unid. - 16 Interpretando Narrativas de Milagres - parte I.............121
Unid. - 17 Interpretando Narrativas de Milagres - parte II...........127
Unid. - 18 Hermenêutica e Comunicação...............................................139
Hermenêutica04
05
Hermenêutica
Unidade - 01
Hermenêutica: Questões introdutórias
Parte I
Introdução
Olá, sejam bem vindos(as) à disciplina de 
hermenêutica bíblica. A hermenêutica é uma ciência de 
importância primária. No entanto, muitos pregadores e 
leitores da bíblia (e de outros textos) não a conhecem e 
outros a ignoram. Que é, pois, a hermenêutica? “A arte de 
interpretar textos”, responde o dicionário. O apóstolo Pedro 
admite, falando das Escrituras, que no Novo Testamento 
“há certas cousas difíceis de entender, que os ignorantes 
e instáveis deturpam, como também deturpam as demais 
Escrituras (as do Antigo), para a própria destruição deles” 
(2 Pe 3.16).
 Vejamos este exemplo: “Entendes o que lês?”
 Texto: Atos 8:26-35. (próxima página)
Hermenêutica06
 Texto: Atos 8:26-35.
E o anjo do Senhor falou a Felipe, dizendo: Levanta-
te e vai para a banda do sul; ao caminho que desce de 
Jerusalém para Gaza, que está deserta. E levantou-se, e 
foi; e eis que um homem etíope, eunuco mordomo de 
Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente 
de todos, os seus tesouros, e tinha ido a Jerusalém para 
adoração, regressava, e assentado no seu carro, lia o 
profeta Isaías. E disse o Espírito a Felipe. Chega-te, e 
ajunta-te a esse carro. E, correndo Felipe, ouviu que 
lia o profeta lsaías, e disse; Entendes o que lês? E ele disse: 
Como poderei entender, se alguém não me ensinar? E 
rogou a Felipe que subisse e com ele se assentasse. E o 
lugar da Escritura que lia era este:
“Foi levado como ovelha para o matadouro, e, como 
está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, assim não 
abriu a sua boca. Na sua humilhação foi tirado o seu 
julgamento; e quem contará a sua geração? Porque a sua 
vida é tirada da terra.”
E, respondendo o eunuco a Felipe, disse: rogo-te, 
de quem diz isto O profeta? De si mesmo, ou de algum 
outro? 
Observações sobre esse texto:
1. Um homem que estava lendo a Bíblia. Era culto e inteligente, 
assim requeria a posição de destaque que ocupava.
2. Sua confissão. “Como o poderei entender?” Até certo ponto 
ele entendia o que estava lendo. Compreendia evidentemente que o 
profeta falava de grandes padecimentos e extrema humilhação que 
um servo do Senhor teria sofrido ou iria sofrer. Faltava-lhe, porém 
entender o essencial para a clareza da profecia: quem era esse servo de 
que falava o profeta?
07
3. Outro homem lhe explica o texto, fazendo uso da mesma 
Bíblia e guiado pelo divino Espírito. “Começando nesta escritura”. 
Quer dizer que Felipe iniciou a explicação pelos demais versículos, do 
mesmo parágrafo que ia lendo o eunuco, ligando o sentido do texto 
aos versículos anteriores e posteriores (contexto). Ele continuou a 
esclarecer o assunto com o auxilio de outras partes do livro de Isaias e 
talvez, das demais Escrituras do Velho Testamento em que se tratava 
do mesmo assunto (passagens paralelas). Teria ele assim mostrado por 
esses outros textos, do mesmo Isaías, qual a significação que o escritor 
sagrado dava a suas próprias palavras; e, pelas outras escrituras, ter-
lhe-ia indicado uma cadeia de profecias em plena harmonia com a 
passagem em apreço. 
4. O viajante, apesar de não conhecer o evangelista, ouve 
atenciosamente a exposição, reconhecendo e aceitando a verdade, 
apesar dos preconceitos de raça e de religião e a desigualdade social 
da época.
5. Em sua exposição, o evangelista apresentou Jesus como o objeto 
das profecias e como o Salvador dos homens — objeto de nossa fé.
 Esse foi apenas um exemplo do trabalho que temos pela frente. 
Espero que de forma tranquila, com muita leitura e reflexão crítica, 
trilhemos um bom caminho rumo a essa importante tarefa: interpretar 
as sagradas escrituras. Vamos em frente! 
Objetivos
1. Apresentar uma noção básica do que significa hermenêutica; 
2. Perceber a forma pela qual a Bíblia (nosso “objeto” de estudo) 
é a palavra de Deus; 
3. Refletir nosso papel na tarefa de interpretação.
Hermenêutica08
1. Definindo Hermenêutica
Em seu significado técnico, hermenêutica refere-se à prática 
da interpretação definida como uma “ciência e arte”. Considera-se a 
hermenêutica como ciência porque ela tem normas, ou regras, e essas 
podem ser classificadas em um sistema ordenado. É considerada 
como arte, porque a comunicação é flexível. Portanto, uma aplicação 
mecânica e rígida das regras, às vezes, distorcerá o verdadeiro sentido 
de uma comunicação. Exige-se do bom intérprete que ele aprenda as 
regras da hermenêutica bem como a arte de aplicá-las.
• Hermenêutica é ciência porque tem princípios seguros e 
imutáveis; e arte porque estabelece regras práticas.
• Exigi-se do bom intérprete que ele aprenda bem as regras 
de interpretação, bem como a arte de aplicação (releitura) para sua 
própria realidade. 
O termo que dá origem a essa matéria vem do grego, 
hermeneutikós, que significa interpretação, ou arte de interpretar. O 
vocábulo grego hermenein, significa intérprete. Essa palavra deriva-se 
do nome de Hermes, que era tido como mensageiro divino e intérprete 
dos deuses, e que também era o deus da eloquência, que os romanos 
chamavam de Mercúrio.
A teoria hermenêutica divide-se, às vezes, em duas subcategorias 
— a hermenêutica geral e a especial. 
• Hermenêutica geral é o estudo das regras que regem a 
interpretação do texto bíblico inteiro. Inclui os tópicos das análises 
histórico-cultural, léxico-sintática, contextual, e teológica. 
• Hermenêutica especial é o estudo das regras que se aplicam a 
gêneros específicos, como parábolas, alegorias, tipos, e profecia.
09
Segundo alguns estudiosos devemos separar a tarefa hermenêutica 
da exegese. Enquanto a hermenêutica se ocupa da interpretação como 
um todo, a exegese faz estudo pormenorizado de um texto buscando 
uma “aproximação” com o sentido pretendido. 
2. A Bíblia como Palavra de Deus
Um de nossos trabalhos consiste emaplicar as técnicas de 
hermenêutica ao texto bíblico. Dessa forma, sendo a Bíblia o objeto 
de nosso estudo, precisamos fazer, já nessa aula introdutória, algumas 
considerações. 
 A primeira, e talvez mais importante, afirmação é que, de 
fato, a Bíblia é a palavra de Deus. Mas de que forma? O próprio Deus 
a ditou para os autores? Certamente que não: “...toda escritura é 
inspirada por Deus...” - 2 Tm 3:16. 
Existe uma grande diferença entre ditado (palavra que cai pronta 
do céu) e inspiração. A inspiração pressupõe a plena participação de 
seus autores e sujeitos (aqueles que estão diretamente envolvidos nos 
fatos narrados) no processo de construção de um texto. Esse processo 
acontece, sempre, a partir da realidade, tanto dos sujeitos como 
também do autor do texto. O ditado, por usa vez, os anula e tende a 
ignorar a realidade. O autor bíblico não repete o que Deus, em tese, 
ditou, antes, elabora a partir de sua vivencia o que Deus inspirou.
Alguns podem se perguntar, mas e Moisés? Ele não recebeu uma 
espécie de palavra/lei ditada? Não! Deus se revela a Moisés a partir 
da realidade que o aflige e a partir da realidade de um povo que passa 
por um processo de formação social, política, econômica e religiosa. 
Deus e sua palavra (na Bíblia) não são coisas que se encontram fora 
da realidade das pessoas e os relatos que envolvem Moisés são a prova 
disso. Por isso, “entender a Bíblia como palavra de Deus é compreendê-
la primeiro como palavra vivida e só depois como palavra escrita” 
(LARA, 2009, p.37). 
A Bíblia é a expressão de fé de um povo que conforme caminhava 
com seu Deus era inspirado por Ele a relatar suas experiências. Na 
Bíblia temos a história de fé do povo, o povo de Deus, e a revelação de 
Hermenêutica10
Deus na vida do povo. Portanto, desmaterializar a Bíblia das condições 
humanas é negar sua inspiração divina para a vida cotidiana. Essas 
narrativas de fé acontecem dentro da história de homens e mulheres, 
que no processo natural da vida vão “discernindo a identidade de 
Deus e sua vontade segundo as suas condições históricas e culturais” 
(LARA, 2009, p.37). 
Com isso, concluímos que a Bíblia é a palavra de Deus, mas 
simultaneamente um livro humano. Por ser humano, ainda que 
inspirado, tem seus limites, condicionamentos e seus distanciamentos 
(culturais, linguísticos, contextuais, etc.). 
Admitir a participação humana não significa, em hipótese 
alguma, eliminar seu caráter divino. Admitir que a Bíblia é um livro 
divino não significa negar as realidades concretas da vida em que 
ocorreram os fatos narrados e, no futuro, as realidades concretas na 
vida e contexto de quem relatou (autor do texto escrito) os fatos dados 
no passado. Negar esse processo comprometeria inclusive a aplicação 
dos textos para nossa realidade. 
Admitir a participação humana em um livro divinamente 
inspirado é estar convencido de que os textos bíblicos precisam 
ser interpretados. Eis então o trabalho da hermenêutica. Eis aqui o 
objetivo do nosso curso. 
3. Leitura e Interpretação da Bíblia
 Por que lemos a Bíblia? Essa pergunta pode ser um norte 
interessante quando pensamos em nossa função de interpretes e no 
papel da hermenêutica bíblica. Não basta ler? Por que interpretar? 
Leitura e interpretação andam de mãos dadas: Ler é interpretar! 
A Bíblia não é mera história do passado, mas espelho para a nossa 
própria história no presente. Por isso, nossa leitura bíblica, além de um 
exercício de interpretação da Bíblia, é a interpretação da Vida com a 
ajuda da Bíblia. Além de tentar ver no texto a realidade que o gerou, 
“lemos a Bíblia para responder à ação de Deus através da nossa ação, 
como membros do povo de Deus, visando ao crescimento espiritual, 
à edificação da igreja, à realização da missão, à transformação das 
pessoas, grupos sociais e da própria sociedade” (ZABATIERO, 2007, p.23). 
11
Conclusão
 Por hoje é só, pessoal! Não se preocupe, no início os assuntos em 
torno de nossa disciplina são um tanto quanto difíceis (especialmente 
para aqueles que nunca tiveram um contato como o tema) e precisamos 
de um tempo para reflexão e assimilação dos conteúdos. Por isso, 
a tarefa de hoje é repensar com calma cada questão aqui abordada. 
Bons estudos e até a próxima Unidade.
Referências Bibliográficas
LARA, Valter Luiz. A Bíblia e o desafio da interpretação sociológica. São 
Paulo: Paulus, 2009.
OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à 
interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009.
ZABATIERO, Júlio. Manual de Exegese. São Paulo: Hagnos, 2007.
Hermenêutica12
Anotações
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Hermenêutica
Unidade - 02
Hermenêutica: Questões introdutórias
Parte II
Introdução
Olá, pessoal! Na Unidade de hoje, ainda pensando em 
questões elementares (introdutórias) para nossa orientação 
quanto à hermenêutica, vamos abordar três pressupostos 
básicos que devem orientar o intérprete no processo de 
leitura e interpretação dos textos sagrados: O pré-texto do 
leitor, o contexto (do texto) e o texto. E ainda, tentar perceber 
a tarefa hermenêutica nesse processo. Vamos ao conteúdo! 
Objetivos
1. Apresentar os primeiros desafios do intérprete e da 
interpretação: pré-texto; contexto e texto;
2. Apresentar as duas tarefas fundamentais da 
hermenêutica. 
Hermenêutica14
1. Pré-Texto
Toda tarefa de leitura pressupõe atribuição de sentido ao que 
se lê. Chamamos esse processo de interpretação. É inegável que 
toda interpretação é refém das condições do intérprete, sejam elas: 
existenciais, sociais, religiosas e até de interesses pessoais. Logo, 
concluímos que, levamos toda a nossa história, vivências e experiências 
aos textos que lemos. Nossa leitura está condicionada a nós mesmos. 
Nesse caso, o texto pode ser forçado a dizer coisas que nunca pretendeu 
dizer na sua origem.
Alguns autores propõem um exercício de total esvaziamento a fim 
de que a leitura e interpretação do texto bíblico não corram qualquer 
risco de manipulação. Em parte isso está correto (embora devamos 
questionar a possibilidade concreta de esvaziamento), mas, por outro 
lado, a total anulação de nossas condições pode comprometer a 
releitura de um texto aplicado à realidade daqueles que se identificam 
com os primeiros leitores– aqueles a quem os textos foram, de fato, 
endereçados. 
Outras questões merecem atenção especial quando pensamos 
no pré-texto. Estou me referindo as nossas convicções teológicas, as 
nossas experiências de fé e as nossas doutrinas. Aproximamo-nos da 
Bíblia a partir daquilo que ela, de fato, nos revela ou condicionados: 
1. por nossas teologias já sistematizadas/construídas:“eu creio assim e 
ponto final”.
2. por experiências religiosas do passado:“eu experimentei isso dessa 
forma e ponto final”.
3. pelas doutrinas que aprendemos desde sempre em nossas igrejas e 
comunidades:“eu aprendi assim, minha igreja prega assim e ponto 
final”.
É óbvio que cabe na caminhada cristã boas construções 
teológicas, experiências de fé e uma boa doutrina. Mas até que ponto 
nossas leituras bíblicas são apenas reforço do que já está estabelecido e 
estão aprisionadas a tudo isso?
15
2. Contexto
Em uma de nossas aulas gastaremos um bom tempo pensando 
nesse tema. Por enquanto, cabem aqui algumas considerações iniciais. 
Pensar no processo de produção de um texto bíblico exige de nós 
algumas observações. Quando estamos diante de uma narrativa (nem 
todos os textos bíblicos são classificados dessa forma), por exemplo, 
devemos pensar em dois momentos diferentes: (1) o fato em si; (2) 
o contexto em que o texto foi escrito, mencionando o fato. Sim, são 
dois momentos distintos. Por exemplo, as coisas que encontramos nos 
evangelhos, a respeito da vida e ministérios de Jesus, só foram escritas 
tempos depois (pelo menos vinte e cinco anos depois).
Qual era o contexto que envolvia o fato? Ou seja, quais eram 
as condições sociais, políticas, religiosas e econômicas em torno do 
fato? As mesmas perguntas precisam ser feita em relação ao texto 
escrito. Qual a condição do autor, para quem escreveu, como viviam 
seus destinatários, de que forma o texto escrito responde as questões 
vividas pelos receptores do texto? 
Todas essas informações nos ajudarão no processo de compreensão 
do texto analisado. Sem esse tipo de análise, a compreensão de um texto 
e, consequentemente, sua aplicação e transmissão estará seriamente 
comprometida.
3. Texto
Quando estamos diante de um texto precisamos ter em mente que 
o mesmo tem um significado. Ou seja, ao escrevê-lo, seu autor tinha 
uma intenção clara, atribuindo sentido ao que pretendia comunicar. 
Aqui cabe uma pergunta que deve nos acompanhar sempre: “o que o 
autor quis dizer com esse texto?”. Simples, pergunte a ele! Que bom 
se fosse assim, mas quase nunca isso é possível. Existe uma enorme 
distância entre autor (emissor) e o receptor (leitor). 
Essa distância do autor e, consequentemente, de seus escritos se 
torna ainda mais problemática em textos antigos (é o caso dos textos 
bíblicos). Além da distância temporal temos que lidar com distância 
cultural e linguística. As línguas em que a Bíblia foi escrita não existem 
Hermenêutica16
mais. Nos dias de hoje não se fala mais o hebraico, o grego e o aramaico 
na forma como foram utilizados nos textos bíblicos. Esse é um dos 
grandes desafios para o trabalho de interpretação de um texto, já que 
cada língua tem suas particularidades na maneira de expressar ideias, 
contar histórias, etc.
Por conta dessa realidade, é comum que as pessoas tragam 
conteúdo próprio para suas leituras. Como isso, perspectivas diferentes 
aparecem: duas ou mais pessoas enxergam o texto, às vezes, de maneira 
bem diferente uma das outras. Diferente inclusive da proposta original 
de seu autor. 
Dentro dessa ideia, muitos advogam que um texto comporta 
percepções diferentes. Logo, não existe interpretação certa ou 
errada do ponto de vista do leitor. Até certo ponto isso está correto, 
entretanto é preciso fazer uma distinção entre significado/sentido 
original e aplicação. As aplicações são 
multiformes, mas o significado é único, 
embora o máximo que consigamos é nos 
aproximar dele. 
Portanto, a primeira tarefa da 
hermenêutica (em linhas gerais) é 
trabalhar na aproximação do sentido 
original do texto atribuído pelo seu autor. 
“Qual é a intenção do autor”? Com base 
nessa resposta, a aplicação, então, pode 
ganhar contornos multiperspectivos. 
Mas lembre-se: quanto mais perto chego 
do autor e do significado pretendido por ele, melhor e mais coerentes 
são minhas aplicações.
Sem essa percepção, sem um bom trabalho hermenêutico – 
possibilidade de aproximação, ou seja, de extrair o significado original 
dado pelo autor – o sentido (e até mesmo a aplicação) de um texto 
ficará ameaçado. Além de achismos e risco de manipulação, “a leitura 
do texto pode cair no vazio da ausência de significado, pois o passado 
e o que nele foi escrito passam a não dizer mais nada que tenha valor 
e sentido ao presente, e muito menos ao futuro” (LARA, 2009, p.36). 
Durante o curso, veremos quais os processos que podemos utilizar 
17
na tentativa de aproximação e extração do significado original dado 
pelo autor de um texto e alguns caminhos para uma boa aplicação (re-
leitura) do texto. Vejamos abaixo um quadro que resume essas ideias. 
Tarefa 
Hermenêutica Caminho Resultado
1ª
Aproximação 
do Significado/
Sentido do Texto
Busca pela 
Intenção 
(aproximada) 
do Autor 
Único: 
porém, aproximado
e não definitivo; 
2ª
Aplicação 
(releitura, 
atualização) do 
Texto
Bíblia 
e 
Realidade
Múltiplo: porém, 
embasado no resultado 
da aproximação de 
sentido; 
Conclusão
 Concluo esta unidade com o mesmo desafio lançado na anterior. 
Precisamos de um tempo para reflexão e assimilação dos conteúdos. 
Por isso, nossa tarefa é repensar com calma cada questão aqui abordada. 
Um caminho interessante seria tentar responder a seguinte pergunta: 
Até que ponto nossas leituras bíblicas são apenas reforço do que já 
está estabelecido (pelas nossas experiências, doutrinas, etc.) e estão 
aprisionadas a tudo isso? Até a próxima pessoal!
Hermenêutica18
Referências Bibliográficas
LARA, Valter Luiz. A Bíblia e o desafio da interpretação sociológica. São 
Paulo: Paulus, 2009.
OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à 
interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009. 
Anotações
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19
Hermenêutica
Unidade - 03
A necessidade de Interpretação
Introdução
Olá, pessoal. Na unidade de hoje refletiremos sobre 
a necessidade de interpretação das escrituras. Embora a 
resposta pareça óbvia, existem ainda muitas resistências 
a esse processo e muitos se perguntam: a hermenêutica é 
mesmo necessária? Espero que ao final dessa unidade cada 
um de vocês responda positivamente a essa questão. 
Objetivos
1. Analisar a necessidade da hermenêutica aplicada 
aos textos bíblicos;
2. Entender o principais pontos de distanciamento 
entre os leitores e os escritores do texto bíblico;
3. Entender duas, entre as principais, funçõesda 
hermenêutica ao lidar com os distanciamentos;
 
4. Fazer um breve (e simples) exercício de reflexão 
hermenêutica frente aos desafios do distanciamento.
Hermenêutica20
1. A necessidade de interpretação
É comum encontrarmos pessoas se perguntando se é, de fato, 
necessário que a Bíblia seja interpretada. Alguns responderiam de 
imediato que não. Para esse grupo, os argumentos, entre tantos outros, 
são:
• A Bíblia já foi escrita em uma linguagem pura e simples de 
entender: Se é palavra de Deus para o povo, por que Deus dificultaria 
seu entendimento?
• A Bíblia é clara e objetiva: Em outras palavras, devemos 
entendê-la de maneira literal.
• Processos interpretativos, por envolver pensamentos e critérios 
humanos, podem contaminar a mensagem originalmente divina.
• Processos interpretativos demandariam a criação de 
mediadores entre Deus (através das escrituras) e o povo. Uma espécie 
de interpretação oficial, inquestionável, nasceria.
Outro grupo responderia que sim, as escrituras devem ser 
interpretadas. Vejamos, então, um contraponto muito utilizado pelos 
que entendem a necessidade de interpretação, levando em conta os 
argumentos do primeiro grupo:
• Existe um distanciamento enorme entre os textos bíblicos e 
nós. Distanciamento cultural, linguístico, etc. É evidente que existem 
textos mais fáceis, cuja compreensão exige menos de seus leitores. Por 
outro lado, muitos textos são complexos e estão intimamente ligados 
ao seu contexto de origem. Vejamos a afirmação de Pedro em relação 
às cartas do apóstolo Paulo: 
“... como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, 
segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes 
assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas 
epístolas, nas quais há certas cousas difíceis de entender, que os 
ignorantes e instáveis deturpam...” (2 Pedro 3:15b - 16).
21
 A respeito da afi rmação de Pedro, vale destacar que, 
diferente de nós, Pedro não enfrentava distanciamentos 
culturais, linguísticos e contextuais em relação a Paulo.
 
A Bíblia é uma coleção de livros divinamente inspirados, mas 
com a participação efetiva de seres humanos. São exatamente os 
aspectos humanos, na produção dos textos sagrados, que devem ser 
investigados.
• A Bíblia se torna clara na medida em que nos comprometemos 
em interpretá-la de maneira imparcial usando para isso todas as 
ferramentas disponíveis de aproximação com o autor e o texto 
produzido por ele (contexto sócio-histórico; contexto linguístico; etc). 
Interessante é que, quem defende a literalidade na leitura de 
textos bíblicos o faz parcialmente. Existe uma seleção entre textos que 
devem ser lidos de maneira literal e os que dependem de contexto. Ou 
seja, os textos que me “atendem” em sua literalidade não precisam ser 
interpretados. Já os que me complicam, recorro ao contexto tentando 
dar o famoso “jeitinho” para que minhas responsabilidades não sejam 
expostas.
• Toda leitura é um ato interpretativo. Dessa forma, todas as vezes 
que me aproximo do texto bíblico permito que meus pensamentos 
participem desse processo. Nesse caso, uma possível contaminação 
independe de um “processo de interpretação” ou de uma leitura literal 
de um texto sagrado. 
Outro argumento que merece destaque nesse ponto é a tradução 
dos textos sagrados do grego/hebraico para as demais línguas. Toda 
tradução (falaremos sobre tradução em um tempo oportuno) passou 
por um processo de interpretação por parte dos tradutores, cujo 
objetivo é aproximação (contextual, linguística, etc) com a mensagem 
originalmente divina. 
 A respeito da afi rmação de Pedro, vale destacar que, 
diferente de nós, Pedro não enfrentava distanciamentos 
culturais, linguísticos e contextuais em relação a Paulo.
Hermenêutica22
Vejamos um pequeno exemplo:
Heb 13:17
NVI
Nova Versão 
Internacional
“Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à 
autoridade deles”
ARA
Almeida Revista e 
Atualizada
“Obedecei aos vossos guias e sede submissos 
para com eles”
 
Qual é a diferença entre as duas versões/traduções? Acertou quem 
identificou que na ARA não aparece à palavra autoridade. Para a 
surpresa de alguns, a palavra “autoridade”, que aparece na NVI, não 
consta no original. 
• O argumento a respeito do perigo do nascimento de mediadores 
na leitura bíblica (por parte daqueles que julgam desnecessário o 
processo de interpretação) é extremamente válido – houve um tempo 
em que a Bíblia ficou na mão do Clero. Sem acesso às escrituras o povo 
foi manipulado (veremos esse assunto com mais detalhes no futuro). 
Entretanto, conforme vimos na primeira aula, à pergunta é: “Já 
não é dessa forma que lemos a Bíblia?” Influenciados por mediadores que 
advogam em causa própria e se autointitulam detentores da revelação 
definitiva através das escrituras? Não é o processo de interpretação 
(criterioso, honesto, feito com preparo) que cria mediadores e seus 
adeptos, mas, quem sabe, a falta dele. 
2. Distanciamentos
A Bíblia é um livro divino, mas também um livro humano. É 
exatamente por isso, por se tratar de um livro humano que não caiu 
pronto do céu, mas foi um trabalho de várias pessoas em momentos, 
línguas e lugares diferentes e bem específicos aos seus contextos que 
23
precisamos interpretá-la. Esse aparente abismo entre os leitores/
interpretes, primeiros leitores, o autor e os fatos narrados por ele é 
chamado de distanciamento. São eles: (1) distanciamento temporal; 
(2) distanciamento contextual; (3) distanciamento cultural; (4) 
distanciamento linguístico; (5) distanciamento autorial. Para 
entendermos, de forma introdutória, cada um desses distanciamentos 
vamos recorrer, na integra, aos escritos de Augustus Nicodemus 
Lopes1 que trabalha o assunto de maneira objetiva e com uma didática 
precisa:
Distanciamento Temporal: A Bíblia está séculos distante de nós. 
Seu último livro foi escrito pelo final do século I da Era Cristã, 
o que nos separa temporalmente em cerca de dois milênios. A 
distância temporal, num mundo em constantes mudanças, faz 
com que a maneira de encarar o mundo, os aspectos culturais e 
linguísticos dos escritores da Bíblia se percam no passado distante. 
Portanto, como qualquer documento antigo, a Bíblia precisa ser 
lida levando-se isto em conta. Os princípios de interpretação da 
Bíblia procuram condições de transpor este abismo temporal.
Distanciamento Contextual: Os livros da Bíblia foram escritos 
para atender a determinadas situações, que já se perderam no 
passado distante. É verdade que ao serem incluídos no cânon 
bíblico, eles passaram a ser relevantes para a Igreja universal. 
Por outro lado, recuperar o contexto em que estes livros foram 
escritos é essencial para entendermos melhor a sua mensagem. 
As cartas de Paulo foram escritas visando atender às necessidades 
de igrejas locais. Ou ainda, que o livro de Habacuque foi escrito 
num contexto de iminente invasão por potências estrangeiras. 
A mensagem do evangelho de Marcos fica mais clara quando 
descobrimos que Marcos escreveu provavelmente para ajudar 
os crentes romanos a enfrentar as provações que sofriam por 
causa de Cristo. E o livro de Jonas – especialmente a atitude 
de Jonas contra os ninivitas – ganha maior clareza quando 
descubro que havia uma antipatia natural dos judeus contra os 
ninivitas. Os princípios de interpretação da Bíblia procuram 
transpor as dificuldades criadas pela distância contextual.
1Baseado em LOPES, Augustus Nicodemus. Apostila (não publicada): Princípios de Interpretação da 
Bíblia: Por que Precisamos Interpretar a Bíblia?. 
Hermenêutica24
Distanciamento Cultural: O mundo em que os escritores da 
Bíblia viveram já não existe. Está no passado distante, com 
suas características, costumes, tradições e crenças. Muito 
embora a inspiração das Escrituras garanta que sua mensagem 
seja relevante para todas as épocas, devemos lembrar que 
esta mensagem foi registrada numa determinada cultura, 
da qual traços foram preservados na Bíblia. Os princípios de 
interpretação da Bíbliadevem levar em conta o jeito de escrever 
daquela época, a maneira de expressar conceitos e ilustrar as 
verdades, para poder transpor a distância cultural.
Distanciamento Linguístico: As línguas em que a Bíblia foi escrita 
também já não existem. Não se fala mais o hebraico, o grego e 
o aramaico bíblicos nos dias de hoje, mesmo nos países onde 
a Bíblia foi escrita. Como cada língua tem seu jeito próprio de 
comunicar conceitos (apesar de uma estrutura comum a todas), 
princípios de interpretação da Bíblia devem levar em conta 
estas peculiaridades. O conhecimento do paralelismo hebraico 
certamente nos ajuda a entender os Salmos melhor, bem como 
os profetas.
Distanciamento Autorial: Devemos ainda reconhecer que 
teríamos uma compreensão mais exata da mensagem de 
alguns textos bíblicos reconhecidamente obscuros se os seus 
autores estivessem vivos. Poderíamos perguntar a eles acerca 
destas passagens complicadas que escreveram e que continuam 
até hoje dividindo os melhores intérpretes quanto ao seu 
significado. Por exemplo, Pedro poderia nos esclarecer o que 
ele quis dizer com “Cristo foi e pregou aos espíritos em prisão”. 
Ou ainda, Paulo poderia nos dizer o que ele quis dizer com “o 
que farão os que se batizam pelos mortos?”. Mateus poderia 
finalmente tirar a dúvida sobre o sentido da frase de Jesus “não 
terminarão de percorrer as cidades de Israel até que venha o 
Filho do Homem”. Daniel poderia nos esclarecer a quem ele se 
referia por Ciro (de quem não temos registro fora da Bíblia) e 
porque considerava Belsazar filho de Nabucodonosor, quando 
era filho de Nabonido. Não endossamos o que alguns estudiosos 
afirmam, que com a morte do autor perdeu-se a possibilidade de 
recuperar-se a intenção dos mesmos. A razão é que a intenção 
25
deles sobrevive no que escreveram. Mas certamente a ausência 
do autor faz com que a interpretação de textos obscuros seja 
necessária. Princípios de interpretação devem levar em conta o 
distanciamento autorial, e buscar meios de recuperar a intenção 
deles nos próprios textos que escreveram. 
Por conta da participação humana e dos distanciamentos até 
aqui mencionados concluímos que, de fato, a interpretação dos textos 
bíblicos é uma necessidade inquestionável. Mas veja, o distanciamento 
pede pelo menos dois passos fundamentais, dos quais a hermenêutica 
se ocupa, conforme vimos na unidade 2: 
1. Aproximação do texto original: Contexto do autor, contexto 
do fato descrito, língua utilizada e suas particularidades, elementos 
culturais, elementos sociais, destinatários (primeiros leitores) e suas 
demandas, gênero literário, entre outros. 
2. Aplicação do texto para nossa realidade: Vencer o distanciamento 
não se trata apenas de aproximação do texto e contexto original. 
“Descobri várias coisas sobre um determinado texto, mas e agora, o que 
faço com isso tudo?”. Esse é também um trabalho da hermenêutica: 
Cuidar para que a aplicação seja coerente e honesta com as descobertas 
realizadas no processo de aproximação. Ou seja, de que forma o mesmo 
rompe com as barreiras do distanciamento e se torna tão real e preciso 
para nós como foi para os primeiros leitores, a quem os escritos foram 
destinados. 
3. Lidando com os distanciamentos
Façamos um pequeno exercício de reflexão, pensando nos dois 
desafios da hermenêutica descritos acima quanto ao problema dos 
distanciamentos. Vamos lá!
Sabemos que, praticamente, todas as cartas paulinas foram 
escritas em resposta a “problemas específicos” enfrentados pela igreja a 
quem a carta foi encaminhada. Por isso, o primeiro passo no processo 
hermenêutico seria o de aproximação, tentando descobrir pelo menos 
(1) que problema era esse? (2) de que forma o texto se apresenta como 
Hermenêutica26
resposta a esse problema? 
O segundo passo seria a aplicação do texto para nossa realidade. 
Minha questão, para nossa reflexão, é: Posso tratar/aplicar a resposta 
de um problema especifico de forma universal? Ou seja, posso, 
isoladamente, pegar uma resposta de Paulo (sem saber qual era a 
pergunta/problema) em forma de carta e aplicar a todas as situações 
vividas pela igreja de hoje como se fosse uma doutrina fundamental e 
universal?
Posso imaginar sua reação: “professor, nos dê um exemplo”. 
Vejamos algo bem simples (nem tanto para algumas pessoas e 
denominações):
“A mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição. Não 
permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre 
o homem. Esteja, porém, em silêncio”  (1 Timóteo 2:11-12 – 
NVI).
Vamos colocar a cabeça para funcionar. Lembre-se do que foi 
dito acima (vale repetir):
1. Sabemos que, praticamente, todas as cartas paulinas foram 
escritas em resposta a “problemas específicos” enfrentados pela igreja a 
quem a carta foi encaminhada2. 
2. Que problema era esse? 
3. De que forma o texto se apresenta como resposta a esse 
problema? 
4. Posso tratar/aplicar a resposta de um problema especifico de 
forma universal? Ou seja, posso, isoladamente, pegar uma resposta de 
Paulo (sem saber qual era a pergunta/problema) em forma de carta e 
aplicar a todas as situações vividas pela igreja de hoje como se fosse 
uma doutrina fundamental e universal?
Ao considerar esse pequeno método (quatro passos/perguntas) a 
que conclusão você chegou? É obvio que, por se tratar de um exercício 
de reflexão, não vou dar respostas ou opiniões prontas sem que você 
2Em alguns casos o próprio apóstolo identificava o problema e, então, escrevia. Em alguns casos ficava 
sabendo do problema e escrevia. Em outros casos, recebia uma carta das comunidades pedindo sua 
opinião e direção para algum problema que estavam enfrentando.
27
avalie, com calma, tudo que aqui dissemos. Leia o texto, análise, reflita 
e aplique esse pequeno exercício a outros textos nas cartas paulinas. As 
respostas as suas dúvidas virão, naturalmente, no decorrer do curso. 
Conclusão
 Termino essa aula com ainda mais certeza: a interpretação dos 
textos bíblicos é uma necessidade. Aqueles que levam a revelação de 
Deus, através das escrituras, a sério devem percorrer esse caminho 
com dedicação, seriedade e honestidade. 
 Que o mesmo Espírito que inspirou os autores bíblicos repouse 
sobre nós e nos inspire nessa tarefa. Até a próxima, pessoal!
Referências Bibliográficas
FEE, Gordon & Douglas Stuart. Entendes o Que Lês?, São Paulo: Edições 
Vida Nova, 1984.
OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à 
interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009.
 
Hermenêutica28
Anotações
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Hermenêutica
Unidade - 04
História da Interpretação Bíblica: parte I
Introdução
Na Unidade de hoje, e também na próxima, apresentaremos 
uma visão panorâmica geral a respeito da interpretação bíblica 
ao longo da história. Essa noção histórica nos será muito útil. 
Possivelmente encontraremos elementos (erros, acertos e 
dificuldades) de aproximação com a nossa realidade. 
No transcurso dos séculos, desde que Deus revelou as 
Escrituras, tem havido diversos métodos de estudar a Palavra de 
Deus. Uma visão geral histórica dessas práticas nos capacitará 
a vencer a tentação de crer que nosso sistema de interpretação 
é o único que já existiu. Um entendimento dos pressupostos de 
outros métodos proporciona uma perspectiva mais equilibrada 
e uma capacidade para um diálogo mais significativo com os 
que creem de modo diferente.
Pela observação dos erros dos que nos precederam, 
podemos conscientizar-nos mais dos possíveis perigos quando 
somos tentados de maneira semelhante. Portanto, é de grande 
valia o estudo constante de fatos históricos e a história da 
interpretação, que servem para elucidar determinados fatos e 
nos levar a uma melhor compreensão do texto sagrado.
 Objetivos
1. Apresentar a história da interpretação bíblica desde a 
exegese judaica antiga até a idade média;
2. Perceber a forma pela qual a interpretação bíblica 
no decorrer da história pode nos auxiliar em nossa tarefa 
interpretativa.
Hermenêutica30
1. Exegese Judaica Antiga
Um estudo da história da interpretação Bíblica começa, em geral, 
com a obra de Esdras. Ao voltar do exílio na Babilônia, o povo de Israel 
solicitou a Esdras que lhe lesse o Pentateuco. Neemias 8:8 lembra: 
“Leram [Esdras e os levitas] no Livro, na Lei de Deus claramente, 
dando explicações, de maneira que entendesse o que se lia”. 
Visto que, durante o período do exílio, os israelitas provavelmente 
tenham perdido sua compreensão do hebraico, a maioria dos eruditos 
bíblicos supõe que Esdras e seus ajudantes traduziam o texto hebraico 
e o liam em voz alta em aramaico, acrescentando explicações para 
esclarecer o significado. Assim, pois, começou a ciência e arte da 
interpretação bíblica.
Os escribas que vieram a seguir tiveram grande cuidado em copiar 
as Escrituras, crendo que cada letra do texto era a Palavra de Deus 
inspirada. Esta profunda reverência pelo texto escrito tinha as suas 
vantagens e desvantagens. Vantagem: os textos foram cuidadosamente 
preservados através dos séculos. Desvantagem: os rabinos logo 
começaram a interpretar a Escritura por outros métodos que não os 
meios pelos quais a comunicação é normalmente interpretada. 
No tempo de Cristo, a exegese judaica podia classificar-se em 
quatro tipos principais: literal, midráshica, pesher, e alegórica. O 
método literal de interpretação servia de base para outros tipos de 
interpretações. Isto resultou numa exegese (midráshica, por exemplo) 
que (1) dava significado a textos, frases e palavras sem levar em conta 
o contexto no qual se tencionava que fossem aplicados; (2) combinava 
textos que continham palavras ou frases semelhantes, sem considerar 
se tais textos referiam-se à mesma ideia. 
A interpretação pesher trabalhava com enfoques escatológicos. A 
comunidade acreditava que tudo quanto os antigos profetas escreveram 
tinha significado profético velado. Era comum a interpretação 
apocalíptica. Muitas vezes a interpretação pesher era denotada 
pela frase “este é aquela”, indicando que “este presente fenômeno é 
cumprimento daquela antiga profecia”.
A exegese alegórica baseava-se na idéia de que o verdadeiro 
sentido jaz sob o significado literal da Escritura. Historicamente, 
31
o alegorismo foi desenvolvido pelos gregos. No tempo de Cristo, os 
judeus desejavam permanecer fiéis à tradição mosaica, mas adotavam 
a filosofia grega. Filão acreditava que o significado literal da Escritura 
representava um nível imaturo de compreensão; o significado alegórico 
era para os maduros. 
2. O uso do Antigo Testamento pelo Novo
Existem muitos textos do Novo Testamento que se constituem de 
citações diretas, paráfrases ou de alusões ao Antigo Testamento. Como 
consequência, um significativo corpo de literatura exemplifica os 
métodos interpretativos de Jesus e dos escritores do Novo Testamento. 
• Uso Que Jesus Faz do Antigo Testamento:
Podemos extrair diversas conclusões gerais de um exame do uso 
que Jesus faz do Antigo Testamento. 
1. Ele foi uniforme no tratar as narrativas históricas como 
registros fiéis do fato. As alusões a Abel, Noé, Abraão, Isaque, Jacó, 
e Davi, por exemplo, parecem todas intencionais e foram entendidas 
como referências a pessoas de carne e osso e a eventos históricos.
2. Quando Jesus fazia aplicação do registro histórico, ele o extraía 
do significado normal do texto, contrário ao sentido alegórico. Ele não 
demonstrou tendência alguma para dividir a verdade escrita em níveis 
— um nível superficial baseado no significado literal do texto e uma 
verdade mais profunda baseada em algum nível místico.
3. Jesus denunciou o modo como os dirigentes religiosos haviam 
desenvolvido métodos casuísticos que punham à parte a própria 
Palavra de Deus que eles alegavam estar interpretando, e no lugar dela 
colocavam suas próprias tradições (Marcos 7:6-13; Mateus 15:1-9).
4. Os escribas e fariseus, por mais que quisessem acusar a Cristo 
de erro, nunca o acusaram de usar qualquer Escritura de modo 
antinatural ou ilegítimo. Mesmo quando Jesus repudiava diretamente 
os acréscimos e as interpretações errôneas dos fariseus com relação ao 
Antigo Testamento.
Hermenêutica32
5. Quando Jesus, vez por outra, usou um texto de um modo que 
nos parece antinatural, geralmente se tratava de legítima expressão 
idiomática hebraica ou aramaica, ou padrão de pensamento que não 
se traduz diretamente para nossa cultura e nosso tempo. 
• O Uso Que os Apóstolos Fizeram do Antigo Testamento:
Os apóstolos seguiram seu Senhor e consideraram o Antigo 
Testamento como a Palavra de Deus inspirada (2 Timóteo 3:16 / 2 
Pedro 1:21). Em cinquenta e seis casos, pelo menos, há referência 
explícita a Deus como o autor do texto bíblico. A semelhança de Cristo, 
eles aceitaram a exatidão histórica do Antigo Testamento (Atos 7:9-50; 
13:16-22; Hebreus 11). 
3. Interpretação Bíblica nos primeiros séculos do 
cristianismo
• Exegese Patrística (100-600 d.C):
 A despeito da prática dos apóstolos, uma escola de interpretação 
alegórica dominou a igreja nos séculos que se sucederam. Esta 
alegorização derivou-se de um propósito digno — o desejo de 
entender o Antigo Testamento como documento cristão. Contudo, o 
método alegórico segundo praticado pelos pais da igreja muitas vezes 
negligenciou por completo o entendimento de um texto e desenvolveu 
especulações que o próprio autor nunca teria reconhecido. Uma vez 
abandonado o sentido que o autor tinha em mente, conforme expresso 
por suas próprias palavras e sintaxe. 
• Clemente de Alexandria (150- 215 d.C):
 Exegeta patrístico de renome, Clemente acreditava que as 
Escrituras ocultavam seu verdadeiro significado a fim de que fôssemos 
inquiridores, e também porque não é bom que todos a entendam. Ele 
desenvolveu a teoria de que cinco sentidos estão ligados à Escritura 
(histórico, doutrinal, profético, filosófico, e místico), com as mais 
profundas riquezas disponíveis somente aos que entendem os sentidos 
mais profundos. 
33
• Orígenes (185-254 d.C):
 Orígenes foi o notável sucessor de Clemente. Ele cria ser a 
Escritura uma vasta alegoria na qual cada detalhe é simbólico, e dava 
grande importância a 1 Coríntios 2:6-7 (“falamos a sabedoria de Deus 
em mistério”).
Ele acreditava que assim como o homem se constitui de três 
partes —corpo, alma e espírito — da mesma forma a Escritura possui 
três sentidos. O corpo é o sentido literal, a alma o sentido moral, 
e o espírito o sentido alegórico ou místico. Na prática, Orígenes 
tipicamente menosprezou o sentido literal, raramente se referiu ao 
sentido moral, e empregou constantemente a alegoria, uma vez que só 
ela produzia o verdadeiro conhecimento.
• Agostinho (354-430 d.C):
 Em termos de originalidade e gênero, Agostinho foi de longe 
o maior homem de sua época. Em seu livro sobre a doutrina cristã 
ele estabeleceu diversas regras para exposição da Escritura, algumas 
das quais estão em uso até hoje. Entre suas regras encontramos as 
seguintes:
1. O intérprete deve possuir fé cristã autêntica.
2. Deve-se ter em alta conta o significado literal e histórico da Escritura.
3. A Escritura tem mais que um significado e, portanto, o método alegórico é adequado.
4. Há significado nos números bíblicos.
5. O Antigo Testamento é documento cristão, porque Cristo está retratado nele do princípio ao fim.
6.
Compete ao expositor entender o que o autor pretendia dizer, 
e não introduzir no texto o significado que ele, expositor, quer 
lhe dar.
Hermenêutica34
7. O intérprete deve consultar o verdadeiro credo ortodoxo.
8.
Um versículo deve ser estudado em seu contexto, e não 
isolado dos versículos que o cercam.
9.
Se o significado de um texto é obscuro, nada na passagem 
pode constituir-se matéria de fé ortodoxa.
10.
O Espírito Santo não toma o lugar do aprendizado necessário 
para se entender a Escritura. O intérprete deve conhecer 
hebraico, grego, geografia e outros assuntos.
11. A passagem obscura deve dar preferência à passagem clara.
12. O expositor deve levar em consideração que a revelação é 
progressiva.
 
Na prática, Agostinho renunciou à maioria de seus princípios 
e inclinou-se para uma alegorização excessiva. Esta prática faz que 
seus comentários exegéticos sejam alguns dos menos valiosos de seus 
escritos. Ele justificou suas interpretações alegóricas em 2 Coríntios 
3:6 (“porque a letra mata, mas o espírito vivifica”), querendo com isso 
dizer que uma interpretação literal da Bíblia mata, mas uma alegórica 
ou espiritual vivifica.
Agostinho cria que a Escritura tinha um sentido quádruplo 
— histórico, etiológico, analógico, alegórico. Sua opinião foi a 
predominante na Idade Média. Na teoria, ele sistematizou muitos dos 
princípios de exegese sadia, mas na prática deixou de aplicar esses 
princípios em seu estudo bíblico.
• A Escola de Antioquia da Síria:
Um grupo de eruditos em Antioquia da Síria tentou evitar 
o “letrismo” dos judeus e o alegorismo dos alexandrinos. Eles, e 
especialmente um de seu grupo, Teodoro de Mopsuéstia (350— 428), 
defendiam o princípio da interpretação histórico-gramatical, isto é, que 
um texto deve ser interpretado segundo as regras da gramática e os fatos 
da história. Evitavam a exegese dogmática (lembram-se da Unidade 2: 
35
pré-texto? Onde parte-se, às vezes, da doutrina estabelecida e não do 
texto propriamente dito), asseverando que uma interpretação deve ser 
justificada por um estudo de seu contexto gramático e histórico, e não 
por um apelo à autoridade. Criticavam os alegoristas por lançarem 
dúvida na historicidade de muita coisa do Antigo Testamento.
 A perspectiva que os antioquenses tinham da história diferia 
daquela que tinham os alexandrinos. Segundo os alegoristas, flutuando 
acima do significado dos acontecimentos do Antigo Testamento 
encontrava-se outro, mais espiritual. Os antioquenses, pelo contrário, 
criam que o significado espiritual de um acontecimento histórico 
estava implícito no próprio acontecimento. Vejamos um exemplo:
Partida de Abraão de Harã
Alegoristas Antioquenses
Significava sua recusa em 
conhecer as coisas por meio 
dos sentidos
Representava um ato de fé e 
confiança ao seguir o chamado de 
Deus para deixar a cidade histórica 
de Harã e dirigir-se à terra de Canaã.
4. Interpretação Bíblica na idade média
• Exegese Medieval (600-1500):
A maior parte dos estudantes da Bíblia, nesse período, devotava-
se a estudar e compilar as obras dos Pais primitivos. A interpretação foi 
amarrada pela tradição, e o que se destacava era o método alegórico. 
O sentido quádruplo da Escritura produzido por Agostinho era a 
norma para a interpretação bíblica. Esses quatro níveis de significação, 
expressos na seguinte quadra que circulou durante este período, eram 
tidos como existentes em toda passagem bíblica:
- A Letra mostra-nos o que Deus e nossos pais fizeram;
- A alegoria mostra-nos onde está oculta a nossa fé;
- O significado moral dá-nos as regras da vida diária;
- A analogia mostra-nos onde terminamos nossa luta;
Hermenêutica36
Podemos usar a cidade de Jerusalém como exemplo:
Literalmente Jerusalém refere-se à própria cidade histórica;
Alegoricamente Refere-se à igreja de Cristo;
Moralmente Indica a alma humana;
Analogicamente 
(e escatologicamente) Aponta para a Jerusalém celestial; 
Durante esse período, aceitou-se geralmente o princípio de que 
qualquer interpretação de um texto bíblico devia adaptar-se à tradição 
e à doutrina da igreja. A fonte da teologia dogmática não era só a 
Bíblia, mas a Bíblia conforme a tradição que a igreja a interpretava.
Embora predominasse o método quádruplo de interpretação, 
outros tipos de exegese ainda estavam sendo desenvolvidos. No 
decorrer do último período medieval, os cabalistas na Europa e na 
Palestina continuaram na tradição do primitivo misticismo judaico. 
Levaram a prática do “letrismo” ao extremo. Acreditavam que cada letra 
tinha significação sobrenatural. Na tentativa de desvendar mistérios 
divinos, recorreram aos seguintes métodos: substituir uma palavra 
bíblica por outra que tinha o mesmo valor numérico; acrescentar ao 
texto por considerar cada letra de uma palavra como a letra inicial de 
outras; substituir novas palavras em um texto por algumas letras das 
palavras primitivas.
Entre alguns grupos, porém, estava em voga um método de 
interpretação mais científico. Os judeus espanhóis dos séculos doze 
a quinze incentivaram o retorno a um método de interpretação 
histórico-gramatical. Os vitorinos da Abadia de São Vítor, em Paris, 
defendiam a tese de que o significado da Escritura deve encontrar-se 
em sua exposição literal. Propunham que a exegese desse origem à 
doutrina ao invés de fazer o significado de um texto coincidir com 
37
ensino eclesiástico anterior.
Nicolau de Lyra (1270 — 1340) foi um homem que causou 
significativo impacto sobre o retorno à interpretação literal. Ele 
entendia que outros sentidos muitas vezes sufocavam o texto e que só o 
literal deveria ser usado como base para a doutrina. A obra de Nicolau 
de Lyra influenciou profundamente a Lutero, muitos acreditam que 
sem a sua influência, Lutero não teria dado início à Reforma.
Conclusão
 Por hoje é isso, pessoal. A próxima Unidade será a continuação 
desta. Vamos percorrer desde a Reforma Protestante até o período 
moderno. Até breve!
 
Referências Bibliográficas
DREHER, Martin. Bíblia: suas Leituras e Interpretações na História do 
Cristianismo. São Leopoldo. RS: Sinodal, 2008.
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Anotações
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Hermenêutica
Unidade - 05
História da Interpretação Bíblica: parte II
Introdução
Olá, pessoal! Na Unidade de hoje daremos 
continuidade de onde começamos apresentar uma visão 
panorâmica a respeito da interpretação bíblica ao longo da 
história. Vamos percorrer desde a Reforma Protestante até 
o período moderno. Vamos ao conteúdo!
 
 Objetivos
1. Apresentar a história da interpretação bíblica 
desde a Reforma Protestante até a modernidade;
2. Perceber a forma pela qual a interpretação bíblica 
no decorrer da história pode nos auxiliar em nossa tarefa 
interpretativa.
Hermenêutica40
1. Interpretação bíblica no período da reforma
Nos séculos XIV e XV predominava profunda ignorância 
concernente ao conteúdo da Escritura: alguns doutores em teologia 
nunca haviam lido a Bíblia toda. A Renascença chamou a atenção 
para a necessidade de conhecer as línguas originais a fim de entender 
a Bíblia. Erasmo facilitou este estudo ao publicar a primeira edição de 
crítica ao Novo Testamento grego, e Reuchlin com sua tradução de 
uma gramática e léxico hebraicos. O sentido quádruplo da Escritura 
foi, aos poucos, sendo deixado de lado e substituído pelo princípio de 
que a Escritura tem apenas um único sentido.
• Lutero (1483-1546):
Lutero acreditava que a fé e a iluminação do Espírito eram 
requisitos indispensáveis ao intérprete da Bíblia. Afirmava que a Bíblia 
devia ser vista com olhos inteiramente distintos daqueles com os quais 
vemos outras produções literárias.
Ele sustentava, também, que a igreja não deveria determinar o 
que as Escrituras ensinam; pelo contrário, as Escrituras é que deveriam 
determinar o que a igreja ensina. Rejeitou o método alegórico de 
interpretação da Escritura, chamando-o de sujeira, escória, e um 
monte de trapos obsoletos.
De acordo com Lutero, uma interpretação adequada da Escritura 
deve proceder de uma compreensão literal do texto. O intérprete 
deve considerar em sua exegese as condições históricas, gramaticais 
e contextuais. Ele acreditava, também, que a Bíblia é um livro claro, 
contrariando o dogma católico romano de que as Escrituras são tão 
obscuras que somente a igreja pode revelar seu verdadeiro significado.
Ao abandonar o método alegórico que por tanto tempo servira 
para fazer do Antigo Testamento um livro cristão, Lutero viu-se 
forçado a encontrar outro meio de explicar aos crentes como o Antigo 
se aplicava ao Novo. Em resposta a essa questão sustentava que o 
Antigo e o Novo Testamento apontam para Cristo. Este princípio de 
organização, que na realidade se tornou um princípio hermenêutico, 
levou Lutero a ver a Cristo em muitos lugares (como alguns dos Salmos 
que ele designou como messiânicos) em que mais tarde os intérpretes 
41
deixaram de encontrar referências cristológicas. Quer concordemos, 
ou não, seu princípio cristológico capacitou-o a demonstrar a unidade 
da Escritura sem apelação para a interpretação mística do texto do 
Antigo Testamento.
Um dos grandes princípios hermenêuticos de Lutero fazia 
cuidadosa distinção entre a Lei e o Evangelho. Para Lutero, a Lei refere-
se a Deus em sua ira, seu juízo e sua aversão ao pecado; o Evangelho 
refere-se a Deus em sua graça, seu amor e sua salvação. O repúdio à Lei 
estava errado, segundo Lutero, porque conduz à ilegalidade. Fundir a 
Lei e o Evangelho também estava errado, porque conduz à heresia de 
acrescentar obras à fé. Lutero acreditava, pois, que o reconhecimento 
e a manutenção cuidadosa da distinção Lei-Evangelho eram decisivos 
ao entendimento adequado da Bíblia. 
• Calvino (1509-1564)
O maior exegeta da Reforma foi, provavelmente, Calvino. Em 
geral, ele concordava com os princípios articulados por Lutero. 
Ele, também, acreditava que a iluminação espiritual é necessária, e 
considerava a interpretação alegórica como artimanha de Satanás para 
obscurecer o sentido da Escritura.
“A Escritura interpreta a Escritura” era uma sentença predileta 
de Calvino, a qual aludia à importância que ele dava ao estudo do 
contexto, da gramática, das palavras, e de passagens paralelas, em lugar 
de trazer para o texto o significado do próprio intérprete. Em uma 
famosa sentença ele declarou que “a primeira tarefa de um intérprete 
é deixar que o autor diga o que ele de fato diz, em vez de atribuir-lhe o 
que pensa que ele deva dizer”.
Calvino, provavelmente, superou Lutero ao harmonizar suas 
práticas exegéticas com sua teoria. Ele não partilhava da opinião 
de Lutero de que Cristo deve ser encontrado em toda a parte 
nas Escrituras. A despeito de algumas diferenças, os princípios 
hermenêuticos sistematizados por esses reformadores se tornariam 
os grandes princípios norteadores para a moderna interpretação 
protestante ortodoxa.
Hermenêutica42
2. Interpretação bíblica no período da pós 
reforma (1550-1800)
• Confessionalismo:
O Concílio de Trento reuniu-se em várias ocasiões de 1545 a 1563 
e elaborou uma lista de decretos expondo os dogmas da igreja católica 
romana e criticando o protestantismo. Os protestantes reagiram com 
o desenvolvimento de credos que defi niam sua posição.
 A certa altura, quase todas as cidades importantes tinham 
seu credo predileto, com a predominância de amargas controvérsias 
teológicas. Os métodos hermenêuticos durante este período, 
amiúde, eram defi cientes, porque a exegese se tornou uma criada da 
dogmática, e muitas vezes degenerou-se em mera escolha de texto 
para comprovação. 
• Pietismo:
O pietismo surgiu como reação à exegese dogmática. Philipp 
Jakob Spener (1635-1705) é considerado o lider do reavivamento 
pietista. Em um folheto intitulado Anseios 
Piedosos ele pedia o fi m da controvérsia inútil, 
o retorno ao interesse cristão mútuo e às boas 
obras; melhor conhecimento da Bíblia por 
parte dos cristãos, e melhor preparo espiritual 
para os ministros.
A. H. Francke tipifi cou muitas das 
características pedidas pelo folheto de Spener. 
Além de ser erudito, linguista e exegeta, ele 
foi ativo na formação de muitas instituições 
destinadas ao cuidado dos desamparados e 
dos enfermos. Além disso, envolveu-se na 
organização do trabalho missionário para a Índia.
O pietismo fez signifi cativas contribuições para o estudo da 
Escritura, mas não fi cou imune às críticas. Nos seus mais sublimes 
momentos, os pietistas uniram um profundo desejo de entender 
a Palavra de Deus e apropriar-se dela para suas vidas com uma 
excelente apreciação da interpretação histórico-gramatical. Contudo, 
Philipp Jakob Spener
Fonte: Wikimedia Commons
43
muitos pietistas mais recentes descartaram a base de interpretação 
histórico-gramatical, e passaram a depender de uma “luz interior”. 
Essas manifestações, baseadas em impressões subjetivas e reflexões 
piedosas, muitas vezes, resultaram em interpretações contraditórias e 
que poucas relações tinham com o significado do autor.
• Racionalismo:
O racionalismo, posição filosófica que aceita a razão como a 
única autoridade que determina as opções ou curso de ação de alguém, 
surgiu como importante modo de pensar durante este período e cedo 
causou profundoefeito sobre a teologia e a hermenêutica.
Durante vários séculos, a igreja havia acentuado a racionalidade 
da fé. Considerava a revelação superior à razão como meio de entender 
a verdade, mas a verdade da revelação foi tida como inerentemente 
razoável.
Lutero estabeleceu distinção entre o uso magisterial e o ministerial 
da razão. Por uso ministerial da razão ele se referia ao emprego da 
razão humana para ajudar-nos a compreender e a obedecer mais 
plenamente à Palavra de Deus. Por uso magisterial da razão ele se 
referia ao emprego da razão humana como juiz sobre a Palavra de 
Deus. Lutero afirmava claramente a primeira e rejeitava a segunda.
3. Interpretação bíblica na modernidade
Hermenêutica Moderna (1800 até ao Presente)
• Liberalismo:
O racionalismo filosófico lançou a base do liberalismo teológico. 
Ao passo que nos séculos anteriores a revelação havia determinado o 
que a razão deveria pensar. No final do século XIX a razão determinava 
que partes da revelação (se houvesse alguma) deviam ser aceitas 
como verdadeiras. Onde nos séculos anteriores a autoria divina da 
Escritura fora acentuada, agora o foco era sua autoria humana. Alguns 
autores diziam que várias partes da Escritura possuíam diversos graus 
de inspiração, e podia ser que os graus inferiores (como detalhes 
Hermenêutica44
históricos) contivessem erros. Outros escritores, como Schleirmacher, 
foram além, negando totalmente o caráter sobrenatural da inspiração. 
Muitos já não mencionavam a inspiração como o processo pelo qual 
Deus guiou os autores humanos a um produto escriturístico que fosse 
a sua verdade. Pelo contrário, a inspiração referia-se à capacidade da 
Bíblia (produzida humanamente) de inspirar a experiência religiosa.
Também aplicou-se à Bíblia um naturalismo consumado. Os 
racionalistas alegavam que tudo o que não estivesse conforme a 
mentalidade instruída devia ser rejeitado. Isto incluía doutrinas 
como a depravação humana, o inferno, o nascimento virginal, e, com 
frequência, até a expiação vicária de Cristo. Os milagres e outros 
exemplos de intervenção divina eram regularmente explicados de 
forma satisfatória como exemplos de pensamento pré-crítico. 
Sofrendo a influência do pensamento de Darwin e de Hegel, 
a Bíblia chegou a ser vista como um registro do desenvolvimento 
evolucionista da consciência religiosa de Israel (e mais tarde da igreja), 
e não como uma revelação do próprio Deus ao homem. Cada um 
desses pressupostos influenciou profundamente a credibilidade que 
os intérpretes davam ao texto bíblico, e, desse modo, teve importantes 
implicações para os métodos interpretativos.
• Neo-ortodoxia:
A neo-ortodoxia é um fenômeno do século XX. Ocupa, em 
alguns aspectos, uma posição intermediária entre os pontos de vista 
liberal e ortodoxo. Rompe com a opinião liberal de que a Escritura é só 
produto do aprofundamento da consciência religiosa do homem, mas 
detém-se antes de chegar à perspectiva ortodoxa da revelação.
Os que se encontram dentro dos círculos neo-ortodoxos 
geralmente creem que a Escritura é o testemunho do homem à 
revelação que Deus faz de si próprio. Sustentam que Deus não se 
revela em palavras, mas apenas por sua presença. Quando alguém lê 
as palavras da Escritura e reage com fé à presença divina, ocorre a 
revelação. A revelação não é considerada como algo ocorrido em um 
ponto histórico, o qual agora nos é transmitido nos textos bíblicos, 
mas uma experiência presente que deve fazer-se acompanhar de uma 
reação existencial pessoal.
45
As posições neo-ortodoxas sobre diversos problemas diferem das 
ortodoxas tradicionais. A infalibilidade ou inerrância não tem lugar no 
vocabulário neo-ortodoxo. A Escritura é vista como um compêndio de 
sistemas teológicos, às vezes conflitantes, acompanhados por diversos 
erros fatuais. As histórias bíblicas da interação entre o sobrenatural e 
o natural são vistas como mitos — não no mesmo sentido dos mitos 
pagãos, mas no sentido de que não ensinam história literal. Os “mitos” 
bíblicos (como a criação, a queda, a ressurreição) visam a apresentar 
verdades teológicas na forma de incidentes históricos. Na interpretação 
neo-ortodoxa, a queda, por exemplo, “informa-nos que o homem, 
inevitavelmente, corrompe sua natureza moral”. A encarnação e a cruz 
mostram-nos que o homem não pode realizar sua própria salvação, 
mas que ela “deve vir do além como ato da graça de Deus”.
A principal tarefa do intérprete é, pois, despir o mito de seus 
envoltórios históricos, a fim de descobrir a verdade existencial que ele 
contém.
• A “Nova Hermenêutica”:
A “nova hermenêutica” tem sido, antes de tudo, uma criação 
européia a partir da Segunda Guerra Mundial. Emergiu basicamente 
da obra de Bultmann e foi levada adiante por Emst Fuchs e Gerhard 
Ebeling. Muito do que foi dito com vistas à neo-ortodoxia aplica-se 
também a esta categoria de interpretação. Baseando-se na obra do 
filósofo Martin Heidegger, Fuchs e Ebeling afirmaram que Bultmann 
não foi longe o suficiente. A linguagem, dizem eles, não é realidade, 
mas apenas uma interpretação pessoal da realidade. O uso que fazemos 
da linguagem é, pois, uma hermenêutica — uma interpretação. A 
hermenêutica, para eles já não é a ciência que formula princípios pelos 
quais os textos podem ser compreendidos; é, antes, uma investigação 
da função hermenêutica da fala como tal, e assim tem um raio de ação 
muito mais amplo e mais profundo.
• A Hermenêutica no Cristianismo Ortodoxo:
Durante os últimos 200 anos continuou a existir intérpretes que 
criam que a Escritura representa a revelação que Deus faz de si próprio 
— de suas palavras e de suas ações — à humanidade. 
Hermenêutica46
A tarefa do intérprete, no entender deste grupo, tem sido 
procurar compreender mais plenamente o significado intencional do 
autor. Empreenderam-se estudos da história, da cultura, da língua e da 
compreensão teológica que cercam os primeiros leitores, a fim de que 
se entenda o que a revelação bíblica significava para esses beneficiários. 
Conclusão
 Por hoje é isso, pessoal. Seria interessante que, também nessa 
aula, apresentássemos, historicamente, o movimento hermenêutico 
contextual. Entretanto, optei por deixá-lo de fora, já que trabalharemos 
(de maneira detalhada e na prática) com essa corrente nas últimas 
unidades do curso. Até a próxima!
Referências Bibliográficas
DREHER, Martin. Bíblia: suas Leituras e Interpretações na História do 
Cristianismo. São Leopoldo. RS: Sinodal, 2008.
47
Hermenêutica
Unidade - 06
Algumas Leituras Bíblicas na Atualidade
Introdução
Na unidade 3 (A Necessidade de Interpretação, 
mencionamos o fato de existirem algumas pessoas que 
desconsideram a necessidade de interpretar as escrituras. 
Pois bem, esse tipo de postura foi classificada pelos estudiosos 
como leitura ingênua, intuitiva, fundamentalista. Embora, 
no caso da leitura de corte fundamentalista, se considere 
a necessidade de interpretação e até usam métodos para 
isso. Esses tipos de leitura são muito comuns em nossas 
realidades eclesiásticas, por isso mesmo decidimos dedicar 
nossa unidade de hoje ao assunto.
 
 Objetivos
1. Conhecer alguns dos mais comuns tipos de leituras 
bíblicas no universo cristão: leitura ingênua, intuitiva e 
fundamentalista;
2. Apresentar um exemplo de leitura fundamentalista 
no texto bíblico de 1 Coríntios 11: 1-16.
Hermenêutica48
1. Leitura Ingênua da Bíblia
A leitura ingênua da Bíblia é um dos tipos mais comuns de leitura 
e interpretação dos textos bíblicos em nossos dias. Vejamos a definição 
de Lara (2009, p.42) a respeito desse tipo de leitura: “Leitura ingênua 
da bíblia pode ser definida como aquela que é feita sem a consciência 
de mediações e interesses. Faz-se a leitura de modo a impor a nossa 
realidade (nosso pré-texto), sem considerar o próprio contexto de 
quem escreve”. 
Segundo esse mesmo autor (Lara, p.42), esse tipo de leitura 
comete dois erros básicos: 
1. Não admite que a realidade do leitor condicione a leitura e, 
consequentemente,a interpretação do texto; 
2. Acredita que Deus mesmo ditou a Bíblia ou a escreveu de 
próprio punho.
2. Leitura Intuitiva
 Alguns autores preferem chamar esse tipo de leitura de 
hermenêutica intuitiva. Bem, independente disso, estamos diante de 
um dos tipos de leitura/interpretação mais praticados na atualidade. 
A comunicação nesse tipo de entendimento é direta. Deus fala 
e o leitor ouvinte, automaticamente, assimila a mensagem completa. 
Nesse caso, todos os elementos por trás do texto são ignorados. 
Esse tipo de leitura é muito comum em nossas leituras bíblicas 
devocionais. Entretanto, a meu ver, trata-se de um caminho um 
tanto quanto perigoso. Alguns estudiosos alertam para as divisões e 
crises causadas por esse tipo de leitura já que seus leitores dependem 
exclusivamente, conforme diz o termo, de sua intuição para chegarem 
a algumas conclusões sobre o texto lido. 
Existem aqueles que defendem a validade dessa leitura pelo 
argumento da ação e dependência do Espírito Santo para compreensão 
e aplicação de um texto. Embora não neguemos a iluminação do Espírito 
em qualquer instância do trabalho hermenêutico, consideramos esse 
argumento um tanto quanto questionável.
49
3. Leitura Fundamentalista
Não se trata de um método, propriamente dito. Entretanto é 
interessante abordar aqui esse tipo de leitura, já que sua utilização é 
muito comum em vários ambientes e setores cristãos. Vamos contar 
mais uma vez com Lara (p. 43) que define a leitura fundamentalista da 
seguinte forma: “é a leitura presente em qualquer religião (e até mesmo 
denominações cristãs) que impõe a sua própria fé como verdade única 
e absoluta”. Na sua forma de leitura bíblica aparecem as seguintes 
características:
1. Leitura direta: sem considerar qualquer aspecto contextual;
2. Leitura literal: não leva em conta os aspectos literários na 
construção de um texto, utilizados pelo autor;
3. As escrituras são a palavra direta do próprio Deus;
4. As escrituras são normas de comportamento universal. Isso 
significa uma leitura moralista e legalista (leis absolutas acerca da 
conduta humana independente do contexto e condições que cada 
situação se aplica). 
Normalmente, nesse item (4), surgem dúvidas e a necessidade de 
exemplos. Vejamos, então, uma amostra simples, mas que pode nos 
alertar quanto à dificuldade nesse tipo de leitura. 
• Texto: 1 Coríntios 11: 1-16
(quadro de texto na próxima página1)
1Extraído da NVI: não é a melhor tradução, mas para o nosso exercício será útil.
Hermenêutica50
1. Tornem-se meus imitadores, como eu o sou de Cristo.
 
2. Eu os elogio por se lembrarem de mim em tudo e por se apegarem 
às tradições, exatamente como eu as transmiti a vocês.
 
3-10. Quero, porém, que entendam que o cabeça de todo homem 
é Cristo, e o cabeça da mulher é o homem, e o cabeça de Cristo 
é Deus. Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta 
desonra a sua cabeça; e toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça 
descoberta desonra a sua cabeça; pois é como se a tivesse rapada. Se 
a mulher não cobre a cabeça, deve também cortar o cabelo; se, porém, 
é vergonhoso para a mulher ter o cabelo cortado ou rapado, ela deve 
cobrir a cabeça. O homem não deve cobrir a cabeça, visto que ele é 
imagem e glória de Deus; mas a mulher é glória do homem. Pois o 
homem não se originou da mulher, mas a mulher do homem; além 
disso, o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher 
por causa do homem. Por essa razão e por causa dos anjos, a mulher 
deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade.
11-16. No Senhor, todavia, a mulher não é independente 
do homem, nem o homem independente da mulher. 
Pois, assim como a mulher proveio do homem, também 
o homem nasce da mulher. Mas tudo provém de Deus. 
Julguem entre vocês mesmos: é apropriado a uma mulher 
orar a Deus com a cabeça descoberta? A própria natureza das 
coisas não lhes ensina que é uma desonra para o homem ter 
cabelo comprido, e que o cabelo comprido é uma glória para 
a mulher? Pois o cabelo comprido foi lhe dado como manto. 
Mas se alguém quiser fazer polêmica a esse respeito, nós não temos 
esse costume, nem as igrejas de Deus.
• Observações Preliminares:
Antes de qualquer coisa é necessário entender que estamos 
diante de uma carta (gênero literário). Isso significa que Paulo 
escreveu para um grupo específico, em um lugar específico, em um 
51
momento específico, tratando de um problema particular daquele 
grupo. Sem falar que vários dos conteúdos de suas cartas são respostas 
(provavelmente recebeu uma carta primeiro) a respeito de situações 
isoladas, de conflito, que as igrejas estavam enfrentando.
Só isso já seria suficiente para não transformarmos o tema 
abordado em um conteúdo universal. O problema da leitura 
fundamentalista é exatamente esse: transforma uma instrução 
especifica em conteúdo universal. Em alguns casos, pior ainda, 
seleciona, arbitrariamente, aquilo que considera um problema de 
ordem contextual – não aplicável aos nossos dias – e aquilo que deve 
ser lido de forma literal. 
• Assunto em Questão: as mulheres não cortem seus cabelos e 
usem um véu para segurá-lo. 
• Lendo contextualmente um Texto:
Uma leitura e, consequentemente, uma aplicação fundamentalista 
tendem a aplicar o texto, em nossos dias, na forma que se apresenta. 
Entretanto, consideramos tal postura como um problema e um erro. 
Mas o que fazer com o texto então? Já que não se aplica a nossa 
realidade devemos ignorá-lo? Riscar de nossas bíblias? É certo que 
não! Precisamos nos lembrar (unidades anteriores) dos dois passos 
fundamentais que a hermenêutica se ocupa:
1. Aproximação do texto original: Contexto do autor, contexto 
do fato descrito, língua utilizada e suas particularidades, elementos 
culturais, elementos sociais, destinatários e suas demandas, gênero 
literário, etc. 
2. Aplicação do texto para nossa realidade: Cuidar para que a 
aplicação seja coerente e honesta com as descobertas realizadas no 
processo de aproximação. Ou seja, de que forma o mesmo rompe 
com as barreiras do distanciamento e se torna tão real e preciso 
para nós como foi para os primeiros leitores, a quem os escritos 
foram destinados. 
Hermenêutica52
1. Aproximação do texto original: Contexto Histórico.
Passo a apresentar algumas questões sócio-históricas a respeito 
de Corinto. Perceba que apenas esses elementos (nem entraremos em 
questões literárias) já seriam suficientes para olharmos para nosso 
texto-exemplo com outros olhos. Vejamos:
Quando Paulo trata dos cabelos das mulheres, ele não está se 
posicionando contra as mulheres. Muito pelo contrário. Esse texto é 
um avanço em favor das mulheres. Nas sinagogas, por exemplo, as 
mulheres não podiam falar, dar opiniões, orar, estudar a Torah e muito 
menos ensinar. Vejamos no texto que nas igrejas nascentes, inclusive a 
de Corinto, elas podem orar e profetizar (anunciar a Palavra de Deus). 
A questão de Paulo é sobre o bom testemunho nas assembleias e no 
cotidiano.
Corinto era uma cidade portuária, muitos viajantes passavam 
por lá. Era identificada pelos altos índices de prostituição. Havia 
a prostituição normal e a prostituição sagrada (culto a Afrodite). 
As mulheres que eram prostitutas na cidade (prostituição normal) 
raspavam o cabelo para serem identificadas como tais e se diferenciarem 
das mulheres casadas e donzelas. Já as prostitutas que serviam no alto 
da montanha (prostituição sagrada no templo de Afrodite) enquanto 
dançavam iam soltando os cabelos (que até então estavam trançados) 
para seduzir os homens. Nesse culto à deusa do sexo, soltar os cabelos 
era um ritual de sedução. Além disso, naturalmente, o cabelo solto era 
um elemento sedutor.
Paulo enfrenta, então, esse conflito e precisa responder a essa 
questão específica. Qual deveria ser a postura das mulheres nas 
comunidades cristãs, principalmente das que pregam e oram nas 
assembleias? Veja que a resposta nasce de um problema. Portanto, 
universalizar esse ensino, sem saber o que está acontecendo, assimcomo fazem os leitores fundamentalistas, pode ser um erro grave de 
leitura e interpretação. 
2. Aplicação do texto para nossa realidade:
Essa é uma tarefa que deixo para cada um de vocês. Aqueles 
que quiserem me enviar suas respostas e continuar o diálogo nessas 
questões me escrevam. 
53
Conclusão
 Por hoje é isso, pessoal! Seria interessante que cada um de nós 
avaliássemos nossas práticas de leitura bíblica e o quanto estamos 
propensos a assumir um dos três tipos apresentados nessa unidade. 
Boa reflexão! 
Referências Bibliográficas
FEE, Gordon & Douglas Stuart. Entendes o Que Lês?, São Paulo: Edições 
Vida Nova, 1984.
LARA, Valter Luiz. A Bíblia e o desafio da interpretação sociológica. São 
Paulo: Paulus, 2009.
OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à 
interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009.
Hermenêutica54
Anotações
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Hermenêutica
Unidade - 07
Métodos de Interpretação Bíblica
Introdução
Na unidade de hoje, vamos apresentar alguns dos 
principais métodos de leitura e interpretação dos textos 
bíblicos utilizados por diferentes grupos e pessoas em 
nossos dias. Não é nosso objetivo propor que adotem esse 
ou aquele método – isso ficará a critério de cada um, em 
um momento oportuno. Antes, trata-se de um pequeno 
estudo panorâmico. Bons estudos !
 Objetivos
1. Conhecer alguns dos diferentes métodos de 
interpretação bíblica;
2. Apresentar a forma pela qual esses métodos 
auxiliam no processo de leitura e interpretação dos textos 
bíblicos.
Hermenêutica56
1. Métodos de interpretação bíblica
É inevitável que, no processo de leitura, análise e interpretação 
do texto bíblico, ocorram intervenções/mediações humanas. É 
impossível ignorar o leitor e toda a sua formação (em todas as áreas 
possíveis), nesse transcurso – é o que chamamos de “pré-texto” em 
aulas anteriores. 
Ao longo dos séculos, essa intervenção humana ganhou forma e 
muitos métodos foram criados na tentativa de organizar e sistematizar 
essa tarefa (leitura, análise e interpretação do texto bíblico) sem que 
nossas influencias obrigassem o texto a dizer o que gostaríamos e não 
o que ele, de fato, diz. “Neste sentido, pode-se dizer que o método 
deve nos ajudar a ler a Bíblia contra nossas verdades mais acalentadas 
e hábitos mais empedernidos”. 
Partimos do principio de que todos nós usamos um método – 
ainda que, em muitos casos nem saibamos disso – ou até mesmo mais de 
um. Vale destacar que nenhum método é infalível e, portanto, nenhum 
deles deve ser tratado como palavra final na tarefa de interpretação 
bíblica. Nenhum método deve ter mais valor que o próprio objetivo 
que lhe cabe (a interpretação das escrituras)
A escolha, consciente ou não, de um método está intimamente 
ligada com o contexto, interesses e influências que o leitor recebeu ao 
longo de sua jornada de fé e contato com os textos sagrados. Portanto, 
conforme Zabatiero: 
A eficácia de um método depende da pessoa que o utiliza. No 
caso da interpretação Bíblica, mais importante que o método 
que usamos são: os conhecimentos que temos da própria Bíblia 
e do mundo no qual foi escrita; os conhecimentos que temos 
da história da interpretação da Bíblia e seu uso nas igrejas e 
academias; os conhecimentos que temos de nosso mundo e de 
nós mesmos nesse mundo (ZABATIERO, 2007, p.27).
57
Mas o que é um método? Para Zabatiero método é:
(1) Uma ferramenta: Seu valor depende da adequação ao 
propósito para que é usada e da habilidade de quem a usa. [...] 
(2) Um mapa: Seu valor está na ajuda que oferece à pessoa para 
chegar ao destino desejado. [...] (3) Um andaime: Enquanto 
construímos nosso edifício interpretativo, precisamos dos 
andaimes para fixar os tijolos. [...] (4) Uma técnica a serviço da 
arte: Ler a Bíblia é uma arte e, como toda arte, precisa de técnicas 
que facilitem a prática do talento e da criatividade.
Abaixo selecionamos alguns métodos e algumas possibilidades de 
leitura bíblica muito utilizados em nossos dias. Existe uma quantidade 
considerável de outros métodos que não aparecerão em detalhes em 
nossa aula. Porém, deixo o nome de boa parte deles em um quadro 
no último tópico. Assim, aqueles que desejarem poderão pesquisar 
futuramente o método que lhe interessa.
2. Método Histórico-Crítico
O método histórico-crítico surgiu a partir dos avanços e 
questionamentos da ciência moderna. Lara (2009, p.44) o define 
como “um processo de estudo bíblico incorporando os métodos de 
investigação científica na análise dos textos. A autonomia da atividade 
científica com relação à fé permitiu que se viabilizasse o estudo crítico 
da Bíblia”.
Isso significa que a Bíblica se tornou objeto de análise através 
de critérios históricos e literários rígidos, tendo como referência os 
resultados disponibilizados pela ciência: Vejamos alguns exemplos:
1. Comparação com fontes documentais extrabíblicas; 
2. Acesso a historiografia, arqueologia, antropologia, linguística, 
crítica literária, crítica das fontes, crítica das formas;
3. Percepção própria quanto às contradições encontradas no 
interior da própria Bíblia.
Hermenêutica58
Dessa forma, o método histórico-crítico foi até as últimas 
consequências, isolando o caráter restritamente sagrado dos conteúdos 
que até então eram tidos, pela tradição, como verdades absolutas. O 
objetivo nisso tudo é tentar responder, através do resultado final de 
pesquisa, se os eventos narrados ocorreram, de fato, na forma em que 
foram narrados. 
3. Método Histórico-gramatical
Esse é o método mais utilizado entre os movimentos cristãos 
reformados. Segundo Kunz (p.23), “o método histórico gramatical tem 
por objetivo achar o significado de um texto sobre a base do que suas 
palavras expressam em seu sentido simples, à luz do contexto histórico 
em que foram escritas”.1 
Em termos simples e objetivos, podemos afirmar que esse método 
propõe três estágios2: 
1. Observação: o que diz o texto; 
2. Interpretação: o que quer dizer o texto; 
3. Aplicação: o que o texto quer dizer para nós; 
Além de um trabalho rigoroso quanto às questões literárias, esse 
método prioriza a leitura contextual de um texto. Para isso apresenta 
três aspectos distintos: o estudo do contexto histórico; do contexto 
literário;e do contexto cultural. 
4. Método sociológico
A leitura sociológica da Bíblia é recente e nasceu graças aos 
avanços das ciências sociais. Segundo Lara (p.57), “o método sociológico 
é complemento da análise histórico-crítica, pois quer perceber a 
sociedade como um todo”. Além disso, ter por objetivo encontrar 
1KUNZ, Claiton André. Método histórico-gramatical. In: Via teológica. Curitiba: FTBP, 2008. Nº 16, 
vol. 2, p. 23-53.
2MÜLLER, E. In: FEE, G. Entendes o que lês?, p. 281-282
59
elementos do comportamento coletivo, das relações humanas e das 
estruturas estabelecidas em cada contexto. Vejamos outras frases 
importantes de Lara (p. 57) que definem melhor esse método:
1. “O texto é compreendido como produto de interesses que 
representam os grupos, as comunidades ou os setores da sociedade 
em que foi redigido originalmente”. 
2. “Qualquer modelo de análise sociológica deverá buscar 
compreender o texto segundo as relações, instituições e conflitos 
sociais pressupostos no momento em que foi escrito”.
5. Hermenêutica contextual
Esse método – e também o método sociológico – aparecerá em 
detalhes nas últimas unidades de nossa disciplina. Cabem aqui apenas 
algumas definições preliminares. 
 Novas perspectivas de leitura e interpretação da Bíblia surgem 
de acordo com o constante surgimento de novos desafios à teologia e 
consequentemente à hermenêutica. Ou seja, para essa possibilidade 
de leitura bíblica é preciso considerar o contexto “do leitor” (veja bem, 
agora estamos falando do contexto do leitor). 
Aqui, entende-se como referência (condição do leitor) a 
concepção de gênero, a interpretação étnico-cultural, as classes 
sociais, os marginalizados, os excluídos, os pobres, e toda sorte de 
desigualdade contra pessoas e grupos.
Na tentativa de abordar essas questões através da hermenêutica 
surgem, então: a hermenêutica da teologia da libertação; da teologia 
feminista; e da teologia afro-ameríndia. Todas elas produzem 
novas hermenêuticas com critérios metodológicos e abordagens 
interpretativas semelhantes. “Elas se fundamentaram na necessidade 
de situar os pobres, as mulheres, negros e índios e outras vitimas da 
realidade atual como interlocutores e intérpretes privilegiados da 
leitura bíblica” (Lara, 2009, p.50). 
Hermenêutica60
6. Outros métodos
Vejamos agora um quadro com vários outros métodos utilizados 
para a tarefa hermenêutica. Caso se interesse por algum, me escreva. 
Além de indicar algumas bibliografias para o método desejado, 
podemos conversar sobre algumas características básicas, de acordo 
com seus interesses. 
Método
Indutivo
Sintético
Analítico
Crítico (vimos, em parte, na aula de hoje)
Biográfico
Histórico (vimos, em parte, na aula de hoje)
Teológico
Literário (Bíblia como Literatura)
Retórico
Geográfico
Sociológico (vimos, em parte, na aula de hoje)
Político
Cultural
Científico
Filosófico
Psicológico
Devocional
Alegórico
Sêmio-Discursivo
61
Conclusão
Mas e então, com qual método/leitura (entre aqueles que 
vimos no decorrer da aula) você mais se identificou? Lembre-se da 
introdução: (1) nenhum método é infalível; e (2) é possível usarmos 
mais de um método em nossa tarefa hermenêutica. É isso, por hoje é 
só. Até a próxima.
Referências Bibliográficas
FEE, Gordon & Douglas Stuart. Entendes o Que Lês?, São Paulo: Edições 
Vida Nova, 1984.
LARA, Valter Luiz. A Bíblia e o desafio da interpretação sociológica. São 
Paulo: Paulus, 2009.
ZABATIERO, Júlio. Manual de Exegese. São Paulo: Hagnos, 2007.
Hermenêutica62
Anotações
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Hermenêutica
Unidade - 08
Recursos para uma Análise Contextual - Parte I
Introdução
Na unidade de hoje, e na próxima, falaremos sobre 
a análise contextual de um texto e sua importância no 
processo de interpretação das escrituras. 
Um pressuposto básico para a utilização da análise 
contextual, no processo de interpretação, é de que os 
textos bíblicos não foram escritos alheios à vida real. Pelo 
contrário, toda produção de um texto – das escrituras 
sagradas – é produto de um ambiente concreto e seus 
desdobramentos. Ou seja, sofre influência cultural, social, 
política, econômica, religiosa, etc. E não apenas sofre 
influência, muitos textos são, exatamente, respostas de 
seu autor ao que ele percebe em seu ambiente. 
Se estivermos levando a sério a leitura e a interpretação 
das escrituras, é fundamental que investiguemos, ao 
máximo, todo o pano de fundo de um texto. Sem esse 
tipo de preocupação e análise estaremos mais distantes 
do sentido original de um texto. Osborne1 colabora com 
nosso argumento quando diz que: “o cristianismo é 
uma religião histórica, o intérprete deve reconhecer que 
uma compreensão da história e cultura dentro da qual a 
passagem foi produzida é um instrumento indispensável 
para descobrir o significado de tal passagem”. Ele vai 
além: “Fora do contexto, às declarações simplesmente 
não tem significado [...]. Os contextos fornecem o 
alicerce sobre o qual construímos o significado mais 
profundo da passagem. Sem um bom alicerce, o edifício 
1OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: 
Vida Nova, 2009.
Hermenêutica64
da interpretação está fadado a ruir” (Osborne, 2009, p.43). 
 Um dos motivos pelos quais deveríamos ser 
rigorosos em considerar o contexto é o fato de que 
existem vários distanciamentos – conforme vimos em 
aulas anteriores – entre nós, leitores atuais, os autores 
e os leitores originais. Existem questões muito simples, 
facilmente compreendidas a partir da comunicação entre 
autor e leitores originais. Para nós, entretanto, se tornam 
complexas devido à falta de informações históricas, sociais, 
culturais, etc. 
Por todos esses motivos – e tantos outros –, estamos 
convencidos de que o trabalho de aproximação histórica é 
imprescindível, se quisermos, de fato, ler as escrituras com 
seriedade e interpretá-la com embasamento sólido.
 
Objetivos
1. Reconhecer a importância da análise contextual de 
um texto ou livro bíblico; 
2. Conhecer as fontes primárias de análise histórico-
contextual;
3. Conhecer, ainda, outras fontes indispensáveis no 
trabalho de aproximação do texto original.
65
1. Contexto Histórico
Nenhum texto bíblico caiupronto do céu. O conceito de 
inspiração divina de um livro não é sinônimo de espiritualização 
do mesmo. Houve um processo de produção no qual seus autores, 
inspirados pelo Espírito Santo, escreveram a partir de realidades 
concretas. Ou seja, o autor é um sujeito histórico que interpreta um 
fato em um momento histórico especifico, considerando as realidades 
históricas de seus leitores. 
As informações sobre o pano de fundo histórico de um texto 
estão disponíveis em diversas fontes bibliográficas. Precisamos, então, 
descobri-las e nos dedicarmos à pesquisa referente ao texto estudado. 
Mas que fontes bibliográficas são essas? Seguem algumas dicas: (1) 
Comentários bíblicos de um determinado livro bíblico; (2) Livros de 
introdução ao Antigo e Novo Testamento; (3) Dicionários bíblicos; (4) 
Livros específicos que abordam o contexto (cultural, social, político, 
econômico e religioso) geral de um determinado momento da historia 
bíblica. Bibliografias a respeito desses quatro itens são infindáveis. 
Deixo, no quadro abaixo, “como exemplo”, algumas bibliografias 
de minha preferência. 
Comentários Bíblicos Comentário Bíblico VOZES: A.T e N.T
Introdução ao A.T Introdução ao A.T:José Luis Sicre
Introdução ao N.T Introdução ao N.T:Raymond Brown
Dicionário Bíblico
Dicionário Internacional de Teologia 
do A.T e N.T:
Colin Brown
Livros sobre Análise 
Contextual
Instituições de Israel no A.T:
Roland de Vaux
História Social do Protocristianismo:
Stegemann
Hermenêutica66
2. Fontes primárias
Entre tantas informações disponíveis nesses materiais, um bom 
começo é a consideração de cinco aspectos básicos, os quais são de 
grande valia em nossa busca por informações históricas. Vejamos cada 
um deles.
• Autoria:
Em um processo de análise bíblica – levando em consideração 
a pesquisa histórico-contextual – buscar pelo autor é uma tarefa 
indispensável. Claro, não se trata apenas de mero dado informativo, 
mas, antes, a possibilidade de aproximação do significado respondendo 
questões do tipo: Quais são as características desse autor? Em que 
momento da história ele viveu? Qual é sua trajetória de vida e fé? 
Quais são as características de seu pensamento em relação à fé? De 
que forma tudo isso se materializa em seus textos?
• Data:
A data em que um texto foi escrito é, também, um dos aspectos 
fundamentais para a tarefa de interpretação bíblica. Ao descobrir a 
data de um texto abrem-se portas significativas e a nossa abordagem 
do mesmo certamente mudará. Com essa informação em mãos, 
seremos capazes de identificar vários outros aspectos relacionados ao 
momento histórico em questão. 
Vale destacar que, quando estamos pesquisando a data de um 
texto, devemos considerar o fato descrito e a produção do texto 
referente ao fato. Muito provavelmente são datas distintas e precisam 
ser analisadas, em um primeiro momento, de forma separada. Em que 
momento histórico o texto foi escrito? Qual é o momento histórico 
do fato narrado? Por exemplo, Marcos (o primeiro escrito entre os 
quatro) foi escrito entre 55 e 60 D.C. Entretanto, claro, narra alguns 
fatos da vida de Jesus de pelo menos 25 anos atrás. Já o evangelho de 
João (o último escrito entre os quatro) foi escrito por volta do anos 
90 D.C. ou seja, narra fatos de 60 anos atrás. Nesse caso, estudar o 
contexto histórico implica um olhar para os dois momentos. 
Reforçando: precisamos investigar os detalhes em torno do fato, 
mas também os detalhes históricos em torno do autor. Aliás, no caso 
dos evangelhos, vale destacar que foram escritos (relatos selecionados 
67
da vida de Jesus) exatamente como resposta ao que viviam seus autores 
e as comunidades a quem eles escreveram. 
• Local:
Pesquisar informações sobre o local de produção de um texto 
é mais um dos elementos básicos e fundamentais para a tarefa de 
interpretação bíblica. Assim como no ponto anterior (data), devemos 
buscar informações sobre o local do autor, o local dos destinatários 
(em alguns casos não é o mesmo) e, quando for o caso, o local de um 
fato narrado. Essas questões, estudadas de forma isolada e depois em 
conjunto, serão de grande valia em nossa tarefa de aproximação do 
texto original. 
Para ilustrar a questão, e relaxarmos um pouco, vejamos um 
pequeno exemplo prático. Algo que aconteceu recentemente. 
Meses atrás estive fora de minha cidade, visitando uma 
igreja. O pregador da noite pediu que abríssemos nossas bíblias 
na carta de Paulo aos Efésios 4:1, que diz: “Como prisioneiro no 
Senhor, rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que 
receberam”. 
No primeiro ponto de sua mensagem ele lançou o seguinte 
desafio: Sejamos “PRISIONEIROS NO SENHOR”. Na essência de 
sua fala desafiou os presentes a prenderem suas vidas em Deus. 
Fiquei então me perguntando: Será que o pregador sabe 
onde estava Paulo quando escreveu sua carta para a igreja de 
Éfeso? Caberia então espiritualizar um simples jogo de palavras do 
apóstolo para informar sua situação e, por tabela, sua localização? 
Prefiro as perguntas ao invés das respostas! Deixo as duas 
acima para nossa reflexão. Deixo também uma tarefa (não 
vale nota e não é necessário que me enviem nada): (1) Onde 
estava Paulo quando escreveu esse texto? (2) De que forma sua 
localização interferiu naquilo que escreveu? (3) Que aplicação 
faríamos desse versículo (nesse ponto especifico) em nossas 
comunidades?
Hermenêutica68
• Primeiros Leitores (destinatários a quem o texto é dirigido):
As pessoas a quem um texto é escrito têm um papel muito 
importante na interpretação de uma passagem ou de um livro bíblico 
inteiro. Características a respeito de um grupo pode determinar o 
conteúdo de um texto. Vejamos um exemplo simples. 
Existem diferenças entre os evangelhos sinóticos (Mateus, 
Marcos e Lucas) em relação à referência que fazem ao assunto Reino 
de Deus. Mateus usa a expressão Reino dos Céus, enquanto Marcos e 
Lucas usam a expressão Reino de Deus. Para muitos, estamos diante de 
um tema distinto: Reino de Deus é uma coisa e Reino dos Céus é outra. 
E mais, conceitos teológicos são trabalhados a partir dessa distinção. 
Parece-me que, nesse caso, mais uma vez, somos levados a 
equívocos, graças à negligência quanto à busca por detalhes histórico-
contextuais. Vamos novamente apelar às perguntas: Para quem 
escreveu Mateus? Por que essa diferenciação entre seus escritos e os 
escritos dos outros evangelistas? Dessa vez não vou deixá-los sem 
resposta. 
Mateus escreveu para uma comunidade judaico-cristã. Um grupo 
de judeus que, gradativamente, aderiam ao cristianismo entendendo 
que Jesus de Nazaré era, de fato, o Messias de Israel. Mateus, então, 
sabiamente, evita a expressão Reino de Deus substituindo-a por Reino 
dos Céus. De acordo com a tradição judaica, pronunciar o nome de 
Deus era um pecado grave e deveria ser evitado. Só isso! Simples assim! 
• Propósito e Temas
Alguns autores apontam esses aspectos como sendo os mais 
importantes no auxilio à interpretação. Osborne (2009, p. 45) escreve: 
“Não devemos estudar passagem alguma sem um conhecimento 
básico dos problemas e da situação tratados no livro e dos temas com 
os quais o autor aborda esses problemas”. 
Quando conhecemos boa parte da ênfase temática de um livro 
– fruto de problemas particulares instalados no meio de um grupo/
povo/comunidade/pessoa – damos um passo significativo na busca 
pelo significado original de um texto.
69
Conclusão
Você percebeu o quanto um detalhe histórico – por menor que 
possa parecer – pode fazer toda a diferença na hora de ler e interpretar 
um texto? Percebeu ainda o tamanho do trabalho que temos pela 
frente? Pois bem, não fique desanimado! Pelo contrário, é hora de 
colocarmos tudo isso em prática. Deixo para você esse desafio: LEIA a 
BÍBLIA CONTEXTUALMENTE. 
Quem sabe já na próxima oportunidade de compartilhar a palavra 
em sua comunidade? Comece usando as fontes primárias. Depois, 
aos poucos, inclua em sua pesquisa e exposição outros elementos 
(detalhes políticos, culturais,religiosos, sociais, econômicos, etc.). 
Que o próprio Deus nos capacite nessa tarefa! 
 
Referências Bibliográficas
FEE, Gordon & Douglas Stuart. Entendes o Que Lês?, São Paulo: 
Edições Vida Nova, 1984.
OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à 
interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009.
Hermenêutica70
Anotações
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Hermenêutica
Unidade - 09
Recursos para uma Análise Contextual
Parte II
Introdução
 Na unidade de hoje daremos continuidade 
a anterior. Veremos alguns recursos (ferramentas) 
importantes no processo de interpretação das escrituras, 
levando em consideração a importância da análise 
contextual. Bons estudos! 
 
Objetivos
1. Reconhecer a importância da análise contextual de 
um texto ou livro bíblico; 
2. Conhecer as fontes primárias de análise histórico-
contextual;
3. Conhecer, ainda, outras fontes indispensáveis no 
trabalho de aproximação do texto original.
Hermenêutica72
1. Fontes importantes de pesquisa
 Além das fontes primárias, vistas na unidade anterior, existem 
outras, que trabalharemos resumidamente a partir de agora.1 Nosso 
espaço não permite trabalhar com todas essas fontes, por isso, 
escolhi as que considero mais importantes nesse primeiro momento. 
Outras fontes, como a social e a econômica, por exemplo, aparecerão 
naturalmente em nossos estudos futuros. 
• Política
Toda sociedade é organizada (pelo menos em tese) por um 
sistema político estabelecido pela forma de governo vigente e outras 
variáveis. Por isso, não é possível pensar em um contexto histórico 
sem levar em consideração as questões políticas de uma sociedade. 
Os textos bíblicos e seus autores foram diretamente influenciados por 
esse ambiente político e, em muitos casos, escreveram como forma de 
resposta a alguns desses sistemas, quando os mesmos funcionavam 
através da lógica da injustiça.
Um dos maiores exemplos de interação entre os textos bíblicos 
e o universo político de uma sociedade é a literatura profética. Os 
profetas “escreveram dentro do contexto de uma arena política mais 
ampla, e muito do que eles disseram pode ser melhor compreendido 
quando se leva em consideração tais eventos” (Osborne, 2009, p. 203). 
Seguindo o que escreveu Osborne, a literatura profética pode ser 
mais bem compreendida se, antes, fizermos uma análise da situação 
política de Israel sob o regime monárquico. Sem a perspectiva política 
dos fatos, facilmente cairemos na tentação de espiritualizar questões 
concretas relativas aquele momento histórico. Isso implicará uma 
aplicação bíblica equivocada para a nossa realidade. 
• Cultura
A cultura é, sem a menor dúvida, fator determinante na vida dos 
autores bíblicos e, claro, consequentemente influenciou diretamente 
1Como forma de organização de conteúdo, usarei algumas fontes de análise contextual 
propostas pelo autor Grant Osborne, disponíveis em seu livro: A Espiral Hermenêutica 
(verificar no programa de curso) 
73
seus escritos. Portanto, ignorar os aspectos culturais que envolvem um 
texto significa perder, totalmente, a possibilidade de aproximação com 
seu sentido e automaticamente comprometerá sua aplicação. 
Atento a essa necessidade, Osborne (2009, p.205-207) propõe 
cinco práticas – ligadas ao mundo antigo/bíblico – que devem ser 
observadas no processo de pesquisa cultural de um povo, especialmente 
nos relatos bíblicos. Vejamos, de forma resumida, cada um deles:
1. Costumes Familiares: casamento, criação de filhos, função da 
mulher, etc.
2. Costumes Materiais: bens materiais, utensílios em geral, pedaço 
de terra, casas, propriedades, etc.
3. Costumes do Cotidiano: higiene diária (ligada à religião), 
purificação, distinção entre classes, etc.
Lazer e Esporte: festas religiosas (cheias de significado), jogos/
competições, lutas esportivas (Paulo observa, com sabedoria, essas 
duas situações para escrever alguns textos. Ele usa algumas palavras 
desse universo para dar maior sentido aos seus escritos: metas, prêmios, 
golpes, treinamento, ganhar a coroa, evitar a derrota, corrida).
Música e Arte: poemas, canções temáticas, peças de teatro, obras 
arquitetônicas, etc.
• Religião
Seria um trabalho pela metade observarmos o contexto histórico 
de um texto sem levar em consideração os aspectos religiosos em 
torno dele. Em todas as épocas que perpassam os textos bíblicos, a 
vida cotidiana das pessoas era controlada pela religião. Todos os 
aspectos da vida estavam intimamente ligados à crença de cada grupo. 
“Cada atividade tinha implicações religiosas, e a dicotomia atual entre 
religioso e secular simplesmente não existia” (Osborne, 2009, p. 208). 
Vejamos mais uma interessante observação de Osborne a respeito 
da influencia religiosa no cotidiano das pessoas: “O que as pessoas 
vestiam, como passavam seu tempo livre e como se relacionavam 
umas com as outras, até mesmo o tipo de casa em que viviam, tudo 
tinha em essência uma dimensão espiritual” (Ibidem). 
Hermenêutica74
Isso não se aplicava apenas ao povo de Deus. Entre os povos 
vizinhos era a mesma coisa. Por isso, vários textos bíblicos são 
afirmações e confissões de fé em resposta a tantas outras religiões 
presentes nesse contexto. Além disso, vários textos questionam os 
próprios movimentos judaico-cristãos quando estes se distanciam da 
vontade de Deus.
2. Método Sociológico (Lara 69 – 72)
Entre os métodos que apresentamos em unidades anteriores o 
sociológico, talvez, é o que melhor se aproprie dos elementos acima – 
e de outros, é claro. Esse método foi batizado de “método dos quatro 
lados”, são eles:
1. Lado Econômico
2. Lado Social
3. Lado Político
4. Lado Ideológico 
O leitor/intérprete procura, no contexto econômico, social, 
político e ideológico, elementos que porventura influenciaram a 
produção do texto. Em um segundo momento, procura relações 
relevantes para o seu próprio contexto para então, com base na análise 
sociológica, construir uma mensagem teológica. Façamos algumas 
considerações sobre cada lado conforme Lara (2009, p.70-71).
• Lado Econômico
 “Refere-se à dimensão econômica produtiva dos bens, serviços 
e riqueza sociais. [...] Está associada à forma como organizam o 
trabalho e a apropriação dos meios de produção fundamentais da 
sobrevivênciae da reprodução da vida em sociedade”.
“Pode-se perguntar ao texto bíblico lido: o que e como se 
produz? Quem produz? Quem são os donos dos meios de produção? 
Os recursos naturais são usados para a sobrevivência das pessoas ou 
servem apenas para o lucro”.2
2In: leitura-popular-da-biblia/a-leitura-dos-quatro-lados/
75
• Lado Social
 O foco nesse lado recai sobre as relações sociais e tensão entre 
igualdade e discriminação. Enquanto a mensagem bíblica, a partir da 
vontade de Deus, defende a construção de sociedades igualitárias e 
justas, opositores se levantavam praticando gestos diametralmente 
contrários. 
“Na época dos escritos bíblicos não se falava em “classes”, porém 
percebemos claramente a distinção entre ricos e pobres. Também 
prestar atenção ao desemprego, violência, discriminação dos doentes, 
crianças, mulheres”.3
• Lado Político
 Para Lara, “O lado político é aquele que revela o modo como 
uma sociedade organiza suas estruturas de poder, impondo seu 
domínio através de instituições sociais mais influentes”.
 O autor afirma ainda, que nesse caso “O poder pode ser exercido 
pela persuasão e consentimento, pela força das leis e dos costumes, 
pela coação moral ou religiosa, mas de qualquer forma é sempre e em 
última instância garantido pela força militar”.
 Podemos perguntar ao texto: “quem exerce o poder? A serviço 
de quem ele é colocado? Devemos observar que religião e política 
eram praticamente a mesma coisa”.4
• Lado Ideológico 
Conforme Lara: “O Lado ideológico manifesta a dimensão das 
justificativas das estruturas sociais dominantes. Ideologia é todo um 
conjunto de ideias capazes de representar a realidade de tal forma que 
não deixe aparecerem as verdadeiras razões das desigualdades sociais”. 
O autor continua: “Ideologia é o lado da sociedade que manifesta 
valores, culturas, conhecimento, hábitos, filosofias e crenças religiosas 
dominantes”. Sobre os aspectos ideológicos ligados a religião, vejamos 
a interessante abordagem a seguir:
3Ibidem
4 Ibidem
Hermenêutica76
Na Bíblia estão presentes muitas imagens de Deus. Desde 
o deus opressor, vingativo, castigador, até o Deus Pai/Mãe 
misericordioso e cheio de amor para com seus filhos. Pode-
se perguntar: quem está apresentando este deus? Os reis 
apresentavam ao povo um deus que concordava com toda a 
corrupção e ganância dos poderosos da época. [Uma maneira 
de lidar com esse problema é:] Comparar a visão de Deus 
transmitida por Jesus com a do texto que estamos lendo. A 
Bíblia também traz textos que defendiam a posição da classe 
dominante e corrupta da época [Cabe aqui também uma série 
de perguntas interpretativas, cujo fio condutor deve ser Jesus: Ele 
é a imagem do Deus invisível].5
Conclusão
Por hoje é só, pessoal! Espero que a partir de agora sua leitura 
bíblica seja mais criteriosa, e que você não deixe de considerar os 
aspectos contextuais – mostrados na unidade de hoje e na anterior – 
no momento de ler, estudar e explicar um texto bíblico. É assim que 
procedem os amantes das escrituras e aqueles que com paixão, zelo e 
honestidade dedicam suas vidas para essa tarefa. Até a próxima!
 
Referências Bibliográficas
LARA, Valter Luiz. A Bíblia e o desafio da interpretação sociológica. São 
Paulo: Paulus, 2009.
OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à 
interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009.
5 Ibidem (os textos em itálico são complementos que fiz para ajudá-los na reflexão com o tema 
abordado por seu autor).
77
Hermenêutica
Unidade - 10
Recursos Literários – parte I
Introdução
Nas duas unidades anteriores refletimos a 
respeito da análise contextual e sua importância para o 
processo de interpretação bíblica. Hoje – e nas próximas 
unidades – apresentaremos outro artifício hermenêutico 
imprescindível: os recursos literários. Na unidade de hoje 
daremos atenção às línguas Bíblicas e, especialmente, às 
figuras de linguagem. Bons Estudos!
 
Objetivos
 Apresentação de alguns recursos literários básicos 
para a tarefa de interpretação de um texto bíblico. 
Hermenêutica78
1. Línguas Bíblicas
“Infelizmente prevalece nos meios evangélicos brasileiros um 
preconceito contra o estudo sério e acadêmico da Bíblia. Em 
muitos círculos acredita-se que basta ter comunhão com Deus e 
vida de oração, para que a leitura da Bíblia, mesmo em português, 
produza um conhecimento exato do seu sentido primário”. 
Augustus Nicodemos Lopes1
Pensar à interpretação bíblica a partir de aspectos gramaticais e 
literários é entrar no mundo das línguas bíblicas. Não estou falando 
de um conhecimento especializado, (embora tal conhecimento seja 
muito importante e, infelizmente, poucos estudantes, pastores e líderes 
os levem a sério), mas sim, de um contato mínimo capaz de traduzir 
algumas palavras chaves e entender seus desdobramentos semânticos 
ou ainda o conhecimento de alguns tempos verbais. 
Sobre os tempos verbais, por exemplo, LOPES2 destaca que “os 
“tempos” do verbo hebraico são mais relacionados com a qualidade 
da ação do que com temporalidade”. Perceba que apenas esse detalhe 
pode fazer toda a diferença. Outro exemplo interessante aparece se 
pensarmos em desdobramentos semânticos. Vejamos, como exemplo, 
a palavra “amor”. No novo testamento essa palavra aparece com quatro 
ou cinco significados diferentes. Em todas elas, nossas traduções usam 
“amor”. Isso nos leva, de imediato, a noção de que o amor está ligado 
a algo que sentimos ou qualquer outro pressuposto condicionado pela 
nossa língua.
Sem um trabalho mínimo de tradução e estudo nos limitamos 
à língua portuguesa e perdemos muito do sentido de uma palavra. 
Muitas palavras que estão presentes na bíblia (escritas em hebraico, 
grego e aramaico) perdem força de significado em português (conforme 
vimos no parágrafo anterior com a palavra amor) e, consequentemente, 
podem comprometer a interpretação de um texto. 
1LOPES, Augustus Nicodemus. Apostila: Princípios de Interpretação da Bíblia - Aspectos da 
Interpretação Bíblica.
2 Ibidem
79
O problema não está tanto nas traduções das bíblias que 
temos na língua portuguesa, a maioria delas são confiáveis. A grande 
dificuldade é o distanciamento gramatical e linguístico entre as línguas 
originais e a língua portuguesa (qualquer outra língua na verdade). Esse 
tipo de dificuldade aparece pela incapacidade da língua portuguesa de 
expressar algo que está fora do nosso cotidiano cujas traduções não 
conseguem alcançar. 
Esse tópico aparecerá em outras disciplinas com mais detalhes e 
possibilidades de aprofundamento. Por enquanto, basta-nos trabalhar 
com um mínimo de ferramentas possíveis. LOPES3 propõe quatro 
delas: 
1 Usar uma Bíblia interlinear;
2 Usar comentários exegéticos, que tratem o texto no original;
3 Usar diferentes traduções;
4 Ter sempre à mão gramáticas e léxicos para serem consultados.
Essas ferramentas são primárias e provisórias. Elas não podem 
substituir o conhecimento básico das línguas originais. Entretanto, 
podem ajudar a diminuir a lacuna entre os textos originais e a língua 
portuguesa no trabalho de interpretação de um texto.
2. Figuras de Linguagem
Figuras de linguagem são recursos utilizados pelo autor de um 
texto no intuito de dar maior expressividade a seu texto. Nos escritos 
bíblicos não é diferente, seus autores usaram e abusaram desses 
recursos. Cabe a nós, na tarefa de interpretar um texto: (1) conhecer 
essas figuras (apresentaremos algumas); (2) perceber de que forma 
aparecem nos textos; (3) de que forma influenciam nossa leitura e 
interpretação de um texto. 
3Ibidem
Hermenêutica80
• Metáfora
Esta figura tem por base alguma semelhança entre dois objetos 
ou fatos, caracterizando-se um com o que é próprio do outro.
Exemplos: Ao dizer Jesus. “Eu sou a videira verdadeira”, Jesus 
se caracteriza com o que é próprio e essencial da videira; e ao dizer 
aos discípulos: ‘Vós sois as varas’, caracteriza-os com o que é próprio 
das varas. Para a boa interpretação desta figura, perguntamos,pois: 
que caracteriza a videira? Ou, para que serve principalmente? Na 
resposta a tais perguntas está a explicação da figura. Para que serve 
uma videira? Para transmitir seiva e vida às varas, a fim de produzirem 
uvas, pois isto é o que, em sentido espiritual, caracteriza a Cristo: qual 
vinha, videira ou tronco verdadeiro, comunica vida e força aos crentes, 
para que, como as varas produzem uvas, eles produzam os frutos do 
Cristianismo. 
Proceda-se do mesmo modo na interpretação de outras figuras 
do mesmo tipo, como por exemplo: “Eu sou a porta, eu sou o caminho, 
eu sou o pão vivo; vós sois a luz, o sal: edifício de Deus; ide, dizei 
àquela raposa; são os olhos a lâmpada do corpo; Judá é o leãozinho: tu 
és minha rocha e minha fortaleza; sol e escudo é o Senhor Deus; a casa 
de Jacó será fogo, e a casa de José chama e a casa de Esaú é restolho’, etc. 
(João 15:1; 10:9;14:6; 6:51; Mt. 5:13, 14; 1Cor. 3:9; Lc. 13:32 Gn. 49:9; 
Sl. 71:3; 84:11;)
• Sinédoque
Faz-se uso desta figura quando se toma a parte pelo todo ou o 
todo pela parte, o plural pelo singular, o gênero pela espécie, ou vice-
versa.
Exemplos: Toma a parte pelo todo o Salmista ao dizer: “Minha 
carne repousará segura” (versão revista e corrigida). Em lugar de dizer: 
meu corpo ou meu ser, que seria o todo, sendo a carne parte de seu ser 
(Salmo 16:9).
Toma o todo pela parte o Apóstolo quando diz da ceia do Senhor: 
“todas as vezes que beberdes o cálice”, em lugar de dizer beberdes do 
cálice, isto é, parte do que há no cálice (1Cor. 11:26).
Tomam também o todo pela parte os acusadores de Paulo ao 
dizerem: “Este homem é uma peste e promove sedições entre os judeus 
81
esparsos por todo o mundo”; “todo o mundo” significa aquela parte do 
mundo ou do Império Romano que o Apóstolo havia alcançado com 
sua pregação (Atos 24:5).
• Metonímia
Usa-se esta figura quando se emprega a causa pelo efeito, ou o 
sinal ou símbolo pela realidade que indica o símbolo.
Exemplos: Vale-se Jesus desta figura empregando a causa pelo 
efeito ao dizer: “Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos”, em lugar 
de dizer que têm os escritos de Moisés e dos profetas, ou seja, o Antigo 
Testamento. (Lc 16:29).
Emprega também o sinal ou símbolo pela realidade que indica o 
sinal quando disse a Pedro: “Se eu não te lavar, não tens parte comigo”. 
Aqui Jesus utiliza o sinal de lavar os pés pela realidade de purificar a 
alma, porque faz saber ele mesmo que o ter parte com ele não depende 
da lavagem dos pés, mas da purificação da alma. (João 13:8).
Do mesmo modo João faz uso desta figura pondo o sinal pela 
realidade que indica o sinal, ao dizer: “O sangue de Jesus, seu Filho, 
nos purifica de todo pecado’’, pois é evidente que aqui a palavra sangue 
indica toda a paixão e morte expiatória de Jesus, única cousa ética para 
satisfazer pelo pecado e dele purificar o homem (1 João 1:7).
• Prosopopéia
Usa-se esta figura quando se personificam as causas inanimadas, 
atribuindo-lhes os feitos e ações das pessoas.
Exemplos: O apóstolo fala da morte como de pessoa que pode 
ganhar vitória ou sofrer derrota, ao perguntar: “Onde está, ó morte, o 
teu aguilhão?” (1Co 15:55).
Emprega o apóstolo Pedro a mesma figura, falando do amor e 
referindo-se a pessoa que ama, quando diz: “o amor cobre multidão 
de pecados” (1Pedro. 4:8). Como é natural, ocorrem com frequência 
estas figuras na linguagem poética do Antigo Testamento, dando-
lhe assim uma formosura, vivacidade e imaginação extraordinárias; 
como por exemplo ao prorromper o profeta: “Os montes e os outeiros 
romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores do campo 
baterão palmas”. Convirá observar que casos como estes não se trata 
Hermenêutica82
somente de uma mera personificação das cousas inanimadas, mas 
de uma simbolização pelas mesmas, representando nesta passagem 
os montes e outeiros pessoas eminentes, e árvores pessoas humildes; 
uns e outros de regozijo louvando ao Redentor ante seus mensageiros 
(lsaías 55:12.)
Outro caso de personificação grandiosa ocorre no Salmo 
85:10,11, onde se faz referência à abundância de bênçãos próprias 
do reinado do Messias nestes termos: “Reencontraram-se a graça e 
a verdade, a justiça e a paz se beijaram. Da terra brota a verdade, dos 
céus a justiça baixa o seu olhar.’’
• Ironia
Faz-se uso desta figura quando se expressa o contrário do que se 
quer dizer, porém sempre de tal modo que se faz ressaltar o sentido 
verdadeiro.
Exemplos: Paulo emprega esta figura quando chama aos falsos 
mestres de os tais apóstolos, dando a entender, ao mesmo tempo, que 
de nenhum modo são apóstolos (2Co 11:5; 12:11).
Vale-se da mesma figura o profeta Elias quando no Carmelo 
disse aos sacerdotes do falso deus Baal: “Clamai em altas vozes... e 
despertará”, dando-lhes a compreender, por sua vez, que era de todo 
inútil gritarem. (1Reis, 10:27.)
Também Jó faz uso desta figura ao dizer a seus amigos: “Vós 
sois o povo, e convosco morrerá a sabedoria”. Fazendo-se saber que 
estavam muito longe de serem tais sábios (Jó 12:2.)
• Hipérbole
É a figura pela qual se representa uma coisa como muito maior 
ou menor do que em realidade é, para apresentá-la viva à imaginação. 
Tanto a ironia como a hipérbole são pouco encontradas nas Escrituras, 
porém, alguma ou outra vez ocorrem.
Exemplos: Fazem uso da hipérbole os exploradores da terra de 
Canaã quando voltam para contar o que ali haviam visto, dizendo: 
“Vimos ali gigantes... e éramos aos nossos próprios olhos como 
gafanhotos... as cidades silo grandes e fortificadas até aos céus” 
83
(Números 13:33; Deuteronômio 1:28). Daí se vê que os exploradores 
falavam como se costuma entre nós ao dizer uma pessoa a outra, por 
exemplo: “Já lhe avisei mil vezes’’, querendo dizer tão somente: “Já lhe 
avisei muitas vezes”.
Também João faz uso desta figura ao dizer: “Há, porém, ainda 
muitas outras cousas que Jesus fez, se todas elas fossem relatadas uma 
por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros que 
seriam escritos”.
• Alegoria
A alegoria é uma figura retórica que geralmente consta de várias 
metáforas unidas, representando cada uma, realidades correspondentes. 
Costuma ser tão palpável a natureza figurativa da alegoria, que uma 
interpretação ao pé da letra quase que se faz impossível. Às vezes, a 
alegoria está acompanhada, como a parábola, da interpretação que 
exige.
Exemplos: Tal exposição alegórica nos faz Jesus ao dizer: “Eu sou o 
pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente; 
e o pão que eu darei pela vida do mundo, é a minha carne... Quem 
comer a minha carne e beber o meu sangue tem a “vida eterna”, etc. 
Esta alegoria tem sua interpretação na mesma passagem da Escritura 
(João 6:51-65).
Outra alegoria apresenta o Salmista (Salmo 80:8-13) representando 
os israelitas, sua trasladação do Egito a Canaã e sua sucessiva história 
sob as figuras metafóricas de uma videira com suas raízes, ramos, etc., 
a qual, depois de trasladada, lança raízes e se estende, ficando, porém 
mais tarde estropiada pelo javali da selva e comida pelas bestas do 
campo (representando o javali e as bestas, poderes gentílicos).
Ainda outra alegoria nos apresenta o povo israelita sob as figuras 
de uma vinha em lugar fértil, a qual, apesar dos melhores cuidados, 
não dá mais que uvas silvestres, etc. Também esta alegoria está 
acompanhada de sua explicação correspondente — “Porque, a vinha 
do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a 
planta do Senhor” (Isaías, 5:1-7).
Hermenêutica84
• Antropomorfismo
Vem do grego antropomorfos, “de forma humana”. Atribuição de 
qualidades humanas ao ser divino ou a ideia de que Deus tem alguma 
espécie de formato, similar à anatomia humana.
Expressar ideias sobre Deus, sob formas humanas, física, mental, 
moral ou espiritual, é tendência da maioria das religiões, sendo quase 
impossível de ser evitada, devido às restrições da linguagem humana. 
Não há entre os homens uma linguagem puramente divina, pelo que não 
há como falarsobre Deus sem usar termos que o antropomorfizem. Essa 
circunstância envolve uma severa limitação em nosso entendimento e 
em nossos discursos sobre Deus, refletindo nossas atuais limitações no 
campo do conhecimento e do entendimento espiritual.
No Antigo Testamento – Ali Deus é apresentado sob forma 
humana (Ex 15.3; Nm 12.8), com pés (Gn 3.8; Ex 24.10), mãos (Ex 
24.11; Js 4.24), boca (Nm 12.8; Jr 7.13), coração (Oséias 11.8). Além 
dessas formas, atribuímos a Deus qualidades e emoções humanas (Gn 
2.2; 6.6; Ex 20.5; Oséias 11.8). O homem foi criado à imagem de Deus 
(Gn 1.27) e os teólogos usualmente são cuidadosos ao declarar que 
se trata de uma imagem “moral e espiritual” e não física. Mas mesmo 
assim, nossa compreensão de Deus fica severamente limitada, pois, no 
sentido estrito, quem pode comparar o homem a Deus?
No Novo Testamento – Persistem ali expressões antropomórficas 
(Rm 1.18ss; 5.12; 1Co 1.25; Hb 3.15; 6.17; 10.31). Contudo as realidades 
espirituais não são vistas diretamente, mas imperfeitamente, no reflexo 
de algum antigo espelho fosco, de metal polido (I Co 13.2). Deus não 
habita em templos materiais (At 17.24), uma declaração que procura 
evitar o conceito antropomórfico.
85
Conclusão
Por hoje é só, pessoal. Continuaremos falando sobre recursos 
literários na próxima unidade cujo tema será: Gêneros Literários.
Até lá! 
 
Referências Bibliográficas
FEE, Gordon & Douglas Stuart. Entendes o Que Lês?, São Paulo: Edições 
Vida Nova, 1984.
OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à 
interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009.
Hermenêutica86
Anotações
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87
Hermenêutica
Unidade - 11
Recursos Literários – parte II
Introdução
Na unidade anterior começamos nossa caminhada de 
apresentação de alguns recursos literários imprescindíveis 
para a tarefa hermenêutica. Hoje, daremos sequência ao 
assunto trabalhando agora a questão dos gêneros literários. 
Vamos ao conteúdo.
 
Objetivos
1. Apresentação dos principais gêneros literários 
encontrados na bíblia e a sua importância no processo 
interpretativo de um texto. 
Hermenêutica88
1. Gênero Literário
O termo gênero significa “tipo” e refere-se às diferentes formas 
de se escrever e classificar um texto. Poesia, reportagem, piada, um 
sermão, uma narrativa, estatísticas, novela, ficção, aventura, etc. Tudo 
isto são gêneros literários específicos e devem ser lidos de maneira 
diferente. Esse principio, básico, se aplica também as escrituras. A 
Bíblia é composta por diversos gêneros e cada um deles tem suas 
características. Portanto, cada tipo de texto deve ser encarado de 
maneira particular. Sobre a importância do estudo de gêneros 
Rodrigues afirma: 
Ler a Bíblia com competência é lê-la estando consciente dos 
gêneros nela presentes. Este é um aspecto fundamental da 
interpretação bíblica. Se não levarmos em conta a análise 
literária, podemos cair em erros graves de interpretação 
(RODRIGUES, 2004, p.54).
Vale observar que Um texto (livro, capitulo, ou perícope) não 
contém um único gênero. Antes, pode ser formada por mais de um 
gênero. Além disso, existem textos que ainda carecem de uma melhor 
classificação quanto ao seu gênero. 
Em linhas gerais – e de forma resumida – podemos separar os 
gêneros da seguinte forma.
2. Narrativas Históricas
 Os textos históricos foram escritos para comunicar fatos 
e situações concretas. Para Rodrigues (2004, p.54): “Sua grande 
preocupação é recuperar o passado e torná-lo conhecido”, seu objetivo 
é “entender o presente e sonhar o futuro! Assim, a obra histórica não 
apenas satisfaz nossa curiosidade, mas nos desafia em nossas ações”. 
Na Bíblia, esse gênero se aplica, especialmente, (mas não 
exclusivamente), aos livros de: Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis. 
Esse conjunto de livros é chamado de Obra Histórica Deuteronomista 
graças à importância do livro de Deuteronômio como guia de leitura 
da história do povo, narrada nos livros que fazem parte desse conjunto. 
89
Esses livros, claramente, estão preocupados com os fatos neles 
mencionados. São os fatos a prioridade e o ponto de partida para a 
reflexão de sua mensagem. Entretanto, “podemos encontrar livros que 
só aparentemente são históricos. Devemos tomar cuidado para não 
considerar históricos textos que não tem a finalidade maior de contar 
sobre o passado” (RODRIGUES, 2004, p.54). 
Cito como exemplo os evangelhos. Sue autores não estão 
preocupados em contar uma história exata a respeito da vida de Jesus. 
Antes, sua finalidade principal é uma reflexão sobre a pessoa de Jesus 
e suas ações. Calma! Isso não significa que a história mencionada seja 
uma invenção. Não é uma invenção, mas seus autores não estavam 
preocupados em contar uma história. Eles usaram os fatos para fazer 
teologia e não simplesmente narraram os mesmos. É por isso que 
encontramos detalhes diferentes sobre o mesmo fato.
3. Literatura Profética
Os escritos dos profetas também se constituem como um gênero 
literário próprio. Existem os profetas anteriores que aparecem como 
personagens nos livros históricos (Natã, Elias, Eliseu, etc.) e fazem uma 
leitura profética da história de Israel em seus respectivos contextos. 
Existem também os profetas posteriores, ou profetas literários (de 
Isaias a Malaquias) que escreveram e trouxeram a memória da palavra 
profética, uma vez que esta era primeiramente oral. 
Entre as características principais desse gênero literário/tipo de 
texto estão: 
1. A indicação de que se trata de uma palavra que simboliza a 
comunicação direta de Deus; 
2. Oráculos de condenação contra uma pessoa ou um sistema; 
3. Oráculos de salvação; 
4. Denúncia de injustiças; 
5. Anúncio de promessas ou castigos.
Hermenêutica90
4. Lei
Encontramos na Bíblia diversas leis, códigos e normas. Pois bem, 
elas fazem parte de um gênero literário particular conhecido como 
Lei. A lei não existe como regra externa, “mas sim como ensinamento 
que se guarda no coração”1. Seu intuito na palavra de Deus é ensinar e 
instruir a respeito da caminhada, nos ajudando, assim, a viver melhor.
 Esse gênero é organizado de forma variada e apresenta: 
1. Leis para a vida intima; 
2. Normas civis gerais (específicas para a nação de Israel); 
3. Leiscerimoniais (ligadas ao culto no A.T);
4. Normas para a vida comunitária;
5. Outras tantas...
 Basicamente, as leis se apresentam de duas formas2. (1) Forma 
Condicional: “Se acontecer isso, então proceda assim”; (2) Forma 
Incondicional: “Faça aquilo, não faça isso”. 
 A lei é um tema extremamente delicado em sua interpretação e 
exige mais do interprete do que qualquer outro gênero. RODRIGUES3 
propõe três passos básicos para não cairmos nas armadilhas 
universalistas. Elas ainda nos ajudam em questão fundamental: “quais 
leis ainda continuam valendo para nós, hoje?”
1. – Procurar saber em qual contexto determinada lei – ou 
conjunto de leis – foi escrita;
2. – Perguntar-se: a quem tal lei interessava?
3. – Dar o devido peso a cada uma das leis e procurar entender 
o sentido que está por trás delas.
1Ibidem, p. 66.
2Ibidem
3Ibidem, p.69
91
5. Sabedoria
 Os textos de sabedoria (Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cantares) 
aparecem nas escrituras como forma de orientação e conselhos para 
vida cotidiana. Além disso, servem de ajuda para a análise da realidade 
do povo e para gerar ânimo frente a tantos desafios da vida aos quais o 
povo de Deus estava exposto.
 
 Entres suas características e formas literárias aparecem: 
1. Constante repetição de palavras e frases; 
2. Conselhos (“Filho meu...”), advertências e exortações; 
3. Comparações; 
4. Perguntas didáticas para levar o leitor a pensar; 
5. Canções e poesias.
6. Salmos
 Os salmos, conforme define RODRIGUES4: “São orações 
acompanhadas de melodia. São poemas para orar, não só com palavras, 
mas também com música e dança”. Esse conjunto de orações cantadas 
é também classificada como um gênero literário. 
 Suas principais características literárias são: 
1. Reconhecimento do próprio ser diante da vida e seus dilemas; 
2. Um caminho de intimidade e experiência profunda com Deus; 
3. Levar outros a abrirem suas vidas para Deus; 
4. Revelar o caráter de Deus; 
5. Expressão de momentos concretos da vida e da fé do povo de 
Deus. 
4Ibidem, p. 70
Hermenêutica92
Conclusão
Por hoje é só, pessoal! Na próxima unidade apresentaremos 
outros gêneros literários importantes. Até a próxima!
Referências Bibliográficas
FEE, Gordon & Douglas Stuart. Entendes o Que Lês?, São Paulo: Edições 
Vida Nova, 1984.
OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à 
interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009.
RODRIGUES, Maria Paula. Palavra de Deus, palavra da gente: as formas 
literárias na Bíblia. São Paulo: Paulus, 2004.
Anotações
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Hermenêutica
Unidade - 12
Recursos Literários – parte III
Introdução
Na unidade daremos sequência ao estudo de alguns 
dos principais gêneros literários encontrados na bíblia.
 
Objetivo
1. Apresentação dos principais gêneros literários 
encontrados na Bíblia e a sua importância no processo 
interpretativo de um texto. 
Hermenêutica94
1. Evangelho
Os quatro primeiros escritos do Novo Testamento recebem o nome 
de evangelho e formam um gênero literário próprio. Os três primeiros 
– Mateus, Marcos e Lucas – são conhecidos como sinóticos e são muito 
parecidos em seus escritos – basicamente, relatam a vida de Jesus e sua 
atuação nos últimos três anos de sua vida. 
Cada um dos sinóticos tem suas particularidades, o mesmo relato 
apresenta uma estrutura diferente, com detalhes e, até mesmo, ênfases 
diferentes. Isso varia de acordo com o contexto do autor de cada evangelho 
e com o momento histórico de cada comunidade a quem o texto foi 
destinado – conhecidos como “os primeiros leitores”. Isso mesmo, cada 
autor selecionou e organizou alguns fatos da vida e ministério de Jesus e 
construiu seu texto (Leia: Lc 1: 1-4) de acordo com as demandas (sociais, 
religiosas, políticas, econômicas, existenciais, etc.) de um determinado 
povo/comunidade. 
O autor Gordon Fee (1984, p.113) trabalha com essa perspectiva e 
afirma que “Havia dois princípios operantes na composição dos Evangelhos: 
a seletividade e a adaptação. De um lado, os evangelistas como autores 
divinamente inspirados selecionaram e adaptaram aquelas narrativas e 
ensinos que eram apropriadas para seus propósitos”.
Sendo assim, os relatos da vida de Jesus possuíam um significado 
profundo e se aplicavam de forma concreta ao que estavam vivenciando 
essas comunidades. 
Quando lemos uma passagem dos evangelhos seria bom 
considerar não apenas a memória da palavra e da ação de Jesus 
ali presente, mas também o esforço das comunidades que o 
seguiram em aplicar esses ensinamentos e atitudes na própria 
vida. É esse empenho que acaba tornando um evangelho 
diferente do outro: cada um reflete os desafios de uma 
comunidade em atualizar a prática de Jesus e de seus primeiros 
discípulos e discípulas (RODRIGUES, 2004, p.82).
Portanto, escrever um texto sobre a vida de Jesus não significava apenas 
relatar aquilo que Ele fez e falou, mas também estimular as comunidades a 
construírem sua própria caminhada de fé a partir do exemplo do mestre e, 
além disso, ter nele uma esperança capaz de dar real sentido à vida. 
95
No evangelho de João (20: 31), por exemplo, encontramos a seguinte 
frase: Esses sinais foram escritos para que vocês acreditem. Isso significa que 
quando os evangelhos foram escritos pensou-se primeiramente no “vocês”, 
nas comunidades! Vejamos outros comentários dessa mesmas autora: 
Foram os problemas e desafios do cotidiano da comunidade que 
conduziram o processo de escrita do evangelho, e inclusive da 
escolha do que teria que fazer parte da narração. Para atender 
às necessidades da comunidade, foram inseridos alguns textos 
e deixados de fora tantos outros. (RODRIGUES, 2004, p. 83
Por tudo isso, concluímos então que os evangelhos não devem 
ser abordados, do ponto de vista hermenêutico, como um escrito 
biográfico e até mesmo histórico. O interesse primário do autor ao 
narrar alguns acontecimentos sobre Jesus é levar as pessoas – os 
primeiros leitores e agora todos nós – a se comprometerem com Jesus e 
com as causas que ele se comprometeu e as estimularem a trilhar com 
perseverança e esperança os caminhos da fé. 
Normalmente, aqui temos uma pedra no sapato já que “temos 
o hábito de ler os Evangelhos somente como meios de se alcançar os 
acontecimentos históricos para os quais eles apontam. Todavia, esses 
escritos são muito mais que isso”1. Mais do que contar um história cada 
evangelista é um interprete dos fatos. Eles apresentaram seus escritos de 
uma forma que refletisse sua própria interpretação e aplicação dos fatos. 
1CARVALHO, Tarcízio. Apostila (não publicada): Princípios de Interpretação da Bíblia – interpretando 
evangelhos e cartas. 
“No caso da comunidade de João o ambiente era de 
perseguição, de ameaças, inclusive de morte. Resultado: vamos 
encontrar em João 9, 1-41 e 10,19-21 um longo relato sobre 
alguém que enfrentou as autoridades com coragem, mesmo tendo 
sido expulso da sinagoga: o cego de nascença. Uma postura bem 
diferente da de seus pais (9,21-22)! E ainda, o Evangelho segundo 
João é diferente dos demais porque sua comunidade vive uma 
situação específica, que o evangelho quer encarar de frente” 
(RODRIGUES, 2004, p. 83).
Hermenêutica96
Essa perspectiva, porém, não é uma unanimidade. É comum, 
encontrarmosalgumas afirmações de que minimizar a base histórica 
dos evangelhos compromete a mensagem dos mesmos. Entretanto, 
precisamos lembrar que “os Evangelhos foram escritos não apenas para 
comunicar informação factual, e nem foram compostos de acordo com 
os métodos e expectativas do jeito moderno de escrever história”2. 
Ainda sobre o mesmo tema, Kaiser (2003, p.102) afirma que: 
“a fidedignidade dos Evangelhos não deve ser posta em termos da 
historiografia moderna, que dá ênfase à sequência cronológica rígida 
e clara”. Já os autores dos Evangelhos, segundo o mesmo autor, “são 
pregadores [...] Eles organizam o material nem sempre com base na 
ordem sequencial, mas com a perspectiva de imprimir sobre os leitores 
certas verdades”. 
A partir de tudo que vimos, na hora de interpretar um texto 
contido nos Evangelhos, devemos ter em mente algumas perguntas 
cruciais: 
1. quem é o autor do texto? 
2. onde estava quando escreveu? 
3. quais eram suas condições? 
4. para quem escreveu? 
5. como viviam essas pessoas? 
Depois de feitas essas descobertas, é hora de interpretarmos e 
aplicarmos os textos para a nossa realidade. Afinal, a vida de Jesus 
tem muito a nos dizer a partir de nossas realidades, especialmente 
na América Latina. Conforme Fee (1984, p.100,101): “Num certo 
sentido, portanto, os Evangelhos já estão funcionando como modelos 
hermenêuticos para nós, insistindo por sua própria natureza que nós, 
também, narremos de novo a mesma história em nossos próprios 
contextos”.
 
2Ibidem
97
2. Parábolas
 A Parábola não é um gênero literário exclusivo do Novo Testamento. 
Ela também aparece no Antigo Testamento, priciplamente em textos de 
sabedoria (Salmos, Provérbios, Eclesiastes). Como qualquer outra forma 
literária, tem suas características próprias. Rodrigues destaca as seguintes 
regras, entre outras:
• Reflete uma situação que poderia ter acontecido: Ou seja, fala de algo 
que “poderia realmente ter acontecido; não contém elementos explícitos do 
mundo da fantasia”;
• Refere-se a uma realidade em si mesma: Ou seja, “deve ser 
interpretada a partir da lógica dos próprios fatos que narra. Não é um texto 
que tenta explicar outros textos ou fatos externos, como a alegoria”.
Possivelmente estamos diante do tipo de texto mais abusado quando 
o assunto é interpretação, especialmente com o uso de alegorias. Para 
Rodrigues (2004, p.112) “isso faz perder a mensagem que a história queria 
transmitir originalmente. A alegoria, muitas vezes, torna-se camisa de força 
que tira a riqueza de sentidos possíveis da parábola”. Vejamos um exemplo 
do uso inadequado do método alegórico na interpretação de uma parábola 
feito por Agostinho.
Parábola do Bom-Samaritano
Cena Representa
Judeu que desce de Jerusalém 
para Samaria Adão
Ele é assaltado Queda Humana
Sacerdote e Levita Lei e Sacrifício que não podem ajudar o homem caído
Hermenêutica98
Bom Samaritano Jesus
Vinho nas feridas Sangue pelos nossos pecados
Levanta o homem Novo nascimento
Leva até a estalagem Igreja
Estalageiro Pastor
Pede que cuide do homem até 
que ele volte Segunda vinda de Jesus
 
Para Fee (1984, p.112): “Por mais novo e interessante que tudo 
isto possa ser, podemos ter a certeza de que não é isso que Jesus queria 
dizer. Afinal de contas, o contexto claramente exige uma compreensão 
de relacionamentos humanos (‘Quem é o meu próximo?’), e não os 
relacionamentos divinos e humanos”.
 
• Atenção Especial com os Detalhes
 Os detalhes, às vezes, estão cheios de significado (a partir do 
contexto geral) para ajudar na construção da mensagem. Mas os 
detalhes não são/contém a mensagem central em si, são partes que 
dependem de outras partes para a construção do todo. São apenas 
elementos para dar colorido à história criada. A mensagem da parábola 
está no todo. Para tarefa hermenêutica, portanto, é importante destacar 
que: 
- É no todo (construído pelas partes) que se encontra o significado 
do texto;
- É do todo que se extrai o conteúdo para aplicação; 
99
• Cabe aqui um pequeno Exercício de Fixação:
Lc 15: 11-32: Parábola do Filho Pródigo
Depois de ler a parábola, cuidadosamente, reflita:
Qual é a Mensagem Principal?
Encontre alguns detalhes que contribuem para a construção 
da mensagem principal.
Até que ponto esses detalhes podem ser confundidos com a 
mensagem principal? 
O que mudaria [na aplicação] se os detalhes assumissem o 
papel da mensagem principal na parábola ? 
3. Cartas
 O maior (em quantidade de material escrito) gênero literário 
do Novo Testamento são as cartas. Em resposta a uma carta recebida 
sobre um problema especifico, ou em resposta a algum problema que 
alguma comunidade nascente estava enfrentando, nascem às cartas. 
Com o passar do tempo, achou-se necessário classificá-las como um 
gênero literário próprio. Esse tipo de abordagem foi fundamental para 
o processo de interpretação do conteúdo das mesmas. 
 Infelizmente, até hoje, existe a insistência em desconsiderar a 
carta como um tipo de texto que deve ser lido a partir de suas categorias 
históricas e literárias. Dessa forma, continuamos convivendo com 
interpretações questionáveis, fundamentalistas e universalistas frente 
a problemas específicos. 
Suas principais características literárias, entre tantas, são:
Hermenêutica100
1. linguagem que reproduz um discurso oral, isso se deve ao fato 
de que essas cartas eram lidas nas assembleias litúrgicas; 
2. o conteúdo é uma resposta a algum problema vigente na 
comunidade que recebeu a carta; 
3. reforçando: toda carta é circunstancial; 
4. por se tratar de uma carta aparecem: saudações e identificação 
do autor, destinatário, etc.; 
5. quanto ao conteúdo, não se tratam de verdades universais, antes, 
de palavras de orientação, conselhos, exortações e encorajamento; 
6. caminhos que apontam à superação de conflitos instalados, 
conflitos que geraram a necessidade da carta.
4. Apocalíptica
 O gênero literário “apocalipse” não é uma referência exclusiva 
ao livro do apocalipse de João. Este pertence, também, ao gênero 
apocalipse, mas não é o único. Joel, Daniel e outros pequenos textos 
fazem parte desse gênero.
Suas características principais são: 
1. remete a acontecimentos do passado para falar do presente; 
2. linguagem em forma de protesto e resistência ao poder 
estabelecido; 
3. surgem em períodos de perseguição com o intuito de gerar 
esperança no coração dos leitores; 
4. Usam linguagem simbólica e usam a imaginação para criar 
suas cenas; 
101
Conclusão
A falta de noção quanto ao tipo (gênero) de texto que 
estamos trabalhando (lendo) pode comprometer nosso trabalho 
de interpretação. Nas próximas unidades vamos trabalhar com 
alguns critérios e métodos importantes aplicados a alguns gêneros 
selecionados. Até breve! 
 
Referências Bibliográficas
FEE, Gordon & Douglas Stuart. Entendes o Que Lês?, São Paulo: Edições 
Vida Nova, 1984.
KAISER, Walter C. Jr. e Moisés Silva. Introdução À Hermenêutica Bíblica. 
São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003.
OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à 
interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009.
RODRIGUES, Maria Paula. Palavra de Deus, palavra da gente: as formas 
literárias na Bíblia. São Paulo: Paulus, 2004.
Hermenêutica102
Anotações
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103
Hermenêutica
Unidade - 13
Interpretando Narrativas – parte I
Introdução
As narrativas são um dos meios privilegiados pelos 
quais podemos penetrar nos contextos, bíblico e do leitor/
intérprete, a fim de realizar a fusão de horizontes, isto é, 
perceber o significado do texto bíblico para o aqui e agora, 
quando ele se torna a Palavra de Deus para nosso tempo. 
Esta se realiza no encontro e confronto de narrativas, as 
do texto bíblico e as nossas e nos leva a refazer o nosso 
presente e redirecionar nosso futuro, pela nossa ação neste 
mundo. Por tudo isso (e considerando ainda que boa parte 
dos textos bíblicos são de gênero narrativo), entendemos 
a importância e necessidade de estudá-las com dedicação. 
Na unidade de hoje (e nas duas próximas), estudaremos 
o gênero narrativo. Aprenderemos ler o contexto bíblico 
e o contexto latino-americano, ou brasileiro, a partir da 
análise das narrativas, presentes em ambos os contextos, 
com ênfase no Novo Testamento. Depois, será mostrado 
um exemplo a partir de uma narrativa do Evangelho. E, por 
fim, será indicado como relacionar esta narrativa com o 
contexto do intérprete. 
 
Objetivos
1. Conhecer acerca do gênero literário narrativo e sua 
função na Hermenêutica contextual latino-americana;
2. Ser capacitado à análise de narrativas;
3. Ser capaz de exercitar alguma atividade básica de 
leitura contextual a partir da análise de narrativas. 
Hermenêutica104
Um pouco de História
O Novo Testamento se tornou um conjunto de obras literárias 
quando a proclamação oral do Evangelho passou a ser acompanhada 
pelo anúncio escrito do Evangelho. E isto tem muito a ver com o 
processo de canonização destas obras. Daí em diante, só era possível 
estudá-las com a ajuda, por vezes excessiva...
Das ciências históricas Das ciências teológicas
O que aconteceu? Qual é a verdade?
Ambas as maneiras se tornaram o modelo dominante de 
interpretar o Novo Testamento até a primeira metade do século 20. 
Este consistia em reconstruir a vida e o pensamento por trás das 
obras através de um estudo objetivo das circunstâncias históricas que 
cercavam o período de transmissão do texto bíblico, também chamado 
da tradição oral, até os primeiros registros desta tradição, chamado 
período de composição. Para isso, se formaram três conjuntos de 
estudos: 
1. O estudo das fontes: que pessoas e grupos produziram e se 
utilizaram destas obras? 
2. O estudo das formas: onde viviam essas pessoas e grupos (sitz 
in leben)?
3. O estudo da redação: com quais propósitos e intenções elas 
produziram e utilizaram estas obras?
Esses três conjuntos de estudos eram antecedidos pelo estudo 
literário que se desdobrava em duas partes: 
1. Análise filológica: a constituição linguística da escrita. 
2. Análise histórica: a autenticidade, integridade da escrita; data 
e lugar; conteúdo; ocasião ou propósito da escrita; pano de fundo 
(fontes primárias, conforme vimos em unidades anteriores). 
105
Novo Testamento e os Novos Estudos Literários1
Na segunda metade do século 20, recentes desenvolvimentos 
nas ciências literárias contribuíram para a constituição de uma nova 
maneira de estudar as obras literárias do Novo Testamento. Entende-
se, por exemplo, que as narrativas do Novo Testamento são, em muitos 
aspectos, semelhantes a uma história atual. Elas possuem: enredo, 
personagem, cenário e um ponto de vista.
Porém, não se pode perder de vista a natureza teológica destas 
histórias. O interesse da parte de quem estuda o contexto bíblico deve 
ir além do gênero literário narrativo, para se estender à relação entre 
a narrativa e a teologia. Por um lado, se trata de distinguir a narrativa 
bíblica da simples literatura. Por outro lado, se trata de reconhecer a 
narrativa bíblica como um discurso complexo.
O Estudo do gênero literário narrativo2
O estudo do gênero literário narrativo, ou a crítica narrativa, 
ou a análise narrativa, constitui um conjunto de procedimentos que 
procura demonstrar o caminho pelo qual o leitor de uma narrativa 
é conduzido ao seu entendimento por determinada organização 
presente na própria história. A abordagem fundamental à forma de 
organização da narrativa. Desse modo, a narrativa pode ser estudada 
como uma sequência de quatro etapas:3
Primeira A personagem passa a ter um querer ou um dever, um desejo ou uma necessidade de fazer algo;
Segunda A personagem adquire um saber e um poder, isto é, a competência necessária para fazer algo;
Terceira A personagem realiza aquilo que quer ou deve fazer;
Quarta A personagem tem a recompensa daquilo que realizou;
1REYES, 1999, pp. 39-59. Usaremos esse texto de Reyes para início de nossa apresentação do assunto. 
2PORTER, 2007, pp. 202-204; POWELL, 1990, pp. 19-21. 
3FIORIN, SAVIOLI, 2006, p. 228. 
Hermenêutica106
Ou pode ser estudada como uma ação-problema que se desenrola 
ao longo de cinco elementos macroestruturais básicos:4
1. Situação Inicial
2. Ação-Problema (nó)
3. Ação Transformadora
4. Desenlace
5. Situação Final
Considerando os diversos pontos acima, entendemos que um 
modo prático de efetuar a análise do gênero literário narrativo é:5
1. Delimitar a Narrativa; 
2. A Intriga;
3. Os personagens;
4. Cenário ou Quadro;
5. O Tempo; 
6. Voz Narrativa;
Vejamos algumas características de cada um dos passos: 
A DELIMITAÇÃO DA NARRATIVA: Trata-se de determinar o 
início e o fim da história, com o objetivo de estabelecer seus limites 
como uma unidade produtora de sentido, abrindo-a para a leitura e 
análise. 
A INTRIGA: Trata-se de descobrir o percurso da história, desde 
a situação inicial ao clímax e até o desenlace.
OS PERSONAGENS: Trata-se de apresentar os personagens, 
a partir de todas as informações disponíveis sobre eles na história: 
descrição física, social, cultural, étnica, familiar etc, e as ações, a 
linguagem, os pensamentos, as crenças e valores de cada um. 
4MARGUERAT, BOURQUIN, 2009, pp. 75ss. 
5MARGUERAT, BOURQUIN. 2009. 
107
O CENÁRIO OU QUADRO: Trata-se de descrever o lugar ou 
lugares localizáveis no tempo e no espaço, bem como o ambiente 
social, onde os eventos da história ocorrem e são representados. 
O TEMPO: Trata-se de indicar o tempo da história. Este pode 
ser cronológico, por exemplo: o encontro de dois amigos, realizado em 
questão de minutos. Ou pode ser narrativo: como a história prolonga 
esses poucos minutos indefinidamente. 
A VOZ NARRATIVA (focalização e ponto de vista): Trata-se de 
apontar os procedimentos do Autor Implícito que, à semelhança de 
uma Voz presente na história, guia o Leitor Implícito, ao lhe fornecer 
todo tipo de esclarecimentos que ele necessita para que ele compreenda 
a história como o Autor Implícito deseja.
Conclusão
Por hoje é só pessoal. Na próxima unidade daremos continuidade 
ao assunto. Vamos aplicar os passos que aqui apresentamos na história 
da cura do escravo do centurião romano, registrada em Mateus 8:5-13. 
Até a próxima!
Referências Bibliográficas
FIORIN José Luiz, SAVIOLI Francisco Platão. ParaEntender o Texto. São 
Paulo: Ática, 2006 
MARGUERAT Daniel, BOURQUIN Yvan. Para ler as narrativas bíblicas. 
São Paulo: Loyola, 2009 
POWELL Mark Allan. What is Narrative Criticism? Minneapolis: Fortress 
Press, 1990 
REYES George. Esbozo historico de los acercamientos literários al texto 
bíblico. In: Kairos 24 (1999) 39-59 
Hermenêutica108
Anotações
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109
Hermenêutica
Unidade - 14
Interpretando Narrativas – parte II
Introdução
Dando continuidade ao estudo de textos narrativos, 
hoje, veremos um exemplo dos passos apresentados na 
última unidade. Para tanto, utilizaremos a história da cura 
do escravo do centurião romano, registrada em Mateus 8:5-
13. Vamos lá!
 
Objetivos
1. Conhecer acerca do gênero literário narrativo e sua 
função na Hermenêutica contextual latino-americana;
 
2. Ser capacitado à análise de narrativas;
3. Ser capaz de exercitar alguma atividade básica de 
leitura contextual a partir da análise de narrativas.
Hermenêutica110
A análise das narrativas no contexto 
do Novo Testamento
Conforme vimos na unidade anterior, uma maneira prática de 
analisar um texto narrativo do Novo Testamento é a utilização dos 
passos abaixo:
1. Delimitar a Narrativa; 
2. A Intriga;
3. Os personagens;
4. O Cenário ou Quadro;
5. O Tempo; 
6. Voz Narrativa;
Vejamos agora cada um dos passos aplicados à história da cura 
do escravo do centurião romano, registrada em Mateus 8:5-13. 
• TEXTO
8.5 Tendo Jesus entrado em Cafarnaum, apresentou-se-lhe um 
centurião, implorando: 
8.6 Senhor, o meu criado jaz em casa, de cama, paralítico, 
sofrendo horrivelmente.
8.7 Jesus lhe disse: Eu irei curá-lo. 
8.8 Mas o centurião respondeu: Senhor, não sou digno de que 
entres em minha casa; mas apenas manda com uma palavra, e 
o meu rapaz será curado. 
8.9 Pois também eu sou homem sujeito à autoridade, tenho 
soldados às minhas ordens e digo a este: vai, e ele vai; e a outro: 
vem, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz. 
8.10 Ouvindo isto, admirou-se Jesus e disse aos que o seguiam: 
Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei fé 
como esta. 
8.11 Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e 
tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino 
dos céus. 
111
8.12 Ao passo que os filhos do reino serão lançados para fora, 
nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes. 
8.13 Então, disse Jesus ao centurião: Vai-te, e seja feito conforme 
a tua fé. E, naquela mesma hora, o servo foi curado.
• A DELIMITAÇÃO DA NARRATIVA: 
Não há indício cronológico da entrada de Jesus em Cafarnaum 
(8:5), mas há referência de uma sequência temporal na casa de Pedro 
(8:14), e, depois, ao anoitecer (8:16). O episódio acontece na cidade de 
Cafarnaum (8:5), sem indicação de qual espaço foi ocupado dentro da 
cidade. A seguir, Jesus entra na casa de Pedro (8:14) e, à noite, não há 
indicação de local onde esteja (8:16). Os personagens mencionados 
são: Jesus, aqueles que o seguem, o centurião e o seu escravo adoecido. 
A história é acerca de como a fé do centurião contribuiu para a cura 
do seu escravo.
• A INTRIGA: 
A história está organizada do seguinte modo esquemático:
Passos Texto: versículos
1. Situação Inicial 5,6
2. Ação-Problema (nó) 7,9
3. Ação Transformadora 10-12 / 13a
4. Desenlace 13b
5. Situação Final xxxx
A história possui duas intrigas: a cura do servo do centurião e a 
fé do centurião. Trata-se de uma intriga dentro da intriga. 
Na primeira, o escravo está muito doente, o centurião vai até 
Jesus e pede que o cure, Jesus diz a sua palavra, e ele é curado. 
Na segunda, o centurião se recusa a receber Jesus em casa e explica 
a razão contando uma breve história. Jesus elogia a fé do centurião 
Hermenêutica112
e diz a sua palavra em resposta a esta fé. A verdadeira lição não se 
trata da cura do enfermo, mas da aprovação da fé do centurião, por 
meio da qual o enfermo foi curado. Ela se torna modelo de qualquer fé 
verdadeira, na apreciação de Jesus, conforme a breve história do Reino 
dos Céus que ele narra. 
• OS PERSONAGENS: 
São três os personagens individualizados: Jesus, o centurião 
e o escravo doente. Eles são os protagonistas da história. Há um 
personagem coletivo: os que seguiam a Jesus. 
Estes atuam como testemunhas do diálogo entre Jesus e o 
centurião, bem como das declarações de Jesus. Jesus é construído como 
o personagem central da história: ele é seguido por todos; é procurado 
pelo centurião, que concentra nele a esperança de cura de seu escravo; 
faz comentários nos quais julga a fé do povo de Israel e do centurião, 
anuncia o banquete escatológico do Reino dos Céus. Também é 
sensibilizado pelo apelo do centurião e manifesta profundo espanto 
e admiração pessoal por ele. O centurião é identificado com a força 
de ocupação romana na Galiléia, o que lhe dá um status diferenciado 
dentre todos. 
Sua compaixão pelo escravo adoecido e apelo a Jesus desfaz o pré-
juízo inicial, dispondo-o à aceitação por Jesus e pelos ouvintes/leitores. 
Seu discurso sobre a autoridade é fundamental para a sua identificação. 
O escravo é identificado com o serviçal, o que já determina de antemão 
o seu status. Adoecido, vítima de uma enfermidade torturante, torna-
se passivo e dependente da ação do centurião e da resposta de Jesus. Os 
seguidores de Jesus são espectadores e testemunhas do acontecimento, 
lugar sempre reservado a eles. Cabe a eles confirmar o testemunho e 
glorificar a Deus.
• O CENÁRIO OU QUADRO: 
A descrição do ambiente físico é pobre, apontando para um 
local público ignorado, em Cafarnaum. O ambiente social pode ser 
explorado a partir: do discurso de Jesus, no qual relaciona o povo 
de Israel a si mesmo – a palavra que realiza a cura – e ao banquete 
no Reino dos Céus; das relações entre judeus e a força de ocupação 
113
romana representada no centurião; das relações entre o centurião 
como senhor do escravo adoecido.
• O TEMPO: 
O tempo se desenvolve na medida em que as ações se sucedem 
umas às outras. A certa altura, o tempo das ações é suspenso, para que 
se dê o comentário de Jesus acerca da fé do centurião e do banquete 
do Reino dos céus, e retorna para a sua palavra de cura, criando um 
clímax, cujo desenlace se dá quando o tempoda cura do escravo 
adoecido é vinculado à hora que Jesus falou a palavra de cura. 
• A VOZ NARRATIVA (focalização e ponto de vista): 
É evidente a intenção do Autor Implícito em despertar a simpatia 
do Leitor Implícito pelo centurião romano, solícito e compassivo por 
seu escravo adoecido. O comentário de Jesus, no qual elogia a fé do 
centurião, somente afirma o centurião como modelo a ser imitado. 
Em contrapartida, o juízo negativo que Jesus emite acerca da fé do 
povo de Israel, coloca os seus contemporâneos na situação oposta à 
vista do Leitor. 
No comentário adicional, o Autor Implícito mostra Jesus, 
à maneira de um profeta, estabelecendo a fé do centurião como 
condição para participar no banquete do Reino dos Céus, igualando-a 
aos patriarcas: Abraão, Isaque e Jacó. É possível identificar aqui o 
fenômeno da intertextualidade. O símbolo do Reino dos Céus substitui 
a terra prometida, alvo da fé dos patriarcas. Um veredito é, finalmente, 
lançado: por isso, os que vêm do “Oriente e do Ocidente” terão entrada 
no Reino, enquanto os seus súditos serão lançados fora dele, em um 
espaço que é oposto à alegria do Reino: choro e ranger de dentes. 
O Autor Implícito manipula o Narrador, que está por trás e 
totalmente onisciente de todas as ações da história, dando pleno 
domínio ao Leitor acerca dela, inclusive antecipando-lhe a cura do 
escravo adoecido, quando o centurião ainda nem havia chegado à sua 
casa.
Hermenêutica114
Conclusão
 Por hoje é só pessoal! Na próxima unidade continuaremos no 
assunto. O foco recairá sobre a análise das narrativas no contexto do 
interprete. Até breve!
Referências Bibliográfica
BERGER Klaus. As Formas Literárias do Novo Testamento. São Paulo: 
Loyola, 1998 
EGGER Wilhelm. Metodologia do Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 
1994 
FIORIN José Luiz, SAVIOLI Francisco Platão. Para Entender o Texto. São 
Paulo: Ática, 2006 
MARGUERAT Daniel, BOURQUIN Yvan. Para ler as narrativas bíblicas. 
São Paulo: Loyola, 2009 
OSBORNE Grant R. A Espiral Hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2009, 
p. 254-283 
POWELL Mark Allan. What is Narrative Criticism? Minneapolis: Fortress 
Press, 1990 
REYES George. Esbozo historico de los acercamientos literários al texto 
bíblico. In: Kairos 24 (1999) 39-59 
115
Hermenêutica
Unidade - 15
Interpretando Narrativas – parte III
Introdução
Na unidade de hoje continuaremos pensando a 
interpretação de narrativas. Nosso foco recairá sobre a 
relação entre narrativa e o contexto do intérprete. Bons 
estudos! 
 
Objetivos
1. Conhecer acerca do gênero literário narrativo e sua 
função na Hermenêutica contextual latino-americana;
 
2. Ser capacitado à análise de narrativas;
3. Ser capaz de exercitar alguma atividade básica de 
leitura contextual a partir da análise de narrativas. 
Hermenêutica116
A análise narrativa no contexto do intérprete
Na unidade anterior trabalhamos a leitura da narrativa de 
Mateus 8:5-13. Precisamos agora compreender que esse exercício 
não pode ser feito de modo objetivo sem conexão com a realidade 
do leitor/intérprete. Quer dizer, o leitor atual se coloca no contexto, 
ambiente e mundo dos autores e leitores antigos, vendo as coisas de 
sua perspectiva original e eliminando qualquer opinião moderna que 
afete sua interpretação. 
Aliás, qualquer leitura objetiva de um texto literário do Novo 
Testamento é impossível, pois aqueles que poderiam dar significado 
a ela, o autor e o leitor originais, não existem mais. E, também, é 
desnecessária, pois, se fosse possível acesso a eles, o significado que 
eles dariam para a história não faria o menor sentido para nós, hoje. 
Acentua-se, então, a subjetividade, isto é, a maneira pessoal como 
cada leitor faz a leitura do texto literário do Novo Testamento (embora 
tenhamos apontado em unidades anteriores os problemas como pré-
texto, chegou a hora de considerá-los e assumi-los de forma honesta 
e em função de uma análise e interpretação bíblica coerente). Neste 
caso, a subjetividade é assumida nas tradições que o leitor possui e 
pelas quais aprendeu a ler o texto bíblico. Estas foram, normalmente, 
aprendidas em uma comunidade cristã. Estas tradições funcionam 
como: orientação principal para a vida; legitimação de uma forma de 
vida cristã, do próprio leitor, de um grupo, de uma família, de uma 
comunidade, de uma igreja; como parte das condições de mundo no 
qual se vive. 
Isto leva diretamente à questão mais controversa na análise do 
gênero literário narrativo, no Novo Testamento: o lugar da Teologia. 
Especificamente acerca do caráter descritivo (não-confessional), ou 
prescritivo (confessional) desta leitura teológica. 
• Para o tipo prescritivo, o texto literário é um texto sagrado, é a 
Palavra de Deus, que implica em: 
• Ele registra as palavras de Deus; 
• É a melhor apresentação da realidade; 
• Sua autoridade ultrapassa a de qualquer outro texto literário; 
117
• Ele tem um papel central em guiar a fé e a prática de indivíduos 
e comunidades. 
Para os teólogos que trabalham com esses pressupostos, a 
interpretação só pode ser feita desde dentro e para uma comunidade 
de fé, e ao resultado da exegese o indivíduo e a comunidade devem se 
submeter. 
• Para o tipo descritivo, o que importa é o lugar e papel histórico 
do texto literário na época de sua composição e na forma como se 
encontra escrito. Isso implica em: 
• Valorizar o significado passado do texto; 
• Tratar o texto bíblico como uma literatura antiga; 
• Em formas históricas mais radicais, reduzir referências 
sobrenaturais a uma determinada época histórica;
O problema aqui é que o conceito de história do exegeta, de 
antemão, já determina os resultados da exegese. 
Contudo, os textos narrativos do Novo Testamento são tanto 
um registro do que criam as antigas comunidades cristãs, no sentido 
histórico, como também o meio pelo qual creem as comunidades 
cristãs atuais, no sentido teológico. A questão mais profunda, então, 
é: como vincular o sentido histórico com o sentido teológico através 
da mediação hermenêutica da narrativa praticada em ambas as 
comunidades de fé? 
A reflexão acima foi necessária para que você percebesse que 
a análise das narrativas do Novo Testamento se faz em conversação 
com as narrativas das pessoas e das comunidades cristãs de hoje, e de 
todos os tempos, em seus diversos contextos, nos quais as narrativas se 
tornam espaços de aprendizagem. Vejamos como isso acontece.1
Quando alguém conta uma história, a sua ou a de outrem, 
inclusive um personagem bíblico, está dando ênfase, não às ideias, 
mas à vida, da maneira como ela acontece, na medida em que uma 
pessoa ou uma coletividade humana vai experimentando tais eventos. 
Daí, que o conjunto ou contexto da vida é que se faz presente em cada 
narrativa. É a vida que se narra. 
1BRAVO, 1986, pp. 73-83. 
Hermenêutica118
Quando alguém conta uma história, o faz para que outra pessoa 
ou comunidade a ouça. Quem conta é o narrador, e quem ouve é o leitor/
ouvinte. O narrador usa a memória que tem dos acontecimentos para 
dar vida, novamente, a eles, enfatizando certos aspectos, obscurecendo 
ou omitindo outros, organizando os eventos, contextualizando-os de 
modo que possa surgir um significado para a vida. 
Por meio da história, o leitor/ouvinte se relaciona com o narrador, 
porém, principalmente, ele penetra na vida que está configurada na 
história. Ele pode concordar ou discordar, isto é, aceitar o convite para 
fazer ou não parte dos acontecimentos que são narrados. Ele pode 
assumir uma atitude:
Idealista Como era bom aquele modo de viver
Resignada Se foi assim, não há o que podemos fazer de diferente.
De esperança e 
transformação
Esta história nos permite ver nossa vida de outra 
maneira, e podemos mudar as coisas.
Por causa desta última atitude perante a narrativa ouvida, 
é preciso dizer que a narrativa jamais é apenas uma apropriação 
individual cujo impacto se restringe à vida particular do ouvinte. Ela 
possui um caráter e um impacto social, atinge a coletividade,seja 
a igreja, seja a comunidade que circunda a igreja, transformando o 
contexto, modificando os acontecimentos futuros.
Como toda história parte e é reflexo de um contexto, não há 
como narrar e ouvir uma história sem abrir-se e apegar-se ao contexto. 
Isto quer dizer que é preciso tomar partido, situar-se ao lado, e deixar 
que as pessoas contem suas histórias a partir e da maneira como elas 
as entendem e como sabem fazê-lo. 
Ajudar as pessoas a contar suas histórias, e de suas comunidades, 
é permitir que seu contexto se manifeste, a fim de que elas mesmas 
tomem nas mãos os acontecimentos narrados e deem continuidade 
às suas histórias. A este evento final, chamamos a fusão de horizontes, 
quando a narrativa bíblica se torna parte da narrativa do leitor de hoje, 
seja ele uma pessoa ou uma comunidade cristã. 
119
Reflexões a partir do texto de Mateus 8:5-13
No caso específico da narrativa do centurião, ficam óbvias 
algumas conclusões, resultantes do diálogo entre o contexto da 
narrativa e o do leitor/intérprete: 
• PRIMEIRO, as narrativas de doenças, fé em Jesus e a cura 
consequente são mais comuns do que se imagina, seja nos dias de 
Jesus, seja em nossos dias. 
• SEGUNDO, os papéis sociais pouco têm valor, em tais 
narrativas, visto que a doença e a necessidade da cura nivelam a todos, 
e coloca a todos sob a dependência da vontade exclusiva de Deus, o 
que é chamado de fé. 
• TERCEIRO, o lugar de Jesus Cristo como Agente da cura divina, 
plenamente consciente de que ele realiza o papel de Deus, fazendo que 
a sua boa vontade se cumpra em meio aos seus semelhantes. 
• QUARTO, a narrativa promove a superação de todas as 
barreiras, colocando novos critérios para o relacionamento com Deus, 
baseado na fé e livre recepção da sua boa vontade. 
Conclusão
É evidente que você poderá chegar a muitas outras conclusões. 
Porém, lembre-se que isto é provisório, e que é preciso continuar o 
diálogo, enquanto houver histórias, isto é, enquanto houver vida. Até 
a próxima, pessoal!
Hermenêutica120
Referências Bibliográficas
BRAVO Carlos G. Narración: El Espiritu toma la Palabra. In: Christus 51 
(1986) 73-83 
FIORIN José Luiz, SAVIOLI Francisco Platão. Para Entender o Texto. São 
Paulo: Ática, 2006 
MARGUERAT Daniel, BOURQUIN Yvan. Para ler as narrativas bíblicas. 
São Paulo: Loyola, 2009 
POWELL Mark Allan. What is Narrative Criticism? Minneapolis: Fortress 
Press, 1990 
REYES George. Esbozo historico de los acercamientos literários al texto 
bíblico. In: Kairos 24 (1999) 39-59 
121
Hermenêutica
Unidade - 16
Interpretando Narrativas de Milagres
 parte I
Introdução
Com base no conteúdo de nossas últimas três unidades, 
alguns estudiosos foram além e fizeram algumas junções de 
métodos ou acrescentaram alguns elementos aos métodos 
estabelecidos. Fruto desse trabalho apresento na unidade 
de hoje uma interessante metodologia de interpretação de 
narrativas de milagres, aplicada especialmente nos relatos 
de cura. Além disso, pretendo mostrar alguns pressupostos 
importantes para o estudo desse tipo de texto e a forma 
como algumas metodologias, já consagradas, encaram tais 
materiais. 
 
Objetivos
1. Apresentar alguns caminhos metodológicos para a 
interpretação de relatos de milagres no Novo Testamento. 
Hermenêutica122
Milagres1
 A característica fundamental de uma narrativa de milagre é 
revelar um sinal da presença atuante de Deus em favor da vida. Este 
sinal supõe, no ser humano, um olhar de fé para captar o significado 
daquilo que Deus está realizando. 
Por isso, diferente do que se imagina, um milagre não era escrito 
para produzir admiração com o sobrenatural nem ensinar que a ação 
sobrenatural do milagre é um fim em si mesma. A intenção do autor 
ao descrever um milagre na Bíblia não é provar a verdade da ação (é 
possível?), antes, pergunta: “O que Deus quer dizer com isso? Qual é 
a mensagem?” 
• Como ler os milagres?
 A resposta a essa pergunta exige de nós algumas considerações 
teológicas. Por exemplo, precisamos ter em mente que o inicio do 
ministério de Jesus marca um período especial da ação de Deus no 
mundo em pelo menos três perspectivas (entre tantas outras): 
1. - Suas palavras e suas ações re-orientam a vida;
2. - Uma nova humanidade e um mundo novo estão sendo 
criados/re-criados/inaugurados;
3. - Ele está antecipando na terra o que é realidade no céu: “se 
estabeleça na terra a tua vontade, assim como ela é no céu” (Mt 6, 10).
A partir dessas perspectivas podemos, então, perceber que: 
• Os milagres são sinais de uma realidade em construção. 
Lembram a ação criadora de Deus e apontam para a nova criação que 
Deus está formando na história e que se consumará na eternidade; 
• Os milagres são uma amostra da realidade futura, onde não 
haverá: doenças, fome, cegueira, natureza, morte, pecado, demônios, 
escravidão, desigualdade, discriminação, etc. Portanto, são sinais de 
esperança;
• A ação milagrosa de Jesus atinge o ser-humano integralmente. 
É um ataque direto a tudo que aflige a vida; 
1 Este tópico está baseado, principalmente, nos escritos de Carlos Mesters (ver Bibliografia).
123
Alguns Métodos de Interpretação
Entre os métodos apresentados (ou pelo menos citados) no 
decorrer da disciplina, dois deles nos chamam a atenção – Método 
Sociológico e Método Psicológico – quanto a sua aplicação nas 
narrativas de milagres, especialmente nos casos de possessão 
demoníaca: 
Sobre o Método Sociológico (ou interpretação sócio-literária) 
Vicente Artuso escreve2:
O milagre mostra a rejeição da dominação política. A 
simbologia das correntes, grilhões, algemas sugere o contexto 
de escravidão. A narração indica a luta de Jesus, “o mais forte 
para amarrar o homem forte” (Mc 3,27). Em Mc 1,23-28 o forte 
era os escribas com o peso da lei que escravizava, em Mc 5,1-20 
o forte se identifica com os exércitos de César. Gerd Theissen 
adota também essa posição “a opressão por um povo dirigente 
estrangeiro, às vezes aparece em código, como possessão por 
um espírito estrangeiro”. 
 Artuso resume ainda a percepção adotada pelo Método 
Psicológico (ou interpretação psicológica). Para esse método as 
questões sociais também estão em jogo:
 Segundo Franz Fanon (In Ched Myers: O Evangelho de São 
Marcos) a possessão dos demônios em sociedades tradicionais 
muitas vezes é reflexo de antagonismos de classe enraizados 
na exploração econômica. A possessão pode ser também 
uma forma socialmente aceitável de protesto indireto contra 
a opressão, ou mesmo fuga desta. A tensão entre seu ódio 
aos opressores e a necessidade de reprimir este ódio a fim de 
evitar recriminações dos opressores, leva o indivíduo a ficar 
louco. Ele se retirava a um mundo interior onde pudesse 
resistir à dominação romana. Nesse sentido o endemoninhado 
representa a ansiedade coletiva diante do imperialismo. Trata-
se segundo Franz Fanon de colonização da mente, em que a 
angústia da comunidade diante de sua subjugação é reprimida 
2Apostila não publicada (2009). Todas as considerações do autor estão baseadas em seus estudos 
aplicados ao texto de Marcos 5,1-21. 
Hermenêutica124
e depois se volta contra si mesma. Isso parece ser suposto no 
relato de Marcos quando diz que o homem emprega violência 
contra si mesmo.
Uma terceira perspectiva apresentada por Vicente Artuso é aquela 
adotada por René Girard que defende a ideia do endemoninhado 
como uma espécie de bode expiatório. Vejamos os argumentos:
Segundo René Girard o endemoninhado faz o papel de bode 
expiatório. A sociedade estabelecida precisa de vítimas e se 
justifica projetando sobre o endemoninhado todo o mal que 
faz. Portanto o exorcismo tem uma dimensão individual e 
alcance social. A libertação denuncia a sociedade que provoca 
a exclusão, e reintegra a pessoa que recupera a comunicação 
falando com clareza e testemunhando com coragem a libertação 
ao povo de sua terra (Gerasa).
Relatos de Cura
 Além dos métodos já consagrados, com vastos recursos 
bibliográficos – quando o assunto sãomilagres – alguns exegetas 
propõem algumas metodologias interessantes fruto da fusão entre 
suas próprias pesquisas e experimentos e os métodos normalmente 
utilizados. 
 Entre eles, apresentamos um método simples3, mas muito 
eficiente para quem está começando a desenvolver análises bíblicas. 
Perceba que boa parte das respostas, propostas por esse método, estão 
no próprio texto Bíblico e na análise de nossa própria realidade. Este 
método se divide em quatro passos e é muito utilizado nos relatos de 
cura, realizados por Jesus.
3 Método utilizado, entre outros, entre pelo biblista Vicente Artuso.
125
(1) 
Análise Literária
1-Cenas (divisão do texto);
2-Limitação da Perícope;
3-Verificar os personagens, o que dizem e o 
que fazem;
4-Ver os verbos, as ações;
5-Observar as palavras chaves: que mais se 
repetem; que são principais no enredo;
6-Temática
(2) 
Análise Histórico-
Contextual
1-De que forma a temática se desenvolve no 
contexto onde o texto foi produzido;
2-Quais os conflitos que aparecem no texto? 
3-Qual a situação das pessoas, como se 
relacionam? Há exclusão social?
4-Qual é a situação dos enfermos nos dias de 
Jesus;
(3) 
Análise Teológica
1-Qual é a imagem de Deus que aparece no 
texto?
2-Como aparece a dimensão da fé no texto? 
3-Ao lado de quem Jesus se coloca?
4-Como as pessoas reagem à prática de Jesus?
5-O que o autor quis transmitir com o relato?
(4)
Releitura
1-Quem são os excluídos de hoje? 
2-Estão buscando ajuda? 
3-Nota-se compaixão, solidariedade e 
aproximação para com os excluídos, doentes, 
“leprosos” da atualidade?
4- Como atualizar a prática de Jesus?
Hermenêutica126
Conclusão
Por hoje é só pessoal! Na próxima unidade, daremos sequencia 
ao tema e apresentarei esse pequeno método aplicado ao texto bíblico 
de Marcos 3,1-6. Até Breve!
Referências Bibliográficas
MESTERS, Carlos. Deus, onde estás? Uma introdução prática à Bíblia. 
Petrópolis: Vozes, 2003.
Anotações
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127
Hermenêutica
Unidade - 17
Interpretando Narrativas de Milagres
 parte II
Introdução
Na unidade de hoje, vamos tentar aplicar os passos 
do método apresentado na última unidade para narrativas 
de milagres (curas) no texto do Evangelho segundo Marcos 
3,1-6. Ainda que nem sempre seja possível, vou tentar 
ser o mais fiel aos passos do método para, assim, ajudá-
los na compreensão do mesmo. Acompanhe cada passo 
atentamente.
 
Objetivos
1. Obsevar a análise feita no texto bíblico do Evangelho 
segundo Marcos, 3,1-6 a partir do método sugerido na 
unidade anterior.
Hermenêutica128
Análise de Marcos 3: 1-6
Segundo o método apresentado na unidade anterior, devemos 
dividir nosso trabalho de análise em quatro partes. São elas: (1) Análise 
Literária; (2) Análise Histórico-Contextual; (3) Análise Teológica; (4) 
Releitura. Vejamos cada passo no texto bíblico sugerido.
1. Análise Literária
• O Texto1
1. De novo, entrou Jesus na sinagoga e estava ali um homem 
que tinha ressequida uma das mãos. 
2. E estavam observando a Jesus para ver se o curaria no sábado, 
a fim de o acusarem. 
3. E disse Jesus ao homem da mão ressequida: Vem para o meio!
4. Então, lhes perguntou: É lícito nos sábados fazer o bem ou 
fazer mal? Salvar a vida ou tirá-la? Mas eles ficaram em silêncio. 
5. Olhando-os ao redor, indignado e condoído com a dureza do 
seu coração, disse ao homem: Estende a mão. Estendeu-a, e a 
mão lhe foi restaurada. 
6. Retirando-se os fariseus, conspiravam logo com os 
herodianos, contra ele, em como lhe tirarem a vida. 
• Cenas (divisão do texto)
VERSÍCULO CENAS
1 Jesus entra em uma sinagoga e encontra um homem com a mão atrofiada;
2 Fariseus observam Jesus para ver se curaria no sábado, a fim de o acusarem;
1Bíblia Almeida: revista e atualizada.
129
3 Jesus convida o homem que tinha a mão atrofiada a levantar-se e ir em direção ao centro;
4
Jesus questiona aos presentes a respeito do sábado 
se é permitido:
Fazer o bem ou fazer o mal; Salvar a vida ou matar;
Todos se calam diante de seus questionamentos;
5
Atitudes de Jesus diante da reação dos fariseus:
Um olhar de indignação; Triste com a dureza de 
coração;
Atitudes de Jesus em direção ao enfermo: 
Convida-o a entender a sua mão;
Atitude do homem enfermo: Estende a mão;
Homem tem sua mão restaurada;
6 Fariseus se retiram, juntam-se aos herodianos para conspirar sobre como tirar a vida de Jesus.
• Delimitação da Perícope
O inicio e fim da perícope pode ser identificado e determinado 
por pelo menos dois critérios básicos, são eles: 
Local da Cena: O texto se inicia (v.1) com Jesus entrando na 
sinagoga e termina (v.6) com os fariseus se retirando da sinagoga. 
Conteúdo/Assunto/Fato: O assunto em foco no texto está 
claramente delimitado entre os versículos propostos. Marcos narra no 
inicio do episódio o encontro de Jesus com um homem com a mão 
ressequida, o qual seria em seguida curado por Jesus, e termina com 
a indignação e acusação dos religiosos contra Jesus por fazer isso em 
um sábado. Embora em perícopes anteriores o sábado seja também o 
assunto em questão, depois desse fato nosso autor muda totalmente 
de assunto.
Hermenêutica130
• Personagens e suas Ações 
Jesus
Descrição Ações
Nesse ponto da narrativa 
de Marcos Jesus já havia 
iniciado seu ministério com a 
proclamação e promoção do 
Reino de Deus, começando 
pela Galiléia. 
Seu discurso e prática 
traziam esperança para 
os que sofriam. Mas por 
outro lado, incômodo aos 
religiosos e poderosos que 
viam nele uma ameaça.
	Entra na sinagoga 
(encontra um homem enfermo);
	Convida o homem enfermo a se 
levantar2 e ir ao centro;
	Questiona os fariseus sobre fazer 
o bem e cuidar da vida no sábado;
	Olha para os fariseus com 
indignação;
	Entristece-se com a dureza de 
coração dos fariseus;
	Diz ao homem enfermo para 
estender sua mão (cura-o de sua 
enfermidade).
Homem Enfermo
De acordo com o testemunho 
de Jerônimo, o Evangelho dos 
Hebreus descreve esse homem 
como pedreiro3. 
Aproxima-se de Jesus e lhe diz: 
“Eu era pedreiro e ganhava meu 
pão com as minhas próprias mãos. 
Peço-te, Jesus, que me devolvas a 
saúde para que não seja obrigado 
a viver nesta vergonhosa situação 
de mendigo” 
	Estendeu a mão atendendo ao 
pedido de Jesus (v.5)
_______________________________________________
2Não aparece na versão utilizada (ARA), porém, consideramos importante esse detalhe o qual 
aparece em outras versões, como por exemplo, na bíblia de Jerusalém.
3SOARES, Sebastião A. G. Evangelho de Marcos: Vol. I: 1 a 8 - Refazer a Casa. Petrópolis: Vozes, 2002 
131
Fariseus
Responsáveis diretos 
pela interpretação 
da lei e fiscalização 
rigorosa quanto ao seu 
cumprimento. 
	Observam Jesus para ver se curaria 
no sábado, para o acusarem (v.2);
	Calam-se diante do questionamento 
de Jesus (v.4);
	Demonstram dureza de coração (v.5);
	Retiram-se da sinagoga e juntam-se 
aos herodianos para conspirar sobre 
como tirar a vida de Jesus (v.6).
Herodianos
Judeus políticos, zelosos pela 
causa de Herodes Antipas, 
tetrarca da Galiléia,e com 
influência junto a ele4.
	Juntam-se aos fariseus para 
conspirar sobre como tirar a 
vida de Jesus (v.6
• Palavras Chaves
Versículo 1: 
• “mão ressequida” = χείρα ξηραίνω
Termo popular usado na época para indicar deficiência: 
Mencionar a mão ressequida é indicar uma pessoa incapaz para o 
trabalho e naturalmente sem sustento e dignidade, considerando que 
o trabalho além de prover recursos para a sobrevivência é fonte de 
autonomia humana. 
Versículo 2: 
• “observar” para “acusar” = παρατηρέω - κατηγορέω
Os fariseus esperam que Jesus viole a lei para o acusarem e 
condená-lo. Em nossa perícope estão espionando-o para ver se curaria 
o homem enfermo no sábado, o que seria para eles o descumprimento 
da lei encontrada no código da aliança, onde curar era um dos trabalhos 
médicos proibidos no sábado.
_______________________________________________
 4Bíblia de Jerusalém. Notas de rodapé, pg. 1763.
Hermenêutica132
 Versículo 3: 
• Vem para o “meio” = μέσος
O homem que até então é deixado de lado por conta de sua 
enfermidade, e o que isso significava para os religiosos, agora é 
convidado a ser o centro das atenções. “Que todos vejam seu sofrimento, 
mas também vejam o bem que Deus tem pronto para os seus seres 
humanos, especificamente levando o sábado em consideração”.5
Versículo 4: 
• “é permitido” = ἔξεστι
Jesus levanta uma questão jurídica na tentativa de trazer luz ao 
coração dos fariseus quanto ao verdadeiro significado da lei. Seus 
argumentos giram em torno de um vocabulário bem próprio ao tema 
da Aliança6: fazer o bem ou fazer o mal, salvar a vida ou matar. 
• Ficaram em “silêncio” = εσιωπων
A palavra silêncio nesse caso indica falta de argumento. Porém, 
indica também falta de reação e resposta positiva ao que se está 
ouvindo. Nesse caso, podemos entender como sinônimo de “dureza 
de coração” (πωρωσει) que aparece no versículo seguinte (v.5). 
Versículo 5: 
• “indignação” e “tristeza” = οργης - συλλυπουμενος
Jesus reage ao silêncio/dureza de coração com indignação e 
tristeza. Nesse caso vale perceber que entre outras possibilidades, 
Marcos está destacando os sentimentos humanos de Jesus. 
• Indignação: “é palavra típica para falar de julgamento de Deus 
diante do pecado humano, atitude que motiva o julgamento e o castigo 
escatológico”.7 
• Tristeza: Deve nos trazer a idéia de alguém profundamente 
condoído (mesmo termo usado na narrativa do Getsêmani). 
Provavelmente com a dureza de coração dos fariseus, mas também 
com a dor do homem enfermo e sem socorro de seus semelhantes, 
algo que fere o projeto original de Yahweh. 
_______________
5ADOLF, Pohl. Evangelho de Marcos: comentário esperança. Curitiba: Esperança, 1997 (p.80)
6Deuteronômio: 5,33|6,24|8,1. 19|10,13|11,8-9.17.26-28|30,15-20. 
 7SOARES, Sebastião A. G. Evangelho de Marcos: Vol. I: 1 a 8 - Refazer a Casa. Petrópolis: Vozes, 2002 (p. 153).
133
• Mão foi “restaurada” = απεκατεσταθη
A palavra “restaurada”, nesse contexto, indica o poder recriador 
de Cristo. “A mão seca restaurada é assim, sinal eloquente de que 
a missão de Jesus é restaurar todas as coisas, tarefa escatológica de 
refazer a obra de Deus”.8
Temática
A palavra que mais aparece no texto, determinando a temática 
principal da trama narrada por Marcos é o “sábado” – σάββατον. O 
sábado é considerado sagrado para os fariseus que baseiam sua crença a 
partir daquilo que interpretam do código da aliança que, segundo eles, 
prevê abstenção de qualquer atividade. No texto encontramos Jesus, 
não se rebelando contra a lei, mas tentando lhes ensinar a verdadeira 
função do sábado para as práticas da vida. 
2. Análise Histórico-Contextual
O Sábado
Nossa perícope apresenta um grupo de fariseus tentando acusar 
Jesus. Para isso, estão usando de um artifício jurídico: lei judaica a 
respeito do sábado. Segundo essa lei, o shabbat é dom de Deus e distingue 
Israel dos outros povos. É um dia de repouso completo, celebração 
e deve ser santificado, conforme apresenta o decálogo e o código 
da aliança. O problema não estava na lei, mas em sua interpretação 
equivocada, abusiva e escravizante. Por tudo isso, incompatível com 
sua função e razão de ser. “O sábado foi instituído por causa do ser 
humano e não o ser humano por causa do sábado” – Mc 2, 27.
Além disso, baseavam-se na tradição oral, mais precisamente 
na halakhah (conjunto de leis da religião judaica, incluindo os 613 
mandamentos que constam na Torá e os posteriores mandamentos 
rabínicos e talmúdicos relacionados aos costumes e tradições, servindo 
como guia do modo de viver judaico9) que apresentava um sistema 
minucioso sobre as ações proibidas no sábado. Existia uma única 
_______________ 
8Ibidem (p. 154)
9http://pt.wikipedia.org/wiki/Halakhah
Hermenêutica134
exceção que dispensava o dever de se observar a halakhah sabática: o 
perigo de vida.
Jesus entra em conflito contra os fariseus e abertamente se 
posiciona contra os equívocos interpretativos e principalmente contra 
os acréscimos posteriores da halakhah rabínica a cerca do shabbat 
a qual rejeita veementemente. Ele discursou a esse respeito, mas 
também agiu na tentativa de ensinar as pessoas sobre o verdadeiro 
sentido da lei. Em nossa perícope, por exemplo, fez ambas as coisas. 
Primeiro faz um discurso e depois age curando o homem enfermo. 
Sua posição não é de rebeldia ou por uma causa barata, o sábado é 
projeto amoroso de Deus para o beneficio da vida e restauração da 
integralidade da vida humana. “O motivo decisivo e cabal para Jesus 
rejeitar a halakhah sabática está em Mc 3.4: ela é um empecilho ao 
cumprimento do mandamento do amor”.10 
Os Enfermos
O Reino de Deus se manifesta por meio do ministério terreno de 
Jesus e pode ser visto quando Ele toca os enfermos devolvendo-lhes a 
saúde, a dignidade e os reintegrando a sociedade, já que essa, através 
de suas estruturas, os exclui-a. Ou seja, além de conviver com suas 
dores, os enfermos tinham de suportar o sofrimento da discriminação 
social e religiosa. 
Pensando em discriminação social para com os enfermos, 
destacamos que, um de seus fatores chave se encontra nas questões 
econômicas. Muitos desses enfermos estavam incapacitados de 
trabalhar e, consequentemente, sem sustento, experimentavam 
também a dor da miséria. Pela falta de recursos financeiros, não tinham 
assistência médica e condições para um tratamento: “Infelizmente 
para os enfermos da Galiléia, os médicos não estavam ao alcance de 
suas possibilidades: viviam longe das aldeias e seus honorários eram 
demasiado elevados”.112
No âmbito religioso, os enfermos além de enfrentarem 
discriminação carregavam em seus ombros o peso da culpa devido à 
10 JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008 (p. 308).
11PAGOLA, José Antonio. Jesus: Aproximação História. Petrópolis: Vozes, 2010. (p. 197).
135
mentalidade da época, como nos explica Pagola: “Deus está na origem 
da saúde e da enfermidade. Ele dispõe de tudo como senhor da vida e 
da morte. Por isso os israelitas entendem que uma vida sadia e vigorosa 
é uma vida abençoada; uma vida enferma, aleijada ou mutilada é uma 
maldição”.123 
Como vimos, a enfermidade trazia em si a conotação de castigo 
divino. Logo, o doente trazia, além das dores físicas, da vergonha, 
da humilhação e da miséria, a dor de uma consciência perturbada. 
Eles também não eram bem vindos no templo, onde mais uma vez o 
fator econômico entra em cena. Já que não trabalhavam não possuíam 
recursos financeiros para os sacrifícios. Como a mentalidade da época 
enxergava o templo como lugar da morada divina, o enfermo se sentia 
longe de Deus. 
3. Análise Teológica
 Conforme observamos no decorrer de nossa análise contextual, 
estamos diante de estruturas configuradas de forma a comprometer o 
projeto de Deus para a vida dos seres humanos.
1. Estrutura da Lei: se coloca acima da necessidade humana 
(enfermidade, por exemplo) e não a favor dela, escraviza, oprime e 
o sábado se torna empecilho à manifestação do amor, davida e da 
salvação. 
2. Estrutura Religiosa: exclui e discrimina o enfermo trazendo 
culpa em vez de libertação e alivio. 
3. Estrutura Social: rouba a dignidade de quem está enfermo, 
classifica-os a partir de suas capacidades e posses e não cria subsídios 
para atendê-los, deixando-os a margem. 
As respostas de Jesus frente a essas estruturas denunciam 
o desencontro entre o que está em vigor e o projeto de Deus. Jesus 
se posiciona ao lado da lei enquanto ela se presta em favor do ser-
humano, do bem e da vida. A sua leitura da lei é de algo que trabalha 
em favor da necessidade humana, como era o caso do enfermo curado 
no sábado. Cristo entende e ensina que o sábado foi feito para o ser 
12Ibidem. (p. 194).
Hermenêutica136
humano e não o ser humano para o sábado (Mc 2,27).
Ou seja, O sábado deveria ser justamente a celebração e o 
momento da prática do cuidado com aqueles que estão à margem, 
vitimas de estruturas pecaminosas. Deveria ser o momento de 
proclamar e promover o bem e a vida em contextos de maldade e 
morte. A cura é o gesto da vida. O sábado – dia do senhor – é o palco 
da manifestação da criação de uma nova humanidade que recupera 
seu estado físico, mas também a possibilidade de re-integração. A lei 
existe para a defesa do bem e da vida e não para constrangê-la. 
Para Cristo, as leis e instituições sociais, por mais sagradas, têm 
de estar a serviço das necessidades reais dos mais precisados. 
(...) E se na verdade o sistema já não se sente mais interpelado 
pelas exigências dos homens reais, torna-se sistema de morte e 
a lei se degrada à função de aparelho ideológico de legitimação 
da injustiça.134
Essa é a face de Deus que Marcos deseja revelar. Um Deus que 
se encarna, toma forma humana se sensibiliza e solidariza-se com 
aquele que sofre demonstrando opção preferencial por eles. Um Deus 
que não compactua com a injustiça e com estruturas que aprisionam 
e contribuem para o surgimento de classes menos favorecidas e 
muito menos com a forma como essas classes sofrem discriminação, 
exclusão e são colocadas à margem sem oportunidade e acesso aos 
meios comuns de assistência. Um Deus que propõe leis que sirvam 
de auxilio ao bem, a vida como prioridade e a necessidade humana de 
encontro com a possibilidade de uma caminhada digna. 
Marcos não narra à reação do homem curado, nem menciona a 
atitude dos outros presentes diante do discurso e cura de Jesus. Mas 
faz questão de mencionar a reação dos fariseus. Dispostos a espionar 
e incriminar Jesus, se calam diante de seu discurso e planejam sua 
morte em respostas a atitude de Jesus em favor da vida. Ironicamente 
transgredindo suas próprias leis a respeito do sábado. 
13SOARES, Sebastião A. G. Evangelho de Marcos: Vol. I: 1 a 8 - Refazer a Casa. Petrópolis: Vozes, 2002 
(p.150).
137
Releitura
Um olhar para nossa pericope rapidamente nos leva a repensar 
nossas próprias estruturas, na América Latina, no século 21. A 
maneira de atuação do sistema sócio-político tende a fazer vitimas 
e depois descartá-las deixando-as à margem, sem oportunidades e 
acesso a condições mínimas para uma vida digna. Nossas igrejas e suas 
estruturas institucionalizadas criam suas próprias leis e interpretações, 
as dogmatizam e as colocam acima da lei do amor, comprometendo a 
vida e deixando marcas negativas na vida das pessoas. 
Nesse contexto, o evangelho fica sufocado e sua leitura valoriza 
apenas as experiências místicas da fé desconectadas da história 
e da realidade que clama por cura e restauração. Assumir esse tipo 
de postura é compactuar com a lei pela lei, é se tornar legalista. É 
conformar-se com esse século de maldade onde as estruturas são 
mais importantes do que as pessoas. É correr o risco de assumir 
uma espiritualidade ritualista, alienada e descomprometida com a 
sociedade e suas disfunções. 
Olhar honestamente para a abrangência e integralidade da 
mensagem de Jesus no texto é encontrar fundamento sólido para 
a construção de relações humanas sadias e para a construção de 
estruturas que, livres do pecado, celebram a igualdade a justiça, o 
amor e a vida. 
Hermenêutica138
Conclusão
 Por hoje é só pessoal! Espero que esse pequeno exercício 
estimule cada um de vocês e os auxilie em suas pesquisas bíblicas 
futuras. Na próxima unidade, a última do curso, vamos falar sobre 
releitura e pregação. Até Breve!
Referências Bibliográficas
ADOLF, Pohl. Evangelho de Marcos: comentário esperança. Curitiba: 
Esperança, 1997.
BÍBLIA Almeida: revista e atualizada 2 ed. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do 
Brasil, 1999.
JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008.
PAGOLA, José Antonio. Jesus: Aproximação História. Petrópolis: Vozes, 
2010.
SOARES, Sebastião A. G. Evangelho de Marcos: Vol. I: 1 a 8 - Refazer a 
Casa. Petrópolis: Vozes, 2002.
139
Hermenêutica
Unidade - 18
Hermenêutica e Comunicação
William Lacy Lane / Flávio Henrique
Introdução
Na unidade de hoje, a última da disciplina, vamos 
pensar um pouco na aplicação de um texto bíblico analisado 
e alguns conceitos fundamentais para a comunicação do 
mesmo aos seus ouvintes. É bom lembrar que um dos 
objetivos de um estudioso/intéprete da Bíblia é expô-la 
de um modo claro e organizado para que o ouvinte possa 
compreender com certa facilidade. Portanto, a exposição 
bíblica requer um estudo cuidadoso do texto e, ao mesmo 
tempo, uma boa habilidade na hora de comunicar os 
resultados de seus estudos. 
 É possível que algumas ideias reapareçam 
ao longo da unidade. Isso é importante, e nos servirá para 
a retomada de alguns conceitos, exatamente como uma 
espécie de revisão e maior assimilação dos mesmos. Bons 
estudos!
Objetivos
1. Propor algumas considerações a respeito da relação 
entre interpretação e comunicação das escrituras.
Hermenêutica140
Interpretação e comunicação
Um dos alvos principais da hermenêutica é a exposição bíblica 
diante da comunidade. A comunidade contemporânea do povo de 
Deus se interessa no que o texto bíblico significa hoje. O pregador não 
pode perder de vista que o texto bíblico precisa fazer sentido para seus 
ouvintes. Isto não significa, contudo, que a hermenêutica está sujeita 
ao sentido que a comunidade queira dar. Essa, aliás, é uma grande 
discussão e tem profundas implicações para a hermenêutica bíblica.1 
Entretanto, desde que a exposição bíblica esteja controlada por uma 
boa análise, as chances de lermos o que queremos que o texto nos diga 
é minimizada.2
A exposição, então, será a apresentação e principalmente a 
atualização (releitura) dos resultados do estudo do texto bíblico de 
uma maneira compreensível à realidade do ouvinte de modo também 
a contribuir para o seu fortalecimento e crescimento.
1. Alguns cuidados com o Texto
 Sermões temáticos tem sido maioria na igreja brasileira. 
O pregador escolhe um tema que considera importante para sua 
comunidade de fé e resolve trabalhar com ele. Ótimo! Mas aqui cabem 
alguns cuidados, principalmente no que diz respeito ao texto bíblico. 
Não é difícil encontrar pregadores forçando o texto a dizer o que ele 
não se propõe a dizer. No anseio por dar sentido ao tema escolhido, 
abusos bíblicos são comumente cometidos. Isso não significa que um 
tema não possa orientar o estudo do texto bíblico de modo a chegar-se 
a uma exposição sobre o assunto, mas forçar o texto e tentar adaptá-lo 
ao tema não é o caminho. 
 Para ilustrar esta questão, digamos que queiramos falar sobre 
o tema: “santidade” na Bíblia. Para tanto, não basta pegarmos uma 
concordância e tomar todos os textos onde a palavra santidade ocorre. 
Naturalmente, essa palavra ocorrerá em situações em que o tema não 
aponta para a temática em si. 
1Kaiser, 1981, p.17.
2Fee & Stuart, 1984, p.25.
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Alguns estudiosos entendem que todo tema, ainda que 
contemporâneo, encontra sua resposta no texto, sem, é claro, 
desconsiderar seus contextos. Outros entendem que alguns temas 
não estão claramente na Bíblia, mas que, ao tratá-los, devemos estar 
sensíveis ao espíritodas escrituras. Dessa forma, encontraremos 
subsídios suficientes para que o texto lance luz ao tema. Enfim, trata-
se de uma discussão longa e outras possibilidades de pensamento 
existem nessa relação tema x texto. 
 Quando o assunto é a estrutura de uma comunicação bíblica, 
alguns estudiosos, como John Stott, por exemplo – em um de seus 
livros sobre pregação (Between Two Worlds) – entendem que a 
primeira regra para se obter um esboço de sermão é deixar que o texto 
mesmo forneça um esboço (1982, p.229). Ideia bem interessante. 
2. O Sentido do Texto
Um dos trabalhos fundamentais da hermenêutico/exegese é falar 
de significados. A tarefa da exegese é resgatar significados originais 
do texto para se extrair sua mensagem. Em outras palavras, para que 
saibamos o que o texto significa, é preciso (primeiro) perguntar o 
que o texto significou para o autor. Estas são duas perguntas básicas, 
mas necessárias no estudo de qualquer texto. Há um princípio 
hermenêutico que afirma que o texto não significa aquilo que nunca 
significou. Seu significado para hoje precisa refletir o que significou 
para o leitor original. 
Cada vez que o leitor da Bíblia faz uma pergunta do tipo, o que 
significa essa palavra? Ou qual o sentido de tal costume para a época 
do autor? Está fazendo perguntas exegéticas. A exegese pretende, 
então, resgatar o significado do texto a partir de seu autor e transpô-lo 
para os dias de hoje. Nesse aspecto, a pregação/comunicação assume 
esses conteúdos e tenta construir seu significado para a comunidade 
do povo de Deus, hoje. Esse trabalho é conhecido como releitura ou 
atualização da mensagem. 
A partir disso, quando estamos diante de um texto bíblico, 
podemos fazer várias perguntas ao mesmo. Sejam quais forem as 
perguntas, a preocupação principal é extrair sentido daquelas palavras. 
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De modo mais específico, podemos dizer que o leitor da Bíblia tem 
uma preocupação mais direta que é a compreensão daquilo que Deus 
está falando. Para respondermos essa pergunta, podemos e devemos 
fazer outras. Contudo, devemos nos lembrar de que a resposta estará 
de acordo com a pergunta que fizermos. Portanto, costumo dizer que 
a hermenêutica é a arte de saber fazer as perguntas certas ao texto 
bíblico.3
3. Trabalhando com o Texto
• Aspectos Literários
Deve-se ter em mente que o texto tem um sentido no seu todo 
e precisa ser respeitado como tal. Por mais que queiramos expor um 
versículo apenas, precisamos estar cientes do contexto literário em que 
se situa. O ponto de partida é reconhecer que a Bíblia não foi escrita 
em versículos e capítulos. Temos a tendência de lembrar e memorizar 
versículos, que tem sua grande utilidade, contudo, no preparo e 
exposição de sermões não podemos nos esquecer de que o versículo 
pertence a um parágrafo e uma unidade literária maior. Cartas foram 
escritas como cartas, com saudações iniciais, conteúdo e saudações 
finais. Salmos são coleções de hinos que tem um sentido em seu todo. 
Profecias contêm oráculos que vão além dos limites de um versículo. 
Um passo inicial é termos em mente que o texto com o qual 
estamos trabalhando tem sua unidade e estrutura. A própria palavra 
texto vem do latim textus que significa “tecido, textura”. Todo texto, 
portanto, é um tecido de ideia que fazem sentido no seu todo. Não 
podemos perder isso de vista. O texto em si já é uma costura cujas ideias 
e palavras não podem ser simplesmente cortadas de seu contexto. É 
comum ouvirmos exposições sobre o significado de uma palavra no 
grego ou no hebraico em que se explora sua etimologia e semântica, 
deixando de lado seu significado dentro do texto em estudo.
Em termos práticos, quando procuramos um texto para reflexão 
precisamos analisar qual é o seu começo e o seu fim. As edições da 
3G. Fee e D. Stuart de modo semelhante diz que a chave para uma boa exegese é uma leitura cuidadosa 
do texto e fazer as perguntas certas ao texto (1984, p.22).
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Bíblia, frequentemente dividem grupos de versículos sob temas. 
Embora os editores tenham sido criteriosos na divisão dessas seções 
e tais divisões ajudem o leitor, é importante lembrar que elas não são 
divisões absolutas. Ou seja, às vezes, o editor dividiu o texto onde não 
deveria e propôs um tema questionável para aquela passagem bíblica 
(perícope).
• Aspectos Semânticos
O estudo semântico trata do significado das palavras. Para 
isso, é sempre importante recorrer aos originais. Muitos pregadores, 
infelizmente, já abandonaram o costume de consultar o hebraico e o 
grego, entretanto, há de se reconhecer os benefícios de se familiarizar 
mais com os originais. 
Hoje, maior número de ferramentas tem sido disponibilizadas 
para o pregador especializado e leigo de modo a facilitar a consulta aos 
originais. Mas independentemente do acesso aos originais, o pregador 
deve estar pronto para explicar termos não muito claros.
Podemos falar do estudo semântico em dois níveis. Um nível 
é o estudo de palavras em si, tecnicamente chamado de lexicografia. 
O outro é o nível do significado da palavra em seu contexto, daí, se 
discute o campo semântico. Em outras palavras, um trata do significado 
conforme dicionários e léxicos, o outro, conforme o texto apresenta.
 
• Aspectos Históricos
A análise histórica envolve percorrer o mundo “por trás” do texto. 
Frequentemente, para entendermos a mensagem do texto, precisamos 
conhecer o contexto histórico-social em que foi escrito. A organização 
dos livros bíblicos nos dá a falsa impressão de que estejam em uma 
ordem cronológica dos acontecimentos bíblicos. Existem de fato 
alguns livros que descrevem eventos sequenciais como, por exemplo, 
o Pentateuco, os livros históricos. Mas, naturalmente, o contexto 
histórico do livro não é o evento à que se reporta. Os livros foram 
escritos depois dos acontecimentos narrados neles. A análise histórica 
pretende situar o autor e sua obra no eixo da história bíblica. 
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Conclusão
Pois bem, chegamos ao final de nossa disciplina. Veja bem, ao 
final da disciplina e não ao esgotamento do tema – estamos longe 
disso. O estudo hermenêutico exige tempo e dedicação. Portanto, 
o objetivo central de nossos estudos foi apenas introduzi-los a esse 
fascinante universo e principalmente desafiá-los a refletir sobres suas 
práticas interpretativas da Bíblia. Espero que você se aprofunde nos 
temas aqui desenvolvidos, veja outros que não conseguimos abordar, 
e principalmente reconsidere o uso que fará das escrituras em seus 
estudos e também na forma de comunicá-la. Até a próxima! 
Referências Bibligráficas
FEE, G. & STUART, D. Entendes o que Lês?. Trad. Gordon Chown. S. 
Paulo: Edições Vida Nova, 1984.
KAISER, W. C., Jr. Toward an Exegetical Theology. Grand Rapids: Baker 
Book House, 1981.
STOTT, J. R. W. Between Two Worlds. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1982.

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